Por Rostand Medeiros
Nos primeiros
dias do mês de junho de 1926, as colunas informativas sobre cinema, exibidas
nos inúmeros jornais da capital pernambucana, traziam a notícia que em breve
seria exibido um “film” que era considerado pelos jornalistas especializados
como “diferente” e “interessante”. Era a apresentação de “Joaseiro do Padre
Cícero”, um documentário que mostrava a mítica figura do padre Cícero Romão
Batista.

Durante as
décadas de 1910 e 1920, fotos tradicionais do padre Cícero, com a sua
inconfundível batina negra e seu cajado, freqüentemente eram estampadas nas
páginas dos jornais recifenses. Mas normalmente estas imagens vinham
acompanhadas de uma pródiga quantidade de críticas e comentários ácidos sobre a
figura e a trajetória política do conhecido “Padim Ciço”. Não faltavam nas
páginas dos jornais adjetivos como “líder de fanáticos”, ou “comandante de um
valhacouto de facinorosos”. Com este fluxo de notícias, associado ao interesse
do público local pelos acontecimentos da cidade cearense de Juazeiro, a
exibição desta película nos cinemas de Recife chamou atenção de muitas pessoas.
Realizado em 1925, a película foi rodada em 35 milímetros, sendo dividida em cinco
partes e a direção coube ao cearense Adhemar Bezerra de Albuquerque. Sua
primeira exibição ocorreu no Cinema Moderno, em
Fortaleza, no
mesmo ano de sua produção. Depois de seu lançamento, a película peregrinou por
várias capitais brasileiras, através da ação de Godofredo Castro, então
deputado estadual no Ceará, e do presidente da Associação de Jornalistas de
Fortaleza, Lauro Vidal.
A intenção
destas apresentações era criar uma propaganda positiva em relação à ação
política e social do padre Cícero, além de mostrar o crescimento da cidade de
Juazeiro.
Em
Recife “Joaseiro do Padre Cícero” foi apresentado ao público local na última
semana de maio de 1926, onde ficou em cartaz durante dois dias no tradicional
Cinema Royal, localizado na Rua Nova. No dia 2 de junho foi exibido no Cinema
São José. Segundo a edição do jornal recifense “A Província”, de 3 de junho de
1926, em uma reportagem sobre o filme, os propagandistas Castro e Vidal
afirmaram que este projeto teria custado a soma avultada de “40 contos de
réis”. Para se ter uma idéia do que significava este valor naquela época, na
mesma edição deste matutino, temos um anúncio da loja “Oscar Amorim e Cia.”,
localizada na Rua da Imperatriz, número 118, onde era oferecido o modelo mais
barato da linha de automóveis da marca Ford, por cinco contos e seiscentos mil
réis.
Cena da
película
Já a crítica,
de uma maneira geral, se apresentou positiva em relação à obra de Adhemar Albuquerque
e esta aparentemente chamou a atenção da elite cultural recifense. O próprio
diretor do jornal “A Província”, Diniz Perilo de Albuquerque Melo assistiu a
película e teceu comentários. Para o conceituado jornalista “Joaseiro do Padre
Cícero” foi apontado como sendo um filme “nítido”, que servia para mostrar
positivamente o “expoente da admirável feição moderna de Juazeiro, da sua vida
intensa e dos seus aspectos naturais”. Entretanto ele não considerou
“admissível o fanatismo” que era apresentado.
Os jornais mostram que “Joaseiro do Padre Cícero” não foi classificado como um
filme "cansativo", com várias cenas que surpreenderam os jornalistas.
Entre estas são comentadas as que mostravam o imponente açude do Cedro, as
cidades de Juazeiro em dia de feira, Crato, Barbalha e paisagens da região do
Cariri. Da capital Fortaleza foi focalizado o seu porto, o passeio Público, o
Parque da Liberdade, entre outros locais. Mas a figura mais destacada era o
padre Cícero Romão Baptista. Conforme vemos nas páginas do jornal “A Notícia”,
de 3 de junho de 1926, ora o popular sacerdote era aclamado pelo povo, ora era
apresentado na sua casa, mostrando seu trabalho como prefeito de Juazeiro e
sempre junto aos seus fiéis seguidores.
Não conseguimos apurar a rota seguida por “Joaseiro do Padre Cícero” pelas
capitais brasileiras. Mas têm-se notícias que foi exibido na então Capital
Federal, em setembro daquele mesmo ano. Ocorreu sessão dupla na Sala Parisiense
e o filme teria recebido fortes críticas da revista carioca “Cinearte”. Outra
exibição confirmada por pesquisadores da história cinematográfica brasileira,
mostra que esta película foi exibida no Cinema Politeama, no dia 30 de novembro
de 1926, em Manaus.
O periódico
pernambucano "O Jornal do Comércio", na sua edição de 2 de dezembro
de 1926, informa que houve uma segunda exibição em Recife. Um interessante
detalhe que não foi comentado por nenhuma das colunas cinematográficas dos
jornais recifenses de junho daquele ano, da conta que aparentemente haviam sido
inseridas para a segunda exibição, algumas fotos do grupo de cangaceiros do
chefe Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Se esta informação é correta,
estas fotografias certamente seriam as chapas obtidas em março de 1926, pelo
fotógrafo Pedro Maia, quando da polêmica passagem do famoso bando de
cangaceiros pela cidade de “Padim Ciço”.
Independente
desta questão, observando as notas dos jornais recifenses sobre o filme, não se
pode negar que aparentemente este projeto alcançou o resultado que era desejado
pelos seus idealizadores e financiadores. Ou seja, a de desmitificar para as
classes dirigentes e formadoras de opinião dos principais centros urbanos do
Brasil, da segunda metade da década de 1920, que o padre Cícero era sim um
líder carismático, que tinha um grande número de seguidores, mas ao mesmo tempo
era um homem inteligente, sério, cumpridor das leis, que buscava tão somente o
desenvolvimento de sua querida Juazeiro. Não temos informações sobre o destino
desta película.
Adhemar
Albuquerque, criador da “Aba Film”
Já Adhemar
Bezerra de Albuquerque, o diretor de “Joaseiro do Padre Cícero”, possui o justo
reconhecimento de ser cultuado como um dos principais pioneiros e expoentes do
cinema cearense, que produziu muitos documentários em 35 milímetros, onde são
principalmente apresentados aspectos e acontecimentos da capital Fortaleza e de
outras cidades do Ceará. A este homem empreendedor se deve a criação da famosa
empresa ligada ao ramo fotográfico “Aba Film”, até hoje em funcionamento e
pertencendo a seus descendentes.
Sobre esta empresa, não podemos deixar de comentar o famoso episódio ocorrido
em 1936, que envolveu o emigrante Benjamin Abrahão Botto e a filmagem do bando
de Lampião em plena caatinga. Com o apoio de Adhemar Albuquerque, o libanês de
Zahelh, esteve em duas ocasiões com o “Rei do cangaço”, realizando uma proeza
inédita e que se mostrava promissora em termos financeiros.
Cine Moderno:
Seleta e privilegiada plateia para exibição do filme "Lampeão".
Mesmo gerando
toda uma expectativa entre o público, em pouco tempo a película é confiscada
por ordem do governo de Getúlio Vargas. O Brasil se encontrava então em pleno
período da ditadura do Estado Novo, que entre outras ações na região Nordeste,
desejava exterminar definitivamente Lampião e o cangaço. Assim o filme de
Abrahão seguia totalmente na contramão das ações governamentais, criando uma
possível propaganda favorável aos cangaceiros e todo o projeto foi sumariamente
encerrado.
Logo depois, em
maio de 1938, Benjamin Abrahão seria morto a facadas em uma pequena cidade do
interior de Pernambuco. Após alguns meses, as margens de um pequeno grotão,
próximo ao “Velho Chico”, em território sergipano, Lampião caia fulminado de
balas, junto com sua Maria Bonita e outros companheiros.
Do filme sobre os cangaceiros pouco restou. Entretanto se não fosse à
iniciativa do libanês Abrahão e o apoio correto de Adhemar Bezerra de
Albuquerque, não existiria nenhuma imagem cinematográfica de Lampião e seu
bando.
O
emigrante libanês Benjamin Abrahão Botto, o “homem que filmou o facínora”
Notas e comentários:
Amigos, podemos contar atualmente com instituições que realmente ajudam a
conhecer o nosso passado, a quem quer pesquisar. Uma destas instituições fica
na Rua do Imperador, no Centro de Recife e atende pelo nome de Arquivo
Público do Estado de Pernambuco.
Quando puderem, façam uma visita. Sem dúvida alguma é o melhor de todo o
Nordeste. E lá tem muita coisa, mas muita coisa mesmo.
De Natal a Salvador eu conheci, ou pelo menos tentei conhecer, todos estes
arquivos públicos e o de Recife indubitavelmente me impressionou. Salvador vem
em segundo e Aracaju em terceiro. O resto é depósito e o nosso Arquivo (Natal)
até fechado está a mais de quatro anos.
O arquivo de lá possui, veja bem, 9.000 títulos de jornais. Não são 9.000
exemplares de jornais, são títulos de jornais diferentes e alguns remontam ao
início do século XIX. È mais que a Biblioteca Nacional e com a vantagem da
pesquisa ser gratuita.
Em Recife, o pessoal do arquivo é ativo, profissional e interessado em
apoiar o pesquisador. Funciona das 8:00 as 17:00, sem fechar para almoço,
é arejado, sua localização é central e de fácil acesso. Existem falhas, mas são
poucas diante das vantagens e do comparativo com outros locais. Fica no Centro,
próximo ao Palácio do Governo.
Este pequeno texto foi feito somente com três notinhas, do material histórico
que fotografei por lá.
Um abração,
Rostand Medeiros,
Pesquisador
http://lampiaoaceso.blogspot.com/2010/05/1926-o-filme-joaseiro-do-padre-cicero.html
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