Benedito
Vasconcelos Mendes
A Fazenda
Aracati era uma propriedade especializada na produção pecuária, mas, no
inverno, seus quatro vaqueiros faziam pequenos roçados de algodão mocó e de
culturas de subsistência (milho, feijão-de-corda, batata-doce, melancia,
jerimum-de-leite e jerimum-caboclo). Às vezes, nos solos aluviais da margem do
Rio Aracatiaçu, plantava-se arroz vermelho. Os pés de maxixe e as cabaceiras
nasciam espontaneamente. No período chuvoso, os vaqueiros passavam a ser também
agricultores. No sertão nordestino, existem quatro ofícios que são praticados
por todos os sertanejos: ofícios de agricultor, vaqueiro, caçador e de
pescador. São as ocupações tradicionais do sertão, cujos ensinamentos passam de
pai para filho. O milho era consorciado com o feijão e o algodão era plantado
solteiro. Embora, no final da primeira metade do Século XX, alguns plantadores
de algodão mocó da Zona Norte do Ceará já usassem a mecanização a tração
animal, na fazenda do meu avô, a agricultura era praticada de maneira
rudimentar, usando apenas a enxada e o veneno para matar formigas (formicida). Naquela época, no sertão nordestino, na agricultura de sequeiro, o único
insumo químico que se usava era o formicida. No cultivo do algodão mocó, que
era a cultura mais lucrativa da região, alguns poucos agricultores mais
evoluídos já usavam o arado de aiveca reversível, o arado de discos e a grade
de discos, todos puxados por juntas de bois. Estas máquinas agrícolas a tração
animal eram fabricadas no exterior, principalmente nos Estados Unidos, Holanda
e em outros países europeus. O único tipo de adubação que se fazia era a
orgânica, com esterco de curral. Não se usava herbicidas, inseticidas,
fungicidas, nematicidas e nem adubos químicos. A indústria brasileira de
máquinas agrícolas e de insumos químicos estava principiando e a agricultura de
sequeiro da região era muito atrasada, do tipo itinerante. Devido a não utilização
de fertilizantes químicos e ao clima semiárido tropical, as deficiências
naturais de nutrientes dos solos eram grandes, especialmente de matéria
orgânica, pois, depois de quatro ou cinco cultivos, os solos se esgotavam e
ficavam muito pobres e praticamente não produziam mais nada. Isto obrigava os
agricultores a abandonar a terra cansada e procurar novas áreas virgens para
plantar. Devido à proximidade da região semiárida com a linha do Equador, a
insolação é muito alta e faz com que os solos da região atinjam elevadas
temperaturas, de até 60 graus centígrados, o que provoca a oxidação da matéria
orgânica. Portanto, as altas temperaturas e a semiaridez regionais são
responsáveis pelo baixo teor de matéria orgânica (Nitrogênio) nos solos secos
e quentes do sertão. Os roçados abandonados, devido ao esgotamento da
fertilidade, eram destinados para a produção de pasto nativo para o gado.
Depois de escolhida a área para o novo roçado, a caatinga virgem era derrubada,
os tocos arrancados e a galhada encoivarada e queimada. A área limpa era
cercada e, no início do período chuvoso, o plantio era feito. A limpa das ervas
daninhas era feita com a enxada. Fazia-se de duas a três limpas durante o ciclo
da cultura. No sertão só se usa para agricultura os baixios, pois, nos terrenos
altos e inclinados, os solos são lixiviados, pobres e muito secos, já que a
região passa de 7 a 9 meses por ano sem chover.
Depois da
ordenha das vacas, os vaqueiros tomavam o café da manhã e iam para o roçado
levando a cabaça d’água, pendurada no cabo da enxada, a qual era transportada
no ombro. Usavam alpercata de rabicho, com solado de pneu de caminhão, camisa
de mescla de mangas compridas e chapéu de palha de carnaúba. Levavam, a
tiracolo, um pequeno alforje com rapadura, farinha de mandioca e um naco de
queijo de coalho para a merenda. No cóis da calça, conduziam uma peixeira de 12
polegadas. As cercas dos roçados eram de faxina (varas de marmeleiro deitadas
e trançadas), para evitar a passagem de caprinos e ovinos, pois com cerca de
arame farpado era difícil evitar a invasão das miunças, especialmente dos
caprinos. As sementes de milho e feijão para plantio eram guardadas, de um ano
para outro, dentro de litros de vidro transparente. Para evitar o caruncho, as
sementes eram bem socadas, para diminuir os espaços com ar (oxigênio), dentro
das garrafas. As garrafas cheias de sementes de milho ou de feijão eram
tampadas com rolhas de sabugo de milho e vedadas com cera de abelha, para não
deixar entrar ar. Os insetos só se multiplicam no interior da garrafa se tiver
oxigênio. No sertão nordestino era comum o plantio no sistema de meia, ou seja,
o dono da terra recebia, como aluguel da mesma, a metade do que era produzido.
Meu avô cedia suas terras para os vaqueiros plantar, sem cobrar nada, pois a
única exigência que ele fazia era a de poder colocar o gado dentro dos roçados,
após a colheita, para comer os restolhos das culturas. Na região, o período
chuvoso tem duração de três a cinco meses por ano, geralmente ocorre de
fevereiro a junho. A colheita das culturas de subsistência era feita no final
das chuvas, mas a do algodão mocó era mais para o final do ano. O algodão
funcionava como uma espécie de caderneta de poupança para quem o plantava. Era
com a venda da pluma de algodão que ele ia comprar as roupas para a festa do
Natal, uma rede nova ou uma mesa para sua casa. Quando a praga do bicudo do
algodoeiro foi introduzida no Brasil em 1983, as fazendas do Polígono das Secas
deixaram de ser lucrativas e em consequência houve o empobrecimento e o
despovoamento regionais. Como decorrência da impossibilidade de se cultivar,
lucrativamente, o algodão, dois milhões de sertanejos migraram para as cidades.
Na Fazenda Aracati, as festas juninas (Santo Antônio, São João e São Pedro )
eram muito alegres. Cada vaqueiro fazia a sua fogueira, preparava comidas
típicas da época e realizavam a cerimônia de apadrinhamento, quando crianças e
adultos escolhiam seus “padrinhos ou madrinhas de fogueira“. Sobre um tição
retirado da fogueira era feito o ritual do apadrinhamento. O afilhado falava:
“Santo Antônio disse, São João indicou e São Pedro confirmou que você fosse meu
padrinho, porque Nosso Senhor Jesus Cristo mandou“. Após darem uma volta ao
redor do tição, de mãos dadas, o padrinho respondia: “ Santo Antônio disse, São
João indicou e São Pedro confirmou que eu aceitasse ser seu padrinho, porque
Nosso Senhor Jesus Cristo mandou”. No terreiro da casa do meu avô era feita uma
grande fogueira de Jurema preta, que produzia pouca fumaça e o fogo permanecia
com chama mais tempo. Com espigas de milho verde, minha avó preparava canjica,
pamonha e milho cozido, que eram servidos ao redor da fogueira. A canjica,
feita com milho verde e leite de vaca era servida com queijo de coalho seco
ralado. Na fogueira, cada participante da noite festiva assava sua espiga de
milho, com o auxílio de um espeto de madeira comprido. O milho assado e quente
era envolto em palha de espiga de milho, para não queimar as mãos. A colheita
das vagens de feijão e dos capulhos de algodão era feita com muita rapidez, com
as duas mãos, e colocados numa espécie de saco de duas bocas, uma boca de cada
lado, que era levado nas costas. O pano de apanhar algodão e feijão era
parecido com um lençol, feito de algodãozinho, que se amarrava as quatro pontas
em cruz, sobre o peito, ficando duas aberturas (bocas), uma no lado direito e
a outra no lado esquerdo, que facilitavam a pessoa apanhar e armazenar o
produto com as duas mãos. As mulheres apanhadoras de algodão e feijão usavam
saias largas, com blusas de mangas compridas. Na cabeça, colocavam um lenço,
protegendo do sol, o pescoço e as orelhas, e um chapéu de palha de carnaúba, de
aba larga. A quebra do milho no roçado era feita por homens. As espigas eram
coletadas em caçuás, que eram transportados em lombos de burros até o alpendre
da casa do proprietário do roçado. No cultivo do arroz vermelho, a colheita era
feita quando os grãos ficavam maduros. Cortava-se as plantas, fazia-se os
feixes e os deixavam no campo para secar ao sol. Depois de secas, as plantas
eram levadas para serem batidas no alpendre da casa do dono do plantio. Os
cachos de arroz eram batidos em uma caixa de madeira sem fundo, para deixar os
grãos caírem diretamente no saco de 50 quilos. O arroz era armazenado com casca
e, diariamente, uma pequena quantidade era pilada no pilão, para tirar a casca
e fazer parte da refeição da família. A debulha do feijão era feita por
mulheres e a do milho por homens. Ambas eram realizadas em regime de mutirão e
em épocas diferentes. O feijão era debulhado primeiro e o milho quando as
chuvas cessavam. Era marcada uma data para a debulha ser realizada na casa de
cada um. Após a colheita do feijão, as vagens eram colocadas para secar ao sol,
sobre uma lona, e depois de secas eram batidas com uma comprida vara de
marmeleiro verde e flexível. Na data da debulha, as vagens secas e batidas eram
levadas para o alpendre da casa, em grandes cestos de cipó. Cada debulhadora
tinha uma cuia de cabaça e uma urupema grande. Os grãos misturados com pedaços
de vagens eram trabalhados na urupema, para separar os fragmentos de casca, dos
grãos de feijão. Quando as mulheres jogavam os grãos contidos na urupema, para
cima, o vento ajudava a retirar os pedacinhos de casca. As vagens, que mesmo
tendo sido batidas permaneciam inteiras e com os grãos no interior, eram
debulhadas manualmente. O ambiente era festivo, com muita comida. Algumas
mulheres contavam piadas, outras relatavam causos e umas poucas cantavam. A
dona da casa coava café, que era adoçado com raspa de rapadura e servido com
bolo de milho e tapioca. No final da debulha, os grãos de feijão eram
armazenados em tambores de ferro de 200 litros (vasilhames de gasolina). Os
grãos eram bem socados e a tampa de ferro era vedada com cera de abelha. A
debulha manual do milho era feita com o auxílio de um sabugo, para não ferir os
dedos. O milho em grão era também armazenado em tambores de ferro, com
capacidade para armazenar 200 litros. Os grãos eram bem socados e a tampa
lacrada com cera de abelha.
Enviado pelo professor, escritor, pesquisador do cangaço e gonzaguiano José Romero de Araújo Cardoso
http://blogdomendesemendes.blogspot.com
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