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sábado, 16 de março de 2019

HOJE É O ANIVERSÁRIO DO DR. PAULO BRITTO

Por José Mendes Pereira
Foto do acervo do pesquisador do cangaço Itamar Da Silva Baracho

Hoje o aniversariante é o ilustre Paulo Britto filho do tenente João Bezerra da Silva o homem que na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, nas terras da cidade de Poço Redondo, no Estado de Sergipe, conseguiu acabar com a vida anárquica, sanguinária  e vingativa de Virgolino Ferreira da Silva o famoso e perverso cangaceiro capitão Lampião.

O blog do Mendes e Mendes e todos os seus colaboradores desejam muita paz, saúde, prosperidade, e que Deus continue te abençoando e seguindo os seus passos.

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PROJETO PAPO DE ACADEMIA



Projeto “Papo de Academia”:
*ELOS CONTEMPORÂNEOS DA POESIA BRASILEIRA*

*Realização*:
Academia de Cordel do Vale do Paraíba (ACVPB)
*Apoio:•*:
Programa de Inclusão através das Artes e da Música (PRIMA) - Governo do Estado da Paraíba

*Data*: 18/03/2019 (SEGUNDA-FEIRA)
*Horário*: 17 horas
*Local*: Casarão dos Azulejos
João Pessoa (PB)

*COMPOSIÇÃO DA MESA DE DEBATE*:
*Mediador*: Poeta Lau Siqueira 
(coordenador do PRIMA)

*Demais integrantes*:
*Poeta Rubenio Marcelo* 
Secretário-Geral da Academia Sul-Mato-grossense de Letras (ASL)

*Poeta Marconi Araújo* 
Presidente da Academia de Cordel do Vale do Paraíba (ACVPB)

*Historiador e poeta Wellington Corlet*
Membro do Instituto Histórico e Geográfico e do Instituto de Direitos Humanos de Mato Grosso do Sul

*Poeta Fernando Cunha Lima* (médico e escritor, membro da Academia de Medicina da PB)
*Poeta José de Sousa Dantas* (engenheiro civil e escritor)
*PRESENÇAS CONFIRMADAS*:
*Outros acadêmicos ACVPB*
*Escritores diversos do Estado da Paraíba e demais amantes da poesia*
*COMPAREÇA! PARTICIPE!*
Poesia Erudita e de Cordel, lado a lado, contemporaneidade em discussão. 
*Venha respirar LITERATURA*!
Próxima segunda-feira, 18/03, 17h, no Casarão dos Azulejos 
(Rua Conselheiro Henrique, 159, centro, João Pessoa - PB)


Trasladado da página do poeta, escritor, pesquisador do cangaço e gonzaguiano Kydelmir Dantas

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MIGUEL BEZERRA - A VIDA CRIMINOSA DE LAMPIÃO O REI DO CANGAÇO (1989)

https://www.youtube.com/watch?v=QV-PqdnCufU

Publicado em 7 de jun de 2017

Autoria de Apolônio Alves dos Santos, gravado no Rio de Janeiro, em junho de 1988. Faixa 03 (Lado B) do disco "Cangaço", volume N.º4 da série "A Arte da Cantoria", produzida pelo Instituto Nacional do Folclore e lançado pela Funarte entre 1984 e 1989. 

"Além dos pioneiros Francisco das Chagas Batista e Leandro Gomes de Barros, outros poetas continuaram e continuam dando vida ao tema. Apolônio Alves dos Santos, residente no Rio de Janeiro, é um dos poetas vivos que, atualmente, mais produzem folhetos sobre o assunto. A vida criminosa de Lampião o rei do cangaço (Lado B, 3), de sua autoria, foi cantada por Miguel Bezerra em junho de 1988 no Rio de Janeiro. Dada a extensão da poesia, cuja versão impressa tem 16 páginas, fez-se necessária uma redução e para isso tivemos a aquiescência do autor, que escolheu a parte final do folheto e escreveu uma sextilha* introdutória especialmente para a gravação." (Rosa Maria Barbosa Zamith e Elizabeth Travassos) 

*Sextilha: "As cantorias são sempre iniciadas e terminadas por sextilhas com versos de sete sílabas na fórmula ABCBDB, isto é, rimando entre si os versos 2º, 4º e 6º, e com rima obrigatória da "deixa", que é uma reminiscência do leixa-preen dos trovadores medievais. Na "deixa", o 2º cantador inicia sua estrofe rimando o 1º verso com o último da estrofe do 1º cantador." (Sebastião Nunes Batista "Regras de Cantoria") 

Nessa gravação há o desfecho da história; primeiramente com a prisão e morte de Jararaca, após o ataque a Mossoró em 1927; e depois a morte de Lampião, "nos braços de sua Maria Bonita", na Grota do Angico, em 1938. Novamente há uma dualidade entre o bandido e o anti-herói, os dois cangaceiros não morrem completamente, suas figuras míticas continuam presentes no imaginário popular, algo explicado no texto: 

"Em outro trabalho (Borges, 1987), propusemos dois modelos básicos de estruturação da narrativa dos folhetos sobre anti-heróis como João Grilo e Cancão de Fogo. Os referidos modelos, com algumas modificações, poderão servir como pontos de referência para a elaboração dos esquemas narrativos básicos para a estórias do cangaço, na literatura de cordel, aqui sinteticamente colocados: 

Modelo A* ... Modelo B: Relatos da permanência (não morte, metafórica) do herói mítico/ cangaceiro, geralmente em termos de confronto com seus opositores, sendo alguns desses personagens já consagrados no cordel... 

A relação narrador/ narratário (com ou sem discurso avaliativo e/ou reflexão metapoética), ocorre, frequentemente, nos folhetos enquadrados nos dois modelos. 

A relação amorosa entre um cangaceiro e uma mulher cangaceira, cujo protótipo é o par Lampião/Maria Bonita, tem sido um leitmotiv*, principalmente nos folhetos da era pós-cangaço. Sem fazermos comentários mais detalhados, podemos dizer que esses dois arquimodelos refletem a estruturação básica dos 260 folhetos examinados e encarados no seu conjunto, relacionados de uma certa forma, com as duas fases citadas." (Francisca Neuma Fechine Borges UFPB) 

*O modelo A, que fala sobre as diferentes formas de representação do cangaceiro está disponível na descrição do vídeo da faixa 01 (Lado B): https://www.youtube.com/watch?v=XGI5f...

*Leitmotiv: tema melódico ou harmônico destinado a caracterizar um personagem. 


"A Arte da Cantoria" 

"Através da série A Arte da Cantoria, o Instituto Nacional do Folclore procura documentar e divulgar os gêneros, estilos, temas e artistas da cantoria nordestina. Aos volumes anteriores - Literatura de Cordel, As Regras de Cantoria e Ciclo do Padre Cícero - vem somar-se agora este disco - Cangaço. O tema do cangaço tem sido destacado como um dos mais frequentemente tratados por cantadores e poetas. Em algumas classificações temáticas constitui um ciclo, dado o volume de poesias impressas em folhetos que tratam da vida e das façanhas de Lampião, Antônio Silvino e, secundariamente, de outros personagens. Também são numerosos os testemunhos do fascínio que os cangaceiros exerceram, durante e após seu principal período de atividade, sobre os cantadores-repentistas. 

Este mesmo tema, que tem inspirado uma vasta produção artística nos campos da literatura, música, artes plásticas e cinema, é aqui abordado por poetas e cantadores contemporâneos que estão entre os nomes mais expressivos das tradições da cantoria e da literatura de cordel." (Amália Lucy Geisel, Diretora do INF) 

Ficha Técnica: Gravações: realizadas em Olinda e Recife em novembro de 1987; no Rio de Janeiro em maio e junho de 1988. Pesquisa e edição: Rosa Maria Barbosa Zamith (Escola de Música da UFRJ) e Elizabeth Travassos (Núcleo de Música do INF). Montagem: Antônio Barbosa (Sonoviso). Capa: xilogravura de Erivaldo Ferreira da Silva. Encarte: xilogravuras de Marcelo Soares Programação visual e arte final: Sonia Maria de Moraes Pitombo. Produção: Instituto Nacional do Folclore.

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ENTRE COBRAS E CANGACEIROS

https://www.youtube.com/watch?v=7GAiD_OsEYA

Publicado em 22 de dez de 2014

Lampião o Rei do Cangaço do nordeste brasileiro quando perseguido pelas forças volantes, costumava esconder-se no Raso da Catarina no sertão da Bahia. Foi morto em Sergipe, na grota do Angico, sertão de Sergipe.

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CANGACEIRO "MORENO" EM ENTREVISTA À REDE RECORD

https://www.youtube.com/watch?v=71DUz7E5IPw

Publicado em 9 de mar de 2018

Da o seu like pra fortalecer o nosso projeto ok? isso ajudará na divulgação da nossa cultura. aprecie tbm os outros videos do canal, Se possível se escreva e faça parte deste projeto.

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LAMPIÃO EM SERGIPE

https://www.youtube.com/watch?v=juJr9WxRWTE

Publicado em 29 de abr de 2018

O Odisseia Cangaço foi até o município de Carira, em Sergipe, para falar sobre a primeira entrada de Lampião e seu bando em terras sergipanas, fato esse que marcou a história do Cangaço, pois foi em terras sergipanas que o Capitão passou seus últimos anos de vida.
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CAÇANDO ONÇA

Clerisvaldo B. Chagas, 15 de março de 2019
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.074

Apesar da bisonha trajetória da fauna brasileira, as histórias de onças continuam no imaginário popular. É do avô para o neto, é do caçador para admiradores, é dos mentirosos para rodas de amigos. É possível observar ainda através de vídeo, caçadas de onça com cachorros. Cachorrada espantando, acuando e cercando a pintada em cima, nos galhos da árvore. Em baixo, o predador de duas pernas com espingarda boa, marca mais um tento contra a preservação da natureza. Isso faz lembrar a anedota do matuto polêmico que matou uma deles e tirou o couro. Passa um sujeito e pergunta: “Esse couro é seu?”. “É não senhor, é da onça”. “Vai fazer o que com ele?”. “Vou vender na rua”. “Homem, diga pelo menos se Deus quiser”. “Se ele não quiser, eu vendo o outro...”.

ONÇA-PINTADA (FOTO: PREFEITURA DE CÁCERES

       Assim torna-se bonita a caçada à onça realizada de forma diferente, na televisão. Caçada pelos profissionais da vida, visando a captura e os estudos completos sobre o formidável felino.  Trabalheira medonha para se obter êxito com as armadilhas. Depois, sedar o animal e fazer serviço completo. Medir peso, altura, examinar o sangue, condições das garras, dentição, verificar idade, sexo, doenças... Tudo sendo cuidado por biólogos, veterinários e outros profissionais afins. Maravilhoso trabalho pela preservação da espécie e que estimula a torcida pela natura através da televisão. E os lugares onde os grandes animais já foram extintos, nem foto de onça, na parede. Muito interessante para essa geração às boas reportagens com qualidade, sobre o tema exposto.
No Brasil temos a onça-pintada também chamada canguçu; e a onça-parda conhecida ainda por suçuarana. Ambas habitavam o Brasil inteiro. No semiárido existem casos e casos sobre a onça-parda que não possui o mesmo desempenho da pintada. Comum é se dizer em momentos de decisão: “É hora da onça beber água”. Até indiretamente o bicho aparece, como cantou o cordelista referindo-se às mulheres na praia:

“A nêga levanta a perna
A gente vê a caverna
Da onça suçuarana” (...)

Avé maria!


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DISTORCERE


Francisco de Paula Melo Aguiar


Distorcer, desvirtuar sentido
Alteração da forma normal
Posição da palavra ou dito
Certo ou errado informal.

É sofrer distensão
Ilação, física ou psicológica
Distorcer não é endireitação
Certo ou errado sem lógica.

Distorcer é pensar e falar agosto
Destorcer com ou sem esforço
É virar para o lado oposto
Desvenda trama, intriga e forço.

Ambas às duas
São palavras cognatas
Irmãs parecidas, suas
De discursos e serenatas.

Destorcer está certo
Assim como distorcer
Prosa e verso, decerto
Do elogiar e do ofender.

Distorcer e destorcer
Verbos de segunda conjugação
Diferentes significados no ser
Palavras parônimas, divagação.

O fósforo queimado
Não acende lamparina
Para ser lembrado
Hormônio sem rima.

Enviado pelo autor 

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MARIA BONITA E OS CÃES DO CANGAÇO

Por José Mendes Pereira
Foto colorida pelo professor e pesquisador do cangaço Rubens Antonio

Esta é a companheira do cangaceiro Lampião. Ela é Maria Gomes de Oliveira conhecida mundialmente como Maria de Déa. Ela nasceu nasceu no estado da Bahia e faleceu na Grota do Angico em Poço Redondo no Estado de Sergipe, na madrugada de 28 de julho de 1938. Foi a primeira mulher a ingressar num grupo de cangaceiros. 

Maria Bonita nasceu e cresceu no povoado Malhada da Caiçara, que se localiza no município de Paulo Afonso na Bahia, e na época  era município Santo Antônio de Glória.

Foi casada com o sapateiro Zé de Neném, com o qual não gerou filhos e devido ao fracasso de seu casamento, no ano de 1929 conheceu Virgolino Ferreira da Silva com quem viveu dentro da caatinga até o dia da sua morte. 

Maria Bonita engravidou quatro vezes e que em duas gravidezes perdeu os filhos. Comprovadamente ela teve uma filha com Lampião de nome Expedita Ferreira que foi criada por um casal de amigos vaqueiros. 

Maria Gomes de Oliveira era chamada desde a infância de Maria de Déa, em referência à sua mãe. Nem a família nem o bando de Lampião a tratavam por Maria Bonita, apelido que só se difundiu após sua morte. 

Há algumas versões sobre a origem desse nome. Uma delas diz que se tratou de invenção dos repórteres dos jornais do Rio de Janeiro, possivelmente inspirados no filme Maria Bonita, lançado em 1937 e baseado na obra de mesmo nome de Afrânio Peixoto, de 1921. Outra, que teria sido dado por soldados que se impressionaram com a beleza da cangaceira quando ela foi morta em 28 de julho de 1938, aos 27 anos.

Fonte de pesquisa: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Bonita

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O DELEITE DE VOLTA SECA O PASQUIM ENCOSTA NA PAREDE O "JÉSSE JAMES" DO NORDESTE.


Quando a estrada chegou ao Sertão um tipo de banditismo e rebelião estava fadado a desaparecer. O cangaço morreu de morte natural, substituído por outros tipos mais sofisticados de rebelião e assim vai a vida e assim todo o mundo e a Lusitânia. Alguns homens, poucos, sobraram para contar a história. Entre eles a figura pequena, frágil e ainda perplexa de Volta Seca, que matou pela primeira vez aos 10 anos, entrou para o bando de Lampião aos 11 e foi preso e condenado à prisão perpétua (minto, há 145 anos) aos 14. Aqui está ele, entrevistado pelos cabras D'o pasquim, lembrando a dor, a injustiça, a luta contra a morte dia a dia, revivendo as angústias do Sertão na paz de uma casa em Santa Cruz (zona rural do Rio), cercado pela mulher e pelos 13 filhos. (Millôr)


Millôr - Nós estamos aqui com o maior entusiasmo para entrevistar Volta Seca, uma das figuras históricas do movimento de rebeldia do início do século, no Norte do País. Volta Seca, você nasceu no Sergipe, em que ano, hein?
- Eu nasci em 1918, dia 13 de março.

Millôr - Você entrou para o bando de Lampião com que idade?
- 11 anos.

Millôr - Qual foi o motivo principal que levou você a entrar no bando de Lampião?
- Foi quando eu perdi minha mãe. Meu pai, depois de uns seis meses, mais ou menos, arranjou ama dona e botou dentro de casa. E essa dona, então, queria maltratar as minhas irmãs...

Jaguar - Vocês eram quantos em casa? - Nós, em casa, era doze. 

Ziraldo - Então você ganhou de seu pai.
- Ganhei!?

Ziraldo - Você tem 13 filhos. né? Quer dizer que você ganhou de seu pai de 13 a 12, né?
- Ganhei, então. Bom, eu achei que aquilo não estava correndo ama coisa certa. Porque, para bater nos filhos, só mesmo os pais... Ela pegou um tamanco e jogou na cara da minha irmã. Eu não gostei. Aí, eu fui pra falar com ela e ela achou que tava ruim. Aí eu peguei o tamanco e joguei na cara dela também. E daí eu dei o fora.

Ziraldo - Sua mãe morreu de quê? - Minha mãe morreu doente na cama mesmo. 

Millôr - Que profissão tinha o seu pai? - Meu pai era lavrador. 

Millôr - Ele tinha alguma terra?
- Tinha muita terra, tinha muita terra, mas foi indo... homem casado duas vezes, né? Então... ele também morreu, já bem velhinho.

Millôr - Vocês viviam bem enquanto ele estava vivo? - Bem, multo bem. Nós vivia bem mesmo. Nunca passamos necessidade nenhuma. Mas no dia que a minha mãe morreu... Desse dia, acabou tudo... 

Millôr - Você já tinha escola com 11 anos?
- Nunca tive nada. Nada...

Millôr - Você hoje sabe ler e escrever?
Não. O que eu sei apenas é assinar meu nome. E alguma bobagenzinha assim...

Jaguar - Fazer conta, cê sabe?
- Conta? Ora, com efeito.

Millôr - Aí você saiu pelo mundo e foi para onde? Pra Aracaju?
Não, eu saí pelo mundo sem destino.

Ziraldo - Você fugiu de casa?
- Perfeito.

Millôr - Você morava a que distância de Aracaju?
- A seis léguas. Em Itabaiana Grande.

Millôr - Você saiu a pé, levou algum dinheiro, alguma coisa?
- Nada, nada. Só a roupa do corpo.

Millôr - E comia, e vivia, como? - Eu chegava naquelas fazendas e eles me davam comida. Eu procurava um dia de trabalho, ia trabalhar. Mas o trabalho era muito pesado, num dava pra mim. Eles arrumavam pra eu vender doce. No fim não me pagavam também, dizia que o trabalho que eu fazia de vender doce era somente pra comida. Adespois, eu saí pelo mundo sem destino. porque não tinha ninguém por mim. Só Deus. O velho, depois, mesmo cansado, viu que tava errado e foi em busca de mim. Mas, eu nem quis voltar mais.

Ziraldo - O seu pai chegou a te chamar, a conversar com você?
- Uns dois anos depois ele me achou. Eu estava em Cemandiase.

Jaguar - Ainda tava trabalhando de biscates?
- Não, eu já andava carregando água em animal, para me manter. Ganhava dois tostões por dia, três tostões. E sempre me virando.

Ziraldo - Você ai, tinha onze anos.
- Não, ai eu tinha menos. Eu saí de casa quando tinha nove anos.

Millôr - Você entrou para o bando em 1929. Lampião já era famoso, tinha mais de 10 anos de cangaço, e já era o terror de todo aquele lugar. 
- Ele era conhecido por todo mundo. Mas eu mesmo não conhecia ele.

Millôr - Mas você já tinha ouvido falar, né?
- Ouvia falar que existia aquele homem e tal, com aquela turma toda...

Millôr - O lugar em que você vivia, não era aterrorizado por Lampião?
- Não. Nem nunca foi lá; Eles não sabia, de nada disso.

Ziraldo - Você andava trabalhando, vendendo doces, carregando água... Quando que houve a decisão de você procurar o homem? Ou foi por acaso? Conta pra gente cumé que foi.
- Eu num procurei ele. Teve um sujeito que - já depois de eu ter saído da companhia de meus irmãos, minhas irmãs - abusou de minha irmã. Então, eu fui lá saber o que tinha havido. Uma irmã mais velha que eu tinha, que quase foi minha mãe de criação, chegou pra mim e disse: "Olha, meu filho, isso não é caso de você nem saber. Papai é um homem velho e vamos ver como é que vai dar isso, sem ele nem saber". Eu digo: "Não, o papai deve saber". Os meus irmãos mais velhos já eram casados. Uns já não estavam mais lá, e uns não tavam sabendo de nada. Bom, então eu mesmo vou saber. Aí fui saber dela o que tinha havido. Ela não quis dizer. Aí chegou outra irmã, e disse que tinha acontecido assim, isso, essas coisas e o sujeito era casado. Ai eu cheguei pra ela e disse: "Olha, nós vamos hoje avistar o delegado".

Millôr - Isso foi em Itabaiana, né?
- Aí ela disse: "Não, eu não vou". Aí eu disse: "Mas vai". Aí cheguei para o delegado - que era aliás compadre do nosso pai, compadre Zezé Reis - e disse:
"O compadre, aconteceu isso assim com minha irmã, e eu queria que o senhor tomasse uma providência." Ele aí disse: "Eu vou mandar chamar ele". Aí eu disse: "Mas o senhor vai mandar chamar ele, seu Zezé? Isso é caso do senhor mandar chamar? O senhor devia era buscar logo ele. O senhor como delegado podia buscar logo ele." Aí ele disse: "Eu vou mandar buscar logo ele."

Millôr - Você tinha que idade nessa época?
- Tinha 10 para 11 anos. O sujeito chegô lá - negrão forte e tudo. Aí, ele disse: "Pronto seu Zezé, eu estou aqui, o senhor mandou prender; eu não sei por que". Ele disse: Não,você deve saber. Essa menina aqui, você é responsável por ela, pelo que aconteceu".

Millôr - Que idade tinha a menina na época?
- 16 anos. Aí ele disse pro delegado: "Olha, eu vou dizer pro senhor: eu num vou casar com égua" .Com égua?! Eu olhei e esperei que o delegado diria. Aí o delegado disse: "Bom, então você vai embora e depois mando te chamar procê me dar esse depoimento certinho". Aí eu olhei pro delegado, olhei, Olhei, as lágrimas me veio nos olhos e pensei: "Mas, cumé que pode? Tá certo?" Aí eu fui diretamente para casa; Num tem nada não. A. justiça aqui quem faz sou eu mesmo. Ninguém vai fazer nada não. E o meu irmão disse: "Mas o que, meu irmão"? Eu disse: "Nada, não se incomoda". Então eu fui, comprei uma facazinha, que naquele tempo se chamava "salva - vida" e amolei. Ele disse: "Onde ce vai"? Eu disse: "Eu vou ali, eu vou ali que eu vou acertar o negócio hoje. O delegado não agiu, eu vou agir." Aí fui. Quando cheguei, encontrei ele, que ia entrando num armazém. Quando ele entrou no armazém, disse assim: "Eu quero um charuto "Sperdieck" e bota um conhaque "Macieira" que eu quero tomar.

Millôr - Isso era de dia ou de noite?
- Podia ser uma hora e meia da tarde. Aí, quando ele pegou o charuto e bebeu o conhaque, quebrou o charuto e botou na boca, eu disse assim: "Você vai botar na boca. Mas num vai fumar porque você não viu mulher parir égua." Aí eu encostei nele. Encostei, ele de sopapo em mim. Eu saindo fora, ele de sopapo e eu saindo fora. Na hora eu me esqueci da faca, nem da faca eu me lembrei. Eu só me livrando dele, aí eu piso numa casca de manga e escorreguei. Aí ele disse:
"Bom, sopapo num pega em você, não. Mas faca pega." Ele tirou uma faca e me deu uma facada debaixo da costela. Ainda hoje há uma marca. Aí, quando eu levantei, ouvi dizer: "Num mata o menino". A rua já tava cheia de gente: "Num mata num mata". E eu tô lutando com ele. Ai, aconteceu que eu levantei e dei uma cabeçada nele. Eu levei a cabeça, e ele botou a faca nas costas. Quando botou a faca, ele se entregou e eu botei nele...
Ziraldo - Onde, na barriga?
- Opa, em cima do umbigo dele. Ele nem saiu do lugar.

Ziraldo - Ele era.muito mais alto do que você? - Ah, era! Ele era forte. Aí, ele todo ensangüentado, um disse: "Olha, corre que a polícia vem ali". Aí, eu entrei numa casa, e uma moça ficou lavando o sangue. Eu tava sangrando igual uma rês sangrada. Aí sai, trepei em cima de um umbuzeiro. E tô vendo lá o bichão estirado pela rua. Mas o sangue descia muito. Aí, eu pensei: "Bom, a vida é essa mesmo". Saí, e atravessei uma maré. 

Millôr - Mar? - É, maré, ponta de mar. 

Ziraldo - Quando a água sobe vira maré; quando ela desce fica seco.
- É isso mesmo.

Ziraldo - Você atravessou nadando?
- É, e todo ensanguentado, já fraco...

Millôr - Itabaiana é zona do mar? - Não, é distante. 

Ziraldo - Mas tem umas entradas de mar?
- É, tem aquelas entradas de mar. Aí, eu fui direto pra casa todo sangrando. Minha irmã disse: "Mas o que que houve"? Eu disse: "Num quero nem saber. Você vai lá, vê se o revólver do pai tá, e traz aqui". Ela foi e disse: "Tem, mas tá sem bala .Eu disse: "Cê vai lá na loja. do tio Ozinho Dutra e diz a ele que o papai mandou pegar uma caixa de bala, uma caixa de bala 38". 

Millôr - Você estava sangrando o tempo todo?
- Tava sangrando. O sangue descendo e eu lavando com sal e tudo e não havia nada que parava. Aí, ela foi lá e chegou com uma caixa de balas, e eu disse: "Olha, eu vou embora. Porque eu sei que a Polícia já vem ai atrás de mim. O que eu tinha de fazer eu já fiz. Um dia, se não morrer, eu apareço". Aí, ela começou a chorar e eu disse: "Num chora, nem nada. Se chegar alguém aqui, cê diz que eu não passei e disse pronto, mais nada. Aí, desci e fui embora, me despedi dela. Na gaveta só tinha dois cruzados. Foi isso o que eu levei: dois cruzados. E me joguei no mundo.

Aparício - Dois cruzados correspondiam a quanto, naquela época?
- Ah! Muita coisa, comprava muita coisa. O que eu comprava com dois cruzados naquela época, hoje com dez contos eu não compro.

Millôr - Era uma moeda grande assim, né?
- Era, um níquel.

Ziraldo - Quer dizer que era como uns vinte, trinta contos no bolso.
- Não, não...

Millôr - Dava pra se alimentar quantos dias? - Uma semana, uma semana dava folgado. Aliás, com um vintém a gente comprava 4 bisnagas, dessas que a gente hoje. 

Millôr - E dois cruzados eram quantos vinténs?
- Um tostão era dez vinténs. Então, eu peguei o revólver com as balas. Uma irmã, minha namorava lá com um soldado chamado Miguel Lagoa, sujeitão alto. Então, quando ele soube do negócio, foi o primeiro a se prontificar para ir atrás de mim.

Ziraldo - Bom amigo esse pra família... 
- É. Ele disse: "Não, eu vou atrás dele. Num vou deixar maltratar ele. Eu mesmo prendo ele e trago". Então, eu saí, e cheguei num lugarzinho chamado Mangabira. (Macambira) Desci umas moitas e parei pra descansar. Daí a pouco, lá vem ele atrás de mim, ele e mais um outro, a cavalo atrás de mim. Quando eles deram comigo, apontaram de longe. Ai, ele disse: "Ô Antônio, para aí". Eu disse: "Num vou esperar nada"... 

Millôr - Antônio é o seu nome?
- É. Aí ele disse: "Espera que eu quero falar com você". Aí, o outro que estava com ele, disse assim: "Atira logo que ele é criminoso". Eu disse: "Atire logo"! E eu "aproveitei" ele.

Ziraldo - "Aproveitou" ele na bala... E o outro?
- É, atirei no outro também.

Ziraldo - Cumé que o outro chama? 
- Miguel Lagoa.

Ziraldo - O nome do primeiro, do crioulo que você matou?
- Ah, esse eu não sei.

Ziraldo - Mas ficou lá também? Acertou?
- Acertei.

Jaguar - No cunhado?
- É... No que queria ser meu cunhado, o Miguel Lagoa. Foi esse que recebeu o negócio, o outro correu. E eu não tinha nada pra fazer, fui atrás dele e ele disse: " Ah, num me mate não, não acaba de me matar..." E eu disse: "Não, matar eu num vou matar, não. Mas essa arma eu vou levar". Aí, eu apanhei a arma dos dois, amarrei na cintura, outra no ombro e sai arrastando.

Millôr - Você deste tamanhozinho assim...
- É... Cheguei na frente, tinha uma fazenda chamada Aricuri e o cara me disse: "Escuta, você quer me vender esse fuzil"? Eu disse: "Vendo". Ele: "Eu lhe dou 200 mil réis". Eu não sabia quanto custava, nem nunca tinha usado aquilo. Vendi: 200 mil réis. Aí, quando cheguei na frente, um outro fazendeiro me disse assim: "Olha, eu te dou um rifle com cem balas e ainda te dou 300 mil réis pelo fuzil." Eu digo: "Tá bom". Aí, eu cheguei na frente e digo: "Bom, o cara não me deu nada, só me deu 200 mil réis nesse.

." Eu disse: "Não, eu quero 500 mil réis; e me dá logo". Ele olhou assim. E eu disse: "Olha, quem tá perdido todo caminho não vai pra casa. Eu num tenho mais liberdade na vida, num tenho mais sorte na vida. A minha vida é essa mesmo". Ele aí foi lá, apanhou os 500 mil réis e me deu. 

Millôr - Os outros dois ficaram onde, o Miguel Lagoa e o outro?
- Aqueles ficaram pra lá, o outro correu.

Ziraldo - E as suas feridas já haviam cicatrizado?
- Continuou. Eu passei oito dias comendo folha do mato como bicho. Oito dias pra num me entregar à policia. Bom, aí eu disse: "O caso agora é morrer mesmo". Cheguei na casa de uma viúva, e ela me perguntou o que que tinha acontecido. Eu disse: "O caso foi esse, assim, e tal... uma briga e me furaram." E ela: "Mas meu filho, você tão novo!" Eu digo: "é..." Ela começou a chorar, foi lá no chiqueiro, apanhou lá a creolina. Já tinha bicho em todo canto. Eu vivia agoniado. Não podia dormir nem nada...

Ziraldo - Uma febre danada, né?
- Febre e tudo, fome... Mas aí, eu tava com dinheiro e digo: "Tá bom. E vou embora." Mas ela disse: "Filho, fica aí, que eu vou tratar de você".

Ziraldo - Cê lembra do nome dela?
- Agora eu não me lembro, não. Mas eu sabia o nome dela.

Ziraldo - Era perto de Itabaiana, ainda?
- Não, era perto de Simão Dias. Ela foi lá no chiqueiro, me deu remédio, me deu banho de malvão e aquele tratamento sério. Mas, toda noite a mulher chorava, toda noite. Aí, eu perguntei a ela, um dia: "Escuta, por que que a senhora tanto chora"? E ela: "Não, meu filho, é com pena de você. Você é muito criança, vive assim jogado no mundo, não tem ninguém. É por isso que eu choro." Eu disse: "Cumê que chamava o seu marido"? - o marido dela eu sei cumé que se chamava. Ele se chamava Davi. Era um bom vaqueiro. Ela disse assim: "Meu marido chamava - se Davi, meu filho, um desgraçado tirou a vida dele". Aí, eu pensei: "Ela falou isso.

Eu já tô sujo..." E comecei a dizer pra ela por que foi que eu tinha matado. Ela disse: "Então ele mereceu".

Millôr - Era o homem que você tinha matado?
- Não, esse aí era o caso da viúva que eu tava falando. Aí, ela disse: "Esse camarada ganha 5 mil réis, 10 mil réis, pra tirar a vida de qualquer um. Ele mora num lugar que não vai ninguém. Aí, eu digo: "Mas num vai ninguém, por quê"? "Porque lá, ele é pistoleiro e só vive disso. Vive ele e a mulher dele sozinhos, um lugar chamado Fundão". Aí, eu pensei, pensei... Quando foi negócio de uns 15 dias eu já tava andando, tudo cicatrizado, sem doer nada. Aí, eu disse: "Olha, eu não vou vingar a morte do seu marido, porque hoje eu já sou um sujeito perdido, sem nada na vida, num quero mais nada. Mas se a senhora me der o endereço dele, eu vou lá buscar ele. Ela disse: "Jorge" - Jorge era o filho dela - "vai lá, pega o Boa Dama (era o cavalo dela), cela e dá a ele". Ai, o menino foi lá e apanhou o cavalo, um cavalo alazão bom, bonito. Aí, eu digo: "O que é que a senhora quer dele"? Ela: "Eu quero a orelha". E eu: "Tá bom, eu vou trazer". Montei no cavalo e fui. Quando deu quatro horas da manhã, eu cheguei lá no fundão. Era um paredão alto, dum lado e do outro. E ele morava no meio. Eu cheguei e bati na porta.

Ziraldo - Cê lembra o nome dele?
- Não. Aí, quando eu bati na porta, a mulher velo, Eu disse: "Bom - dia". Ela perguntou: "O que é que você quer"? Respondi: "Eu queria que a senhora me arranjasse água." E aí, o homem perguntou: "Quem é que tá aí"? Ela disse: "Um moleque que tá querendo água". Aí ele disse: "Chô olhar pra cara dele. Eu não sei se isso é hora de tá pedindo água na porta de ninguém..."Ele chegou e foi logo me maltratando: "Isso não é hora de pedir água na porta de ninguém. Vai procurar água pros poços." Aí, eu disse: "Eu num vim aqui a fim disso, não. Eu vim aqui pra dar um tiro na sua cara".

". E ele: "Em minha cara!?" Eu digo: ". E ele começou, botou mesmo. Eu tá, ele tá. Eu tome, ele toma. Aí, eu dei uma. Ele quis tombar pra frente. Aí, ele botou o rifle, e quando esticou o braço, eu bati e o rifle caiu. E eu acompanhei ele. Ele saiu correndo e caiu esticado pela frente. E quando caiu, também, já caiu pronto. Aí eu disse: "Bom, ela pediu a orelha. Eu vou levar a orelha, beiço... Já vou levar tudo desse sem vergonha. Aí, cortei a orelha dele, cortei o beiço... Cheguei lá e entreguei.

Millôr - O que é que a mulher fez?
- A mulher dele não esperou não, ela se mandou. Aí, quando eu cheguei, eu disse pra viúva: "Olha, agora eu vou, eu só quero que a senhora me dá um café aí". Ela diz: "Pra onde você vai"?Eu digo: "Num sei". 

Aparício - Isso é no Sergipe?
- Não, isso é na Bahia. Fundão é na Bahia.

Millôr - Esse trajeto, da sua casa até a Bahia, você fez toda a pé?
- A pé, a pé.

Millôr - Nesse período todo vocês só tinha uma roupa, não trocava nunca? Estava sem sapatos?
- Sem nada, e descalço. E o chapéu tinha cortado as beiradas: só ficou a copa.

Millôr - E esse rifle era o famoso "papo-amarelo"?
- Não, era "cano-mamão". E aí, eu digo: "Bom: agora eu vou- me embora". E ela disse: "Então, toma esse cavalo pra você. Quando você achar que pode vender você vende. E é seu, pra todos os efeitos. E Deus lhe acompanhe". Eu digo: "Amém". Eu montei no cavalo e me joguei no mundo. Fui pra Bom Conselho, fui pras Antas, fui por aquele mundo todo, Jair Mulato, Santa Brisa, aquele mundo todo...

Millôr - Nesse período todo, você tinha contato com a cidade, você comia em algum lugar, conversava Com as pessoas? - Eu comia de qualquer jeito. Conversava, conversava com as pessoas. 

Millôr - Vivia uma vida mais ou menos normal?
- Não, num era normal. Era uma vida como de gato com rato. O gato lá e o rato...

Millôr - Sempre com medo...
- Sempre com medo. Então, eu digo: "Tá certo". Aí, saí. E quando cheguei num lugar chamado Goloso, na Bahia, eu digo: "Agora eu vou descansar um pouco. Vou pruma fazenda dessa aí, e ficar escondido, pra ver cumé que a barra tá, cumé que vai a maré por aí. Aí, fui lá pruma fazenda e cheguei dizendo que queria um trabalho. Escondi o rifle, munição e tal e me aproximei dessa fazenda. Isso, em Goloso. Aí, quando estou na fazenda, uma das duas mocinhas chegou e disse: "Mamãe, tem um garoto querendo trabalhar com a gente e ele vai pra roça com a gente e tal, colher melancia e plantar feijão, e essa coisa. O que que a senhora acha"? "Bom, deixa o seu pai chegar." Ele chamava Seu Ovídio. Aí, Seu Ovídio chegou do campo, e disse assim: "Ah, tá bom, tá bom meu filho. Cê tem pai"? Eu digo: "Não". Ele: "Tem mãe?" Eu digo: "NãoNum tenho ninguém por ninguém; só Deus e eu no mundo." Ele disse: "Então, você fica aí". Aí fiquei. Negócio de umas duas semanas que eu estava ali...

Ziraldo - Te pagavam alguma coisa?
- Nada! Pagava alguma coisa, porque eu trabalhava feito burro e comia à vontade, né? Mas eu ficava pensando. Eu, saindo daqui, vou andar nesse mundo à - toa, novamente. Mas, é o jeito. E só vendo perseguição: "Passou por aqui? Não, passou pra tal lugar", isso eles dizendo. "Num sei o quê... Ele é assim, assim..." E eu tô só escutando.

Ziraldo - Quem o perseguia?
- A polícia. Então, eu digo: "Num tem jeito não..." 

Millôr - Eles chamavam "os amarelos", naquela época?
- É. Culote.

Millôr - Era polícia de Sergipe; ou da Bahia mesmo? - Era da Bahia, do Sergipe... 

Ziraldo - Você já era famoso...
- Não.

Ziraldo - Famoso, eu quero dizer, já tinha toda a polícia atrás de você?
- É, atrás de mim.

Jaguar - Por enquanto você era só Antônio? Não era VOLTA SECA ainda não?
- Não, era Antônio, Antônio dos Santos. Mas aí, nesse lugar, um dia na roça, tô vendo aquele alvoroço, e digo: "Mas o que é que tá havendo"? E disseram: "É que Lampião chegou aí agora, em Goloso." Eu digo: "Lampião"? Ele disse: "É, com o pessoal dele todo..."

Ziraldo - Que ano era?
- Isso foi já em 28.

Millôr - Você já tinha 11 anos, né?
- É, onze anos. Aí, daí a pouco chega dois cabras lá na roça, onde nós estava. Chegou o Corisco e o Luiz Pedro.
 
"Volta Seca", ainda garoto, junto a um grupo de personalidades da Bahia.
Sentado, de óculos, o profº Arthur Ramos, que estudou o perfil antropológico do famoso cangaceiro-menino.

Millôr - Corisco era pouco mais velho que você, né?
- Não, Corisco era homem feito. Corisco, na minha época, já tinha os seus trinta e poucos anos.

Millôr - Todos armados?
- Tudo, tudo mesmo, completo.

Millôr - O bando já tava formado?
- Já. Aí, quando eles chegaram, disse: "Ei, garoto, vem cá, essas meninas aqui é suas"? "Não, eu trabalho aqui, moro com elas aqui." Aí ele disse: "Tem cavalo bom aqui"? Eu digo: "Eu num sei, tem um cavalo aí. Mas o homem tá no campo, tá capinando. Só tem um". Ele disse: "Bom, num tem nada. Minhas filhas, num tenham medo não que é só o pessoal do Lampião que está aqui. Agora, esse garoto vai conosco lá, pra lavar os animais". Aí elas começaram a chorar, e eu digo: "Deixa, num tem nada, não. Eu vou lá e volto já." E fui. Aí, quando eu cheguei lá, me apresentaram ele. Ele tava lá - o Lampião - tocando acordeom. Ai, eles disseram: "Pronto, capitão, nós trouxemos o garoto pra lavar os animais. Ele tava trabalhando na roça, descalço". Aí, ele disse: "Compra logo uma alpercata pra ele. Vai na loja e compra roupa pro garoto ai". 

Millôr - Você devia estar maltrapilho, né?
- Tava. Aí, eles compraram roupa pra mim. AIpercata, deram logo o chapéu... eu digo: "Êpa, o negócio aqui tá bom"! Aí ele disse: "Escuta, você vai lavar esses animais pra mim. depois, quando acabar, eu te dou um dinheiro". Eu disse: "Tá bom, sim senhor." Peguei aqueles animais tudo, fui lavar.

Millôr - Ele estava mais ou menos com quantos homens?
- Tava com nove homens só.

Millôr - Ele deixava o resto em volta, né?
- É.

Ziraldo - Maria Bonita tava com ele?
- Não, essa foi muito depois. Bom, aí, eles pegaram sabão... Sabão bom! Eu num tinha nem sabão massa pra tomar banho! Os cavalos tomavam banho era com sabão "eucalói", vidro de loção!...

Jaguar - Ele comprava, ou pegava no peito?
- Ele comprava. Então, eu dei banho nos animais e tanto dava banho de perfume de animais como em mim também, uaí!

Millôr - Você não tomava banho há muito tempo, né?
- Não, eu tomava.

Millôr - Mas não com "eucalói", né?
- Não com eucalói. Aí, pronto, tomei meu banho e cheguei com os animais... Aí, ele disse: "Agora vamos almoçar". Fomos lá pra casa do delegado mesmo, tava lá a mesa de fora a fora. Comida do que quisesse. Era galinha, carneiro, era boi, era tudo...

Ziraldo - O delegado era amigo dele?
- Naquela hora tinha que ser amigo de qualquer jeito.

Sérgio Cabral - Escuta, nessa altura, ele não sabia dos seus antecedentes?
- Não, não sabia nada. Aí eles cismaram. O Luiz Pedro chegou e disse: "Capitão, esse menino devia ir com a gente; ao menos pra lavar os animais ele tava bom". Eu disse: "Mas isso eu num posso fazer, não. Eu num posso fazer, porque eu estou trabalhando ali na roça." Aí ele disse: "Escuta, e se eu quisesse que você isse, você não ia"? Fiquei quieto e disse: "Bom, isso aí é um caso aí com o senhor. Eu num sei atirar, eu num sei fazer nada." Aí, ele chegou e disse: "Não, primeiramente você vai fazer um teste". 

Millôr - Ele disse essa palavra "teste", fazer um teste?
- É, fazer um teste. Aí ele pegou o fuzil dele e falou assim: "Olha esse fuzil, eu num erro com ele não, hem! Vão ver se você vai errar". Eu nunca tinha atirado de fuzil. Ele faz lá uma marca e disse: "Olha, você vai dar cinco tiros naquela árvore ali". E mandou o pessoal sair da frente: "Saiam da frente que isso não é certo não". E mandou eu atirar. Eu atirei. Aquilo não podia ser eu, nem ninguém. Por que vou dizer ao senhor que não tinha pontaria. Eu tava fazendo o troço lá. Fazia pontaria pra cá e ia direto no ponto.

Ziraldo - Acertou todos os cinco.
- Todos cinco assim. Aí, ele disse: "Você serve". Eu disse: "Ó capitão, eu não posso ir não. Eu já falei pro senhor... Aí ele me disse: "Você quer ir, ou quer morrer? Escolhe um dos dois". E eu: "Ora, não dá. Morrer, não. Eu vou, capitão.

Millôr - Você disse que o Corisco, nessa época, tinha mais de trinta anos. Mas o capitão tinha 28 anos, né? Ele nasceu em 1900, ele era mais novo que o Corisco, né? - Lampião era mais novo. Aí, acabamos de almoçar, ele me deu roupa, e disse: "Eu não tenho arma pra você. Mas pra você só um riflezinho maneiro, que é pra você ir treinando". Aí eu disse: "Eu tenho um. Tá lá na fazenda onde eu trabalho". Ele disse: "Então você vai buscar. E você vai sozinho. Num vou mandar ninguém com você não. E não vai fugir não, hem! Que se você fugir hoje, amanhã eu lhe pego." 

Ziraldo - Ele tava de óculos ? Tava com aquele ocrinho dele?
- Tava. Aí eu fui, apanhei o rifle e trouxe. Ele disse: "Ah, o menino serve".

Ziraldo - Mas, no fundo, cê tava querendo ir, né? - Não, num tava não. Eu tava a fim de cair fora daquele lado ali pra eles não me passarem a mão. Mas, nessa altura, eu fui. Quando chegou na frente, eles pegaram o cavalo e me deram. 

Ziraldo - O Boa Dama ficou lá na fazenda? - Eu deixei pro seu Ovídio e disse: "Bom, o cavalo fica aí. Eu num sei do meu paradeiro; só Deus é quem sabe". Aí o capitão foi dizendo: "Olha, todos esses homens que você tá vendo aqui, é todos por um e um por todos: é um por todos e todos por um. Então, você veja, se você tomar um tiro ali, eles estão aqui para lhe acudir; se um tomar também, você tá aí pra acudir. Então, num tem ás, reis. Eu sou o chefe que manda aqui. Mas, aqui, também vocês, tudo manda." 

Sérgio Cabral - O mesmo lema do escoteiro: um por todos, todos por um.
- É.

Ziraldo - Ele falou que não tem ás nem reis?
- É, que num tinha ás nem reis. Era tudo um só, num tinha grande nem pequeno. Agora, ele é que era o chefão. Mas aí, uns oito dias depois, eu não sabia de nada, eu não sabia de coisíssima nenhuma, ele disse: "Olha, na hora que nós encontrarmos com os macacos, aí é que você vai ver. Por enquanto nós não encontramos com ele nem nada. Mas na hora que nós encontramos com os macacos, o tiroteio vai comer."

Sérgio Cabral - Macaco era polícia, né?
 - Era, mas eu não sabia o que era. Macaco pra mim era macaco mesmo. Num sabia de nada. Aí, nós viemos viajando, e quando chega uma estrada Lampião disse: "Olha, você fica aqui, porque nós vamos descansar ali. Se surgir algum macaco, cê vai avisar a gente". Eu disse: "Ta bão". Aí, ficaram lá, debaixo de um pé de umbuzeiro e tal. E tão lá descansando.

Millôr - De quantos eram, então? - Bom, nessa altura, nós era dez, contando comigo. 

Millôr - E o Lampião não sabia do seu passado, né?
- Não.

Ziraldo - Você ainda se chamava Antônio?
- Era Antônio.

Ziraldo - Você não sabia o que era macaco? - Não, não sabia o que era macaco. 

Ziraldo - Tava esperando sem saber, achando que era macaco de verdade.
- Perfeito. Eu tô ali, brincando, sentado na beira da estrada. Aí passou a turma de soldados. Pá e pá... passou aquele monte...

Aparício - Quantos soldados eram, mais ou menos?
- Uns quarenta, mais ou menos. Aí, eu to ali brincando e eles passando. Me viram sentado na estrada, nem ligaram... Quando eu cheguei lá, eles disseram pra mim: "Cumé que é, num tem passado macaco, não? Eu digo: Não senhor, só passou soldado". E ele disse: "Pra onde que foram"? Eu digo: "Passaram pra lá, iam uns quarenta pra lá". 

Millôr - Mas ele não ficou zangado com o fato de você ter errado?
- Não, não ficou não. Ele pegou a rir com os outros lá.

Millôr - Quer dizer que ele era um homem de bom humor?
- Era. Aí ele disse: "Bom, agora nós vamos preparar e atravessar pro outro lado, porque eles vão voltar. Eles vão encontrar o nosso rastro. Num encontrou o nosso rastro pra frente, eles vão voltar. E aí é que o negócio vai chegar. E você num sai de perto de mim." E eu: "Sim senhor. Ele aí disse: "Cê num sai de perto de mim. O lugar que eu teje, cê tá comigo." Como de fato, eu fiquei ali com ele.

Millôr - Você, naquele momento sentia medo?
- Não. Aí, quando foi um pouco, eles se chocaram com uma outra força. Já vinha outra de lá pra cá, se chocaram um com o outro, e aí começou o tiroteio.

Ziraldo - Chocaram como?
- Com a polícia mesmo. Aí se formaram uma lamenta, pegaram a atirar.

Millôr - As duas guarnições de policia eram da Bahia?
- Era. Aí, toparam um com a outra.

Jaguar - Mas por que entraram no tiro uma com a outra? Medo?
- Era. Porque eles vinham no rastro da gente. De lá já vinha a outra e se chocaram as duas. Aí, pegou o tiroteio. E ele disse assim: "Olha só, os macaquinhos se encontraram um com o outro mesmo; deixa eles gastarem bem munição, que depois eu encosto". Como de fato, foi indo, foi Indo... Aí pegaram a dizer: "Não, num sei o que, e tá, num sei o que..." Aí, se compreenderam, e volta eles de lá pra cá. Aí, Lampião disse: "Agora, chegou a nossa vez". 

Millôr - Sempre foi muito calmo, né?
- Calmo, muito calmo. Ai, mandou brasa! E começou o tiroteio. E ele disse: "Você não sai mais daqui e pode tocar fogo neles". Eu comecei a perguntar: "É pra atirar mesmo neles, ou cumé que é"? Ele disse: "É pra atirar neles mesmo, uai". Eu digo: "Ué, essa raça tem que morrer tudo"! 

Sérgio Cabral - Cê num sabia de nada?
- Sabia de nada não. Estava sem saber de nada.

Millôr - Você não tinha a menor noção da importância de Lampião?
- Não, não. Já tinha ouvido falar, mas não sabia que o caso era aquele. Aí, o tiroteio começou a comer e eu só via nego gemendo, outro baleado... Ele disse: "Pode deixar que nós chega já aí, vamos dar remédio". Aí, eu digo: "Bom, como de fato vai dar remédio". 
 

Obs.: Nessa época, o mesmo já se encontrava preso, na penitenciária de Salvador/BA

Jaguar - Cê danou a atirar também?
 - Ó, e não? E atirando mesmo.

Ziraldo - E acertou quantos?
- E eu sei lá...

Ziraldo - Mas mandou bala pro lado de lá.
- Bom, isso eu mandei também. Aí, eles correram. Quando eles correram, Lampião disse: "Agora vão ver quem tá gemendo por ai". Aí, quando ele chegou, tava lá um cabo esticado...

Jaguar - Do grupo do Lampião não se machucou ninguém?
- Não, nem um arranhão.

Millôr - Vocês estavam de tocaia, estavam escondidos, né?
- Não, eles vieram e encontraram com a gente mesmo.

Ziraldo - Foi em campo aberto?
- Em campo aberto.

Jaguar - Todos a cavalo?
- Não, nós tava tudo a pé. Mas nós aí, pegamos a atirar e eles correram.

Ziraldo - Vocês atiraram como? Sentado no chão, em pé, encostados em árvore?
- De joelho. Esse negócio de atirar deitado é que já tá pedindo a morte.

Ziraldo - Só em filme.

...Jaguar - De joelho não oferece mais alvo, não? 
- Não, não oferece não. Isso aqui do homem, é uma linha... 

Aparício - O ombro, né? - É. Para uma pessoa atirar num homem de banda é obrigado a ser muito bom atirador pra poder acertar. 

Jaguar - Fica de lado, atirando de lado. né?
- Perfeito. Agora, se ele der peitos, que que ele quer? Então, Lampião mesmo dizia: "Todo mundo é assim". Ele fazia o teste, pra ver quem podia fazer retaguarda... Tudo isso ele fazia. Quando terminou aquilo tudo... Eu vou dizer mesmo. Eu num nasci pra isso, não. Mas a pobre justiça obrigou isso. O Norte fazia isso, porque, quem tem dinheiro, esse, num fazia nada. O que num tivesse, sambava mesmo. Isso é que num tinha nem vez. Então, o que que nós podia fazer?

Ziraldo - Pobre tinha é que morrer...
- É... Morrer. O Norte tinha mais era ignorância. O Brasil, nós podemos dizer que é Brasil, porque hoje, o próprio governo obriga a criança a estudar. Mas no meu tempo era um cabo de enxada, um facão pra cortar cana, e mais nada. O estudo era esse.

Millôr - Mas aí, você foi lá, tinha um cabo, termina de contar a história.
- O cabo já tava bem furado, muito mal, tava ruim. Aí, Lampião disse assim: "É macaco, você ainda vem atrás de mim? Desta, vez você num vem mais. Nem você nem esses outros que estão por aí. Zé, vai lá e dá um tirinho na cara dele pra acabar o resto". Eu olhei assim, e digo: "Eu, hem! Isso num tá certo não". Ele disse: "Isso é pra agora". Aí o cabo disse: "Ah! Num me mata não"" Ele disse: "Eu vou te matar com o teu fuzil. Eu num vou gastar a rala do meu fuzil em tu. É o teu mesmo". Ai, pegou o fuzil e pum!

Jaguar - O próprio Lampião?
 - Não, o Zé Baiano. O Lampião mandou o Zé Baiano. Aí, eu olhei e digo: "Ih, o negócio aqui não é bom, não, Mas o que que eu posso fazer"? Aí, Lampião perguntou: "Tá com pena"? Eu digo: "Não senhor". E ele: "Se tá com pena pode dizer". Eu digo: "Eu não". E ele: "Cê tá vendo essa raça toda de gente que tá aí! Tudo anda atrás da gente pra matar. E se prender, eles matam aos pinguinhos. Foi assim que fizeram com o meu pai; foi assim que fizeram com a minha mãe. Então eu faço com eles também. Eu queria viver na paz com vocês todos. Mas já que tô perdido mesmo, tudo vai pra casa. Agora, tem uma coisa: morro ma num me entrego". Eu também disse a ele: "Eu também morro, mas num me entrego". E se num fosse um amigo meu que me prendesse, eu num ia preso não. Eles me matava, mas num ia lá preso. Porque o homem que bem souber o que é cadeia, vê uma porcaria que num vale coisa nenhuma. Eu escutei muito na cadeia: "Aí bandido, num sei o que..." Eu digo:
"É isso mesmo! É isso mesmo! Depois que a onça morre, é isso mesmo: todo mundo mata a onça; mas quando ela ta viva, vai lá! Eu escutei isso tudo. Deus me ajudou que eu aguentei tudo isso.
Jaguar - Quando tempo você ficou na prisão?
- 20 anos.

Jaguar - Onde você cumpriu 20 anos de pena?
- Na Bahia. De 31 a 53. Eu fui indultado. Eu peguei 145 anos. Eu pedi ao juiz pra me dar 140 ou completar os 150. Eles acharam até graça. (31, guardem esta data. Volta Seca dirá em um trecho que assistiu a batalha de Maranduba em "32")

Ziraldo - Arredondar logo, né? Peraí, mas em 1931 você tinha 14 anos, né? 
- Fui preso com 14 anos.

Jaguar - Ms não foi julgado com 14 anos não, é?
- Fui julgado com a idade de 16 anos.

Jaguar - Vamos voltar à história, depois a gente chega lá. - Não. É por isso que eu digo. Eles dizem que no Rio de Janeiro tem uma lei. Mas aqui tem uma e no Norte tem outra. Porque aqui, o advogado que vê um preso, vai saber logo porque foi, se ele tem razão, ou se ele não tem. Mas lá, não. Ele pegou bota pra lá. E ainda dizem: "Aqui é casa que a mãe chora e ninguém vê". E é mesmo, No entanto, Deus me ajudou, eu lutei, fui um preso exemplar, embora que tirei a pena um pouco a prestação também. Eles pensaram que eu estava lá e eu esta fora. Eu fugia mesmo. Era dar uma chance, eu pulava. Fugi de guarda, fugi pulando muro, fugi vestido de polícia... 

Ziraldo - Apanhavam você, sempre?
- Ora, num tinha pra onde eu ir, irmão.

Millôr - Mas vamos contando isso pela ordem. Vamos voltar: terminou o seu primeiro encontro com os macacos. E, depois?...

...Sérgio Cabral - Mataram todos?  
- Não, só morreram acho que três. 

Millôr - Quando estavam parados vocês faziam treino militar, tiro, essa coisa toda?
- Fazia, fazia.

Millôr - Qual foi o primeiro treino?
- O primeiro treino que Lampião deu pra mim foi atirar numa varinha de foguete fininha. Enfiava aquela varinha lá, mandava eu atirar...

Aparício - Quantos metros de distância? - Mais ou menos uns dez metros. Mas depois foi aumentando a distância. Então, quando já estávamos atirando mais ou menos, foi chegando mais prá lá e depois... 

Jaguar - E você ia acertando?
- É, ia acertando e ele aumentando a distância. Então, quando já estávamos atirando mais ou menos, Lampião pegava um linha de carrinho, carretel e atravessava uma vara prum lado e pra outro, para aquela pessoa ir atirando. Mas era mais perto. Se a pessoa acertasse, ia aumentando a distância, e quando chegava a uma certa medida ele dizia, "Bom, daqui pra frente não é possível porque não temos vagalumes à vista". Aí, voltava novamente e ia dar a instrução. Como era, como se carregava um baleado, cumé que fazia e tal...

Jaguar - Ah! Ele ensinava a tratar também, dar socorro, como se fazia curativo?
- Perfeito. Eu acho que aquela instrução dele, aquilo já veio de berço.

Sérgio Cabral - Você achava o Lampião um boa praça, um bom sujeito, ou era um sujeito difícil? - Eu achava um boa praça. 

Sérgio Cabral - Ele era um homem generoso?
- Era um homem atencioso, um homem respeitador.

Sérgio Cabral - Essas histórias que eles contam de maldades que ele fazia, que chegava numa fazenda, prendia os donos na gaveta e incendiava a casa...
- É mentira. Isso é mentira. Isso tudo eles arrumaram a fim da perseguição crescer mais sobre ele.

Ziraldo - Voltar a opinião pública contra ele.
- Sim, perfeito. Quer dizer, que revoltava.

Jaguar - O inimigo de Lampião era a polícia, não tinha outro inimigo não. - Não. Ele tinha outros inimigos. Quer dizer, os inimigos dele era a própria polícia mesmo. Bom, mas ele mesmo dizia que num tinha ódio tanto do próprio soldado como do contratado. Porque o contratado fazia tudo. Ele ia ao governo e pedia para ir à perseguição do Lampião. 

Ziraldo - O soldado tava na dele, uai.
- Bom, o soldado é soldado. Mas aqueles contratados é que iam pedir pra ir em perseguição do Lampião. Então, ele disse que se pegasse dez soldados e pegasse um contratado, ele soltava os dez soldados e matava o contratado.

Millôr - Você disse que ele não fazia tantas violências, pelo menos quando você o encontrou. Mas, por exemplo, em relação às mulheres, esses homens eram todos muito moços e viviam sozinhos. De vez em quando eles não assaltavam mulheres? Não havia essas violências, cê nunca assistiu nenhuma?
- Não, não havia. A primeira que eu assisti, ele mandou matar os três.

Ziraldo - Como foi? - Olha, no Prés do Burgo, no Juá e num arraialzinho,chamado Nambebé. 

Millôr - Nambebé?
- É. Então, ajuntou, Morão, Mormaço e Português. Então, chegou uma senhora dizendo que o Mormaço e o Morão tinham procurado violar a filha dela, a pulso. Ele mandou chamar logo os dois, e perguntou a eles quantas vezes na vida eles tentaram violar filha de qualquer cidadão. Aí, ele perguntou à dona se eles de fato tinha violado ela. Ela disse: "Não, violar num violou não, mas tentaram". Ai, ele disse: "Mas pra servir de exemplo, eu vou mostrar pra senhora". Mandou matar todos dois, o Morão e o Mormaço.

Ziraldo - Fuzilados?
- Foram mortos na Vargem, no Estado da Bahia, município de Santo Antônio da Glória.

Ziraldo - Foi ele mesmo que matou?
- Foi Lampião mesmo.

Jaguar - Amarrou os dois e fuzilou?
- Morreram soltos, soltinhos.

Jaguar - E o Português. o que tinha a ver com a história?
- Morreu também.

Ziraldo - Era o Mormaço?
- Era apelido de Português.

Sérgio Cabral - O nome dos dez primeiros integrantes do bando, você se lembra? Quando você chegou, se lembra bem da escalação do time?
- Lembro.

Ziraldo - Tinha uma hierarquia? Tinha o Lampião e depois?...

...Jaguar - Tinha um chamado lugar-tenente?
- Tinha, tinha aqueles que promovidos, vanguarda, retaguarda, linha de frente. Tinha os que eram promovidos por ele. Bom, então, tinha Corisco, Zé Baiano, Luiz Pedro, Virgino, Mariano, Cirilo, Antônio Desgraça, Labareda...

Millôr - Eu queria saber duas coisas. Primeiro, como é que Lampião falou da sua primeira participação em combate? Ele aprovou e disse: "Você, foi bem, menino"! Foi isso?
- Aprovou.

Millôr - Segundo, como é que surgiu o seu apelido de VOLTA SECA?
- Lampião mesmo disse: "Olha, de agora em diante, o seu nome de Antônio desapareceu. O seu nome agora é VOLTA SECA. Nenhum chama mais pelo nome". 

Ziraldo - Por quê?
- Ele não queria mais que chamasse pelo nome. Porque a Polícia, depois que soubesse, por exemplo, fulano, Antônio dos Santos, está com Lampião, eles iam atrás da minha família. Iam espancar a minha família. Ia bater, ia matar e essas coisas todas.

Ziraldo - E porque VOLTA SECA?
- Eu era franzino mesmo, e todos que chegavam eles botavam apelido. Num tinha motivo nenhum. Todo que chegavam eles botavam apelido.

Jaguar - Só para disfarçar.
- Só pra disfarçar.

Ziraldo - Ele te tratava assim como um pai? Você era um menino, ele tinha por você um certo carinho, ele dispensava a você um tratamento de garoto?
- Ele dispensava. Por exemplo ele sabia que eu não podia carregar muito peso e mandava que os outros me ajudassem a carregar o meu...

Ziraldo - Havia algum de idade mais ou menos igual a sua?
- Teve um só.

Jaguar - Depois de você, quem era o mais moço?
- Mais moço não tinha nenhum não.

Jaguar - Tinha algum de 16, 17 anos?
- Tinha de 16, 17, 18. A turma dele era tudo...

Ziraldo - O mais velho era o Corisco?
- Não. Tinha o Antônio Desgraça, que era mais velho que o Corisco. Tinha o Cirilo, que era irmão do... Justamente esse que eu num falei, que era irmão do Antônio Desgraça - (Antonio de Ingrácia) Tudo era rapaziada nova, mas tinha velho também.

Jaguar - Qual era o mais bravo; o mais destemido, vamos dizer?
- Era tudo uma coisa só. Agora, tinha sempre um que era mais perverso.

Millôr - O Corisco era perverso?
- Nunca era tanto, não. O mais perverso que tinha lá era o Gato e o Zé Baiano. Eles eram perversos. Sempre andavam vigiados pela gente pra não fazer perversidade. Sempre tinha um ali, que era promovido pra tomar conta. Por exemplo, tava com dez homens. Aqueles dez homens, eu tava com responsabilidade, porque se eles fizessem alguma coisa mal feita, o chefe vinha era em cima de mim.

Millôr - Havia punição?
- Havia, havia punição e dura. Os outros viajavam e eu ficava amarrado. Eu fiquei um dia todinho amarrado, sem direito a descer do animal. Todo mundo lá, almoçando, brincando, e eu lá, no animal.

Millôr - Tinha disciplina, né?
- Tinha, havia disciplina.

Ziraldo - Você era um menino. Você não tinha, às vezes, vontade de brincar? Às vezes subia numa árvore, o Lampião o surpreendia jogando pedra numa árvore?...
- Não, não importava não.

Aparício - Eles aderiram ao Lampião? Eles foram ao encontro do Lampião ou o Lampião chegava e convocava?
- Bom, muitos era o seguinte: eles às vezes cometiam um crime, a policia dava em cima. E sabe, corria daqui, corria dali e eles ficavam sabendo do Lampião e corriam pra lá, se apresentavam: "Capitão, o seguinte é esse; eu matei um cara assim e tal, e não tenho outro recurso a não ser o senhor e tal". E ele dizia: "Multo bem, tamos aqui".

Jaguar - Ele aceitava todos, ou tinha uma espécie que não aceitava?
- Só tinha uma espécie que ele não aceitava: era ladrão. Olha, se ele chegasse num comércio e tivesse 10, 12 presos, ele soltava todo mundo. Dizia: "O que foi que você fez"? "Ah, eu matei, num sei o que...". Ele dizia: "Sai". O outro: "Ah, eu matei também". Ele: "Sai". E chegava pro outro: "E você, tá aqui por que"? O outro: "Ah, tinha uma moça que eu violei, num sei o que..." Ele dizia: " Ah, então você deve ficar aqui. Cê ia gostar que fizessem o mesmo com sua irmã"?

Jaguar - Justiça, né?
- Ah! Era tudo "E você, o que foi que fez?" O cara dizia: "Eu roubei". Aí ele dizia: "E, então você devia morrer".

Ziraldo - Escuta mas o Lampião não seqüestrava uma cidade inteira, num levava uma cidade inteira? Como é que ele não gostava de ladrão?
- Ele não fazia isso. Quando Lampião ia entrar numa cidade, ele mandava uma carta para, por exemplo, o prefeito, para o grande dali. E queria entrar na paz, e queria que mandasse uma importância pra ele, porque ele não podia trabalhar.

Jaguar - Cumé que era aquela famosa, frase dele?
- "Amando, vivendo e querendo bem". Bom, no entanto, era isso o que ele fazia. Então, mandavam dizer que ele podia entrar, que não havia perigo de polícia. Ele entrava e não apanhava um alfinete, não senhor.

Aparício - E a munição, como é que ele obtinha munição? - Ah! Isso era mais fácil do que a comida. Munição espirrava de tudo quanto era lugar. 

Jaguar - Mas agora, e esse negócio de pegar uma fazenda de coronel inimigo dele, e botar fogo. Isso eles andaram fazendo, né? - Fez, fez porque ele merecia. 

Ziraldo - Traidor, né?
- Traidor. Ele merecia que ele fizesse isso. Pois cumé que eu sou seu amigo e o senhor com falsidade comigo? Então, num tava certo.

Jaguar - Qual foi assim, a batalha, o momento mais forte que você enfrentou quando estava no bando?
- Bom, batalha, toda ela é perigosa. Mas eu assisti diversas: Massaranduba (Maranduba), Lagoa do Mel, Pau de Colher, Santa Rosa...

Jaguar - Por exemplo, qual foi a maior de todas, assim, em número de combatentes?
- Bom, isso foi em Serra Grande.

Jaguar - Qual foi a primeira batalha que você viu, que morreu gente do seu lado?
 - Do meu lado, eu só lembro que só morreram três, em Massaranduba, na Bahia. Divisa de Sergipe com Bahia. (Sergipe com Alagoas).

Jaguar - Por que essa batalha foi tão difícil? Tinha muita gente do outro lado?
- Tinha muita gente do lado deles. Era muita gente, era uns seiscentos e poucos pra brigar com 90.

Jaguar - Vocês foram surpreendi\dos por eles ou já esperavam?
- Perfeito, nós já esperávamos.

Millôr - A história conta que Lampião chegou a ter mais de 200 homens. O máximo que você pegou foi 90.
- Não, eu peguei até 120.

Ziraldo - Escuta, por que é que eles sempre perdiam! Afinal de contas, eles eram profissionais, né? E sempre 600 contra 90, e eles perdiam. Falta de moral da tropa, não tinham estratégia, técnica de batalha?...
- Né não. O seguinte era eles: quando eles chegavam, e não encontrava a gente, os próprios colegas mesmo matavam um ao outro. E depois diziam que era Lampião.

Millôr - Por quê?
- Porque ficavam tão apavorados que, se no momento passava um colega deles na frente, eles saiam soltando bala a torto e a direito.

Ziraldo - A gente chama isso no futebol de marcar gol contra, né?
- É. Gol contra. Então, é esse o caso. Olha, eu vou contar pra você um caso que se deu no Raso da Catarina. Nós viajando de tarde, e sabia que eles vinham atrás. Bom, então, chegamos lá, naqueles cupins. No meio do caminho, Lampião disse assim: "Olha, vamos botar aqui uns dez cupins, botar umas barcas ali em cima e acender fogo no meio. Quando eles vierem aí, eles vão atirar nos cupins, achando que é a gente. E aí nós vamos ver o caso deles.

Sérgio Cabral - É só por causa disso que o homem ganhava todas...
- Então, nós fizemos aquilo. Acendemos o fogo e fomos pra frente. Aí, lá vem eles. Quando chegaram, eles num quer saber, num viu ninguém, mas viu fogo e viu aquele negócio parecendo uma pessoa, que era o cupim, né?
 
Grupo de Lampião, na fazenda Jaramataia/SE em 1929. 
"Volta Seca", ainda menino, é o primeiro da direita p/ esquerda, na fila da frente:

Ziraldo - Espantalho, né?
- É. Aí, eles passaram fogo. Pou, pou, pou. Nós num demos um tiro, ficamos só na risada. E eles atirando. No dia seguinte, tinha oito mortos.

Ziraldo - Isso foi onde?
- No Raso da Catarina.

Ziraldo - A batalha da Serra Grande, por exemplo, que tinha 600 contra 90, como foi?
– Não, ali, num tinha 90, não. Nós tinha 39 homens.

Jaguar - E do outro lado?
- 600 e lá vai fumaça.

Ziraldo - Então, conta o episódio desde o começo.
- De manhã, nós saímos do Serrote Pelado, cedinho. Aí descemos e tal, e ele disse: "Olha, vamos descer, vamos pra aquela fazenda e na fazenda nós vamos tomar um leite de manhã e vamos subir pra serra, vamos descansar na serra". Na serra tem um caldeirão de água, por baixo não tem nada, uma seca danada mesmo. Aí nós fomos. Quando nós chegamos em baixo, na fazenda, tomamos leite, botamos queijo dentro do embornais e toda essa coisa. E se municiamos, né? Aí, saímos justamente pra serra. A serra tem uma entrada que entra e tem outra que sai.

Ziraldo - Era tudo a pé, ou a cavalo? - A pé. 

Ziraldo - O bando não andava a cavalo, não, né?
- Andava, andava a cavalo, andava de carro, andava de tudo. Mas tinha estrada que não podia andar.

Millôr - De carro o que é que você chama, carro de bois ou automóvel?
- Não, é automóvel. Aí, quando chegamos embaixo eles apontaram. Aí ele disse: "Olha, já vem eles lá". Aí eles vinham de lá pra cá, e nós seguimos justamente pra serra.

Jaguar– Eles vinham a pé também?
– A pé também. Aí, quando nós subimos na Serra a serra ê um beco apertado pra subir, e descer é do outro lado. Ele subiu, mandou um outro bocado pra outra bocona, essa era enorme. Aí, lá em cima, ele disse: "Bom, agora vai dez homens pra lá e fica o resto tudo aqui, e um bocado, vai lá em cima na serra, mata um boi e vai cuidando de comida, que nós vamos esperar eles subirem". Nós à vontade, só esperando eles botarem a cara pra subir. Quando eles subiram, ele disse: .'Deixa eles chegarem bem pertinho, num começa a atirar, não. Deixa eles vim mesmo, deixa eles encostarem mesmo na medida, que aí, não tem saída pra eles mesmo."Aí, quando eles subiram, que vinha aquela linha toda, ele disse: "Agora!" Aí, botamos: pou, pou, pou. Eles também: pou, pou, pou! Ora, mas pra quem tava atirando lá do meio dos infernos, parece que a bala lá até pro céu, só pra zuada mesmo, mais nada.

Ziraldo - Vocês tavam em cima e eles embaixo...
- Nós tamos em cima, só tome. Ai, era nego caindo só. Quando foi mais ou menos uma três horas da tarde, eles já tavam se entregando. Umas três horas mais ou menos de fogo cerrado mesmo. Eles começaram a se entregar um por um. Ele só fazia perguntar: "Tá com fome? Tá com sede? Então vai lá, come e bebe água". Ai, ele chegava iá: "Como é, já comeram, já beberam água"? E eles falava,: "Ah, sô capitão, vou com o senhor"! Ele dizia: "Não, eu num quero que vocês vão comigo, não. Eu quero que vocês, vão pra outro canto". E aí, matava mesmo. Tudo que chegasse era pegar e matar.

Ziraldo - Dava comida, dava bebida e matava!
- Dava comida e dava água. Dizia ele que era pra num morrer com sede.

Jaguar - Num teve caso de um macaco passar pro bando; não? Nunca?
- Não.

Jaguar - Nesse dia vocês fuzilaram quantos? Quantas baixas?
- Bom, eu acho que Iá acabaram tudo. Mas saiu um sargento com um tenente - o Manoel Bento (Benício)- que, aliás, foi um homem que lutou muito mesmo contra Lampião. Tanto, que ele falou que foi a maior covardia do Bezerra fazer o que fez com o Lampião. Lampião era homem pra morrer brigando no campo, lutando. Aí é que era bacana mesmo. Mas a covardia que eles fizeram... Então, aconteceu Isso tudo.

Ziraldo - Quem enterrava esses homens mortos em combate? Deixava tudo morto lá?
- Ficava lá, uai!

Millôr - O número de baixas...
- Bom, escapou muito pouco.

Ziraldo - Cê acha que morreram uns duzentos?
- Morreu mais.

Ziraldo - E do bando, morreu algum?
- Nem arranhão.

Jaguar - Você nunca foi ferido, não?
- Já, já.

Millôr - Essa batalha é mais uma demonstração do temperamento pacífico do povo brasileiro...

...Jaguar - E como foi o seu ferimento? 
- Foi em batalha. Mas essa foi de noite. Nós tava dormindo quando eles atacaram. Eu levantei, chovendo muito, de noite, ninguém via nada. Só via chuva relâmpago e mais nada. Aí, a gente olhava eles assim... 

Sérgio Cabral - Vocês estavam dormindo ao relento, ou debaixo de uma pedra?
- Nós tava no relento, Quer dizer, o Lampião mesmo tava dentro de casa, na fazenda. Mas os outros mesmo é que não quiseram. Eu mesmo, nunca gostei disso não. Nunca gostei de dar sopa assim não.

Sérgio Cabral - Você dormia, mesmo com chuva e tudo?
- Com chuva, mas a chuva começou depois, quando começou o tiroteio. Eles cercaram a casa...

Aparício - Isso foi onde?
- Foi em Santa Rosa, Bahia. Todo esse negócio foi lá na Bahia. Só a de Serra Grande é que foi lá pro Pernambuco. Mas o resto foi tudo em Bahia, Bahia foi que mais teve esse negócio. Aliás, eu vou dizer uma coisa. Olha, o medo faz coisa, o medo faz tudo. As vezes, o camarada na cadeia dele, cheia de presos, e gente que diz: "Bom, fulano é um criminoso bárbaro". Mas num é. É porque, justamente, um homem forte, que eu tô vendo que não vou ganhar nas mãos, que é que eu vou fazer? Vem em cima. Eu vendo que vou morrer, logo to tirando ele fora do mapa.

Ziraldo - Instinto de defesa.
- É uai, eu tenho que me defender: Então, tem isso que eu digo. É por isso que as cadeias tão cheias. Outros não têm quem briga por eles. Vai lá, fica toda vida. Morre lá, porque num tem quem chore por aquela pessoa.

Millôr - Volta Seca, você viveu essa vida toda até ser preso. Você foi preso com 14 anos. Naquela época já tinha cinema?
- Mas era mudo.

Millôr - Mas você ia ao cinema?
- Ia.

Millôr - Mesmo no bando do Lampião você saia?
- Não, não, Bom, nós fomos uma vez, em Capela de Aparatuba. (Japaratuba)

Ziraldo - Que filme era?
- Eu num lembro, porque nós chegamos lá de noite e Lampião foi logo cortando os fios do telefone e tudo. E nós fomos assistir o filme. Assistíamos o filme e ficava dois sentinelas na porta, e o resto tava tudo apreciando.

Ziraldo - Era bom o filme?
- Ah! Era bom.

Ziraldo - O que é que o Lampião fazia, o que é que ele queria, ou ele só fugia da polícia? Ele atacava as fazendas, vingava as coisas que ele queria vingar, ele botava fogo nas fazendas? O que é que o bando fazia quando num tava sendo perseguido pela polícia?
- Tava descansando, brincando, conversando, dançando, fazendo bane. Porque quando nós tava com 90 homens a gente mandava mesmo: "Pode dizer a eles que nós estamos aqui". 

Jaguar - Mas baile com quem, só de homens? - Não, de mulher também. Porque no lugar que nós chegava não corria ninguém. Mas quando dissesse: "A polícia vem aí". Não ficava ninguém do bando. Mas num ficava ninguém mesmo. 

Jaguar - Cê tava contando o seu ferimento. Tava dormindo, começou a chuva, vieram atacar...
- Pois é, aí nós começamos a brigar. Mas quando deu noite, a gente só via um quando o relâmpago vinha. Então, foi aí que eu fui baleado.

Jaguar - Onde?
- Eu fui baleado aqui no braço.

Jaguar - Quase no mesmo lugar da facada, né?...

...Ziraldo - Quem te socorreu foi o próprio pessoal do bando? 
- Foi. 

Ziraldo - Quem tirou a bala foi Lampião mesmo?
- Foi, foi ele mesmo. Ele tirava com a tesoura.

Millôr - Mas esquentava a tesoura?
- Não, nada disso.

Millôr - Na raça, né?
- É. Ele ia ali, colocava no buraquinho, triscava. Ia olhando, ia olhando... Quando achava, empurrava mais pra dentro, agarrava e trazia.

Aparício - Conta-se também que ele ajudava, muita gente, né?
- O Lampião ajudava multa gente, protegia. O que ele não gostava mesmo era desses, como se diz, caguete. Esses lingudos, tudo que vê, eles querem bater com a língua.

Jaguar - Quando foi que Maria Bonita entrou pro bando?
- Maria entrou quando eu tinha mais ou menos uns dois anos. Mas ele aconselhou ela o que pôde, ele cansou de dizer a ela que não queria que o acompanhasse, porque a vida dele era assim: na mesma hora que tava vivo já tava morto.
 

Foi o cangaceiro que mais cumpriu pena: 20 anos de reclusão. 
Entrou na cadeia, quando ainda era um menino (Violência do Estado?)

Ziraldo - Cê lembra quando ele conheceu Maria Bonita?
- Lembro. Foi em Santa Brisa. (Santa Brígida)

Jaguar - Santa Brisa (Santa Brígida) fica onde? 
- Em Sergipe. (Bahia)

Ziraldo - Cumé que foi a história, ela é sergipana também? (Baiana)
- É. Ela estava, nós estava hospedado lá na Maiada da Caiçara. Então, nós tava lá, aí a mãe dela disse assim: "Capitão, a única pessoa que teria mais prazer de conhecer o senhor era a minha filha". Aí ele disse: "Não é nada difícil, eu ando por aqui, ela mora aqui"? Ela disse: "Não, ela é casada e mora em Santa Brisa". Ele disse: "Se a senhora pode mandar chamar ela, eu estou aqui, até amanhã. Mas só fala com ela, que eu estou aqui. Mais ninguém, tá certa"? Aí ela mandou um irmão dela chamar da. O menino chegou lá, chamou ela e ela veio. Quando chegou, a própria mãe levou ela lá onde nós estava, todo mundo acampado.

Ziraldo - Era longe?
 - Não, era um pedacinho bom. Eram três léguas. Aí, ela chegou, ela apresentou a ele, ele também tratou ela muito bem e daí ficou por ali.

Millôr - Era bonita realmente?
- Era bonita.

Millôr - Era baixinha, alta?
- Era baixinha.

Millôr - Ela tinha que idade mais ou menos, nessa época?
- Ela podia ter uns 18 anos, não tinha mais do que isso, não. Então ele disse: " Ah, eu vivo essa vida mas eu num gosto não. Mas eu num tô com mais jeito. O meu jeito é esse mesmo. Então, eu tenho que seguir até morrer". Então ela disse: "Eu sou casada" e tal... E conversaram, aquele negócio, né? Ai ela disse: "Capitão, sabe que eu lhe acompanho"? Ele disse: "Não, você ê casada, vive sossegada". E começou a rir...

Millôr - O que que fazia o marido dela?
 - Era sapateiro. Então ele disse: "Mas você tem coragem de acompanhar um sujeito como eu? Um homem perdido da sociedade. Eu num tenho sociedade, num tenho nada. Vivo perdido, como um bicho, pro mundo..." Ela disse: "Num tem problema, eu tenho coragem". "Não, você deve ir pra onde tá o seu marido, você é casada. Se você tá querendo que eu crie mais um inimigo, Deus me livre; eu num quero mais uma coisa dessas". Ela disse: "Não, mas eu vou. Eu vou agora, nem mais lá, eu vou". 

Millôr - Ela não tinha filho não, né?
- E num foi mesmo. Aí, ele começou a dar conselho pra ela, que num tava bem, que ele podia tá morto a qualquer momento... Aí, ele disse: "Bom, o seguinte é esse: você não pode ir comigo, minha vida é a pé, é a cavalo, é de todo jeito, é pelos matos..." Ela disse: "Eu vou também". "Mas eu posso morrer hoje, amanhã..." Ela teimava: "Eu morro junto com você. Mas num lhe deixo mais". E num deixou mesmo, terminou morrendo junto com ele mesmo.

Ziraldo - Ela atirava também?
- Atirava. Eu queria tá com ela e não queria tá com dez homens da marca dos que eu conheço por aqui. Tava mais satisfeito.

Sérgio Cabral - Ela aprendeu a atirar no bando do Lampião?
- Aprendeu e atirava bem, mesmo. Era uma mulher de raça...

Ziraldo - Escuta, depois que ela, entrou no bando, ela era a única mulher do bando?
- Era. Num tinha mais nem uma; só ela.

Ziraldo - E ela cozinhava pra vocês?
- Não. Ela cozinhava pra ele lá.

Ziraldo - Vocês tinham cozinheiro no bando?
 - Não, cada um fazia o que é seu.

Jaguar - E não houve tentativa de ninguém no bando dar uma cantada nela, não?
- Cê tá maluco, rapaz? Dava uma cantada e já era.

Millôr - Escuta, ela falava com vocês, brincava.
 - Brincava com nós como se brinca com uma criança dessa e outra qualquer. A mesma coisa. 

Jaguar - E ninguém se engraçava com ela?
- Não.

Jaguar - E ele gostava muito dela?
- Gostava, se ela...

Millôr - Ele tinha mulher e não permitia que os outros tivessem?
- Ele não importava. A que quisesse acompanhar e ir de vontade, podia acompanhar. Agora, tinha muito nego que não queria.

Sérgio Cabral - Aconteceu alguma vez de uma mulher acompanhar o homem? - Tinha muita. 

Jaguar - Mas não como Maria Bonita, né? Não combatia nem nada. né? - Não. 

Ziraldo - Agora, esse nome, Maria Bonita, foi o pessoal do bando que botou nela, ou foi a lenda? Vocês não a chamavam de Maria Bonita, não né? Era só Maria? - Não, o nome dela legítimo era Maria Déia. Não Maria Bonita, Maria Bonita quem botou foi o pessoal deles lá da polícia mesmo. Maria Bonita, porque ela era bonita mesmo, e tal. Então foi que eles deram esse título a ela de Maria Bonita. Mas lá no bando não tinha disso não. 

Ziraldo - Os filhos do Lampião eram filhos dele com Maria Bonita, ou ele, era casado com outra, anteriormente?
- Não. É filho dela mesmo.

Ziraldo - Ele ainda tem os filhos vivos, não tem?
- Tem. Os filhos com Maria Bonita nasceram lá no Cangaço. A Expedita...

Millôr - Cê num chegou a ver ela grávida não, né? - Ó rapaz, eu fui servir de sentinela pra ela ganhar a criança. 

Jaguar - Quando é que foi isso, hein?
- Isso foi lá mesmo, na Mata da Caiçara.

Aparício - Quem atendeu a Maria Bonita como parteira?
- Foi a mãe dela mesmo.

Sérgio Cabral - Escuta, cê tava falando que o bando andava de carro, às vezes. Como era? Vocês confiscavam os carros?
- Via um carro e nós apanhava.

Millôr - Quem sabia dirigir no bando?
- Ah, tinha muitos que sabia.

Millôr - Lampião dirigia?
- Não, mas tinha Mariano, tinha Luiz Pedro, tinha um rapaz chamado Revoltoso... 

Millôr - Agora, dessas canções populares que estão aí, quais eram realmente as que vocês conheciam no bando? Mulher Rendeira, vocês cantavam essas coisas?
- Bom...

Ziraldo - Qual era o repertório do Lampião que ele tocava no acordeom?
- Bom, ele tocava qualquer negócio, Asa Branca, Mulher Rendeira... Isso eu tirei lá mesmo, no Raso da Catarina, brincando.

Millôr - Asa Branca, você já conhecia lá no bando?
- Já.

Sérgio Cabral - O Volta Seca gravou um long-play, você já sabe, né?...

...Millôr - Você toca algum instrumento?
- Eu só tocava gaita.

Sérgio Cabral - É. Tem um long-play. Tem Todamérica nisso?...

...Millôr - Você compôs alguma música, já?
- Eu compus, mas não é de Lampião. Eu me lembrava daqueles troços que passava. Aí, então, tirei uma que deu até certo.

Ziraldo - Acorda Maria Bonita, esta?
- É, Maria Bonita.

Aparício - Como você foi promovido? Você foi um dos homens de confiança de Lampião, né?
- Bom, justamente porque pra todo lado que ia, ele achava que, com ele, eu tava bem. Então, pra todo canto que ia, ele me chamava.

Ziraldo - Cê era o mascotinho do bando, né?
- É.

Sérgio Cabral - Volta Seca, você tem idéia de quantas pessoas já matou?
- Não, hoje esse negócio de matar não compensa ninguém.

Sérgio Cabral - Mas durante as batalhas...
- Isso é um caso que eu mesmo não posso dizer. Porque 90, 100 atira no meio de 200, 300, ninguém sabe quem matou.

Millôr - O Antônio Silvino morreu em 1944. Você chegou a conhecer o Antônio Silvino ou tinha notícia dele no bando?
- Sabia que tinha ele. Mas num cheguei a conhecer ele não.

Millôr - Quando você começou ele já estava preso, ele foi preso em 1914. Você sabia da importância dele no cangaço?
- Já, já.

Jaguar - Você não esteve preso na mesma prisão que ele não, né?
- Não, eu num cheguei a conhecer ele não. Aliás, soube que ele também era um homem que gostava de fazer o bem.

Millôr - Lampião, ou outro elemento do bando, tinha admiração por ele?
- Não, nunca ninguém falou dele não. Nem bem nem mal.

Jaguar - Quando é que você dormiu a primeira vez numa cama?
- Quando fui preso.

Jaguar - Mas você, e todo mundo, dormia era em rede naquela época, né?
- Era em rede ou no chão. Eu dormia no chão, numa tarimbazinha velha.

Ziraldo - Qual era o maior amigo seu no bando, sem ser o Lampião? Com quem você se deu melhor?
- Bom, me dei bem com todos eles. Num tinha o que reclamar de nenhum.

Ziraldo - Mas você falou muito do Luiz Pedro...
- Não, aliás, tinha o Luiz Pedro que era um bom rapaz, num era mal. Olha, lá num tinha ninguém santo, num adianta esconder não.
 

Jaguar - Bom, conta cumé que você foi preso?
- Bom, o seguinte foi esse: a minha prisão foi por causa de um colega meu mesmo. Foi mais por causa de eu me doer por causa dos outros e, no fim, me deram um chute. E quem padece sempre sou eu. Mas agora eu já deixei isso prum lado, que não dá certo. O caso foi esse: nesse combate de Massaranduba, onde morreram três e saiu um baleado – o baleado chamava-se Bananeira. Foi baleado na rótula, mas nós não tinha visto ele. Nós tava brigando, e quando terminou a briga, que nós se arretiramos e chegamos na frente, ele ficou dando com a mão de lá. Então, eu olhei e falei: "ô capitão, lá tem um chamando e é um dos nossos". Aí ele suspendeu a cabeça e eu vi que era o Bananeira e ele tava baleado. E eu disse: "Vamos lá". Ele disse: "Eu já saí e num vou voltar mais lá". Eu digo: "Mas como é que é que o senhor falou que é um por todos e todos por um? Vamos salvar o rapaz, ele tá vivo, num tá morto ainda". Aí ele disse: "Eu num vou mais, se você quiser ir, vai. Eu num vou". Eu chamei o Fortaleza e falei que o Bananeira tava baleado e ele perguntou: "Já chamou o capitão?" Eu disse: "Já. Ele disse que já terminou o combate e que ele não vai lá mais". Eu disse: "Você é forte, cê carrega ele e eu agüento o fogo". Então fomos. Aí, chegamos lá e botamos o fogo. O rapaz botou ele no ombro e tiramos ele pra fora. Quando nós tiramos ele fora e trouxemos, eu disse: "Capitão, o rapaz taí e tá baleado na perna. Nós temos que salvar ele, levar ele pra um lugar qualquer aí e dar remédio que o homem vai ficar bom". Lampião disse: “Bom, então você leva ele. Você que foi lá buscar, então, você leva ele".

Ziraldo - Mas por que o Lampião tomou essa atitude? Você não tem uma ideia?
- Num sei. Ele se aborreceu justamente porque eu disse que ia buscar ele. Aí, eu apanhei o rapaz, levamos e chegando na frente ele disse: "Bom, você fica aí que eu vou ver se pego um animal pra montar ele. Porque nós não podemos levar ele na rede". 

Aí o Fortaleza disse: "Mas cumé que o capitão faz uma coisa dessas?” Eu disse: "Eu acho que ele tá mal satisfeito!" Aí Lampião disse: "Então, você vai, pega o animal e leva ele". Aí chamei um outro, nós pegamos um cavalo lá, fizemos uns negócios, montamos ele e saímos. Lampião disse: "Bota ele na frente que quando os macacos aparecerem, nós tamos aqui. É tempo de você ir e tirar ele pra lá".

Eu disse: "Tá bem." Aí ele disse: "Como é, bota ele pra frente"! Eu digo: "Mas outra vez? Cê num tá vendo que ele tá machucado e não pode ir assim?” Ele disse: "Mas você num foi tirar ele de lá? Então cê pode". Aí eu vi que ele queria me provocar e digo: "Bom, se é isso, não tem problema não. O senhor manda um outro aí ajudar que eu monto ele e passamos pra frente".

Ele disse: "Não, monta ele sozinho". Aí, o Bananeira disse assim pra mim: "Nada, deixa isso pra lá, ele fica com pilunga contigo. Eu num sei porque. Eu não tive culpa de ser baleado".

Eu digo: "Não, mas você num vai ficar sozinho não. Cê vai comigo". Aí, chamei um rapazinho que tinha lá - Pocorante (Pó Corante).

Chamei ele e disse: "Vamos embora". Aí, pegamos ele e fomos embora. Nós levamos ele pra frente, quando chegamos lá no lugar que ia tratar dele, na fazenda, eu digo:

"Eu vou viajar. Mas o rapaz tem que ser medicado. Num vai ficar assim não". Lampião disse: "Ah, porque num sei o quê". Eu digo: "O senhor tem razão de falar, porque o senhor é o chefe. Mas o senhor não devia fazer isso não”. Mas esse Pocorante, esse colega meu, tava mesmo procurando um negócio. Aí, Lampião pegou e disse:
"Você vai lá pegar o meu burro". Aí, depois, Lampião chegou pra mim: "Ele não encontrou o burro, não. Você vai lá e dá umas voltinhas, vê se encontra o burro". Aí, eu saí e o burro tava em pé ali. Eu cheguei e disse: "Mas você não encontrou o burro? O burro tava aqui, como é que você não viu o burro?” Lampião então falou pra ele: "Eu tava bem era de dar um murro na sua cara".

E o Pocorante ficou calado. depois eu fui procurar o Pocoronte e disse: "Escuta rapaz, cumé que um home diz que dá um tapa na sua cara e você fica calado? Escuta, pra que é que você tem um fuzil na mão? Pra que que você tem tanta bala? É pra você mesmo? Ah, num pode dizer nada, que é com o capitão? Ah, bom, então, amanhã ele se enche de gozo e diz que bate na minha cara e eu dou-lhe um tiro na cara dele também". Aí, Pocorante disse: "É, mas é todo mundo colega da gente mesmo. Na hora ele opina contra, não sei o quê..." Digo: "Não sei o quê, nada". Ele saiu, amarrou a camisinha e foi direto a ele. "Ó capitão, o senhor disse que ia bater na minha cara. Eu disse pro Volta Seca e ele disse que se o senhor dissesse que ia bater na cara dele, ele dava um tiro na sua cara.” Fez uma fofoca direto. Aí, eu venho de lá pra cá e Lampião mandou me chamar: "Você disse que se eu te desse um tapa você me dava um tiro". E eu: "Dava, não, eu dou. Dava é uma coisa, eu dou. Quer ver? Experimente". Aí, ele ficou falando, num sei o quê...

Jaguar - Ele num tava num bom dia, hein, rapaz?
- Sei não.

Millôr - Enquanto isso, onde estava o ferido, o Bananeira?
- O Bananeira tava numa fazenda, sendo medicado.

Ziraldo - Eu acho que Lampião não tava querendo arriscar o bando dele por causa de um que já tava morrendo.
- Eu acho que era isso. Bom, aí ele pegou com aquele negócio comigo, todo dia tendo uma conversinha. E quando foi de noite, mandou me chamar. Eu fui, chegou perto, me fez a mesma pergunta e eu respondi a mesma coisa. Aí, veio a Maria mesmo e disse: "Lampião, você deve deixar isso pro lado. Você fica toda hora procurando uma coisa e deve deixar. Ele é seu amigo, você é amigo dele, é superior a ele, é tudo. Mas ele tá certo. Ninguém vai querer tomar tapa na cara, isso num fica certo. Então, você não deve fazer isso. Deve parar com esse negócio". Aí, bem, parou.

Quando é de noite, ele mandou me chamar e eu mandei dizer que não ia mais lá. Aí, ele ficou falando que no outro dia de manhã ia me almoçar, num sei o quê... Os outros vinham e me diziam: 
"Olha, cuidado, o Lampião disse que vai te almoçar amanhã".

Eu disse: "Num faz mal, não. Diz pra ele que eu janto ele agora de noite também". 

Aí, quando foi mais ou menos meia-noite, ele botou gente em roda pra eu não sair, que queria falar comigo de manhã. 

Eu disse: "Num faz mal". Aí, veio o cunhado dele mesmo, o Virgínio: "Volta Seca, cê sabe que eu gosto de você, o Mariano também. É todo mundo seu amigo, ele pode mandar matar você e nós num pode fazer nada. E vai ser uma coisa. Então, vai embora, vai por teu caminho, vai embora". 

Eu digo: "Tá certo". Aí, ele mandou pedir as armas e eu disse que não dava. Mandou que eu entregasse fuzil e munição e eu disse que não entregava. Mas não entregava mesmo. Aí, com o auxílio dos outros, eu fui embora.

Ziraldo - A pé ou a cavalo?
- A pé. Eu fui embora. Aí, ele mandou recado pra tudo quanto é fazenda, que no lugar que eu passasse, ia me matar.

Ziraldo - Aí você ficou numa ruim, né?
– Pois é. Aí, fiquei contra. Mas não tem nada, não. O destino é esse, é esse mesmo. Se morrer hoje, morri; se morrer amanhã, morri. É tudo a mesma coisa. Quatro dias depois encontro com o oficial com a volante. Um cara lá, que era meu amigão, moleque sem-vergonha, me cagoetou.

Jaguar - Qual era o nome dele?
- Chamava-se Adão.

Jaguar - Onde você conheceu ele?
- Lá na fazenda.

Ziraldo - Ele já morreu?
- Eu não sei se ele tá vivo ou se tá morto. Só sei que chamava Adão. Então, ajuntou lá um time e me cagoetou com a polícia.

Sérgio Cabral - Isso onde?
- Lá no Estado da Bahia.

Ziraldo - Que cidade?
- Não é cidade não, é mato mesmo, Lagoa da Onça. Aí, eu cheguei lá e um rapaz falou comigo que era pra eu tomar cuidado que a polícia tava por ali. Eu disse: "Pode deixar comigo que eu sei sair". Quando foi de manhã, eu saí e matei um garrote. Quando eu tava tirando o couro do garrote, eles me cercaram dentro de uma roda...”

Millôr - Estava matando o garrote pra comer?
- É. E aí mandaram bala em mim. Tinha um rapazinho comigo ali e ele logo recebeu um na cabeça e caiu logo ali.

Jaguar - Era amigo, seu, esse cara?
- Era, tava comigo.

Sérgio Cabral - Num queriam nem prender, queriam era matar?
- O negócio num era prender, não. Era matar.

Ziraldo - Como é que você escapou dessa?
- Como que eu escapei? Eu saí, arrombei a cerca por baixo, cheguei por detrais dele, dei uns dois tiros e caí fora. Eles ficaram lá, brigando umas duas horas, eles mesmos, sozinhos. Eu fui embora. Cheguei lá, fiquei sentado, chupando melancia. E a minha vontade era de ir lá, só escutando eles gastando bala feito diabo. E eu quieto, quietinho lá no meu canto. depois, eu saí e fui na casa desse cara. Num sabia de nada.

Millôr - Do Adão?
- É, desse Adão. E ele já tinha chamado a turma dele toda lá, tava tudo dentro de casa. Eu num sabia de nada, era amigo, né? Aí, quando cheguei lá, ele disse: "Ôpa, que que há, rapaz?” Eu digo: "nada". Ele diz: "O que que foi aquele tiroteio?” Eu digo: "Eles me encontraram ali e me deram uns tiros: eu dei uns dois também neles e caí fora". Ele diz: "Ô rapaz, a tua mão num tá de calo, não?” Olha, cê vê como que pode. A falsidade dói como o diabo... Ele de novo: "Escuta, rapaz, sua mão num tá de calo, não?” E eu: "Que nada, rapaz, isso é bobagem". Ele pegou a minha mão e apertou. Quando ele apertou, eu digo: "Ô rapaz, deixa disso". Ele disse: "Você tá preso". Eu digo: "Preso? Olha, rapaz, eu pego você sem Deus me ajudar". 

Foi a palavra mais errada que eu disse na minha vida. Ele aí avançou em cima de mim. Quando ele avançou, eu chamei ele e botei no chão. Aí ele gritou: "Me acode!” Quando eu vi, já tava todo mundo em cima de mim. Uns 15.

Millôr - Você tinha uns 14 anos, né? Um menininho...
- Era garoto, mas era forte. Andei tombando uns dois lá, e aí, pronto. Eles me amarraram igual um porco. Diziam: "Eu mato, num mato..." Aí, veio a irmã dele, que queria dar boa vida a ele, e disse: "Num façam isso com ele não. Já que vocês prenderam, leva ele e entrega na polícia". Eu, amarrado, que que podia fazer? Eles me pegaram e foram me entregar justamente a esse tenente que estava baleado. Lá no tiroteio ele tomou um tiro e tava com as costas toda esfacelada. Aí, quando chegaram lá e me entregaram, foi o mesmo que entregar um mosquito nas mãos de urubu. Empurra pra lá, empurra pra cá, eu num vi mais nada. Eu olhava pra cara daqueles fedorentos e endoidei, fiquei maluco. Aí, chegou um crioulão com um chapelão: "O negócio é matar". Aí foi dar um tapa na minha cara. Eu abaixei e dei um pontapé nele...

Millôr - Tava amarrado ainda?
- Amarrado. Aí, veio o tenente lá, todo emplastado: "Num toca nesse homem não!” É um tenente alagoano – eu esqueci o nome do homem. E foi logo dizendo: "A hora de vocês matarem ele era lá, na hora que vocês estavam brigando. Eu recebi esse tiro e vocês saíram correndo. Então, era nessa hora que vocês deviam ter matado ele. Aqui ele tá garantido por um homem e pela lei e ninguém precisa pôr um dedo nele".

Ziraldo - Cê acertou o coice no sargento?
- Acertei e foi um coice desgraçado. Ele caiu lá com a mão, rolando pelo chão. Eu digo: "E se dane". O tenente é Joaquim, Zé Joaquim. Ele disse: "O homem tá garantido e eu não entrego a ninguém a não ser o (sic) chefe da polícia. Num sendo ele, num sai da minha mão. E qualquer coisa que triscar nesse homem aí, já pode saber que vai expulso e preso".

Ziraldo - Ele sabia que você era o Volta Seca?
- Sabia.

Millôr - Isso foi em Alagoas?
- Foi na Bahia mesmo, Santo Antonio da Glória. Aí, eu fiquei lá, num comia nada.

Ziraldo - Na prisão eles não davam comida?
- Não, vinha de tudo, farinha pura...

Jaguar - Você ficou preso em Santo Antonio da Glória?
- Foi. Não tinha fome nem sentia nada, revoltado.

Ziraldo - Os jornais anunciaram essa prisão lá na cidade?
- Só depois. Aí, eu digo, tá certo. Viro daqui, viro dali, o tenente diz: "Aqui ninguém toca em você, nem nada". E passou logo um telegrama pra polícia, pro chefe da polícia, que era o capitão João Facó. Aí, ele mandou reforço: "Diga que garanto o homem, num toca num dedo dele, nem nada, me traz o homem". E disse: "Entrega pro coronel Costinha que ele recambia ele daqui pro Rio, pra Bahia". O coronel Costinha mesmo foi me buscar, mas o tenente disse: "Não, eu mesmo levo e entrego lá. Num tenho confiança de deixar vocês levarem ele".

Millôr - Bacana o homem, hein?
- É, tá certo, bacana. Nós saímos e quando nós chegamos lá no trem, ia pra mais de 300. Um carro do trem, uma traça daquela, não cabia ninguém, a não ser eu e a polícia só. Um carro só, e veio cheio que não tinha lugar pra sentar.

Millôr - Cheio de polícia pra levar você, né?
- É. Pra me levar. Eu tava amarrado, porque Lampião mandou recado que se não me segurasse, eles iam me pegar no lugar que eu tivesse. No trem, no caminhão, no diabo que fosse. E botou diversas emboscadas, mas eles souberam fazer o troço. Chegando lá, me entregaram, e de lá me tocaram pra Bahia.

Millôr - Eles te entregaram perto de Canudos?
- Não, muito pra baixo.

Ziraldo - Se o Lampião pegasse você, cê tava perdido dos dois lados, né?
- Tava não, ele já queria me salvar. O negócio era esse.

Millôr - A essa altura ele já queria te salvar, né? Então, você chegou na Bahia...
- Me tocaram pra Salvador.

Millôr - Você nunca tinha ido à capital?
- Não.

Jaguar - Quanto tempo você esperou pra ser julgado? Uns dois anos?
- Uns dois anos.

Ziraldo - Quando você foi julgado, aqueles dois primeiros crimes estavam no julgamento?
- Não, aqueles já tinham sido prescritos.

Ziraldo - Eles não ficaram sabendo daquilo, né? Aquilo era lá dos cafundós...


...Jaguar - Só foi julgado pelos casos do cangaço, né?
- Só, e eles mesmo num davam nada não.

Aparício - Quem te defendeu?
- Quem me defendeu foi Deus e eu mesmo. Não tinha ninguém por mim.

Ziraldo - Cê num teve advogado?...

Millôr - Cê num teve julgamento com promotor de acusação?
- Na hora teve uma moça, uma advogada, chegou e disse: "Eu vou defendê-lo e vou botá-lo na rua". O juiz num aceitou.

Ziraldo - Quem era esse juiz e essa advogada?
- Ela eu num me lembro do nome, não. Era uma moça de Vila Nova da Rainha. O juiz eu num quero nem tocar no nome dele, deixa esse negócio de juiz pra lá.

Millôr - Agora, Volta Seca, é verdade que você tem um jornal guardado pra fazer o Jorge Amado engolir?
- Isso eu falei, mas agora já acabou.

Millôr - Acabou o jornal ou acabou a pinimba?
- Acabou a pinimba.

Jaguar - Por quê?
- Ele escreveu num livro dele que me conheceu muito, em Água de Menino, na Bahia. E se ele me conheceu, foi quando fui preso, porque, na Bahia, eu nunca tinha ido na capital. E ele então escreveu que tinha visto eu em Água de Menino, sendo capitão de areia.

Sérgio Cabral - Ele falou mal de você?
- Me chamou de capitão de areia. Então, eu disse mesmo: "Eu tenho o jornal guardado pra um dia dar pra ele comer". Mas eu já deixei pra lá. Deixei até de ganhar dinheiro um dia desses, só porque me disseram que ele ia também. Era no Hotel Serrador, ia ter uma peça e ele ia também. Então, quando me falaram que ele ia, eu disse: "Pode me tirar fora, vou não".

Ziraldo - Num gosta de mentiroso...
- Eu não. Quando falar, fala verdade. Tá certo falar aquilo que aconteceu, mas mentir!...

Jaguar - Você cumpriu a pena onde?
- Na Bahia.

Jaguar - Fugiu quantas vezes?
- Só duas.

Jaguar - Voltou ou te pegaram?
- Pegaram, voltou o quê? Se eu fugia, cumé que eu ia voltar?

Ziraldo - Podia. Tá ruim cá fora, né?
- Tava não, eu fazia grana.

Millôr - Você viu, por acaso, aquele filme, Cangaceiro, do Lima Barreto?
- Eu trabalhei também. Aquilo tudo foi orientação mais minha.

Jaguar - Como você soube da morte de Lampião, cumé que foi?
- Ora, eu tava lá pertinho, a notícia correu logo.

Sérgio Cabral - Qual foi a sua reação quando soube que Lampião tinha morrido?
- Nenhuma.

Millôr - Agora, você não ficou revoltado com aquela exposição daquelas cabeças? Nós todos somos revoltados com aquilo.
- Tanto que eu saí daquilo. Aliás, eu pedi muito, porque aquilo que fizeram... Aquilo foi mais uma revolta. Aquilo seria uma grande revolta pra família, pra criar novamente a mesma coisa que era. Enterra, tá certo. Morreu, acabou. Mas aquilo... 

Millôr - Como se chama essa rua aqui?
- Eles chamam Rua da Barreira.

Millôr - Isso aqui é ramal extinto?
- Funciona, vai até a base.

Jaguar - Você é funcionário da Leopoldina, né?
- Sou.

Millôr - Você se dá bem com os seus vizinhos, né?
- Muito bem.

Ziraldo - Eles te chamam de seu Antonio ou de Volta Seca?
- De qualquer jeito que eles me chamar tá bom. Brinco com todos, são meus amigos.

Millôr - Você está com 55 anos, né? Depois de toda essa luta você tem o quê? Por exemplo, tem casa própria?
- Não, é aluguel. Eu pago Cr$ 150,00.

Millôr - Qual é a sua fonte de renda?
- A minha fonte é o meu trabalhozinho só.

Millôr - Quanto você ganha?
- Eu estou ganhando Cr$ 197,00. Eu tô encostado.

Millôr - Seus filhos ajudam você?
- Tão parados também. Um, por ora, é soldado; o mais velho tá parado...

Millôr - Estão todos educados, vão a colégio pelo menos?
- Os pequenos, ainda uns... tão. Um dia vai, um dia num vai... uns já sabe alguma coisinha. Só o menorzinho é que não sabe nada.

Jaguar - Mas os outros estão estudando em escola?...

...Millôr - Mas como é que vocês vivem, o seu dinheiro num dá pra pagar as despesas...
- É, mas eu tenho que viver é assim. Dando uma reportagenzinha hoje aqui, outra ali, e tal... E vou vivendo .
FIM.

Publicada na edição de nº. 221 - Setembro/Outubro de 1973

Comentário

Amigos 

Uma das principais finalidades deste Blog é divulgar a "INFORMAÇÃO" relativa ao cangaço e seus personagens, sem se ater, a radicalismo, ideologias ou lado partidário ( volante x cangaceiro ).

Cumpre ao leitor/membro/estudioso do cangaço, fazer uma "Análise" séria, cuidadosa, bem como, a confrontação das fontes orais e escritas sobre determinado "FATO" exposto na literatura cangaceira, E, daí, extrair um juízo de valor.

É como muitos sabem. O cangaceiro"Volta Seca" é, ás vezes, muito controvertido em suas declarações. 

Mas, saliento, que é uma personagem, que precisa ser melhor estudado. Na entrevista, que acabaram de ler, há uma gama enorme de informações, que não foram checadas por aqueles que estudaram esse famoso cangaceiro.

Só um detalhe. Sobre a vida, dele, após o cangaço, pouco ou quase nada se tem escrito a respeito na literatura cangaceira ( ai está a lacuna ). 

Um abraço a todos, e valeu pela atenção

Ivanildo Silveira
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC

Correções entre parenteses Kiko Monteiro 

http://lampiaoaceso.blogspot.com/2009/12/entrevista-de-volta-seca-jornal-o.html

http://blogdomendesemendes.blogspot.com