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quarta-feira, 8 de abril de 2015

UM POÇO REDONDO E CHEIO DE HISTÓRIA

Por Rangel Alves da Costa*

Nem sempre os mais velhos recordam, e por isso mesmo os mais jovens não têm obrigação alguma de conhecer. Mas seria bom que a juventude do tempo presente conhecesse um pouco mais do passado do seu lugar, sua história, suas raízes culturais, o seu povo.

Talvez nem os Souza nem os Cardoso de hoje, que foram as primeiras famílias na povoação de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo, ainda no arruado do Poço de Cima, conheçam a importância histórica de sua linhagem na formação do município.

Do mesmo modo os Saturnino, os Francelino, os Feitosa, os Marques, os Félix, os Santana, os Costa, os Rodrigues, os Sá, os Nascimento, e tantas outras designações familiares, nem sempre são conhecidas nas suas raízes pelos mais jovens. Possuem a linhagem no sobrenome, porém não conhecem as raízes familiares tanto do pai como da mãe.

Um Cardoso de hoje talvez não saiba quem foi Manoel Cardoso de Souza, aquele que ao se instalar com uma pequena fábrica de descaroçar algodão no Poço de Cima permitiu o surgimento de moradias ao redor e um acanhado povoamento.

Acanhado porque o Poço de Cima nunca passou de apenas algumas moradias no entorno das matas e pastagens de criação. Como em época de estiagem os moradores desciam com seus rebanhos para dar água no Riacho Jacaré, um pouco mais abaixo, algumas moradias foram surgindo às suas margens.

Assim, primeiro surgiu o Poço de Cima, e mais abaixo o Poço de Baixo. Porém não havia poço algum, nem na parte de cima nem na de baixo, que justificasse tal nome. O que existia era um poço grande, redondo, aberto nas areias do Jacaré, servindo para matar a sede do pequeno rebanho.

O tal poço grande e redondo continuamente servindo àqueles que desciam com rebanhos do Poço de Cima para o Poço de Baixo, ou mesmo nas propriedades já existentes ao redor, acabou dando outro nome ao lugar: Poço Redondo.

Quando os criadores passavam com seus rebanhos e eram perguntados aonde iam dar de beber aos animais, logo respondiam que iam ao poço redondo. Desse modo, do poço arredondado cavado no leito do Jacaré é que surgiu o nome da futura povoação.


E um Poço Redondo de muito mais história do que imagina o seu filho de hoje. Cravado nas terras mais áridas do sertão sergipano, se estende tão longamente que vai dar nos limites da Bahia, em Serra Negra, bem como na divisa alagoana de Pão de Açúcar e outros municípios.


Virgulino Ferreira, o Capitão Lampião, tinha predileção pelo lugar e o visitava constantemente. Amigo de Teotônio Alves China, o China do Poço, passava dos limites diante da buchada de bode preparada por Dona Marieta. Um dia encontrou o Padre Arthur Passos na casa do bom amigo e quase a cruz desafia a espada. Acabaram dividindo a mesa e depois a cangaceirada foi assistir missa na igrejinha de Nossa Senhora da Conceição.

Não só Lampião gostava de Poço Redondo como a juventude de então parecia encantada com aqueles verdadeiros artistas das caatingas. E mais de duas dezenas de rapazes e mocinhas resolveram seguir os passos do Capitão. Adília, Sila, Cajazeira (Zé de Julião), sua esposa Enedina, Zabelê, dentre muitos outros. E foi ainda nas suas terras, na Gruta do Angico, que o bando foi chacinado a 28 de julho de 38.

O ex-cangaceiro Zé de Julião

Na sua caminhada missionária, um dia Antônio Conselheiro, acompanhado de um séquito de fanáticos, despontou nas veredas poço-redondenses e entre uma profecia e outra foi fincando os alicerces da igrejinha do Curralinho, bem no alto da povoação ribeirinha. E a igrejinha ainda está lá para contar sua história, ainda que ninguém queira ouvir. Uma pena que assim aconteça.

O sangue e o suor da escravidão ainda de triste memória nas terras do Bonsucesso, povoação ribeirinha do município. Ainda hoje se ouve, nos negrumes dolorosos das noites, a chibata lanhando o couro negro na juntada de pedra sobre pedra na construção da muralha ainda viva em resquícios ao fundo do casarão defronte ao rio.

Pela estrada do Curralinho João de Virgílio fazia seu percurso diário. Sempre descalço, com cigarro de palha no bico, todo santo dia, e sempre mais de uma vez, levava e trazia nas costas encomendas dos outros. Sacos, embrulhos e até caixão de defunto. Um dia foi encontrado sem vida no meio da estrada.

A cidade inteira se preparava para a festa de agosto, homenagem à padroeira. Seu João Fotógrafo armava seu tripé pelas calçadas para guardar sorrisos em preto e branco. Manezinho Tem-Tem aparecia com sua caixa de engraxate e deixava brilhando todo pé sertanejo. O parque era uma festa particular e após o entardecer, quando o alto falante ecoava O Milionário e a garotada corria a gastar sua moeda do dia.

Minha boca adoça ao recordar a cocada de Dona Quininha, Clotilde e Cecília de Duié. As duas especializadas no doce de coco, enquanto a última uma mão de fada na cocada de cabeça de frade. Já Dona Luizinha preparava pirulitos de mel e Baíta espalhava seu arroz doce pela cidade inteira. Reclamavam que era ralo, mas ninguém ficava em apenas um copo.
Assim Poço Redondo. Assim retalhos de sua história. E quem dera poder estender essa imensa colcha aos olhos da juventude. E dizer ainda que suas histórias também estão sendo costuradas. E não remendadas.

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

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