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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

RELEMBRANDO O MONSENHOR URBANO CARVALHO

 Por Valdir José Nogueira de Moura

Filho de José Bernardino de Carvalho e Sá e de Lourança Gomes de Sá Carvalho, o monsenhor Urbano sertanejo da gema, nasceu no dia 25 de maio de 1895 em São José do Belmonte na vila de Santa Maria (hoje Tupananci e pertencente a Mirandiba), sendo descendente dos Carvalhos que se fixaram no Pajeú, luziram em feitos e trabalhos, quando levantaram os primeiros currais e as primeiras fazendas que depois foram as vilas e as cidades, nos primórdios da civilização sertaneja, a que mestre Capistrano de Abreu chamou pitorescamente a “civilização do couro”.

A mãe do monsenhor Urbano, dona Lourença, era irmã de Eustáquio Gomes de Sá Carvalho, assassinado em 21 de outubro de 1907 por Manoel Pereira da Silva Filho (Né Dadu), em decorrência da titânica briga de Carvalho com Pereira em princípios do século passado, portanto monsenhor Urbano era sobrinho do finado Eustáquio Carvalho.

Antes de entrar para o seminário, o jovem Urbano passou uns tempos na fazenda Oiticica em Belmonte, propriedade do casal Joaquim Leonel e Donana, seus primos. Ao tempo que passou na dita fazenda, manteve uma escola e preparou os filhos do major Quinca para ingressar no Ginásio Diocesano de Triunfo.

Fez curso eclesiástico no Seminário de Olinda com ajuda de fazendeiros parentes seus, inclusive, do major Joaquim Leonel Pires de Alencar cuja esposa Ana Pires Brandão o presenteou com a sua primeira batina e uma teca de prata para hóstia. Foi ordenado em 26 de abril de 1925 em Pesqueira.

De estatura mediana, forte, gestos mansos, olhar penetrante, a Diocese de Pesqueira tinha naquele vigário humilde um dos seus grandes valores. Corria mundo a fama do monsenhor Urbano de Carvalho como orador e profundo conhecedor do vernáculo. Monsenhor Urbano foi professor no velho “Colégio Cardeal Arcoverde” de Pesqueira. O Colégio do então padre Urbano recebia os meninos dos sertões, que chegavam espantados, agressivos, pés comprimidos nos sapatos ringidores, lanhados de espinhos e queimados de sol. Então padre Urbano os recebia, risonho e afável para desbastar as arestas nascidas na liberdade do pátio das fazendas, na vida livre dos campos. Dizia o escritor e jornalista Luiz Cristovão dos Santos que “aquele sacerdote era um São Francisco caboclo pregando aquelas aves agrestes que esvoaçavam de encontro aos janelões do velho sobrado. Não usava de violência nem erguia a voz. Persuadia com os gestos e as palavras da imensa ternura humana que lhe brotavam do coração. E tal era a orientação que imprimia aos estudos, promovendo reuniões literárias, levando a cena pequenos dramas, incentivando, abrindo as almas e clareando as inteligências infantis, que pouco tempo depois bugrezinhos do Pajeú e do Moxotó declamavam versos de Castro Alves, de Olavo Bilac e de João de Deus, com a voz desacostumada dos aboios”.

O Bispo da Diocese, Dom José de Oliveira Lopes, certa vez mandou que constasse em ata, ter sido o padre Urbano “educador emérito de várias gerações sertanejas”.

Na Catedral de Santa Águeda em Pesqueira em solene celebração, com a presença do clero diocesano, familiares e fiéis, foi-lhe entregue o título de Monsenhor. A honraria foi concedida pelo Papa Bento XV, atendendo pedido feito por Dom José de Oliveira Lopes e o Conselho de Presbíteros. Esta concessão do título de monsenhor concedida pelo Santo Padre foi uma forma de reconhecimento os relevantes serviços prestados pelo sacerdote Urbano Carvalho na sua comunidade e a Igreja.

Em anos de fé, o monsenhor Urbano peregrinou a Roma mais de uma vez.

Em 31/08/1933 embarcou para Salvador para participar da grande solenidade do 1º Congresso Eucarístico Brasileiro na Bahia.

Em substituição a Antônio Correia da Cruz, foi nomeado prefeito do município de Floresta em maio de 1931 e por imperativo do seu sacerdócio, em janeiro de 1933 foi chamado a dirigir os destinos da Diocese de Pesqueira, em substituição ao saudoso bispo D. José de Oliveira Lopes que havia falecido, desta forma, a vaga de prefeito de Floresta foi então ocupada pelo coronel João Novaes.

Presidiu o “1º Congresso Econômico do Sertão” ocorrido em Triunfo, em princípios do mês de julho de 1934, destinado a discutir e promover medidas de interesse para o progresso e desenvolvimento daquela vasta região. O referido congresso foi uma iniciativa de um comitê central composto das seguintes pessoas: Monsenhor Urbano Carvalho, presidente; Dr. Deocleciano Pereira Lima, vice-presidente; Dr. João da Luz, 1º secretário; Dr. José A. de Souza Ferraz, 2º secretário, e Dr. José Cordeiro. À assembléia compareceram pessoas de destaque inclusive os prefeitos de todos os municípios do sertão; registro aqui a participação no referido evento do prefeito de Belmonte, Sr. Jacinto Gomes dos Santos.

Monsenhor Urbano Carvalho, uma das mais destacadas figuras do clero pernambucano, no entanto foi na Paróquia de Sertânia que o mesmo realizou um trabalho invulgar assinalado por um intenso movimento religioso e por esplêndidas obras sociais que o tornam um benemérito da terra onde havia se fixado há vários anos, alvo da estima, do respeito e da admiração de todos os seus paroquianos.

Em Sertânia monsenhor Urbano construiu um santuário na cidade. Fundou um albergue para os pobres. Construiu nova Casa Paroquial. Ergueu a golpes de tenacidade um Centro de Estudos em Custódia. À frente de duas paróquias, ainda encontrava tempo para, no meio dos seus livros e dos seus quadros familiares, no gabinete modesto, onde uma caveira em cima de uma mesa sorria da humana vaidade, meditar, estudar e escrever artigos para os jornais.

No dia 1º de maio de 1965 Sertânia festejou os 40 anos de vida sacerdotal de monsenhor Urbano. Na ocasião os fiéis daquela cidade prestaram carinhosa homenagem ao velho pároco. Todos que o conheceram sabem de seu espírito de abnegação e verdadeiro amor pelas suas ovelhas. Monsenhor Urbano, pelos serviços prestados ao Clero brasileiro, por duas vezes mereceu o acesso ao posto de bispo tendo declinado, por não se considerar merecedor de tão alta distinção.

Por ocasião das comemorações dos seus 40 anos de sacerdócio, o reverendo fez distribuir, entre os presentes uma linda poesia de sua autoria e transcrita a seguir:

OFERTÓRIO

(À meus afins pelo sangue, sacerdócio, amizade e trato espiritual)

Senhor! Senhor! As minhas primaveras,

Que são belas, porque sacerdotais,

Recebei-as, Jesus. Tornai-as veras

Com os vossos carismos paternais.

São quarenta eras vividas. E, deveras

Passados tão somente entre os trigais

Das almas mais humildes, mais sinceras

Da terra sertaneja. Roseirais.

Em todo esse passado no Sertão

Neste dia, no altar, agradecido.

Enviai-me, ó Deus! – eis-me o pedido:

A benção do SANTÍSSIMO CORAÇÃO.

Sertânia – PE – 26/04/1965

Monsenhor Urbano de Carvalho.

Aos 83 anos de idade, já suspirava pela união definitiva com seu Deus. No dia 2 de abril de 1978 depois de receber a Unção dos Enfermos, com o rosário nas mãos e nos lábios os nomes de Jesus e Maria, sua alma voou ao Céu.

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