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domingo, 15 de julho de 2012

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 16 (DEPOIS DE ANGICO)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 16 (DEPOIS DE ANGICO)

Cangaceiro jamais imaginava que aquela tragédia pudesse acontecer. Quando Cangaceiro viu a bala zunindo, o escarcéu formado, o fogo cortando tudo, os gritos, as quedas, as mortes, e ele mesmo não sabendo direito se estava vivo ou morto, não teve cabeça boa pra acreditar. Aquilo seria a última coisa que poderia suceder. E tudo que ninguém imaginava que pudesse acontecer.

Mas estava ali: a madrugada aflita, o passarinho piando de lamentação, a mataria sem querer acreditar, a pedra chorando, a gruta gemendo, a vida em pranto, em tudo tanta dor e sofrimento. Depois do primeiro disparo, e acertando a rainha cangaceira, os estampidos seguintes, voltados para todas as direções, tanto derrubavam o mandacaru como o cabra aflito que procurava se proteger.

Hoje a história fala numa morte anunciada, em massacre premeditado, num acontecimento inevitável. E muitos chegam a asseverar que o ciclo cangaceiro já estava marcado para terminar mesmo naquele fatídico dia 28 de julho de 1938. E tanto estava marcado no calendário que ao rei dos cangaceiros foi oferecida a chance de abandonar o bando antes que parte do mesmo fosse chacinado.


E sabendo que os dias estavam realmente contados, que não duraria muito para a descoberta e o ataque, o Capitão passou a sofrer a mais angustiante das dúvidas: acabar logo com o bando ou deixar que o destino desse a última voz. Tal indagação corroia-lhe por dentro, apertava o peito, feria o coração. Homem de sentimento, sofrendo a dolorosa perseguição de ter de fazer tão difícil escolha.

Tudo isso refletia no homem como folha verde quando começa a estiagem, como semente quando não bebe gota d’água. Verdade que Lampião andava meio cabisbaixo, um tanto entristecido, de poucas palavras e mais recolhimento. Líder que gostava de estar ao lado de seus comandados, naqueles últimos dias dava pra se danar pra lugares mais afastados, nas ribanceiras do rio, por cima das pedras grandes.

Cangaceiro não comentava nada com os demais, mas tinha certeza que o Capitão meditava conversando consigo mesmo, murmurando seus descontentamentos, seus aperreios, suas angústias e desilusões. E que também chorava de vez em quando. Um dia ainda voltou com os olhos marejados, talvez não desejando mais esconder de ninguém o que andava sentindo.

Mas por que o Capitão não convocava uma reunião para expor, de uma vez por todas, a situação, dando a cada um a chance de escolher o que fazer? Todo líder acha que encontrará sozinho a melhor solução. Situações complicadas ou problemas mais graves a ser resolvidos ele só comentava com Maria Bonita, quando muito. Tinha tanta consciência do seu poder de liderança e de resolver sozinho a maioria das dificuldades surgidas que quase não compartilhava nada com o restante.

Mas para ele estar assim coisa boa não poderia ser. Todo coiteiro que chegava e lhe comunicava alguma coisa o tornava mais circunspecto e reflexivo ainda. Não gostando nada daquela realidade, Cangaceiro sentou numa pedra perto de um companheiro de bando, num lugar um pouco mais afastado, e começou a comentar sobre aquela situação.

O cabra respondeu que também já havia percebido a estranheza, mas talvez tudo estivesse sendo motivado por pensamentos que vinha tendo sobre o destino do bando. Segundo tinha ouvido de uma cangaceira muito amiga de Maria Bonita, desde muito que Lampião vinha tendo pressentimentos ruins com relação ao cangaço. Chegava mesmo a ter pesadelos terríveis com gaviões enfurecidos dando bicadas por cima das cabeças de todo mundo.

Era como se sentisse que o bando dele não demoraria existindo por muito tempo, que a qualquer momento alguma coisa desastrosa poderia acontecer. E por isso mesmo, pra evitar o pior, e também pelo fato de já estar cansado daquela vida de lutas e mais lutas sem qualquer conquista de grande valia, que estava pensando seriamente em desfazer o bando, mandar que cada um seguisse seu rumo e que ele mesmo daria um jeito de se refugiar junto com Maria Bonita.


Ao ouvir isso, Cangaceiro baixou a cabeça e disse o que sentia sobre a revelação do amigo. Afirmou que Lampião até podia ter razão em querer abandonar aquela vida. Reconhecia o seu cansaço depois de tanto tempo cortando caatinga, fugindo, atacando, sendo perseguido, numa vida injusta demais pra qualquer pessoa. Mas nada seria resolvido apenas acabando com o seu grupo.

E prosseguiu dizendo que o Capitão era bem protegido por gente graúda, importante, e que talvez não sofresse nenhuma represália ou consequência maior por parte da justiça. Contudo, certamente que os outros cangaceiros não teriam a mesma sorte, pois sofreriam implacável perseguição e a tendência era que apodrecessem atrás das grades. Sem falar que poderiam ser fulminados covardemente pelos fuzis dos macacos.

Indo adiante no seu proseado, disse ainda Cangaceiro que ainda tinha outro problema que ninguém gostava de falar. E isso dizia respeito ao mundo que o ex-cangaceiro encontraria fora do bando, fora da fama catingueira, fora do respeito que todos devotavam aos homens de Lampião. Acaso ficassem livres da cadeia, o que seria difícil, melhor sorte não teriam perante outras situações.

E apontou: muitos não encontrariam mais família nem porta aberta que os acolhesse; do mesmo modo, poucos seriam os amigos de outrora que estenderiam a mão ou abririam a boca para um bom dia ou boa tarde; sem dinheiro, sem tostão algum, teriam que esmolar para sobreviver, e o pior que sabendo que a fama de ex-cangaceiro não era certeza alguma de ser visto com bons olhos por certas pessoas; que verdadeiramente corriam o risco de ser chamados de fracos e covardes, o que implicaria numa rejeição ainda maior por parte da sociedade; que a polícia tencionasse fazer, mil vezes mais, aquilo que por muito tempo não haviam conseguido a contento, que era a judiação até a morte.

Dois dias depois dessa conversa, na madrugada de 28 de julho de 1938, a polícia alagoana comandada pelo Capitão João Bezerra, atravessando o São Francisco em meio à escuridão, cercou a Gruta do Angico, último refúgio do bando no lado sergipano, e começou atirando em Maria Bonita no momento que ela se dirigia até a beira das águas com balde na mão. Depois mais dez cangaceiros foram varados de balas, inclusive o Capitão Lampião.

Cangaceiro, deitado na recurva de duas pedras, assim que ouviu os primeiros estampidos já pulou de arma na mão. Recostou-se nas pedrarias e começou a mandar bala sem saber ao certo de onde a polícia atirava. Ainda estava escurecido e os vagalumes mortais cortavam o ar num zunido ensurdecedor. As balas batiam nas pedras, riscavam fogo, ricocheteavam e se espalhavam por todo lugar. Tempo ruim, tempo triste, coisa de parecer o mundo acabando.

Totalmente encurralado, Cangaceiro se arrastou pelo chão espinhento que mais parecia cobra assustada. Foi dar num penhasco num mesmo instante que ouviu botinas no seu encalço. É agora, pensou. Ainda deitado, mirou na direção do barulho na mataria, atirou e depois se deixou cair ribanceira abaixo. Foi sua salvação. Correu pelo mato da beira do rio e só parou quando encontrou uma canoa abandonada. Subiu nela e começou a singrar sem direção.


A sorte ajudou Cangaceiro mais uma vez. Foi parar na casa de um coiteiro e lhe jogou por cima da mesa anéis, moedas de ouro, quinquilharias brilhosas. Disse que entregaria tudo que possuía se o amigo arrumasse algum dinheiro pra fugir dali e o mais depressa possível. O sertanejo não tinha em casa um tostão furado, mas deixou o amigo num esconderijo enquanto levava um bode pra fazer negócio na cidade.

Cinco dias depois Cangaceiro já era forasteiro desconhecido lá pelas bandas de Minas Gerais. Mendigou, dormiu no coito da linha do trem, ouviu o apito e se assustou pensando que era a polícia. E foi passando de coito em coito, refúgio em refúgio, até arranjar emprego numa grande fazenda.

No dia seguinte, foi chamado pelo capataz que lhe fez uma interessante proposta: ganharia o dobro, talvez o triplo, se fosse bom no gatilho e aceitasse ser pistoleiro do chefe. Cangaceiro, que agora dizia chamar-se Bastião, olhou no olho do outro e disse que em toda sua vida jamais tinha apertado um gatilho pra ninguém. E não seria agora que se tornaria num assassino.

Foi dispensado e seguiu adiante, em busca de uma igreja qualquer para ir conversar com Deus. Contar sobre o homem que tinha sido e no que havia se transformado.

Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com




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