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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

JOÃO BUGUELO, OU A TRISTE SINA DE UM SERTANEJO

*Rangel Alves da Costa

Filho de Bastiana e Titó, quem chegasse ao casebre para visitar o menino e retornasse alguns dias depois logo ficava acabrunhado. Alguma coisa estava errada com aquela criança, é o que surgiria à mente. Quem já se viu um menino mudar tanto dentro de poucos dias?

Na primeira visita, e encontrava o menino alegre, sorridente, viçoso, cheio de vida. Mas já na segunda visita e então avistava a criança mirradinha, sem cor, sem sorriso algum, numa tristeza de dar dó.

Os pais logo começaram a se preocupar com a situação do filho, desde o primeiro choro chamado de João Buguelo. Como se sabe, no sertão buguelo é o termo usado para se referir a menino novo, recém-nascido.
Mas a verdade é que o buguelo de Bastiana e Titó não havia nascido como as demais crianças sertanejas. Aquelas mudanças na feição, no peso, na cor, na disposição, só poderiam ser por algum mal desconhecido. Então uma vizinha aconselhou a chamar uma boa rezadeira.

Quando Zefa da Serra chegou, a melhor e mais respeitada rezadeira da região, não demorou muito e a senhora dos mistérios da natureza logo sentenciou: “Seu menino não tem doença não. O que o seu menino sofre é de uma sina chamada sertão”.

Coitados dos pais, não entenderam nadica de nada, sendo preciso que a rezadeira explicasse o que significava tal sina que provocava aquelas estranhezas no menino. Então Zefa falou:

“O seu menino nasceu como se fosse a própria natureza do sertão. Dentre dele há a mesma seiva da catingueira, do mandacaru, da planta do mato. Por isso é que ele está alegre e em pouco tempo começa a murchar, a entristecer. Se chove e tudo começa a verdejar, então o menino retoma a vida, se alegra, festeja. Mas se não cai pingo d’água, então ele começa a mirrar. E agora peço a vocês que olhem como tudo está tudo seco lá fora, tudo triste e desolado. O mesmo retrato de lá é o retrato do menino. Se chover, não demora muito e ele se enche de vida novamente. Mas uma coisa vou confessar agora...”.


Neste passo, temendo que as palavras da rezadeira se ajustassem ao que tanto temiam depois daquelas palavras, Bastiana e Titó começaram a implorar clemência sagrada. Porém tiveram que ouvir: “O menino não vai suportar uma seca grande. Como a planta morre lá fora, aqui também ele não terá melhor destino. Sei que é duro de ouvir, mas não poderia negar isso a vocês. Ele vai morrer se essa seca que já começa se prolongar. Morre a planta do sertão e ele não vai sobreviver”.

Quando ouviram tais palavras, ainda que já esperassem algo nesse sentido, os pais não suportaram e correram, aflitos e lacrimejantes, para junto do filhinho. E foi quando pingos de lágrimas caíram sobre o corpinho esmirrado e pálido. Então não demorou muito e outra estranheza começou a acontecer, a tomar conta do menino.

De repente abriu os olhos, se fez com o rosto mais corado, mais animado. Estando ainda por ali, a rezadeira foi logo dizendo: “O milagre da lágrima é o mesmo milagre da água. Todo esse pequenino renascimento somente por causa das lágrimas que vocês derramaram por cima dele. Como não podem viver chorando sobre o seu corpo, outra coisa não resta a fazer senão jogar água sobre ele como se fosse aguando uma planta que não desejam que morra pelo sol e pela seca”.

E assim João Buguelo foi sobrevivendo. Quando a chuva chegava e tudo ficava verdoso pelo sertão, então o menino mais parecia um raio da silibrina de tão afoito que ficava, sem parar um só instante, a correr, a brincar, a sorrir. Mas quando as chuvas cessavam e tudo acinzentava de sequidão, logo o menino se prostrava parecendo que ia morrer. Era hora de os pais respingarem com cuia d’água por cima dele.

Até que certa vez a seca chegou e avançou ano após ano. Barro nos tanques, barro no fundo do pote. Não havia carro-pipa que aparecesse para a salvação. Tudo secou, tudo murchou. E o menino...

Infelizmente, nada mais sei sobre o menino. Conte você o resto dessa história...

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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