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segunda-feira, 31 de julho de 2023

NÃO CORRA SEM VÊ O BICHO

Clerisvaldo B. Chagas, 10 de agosto de 2023

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.937

 

Bem dizia a grande líder comunitária, dona Joaninha: “Não corra sem vê o bicho”, pois foi assim que fomos para uma entrevista com um deles. O coronel José Lucena de Albuquerque Maranhão (coronel Lucena) era o homem mais temido do Sertão Alagoano. Comandante do Batalhão de Polícia, cujas volantes deram fim a Lampião e Maria Bonita. Lucena fora o primeiro prefeito de Santana do Ipanema, eleito pelo voto direto, na Era Vargas. E no dia da Eleição, o comerciante Manoel Celestino das Chagas, meu pai, fora convocado como presidente dos mesários de uma daquelas sessões. Por coincidência, era eleitor naquele salão o tão famigerado coronel Lucena. Tudo normal se não fora o esquecimento dos documentos de votação por parte do comandante.

CORONEL LUCENA, (LIVRO LAMPIÃO EM ALAGOAS).

E na hora do registro de comparecimento às urnas, “Seu Manezinho”, não pestanejou diante da fama de valentia de Lucena e falou: “coronel, para o senhor assinar, estar faltando o documento”. Lucena – um trovão para muitos – educadamente exclamou: “Eita! Você tem razão. Esqueci, vou buscar”. E assim procedeu sem causar nenhum transtorno. E com o resultado do pleito, o coronel exerceu a função de prefeito de Santana do Ipanema. O homem de bem é manso, anda com a verdade e o destemor. O homem sábio pode ser pacato, pode ser valente, a sabedoria não o deixa de acompanhar.

Os tempos de dirigentes nomeados, governadores e prefeitos, foram de uma época conturbada de exceção. Para um ditador entrar é ligeiro, para sair dar trabalho, igualmente a uma doença difícil de se curar. Imaginamos que os problemas com dirigentes nomeados, os prefeitos com várias denominações, aconteceram em todo o país. Em Santana, o governador nomeado, nomeava também o prefeito. Alguns desses indicados não conseguiam chegar ao fim do tempo de nomeação. Muitos não passavam de 24 horas, outros não ultrapassavam a um mês. Uns não tinham competência, outros desagradavam gente de prestígio político e outros ainda eram acusados de roubo. O negócio só foi tomar rumo novo, após as eleições livres com a despedida da ditadura maior. Mesmo assim, muitos vícios ainda deram trabalho no início da democracia. A ambição de poder e do poder continua destruindo almas que se regozijam na terra e se perdem no espaço.


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CANGAÇO: CÍCERO PORCINO - BIOGRAFIA RESUMIDA

https://www.youtube.com/watch?v=BdnBFNAA17o&ab_channel=FatosnaHist%C3%B3ria-Canga%C3%A7oeNordeste

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"ÉBRIO DE AMOR" NA RUA VELHA

Manoel Belarmino

Ao cair da tarde, cheguei à cidade, entrando pela Rua Velha, e um som no Bar do Cido tocava a música "Concerto para Um Verão". Era a Rua Velha que se preparava para uma noite de seresta. Os violões dos seresteiros já estavam sendo afinados, e o som devidamente testado.

As moças, as mais lindas(todas lindas) de vestido, de cabelos longos e soltos, sorrindo, já apareciam nas janelas das suas casas na Rua Velha. Nas outras ruas e na Rua Nova acontecia o mesmo. Moças e rapazes se preparavam para a noite de seresta na Rua Velha da cidade de Pedro Alexandre da Serra Negra.

E eu, um rapazinho matuto, mas quase poeta; um caatingueiro, mas quase escritor, quase poeta, quase boêmio; um romântico perdido naquela noite da cidade, quase embriagado pelas mais belas músicas tocadas e cantadas pelos seresteiros. Uma noite perfumada, mágica, encantada estava começando na Rua Velha.

As poucas luzes da cidade deixavam a Rua Velha em penumbra, permitindo que os boêmios enxergassem a Lua e as estrelas. Músicas, Lua e estrelas se misturavam naquela noite de seresta na Rua Velha.

Sob a luz da Lua e das estrelas, a Rua Velha encantada se transformava em poesia. Naquele momento, a música "Paixão de Um Homem" de Valdick Soriano era executada de forma mágica. E todos cantavam e dançavam sob a luz da Lua e sob os olhares das estrelas.

Na calçada da igrejinha da Matriz e nas janelas, já se avistava casais de namorados. A noite de seresta recebia a madrugada em festa como um noivo recebe a noiva.

Às vezes, a nostalgia toma conta de mim, e ponho-me a escrever, escrever, escrever... E, quando escuto a música “Os Verdes Campos da Minha Terra” na voz de Agnaldo Timóteo, as lágrimas dos olhos inundam por inteiro a minha alma.

E, ali estou eu, um Belarmino menino, "Ébrio de Amor" na Rua Velha da Serra Negra.

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PRAZER EM CONHECER: - LAMPIÃO ACESO ENTREVISTOU JACK DE WITTE

Por Kiko Monteiro

 


Mais um vaqueiro para nossa galeria de entrevistados.


Hoje vamos traçar o perfil de um pesquisador que vem do outro lado do Atlântico. Compatriota de um outro cabra azedo que comandava exército e também usava um chapéu quebrado.

Jack François De Witte, (o W com som de "V" visse?) 69 anos, escritor Francês da província de Lagrasse, engenheiro eletrônico aposentado.

Na década de oitenta morou no Rio de Janeiro por dois anos e meio. Esta é a sua terceira visita ao nordeste.

Nos conhecemos durante o Seminário Internacional do Centenário de Maria Bonita, ocorrido em março em Paulo Afonso, BA. Aproveitei o ensejo para intimá-lo a apresentar suas impressões, tendo como local o barco "A Volante" cruzando o Velho Chico de retorno a Piranhas, AL. Um passeio que muitos de vocês já fizeram e quem não o fez... homi ! não sabe o que perde.


Olha ai uma visão "modesta" de Lagrasse. 

Antes de chegar até a "terra do condor" e do capitão João de Sousa Lima "o dublê do Herculano" Monsieur Jack, teve como cicerone o Coroné Severo visitando alguns dos principais cenários da saga lampionica, pelo Cariri cearense e pelo Pajéu. Enfim foi beber na fonte e voltou pra Europa embriagado por esta bendita cachaça chamada CANGAÇO.

 Sentado o tenente João Gomes de Lira, ladeado pelos cavalheiros Bosco AndréJackJosé Cícero e Manoel Severo.

Como se dá sua entrada no cangaço?

- Tinha 14 anos quando fui levado pelo meu pai para assistir ao filme "O Cangaceiro" de Lima Barreto, justamente no festival de Cannes onde a película brasileira foi exibida, consagrada e o resto do mundo passa a tomar conhecimento do Cangaço. Preciso ser bem clichê para dizer que é aquela mesma paixão avassaladora que contamina todos. Dali por diante passei a buscar a literatura. Recorri aos sebos da capital e a ajuda de amigos de outros países para que estes me conseguissem outros títulos.

Meus anseios de estar num evento como esse é de obter outras informações sobre a gênese de como o Virgulino Ferreira, chegou a ser um bandido desta magnitude. Um nômade. Um caboclo de raciocínio lógico que administrava com precisão e sangue frio a sua vida e a de tantos companheiros.

Então apresente suas crias!


- “Lampião VP” sans toit , sans roi, sans loi (sem casa, sem rei, sem lei).
Lançado na França em 2005 pela Editora Mandacaru. Já traduzido para o português pelo amigo Luiz Frigoletto porém ainda não publicado. VP ? porque compara a saga do Rei do Cangaço com a do traficante carioca Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP.

E de outro autor?

- "Sur les traces de Virgolino, un bandit nommé Lampião". Traduzindo: Na trilha de Virgolino, um bandido chamado Lampião. Uma tese de doutorado de Patricia Sampaio Silva, brasileira radicada na França, em que pude aprender muito sobre a sociedade nordestina. Outra Obra que muito me agrada é Lampião, Seu tempo, e seu reinado do padre Bezerra Maciel.

Qual é o primeiro título recomendado para um calouro? 

- Não seria uma biografia estritamente sobre Lampião, eu indico o best seller Bandidos de Eric J. Hobsbawm.

Com quantos personagens desta história você teve contato? 

- Óbvio que chegamos demasiadamente tarde, mesmo se tivesse alcançado estas pessoas com as quais desejaria questionar afirmo que acredito muito pouco em testemunhos que não são feitos ao vivo (no calor do momento dias após o acontecimento), testemunhos recolhidos dezenas de anos depois são só para dar cores a narrativa. Eu acabo de passar por Nazaré do Pico, Pernambuco onde pude conhecer e conversar com o tenente João Gomes de Lira, talvez venha a ser a única personagem contemporaneo que eu tenha tido contato, mas me satisfaz a oportunidade de poder conhecer os filhos destas pessoas como Vilsinho, (neto e guardião da memória de Antonio da Piçarra). Neli filha dos cangaceiros Moreno e Durvinha. E o Ozéias irmão de Maria.

Manuseando o rifle pertencente à João Gomes de Lira.

Com quem gostaria de ter conversado?

- Com Manoel Neto, com o Zé Saturnino. Mas principalmente com o escritor padre Frederico Bezerra Maciel. Conversaria com todos, mas somente pelo prazer, não para buscar uma parcela de verdade histórica. Vide o meu livro, primeira pagina : “Não declare ‘encontrei a verdade’ mas de preferência ‘encontrei uma verdade’ Khalil Gibran.

 Ozéias Gomes, irmão de "Maria Bonita", esposa e nosso desbravador

Qual é o seu capitulo?

- A invasão de Mossoró

Um cangaceiro (a)?

- Sabino

Um volante?

- Manoel Neto. Apesar de desaprovar várias de suas ações e decisões como a crueldade que tratava os coiteiros e a de arregimentar jovens para as frentes de batalha.

Um coadjuvante?

- Luiz Pedro, porque serviu muito tempo a Lampião compartilhando muitas situações de agruras e alegrias. inclusive o mesmo capítulo final.

Uma personagem secundária? Queria ter bom papel, mas não passou de figurante

- Maria Bonita (Ao meu ver foi útil... para o marketing do cangaço)

 No museu casa de Maria Bonita

Geralmente todo pesquisador é colecionador qual é o foco de sua coleção?

- Tenho apenas livros, mas não considero coleção. Resguardar sem a finalidade de expor ou doar para um memorial para as próximas gerações objetos pessoais que fizeram parte de uma história tão sangrenta pra mim é fetichismo.

Entre as peças tem alguma relíquia?

- Sim, por casualidade : Um presente que ganhei da filha de um ex-embaixador da Bolivia no Brasil que o recebeu formalmente como um objeto que tivera pertencido a Lampião ! No livro “Heroes and Artists Popular Art and the Brazilian Imagination” de October – december 2001, tem um artigo de Frederico Pernambucano de Mello “The aesthetics of the cangaço as an expression of Brazilian libertarianism” com uma foto dum punhal muito parecido com o meu. Portanto o punhal que tenho, um dia foi de Lampião mesmo!

Nós que gostaríamos de ver um filme que retratasse um cangaço autêntico, fiel aos fatos, sem licença poética, erro primário enfim sem exagero da ficção lamentamos a eterna necessidade de se ter finalmente uma produção digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não foi possível qual a película mais lhe agradou?

- "O Cangaceiro" de Lima Barreto por sua sobriedade e a sua sensibilidade. Gosto muito de "Antonio das Mortes" de Glauber Rocha. O "cinema novo" brasileiro produziu muitos Chef d'oeuvre” ou seja muitas obras primas.

Eleja a pérola mais absurda que já leu sobre Lampião?

- Que conseguiu escapar vivo de Angico e também a persistencia de muitos lhe atribuírem como um bandido “d’honneur” ou seja um bandido social’ como ‘Robin Wood’. E não concebo aquela passagem em que Lampião é ferido no pé, fica diante de soldados e estes não conseguem vê-lo? Teria ficado invisível ? Paciência!

Diante de tantas polêmicas surgidas posteriormente a tragédia em Angico alguma chegou a fazer sentido, levando-o a dar atenção especial ex.: “Ezequiel não morreu e reaparece anos mais tarde”, “João Peitudo, filho de Lampião”, “O Lampião de Buritis” e “a paternidade de Ananias”?

- Acompanhei essas novidades, mas hoje creio que já estão todas superadas. Sobre a possibilidade da paternidade: Acho bem provável que ele tenha tido outros filhos, porque deve ter seduzido várias mulheres durante suas andanças, mas estes filhos nunca apareceram ou pelo menos nada foi autenticado. Sem uma prova cabal como exame de DNA eu não acredito na possibilidade. 

E Lampião: Morreu baleado ou envenenado?

- Acredito que "as duas causas", em conjunto, nesta ordem, ali em Angico que acabamos de visitar. 

 Iniciando a leitura de mais um livro.

Não precisa detalhar, mas em que assunto ou personagem está trabalhando ou qual gostaria de estudar para a publicação desta pesquisa. Enfim qual a próxima novidade que teremos em nossas estantes?

- Lampeão no Raso da Catarina. Como ele chegou até este local e o eternizou como seu principal esconderijo e como estabeleceu contato com os índios.
Contato: Jack De Witte / 21, Rue du Consulat / 11220 Lagrasse France / Tel/Fax : (0033) (0) 4 68 43 37 31 / e.mail : jack;dewitte@free.fr
*Com exceção das duas primeiras as demais imagens são de Manoel Severo.

*Um fetiche (do francês fétiche, que por sua vez é um empréstimo do português feitiço cuja origem é o latim facticius "artificial, fictício") é um objeto material ao qual se atribuem poderes mágicos ou sobrenaturais, positivos ou negativos. Inicialmente este conceito foi usado pelos portugueses para referir-se aos objetos empregados nos cultos religiosos dos negros da África ocidental. O termo tornou-se conhecido na Europa através do erudito francês Charles de Brosses em 1757. Fonte Wikipédia,.

http://lampiaoaceso.blogspot.com/2011/06/prazer-em-conhecer-lampiao-aceso.html

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