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sexta-feira, 15 de junho de 2012

História de cangaceiros


Vicente Lucas se preparava para descarregar a mercadoria dos jumentos em frente ao armazém. A mulher, Josepha, em estado adiantado de gravidez, viu ao longe uma tropa de homens fortemente armados, que se aproximavam.

- Olha, Vicente, quanto soldado!
- Larga de ser tola, Zefinha! – disse o marido. – O que é que os soldados vinham fazer num fim de mundo desses?

Mas era Lampião e seu bando. Cangaceiros e volante em nada se distinguiam uns dos outros, nem nas roupas, nem nos armamentos e muito menos na ferocidade. E de repente estavam todos dentro da casa de comércio, de onde passaram à residência, contígua ao armazém. Com a coronha dos rifles arrombavam portas, quebravam tudo, procurando dinheiro e jóias.

A mulher gritava enquanto o marido era espancado pelos cangaceiros para revelar o esconderijo dos bens. No oratório, dentro de uma lata vazia de doce, os trancelins e anéis de Josepha foram logo encontrados. Os bandidos queriam mais e continuaram o espancamento.

Vendo o marido mergulhado numa poça de sangue, ainda apanhando, Josepha só pensava nos filhos pequenos que, à aproximação do bando, haviam fugido pelos fundos da casa mergulhando nos matos, onde o menino Gerson, de poucos anos, só não morreu de sede porque foi alimentado pelos irmãos com água de raiz de umbuzeiro.

Depois de depredarem tudo, com Vicente já morto, um dos cangaceiros atirou em Josepha, que lhe pedia pelo amor de Deus que tivesse pena dela, que pensasse na criança que estava para nascer.

- Bandida! Cachorra! – vociferou o animal, disparando-lhe um tiro de rifle.

Errou o tiro. A bala alojou-se no bauzinho de couro onde estava guardado o enxoval da pequena Angelita, nascida meses depois, e falecida ainda muito novinha.

Entre risadas, com os embornais repletos do saque, os bandidos se prepararam para deixar o local. Um menino adotivo, cria da casa, foi amarrado à cauda da montaria de um deles por uma peça de tecido retirada do armazém e arrastado por algumas centenas de metros onde foi deixado, semimorto, à beira da estrada.

Tudo isso se passou em 1924, aqui neste Agreste pernambucano, e me foi contado hoje por Didi, minha prima, neta de Josepha e de Vicente. Páginas do passado, heróicas, tristes, e verdadeiras.

Cangaço

Cangaceiros Barra Nova, Juriti, Neném e Sabonete. Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Da esquerda para direita:
Barra Nova, Juriti, Neném e Sabonete

Grupo de cangaceiros, muitos não identificados. Atrás, da direita para a esquerda, pode-se ver Manoel Moreno, Canário, Maria Adília de Jesus e José Sereno. Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Atrás - da direita para a esquerda:
Mané Moreno, Canário, Adília, Zé Sereno e Sila

Cangaceiros Barra Nova, Neném, Juriti e Gorgulho. Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Da esquerda para direita
Barra Nova, Neném, Juriti e Gorgulho

Cangaceiros não identificados. Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
Da esquerda para direita
Pancada, Maria e cangaceiro não identificado

Fotos de cangaceiros que foram cedidas pela Diretoria de Documentação (Didoc) da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). O material da coleção Cangaço foi doado ao acervo da Fundaj pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello.  As imagens são do fotógrafo palestino Benjamim Abrahão Botto, com o apoio da ABA Films – Ceará, e datam de 1936, quando foram tiradas em Alagoas, no município de Pão de Açúcar.

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Lampião em Limoeiro

Por: Aderbal Nogueira
Aderbal Nogueira, desbravador das Caatingas...

Segue uma entrevista raríssima feita com Custódio Saraiva, que era juiz municipal em Limoeiro do Norte quando da entrada de Lampião em sua cidade. Meu grande amigo Luciano Klein me presenteou com essa rara entrevista, alguns devem conhecê-la mas para muitos deve ser uma novidade. A história não tem dono, portanto deve ser compartilhada. Nas duas postagens abaixo os dois trechos da entrevista.

Aderbal Nogueira
Sócio da SBEC - Diretor do GECC
Conselheiro Cariri Cangaço


Entrevista com Custódio - Lampião em Limoeiro Parte II

 

htttp://Cariricangaco.blogspot.com

O monarca selvagem dos sertões


“Não sou cangaceiro por maldade minha, mas pela maldade dos outros”

[lampíão.jpg]

Disse Lampião quando foi entrevistado pelo jornalista José Alves Feitosa do Jornal “A NOITE”, de Recife-PE. Essa entrevista foi publicada pelo Jornal Cearense “O POVO”, no dia 04 de junho de 1928. Lá se vão 80 anos.
Claro que eu não poderia deixar esse fato histórico passar desapercebido aqui no Cultura Nordestina, então, fiz questão de reproduzir fielmente essa relíquia para vocês!

Vale à pena ressaltar na entrevista, o estilo do português da época e o modo de vida do cangaceiro mais famoso de todos os tempos. Confira o arquivo original que foi publicado no Jornal O POVO. Episódios romanescos da vida do quadrilheiro famoso
 

A reportagem de profunda sensação, que hoje inserimos, vai proporcionar aos leitores do Jornal A NOITE a oportunidade de ouvir a palavra de um quadrilheiro famoso, terror das polícias e flagelo das populações sertanejas.

Os dados e as informações sobre que escrevemos nesta reportagem, foram colhidos do próprio Lampião pelo senhor José Alves Feitosa, que há semanas, no alto sertão, com ele conversou demoradamente.

Oferecendo à A NOITE essas notas interessantíssimas, o Sr. Feitosa, ofertando-las, nós, aos nossos gentilíssimos leitores, a quem não queremos mais poupar o prazer curioso de sentir um bocado da psicologia pitoresca e da vida romanesca do jaguar terrível dos sertões.

No pé da serra.

Caia sobre o crepúsculo sobre o escampado árido e esbrazeado daquele recanto sertanejo do estado do Ceará, ao pé da serra do Araripe: o engenho de rapadura Boa-Vista, a cinco léguas da cidade de Missão Velha, quando o Sr. José Alves Feitosa ali chegou.

Um crepúsculo doloroso, sertanejo, manchando a paisagem de sombras e difundindo uma melancolia por tudo... Gentis e acolhedores, os senhores de engenho o receberam, prodigolisando-lhe o conforto de uma hospedagem, onde ele repousaria de uma viagem exaustiva.

Ali foi que se aproximou de Lampião. Este assomara, à porta, desarmado, fitando o recém-chegado, que o interpelou logo:

José Alves Feitosa - É o Capitão Virgulino Ferreira?
Lampião - As suas ordens.   


José Alves Feitosa - Já o conhecia através de fotografias.
Lampião - Há! Foram esses retratos, de que o Sr. fala, que me inutilizaram. Se não tivesse deixado fotografar-me, seria desconhecido e já poderia ter desaparecido, sumindo-me no mundo, indo-me para longe, ganhar a vida tranquilamente, sem atribulação dessa angústia constante de ser perseguido... 

José Alves Feitosa - E o senhor é perseguido? Dizem na capital que a polícia...
Lampião - ... Não persegue porque sou amigo dos oficiais. É verdade, mas ainda assim, as traições, o Sr. compreende. No ano passado, 


Isaias Arruda, meu grande amigo, político cearense, surpreendeu-me numa localidade deste estado com um cerco policial terrível, de que me livrei não sei como. Estas causas são o que magoam... Uma traição, o diabo! Gosto dos oficiais e odeio os chefes de polícia. Não é verdade que eu haja emboscado, para matar ao Dr. Eurico de Souza Leão. Ignorava que esse chefe de polícia viajava, naquele tempo, pelo sertão. Se soubesse, com franqueza eu teria aventurado...

José Alves Feitosa - Como foi assassinado o seu irmão? 
 Lampião - É invenção, ele não foi morto. Está são, vivo e bolindo. Aquilo foi brincadeira só pra atrapalhar.
 

José Alves Feitosa - E Sabino? 
Lampião - A mesma coisa. Está vivo no Riacho do Navio, á frente de alguns homens. Vou encontrar-me agora com ele.
 

José Alves Feitosa - Disse-me a pouco que se pudesse abandonaria o cangaço... 
Lampião - Sim, porque eu não vivo a vida do cangaço por maldade minha. É pela maldade dos outros, dos homens que não tem a coragem de lutar corpo a corpo como eu e vão matando a gente na sombra, nas tocaias covardes. Tenho que vingar a morte dos meus pais. Era meninote quando os mataram. Bebi o sangue que jorrava do peito de minha mãe e, beijando-lhe a boca fria e morta, jurei vingá-la. É por isso que de rifle às costas, cruzando as estradas do sertão, deixo um rastro sangrento na procura dos assassinos de meus pais. Não ficou no assassinato de meu pai e de minha mãe, a maldade dos homens, a quem deve a sociedade responsabilizar pelos seus crimes. Os meus inimigos, que não tem coragem de matar-me, assassinaram cruelmente os meus parentes, como há pouco mataram uma tia minha e duas irmãs. É por isso que sou cangaceiro. Não sei quando hei de deixar os horrores desta vida, onde o maior encanto, a maior beleza seria extinguir a maldade daqueles que roubaram a vida de minha mãe, de meu pai e de minhas irmãs. 

Dizendo isso Lampião afastou-se tomando o chapéu. Despediu-se de nosso informante. À porta, um seu companheiro o arreou, isto é, entregou-lhe as cartucheiras e o mosquetão, um fuzil Mauser cortado na extremidade do cano.

Apertando as mãos hospitaleiras de Rosendo, o dono da rústica engenhoca, o monarca sanguinolento dos sertões, tomou as estradas poeirentas para as incertezas de seu destino.

Diante da narrativa de Lampião cheia de episódios romanescos e impressionantes como aquele em que há a cena comovente e soberba do juramento sobre a boca morta de uma mãe, quem ousará atirar a primeira pedra sobre o quadrilheiro imortalizado nas crônicas sangrentas do sertão?
A vida...

Nosso tempo no tempo (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa 
Rangel Alves da Costa

Nosso tempo no tempo


Grãos que somos
na poeira que estamos
folhas soltas ao vento
uma viagem pela vida
passeio com despedida
e o que somos agora
senão visitantes sem demora
nessa casa imensa
com a porta já aberta
estrada curta e incerta

somos apenas esse grão
sementes com coração
ou apenas dois seres
vivendo imersos na ilusão
que tudo é eternidade
sempre um dia e uma tarde
sempre uma lua na noite
em tudo a maior liberdade
sem pensarmos no açoite

dê-me as mãos meu amor
dê-me os olhos e a boca
dê-me tudo que guardarei
no meu corpo que já não é
senão você em minha vida
e sei o quanto zela por mim
no meu ser que está em ti
somente assim sobreviveremos
confundindo a hora marcada
quando tivermos que seguir
nesses adeuses de estrada.


Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Enquanto não vem cangaço - Paul McCartney "Get Back/Sgt.Pepper(Reprise)/The End" Live

REVENDO OS ANOS DE OURO 


Um dos maiores astros da música do nosso mundo, Paul McCartney - Ex-Beatles

Beatles atravessando rua


Enviado pelo poeta, escritor, pesquisador do cangaço e sócio da SBEC:
Kydelmir Dantas

Novo Livro na praça

Por: Rômulo José Francisco de Oliveira Júnior

Antônio Silvino - de Governador Dos Sertões a Governador da Detenção

Este livro apresenta a trajetória do cangaceiro Antonio Silvino e conta as várias versões que foram construídas pelos jornais, pelos folhetos de cordel e por fontes judiciais sobre as ações, a vida, o nome e o corpo de Silvino, desde quando esse chefiava um bando de cangaceiros em suas correrias, façanhas, venturas e desventuras por alguns estados da região Nordeste até quando foi ferido e preso passando a viver uma longa permanência de vinte e três anos num cárcere recifense, só saindo de lá indultado pelo presidente Getúlio Vargas, que pretendeu com o gesto simbolizar o fim do cangaço terminando seus dias na mais obscura miséria na cidade de Campina Grande.

Por R$ 30,00 nas
Livrarias Siciliano

lampiaoaceso.blogspot.com


Museu do Cangaço- Cantinho da Lilí


Para os apaixonados pelas histórias do cangaço, estando de passagem por Belo Horizonte, não deixem de visitar o Museu do Cangaço- Cantinho da Lilí.
O Museu mostra um riquíssimo acervo fotográfico sobre os cangaceiros Moreno e Durvinha (pais da Neli).
Além das fotografias podemos encontrar livros, jornais, revistas e vários  pertences usados no dia a dia dos ex-cangaceiros.
é o mais completo arquivo fotográfico sobre a vida desse casal que tantas histórias deixou.

Na foto: Neli (Lilí), João de Sousa Lima e João Souto (também filho de Moreno e Durvinha)


João Souto e Lilí posam em uma das alas do "Museu Cantinho da Lili".


Neli (Lilí), João de Sousa Lima e João Souto.


A Lilí exibe seu inconfundível figurino ao lado das relíquias deixadas pelos pais.


Recentemente em visita a minha adorável amiga Lilí ganhei  um abraço selando o amor de amigos que existe entre nós dois


João Lima e Lilí


Lili e seu rico acervo


Lilí mostrando uma fotografia onde aparece os pais.

Enviado pelo escritor e pesquisador do cangaço:
João de Sousa Lima

O facínora Lampião

Foto da página pribncipal do sítio oficial sobre Lampião

Em uma viagem que fez a Juazeiro do Norte, a convite do Padre Cícero Romão Batista, este considerado o "santo" do Nordeste Brasileiro, Lampião foi entrevistado pelo médico de Crato, Dr. Octacílio Macedo.

Dr. Octacílio Macedo - Cearense - da cidade de Crato

Lampião estava hospedado no sobrado de João Mendes de Oliveira, e, durante a entrevista, foi várias vezes à janela, atirando moedas para o povo que se aglomerava na rua para conhecer o famoso cangaceiro.

Algumas respostas da entrevista:

 Não se comove a extorquir dinheiro e a "variar" propriedade alheia?

Lampião - Oh! mas eu nunca fiz isto. Quando preciso de algum dinheiro, mando pedir "amigavelmente" a alguns camaradas.

Perguntado se deseja deixar esta vida:

Lampião - Até agora não desejei abandonar a vida das armas, com a qual já me acostumei e sinto-me bem. Mesmo que assim não sucedesse, não poderia deixá-la, porque os inimigos não se esquecem de mim, e por isso eu não posso e nem devo deixá-los tranquilos. Poderia retirar-me para um lugar longínquo, mas julgo que seria uma covardia, e não quero nunca passar por um covarde...

Perguntado sobre o cangaceiro mais valente do Nordeste:

Lampião - A meu ver o cangaceiro mais valente do nordeste foi
Sinhô Pereira. Depois dele, Luiz Pedro.

Sinhô Pereira e Luiz Pedro - Eram primos

Penso que Antonio Silvino foi um covarde, porque se entregou às forças do governo em consequência de um pequeno ferimento.

O ex-cangaceiro Antonio Silvino

Já recebi ferimentos gravíssimos e nem por isso me entreguei à prisão.

Sobre o futuro Lampião mostrou-se incerto, apesar de ter planos:

Lampião - Estou me dando bem no cangaço, e não pretendo abandoná-lo. Não sei se vou passar a vida toda nele. Preciso trabalhar ainda uns três anos. Tenho de visitar alguns amigos, o que não fiz por falta de oportunidade. Depois, talvez me torne um comerciante.

PORTO: UM CANTO DE CAIS (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

PORTO: UM CANTO DE CAIS 

Nunca uma música traduziu tanto a obra amadiana como a belíssima “Porto”, de autoria de Dori Caymmi, presente na trilha sonora da novela Gabriela, de 1975, e naquela oportunidade divinamente interpretada pelo grupo MPB4.

Nas primeiras chamadas (teaser) da nova adaptação do romance de Jorge Amado para a televisão, também na Rede Globo (de autoria de Walcyr Carrasco), ela era ouvida ao fundo, bem mansinha e leve, num canto de voz de porto, enquanto surgia na tela a nova Gabriela, na beleza de Juliana Paes.

Não há letra, poema, palavra dita pra ser ouvida, versos rimando um amor, um percurso, uma dor. Apenas a música instrumental acompanhada de um leve cantar murmurante e descompassado, assim como as águas do mar vão chegando de mansinho e se faz barulho ao rebentar na areia.


Suavemente, bem distante, bem lá no fundo das águas, se ouve em tom inebriante: “iaiê, iaiê, oni, onâ, iaiê, iaiê, oni, onâ, lele-ô, ananayô, ananayô, oni, onã, ananayô, oni, onã...”. E tudo navegando em meio ao violão, a flauta, ao chocalho, a percussão, além das vozes inconfundíveis dos integrantes do MPB4. Dori Caymmi também interpreta sua canção, mas com um vozeirão que afasta a singeleza cativante da melodia.

Como tema geral da novela, pontuou as aventuras e desventuras da inocente e bela Gabriela, do seu tão apaixonado Nacib, da libertária Malvina, da enamorada Jerusa, do opositor e romântico Mundinho Falcão, do mulherengo Tonico Bastos, da dona de bordel Maria Machadão, da prostituta Zarolha, e dos Coronéis Ramiro Bastos, Melk Tavares, Coriolano, Amâncio Leal e Jesuíno Mendonça.

Subindo ou descendo as ladeiras de Ilhéus, mostrando as distâncias das plantações cacaueiras, passando defronte ao Bataclan, enveredando pelas estradas e veredas dos latifúndios e casarões dos coronéis, cobra sinuosa apenas se admirando dos pés descalços da bela mocinha. Eis a música cantando o percurso do povo baiano colonizando suas vidas e território, abrindo fronteiras e trazendo a riqueza e a dor.


Ao compô-la, talvez Dori Caymmi, quase da parentela de Jorge Amado, trouxesse toda a essência da obra do amigo para a partitura, para as cordas de seu violão, para a flauta que apita o mesmo som da embarcação aportando no recôncavo, no cais da Bahia, em todos os cais. Daí sua leveza, seu ondeado, seu navegar murmurante até despontar perante os olhos da moça aflita que espera seu amor de lenço na mão.

Melodia que lembra o tão amado Jorge e reflete a Bahia, e nos dois a luta e os amores de um povo em meio aos ciúmes, desfeitas, disputas sangrentas, tocaias, mortes jaguncistas, corações perdoados, boêmios inveterados, prostitutas de colo de coronel, uma gente festeira e faceira que procura viver para fugir do sofrer.

Mas também melodia do barco, da pequena ou grande embarcação, cortando as águas e carregando o cacau, a bebida, os cestos de frutas, as encomendas importadas para os coronéis, os tecidos brilhentos para enfeitar gente feia, os temperos, tudo que vai de lado a outro, de cais a cais, de porto a porto. E quando sai a embarcação, quando ela se distancia e vai sumindo bem longe é como se a melodia existisse por si mesma.

Por isso mesmo Porto não é só uma melodia que novamente estará no remake de Gabriela, mas sim a essência visual da história, contando em acordes, numa perfeita visualização, os passos da bela morena agrestina caminhando de trouxa na mão em busca da sorte em Ilhéus. E ali a flor se misturando aos frutos do mercado, aos olhares que não se cansam em mirar. E depois a saga, a sina, o destino de um povo numa trama de aflitiva beleza.


Ao lado de Alegre Menina - de autoria de Jorge Amado e Dori Caymmi, e interpretada por Djavan -, Porto é romance, é a própria trama musicada. Basta ouvi-la e fechar os olhos. E logo o barco ancorando no porto, logo o passo pelo recôncavo, logo a morena brejeira encantando a vida, subjugando coronéis, trazendo uma receita de amor para o nosso deleite.

(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Pérolas Musicais na Noite Cariri Cangaço-GECC

Por: Heldemar Garcia
A Música no Cangaço com Nirez na Saraiva Mega Store

Mais uma vez o Encontro Cariri Cangaço-GECC, acontecido na noite desta quarta-feira, dia 13, foi marcada pelo talento do Conferencista convidado. Com o tema A Musica no Cangaço, o musicólogo e colecionador Miguel Ângelo de Azevedo, o conhecido Nirez, encantou a todos com perolas raras da discografia ligada ao Cangaço.

Para um público prá lá de atento, Nirez trouxe pérolas musicais da época em que Virgulino Lampião ainda pisava as caatingas nordestinas, composições como "Vou pega Lampião" , de Castro Barbosa de 1931, "Negócios de Família" , de Assis Valente de 1936 e "Mulher Rendera" com Manezim Araujo, se juntam as composições da década de 50 e 60 como, "Bando de Lampião" de Dircinha Batista, "Maria Bonita" com Grande Otelo e "Rojao de Lampiao" de JB de Carvalho. Ao todo foram 20 composições garimpadas da ampla coleção de Nirez e apresentadas na noite cangaceira da Saraiva Mega Store do Shopping Iguatemi.

Miguel Ângelo - Nirez

Ângelo Osmiro

Ricardo Albuquerque

Wilton Dedê

Dra Maria Amélia e Aderbal Nogueira

O encontro teve seu inicio com as boas vindas do Curador do Cariri Cangaço Manoel Severo, ressaltando a importância de mais uma vez trazer uma Conferencia de muita qualidade para brindar ao publico presente. Logo apos, o Presidente do GECC, Ângelo Osmiro, passou a dá os informes referentes as atividades do Grupo e tudo o mais que aconteceu no universo do estudo e pesquisa do cangaço, no último mês. Depois o Conferencista da noite Miguel Ângelo - Nirez, iniciou sua apresentaçao, mesclando sua palestra com as muitas musicas selecionadas para a noite.

Ângelo Osmiro, Patrícia Veloso e Manoel Severo

Haroldo Felinto

Leo Kawisner

Comendador Mariano e Heldemar Garcia

Cel. Gutemberg Liberato e Lapa Carabajal

Adail Colares

Ângelo Osmiro, Nirez e Aderbal Nogueira

"Para o próximo encontro a diretoria do GECC e Cariri Cangaço preparam mais surpresas para a noite na Saraiva Mega Store, ja tradicional no fomento e fortalecimento da memoria e historia não só do cangaço, mas das coisas do nordeste" assegura Angelo Osmiro, presidente do GECC. Agora é aguardar o novo encontro Cariri Cangaço-GECC na primeira terça-feira do mês de Julho.

Heldemar Garcia
Assessor de Imprensa e Marketing
Cariri Cangaco

Tudo em ti (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

Tudo em ti


Basta-me a vida
e a eternidade
ou morrer agora
nos teus braços

basta-me ter tudo
e o que vier
ou só a vida possuir
se tenho a ti

basta-me o banquete
e o ouro infinito
ou apenas nada
se teu amor é tudo

basta-me mil amores
e mulheres do mundo
ou somente uma
que tenha o teu nome

basta-me ser
ou não ser
se tudo é nada
sem a ti merecer

basta-me a paixão
e o amor demais
ou apenas a esperança
que é semente em ti.



(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

O Lampião de Jô Fernandes

Por: Manoel Severo

Quem conhece o trabalho, a dedicação, o esmero e acima de tudo a alma deste paranaense sertanejo chamado Jô Fernandes; artista plástico de um talento incomum; não se surpreende ao visitar sua mais nova exposição "O Cangaço, sua Influência e Estética" que acontece na galeria BenficArte, no shopping Benfica, aqui em Fortaleza, e fica aberta à visitação até o dia 26 de junho.

Tive o privilégio de conhecer o amigo Jô Fernandes ainda em 1999, quando juntos enfrentávamos os desafios de uma gestão inovadora em nosso querido Maranguape; já naquela época via um paranaense apaixonado pelas coisas do nordeste e do sertão, muitas vezes traduzidas em suas linhas e nas cores de sua arte.

Desta vez sua coleção navega através desse universo mágico do cangaço, usando todos os elementos tão presentes nas mais diversas dimensões do fenômeno e suas repercussões e interferências estéticas. Ao todo são 16 quadros em tinta acrílica sobre tela, onde predominam as cores fortes, como forte é o sentimento sertanejo.
Jô Fernandes e seu "Lampião"


Segundo o grande Jô Fernandes : "A intenção foi representar além de elementos como os trajes e utensílios dos dia a dia, o legado deixado pelos personagens do cangaço, como a influência no cinema, na literatura, na música, nas tradições e no imaginário popular" e continua, "não faço apologia à violência, o que me encanta nos cangaceiros é a liberdade que tinham, que era também a causa pela qual lutavam".

Quem está em Fortaleza e ainda não visitou a Exposição  "O Cangaço, sua Influência e Estética" de Jô Fernandes, tem até o dia 26 de junho para conhecer esse belo trabalho que está em cartaz na Galeria BenficArte, no Shopping Benfica, Av. Carapinima, 2200 em Fortaleza. 

Manoel Severo

cariricangaco.blogspot.com

quarta-feira, 13 de junho de 2012

História da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Macaíba

Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Macaíba
 
Todas as vezes que passava pela cidade de Macaíba/RN, uma Igreja Católica datada em 1882 me chamava a atenção por seu estilo de construção. No dia 13/06/2012, ao retorna de Mossoró, resolvi passar no centro da cidade e realizar imagens fotográficas do local para posteriormente pesquisar quando foi construída. O Sr. Anderson Tavares possui uma página na internet relatando que essa Igreja foi construída muitos anos antes da data citada acima, passando-o posteriormente por reformas. Comumente a história de nossos municípios Norte Riograndense começa por uma fazenda de gado e logo em seguida a construção da capela canonicamente permitida e liturgicamente abençoada.

Na cidade de Macaíba a pedra fundamental da futura matriz foi lançada em 1858 numa cerimônia festiva presenciada pelos vigários de Natal e São Gonçalo conhecido na época por nome de Sr. Bartolomeu da Rocha Fagundes e Sr. José Paulo Monteiro de Lima respectivamente, pelo Sr. Major Fabrício Gomes Pedroza (1809-1872). Em 1868, no livro velho de contas da matriz está registrado que cada lado, inclusive o terreno em que se acha edificada a mesma capela Nª Sª. Da Conceição, Santos Cosme e Damião.

A capela era a afirmação da fé e denunciava o desenvolvimento econômico local, a densidade demográfica em ritmo crescente, o número apreciável de almas em "estado de comunhão", certa massa residencial fixando cristãos, vivendo em tarefas regulares.

A capela declarava a presença da vida social organizada sobre bases estáveis concordância de esforço com a produção asseguradora da existência familiar, o grupo vicial capaz de prestar mutua proteção e auxílio, sistema de caminhos articulando as propriedades esparsas ao centro mais povoado, facilitando transito e escoamento das safras, costumes cristãos, unificadores e solidários com a figura simples da capelinha, pastoreando o rebanho imóvel, reunido à voz lenta do pequenino sino emocional.

No dia 08 de dezembro de 1869 procedeu-se a benção da capela-mor do templo, somente então concluída. As obras de construção do templo foram reiniciadas em 1882, sob a direção de Frei José Maria Ibiapina. Em 1883 a Igreja foi elevada à categoria de matriz, a mesma foi concluída entre os anos de 1896 e 1904, sob a direção do padre Marcos Santiago. Trata-se de um templo de grandes proporções, o qual possui estilo gótico e barroco.

Segundo a arquiteta Jeane Nesi do IPHAN, " A matriz é constituída de capela-mor, nave principal, galerias laterais, sacristia, coro e um amplo consistório". E continua, " A fachada principal, emoldurada por cornija, apresenta um corpo central constituído por três portas de acesso, superpostas por igual número de janelas rasgadas, com guarda-corpos de ferro. As portas são de madeira, assentadas em vãos de vergas em arco pleno, apresentando ainda bandeiras de ferro. O templo possui frontispício curvilíneo, com um relógio no centro e uma inscrição - 1882 - data que assinala o início de sua construção". 

A imagem da padroeira Nossa Senhora da Conceição foi doada pelo Sr. Major Fabrício Pedroza, sua esposa Luíza Florinda e suas filhas que organizaram uma bonita procissão de Guarapes de onde retiraram a imagem da capela vida de Portugal, para a futura matriz.

Seguindo o gesto do fundador, as famílias que formavam o povoado a convite de Fabrício, passaram a doar imagens de suas devoções para a matriz, assim tivemos; Lyra Tavares - São Francisco e São Luís Gonzaga, Costa Alecrim - Santa Terezinha e Sagrado Coração de Jesus, Moura - Santos Estevão e São José, Mesquita - Nª Sª. Da Carmo, Albuquerque Maranhão - Senhor Morto e Ressuscitado, Andrade Lima - Sagrado Coração de Maria, Freire - Santa Bárbara, Castriciano de Souza - Senhor dos Passos.

Faltava-nos tão somente a criação de uma paróquia, o que asseguraria a presença contínua do pároco em caráter permanente, inamovível, garantia positiva da sequencia na assistência religiosa e no conselho moral do seio doméstico. as assembleias legislativas Provinciais eram as responsáveis por esta criação. Através de um requerimento do deputado Dr. Francisco Chaves, senhor do Ferreiro Torto, foi sancionada a lei provincial Nº 815 de 07 de dezembro de 1877, que criou a paróquia de Nª Sª Da Conceição. Entretanto, decorridos seis anos de instituída, e não havendo padre para provê-la, a lei caducou, passando por outra lei provincial.

Segundo o historiador Câmara Cascudo em seu livro História da Paróquias do Rio Grande do Norte, pág. 24, "Macaíba - Nª Sª Da Conceição - criada pela lei nº 876 de 17 de março de 1883, que suprimira a freguesia de São Gonçalo. Vigário, Padre Manoel Fernandes Lustosa".

Já o historiador conterrâneo Dr. Augusto Tavares de Lyra em seu opúsculo História do Rio Grande do Norte, pág. 362 assim se expressa: "Freguesia de Macaíba: Criada pela Lei Provincial nº 876, de 17 de março de 1883, que suprimiu a freguesia de São Gonçalo, transferindo para ali a sua sede. A sua invocação é N. S. da Conceição.

Todos os demais historiadores são unânimes a esta data. os documentos oficiais da antiga assembleia imperial, atualmente arquivados no nosso respeitado Instituto Histórico e Geográfico do RN, também são claros e precisos nesta perspectiva.

O templo sofreu outras modificações significativas. Em 1938, o padre Alexandrino Suassuna, mandou derrubar as 12 tribunas onde antigamente ficavam as famílias ilustres do município. As suas antigas telhas de cerâmicas foram substituídas por outras, de fibrocimento. 

O coro teve o seu assoalho de madeira trocado por outro de laje em 1968, as galerias laterais receberam um forro de laje, no mesmo ano, bem como o altar-mor. Suas grossas paredes guardam ainda hoje, restos mortais de pessoas ilustres para o município e para o estado, em belíssimos ossuários.

Fonte consultada: 
História e genealogia de Macaíba
Extraído do blog do Neto