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quinta-feira, 11 de maio de 2023

SILVIO BULHÕES E A MAIOR RELÍQUIA QUE RECEBEU DE CORISCO, SEU PAI

 Por Aderbal Nogueira

https://www.youtube.com/watch?v=TNFarivnv5o&ab_channel=AderbalNogueira-Canga%C3%A7o

Nesse segundo vídeo com Sílvio Bulhões, ele fala sobre o enxoval que Dadá fez pra ele, o carinho que tem pelos pais e o que ele pensa de Corisco. Para participar da Expedição Rota do Cangaço entre em contato pelo e-mail: narotadocangaco@gmail.com Seja membro deste canal e ganhe benefícios:    / @aderbalnogueirac...   #lampiao #cangaço #maria bonita #cangaceiros #corisco

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MARIA BONITA ERA TÃO MÁ QUANTO O PRÓPRIO LAMPIÃO.

Por José Mendes Pereira


Há este comentário que Maria Bonita não era nenhuma santa, mas nós que não fomos atrás de informações sobre ela nas fontes, não podemos duvidar de quem pesquisou com seus familiares. Eu tenho ela como bastante humana, mas discordar é eu querer ser sábio sem ser, ou na intenção de contrariar quem afirma isso, e, isso não se deve fazer. 

Cada um de nós que estuda o cangaço e não andou nos cerrados fazendo apanhados sobre cangaceiros e cangaceiros, deve ficar no seu quadrado. O jornal publicou, porque fez pesquisa com familiares da cangaceira.

Este recorte de jornal pertence ao acervo do escritor e historiógrafo Rostand Medeiros, que foi publicado no seu blog Tok de História. - https://tokdehistoria.com.br/

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A SAGA DE CHICO CHICOTE E O FOGO DAS GUARIBAS

 Por Manoel Severo


Todos que pesquisam o fenômeno do cangaço, dedicam boa parte de suas vidas à intermináveis andanças nordeste à dentro e a fora; depoimentos, lembranças, mistérios, risos, lágrimas e muitas histórias, acabam sendo fundamentais na construção da memória daquele que foi um dos mais marcantes períodos de nosso sertão. Emoções se repetem a cada nova empreitada, amigos se reúnem, planejam, estudam, especulam, se cercam de cuidado, zelo e determinação, ao final: Fragmentos da história da vida de um tempo e de um lugar, começam a se formar.

Hoje trazemos mais uma vez um dos episódios mais marcantes da historiografia do cangaço...Uma das maiores tragédias acontecidas no sertão do Cariri foi sem dúvidas a que tombou um dos homens mais destemidos e valentes de toda região: Francisco Pereira de Lucena, o famoso Chico Chicote. Nascido em 7 de janeiro de 1879, filho mais jovem do Capitão Francisco Pereira de Lucena , se destacava dos demais irmãos pela rebeldia e total desapego á autoridade constituída. Homem de reconhecida força física, chamava a atenção por sua altura e feições alvas, e ainda, pela maneira de falar: falava sempre muito alto, quase aos gritos . Era uma figura singular e que só com o fato de sua presença, já incutia medo às pessoas.

Chico Chicote era tido como desordeiro contumaz; quando bebia quase sempre acabava se envolvendo em problemas. Por seu temperamento difícil ,já tinha sobre seus ombros vários crimes e um número sem fim de inimigos. Dentre esses se destacava a família Salviano, mentora da tragédia de Guaribas.Entre Chico Chicote e Lampião sempre houve um respeito mútuo , apesar da distância; Lampião que até ali não tinha inimigos no estado do Ceará, acabou sendo o álibi perfeito para o início da trama que daria cabo a vida de Chico Chicote.

Flagrantes de Visitas do Cariri Cangaço a Guaribas de Chico Chicote

Virgulino sempre que passava pelas terras do cariri cearense, vinha pelos lados de Jati, Porteiras, Brejo dos Santos , Jardim e Missão Velha, para as paragens do poderoso Cel Santana, da fazenda Serra do Mato. Em uma dessas oportunidades seus cabras acabaram matando e se alimentando de animais do rebanho do também coronel Pedro Martins de Oliveira Rocha, da fazenda Cacimbas de Brejo dos Santos. Diante do acontecido o líder cangaceiro mandou informar ao referido coronel que o autor do morticínio de seus animais teriam sido homens de Chico Chicote e não de seu bando.

Ato contínuo o Coronel Pedro Martins mandou chamar  à sua fazenda , Chico Chicote, que refutou as acusações, desmascarando a acusação infundada lhe imputada por Lampião. A partir dali nascia mais um inimigo de Virgulino Ferreira; o primeiro em terras do cariri cearense. 

Mesmo depois do incidente; pelo menos por duas vezes os coronéis do cariri tentaram a aproximação de Chico Chicote e Lampião; uma das vezes o próprio coronel Pedro Martins através de seu genro, Antonio Xavier, quis promover este encontro na fazenda Crioulo, também em Brejo dos Santos, Chico Chicote lá não apareceu. A outra oportunidade foi na Fazenda Serra do Mato do Coronel Santana, quando ao saber que ali se encontrava Sabino Gomes, Chico Chicote não desceu nem de seu cavalo. Era do conhecimento de todos a rixa entre os dois; entretanto foi a partir dessa rixa que se arquitetou o trágico fim de Chico Chicote.


Quando nos aprofundamos no episódio da morte de Chico Chicote, começamos a desvendar os meandros da  selvagem política dos primeiros anos da república velha. Na verdade uma espetacular trama envolvendo correntes políticas de alguns das principais cidades do cariri, viriam trazer um tempero especial ao combate de Guaribas. Explico: O irmão de Chico Chicote, era o prefeito de Brejo Santo, Quinco Chicote, e por muitas vezes precisou usar toda a força política e ainda amargar alguns desabores em função da ação truculenta do irmão rebelde. Em determinado momento lideranças de Brejo Santo enviaram telegrama ao Presidente do Ceará; Moreira da Rocha; com queixas contra Chico Chicote, e pediam providências às forças do estado. Ato contínuo o mandatário maior do estado designou a volante do tenente José Bezerra, estacionada em Jardim, para atender ao pleito lhe enviado.

Monumento em memória de Antônio Gomes Granjeiro

Na verdade começava ali o esboço de uma das maiores atrocidades da história do cariri. É importante mostrar outros personagens; ou, vítimas; desse bem tramado plano. Primeiro vamos nos deter em Antônio Gomes Granjeiro, de tradicional família sertaneja e amigo fiel de Chico Chicote; sua propriedade, o sítio Salvaterra; seria  a primeira parada da volante assassina de José Bezerra. O Tenente havia partido de Brejo Santo dizendo aos quatro ventos que iria em perseguição a Lampião, que de fato se encontrava ali perto, também na Serra do Araripe; Entretanto naquela madrugada do dia 1 de fevereiro de 1927, a volante seguiu direto para o sítio Salvaterra, com o intuito de efetivar o primeiro "acerto" daquela fatídica empreitada: Matar Antônio Gomes Granjeiro; crime encomendado pela família Salviano, inimiga de Chico Chicote e que se encontrava sob a proteção do poderoso Zé Pereira de Princesa.

Cercaram a casa de Antônio Gomes Granjeiro pouco antes do alvorecer, dali levaram o dono da propriedade e mais os companheiros, Louro, Joaquim de Barros e Aprígio, todos violentamente mortos, degolados e queimados, a poucos quilômetros de Guaribas. A primeira etapa da empreitada a que foi contratado Zé Bezerra, estava cumprida.

Mais uma vítima seria assassinada covardemente pelas costas nesta manhã tenebrosa de fevereiro, no cariri cearense. Antônio Marrocos (foto ao lado), o Nêgo Marrocos, era cobrador de impostos em Macapá, atual Jati, na época município de Jardim. Ali mantinha antiga rixa com lideranças políticas locais que aproveitaram a oportunidade para também "peitarem" o tenente Zé Bezerra e acabar com a vida do referido inimigo. Depois de passarem no Salvaterra, foram a casa de Marrocos e praticamente o induziram a acompanhar a malta "oficial" até a propriedade de Chico Chicote, uma vez que o mesmo mantinha boas relações com Marrocos. Era o começo da manhã daquele dia e ao se aproximarem de Guaribas, Zé Bezerra deixou o grosso da tropa, composta por cerca de 70 homens e partiu junto com Marrocos, o tenente Veríssimo e com o sargento Antônio Gouveia e ainda o corneteiro Louro, de encontro a Guaribas.

Quando os moradores de Chico Chicote avistaram o pequeno grupo, avisaram ao patrão: "É o Nêgo Marrocos!" Naquele momento o segundo "acerto" da empreitada seria efetivado: O tenente Veríssimo imediatamente disparou um tiro de revolver nas costas de Antônio Marrocos, que ainda permaneceu vivo por algumas horas no cenário do grande combate. Ao ouvir aquele primeiro tiro, Chico Chicote voltou rapidamente com os seus para dentro de casa; começava ali um dos mais ferozes combates da era do cangaço, em terras cearenses.

 Guaribas, testemunha muda da selvageria do sertão...

A manhã daquele primeiro de fevereiro de 27, avançava nas Guaribas. A força comandada pelo tenente José Gonçalves Bezerra, após o assassinato do grupo de Antônio Gomes Granjeiro em Salvaterra e Antônio Marrocos no terreiro de Chico Chicote, iniciava um dos mais terríveis cercos da história do cangaço.

De dentro de casa, acompanhado apenas pela esposa, Dona Geracina, da filha Josefa, do filho Vicente Inácio, e os cabras Sebastião Cancão e Mané Caipora; Chico Chicote numa das resistências mais célebres do sertão, sustenta uma verdadeira chuva de bala de seus oponentes, que mantinham Guaribas quase que totalmente cercada.

O tenente Zé Bezerra ordena avançar e antes mesmo que o corneteiro Louro pudesse fazer soar o instrumento, foi mortalmente atingido por um balaço vindo da arma de Sebastião Cancão. A fuzilaria se fazia ouvir por todos os recantos daquele sovaco de serra; Lampião estacionado a poucas léguas dali, no local chamado Malhada Funda, na serra do Araripe, ouviu o combate, mas não daria retaguarda a um inimigo confesso: Chico Chicote.

 Cariri Cangaço em Guaribas...

A refrega continuava feroz, de dentro da casa a reação dos sitiados era impressionante, chegando a dá a impressão que havia um verdadeiro exercito na defesa; dona Geracina e a filha Josefa se desdobravam na refrigeração e carregamento das armas; do lado de fora, dois moradores de Chico Chicote, Zé Francisco e Fiapo; chegavam e davam uma retaguarda, atacando a força volante pelos flancos e conseguindo algumas baixas na tropa de Zé Bezerra.

Na vila de Porteiras a repercussão do cerco a Guaribas já havia chegado. Os muitos amigos de Chico Chicote se organizaram para auxiliar na defesa do lugar, achavam que o mesmo estava sendo atacado por Lampião e seus homens e partiram para as Guaribas para atacar o cangaceiro. Eram dez horas da manhã quando o grupo partiu de Porteiras, entre os cerca de 50 homens sob o comando do cabo Cesário,dentre esses, um grande amigo de Chico Chicote, Antônio da Piçarra.

O grupo de Porteiras sustentava o fogo na defesa de Chico Chicote, pelas quatro da tarde o fogo recuou um pouco e Antônio da Piçarra chamou Chico Chicote para romper o cerco e vir se refugiar ao lado da tropa, no que foi rechaçado pelo sitiado, ele ficaria ali até a morte.

Uma hora depois, outro componente do plano , se evidenciaria. Chegava no campo de batalha a volante pernambucana de Arlindo Rocha e  a volante paraibana do tenente João Costa; a esses se somavam homens do poderoso Zé Pereira (foto ao lado), comandados por Sinhô Salviano, terrível inimigo de Chico Chicote e protegido do coronel de Princesa. Com a chegada do reforço das volantes o fogo intensificou, já eram mais de 10 horas de combate ferrenho, àquele momento o grupo de Porteiras percebeu que combatia forças policiais e não o bando de Lampião, supostamente atacante das Guaribas; ali, o grupo recuou e acabou deixando Chico Chicote entregue a seu próprio destino.

Depois de um fogo cerrado de 31 horas de bala e com apenas Manel Caipora, Sebastião Cancão e Vicente Chicote, cai a resistência de Chico Chicote que é encontrado morto, ainda em posição de tiro. Virgulino a tudo ouviu, pois estava a pouco menos de uma légua do acontecido, mas não participou: “Se fosse amigo ia da uma retaguarda...” teria afirmado o rei dos cangaceiros.

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço
Fontes - Revista Itaytera  Volume 16 - Otacílio Anselmo; Cordel - A Tragédia das Guaribas, Maria do Rosário Lustosa da Cruz; entrevista Memorialista Napoleão Tavares Neves.

http://cariricangaco.blogspot.com/2017/02/a-saga-de-chico-chicote-e-o-fogo-das.html

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O TRIBUNAL DO JÚRI DE VILLA BELLA, PERNAMBUCO, JULGA O CORONEL CHICO CHICOTE – 1913 – ANÁLISE DE AUTOS DE PROCESSO-CRIME

 Por Hérlon Fernandes Gomes

Chicote
"Recebi cópia de libelo pelo qual sou acusado e do rol de testemunhas.
Cadeia pública, 3 de Novembro de 1913. Francisco Pereira de Lucena."
 

1. INTRODUÇÃO


Há alguns anos venho desbravando as fontes históricas, sejam na bibliografia conhecida ou nos documentos dos arquivos, acerca do personagem central de um romance, já em adiantada fase. Trata-se da pessoa do coronel Chico Chicote, brejo-santense radicado em Porteiras, na famosa localidade Guaribas, atacada em 1927, por quatro forças policiais e pelo consórcio de seus inimigos. Ele foi símbolo de poder naquela época, típico líder da era do bacamarte.

Um neto do próprio Chico Chicote, o advogado Djalma Inácio de Lucena, ao narrar o que sabia sobre as histórias do avô, contou-me sobre um júri à que fora submetido o coronel, na comarca de Belmonte, sem data certa. Não sabia maiores detalhes a respeito.

Com tais informações, em pesquisas na hemeroteca da Biblioteca Nacional, acabei por descobrir a notícia de um jornal, revelando a prisão de Chico Chicote, no ano de 1913, em Belmonte, Pernambuco.

Jornal do Recife - Terça-feira, 11 de Novembro de 1913.

Com esse fio, conversando com Valdir Nogueira, amigo que a família Cariri Cangaço me agregou, residente naquele local, conversamos sobre a minha sonhada vontade de poder encontrar os autos daquele processo-crime, certamente uma fonte de informações preciosas, considerando a oficiosidade dos atos judiciais.

Conversamos sobre muitos fatos curiosos da antiga Villa Bella; Valdir me disse que, por coincidência, seguiria até Recife, no dia seguinte, e daria um pulo no departamento histórico do Tribunal de Justiça do Estado do Pernambuco, onde o processo talvez estivesse arquivado.

Qual não é minha surpresa quando recebi os preciosos documentos: o processo de primeiro grau e a respectiva apelação.

Folha de rosto do Processo Crime - 1913 - Juízo Municipal de Belmonte.


Ao folhear as velhas páginas destes autos, senti-me como talvez se sentiram os arqueólogos que abriram a tumba de Tutancámon; ao transcrever os rebuscados manuscritos, senti-me como um Sherlock Holmes. Foi o mais próximo que consegui chegar do famigerado coronel.

Conforme CALEIRO, et al, os processos “são testemunhos dos costumes e da constituição do universo físico e mental do período analisado, bem como da ação da justiça institucionalizada. As imagens que se depreendem da leitura destes documentos descortinam relações de poder, amor, ódio, violência e solidariedade.”

O processo, presidido por uma autoridade de Estado, um juiz togado, respeitado o Contraditório e Ampla Defesa, é documento valiosíssimo para a pesquisa, porque seu conteúdo reflete “aspectos da vida cotidiana, uma vez que, interessada a justiça em reconstruir o evento criminoso, penetra no dia-a-dia dos implicados, desvenda a sua vida íntima, investiga seus laços familiares e afetivos registrando o corriqueiro de suas existências” (MACHADO, 1987, p. 23).

Compartilho, pois, com todos vocês da análise de transcrições relevantes de peças do dito processo. Certamente, minha intimidade com o processo penal facilitou-me a tarefa. É um precioso mergulho no tempo.

2. A DENÚNCIA

Por libelo crime em cartório diz a justiça pública, como autora, por seu promotor, contra os réus Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote; Antônio de Lira; José Luiz e Laurentino de Tal, por esta ou na melhor forma de direito.

E.L.C.

1. Provará que no dia 12 de Agosto de mil novecentos e seis, de 3 para 4 horas da tarde, no lugar Mameluco, deste município, os réus desfecharam diversos tiros de rifles em Félix de Tal, dos quais um o atingiu produzindo-lhe o ferimento descrito no presente sumário.

2. Provará que este ferimento por sua natureza e sede foi causa eficiente da morte do ofendido.

3. Provará que os réus cometeram o crime impelidos por motivo frívolo.

4. Provará que os réus cometeram o crime com superioridade em armas de modo que o ofendido não pudesse defender-se com probabilidade de repelir a ofensa.

5. Provará que os réus cometeram o crime com premeditação mediando entre a deliberação criminosa e a execução o espaço pelo menos de 24 horas.

6. Provará que os réus cometeram o crime com surpresa.

Nestes termos, pede-se a condenação dos réus nos graus máximos do art. 294, §1º, do Código Penal, por se dar nas circunstâncias agravantes do 39, §§2,º, 4º, 5ª e 13º do mesmo Código Penal.

E para que o crime se julgue, se oferece o presente libelo que se espera seja recebido e afinal julgado provado.

E. Custas

Requeiro a bem da acusação que tenham lugar as diligências legais e especialmente que sejam notificadas as testemunhas abaixo arroladas para comparecerem às sessões do julgamento a fim de afirmarem o que souberem e perguntado lhes for acerca do presente crime.

Rol de Testemunhas:

1. José Feijó de Medeiros

2. [?] Ribeiro de Melo

3. Antônio Feijó de Medeiros

4. José Pinho Celestino

5. Amaro Pereira de Araújo

6. Alexandre B [?] de Araújo

Umas residentes no Ceará, outras neste município

Villa Bella, 13 de Junho de 1913.


O Promotor Público

Januário Batista do Amaral

Libelo acusatório.

3. A INSTRUÇÃO PROBATÓRIA: MOTIVAÇÃO DO CRIME E INTERROGATÓRIO DO RÉU

O juiz presidente do Tribunal do Júri foi do Dr. Felisberto dos Santos Pereira, natural de Rio Formoso, zona da Mata de Pernambuco. Nascido em 1882 e formado em 1907, pela Faculdade de Direito do Recife, sendo colega do poeta paraibano Augusto dos Anjos. 

Destaco trechos relevantes a oitiva das testemunhas.

a) 1ª TESTEMUNHA

José Feijó de Medeiros

Que achava-se no campo, na qualidade de vaqueiro que era, no dia doze de agosto de mil novecentos e seis, data em que se deu o fato delituoso de que se trata, (…) quando ela testemunha vinha saindo de uma vereda que desemboca na estrada de Canabravinha deste termo, aí encontrou-se inesperadamente com o denunciado Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote, e mais três indivíduos aos quais ela testemunha não conheceu; que aí todos lhe disseram - boa tarde - e um deles dirigindo-se a ela testemunha disse-lhe que desse lembrança a Félix de Tal que agora iria levar carta no inferno; que logo após os citados indivíduos, todos armados de rifle, continuaram o seu caminho pela referida estrada e ela testemunha surpresa com o que acabava de ouvir, dirigiu-se imediatamente a sua casa, onde deixou a roupa de couro, digo de campo, logo se encaminhando para um açude próximo em que o citado Félix trabalhava; que em ali chegando encontrou ele à margem do açude referido, de pé e recostado a um pau, o aludido Félix, que apresentava um ferimento mortal na região lombar, produzido por bala, ferimento este que atravessando todos os tecidos da região, veio terminar do outro lado na região abdominal correspondente; que ela testemunha indagando de Félix o motivo de semelhante desgraça, este lhe respondeu que há poucas horas apenas fôra surpreendido no seu trabalho pelos denunciados Chico Chicote, José Luiz, Antônio de Lyra e Laurentino de Tal, os quais se aproximando dele ofendido, descarregaram-lhe cerrada carga de tiros, ouvindo antes Chicote dizer para seus companheiros: - O homem é este - que o próprio Félix disse a ela testemunha ter contado onze tiros na ocasião dos disparos e que não obstante estar armado de garrucha, tão atarantado ficou que dela não fez uso; que ela testemunha verificou na vítima além do ferimento descrito uma espécie de queimadura no braço direito, sendo de presumir que tivesse sido feita por alguma bala mal alvejada; que Chico Chicote e seus companheiros se aproximaram da vítima sem que esta pressentisse, tanto que ao passarem pelo rancho que Félix ali fizera para descanso nas horas mais quentes do dia, apanharam o rifle do mesmo Félix que ali estava, carregando-o depois do fato; que a opinião corrente e mais segura é a de que o motivo do crime foi determinado pelo fato de Félix ter dito ao seu patrão e compadre Manuel Chicote, irmão do primeiro denunciado, que este havia pegado dolosamente uns bois de propriedade do referido Manuel Chicote; que dias depois José Chicote, também irmão do referido denunciado, fez público que o fato fora levado ao conhecimento de Manoel Chicote, por Félix; que inconformado [?] com a denúncia de Félix, Chico Chicote prometeu que tomaria uma vingança, seria logo que se encontrasse com o mesmo Félix; que este sendo avisado do sinistro que contra si se tramava, resolveu mudar-se para Mameluco deste termo (...)

b) 2ª TESTEMUNHA

De...do Ribeiro de Melo:

(…) Que estava em sua casa no lugar Mameluco deste termo, por volta de quatro horas da tarde do dia doze de agosto de mil novecentos e seis, quando aí chegou José Feijó de Medeiros, e lhe disse que a curta distância dali e num açude em que estavam trabalhando Félix de Tal e outros trabalhadores, com uma garruncha, dela não se serviu, que além desta arma Félix tinha no rancho em que costumava descansar, e ali também situado, um rifle que os criminosos após o delito carregaram; que o motivo do fato delituoso referido é público e notório, foi ter Félix, quando morava no Cariri, denunciado de Chico Chicote ao patrão dele Félix, Manuel Chicote, irmão do denunciado, por ter este pegado uns bois do irmão com dolo; que sabedor desta denúncia Chico Chicote ficou seriamente [ilegível] com Félix, prometendo que desforraria do seu atrevimento na primeira ocasião em que o encontrasse. Que devido a este incidente, Félix deixou a companhia de seu patrão e veio para Mameluco, onde há apenas um mês se achava trabalhando no aludido açude; que Chicote e os seus companheiros sabendo o paradeiro de Félix vieram a seu encontro (...); que incontinente ela testemunha saiu de casa em demanda do açude ali encontrando Félix banhado de sangue e apresentando um ferimento produzido por bala de rifle, a qual penetrando na região lombar esquerda e atravessando os intestinos veio sair na região abdominal correspondente próximo ao umbigo; que dirigindo-se a Félix perguntou-lhe como se dera aquele fato, ao que este respondeu que estando no seu trabalho foi de surpresa acometido por Chico Chicote e mais três indivíduos (...) que sobre a conduta do primeiro denunciado, ela testemunha tem ouvido dizer ser muito irregular por se ele homem perverso e dado ao cangaço; que dos outros denunciados nada sabe por não ouvir dizer, nem conhece-os; que o morto era homem trabalhador e de bons costumes. E por mais não dizer nem lhe ser perguntado, deu-se por findo este depoimento, que lido e conforme assina a rogo da testemunha.

c) 3ª Testemunha

Antônio Feijó de Medeiros

(...) que conhece desde menino Chico Chicote, e faz do mesmo péssimo juízo, pois sempre o conheceu como turbulento e dado ao cangaço, sabendo igualmente que ele é autor de outros crimes além deste, no Estado do Ceará, embora lhe conste não estar sujeito a processo naquele Estado; que o seus corréus, segundo consta, são cangaceiros de profissão, mas ela testemunha nada sabe de positivo a respeito da conduta dos mesmos; que relativamente a Félix o conhecia de pouco tempo, mas sempre o viu proceder com correção, mostrando-se trabalhador e honesto.


d) 4ª Testemunha

José Pedro Celestino, conhecido por José Dutra, com cinquenta e oito ano de idade, casado, agricultor, natural do Estado da Paraíba, residente em Porteiras, Estado do Ceará, não sabe ler nem escrever, aos costumes disse nada, testemunha jurada na forma legal, prometeu dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado.

E sendo inquirida a denúncia de folhas, que lhe foi lida, respondeu: que no dia em que se passou o fato criminoso, ela testemunha achava-se no lugar, digo, no local em que o mesmo fato se passou, num açude em que com Félix estava trabalhando; que ela testemunha achava-se em cima da barreira do açude e Félix embaixo marcando a parede do mesmo açude, quando de repente ouviram o estampido de sucessivos tiros e a voz do denunciado Chico Chicote chamar - "Morreste, negro', que Félix, implorando em gritos a proteção divina procurou fugir à sanha dos seus agressores, correndo de riacho acima, ao passo que o tiroteio continuava; que ao saltar uma cerca recebeu uma bala, que penetrando na região lombar direita, perfurou os intestinos vindo sair na região umbilical produzindo grande derramamento de sangue acompanhado da expulsão de uma parte do tecido adiposo da aludida região; que do grupo criminoso ela testemunha conheceu bem aos denunciados Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote, e José Luiz, vindo a saber depois de fonte insuspeita que os outros eram Antônio de Lyra e Laurentino e de Tal; que Félix estava na ocasião armado de uma pistola pequena, mas dela não se serviu, tendo a fora dessa arma e num rancho ali também situado um rifle que os criminosos carregaram; que depois de praticado o crime o denunciado José Luiz quis obrigar a ela testemunha a entregar o aludido rifle que depois eles encontraram no aludido rancho; que o denunciado Chico Chicote disse a ela testemunha tempos depois que não tinha dado esse conhecimento no dia em que atiraram em Félix, porque então não estava ainda bem informado dos precedentes dela testemunha a respeito dele denunciado, aludindo assim a informações caluniosas que pessoas suas desafetas haviam dado a seu respeito ao mesmo Chicote; que o fato criminoso originou-se de uma denúncia que dizem Félix ter dado contra Chico Chicote aos irmãos deste, denúncia que se baseava no fato de ter Chico Chicote ilicitamente pegado uns bois de seus irmão; que divulgado esse fato, Chicote entrou a perseguir Félix, de modo tão tenaz que obrigou este a retirar-se da companhia de seu patrão no Cariri para vir trabalhar no Mameluco, deste município; que aí chegando não suspeitava sequer dos planos criminosos do seu desafeto por estar longe de suas vistas quando de chofre foi atacado pelo mesmo do modo já referido, o qual teve como companheiros os demais denunciados

4. INTERROGATÓRIO

Interrogatório do réu Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote.

Perguntado qual o seu nome, naturalidade, estado, idade e residência?

Respondeu chamar-se Francisco Pereira de Lucena, conhecido por Chico Chicote, natural do Estado do Ceará, com trinta e quatro anos de idade, casado, residente no município de Porteiras, do Estado do Ceará.

Perguntado qual o tempo de sua residência no lugar declinado?

Respondeu que há cerca de cinco anos.

Perguntado quais seus meios de vida e profissão?

Respondeu que agricultor e criador.

Perguntado se sabia ler e escrever?

Respondeu que sim.

Perguntado se sabia o motivo pelo qual era acusado e se precisava de algum esclarecimento a esse respeito?

Respondeu que sabe por ter recebido cópia do libelo.

Perguntado se conhece as testemunhas que juraram neste processo e se tinha alguma causa a opôr contra elas?

Respondeu que conhece a(ilegível) a de nome José Dutra, que é parente do morto, sendo as demais suas desafetas.

Perguntado se tinha algum motivo particular a que atribua a acusação?

Respondeu que não.

Perguntado se tinha fatos ou provas que justificassem ou mostrassem sua inocência?

Respondeu que tem e o seu advogado oportunamente dirá.

Perguntado se tinha mais alguma causa a declarar ou esclarecer?

Respondeu que não.


6. VEREDICTO




O júri depois de haver nomeado dentre si por escrutínio secreto e por maioria absoluta de votos, o seu presidente e secretário da leitura recomendada pela lei e mais formalidades desta, respondeu aos quesitos pela maneira seguinte:

Ao 1º quesito:

Não, por nove votos

O réu Francisco Pereira de Lucena, vulgo Chico Chicote, de 3 para as 4 horas da tarde, do dia 12 de Agosto de 1906, no lugar Mameluco deste Município de Belmonte não desfechou tiros de rifle em Félix de Tal produzindo-lhe o ferimento descrito no corpo de delito [ilegível] deste sumário.

O júri deixa de responder aos demais quesitos por se achar prejudicado com a resposta do primeiro.

Sala secreta do Júri de Belmonte, 26 de Novembro de 1913.



Hérlon Fernandes Gomes, Porto Velho, Rondônia, 11 de Outubro de 2021.

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MARIA BONITA

 Por Itamar Nunes Art.



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