*Rangel Alves
da Costa
Viver não é
difícil. Difícil é amanhecer sem notícia boa, difícil é ligar a televisão,
difícil é ouvir o noticiário. Viver não é difícil. Difícil é enfrentar a fila
interminável para resolver um problema medíocre, difícil é ter de olhar na cara
do funcionário público e seu ódio desmedido, difícil é saber que perdeu tantas
horas para nada resolver. Viver não é difícil. Difícil é deparar com sentenças
judiciais estapafúrdias, difícil é contestar o absurdo utilizado como prova,
difícil é ser pobre num litígio onde a outra parte é rica, difícil é saber que
a inocência da balança sempre pende de modo desavergonhado.
Viver não é
difícil. Difícil é saber que pai não conhece o viver e o fazer do filho nem o
filho sequer dá à mínima à existência tanto paterna como materna, difícil é
suportar o silêncio conivente entre pais e filhos, difícil é saber que os
problemas, os vícios e as perdições se acumulam pela degradação familiar. Viver
não é difícil. Difícil é retornar ao mercado com a mesma quantia levada na
feira passada e de repente saber que o que tem em mãos já não compra nem metade
do que tanto necessita. Viver não é difícil. Difícil é suportar a fatura que
chega com o aumento na água, na energia, no imposto, na multa. Viver não é
difícil. Difícil é sentir-se impotente perante os abusos, as cobranças
abusivas, os roubos oficiais e os achincalhamentos nos cotidianos das contas a
serem pagas.
Viver não é
difícil. Difícil é precisar de um atendimento médico, enfrentar um posto de
saúde, se submeter aos chãos putrefatos dos hospitais e aos péssimos e
negligentes atendimentos médicos. Viver não é difícil. Difícil é chegar a um
hospital e ser informado que a unidade não possui sequer um comprimido para
determinada doença, que não possui esparadrapo, que não está fazendo exames
porque a máquina está quebrada, que falta leito hospitalar, que não tem como
atender a um pobre enfermo esvaindo suas últimas forças. Viver não é difícil.
Difícil é encontrar aquele eleito que no passado não saía de sal porta e
insistia em estender sua mão e chamar de amigo. Difícil é perceber a
transformação no eleito, sua capacidade camaleão de mostrar sua verdadeira face
somente naquele período em que não está precisando de voto. Viver não é
difícil. Difícil é suportar a política, os políticos e suas safadezas.
Viver não é
difícil. Difícil é saber o valor do salário mínimo e confrontá-lo com os
valores recebidos pelos mais altos escalões dos poderes, difícil é ter de
aceitar tudo isso calado sob pena de retaliação. Viver não é difícil. Difícil é
saber que a educação pública é de péssima qualidade e ter de suportar os
valores absurdos cobrados pelas escolares particulares, difícil ainda encontrar
meios para adquirir os livros e os materiais exigidos na educação até de uma
criança. Viver não é difícil. Difícil é entrar num mercadinho para a feira
semanal, difícil é entrar numa farmácia para comprar um remédio, difícil é
entrar numa loja para comprar uma roupa, difícil é comprar qualquer coisa.
Viver não é difícil. Difícil é fazer reforma na residência, difícil é fazer a
renovação de um ou outro móvel da casa, difícil é pagar o valor cobrado por um
pedreiro ou até por um servente. Viver não é difícil. Difícil é tentar viver um
pouquinho diferente do que se vive.
Viver não é
difícil. Difícil é respeitar a si mesmo e o próximo e depois ser desrespeitado
pela mesma pessoa que tanto respeitou, difícil é ser verdadeiro e honesto e de
repente ser maculado pelas aleivosias e falsidades das línguas ferinas, difícil
é conviver com pessoas que se mostram amigas e por trás tudo fazem para
denegrir a honra e a imagem. Viver não é difícil. Difícil é conviver entre
lobos com pele cordeiro, difícil é partilhar atenções com quem não merece,
difícil é ser abraçado por aquele que sempre está com um punhal escondido.
Viver não é difícil. Difícil é viver em meio a hipocrisias, a arrogâncias, a
egoísmos e vaidades, a cobiças e interesses escusos. Difícil não é viver.
Difícil é viver entre os ódios humanos, os barbarismos e as desenfreadas
brutalidades.
Viver não é
difícil. Difícil é viver perante uma sociedade hipócrita, consumista,
desregrada, difícil é saber que as permissividades saem dos lares e consomem as
juventudes, devastam as adolescências, destroem os sonhos mais belos. Difícil
não é viver. Difícil é enfrentar a normalidades dos absurdos, ter medo de sair
à porta, de caminhar pela praça, de passear entre canteiros, de ir a padaria
comprar leite e pão. Viver não é difícil. Difícil é saber que não adianta a
porta fechada, que não adianta o muro alto, que não adianta pensar em proteção
das forças de segurança. Difícil é viver num mundo assim. E tão difícil que os
dias são de desesperanças e os passos são sempre incertos.
Escritor
Membro da
Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com
http://blogdomendesemendes.blogspot.com
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