Seguidores

domingo, 18 de abril de 2021

VOCÊ SABE O QUE É UMA FACA GP?

Por Heitor Feitosa Macedo

Foto de Oriosmídio

As facas estão intimamente ligadas à história dos sertões. Quando os europeus chegaram ao Brasil, já encontraram os índios utilizando a quicé, tipo de ferramenta perfuro-cortante feita de rochas ou pedaços de meteoritos. Durante as marchas invasoras dos portugueses, espanhóis, franceses e holandeses, as facas metálicas caminhavam nos cós assegurando o esfolamento das caças; bem como o corte de varas para a cobertura das latadas dos ranchos e arraiais.

Elas também eram úteis aos vaqueiros para "dar o tope" nos bois "erados" que, com chifres amolados, se viravam para brigar, pois, não raro, os cornos atravessavam a gualdrapa das selas e espatifavam as tripas dos cavalos. Na chamada "civilização do couro", as facas eram imprescindíveis para o corte das solas, no fabrico de alpercatas, chapéus, gibões, arreios, entre outros. Além disso, as facas de ponta eram fundamentais para decidir as guerras do sertão, as guerras basílicas (que não seguiam as regras dos códigos militares da Europa). Antes da invenção das armas de repetição, os bacamartes, depois de acionados, deveriam ser recarregados, tal qual as espingardas socadeiras, e, nesse intervalo, os índios levavam vantagem sobre seus adversários lançando dezenas de flechas e dardos de projeção das "hyhyté". 

As espadas não tinham muita utilidade nas refregas dentro das matas, pois a folhagem emperrava a amplitude das longas lâminas. A solução era "bater mão" das facas de ponta e "cair pra dentro". Os estilos dessas facas são bem tradicionais. Existem as Mineiras, com lâminas num formato mais triangular; as Sorocabanas, disseminadas pelo Terço dos Paulistas (tropas militares irregulares contratadas para lutar contra a revolução de Palmares e contra os índios dos sertões do Nordeste), dotadas de lâminas compridas e cabos com declive nas extremidades; e as Nordestinas, com lâminas extremamente pontiagudas, a exemplo das que são denominadas "língua de peba" (mais estreitas) e as "cumatãs" (com folhas mais espessas, geralmente, com formato semelhante a uma espécie de peixe dos sertões nordestinos conhecido por curimatã, daí, "cumatã). Dentre as Nordestinas, têm fama as Carocas, Santa Luzia, Pajeuzeiras e Bartas do Jardim. 

Nos documentos do século XVIII, é comum encontrar relatos de tais "facas de ponta" ("parnaíbas") e outras "armas curtas" (pistolas, semelhante às garrunchas) serem proibidas por lei. Afora o primeiro cuspe de fogo dos trabucos, a outra arma que colocava as facas de ponta na desvantagem eram os cacetes de jucá, de preferência os "quiri" ou "quinrim", os quais eram mais curtos e, por isso, de melhor manuseio no meio da vegetação. No Cariri cearense, essa tradição parece ser bem antiga e, no início do século XX, um grupo de ferreiros fez história, os da Barra do Jardim, no município do mesmo nome. 

Lá, a família Pereira (aparentada da família dos "Caboco") montou uma tenda ou loja de ferreiro vindo a produzir facas e punhais até mesmo para o célebre Lampião. Essas "lambedeiras" foram batizadas por "barras do Jardim" ou "jardineiras". Um desses ferreiros era Geraldo Pereira (filho do artesão José Pereira), o qual assinava suas obras com a sigla GP. Entre os irmãos, Geraldo era conhecido pelo trabalho mais refinado. Um acabamento impecável. 

Os cabos, principalmente, são de uma arte genuína, únicos, tudo feito à mão, em metal amarelo, em alpaca (falsa prata), chifre de boi; e, algumas, com pedras preciosas, alianças de ouro, a depender do bolso do dono da encomenda. No ano de 2018, recebí de um colega a foto dessa GP, cujo dono desconheço. A foto pode ser ruim, mas a arte é das melhores. Atualmente, estou edificando um museu particular, tímido e despretensioso, no qual junto essas "catrevagens", para que, assim, possamos lembrar dessa arte afiada, dotada de lâmina já cega e (re)corte histórico interessantíssimo (Texto: Heitor Feitosa Macêdo/ Foto: Orismídio).

https://www.facebook.com/groups/lampiaocangacoenordeste/?multi_permalinks=1626412084234396&notif_id=1618767830230964&notif_t=group_activity&ref=notif

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário