Rita de Cássia
Rocha (1) José Romero
Araújo Cardoso (2)
A partir de
1850 houve modificações significativas na economia sertaneja, devido ao advento
da segunda revolução industrial que trouxe consigo a necessidade de se utilizar
outras matérias-primas, devido ao sensacional desenvolvimento da indústria
têxtil, principalmente na Inglaterra, bem como em razão do surgimento do
fonógrafo, do automóvel e outros inventos. Nessa fase, entre os anos de 1850 e
1880, a economia sertaneja destacou as seguintes atividades:
Cera de
Carnaúba (Corperniciaprunifera):
Nativa do
semiárido nordestino, a carnaubeira (Coperniciaprunifera), é ainda hoje de
grande importância social e econômica para a região (Mendes, P.
104).Inicialmente utilizada para a produção de velas, a cera de carnaúba teve
sua função diversificada, pois:
“Na perspectiva
de utilizar este produto, o homem nordestino idealizou um método de extração da
cera dessa planta e desenvolveu tecnologias empíricas para utilizá-la. (...)O
método de extração e preparação da cera de carnaúba foi desenvolvido no inicio
do século XIX, pelo norte-rio-grandense radicado no Ceará, Dr. Antonio Macedo,
conhecido na literatura, também, com o nome de Emanuel Antonio de Macedo. Na
segunda metade do século XIX e nos primeiros oitenta anos do século XX, a cera
de carnaúba foi de vital importância econômica para os estados do Piauí, Ceará
e Rio Grande do Norte, constituindo-se um dos principais produtos de exportação
destes três estados (Idem, P. 104 – 105)”.
A segunda
revolução industrial destacou o surgimento de inventos formidáveis, como o
fonógrafo, fruto da obstinação e da genialidade do norte-americano Thomas Alva
Edison (https://pt.wikipedia.org/wiki/Fon%C3%B3grafo).
O objetivo principal era a gravação e reprodução de sons através de um
cilindro. Até 1929, a invenção de Edison dominou o mercado, fazendo uso profuso
da cera de carnaúba produzida no sertão nordestino.
Sobre o
assunto, CARDOSO afirma que:
“O boom
econômico da cera de carnaúba nordestina veio com o advento da indústria
fonográfica. Os discos primitivos eram confeccionados com o produto obtido a
partir da exploração dessa espécie endêmica da flora existentes nas várzeas de
alguns cursos d´água existentes no semiárido” (http://www.caldeiraodochico.com.br/notas-historicas-sobre-a-importancia-da-cera-de-carnauba/).
Não apenas a
cera era aproveitada.A carnaubeira também fornecia palha, para confecção de
chapéus, esteiras, etc., sendo que o “chapéu de palha de carnaúba também foi um
produto e exportação nobre (MENDES, 2009, P. 105)
Algodão Mocó
(Gossypiumhirsutum Var. Marie-Galante):
O algodão mocó
(Gossypiumhirsutum Var. Marie-Galante), provavelmente originário do
seridónorte-riograndense, era conhecido e usado pelos indígenas tapuias há
milhares de anos, com o qual confeccionavam redes de dormir e outros acessórios
presentes no cotidiano dos nativos do sertão nordestino.
O boom econômico sertanejo aconteceu quando da guerra de secessão (1861 –
1865), envolvendo sul e norte estadunidenses, tendo em vista que a parte
meridional dos atuais EUA especializou-se na produção algodoeira, vendida em
grande quantidade à Inglaterra, cuja indústria têxtil imprescindia de
matéria-prima produzida bem próxima do seu território de fixação.
Como o sul dos EUA estava impossibiltado de continuar fornecendo algodão à
Inglaterra, esta, não obstante a maciça produção em colônias como Índia e
Egito, voltou sua atenção para o semiárido nordestino, em razão da qualidade do
algodão mocó (Gossypiumhirsutum Var. Marie-Galante), altamente resistente às
secas, arbóreo e de fibras longas.
Para viabilizar o escoamento da produção, a Great Western Company estendeu
trilhos pelos sertões de várias Províncias Nordestinas, inserindo, dessa forma,
adustas e esquecidas zonas semiáridas na modernidade de época, pois a ênfase da
produção cotonicultora regional na modernidade verificada na época trouxe
mudanças significativas para a economia local e para o padrão de vida de
populações inteiras.
Conforme
CARDOSO & LOPES:
O cultivo do
algodão passou a ser feito sobretudo em grandes latifúndios, motivado por
agentes econômicos que dispunham de condições e contatos que viabilizassem a
venda do produto.
Depois de
algum tempo o algodão passou a ser uma cultura infinitamente mais democrática
que a da cana-de-açúcar, tendo em vista que pessoas pobres, mas detentoras de
pequenos pedaços de terra, passaram a cultivá-lo e comercializá-lo em praças
especializadas, como Campina Grande (PB), Recife (PE) e Mossoró (RN), formando
uma elite enriquecida com o Ouro Branco do sertão. Negros alforriados que a
duras penas conquistaram pequenos lotes de terra galgaram degraus na rígida e
inflexível sociedade sertaneja agropastoril graças ao algodão.
A introdução
de descaroçadores foi de suma importância para a dinâmica econômica da região
sertaneja. Para o algodão mocó indicava-se o de rolo, enquanto para as espécies
herbáceas utilizava-se o de serra.
Campina
Grande, localizada no Estado da Paraíba, foi beneficiada economicamente, de
forma espetacular, quando Cristiano Lauritzen introduziu descaroçador de
algodão e passou a aproveitar-se da produção sertaneja que demandava
a Pernambuco, cujos tropeiros que conduziam fardos de algodão antes tinham na
cidade apenas ponto de parada obrigatória. No presente, experiências genéticas
que resultaram no algodão colorido denotam a invectividade dos pesquisadores da
EMBRAPA a fim de revitalizar o produto na economia local (http://blogdocarlossantos.com.br/a-importancia-preterita-do-algodao-para-o-nordeste-brasileiro/).
O binômio
gado-algodão constituiu, durante décadas, no sustentáculo da economia
sertaneja, sendo desestimulado somente quando da grande crise da década de
oitenta do século XX, época que marcou a fragmentação da economia sertaneja,
devido ao advento da praga do bicudo, época que assinalou o despovoamento do
campo
Borracha de
Maniçoba (Manihotdichotoma):
A descoberta
da vulcanização da borracha em 1842, feito promovido, de forma simultânea, nos
Estados Unidos, por Goodyear, e na Inglaterra, por Hanncock, dinamizou
extraordinariamente a extração de látex da maniçoba, a qual perdurou por cerca
de 100 anos, indo de 1845 até 1955 (MENDES, 2009, P. 112).
A segunda revolução industrial, com o advento da indústria automobilística,
melhorias de técnicas médico-cirúrgica, com a necessidade de manipulação
higiênica quando dos procedimentos, bem como implemento à educação, através do
uso de objetos como borrachas, beneficiaram a economia nordestina, valorizando
a matéria-prima obtida com produto extraído de planta da flora regional.
A extração do
látex de maniçoba no nordeste brasileiro coincidiu com o apogeu da economia do
norte do Brasil através da hipervalorização da borracha no mercado externo,
declinando quando dos estragos provocados pela biopirataria inglesa, a qual
contrabandeou mudas de seringueira para serem plantadas de forma
ultra-extensiva no Oriente distante, sobretudo na Malásia.
Piauí, Ceará,
Rio Grande do Norte e Bahia foram os Estados nordestinos que mais
sobressaíram-se com a exploração da borracha de maniçoba destinada a abastecer
novas exigências da produção em série que se organizava na segunda metade do
século XIX.
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Rita de Cássia
Rocha (1) – Discente do Curso de Licenciatura em Geografia do Campus Central da
UERN.
José Romero
Araújo Cardoso (2) - Geógrafo (UFPB). Escritor. Professor-adjunto do
Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e
Gestão Territorial (UFPB) e em Organização de Arquivos (UFPB). Mestre em
Desenvolvimento e Meio Ambiente (UERN). Membro do Instituto Cultural do Oeste
Potiguar (ICOP), da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC) e da
Associação dos Escritores Mossoroenses (ASCRIM)
Rita de Cássia
Rocha (1) – Discente do Curso de Licenciatura em Geografia do Campus Central da
UERN.
Rita de Cássia
Rocha
Prof.
Msc. José Romero Araújo Cardoso (UERN/FAFIC/DGE - ICOP/SBEC/ASCRIM)
Enviado pelo professor, escritor, pesquisador do cangaço e gonzaguiano José Romero de Araújo Cardoso
http://blogdomendesemendes.blogspot.com
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