Por: José Romero Araújo Cardoso(*)
O sangramento era um dos crimes mais
hediondos cometido no sertão nordestino no tempo do cangaço, praticado tanto
por tropas volantes, as quais dispunham de “sangradores oficiais”, como por
cangaceiros.
Símbolo de uma cultura forjada
pela colonização erigida sob a ênfase da força e da violência, responsável pelo
extermínio dos índios que habitavam a hinterlândia, a “técnica” de sangramento
foi aperfeiçoada ao máximo. A razão econômica da penetração interiorana exigia
que o gado criado de forma ultra-extensiva fosse, necessariamente, abatido para
o consumo de uma minoria privilegiada da população, principalmente a do litoral
canavieiro. No sertão, se tornou um “trabalho de mestre” matar sangrando a
jugular ou a carótida.
As carótidas são duas artérias,
a comum direita e a comum esquerda, sendo que a comum direita é originária do
tronco braquiocefálico e a comum esquerda é originária do arco aórtico. A
ruptura dessas artérias significa morte certa. A hemorragia violenta na via
arterial do fluxo de sangue da aorta se encarrega de tudo.
Quando o soldado João da
“mancha”, considerado inclusive por seus antigos colegas de farda, como um
psicótico, extravagante sangrador das forças volantes paraibanas, rompeu, com
um bisturi pertencente ao medico Luiz de Góes, a carótida do advogado João
Dantas, assassino do presidente João Pessoa, quando de sua detenção na
penitenciária do Recife (PE). João
Dantas estava preso na companhia do cunhado, o engenheiro Augusto Caldas,
também assassinado com a mesma “técnica”. O “serviço” fora feito por um
profissional macabro que conhecia muito bem o seu “ofício”. O militar sabia
milimetricamente onde iria romper a artéria, visto que a luta corporal travada
entre o intrépido advogado João Dantas e os seus algozes impediu o seccionamento
no ponto exato, como pretendia Dr. Luiz de Góes. Conforme Arruda, só alguém que
estava profundamente em contato com a “arte” de sangrar poderia ter feito um
“trabalho” com tamanha perfeição.
As veias jugulares, outras que
também eram preferidas pelos “sangradores” das lutas do cangaço nordestino, são
de extrema importância para o organismo. A veia jugular interna é a principal.
Ao rompê-la é quase impossível de haver qualquer possibilidade de salvação, a
não ser que haja modernas técnicas de reversão, como presença de médicos e
hospital, praticamente inexistentes nos ermos esquecidos dos sertões de
outrora, embora ainda hoje encontremos tal situação em diversos lugares
espalhados pelo nordeste e pelo Brasil afora.
Com o comprometimento da veia
braquiocefálica, poucas chances de vida havia às vítimas desse suplício macabro
promovido por solados e bandidos no sertão do cangaço, principalmente quando do
apogeu de Lampião. Essa veia se anastomisa com a veia braquiocefálica direita,
formando a veia cava superior, de fundamental importância à manutenção da vida.
Lampião era expert nesta
técnica, dispondo para isso de imenso punhal de setenta centímetros de lâmina.
Tarimbado na lida do campo, sobretudo no que diz respeito à pecuária,
fornecendo peles e couros ao “Coronel” Delmiro Gouveia, com quem a família
Ferreira negociava, o “rei do cangaço” inovou e utilizou-a profusamente quando
de sua chefia no cangaço (1922 – 1938).
A veia jugular externa, quando
rompida, representa morte certa. Essa veia é constituída da junção da veia
retromandibular com a veia auricular posterior, e, após vários estágios de
grande importância, desembocará, mais freqüentemente, na veia subclávia.
Segundo o Coronel Manuel Arruda
de Assis, sobre quem há registros históricos indeléveis, tendo marcado de forma
extraordinária a história das lutas do povo do semi-árido nas primeiras décadas
do passado século, outro método bastante utilizado por ambas as partes
envolvidas nas lutas, consistia em perfurar a clavícula, introduzindo-se, com
violência, o instrumento perfuro-contudente diretamente na aorta, junto ao
coração.
Depois da hecatombe de Piancó
(PB), ocorrida no mês de fevereiro do ano de 1926, cuja participação do velho
guerreiro das hostes volantes, natural do município de Pombal (PB), fora
decisiva e marcante, houve aprisionamentos de militares da coluna Prestes, bem
como da cozinheira da milícia que pregava novos rumos. Era uma baiana conhecida
entre os revoltosos por tia Maria. Apenas um escapou da triste sina, devido aos
apelos de muitos no sertão, inclusive do
Padre Cícero.
Conforme ainda o entrevistado,
um prisioneiro quando do sangramento pelos militares comandados pelo Coronel
Elísio Sobreira, revelou ter feito muito isso quando da marcha da coluna, entre
os diversos combates que travou.
Ainda em Piancó (PB), Arruda
relembrou a chacina do barreiro, a qual vitimou o Padre Aristides Ferreira e
diversos camaradas que lutaram bravamente para tentar conter o avanço da
coluna. Todos foram sangrados por membros da coluna, consternados com as mortes
dos cavalarianos que formavam a vanguarda da Coluna Miguel Costa – Prestes, os
quais chegavam na cidade de Piancó (PB), e terminaram alvejados pela pontaria certeira
do então sargento Manuel arruda de Assis.
Entrevista Pessoal:
ASSIS, Manuel Arruda de Assis. Pombal (PB), 27 de abril de 1989.
Entrevista Pessoal:
ASSIS, Manuel Arruda de Assis. Pombal (PB), 27 de abril de 1989.
(*) José
Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor da UERN.
Enviado pelo autor: José Romero Araújo Cardoso
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