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sábado, 17 de setembro de 2011

Um texto de Natália Guberev


Basílio Guberev

ÚLTIMAS PALAVRAS AO MEU PAI
Natália Guberev
No dia 08 deste mês de setembro, meu pai deve ter dito para si mesmo: “Hoje, eu já encerrei meu expediente!” Era o que ele costumava dizer ao final de todo dia. Mas desta vez, não só o expediente estava encerrado como a missão fora inteiramente cumprida!!
            
Papai, queria te dizer estas últimas palavras, compartilhando com os que aqui estão:

Antes do meu nascimento, o senhor pensava e torcia para que eu fosse um menino. É, pois já existia a Roberta, com dois anos de idade e o senhor esperava ansiosamente o “garoto do pai”. Até o nome já havia sido escolhido: Erick! Então, eu nasci... uma menina!! Entretanto, só tenho notícias e lembranças do orgulho que sempre teve de suas filhas e da felicidade da família que constituiu, juntamente com a mamãe. Ouvi por diversas vezes que o senhor seria capaz de dar sua vida por qualquer uma de nós!!

O tempo passou, tenho lembranças diversas de toda uma vida em família... Ainda não sei como será daqui pra frente, com essa nova realidade: você partiu para sempre!

Não fui seu filho, mas lhe dei seu primeiro neto, o Portinho, a quem o senhor carinhosamente o apelidou, desde muito pequenino, de Antonov; em virtude de nossa descendência russa, além da semelhança com o senhor e seus familiares.

Deus é tão generoso, que o Antonov, há muito tempo o havia “batizado” espontaneamente de “PAI” - jamais rejeitando sua verdadeira paternidade, mas em sinal de afinidade e amor ao senhor, que por sua vez, na maior felicidade, referia-se a ele de “MEU FILHÃO”!!

Sou muito feliz de ter lhe dado a Natalie – “a princesinha do vovô” e o Antonov – “seu filhão”; que tanto aprenderam com o senhor - valores íntegros e morais, dentre tantas outras coisas!

Acompanhei, muito de perto, desde 2009 sua saúde dando sinais do que eu sempre temi: perder meus pais! Um câncer na faringe se apresentou, mas o senhor foi imbatível como um autêntico vencedor, e de fato, venceu!! Foi uma das maiores alegrias da minha vida, saber que todo aquele sofrimento não havia sido em vão; aquele tratamento cruel, doloroso e prolongado surtiu o efeito desejado! O que para mim, parecia impossível, aconteceu: o tumor desaparecera!!!! Que felicidade!!!

Mas poucos meses depois, precisamente quatro, o senhor adoeceu. Um AVC localizado no tronco do seu cérebro calou para sempre a sua voz e lhe deixou cheio de seqüelas, que lhe impossibilitavam completamente de qualquer tipo de movimento e interação com o meio.

A cada vez que eu ia ao hospital papai, eu te via com menos vida, menos, menos e menos... “A pilha estava cada vez mais fraquinha...”

Não existia mais esperança de melhora, ao contrário, eu sabia que não podia esperar muito daquele quadro.

Sabe pai, eu fiquei doente junto com o senhor e cada vez que te via, eu adoecia mais...Tenho a mais absoluta certeza que o senhor passou por um período de purificação, antes de partir, ainda aqui na Terra, entre nós. Pois como o senhor costumava dizer: “Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não faz nada pela metade”. E quando eu lhe via sofrendo mais e mais naquele leito de hospital, sempre lembrava destas suas palavras e às vezes me perguntava: Por que, meu Deus? Por que, minha Nossa Senhora? Por que meu pai não está aqui, mas também ainda não se foi? Por que tanto sofrimento? Por que tanta dor? Questionei-me, por muitas vezes. Mas com o tempo, percebi e acreditei que se tratava de sua purificação, enquanto ser humano! Então, entendi que o ciclo estava completo e não mais pela metade. O senhor tinha toda razão, papai, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não faz nada pela metade. Agora eu sei.

Eu não tenho dúvida que o senhor está num lugar lindo e cheio de luz, e nada mais em você está doendo, papai. Sei que agora o senhor fala, anda, sorri e está feliz!!

Tenho segurança de que ao partir, há sete dias atrás, um belo caminho já o esperava e que o senhor está muito melhor agora do que quando estava aqui. E em paz!

Sua alma é pura e iluminada, generosa, boa, justa, honesta e digna! Tenho muito orgulho de ter sido sua filha e sou muito grata a Deus por ter tido a oportunidade de tê-lo como meu pai.

Obrigada, Deus! Obrigada, papai! 

Jamais, em toda a minha vida, conheci alguém de um coração tão grande, que só cabia bondade!!

Obrigada por tudo! Até um dia... Pode ser que daqui a algum tempo, a dor da partida se transforme em uma bela saudade!

Ah, pai! Não se preocupa, pois do jeito que eu adoeci contigo, vou ficar boa, sentindo você renascer na luz.

                                                                             Tua filha que te ama...
                                                                                Natália Guberev



Valeu Natália Guberev! Uma excelente crônica.
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/

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