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sábado, 18 de novembro de 2017

JOAO GOMES DE LIRA NA FESTA DO CARIRI CANGAÇO CENTENÁRIO DE NAZARÉ

Por Manoel Severo

O Sol já havia se escondido no horizonte, mal dava para ver a imponente Serra do Pico quando a Caravana Cariri Cangaço partiu para o último compromisso oficial da vasta e inesquecível programação do Cariri Cangaço Floresta-Centenário de Nazaré, destino, a casa do Tenente João Gomes de Lira.

Tendo como ilustres anfitriões, filhos, netos e bisnetos de uma das personalidades mais marcantes de Nazaré, o Cariri Cangaço participaria de uma noite de homenagens em respeito a memória do bravo militar que como todos os outros volantes de Nazaré, souberam dignificar sua terra, sua farda e sua honra. João Gomes de Lira, um homem que ficará guardado no coração de cada um de seus inúmeros amigos, aos quais recebia com afeto e atenção, a ele toda nossa homenagem e saudade. 

A Família Gomes de Lira e a homenagem ao grande João Gomes, no Cariri Cangaço Centenário de Nazaré
Clóvis e a emoção da lembrança do pai...
Cristina Lira: "A saudade de um casal exemplar..."

Um a um os filhos se sucediam nas lembranças e palavras que nos transportavam no tempo e no espaço para reencontrar um ser humano de muito valor, João Gomes de Lira, soube ao longo de toda sua vida construir sob bases sólidas de ética, responsabilidade e amor, a grandeza de sua família.

Na oportunidade a família Gomes de Lira, representada na noite pelos filhos; Rubelvan, Cristina, Cláudio, Ruberval, Clóvis, Lucinha, pelos netos, bisnetos e amigos, prestaram uma honrosa homenagem ao Cariri Cangaço e passaram às mãos do Curador Manoel Severo, Placa Comemorativa ao evento, ressaltando o esforço e trabalho da família Cariri Cangaço na direção da perpetuação da "memória nazarena". A placa foi entregue solenemente por um dos bisnetos do tenente João Gomes de Lira; o pequeno Álvaro Davi Leite de Lira Nogueira. 

    O pequeno Álvaro, bisneto de João Gomes de Lira entrega a homenagem a Manoel Severo, representando o Cariri Cangaço 
 
Rubelvan Lira, Manoel Severo e Ricardo Ferraz

O tenente João Gomes de Lira escreveu um dos clássicos da literatura do cangaço, sua obra "Memórias de um Soldado de Volante" foi publicado em 1990 e traz a saga desses heróis da caatinga que dedicaram toda uma vida ao combate ao cangaço, para isso o brilhante militar passava o dia em frente à máquina de escrever, rebuscando na memória os fragmentos das verdades históricas que ele mesmo ajudou a construir. 

João Gomes de Lira e Manoel Severo
 Lembranças: Relíquias de toda uma vida...

"Depois de ser vereador no município de Caraíbas, tenente João retornou a sua querida Nazaré, dai ficou viúvo em 2001, perdendo seu grande amor após 60 anos de casamento; dona Gisélia; e passou o resto de seus gloriosos dias recebendo a todos que o procuravam, com  a amabilidade e gentileza próprias de seu coração, foi assim que conheci João Gomes Lira no final do ano de 2008, em sua cadeira de balanço em frente à sua casa e com um olhar e um sorriso próprio dele, próprio daqueles que cumpriram bem sua missão" revela Manoel Severo Barbosa.

 Clóvis Lira, Cristina Lira, Rubelvan lira e Manoel Severo
Rubelvan Lira e Manoel Severo
"As palavras e a emoção do amigo Clóvis foram marcantes"... 
Clóvis Lira e Manoel Severo

"Quando se fala em João Gomes de Lira, é preciso dizer quem foi ele, para que os novos preservem a memória dessa extraordinária figura humana. No último sábado, 14 de outubro de 2017, em mais um encontro do Cariri Cangaço, liderado pelo abnegado Manoel Severo Barbosa, a caravana de estudiosos do fenômeno do cangaço esteve na gloriosa vila de Nazaré, que está festejando o Centenário de sua Fundação. Um dos filhos mais ilustres de Nazaré é João Gomes de Lira, ex-soldado de volante, autor do livro "Lampião: Memórias de um Soldado de Volante", uma obra indispensável para quem estuda e leva a sério os assuntos do cangaço. Para escrever um grande livro, não é preciso muita erudição. O que é preciso mesmo é afinco. João Gomes de Lira tinha pouca instrução, mas escreveu um dos mais importantes e mais completos livros sobre o cangaço. Suas versões dos fatos são objetivas e confiáveis. As datas e os lugares são citados com precisão. Estive com ele três vezes. Grande figura. Sempre que passo por Nazaré, entro no povoado, dou uma volta pela pracinha histórica e, antes de sair, me demoro um pouco em frente à casa onde viveu seus últimos dias o grande João Gomes de Lira. Toda manhã, ele se sentava debaixo de uma das árvores em frente a sua casa, onde cumprimentava os que passavam ou iam vê-lo. Sua bênção, querido João Gomes de Lira" Depoimento do escritor José Bezerra Lima Irmão.


 Descerramento de Placa Comemorativa à memória de João Gomes de Lira por ocasião do Cariri Cangaço Centenário de Nazaré
Lucinha Lira
 A trajetória de João Gomes lembrada pela família e a fala do prefeito Ricardo Ferraz 
Placa Comemorativa 

"Nascido em 13 de julho de 1913 na Fazenda Jenipapo, distrito de Nazaré do Pico – Município de Floresta/PE, viveu ali parte de sua vida. Ingressou na Polícia Militar do Estado de Pernambuco em 16 de Julho de 1931. Com dezessete anos de idade integrou na volante que tinha como comandante o Cel. Manoel Neto que perseguia Virgolino Ferreira da Silva, o "Lampião". Depois do fim da campanha contra o cangaço, foi destacar nos municípios de: Afogados da Ingazeira, Iguaracy, Tabira, Carnaíba e Flores todas cidades do interior pernambucano, onde foi delegado de polícia. Foi várias vezes ouvido pela imprensa para contar relatos da luta dos seus conterrâneos contra o bando de Lampião. Enquanto vereador de Carnaíba, João Gomes de Lira escreveu sua Obra: "Memorias de um soldado de volante", narrando sua vida e suas andanças em busca de cangaceiros. João Gomes de Lira faleceu no dia 04 de Agosto de 2011, 
na cidade do Recife, aos 98 anos.

Manoel Severo, Rubelvan Lira e Ingrid Rebouças

"Obrigado Severo, Nazaré escreveu uma pagina muito linda na sua historia e o Cariri Cangaço é o responsável, portanto só temos a agradecer a todos principalmente aos organizadores na pessoa de Mabel a nossa Coordenadora. Agradeço também ao amigo Kydelmir Dantas por ter feito uma excelente narrativa sob os nazarenos principalmente meu pai João Gomes de Lira; foi por isso que minhas irmãs prestaram uma simples homenagem a todos do Cariri Cangaço pelo o fato dos Senhores sempre terem um carinho com meu velho pai obrigado a todos e que apareçam muitas vezes em nossa terra . Obrigado" Afirma Rubelvan Lira, filho de João Gomes de Lira e um dos organizadores do Cariri Cangaço Nazaré 2017. 


Louro Teles na festa em memória de Joao Gomes de Lira
 Muito Forró e uma ceia genuinamente sertaneja proporcionada pela família Gomes de Lira aos convidados do Cariri Cangaço
Manoel Severo e Lucinha Lira
Manoel Severo, Jadílson Ferraz e Ingrid Rebouças

"No Estado de Pernambuco, na cidade de Floresta, no importante distrito de Nazaré do Pico, destacava-se a figura de João Gomes de Lira que se alistou e logo se incorporou na Polícia Militar de Pernambuco, então com 18 anos de idade, para combater o cangaceirismo e o banditismo no sertão. Em sua trajetória de vida no trabalho, social e afetiva, sempre mostrou dignidade, bondade e imparcialidade em suas decisões. Passou pela hierarquia militar se destacando ao longo da carreira como soldado, comissário, delegado e por último Tenente com muita eficiência e competência aos olhos de toda sociedade sertaneja. Com poucos estudos não frequentou os bancos escolares com assiduidade como desejava, mas, mediante suas memórias como policial atuante, se fez pesquisador do tema Cangaço lançando, após muitos anos de pesquisas, com grande sucesso em dois volumes, o livro Memórias de um Soldado Volante que é um referencial para todos aqueles amantes da História do Brasil e em especial aos bravos soldados nazarenos que participaram diretamente fazendo assim parte da História." ressalta Ana Lúcia Souza; pesquisadora e Conselheira Cariri Cangaço.

Ingrid Rebouças e Manoel Severo
Wescley Rodrigues, Camilo Lemos, Cristina Couto, Ivanildo Silveira e Nivaldo Pereira

"Há muito tempo atras, quando comecei minhas viagens em busca dos resquícios da história, a primeira pessoa que conheci foi o querido amigo João Gomes de Lira, homem de fala mansa e de uma tranquilidade congelante. Um memorialista excepcional e acima de tudo um bom amigo.Como dizia o saudoso Luiz de Cazuza "- Você vê aquele homem de fala mansa , com aquela tranquilidade, foi um dos homens mais valentes que o Pajeú já teve"...revela o pesquisador e documentarista cearense Aderbal Nogueira.

Paulo Sérgio, Kydelmir Dantas, João Gomes de Lira, Aderbal Nogueira e Rubelvan Lira
"O grandioso evento Cariri Cangaço Floresta-Nazaré 2017 , foi sem dúvida um sucesso em termos de aprendizado e de organização.Como sempre ocorre, esse fórum reuniu mais uma vez, centenas de amigos já consolidados no estudo e no prazer por esse tema tão instigante que é o cangaço. Parabenizo a todos que se envolveram na organização e com toda certeza, valeu muito para todos que participaram. O Cariri Cangaço é único." Confirma o pesquisador pernambucano e Conselheiro Cariri Cangaço Jorge Remígio.

 Jorge Remígio e Manoel Severo
Casal Clóvis Lira e Manoel Severo
Manoel Severo, Cristina Amaral e Ingrid Rebouças
"Manoel Severo com sua competência, e caráter ímpar, realizou uma das maiores edições do Cariri Cangaço, em Floresta e Nazaré do Pico. Fiquei encantada com a receptividade e organização de um trabalho feito com muito zelo,carinho e amor; ingredientes indispensáveis, e que são marcas registradas da Família Cariri Cangaço. Estamos juntos!" Revela a pesquisadora Francimary Oliveira, de Teresina, Piauí.

Josué Santana Macedo e Manoel Severo
Ainda dentro da noite de homenagens em Nazaré do Pico, o Cariri Cangaço através do Conselho Alcino Alves Costa prestou homenagem através de Diploma ao "Museu Cangaço e Sertão" da cidade de Saquarema no estado do Rio de Janeiro; que tem como idealizador e mantenedor o pesquisador carioca, Josué Santana Macedo. "Josué é um companheiro extraordinário, dedicado e extremamente comprometido com a divulgação da memoria do sertão, a partir de seu Museu no Rio de Janeiro, sensacional. Merece todo o nosso respeito e admiração" confessa o curador do Cariri Cangaço Manoel Severo.
Fotos: Ingrid Rebouças, Evanilson Sousa e Louro Teles

Cariri Cangaço Floresta-Centenário de Nazaré 
Homenagem João Gomes de Lira, 14 de Outubro de 2017
Nazaré do Pico-Floresta, Pernambuco 

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O TESOURO DO REI DO CANGAÇO

Por Ruy Lima

Assim como os piratas, os vikings e outros salteadores históricos e lendários, Lampião também escondia os produtos de suas pilhagens, como dinheiro, joias, etc., em locais secretos. Hoje em dia alguns escondiam fortunas em apartamento, e até na cueca. 

Segundo o Padre Frederico Bezerra Maciel, no volume III da sua obra “Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado”, após tremenda decepção que teve Lampião de sus ex-amigo e ex-protetor, o Coronel José Pereira de Lima (Zé Pereira de Princesa), “homem perverso, falso e desonesto” que, para se apoderar do dinheiro que o cangaceiro lhe confiava a guarda, o “traiu miseravelmente”, Lampião jamais quis outro depositário. 

Seu dinheiro e joias, um verdadeiro tesouro, ele enterrou em vários pontos do sertão. Num couro de gato maracajá traçou, com o bico de uma sovela aquecida, um mapa enigmático ou cifrado e só por ele decifrável, indicando os locais das botijas. Quem olhasse para o mapa julgava ver qualquer coisa referente à música, pois, nos pontos das botijas escrevera Lampião, em letra maiúscula, de fôrma, o nome de cada uma das notas musicais: DÓ, RÉ, MI, FÁ, SOL, LÁ, SI. Era o que ele chamava “Mapa das Sete Notas”. Como sanfoneiro, ele conhecia as notas musicais.

Entre as notas havia linhas traçadas em retas e curvas, talvez mostrando caminhos; diferentes desenhos de árvores, serras, pedras e outras coisas incompreensíveis; além de infinidade de letras soltas, sem formar palavras, e de números cabalísticos, alguns de cabeça para baixo, talvez indicando posições, distâncias e medidas.

A botija “DÓ” situava-se na região lindeira entre Pernambuco e Alagoas. A botija “RÉ” encontrava-se na região de Triunfo-PE. A botija “MI” estava enterrada numa área da Fazenda Serra do Poço, no Ceará, do seu amigo o Major Firmino Inácio de Barros. A botija “FÁ” também estava no Ceará. A botija “Sol”, estava enterrada no lugar Campestre, perto da serra do Catolé, município de Belmonte-PE. A botija “LÁ” estava enterrada nas imediações de Santa Cruz do Deserto, Mata Grande-AL. A botija “SI” estava escondida na serra do Umã, Carnaubeira da Penha-PE. (Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado, vol. III, 2ª edição, 1988, Vozes - Frederico Bezerra Maciel).

Fotomontagem: Ruy Lima, com base em foto de Lampião tirada por Benjamin Abrahão Botto.

Será que Lampião esvaziou totalmente as botijas? Será que existiam outras? 

Em 2007, dois “caçadores de tesouro” amadores ingleses, pai e filho, encontraram um tesouro deixado pelo Vikings. Estima-se que o tesouro tenha ficado enterrado por mais de mil anos.

O tesouro foi descoberto com um detector de metais em um campo de Harrogate, Nort Yorkshire, Inglaterra e foi vendido a um museu de Londres por cerca de um milhão de libras.

Pai e filho ficaram milionários de um dia para o outro.

Quando eu me aposentar de fato for fazer umas caçadinhas aos tesouros de Lampião. Topa a parada, Prof. Geziel?

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QUADRO "BIOGRÁFICO" DOS GRANDES COMANDANTES DO CANGAÇO

Acervo do José Irari


Amigo Ruy meu recorte histórico, sobre chefes cangaceiros famosos, aumentaria só um pouquinho, chegando a Jesuíno Brilhante, pois estes quatro, tem trajetórias históricas consolidadas na literatura, diferente de Cabeleira e Lucas da Feira, aos quais pouco se sabem. Parabéns pela postagem.

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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

VIVENDO NO EGITO

Clerisvaldo B. Chagas, 16 de novembro de 2017
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica 1.783

As últimas reportagens da Rede Globo de Televisão sobre o rio Nilo, faz lembrar as velhas aulas sobe o antigo Egito e suas relações com a morte. Os egípcios eram politeístas e consideravam vários deuses, embora três fossem os mais populares: Osíris (deus da vida após a morte); Ísis (sua irmã e esposa) e Hórus, o filho de ambos. Os deuses egípcios apresentavam-se de forma humana. Com forma animal e com forma humana e animal. O mais temido dos deuses era Amon-Rá criador do universo.
EGITO. Imagem: (Cultura Mix)
Segundo a crença egípcia, toda pessoa, ao morrer, iria para o Tribunal de Osíris. Caso fosse absolvida, a alma poderia voltar para o corpo. Isso fez com que surgisse o processo da mumificação. Após embalsado o corpo, a múmia iria para o sarcófago e para a urna funerária e daí para o túmulo. Conforme o poder aquisitivo da família do morto, muitas coisas poderiam ser deixadas no túmulo como joias, armas e alimentos.
Em 1922, o arqueólogo inglês Howard Carter, encontrou intacto o túmulo de Tutancâmon. Foi um espanto para o mundo da época quando o pesquisador fez a divulgação do que foi encontrado. Havia mais de cinco mil peças como cadeiras, carros, armas, barcos, armários, poltronas, colares, estátuas, aparelhos de mesa.

Isso faz refletir sobre a religião antiga naquela área, mas também mostra os costumes do cotidiano na remota civilização. As discussões religiosas e o fanatismo extremista não dão sossego ao planeta e continuam vivos como nunca. Quem quiser pode até pensar em dezenas de deuses que regem o mundo e até milhões deles como mentores particulares de cada pessoa. E se o Egito imaginava seus deuses de forma humana, em forma humana e animal e de forma animal, talvez até fossem mais felizes de que nós. É que a humanidade parece duvidar qual o Deus Único e Verdadeiro e se ele existe de verdade; mas os demônios em forma de gente estão aparecendo na televisão e nas notícias do nosso dia a dia, praticando as coisas mais absurdos neste mundo entre a civilização e a barbárie. 


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O CORONEL E O CANGACEIRO

*Rangel Alves da Costa

O homem era coronel mesmo, não de patente militar, mas na patente do poder e do mandonismo. Mas tinha mais força que qualquer outro coronel patenteado que existisse. Se este era subordinado, devendo obediência hierárquica, o outro era o mais alto escalão da força impositora pelos feudos e vastidões nordestinas. Assim perante o homem, perante a política, políticos e governantes.
Chegava ao gabinete dos governantes, cuspia na antessala e entrava sem se fazer anunciar ou pedir permissão a ninguém. Tinha poder suficiente para agir assim aonde chegasse. Perante a sua chegada, sempre uma surpresa assustadora, o governante maior chegava a estremecer. Nada podia dizer senão agradar. Levantava trêmulo e feito vara verde se encaminhava para o aperto de mão, para o abraço, para se colocar à disposição feito um reles subserviente.
Terno de linho branco, endurecido pela goma fincada pelo ferro de passar. Chapéu imenso na cabeça, botinas brilhosas no sebo de vaca, um lenço caído no bolso esquerdo do paletó. Feição rude, queimada de sol, bigode esbranquiçado e vasto, tudo moldurando um rosto ainda moço para tanto poder seguindo o seu passo. Mas sem deixar à mostra, uma pistola carregada na cintura e mil pistolas e mosquetões, mil jagunços e pistoleiros espalhados por todo lugar.
Tanto e todo poder num homem só. Mandava e desmandava no seu mundo e no mundo de todo mundo. Respeitado, querido, odiado, enojado, devotado, ultrajado. A verdade é que mesmo o ódio não era suficiente para ser enlameado pelo nome. E quem era besta de dizer, citando o nome, que o coronel não prestava, que o mandachuva era isso ou aquilo? Ora, ninguém queria virar comida de aves carnicentas, de gaviões e urubus. E as tocaias sem fim diziam bem de quantas vozes haviam silenciado pelos sopros de fogo.
Outro coronel metido a valente, certa feita mandou-lhe um recado desaforado e não demorou muito para ser tocaiado e acertado pela mira certeira de Bicho Feio, o jagunço. Sua palavra era uma ordem, sua ordem uma obrigação, sua cusparada um prazo dado para tudo ser feito, e bem feito. Solitário, porém. De tão amedrontador que era, o medo de todos fazia com que fosse evitado a todo custo. Mas rodeado de pessoas inseparáveis: jagunços, pistoleiros, facínoras de toda espécie.
Poderoso demais, em demasia mesmo. Mas não tão poderoso assim se considerado o temor de um homem por outro homem. Sim. O coronel dono do mundo, dono do poder e do mais que lhe aprouvesse, estremecia por dentro toda vez que ouvia o nome famoso que andava pelos arredores da região: Virgulino Ferreira da Silve, vulgo Lampião. E chegava a vermelhar de raiva só em saber que o líder cangaceiro também era chamado de rei das caatingas e dos sertões.


No seu pensamento tipicamente coronelista, só havia um rei ali e era ele, não o tal Lampião. Mas o pior é que não podia fazer nada, pois tinha medo desmedido do homem. E por isso mesmo vivia procurando saber notícias do bando cangaceiro, querendo saber se estava nas proximidades e como costumava agir quando resolvia invadir povoações inteiras. Tudo ouvia com extrema preocupação, chegando mesmo ao extremismo do arrepiamento, mas sempre reagia dizendo que ai daquele desaforado do Lampião se ousasse colocar os pés ali. Seria recebido na bala.
Um dia Lampião chegou. Mesmo ainda distante do latifúndio avarandado do coronel, assim que este recebeu a notícia da aproximação logo se tornou num homem irreconhecível. Pálido, ora cabisbaixo ora colocando a cabeça por todas as frestas da janela, andando de lado a outro, num nervosismo que mais parecia na maior das aflições. E estava mesmo. Quem percebeu logo aquele estado de choque foi o vigário local que ali estava a chamado do poderoso. O mandachuva desejava aconselhamento do da batina perante aquela tenebrosa situação. Mas o padre resolveu ser ligeiro e sincero: “Não há Coronel que não seja amigo do Capitão. É uma questão de sobrevivência. Se o coronel acolhe Lampião, este ficará agradecido e devendo favores, o que resultará em sua proteção. Do contrário, terá a fera do cangaço todo dia na sua porta”.
Então o terrível, porém acovardado coronel, escolheu o próprio vigário como seu mensageiro de urgência, e para fazer exatamente o contrário do aconselhamento do padre. E tecendo ainda uma traição. O encargo era exatamente convidar o líder cangaceiro e seu bando para um regabofe dos mais caprichados, mas quando ali chegassem seriam todos recebidos à bala. O padre tentou demover a ideia, mas não teve jeito. Mas neste momento, eis que chega um jagunço apavorado e tremelicando, quase sem poder falar: “Lampião taí...”.
“Taí não, tô aqui”, disse Lampião já em pé adiante da porta. “É aqui a casa do famoso Coronel Fudêncio?”, perguntou o Capitão já ao lado do vigário fraquejante e entregue às orações. Mas coisa espantosa aconteceu em seguida. Tomado de cólera e espanto, com o sangue querendo borrifar de tanta raiva, o coronel abriu a boca para dizer umas duas ao cangaceiro. E começou a dizer mesmo: “O que faz aqui, seu, seu, seu... Seu exemplo de homem nordestino, o mais valete dos homens. Se achegue, a casa é sua, e o que depender de mim já está em suas mãos”.
E assim a valentia se transformou em submissão. E o mando coronelista mais uma vez se ajoelhou aos pés do cangaceiro maior, do Capitão Lampião.

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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LAMPIÃO, REI DO CANGAÇO- HISTÓRIAS -GILTON SILVA THOMAZ (LITERATURA DE CORDEL)


Blog do Inharé Giovani Cista

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PIRANHAS E O CANGAÇO

https://www.youtube.com/watch?v=AJerB3SeYn8

Piranhas é um baú a céu aberto. Em suas ladeiras a cidade exibe com harmonia e riqueza casarões históricos e guarda também o último capítulo do cangaço. Foi nas escadas da Prefeitura que a polícia exibiu as cabeças de Lampião, Maria Bonita e dos cangaceiros mortos em Anjicos. Em Piranhas, uma incrível magia envolve os turistas que desligam o botão exigente do tempo caminhando pelas ruas pacatas da cidade, mergulhando nas águas do rio São Francisco e subindo os morros para alimentar os olhos e os corações com paisagens as paisagens emolduradas pela história e pelo velho Chico.

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"JUAZEIRO É O MAIS INCONTESTÁVEL MILAGRE DO PADRE CÍCERO" - ENTREVISTA COM RENATO CASSIMIRO


O religioso Cícero é, sem dúvida, uma das figuras mais controversas da Igreja Católica brasileira. Santo ou embusteiro? A pergunta nunca conseguiu uma resposta  definitiva. Há versões distintas para a mesma indagação e a figura do padre paira sobre a cabeça de estudiosos como uma esfinge a desafiar os que viajam pelo imaginário da religiosidade nordestina. instado a se pronunciar sobre o tema, o professor Antônio Renato Soares de Casimiro, um dos mais abalizados pesquisadores entre os muitos que se debruçam sobre a história de Juazeiro do Norte, faz, nesta entrevista, observações para tentar explicar os episódios sociopoliticoteológicos ocorridos em Juazeiro no fim do século XIX e início do século XX.




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