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domingo, 12 de outubro de 2014

VARIAÇÕES SOBRE A MESMA LÁGRIMA

Por Rangel Alves da Costa*

Lágrima. Nome bonito, pulsante, também triste. Palavra sentimento, também mistério. Termo vivenciado, e quase sempre fugido. Lágrima também poética, parecendo orvalho num pêndulo de sofrimento e numa folha de contentamento. Lágrima feito pingo de chuva, feito seiva que se derrama.

Lágrima que sem palavras diz tudo, que tem o dom de sintetizar a dor e a graça. E silenciosa grita, chama, brada, confessa. E se mostra no olhar como a chuva escorre na vidraça. Na vidraça a escrita da saudade, do adeus, do amor, do sentimento. E nos olhos a escrita revelada pelos mistérios da alma.

O lenço de despedida recolhe a lágrima para guardar na saudade. A mão trêmula recolhe a lágrima para que as mãos também chorem. Os travesseiros das noites saudosas ou dolorosas se tornam como canteiros encharcados que escorrem as solidões noturnas. E os olhos, frágeis demais e impotentes diante de sua chegada, simplesmente abrem seu leito deixando escorrer pela face.


Os olhos são como leitos apenas úmidos, e tantas vezes quase ressequidos pelas estiagens da alma. Igualmente às fontes que vão se enchendo segundo as chuvas que caem ou as águas que descem das ribanceiras, também os olhos vão sendo tomadas de água segundo o clima emocional existente em cada ser.

Nos leitos, nas fontes e córregos, são as intensidades das chuvas que determinam o momento e a quantidade de acúmulo de água. No ser humano, são as consequências dos encontros e desencontros, das realizações e das perdas, que passam a refletir a meteorologia da alma. E dificilmente haverá alguém que de repente abdique de seu deserto para fazer surgir nos olhos um oásis.

Conceitualmente, a lágrima é única, possui um só entendimento, eis que sempre vista como o líquido incolor que se derrama dos olhos como consequência de uma causa física ou emocional. É um fluído lacrimal que desce da nuvem dos olhos segundo a paisagem do instante seja de tristeza, alegria, comoção ou contentamento.

Assim, lágrima sempre denota líquido, fluído, um fio d’água que surge no olhar e vai se derramando, se espalhando na face. Contudo, de forma totalmente diversificada é a predisposição do olhar para fazê-la fluir, seja apenas como uma pequena gota ou como verdadeira enxurrada.

Muitas vezes, mesmo que somente os olhos fiquem marejados ou apenas um grãozinho lacrimal se esconda pelo canto do olho, ainda assim um verdadeiro oceano se esconde lá dentro. Noutras vezes, por mais que o mar se derrame inteiro não terá maior força e significado que aquele pinguinho que timidamente surgiu.

O mar chorado, o oceano derramado, a fonte jorrando, o grão de lágrima ou apenas sua réstia no olhar, nada disso consegue traduzir o sentimento brotado lá no nascedouro, no íntimo, nas correntes da alma. Por isso mesmo que chorar pouco ou muito não significa muito diante das motivações interiores, das causas predispondo ao pranto.


A dor íntima, o sofrimento interior, nem sempre precisam de lágrimas para se expressar. Muita gente chora, avermelha a face, afogueia os olhos, mas não derrama uma lágrima sequer. E não significa que sofra menos, que a sua dor seja inferior àquela chorada em rios. Pessoas assim sofrem ainda mais porque é o íntimo que pranteia, e ao fazer isto fragilizam todo o organismo.

O mesmo ocorre com a alegria intensa, com aquela surpresa tão boa surgida que a pessoa de repente se põe a chorar. É o avesso da dor que também desperta o sentimento e permite que organismo seja chamado a participar dessa alegria, sob pena de aprisionar os prazeres da vida. As lágrimas surgidas e derramadas são menos intensas, mais passageiras, mas ainda assim expressando toda a força do momento.

O choro, por mais triste que seja, faz desaguar os sofrimentos represados. E as lágrimas vão tomando seu rumo pelo curso adiante. Bom seria que igualmente ao rio suas águas não escorressem pelos mesmos leitos dos sofrimentos.

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com


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