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domingo, 1 de janeiro de 2012

BRIGAS DE CASAIS (Crônica)

 Rangel Alves da Costa*
Rangel Alves da Costa

BRIGAS DE CASAIS

Aqui onde de vez em quando me escondo pra escrever, pois tem chuva o ano inteiro, nunca fez sol nem tem noite estrelada, apenas chuva de solidão e entrestecimento e mais chuva de tudo e de todo jeito, acontece cada uma que não sei nem mais o que dizer sobre os casais, seus desencontros e suas tantas juras de amor.
Como aqui parece sempre estar de noite chuvosa, e as revoltas e desacertos dos casais geralmente acontecem mais nesse horário, quase todas as vezes que boto o olho na rua vejo cenas impressionantes. Do prédio que fica em frente, bem alto, de muitos andares, o que se ouve é a barulhada de copos sendo jogados, palavrões mais esdrúxulos, cadeiras arremessadas, tiros sendo disparados, a bala zunindo a torto e a direita.
Ontem mesmo, depois de uma acirrada discussão, um recém-casado jogou a mulher do décimo segundo andar. A danada levantou rapidamente ao cair em baixo, ajeitou os cabelos e as roupas e subiu correndo para o apartamento. Novos gritos e dessa vez foi o marido que se esborrachou no chão, empurrado que foi numa violência terrível.
Porém fez o mesmo que ela, e de repente os dois já estavam destruindo a janela, e se engalfinhando, trocando socos e pontapés, arremessando facas e facões, ligando furadeiras elétricas e indo em direção ao olho do outro. Quando vi os dois já vinham, ainda trocando violências e palavrões, pelo ar em queda livre. Foi um baque terrificante. Pensei que dessa vez não haveria salvação, que morreriam, mas não.
Ela subiu toda faceira, como quem planejava alguma coisa, e ele ficou embaixo pra evitar mais confusão. Mas de repente a jovem aparece no vão aberto da janela empurrando um piano enorme, e jogou-o certeira e raivosamente em cima do marido. Ouvi notas musicais de dor, uma melodia agonizante de adeus e não consegui mais vê-lo por algum instante. E não seria diferente, pois o dito foi acertado bem em cheio e o piano ficou por cima.
De um sopapo, o moço tirou o instrumento musical de cima de si, ajeitou o cabelo e saiu correndo fumaçando, subindo as escadas em direção ao andar onde morava, e ali sua esposa certamente o estava esperando para liquidar de vez. Não durou muito e ouço mais de vinte disparos, estampidos ensurdecedores, e todos disparados contra a esposa, sem errar nenhum. Vi apenas quando ele jogou duas armas da janela e depois desceu todo contente e cantarolando.
Contudo, não caminhou muito e foi chamado pela mulher, que apareceu na janela gritando que esperasse um pouco que ela iria sair com ele para jantarem fora, e que esperasse somente um pouquinho enquanto ela procurava o guarda-chuva e retocava a maquiagem. E o rapaz esperou mesmo, todo ansioso, olhando de vez em quando para o relógio. E assim que ela desceu toda arrumada, foi naquela direção, deu um beijo no esposo e saíram de mãos dadas, no maior amor.
As situações descritas acima logicamente não são verdadeiras, mas tirando as proporções, as mesmas podem ser observadas todos os dias entre casais, desde os mais jovens aos que já convivem ou se suportam por mais tempo. Longe da jura de amor eterna proferida diante do padre, o que se tem realmente são pessoas que esconderam seus impulsos, seus anseios e desejos pessoais até a hora do sim, para depois se acharem no direito de tornar posse e mando aquilo que deveria ser compartilhamento.
Ora, é incabível que um conhecendo o outro - até porque na nossa cultura nunca vi estranhos casarem -, já sabendo dos gostos e opções, conhecendo as virtudes e os defeitos, mais tarde, depois do casamento, queira fingir que não lembra mais como o outro era e queira impor determinada situação. Mulheres existem que querem impedir que os maridos bebam; esposos existem que pretendem forçar as esposas a deixarem amizades e hábitos já conhecidos. E por aí vão verdadeiros absurdos.
Como já acontece em outros países, até que caberia no Brasil contrato de experiência antes do casamento. Ora, já que se amam tanto, demonstram viver às mil maravilhas, sem brigas nem aborrecimentos, então que tais aspectos sejam comprovados durante um certo tempo. Creio que em muitas situações nem precisará ser confirmado o contrato, vez que a união superou as incertezas.
Se houver dúvida e as verdades escondidas começarem a surgir, então se rasga o papel do relacionamento e pronto. E que cada um vá viver sua vida, antes que transforme a convivência a dois na situação acima descrita.
Rangel Alves da Costa 
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

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