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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

UMA DAS PRIMEIRAS VÍTIMAS DE INTERESSES ESTRANGEIROS


07 de março de 1985

O cearense Delmiro Gouveia ligou-se ao comércio ainda jovem, exportando peles, algodão, mamona e couro de bois. Mais tarde, em recife, construiu o mercado do Derby, vendendo carne verde e farinha de mandioca a preços inferiores aos dos concorrentes. Foi em Pedra, no sertão alagoano, que a visão comercial e o espírito empreendedor de Delmiro Gouveia projetaram a captação de energia elétrica da cachoeira de Paulo Afonso para utilização numa fábrica de linhas de costura, a Cia. Agro fabril Mercantil, inaugurada em 6 de junho der 1914. Nessa época, a Machine Cottons – grupo inglês produtor das linhas Corrente – detinha o monopólio do mercado sul-americano. A primeira Guerra Mundial (1914-1918) impediu a chegada dos produtos ingleses à América do Sul, possibilitando à Cia. Agro Fabril Mercantil a conquista desse mercado, principalmente o brasileiro. Pressionado pelo poderoso truste inglês, Delmiro Gouveia resistiu com firmeza, até ser assassinado em 10 de outubro de 1917.

Coronel Delmiro Gouveia

O crime nunca foi esclarecido. Os mandantes e verdadeiros assassinos do coronel Delmiro Gouveia ficaram impunes. Dois operários da Fábrica da Pedra – Róseo Morais do Nascimento e José Inácio Pia, o popular Jacaré – e um desocupado Antônio Felix do Nascimento foram apontados como os criminosos, e, brutalmente torturados, sendo condenados a 30 anos de prisão. José Inácio fugiu da prisão e morreu num tiroteio com a polícia, em 1924. Antônio Felix foi assassinado em 1953, depois de ter cumprido sua sentença. Róseo Morais do Nascimento cumpriu metade da pena e saiu da penitenciária de Maceió em 1932, amargurado por ser chamado de assassino. Iniciou, então, um longo processo para tentar provar sua inocência, concluído por sua filha Laurentina Morais do Nascimento, após sua morte em 1979. Finalmente, em 1983, o Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas absolvei postumamente Róseo Morais do Nascimento, levando em consideração um telegrama – localizado pelo historiador Moacir Medeiros de Santana e juntado aos autos pelo advogado Antônio Aleixo Paes de Albuquerque – em que o coronel Gonçalo Prado assegurava que Róseo e José Inácio Pia estavam em Maroim (SE) no dia em que Delmiro Gouveia foi assassinado.

A partir de um depoimento de Róseo Morais do Nascimento, obtido em 1975, o jornalista alagoano Jorge Oliveira – ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo 1980 – escreveu Eu não Matei Delmiro Gouveia, livro-reportagem apresentado por Barbosa Lima Sobrinho que revela os detalhes do “maior erro judiciário no Brasil”. “As versões sobre os verdadeiros criminosos – diz Jorge Oliveira no começo da obra – ainda são flagrantemente contraditórias – mesmo porque o álibi apresentado por Róseo Moraes do Nascimento até meio de 1983 era considerado, pelas Justiça alagoana, ‘irrelevante’. Quanto aos autores intelectuais da morte do coronel, as suspeitas caíram sempre na Machine Cottons, fábrica inglesa de linhas de costura concorrente de Delmiro Gouveia no Brasil e em outros países da América do Sul. Os galegos da fábrica inglesa – como eram chamados os trustes na época, início do século – ter-se-iam aproveitado de algumas desavenças de Delmiro Gouveia com chefes políticos locais, para liquida-lo, através de terceiros, e desativar seu poderia econômico no País. Nesse jogo sujo de interesses, os dois lavradores humildes e indefesos foram envolvidos”.

Foi o próprio Governador do Estado de Alagoas, Batista Acyolli, quem indicou o Capitão da PM Pedro Nolasco da Silva (“homem bruto, carrancudo, torturador conhecido”) para chefiar as investigações do assassinato der Delmiro Gouveia, exigindo a prisão dos criminosos “de qualquer maneira”. Saindo de Maceió com 20 soldados, o Capitão Nolasco chegou a Pedra e, após espancar inocentes e alvoroçar a cidade, apresentou o primeiro suspeito: José Inácio Pia, o Jacaré, que negou de joelhos a autoria do crime, a legando que no dia do assassinato estava viajando de trem em direção a Sergipe. Baseado no depoimento de Róseo, Jorge Oliveira relata as primeiras torturas que Jacaré sofre: “No primeiro soco, Jacaré desequilibrou-se e caiu desacordado no cimento frio do armazém. As botinas dos soldados de Nolasco esmagavam o corpo de Jacaré. Os homens do capitão amassavam Jacaré como quem amassa barro para fazer tijolos. Com a cara ensanguentada e marcada pelos socos, Jacaré estremecia no chão, via, em logos jatos, seu sangue misturar-se à lama do piso molhado do armazém. Nolasco, cansado, fazia breves intervalos. Passava o comando a seus policiais. Com um saco de estopa amarrado à boca, os gritos de Jacaré eram abafados”.

Logo em seguida o Capitão Nolasco prenderia Róseo em Maroim (SE), onde estava morando e trabalhando, acusando-o de cúmplice de jacaré. Róseo teve todos os seus dentes arrancados pelas coronhadas que recebeu, no rosto, do fuzil do sargento Cunha, e também foi barbaramente torturado. Os dois acusados receberam, inclusive, chibatadas de bimbas de boi, seguidas de banho com água com sal grosso. Róseo recorda os maus-tratos: “Me deram uma surra de palmatória na sola dos pés que ainda hoje engrossa o couro. Depois me amarraram com corrente. Ao meu lado colocaram um pedaço de bacalhau. Para matar a fome e eu era obrigado a mastigar o bacalhau, quando pedia água, era espancado”. Após 30 dias de torturas. Róseo e Jacaré, desnutridos, esgotados e famintos, “confessaram” o crime que não cometeram para se livrarem das torturas.

Concluído o inquérito, o processo começou a ser manipulado, conforme conta o autor: “Havia uma tendência muito clara a que as suas principais peças, especialmente as que foram fornecidas à Justiça por testemunhas-chaves, inocentando os dois acusados, desaparecesse, o que permitia, a quem desejasse, retirar qualquer peça do inquérito sem alterá-lo. Para que isso fosse facilitado, as folhas não foram numeradas. Assim é que dois importantes documentos sumiram. Apenas um apareceu mais de 50 Anos depois, usado para inocentar Róseo, em 1983. Agora, o processo será arquivado porque ninguém pode ser condenado duas vezes pelo mesmo crime. Os verdadeiros criminosos estão isento de qualquer condenação”.

Róseo e Jacaré acusados da morte do coronel Delmiro Gouveia

O primeiro julgamento de Róseo e jacaré ocorreu em agosto de 1919. Jorge Oliveira, apoiado no depoimento de Róseo, descreve a viagem dos acusados de Pedra para Água Branca:

“Depois do meio-dia, Nolasco autorizou a viagem. Puxados pelos policiais, Róseo e Jacaré iniciaram, a pé a longa viagem até Água Branca. Os policiais viajavam em lombo de burro. Róseo e Jacaré, acorrentados, eram puxados e arrastados. Quando caiam, continuavam puxados até se reerguerem num esforço sobre-humano”. Ameaçados pelo Capitão Nolasco (“Cabras, em Juízo vocês tem que confirmar que mataram o Coronel Delmiro, senão mato os dois na volta e enterro aqui mesmo”), os réus confirmaram os depoimentos anteriores e foram condenados a 30 anos der prisão. Alegando uma série de irregularidades no processo, entre elas a inexistência de testemunhas que tivessem presenciado Róseo e Jacaré matarem o Coronel Delmiro Gouveia, o advogado Linduarte Villar apelou da sentença. Surpreendentemente, no segundo julgamento, surgiu um terceiro réu: Antônio Felix do Nascimento, que teria sido indicado por interesses políticos. O Tenente João Medeiros, com seis policiais, conduziu os três presos de Pedra a Água Branca, recusando um suborno para dar sumiço neles e garantindo suas vidas até entrega-las na penitenciária de Maceió, ao terem sido condenados a 30 anos de prisão no novo julgamento.

O jornalista Jorge Oliveira também entrevistou o Tenente João Medeiros, em 1976, que relembrou uma frase pronunciada por Róseo, a caminho de Água Branca: “Seu Tenente, o senhor pode crer por Nosso Senhor Jesus Cristo e a Virgem Maria que nós tamo pagando por uma coisa injusta”. O Tenente João Medeiros, temeroso, preferiu omitir o nome da pessoa que tentou suborná-lo: “Ainda hoje está viva muita gente desse caso, muita gente envolvida diretamente na morte do Coronel Delmiro Gouveia. Eu também ainda quero viver um pouco mais”. Instado pelo jornalista, disse quem matou o industrial Delmiro Gouveia: “Foi realmente Herculano Vilela, por vingança, porque antes tivera uma briga com o industrial. Mas quem organizou tudo foi o Firmino Rodrigues. Agora, quem foi junto com Herculano para matar o Coronel Delmiro ainda não morreu”.

Jorge Oliveira chegou aos verdadeiros autores do crime: “Em 1960, pouco antes de morrer, Herculano Soares Vilela confessou a seus amigos, num sítio em Satuba, Alagoas, ter matado Delmiro Gouveia, juntamente com seu cunhado Luis dos Angicos e o amigo Manuel Vaqueiro, também já falecidos”. Em Eu não matei Delmiro Gouveia, Jorge Oliveira, como diz o jornalista Mauricio Azedo na orelha do livro, “fez de seu ofício de repórter, mais uma vez um instrumento de afirmação da verdade”, comprovando a inocência de vítimas do arbítrio e indicando os verdadeiros autores do assassinado do Coronel Delmiro Gouveia – industrial nacionalista e progressista que enfrentou as multinacionais inglesas, tantas vezes louvado – ao lado dos conterrâneos Antônio Conselheiro e Padre Cícero – pelos poetas populares, como nesses versos anônimos, citados por Jorge Oliveira:
Quando o enterro de Delmiro

Foi pela rua passando
Parece que a gente ouvia

A cachoeira chorando.

http://memo-delmirogouveia.blogspot.com.br/2008_11_16_archive.html

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

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