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quarta-feira, 20 de abril de 2016

CENTENÁRIO DE ERONIDES DE CARVALHO

Prof. Milton Barboza da Silva ( *)

O centenário do nascimento de Eronides Ferreira de Carvalho, cuja passagem pelo cenário político sergipano registramos de 1935 à 1941, abre-nos a possibilidade para uma reflexão acerca da atuação do sujeito na história, em seu espaço social, econômico e político. Por isso, acreditamos ser essa uma oportunidade singular para trazermos algumas análises sobre o político Eronides de Carvalho; sobre a conjuntura de seu tempo, à qual esteve sintonizado, e, por vezes, perfeitamente ajustado, e as implicações de sua atuação nos períodos subsequentes.

Faz-se necessário ressaltar que a maior dificuldade de se abordar a temática que nos foi proposta, deve-se ao fato de que o período de 1930 à 1945, se pôr um lado, é farto de documentação e pleno de uma bibliografia no cenário nacional, por outro, permanece um período pouco estudado no âmbito estadual, como de resto, a história política sergipana é ainda uma seara a ser explorada, podendo render boas colheitas, haja vista a farta documentação existente em acervos públicos ou privados, a espera de estudos e análises pautados em uma abordagem criteriosa, científica e, por isso mesmo, isenta de um emocionalismo estéril.
       
Assim, valemo-nos de fontes secundárias como os trabalhos do prof. Ibarê Dantas e da prof. Terezinha Oliva, entre outros, que se constituem em referências indispensáveis a quem pretende entender esse rico momento da história sergipana. Ressalto ainda que, concernente aos dados biográficos que pontuam aqui e ali nossa exposição, foram coletados, sobretudo, no Dicionário Bio-Bibliográfico de Armindo Guaraná. Quero deixar registrados os meus agradecimentos à profª Tânia Prado, pesquisadora do APES, que tendo realizado uma pesquisa, ainda inédita, sobre o Dr. Eronides de Carvalho, prestou-me valiosas informações sobre parte da vida do Interventor que me eram desconhecidas.
       
Eronides Ferreira de Carvalho nasceu em Canhoba a 25 de abril de 1897, filho de próspero fazendeiro da região, vai para Maceió, onde realiza seus estudos primário no Colégio 11 de Janeiro. Em seguida, transfere-se para o Liceu Alagoano, concluindo os estudos secundário em 1910. Entra na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1911 e lhe é conferido o grau de doutor em 20.12.1917, com a tese “Do Ópio em Therapêuta Mental” ( 18.12.1917).
       
Ainda enquanto estudante foi auxiliar do Laboratório da Cadeira de Therapêutica; Diretor da Beneficência Acadêmica e membro da Sociedade Médica da Bahia, já formado. Foi nomeado interinamente, em 1918, diretor geral de higiene e saúde pública do Estado; dirigiu os serviços de profilaxia durante o período de pandemia da gripe; foi diretor interino do Posto de Assistência Pública do Estado. Em 28 de fevereiro de 1920 foi nomeado Inspetor Médico Escolar. No ano seguinte era nomeado por portaria do Ministério da Agricultura, veterinário do corpo de veterinários do serviço da indústria pastoril. Aprovado em concurso para o corpo de saúde do Exército, foi nomeado segundo tenente por decreto de 23 de fevereiro de 1923, indo servir no 10º Regimento de Cavalaria Independente na Cidade de Bela Vista no Mato Grosso e em abril do mesmo ano foi transferido para o 28º B.C., estacionado em Aracaju. Onde, então, começa suas atividades, inicialmente como oficial-médico, em seguida, como político.
       
A compreensão do período em que Eronides de Carvalho esteve no poder, 1935 à 1941, passa necessariamente, pôr uma abordagem da estrutura de sustentação econômica e social do sistema republicano, tica pautada num conservadorismo, sob as benções de um liberalismo periférico.
       
A República, apesar de toda a propaganda deflagrada antes, durante e após a sua implantação, era nova apenas no plano jurídico/constitucional, pois, estruturalmente falando, o “novo” regime não significou uma transformação profunda das hostes econômica, política e social do Brasil, conservando um modelo que vinha do sistema anterior e que, mal ou bem, ajusta-se à nova ordem política, especialmente se olharmos do ponto de vista das massas e, sobretudo das massas camponesas ou rurais. Um dos arautos da nova ordem, o Presidente Campos Sales dizia:

“O verdadeiro público que forma a opinião e imprime direção ao sentimento nacional é o que está nos Estados. É de lá que se governa a República pôr cima das multidões que tumultuam, agitadas, nas ruas da Capital da União” .

Do ponto de vista econômico, somente com uma abordagem temporal mais ampla é que conseguimos enxergar as mudanças que vão se operando no nível das estruturas produtivas do país, mas só sentidas, pôr certo, a partir dos anos 30, razão pela qual aludi anteriormente sobre a necessidade de se compreender o período que antecede ao governo de Eronides de Carvalho. Deste modo, o setor dominante na Primeira República, vai optar por um modelo arcaizante de Estado, mas que dará sustentação econômica e política aos grupos que se revezarão no poder da República: trata-se do sistema oligárquico que se apoiava no coronelismo, que, ao contrário do que muita gente imagina, ao chamá-lo de provinciano, tinha um pé no passado, marcado pela herança da oligarquia açucareira dos senhores de engenho, e o outro pé colocado em cima do mercado estrangeiro. Constatar isso, é constatar um paradoxo, digo, se era necessário à manutenção do poder, internamente, que se conservassem as estruturas ultrapassadas de dominação, por outro lado, para corresponder à dinâmica do mercado internacional, cobrava-se uma modernização do Estado Nacional. Como aliás, percebeu Terezinha Oliva:

“A análise do caso de Sergipe é bem ilustrativo desta colocação. Estado periférico não apenas no contexto nacional, mas regional, tem Sergipe especificidades muito próprias. Com uma economia basicamente dependente da exportação açucareira, responsável por 2/3 da receita estadual e lutando com dificuldades crescentes para colocar sua produção no mercado, Sergipe vai sentir, como poucos, o ônus da sua transformação em Estado federado, no quadro do avanço da acumulação capitalista e do processo de constituição do mercado nacional”

Sob essa ótica, o período que estende de 1930 à 1945, e que, em Sergipe, vai alcançar o governo de Eronides de Carvalho (1935-1941), terá que conviver com esse paradoxo. De um lado, o patriarcado rural, preso as suas raízes históricas de um passado não muito distante; de outro, a tendência nacional vigente de modernização do aparelho do Estado para se ajustar à nova ordem internacional.
       
Essa situação, aparentemente paradoxal, permite-nos apontar aquela que é uma sutil, porém importante característica do sistema oligárquico: a sua independência em relação ao poder central. Nesse aspecto, a “política dos governadores” é a consagração deste princípio de independência das oligarquias frente ao poder da União. Mas a força das oligarquias dependia não só dessa independência em relação ao poder central (é preciso entender essa independência nos limites das boas relações), mas sobretudo da hegemonia que certos grupos conseguiram manter, por estarem ligados as atividades econômicas de peso, sobre grupos concorrentes. A centralização desse poder dependia “do controle exercido sobre os grandes coronéis municipais, condutores da massa eleitoral incapacitada e impotente para participar do processo político que lhes fora aberto com o regime representativo imposto pela Constituição de 1891 ( Campelo de Souza: 1973) .
       
Portanto, a estabilidade oligárquica era, em última instância, questão circunscrita ao âmbito e natureza do coronelismo estadual. E essa natureza não é unívoca, quando cito Campelo de Souza, não estou querendo reforçar tal concepção de que o controle do voto explicaria o fenômeno do coronelismo. Mas acredito que essa problemática já foi suficientemente esclarecida- ao menos para mim- pelo professor Ibarê Dantas, quando lucidamente coloca:

“Se num primeiro período o coronelismo se fundamenta no controle das massas e na legitimação da sociedade política, a partir da força de sua milícia particular, num segundo momento, quando sua força coercitiva se torna desgastada, passa a explorar seu prestígio construído através de uma tradição de mando. Somente numa terceira fase o voto passa a ter papel primordial dentro do coronelismo”.

Corroborando com essa tese de Ibarê é que inserimos o caso específico do Dr. Eronides de Carvalho, pois a ausência dessa terceira fase, a do voto, em todo o seu mandato, não desconfigura a estrutura de dominação tradicional que servia de sustentação, embora nem sempre evidente, ao sistema da administração estadual do dr. Eronides. Parece evidente que não podemos classificar essa estrutura de sustentação nos mesmos moldes das oligarquias tradicionais no Estado, como a de Olympio Campos, mas em sua nova fase teremos o destaque dos dois pressupostos da tese do professor Ibarê Dantas.
       
É fundamental, portanto, para uma compreensão da dinâmica das oligarquias que se entenda a correlação de forças que se manifesta nas relações de classe que determinam toda a dinâmica do sistema. Essa correlação se dá no âmbito do fenômeno do sistema político do coronelismo.
       
A estreia do capitão Eronides Ferreira de Carvalho no cenário governamental, constituído governador em eleição na Assembleia Legislativa em 02.04.35, inaugura uma fase de orientação política contrária à orientação do grupo liderado por Maynard. Aparentemente, tratava-se de uma disputa entre duas lideranças que pretendiam se afirmar no comando político do Estado, mas só aparentemente, pois quando vamos na profundidade da questão, percebemos que a disputa é entre setores tradicionais da economia açucareira e algodoeira do Estado.
       
Legalista, Eronides De Carvalho não toma assento ao lado dos tenentes, cujo movimento ganhava corpo a nível nacional e, em Sergipe, já se insinuava no Quartel do 28º Batalhão de Caçadores “(..) mas não sensibilizava o jovem oficial médico que permanece fiel às forças legais durante as revoltas de 1924 e 1926 e por toda a década de vinte”, afirma Dantas.
       
Seu apego à ordem e a sua sintonia com as forças detentoras do poder (os revolucionários de 30), fato este atestado pela sua passagem, ainda que efêmera pelo Governo Provisório, pós Revolução, só é contrastada com a disputa que vai se iniciar entre o capitão Eronides de Carvalho e o Interventor Maynard (1930-1935). Durante essa Interventoria, Eronides de Carvalho se recolhe ao 28º BC, mas não é um recolhimento “obsequioso”, ao contrário, de dentro do quartel, o cap. aglutina em torno de si uma corrente de descontentes com o governo de Maynard, ao tempo em que vai se impondo como solução para a crise que enxergava existir dentro das hostes da interventoria de Maynard. Afirmava-se, assim, como uma liderança política viável.
       
Mas, obviamente, o projeto do capitão Eronides de Carvalho ia para além da reação aquartelada - creio mesmo que ele não cogitou da possibilidade do uso da força militar contra Maynard, apesar de seu prestígio ser grande no quartel. Seu projeto era mais ambicioso e exigia menos truculência, sendo um projeto cabível numa ordem legal, volta-se para a organização que a sociedade civil, em profundas transformações pós-30, lhe permitia: a conjunção de suas ideias em torno de uma agremiação política. Assim, participa da fundação da União Republicana de Sergipe ( URS). Essa agremiação aglutinava, em torno, os usineiros, representantes do setor açucareiro que, descontentes com a orientação política vigente, tinha na figura do coronel Gonçalo Rollemberg do Prado, seu mais destacado representante. Eronides de Carvalho, de início não era o nome aglutinador das expectativas e dos interesses do setor dominante, mas as suas raízes e suas manifestações o credenciaram a tanto, conforme Ibarê Dantas, “o terceiro nome [da agremiação] era justamente Eronides de Carvalho com influência na área rural, inclusive através do pai, o coronel Antônio Ferreira de Carvalho, próspero fazendeiro”. A Eleição do Dr. Eronides de Carvalho para o governo do Estado, pela Assembleia Legislativa (16 x 14), numa votação apertada, deveu-se a habilidade de Godofredo Diniz (ligado a Júlio Leite e Secretário Geral da União Republicana de Sergipe), que através de uma costura política bem feita, conseguiu unir a URS com o PSD, grupo que seguia a orientação de Leandro Maciel, para que fosse apresentado um candidato único. Embora tenha sido derrotado na eleição para a Constituinte (03.05.33), ficando como suplente, estavam lançadas as bases para a sua eleição dois anos depois ao governo do Estado.
       
Foi o governo de Eronides de Carvalho, sem dúvidas, um governo de desestabilização do domínio de Maynard,

“Como se as represálias contra os correligionários de Maynard não bastassem, o governo Eronides de Carvalho investiu contra seus decretos, tornando sem efeito cerca de metade deles” .

Como era de se supor, houve uma apropriação do aparelho do Estado por parte do novo grupo que assumia o poder, sendo os cargos divididos entre os partidários das duas agremiações citadas. Era o retorno do domínio ruralista. No entanto, é complicado afirmar que o patronato rural estivesse fora do processo político durante o período anterior a 35, vamos considerar apenas que não havia uma interferência ostensiva nos cargos e na máquina do Estado.
       
Contudo, o governo Eronides foi além, não bastava desarticular a atuação do Partido Republicano de Sergipe, sigla onde se abrigava Maynard, era necessário investir sobre a ação da classe trabalhadora que à época, manifestava-se com certa desenvoltura, sob orientação do Partido Comunista e, no mínimo, com a simpatia de Maynard - que dê certo não era comunista-, mas estimulava o movimento operário. A composição do governo Eronides (com uma sustentação marcadamente conservadora), provocaria uma decepção para as lideranças operárias que assistem inconformada a nomeação do corpo auxiliar do cap. Eronides de Carvalho de membros simpatizantes da Ação Integralista Brasileira, como é o caso do Chefe de Polícia Abelardo Cardoso.
        
Foi, sem dúvida, um governo forte, o do dr. Eronides de Carvalho. Mas a despeito dessa sustentação, não conseguiu manter uma hegemonia política. Em parte, apontamos como causa dessa dificuldade de hegemonia, os problemas que os senhores do açúcar encontraram para fazer valer seu domínio; em parte, atribuímos a uma oposição acirrada que o governo enfrentaria dos três partidos de oposição, principalmente do PRS e do PSP(Partido Social Progressista), que embora não tendo muita coesão entre si, mas formavam um coro com o movimento dos trabalhadores urbanos. As críticas ao governo vinham de diversas frentes: dos tribunais de representação, da imprensa e do movimento operário. Com esse cenário, tinha Eronides de Carvalho um espaço diminuto de atuação, mas que era ampliado se pensarmos nas relações do governo estadual com o governo Federal.
       
Assim, torna-se imprescindível olharmos para a Intentona Comunista como um movimento inserido do contexto do comunismo internacional, mas que se diminuirmos o foco para as realidades estaduais, centralizando na paisagem sergipana, vamos enxergar que esse episódio de 1935, terminará por aliviar o estado de pressão, digo desensinar a pressão do governo de Eronides de Carvalho. No tocante a Intentona Comunista,

“Em Sergipe, o governo [ Eronides de Carvalho] que, desde julho de 1935, havia denunciado a Vargas a existência de agitação comunista, tendo como centro a “liga antifascista” e “antiguerreira”, ao tempo em que recomenda ‘enérgica repressão’ “.

Percebe-se, portanto, que o governo não perde tempo de, pôr um lado, sintonizar-se com o endurecimento do regime no âmbito Federal e, pôr outro, livrar-se do foco de pressão imposta ao seu governo: reprime a imprensa, demite assessores ligados ao governo anterior e transfere civis e militares que lhes são incômodos. Naturalmente que Eronides de Carvalho não perdeu tempo em associar essas pessoas com a figura do Major Maynard e aproveitou a oportunidade para associar o major às “ideias extremistas”, fazendo um relato completo ao Presidente Getúlio Vargas da atuação dos adversários aqui no Estado. Assim, satisfeito com a sua obra, escreve:

“tomadas essas providências, que reputo indispensáveis, posso garantir a V. Excia. Que Sergipe nenhum motivo dará para preocupar o espírito do eminente Sr. Presidente da República no que tange à defesa da ordem”.

Até 1937, a situação do governo Eronides de Carvalho, em que pese os ventos estarem soprando ao seu favor no plano nacional, sua situação é de um incômodo generalizado com todas as medidas coercitivas, a oposição silenciada e a assembleia Legislativa fechada, tudo lhe parecia favorável, mas era preciso construir uma imagem de um governo operoso e ordeiro. Desse modo, a manutenção do controle da máquina do Estado e da própria situação política, exigia que o cap. Eronides atuasse em duas frentes: continuar desmobilizando as forças oposicionistas (condição que os poderes constitucionais do Estado Novo lhes permitia), por um lado; por outro, intensificar a propaganda anticomunista, elevando à categoria de suspeita todas as ações de seus opositores.
       
Esta direção que toma o governo Eronides de Carvalho, como lembra o prof. Ibarê Dantas, “provinha do Poder Central”, mas de difícil assimilação pelos Estados, principalmente um Estado com as características rurais como Sergipe. Ademais, Eronides vai tentando como pode eliminar todos os focos de oposição ao seu governo, principalmente, quando ligado ao Major Augusto Maynard Gomes, cuja única possibilidade de fazer frente ao governo seria no comando do 28º BC, mas Eronides conseguiu impedir sua nomeação, pelo menos, conseguiu adiar quando ela já era tida como certa. Muito embora o grupo de Maynard, quer seja através da imprensa, quer na assembleia Legislativa enquanto ainda funcionava, fazia bastante barulho ao ponto de seus ecos serem ouvidos no Rio de Janeiro. O PSD, através de sua liderança o Senador Leandro Maciel, foi a oposição que mais conseguiu desestabilizar o governo de Eronides. Os pronunciamentos de Leandro Maciel conseguem acertar bem no alvo do governo, causando alguns estragos a unidade do grupo governista, além disso Leandro fazia dobradinha com o deputado Melchisedeck Monte, tirando o sono dos correligionários do governo.
       
A esse quadro, seguiu-se uma onda de prisões de líderes políticos e jornalistas e enquadramento na Lei de Segurança Nacional era uma constante, em que pese ter havido um acordo a nível nacional entre o PSD e o governo Federal, mas no âmbito do Estado os dois grupos ainda se rivalizavam. O clima era de terror, mas o Jornal O Estado de Sergipe, deixou registrado para a posteridade:

“Sergipe nunca viveu mais tranquilo, mais calmo do que neste momento. O governador vai administrando com visão superior, distribuindo justiça equidosamente”.

A situação do governo estava tão tranquila que as oposições estavam trabalhando com a possibilidade do impeachment do governador, que foi salvo pelo Golpe de 1937. Bem, assim e só assim, consolidou-se a dominação da facção açucareira ao aparelho de Estado, enquanto era empurrado para adiante os problemas sociais, sobretudo os da classe trabalhadora.
       
O Golpe de 1937 assinala nos Estados membros da Federação, cujas características se assemelham ao de Sergipe, um período de instabilidade e de suspensão de direitos e garantias do cidadão. De 1937 à 1945, Sergipe teve três interventores: Eronides de Carvalho (37 à 41), o cap. Milton Azevedo até 1942 e a volta de Maynard até 1945.
      
A identificação de Eronides de Carvalho com o Estado Novo foi tão perfeita que, em mais de uma vez, fez questão de deixar seu ardor para com o regime público e notório:

“quero consignar minha perfeita identidade com o Estado Novo criado na carta de 10 de novembro que V. Excia. Houve por bem outorgar ao Brasil” (...) “estou pronto a obedecer disciplinarmente as ordens que V. Excia. Determina como chefe Nacional do partido da União que será uma instituição fundamental do Estado Forte criado pelo insigne Presidente”

É claro que o governador, agora Interventor, estava feliz com o golpe, afinal este havia removido de seu caminho os empecilhos que representavam os oposicionistas e setores organizados da sociedade. No entanto, Eronides não consegue evitar os arranhões em suas relações com Governo Federal, sobremodo no episódio de que ele teria avisado ao Juracy Magalhães do Golpe, posteriormente negado pelo próprio Eronides, mas com certeza explorado pelo seu arquirrival Augusto Maynard.
       
Tendo seus poderes aumentados pela constituição Outorgada, Eronides de Carvalho procede a uma verdadeira “limpeza” nos setores administrativos, inclusive nomeando prefeitos (25), aposentando ou reformando seus desafetos e trazendo de volta ao cenário político o grupo do patriarcado rural que, na verdade, nunca saíram do controle econômico. Com a sociedade civil sob controle e suas organizações desestabilizadas, não lhe restava mais nada para fazer senão tocar o trivial do dia-a-dia administrativo e se dedicar de corpo e alma a propaganda doutrinária cujo programa vinha pronto, aos pacotes, do Governo Central. Seu engajamento nesta campanha de doutrinação nacional foi tão eficiente que recebeu elogios nacionais e fora recomendado como exemplo.
       
Diz, o prof. Ibarê Dantas: “Sergipe nunca assistiu a tanta exploração de civismo como no Estado Novo. No mês de abril então era um verdadeiro festival; no dia 2, comemorava-se o aniversário da administração do interventor, em seguida era lembrada a posse do prefeito, no dia 19 a data natalícia do Presidente da República, quando também se comemorava o dia da juventude e, no dia 25, o aniversário do Interventor (...) Como se esses dias fossem insuficientes, criou-se de 27 de março a 1º de abril a chamada Semana Eronides de Carvalho (...)” .
       
Ainda que reconheçamos que o período do Estado Novo, alcançou Sergipe em acentuada queda em alguns setores produtivos, como o declínio da produção algodoeira, e uma acentuada crise no setor açucareiro, os cofres do Estado aumentam sua arrecadação em função da reforma tributária levada a efeito pelo governo da União. Com essa margem de capitalização do Estado o Interventor realiza algumas obras, sobretudo na área da saúde: um centro de saúde (Palácio Serigy), Hospital Infantil, casa para psicopatas e centro para menores delinquentes. Na área cultural, reformou a Biblioteca Pública, construiu algumas escolas e ampliou a rede de estradas e outras obras menores sem os vultos dessas mencionadas.
       
Sua entrada no circuito nacional. Pela propaganda getulista, faz com que lentamente, Eronides de Carvalho vá se afastando da base rural de sustentação de seu governo desde os primeiros momentos nos idos de 1935, ajustando-se a uma administração mais voltada para o cenário de propaganda doutrinária do que das tendências interiorana. Assim, o setor açucareiro teve que sair das usinas e ir brigar junto ao IAA pelas suas reivindicações, reflexo da crise que vivenciavam. Mas, nem por isso representou um racha das relações entre Eronides e seus correligionários, ao contrário, em alguns momentos até favoreceu a aproximação com grupos de produtores rurais que antes lhes fazia oposição.
       
Ao nível das lutas sociais, o quadro da classe trabalhadora, enquanto movimento operário não mudou muito. A desconfiança era mútua. A figura do Interventor estava associada à repressão e o movimento dos trabalhadores aos comunistas. Mas Eronides procura modificar esse cenário: cooptando algumas lideranças sindicais, bem ao gosto da prática getulista, comparecendo em cerimônias dos trabalhadores ao lado dos líderes sindicais e convidando estes a aparecerem em cerimônias oficiais, passando uma imagem à opinião pública de uma convivência pacífica. No terreno da imprensa, destacamos o Correio de Aracaju e o Sergipe Jornal que sobreviveram com uma relativa autonomia em relação ao governo do Interventor, apesar da rigorosa censura.
       
No entanto, mesmo com tudo a seu favor, Eronides de Carvalho inicia seu fastígio e declínio junto ao governo central. As denúncias chegavam diretamente ao Presidente da República, expediente comum e que era estimulado nos Estados, que não raro interpelava o interventor sobre a procedência destas. Maynard e seu grupo não hesitavam em lançar mão desse expediente, assim haviam denúncias de compra de fazendas; fornecimento de gado de modo irregular aos matadouros; utilização de terrenos públicos para permanência de gado da família do Interventor e outras denúncias similares. O próprio Maynard fez chegar ao conhecimento do Governo Federal irregularidades, tais como: a participação da polícia em jogo no Estado, o desvio de dinheiro depositado no Banco do Brasil, venda clandestina de algodão, etc.
       
Face a essas acusações, o Presidente da República forma uma comissão para investigar a veracidade dos fatos e Dr. Carlos Mário Faveret é indicado como presidente da mesma. Em Sergipe, Carlos Faveret ouve várias personalidades, registrando em seu relatório a veracidade de muitas acusações. Apesar de Eronides de Carvalho ter tentado impedir os trabalhos dessa comissão, Vargas não estava mais disposto a tolerar a improbidade de alguns de seus auxiliares e de nada valeu a intervenção do General Góis Monteiro, padrinho e protetor de Eronides de Carvalho, para mantê-lo no Poder.
       
Finalmente, em 1941, março precisamente, o cap. Eronides de Carvalho vai ao Rio de Janeiro em busca de uma audiência com Getúlio Vargas, porém, sem sucesso, lá permanece até os fins de maio, sem, contudo, ser recebido pelo Presidente da República. Ali mesmo escreve uma carta ao Presidente colocando seu mandato à disposição e se dizendo “na paz da consciência e na tranquilidade de espírito de haver servido a V. Excia. Com lealdade (...)”. Vargas, responde-lhe em cartas datada do mês de junho do mesmo ano, dizendo-se de seu apreço pelo “patriótico desprendimento que evidenciam da sua parte, depois de haver prestado a Sergipe e ao seu Governo meritório e reais serviços”. Com a renúncia do Dr. Eronides de Carvalho, estava consumada a sua queda.
       
O cap. Milton Azevedo assume, em um mandato tampão, até o retorno do major Augusto Maynard Gomes.
       Após a renúncia em 1941, fixa residência no Rio de Janeiro. Foi nomeado para Juiz do Tribunal de Segurança Nacional e, em 1944, é nomeado Tabelião do 14º Ofício de Notas e Notas do Rio de Janeiro. Morre em 18 de março de 1969.

(*) Conferência Apresentada no Conselho Estadual de Cultura, por ocasião do Centenário de nascimento de Eronides de Carvalho ( 1897 - !997 ) , Abril de 1997.



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REDUTO DE UM PODEROSO CORONEL

Por Aderbal Nogueira

Pesquisando o reduto de um poderoso Coronel do sertão de Lampião. Fazenda Borda da Mata do coronel Antonio Caixeiro em Canhoba, no Estado de Sergipe. Antonio Caixeiro era pai do médico e ex-governador de Sergipe.




ADENDO:

Clique no link para você ler o que escreveu o pesquisador Kiko Monteiro sobre pai e filho respectivamente.

http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2011/08/canhoba-em-sergipe-e-rota-do-cangaco.html

Fonte: facebook
Página: Aderbal Nogueira
Grupo: Lampião, Cangaço e Nordeste
Link: https://www.facebook.com/groups/lampiaocangacoenordeste/?fref=ts

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BILHETE DE LAMPIÃO


Lampião, na época em que estava no ‘auge’, enviava bilhetes para os coronéis, cidadãos e pessoas que sabia ter posses, afim de extorquir determinada quantia.

Um de seus cabras, ou mesmo um morador da fazenda do próprio coronel, servia de intermediário entre o “Rei do Cangaço” e a vítima.

Após a morte do “Rei Vesgo”, alguns dos cangaceiros que ficarem sem se entregarem, tentaram manter a mesma meta dele, porém, as coisas não sucederam iguais, tendo até quem mandou dizer, pelo portador, que se coragem tivesse, ele mesmo, o cangaceiro que enviara o bilhete, dirigisse a ele para buscar o dinheiro. Numa espécie de desafio. E o melhor, os cangaceiros que mandaram as mensagens, não foram, jamais, buscar a grana ‘solicitada’.

Abaixo, mostramos, como exemplo, um de seus famosos recados escrito ao Sr. Antônio Mando.

Diz o mesmo, mais ou menos assim:

“ + - 1926

Illm° Sr. Antônio Mando.
Estimo suas saudações

Com todos ofim desta para lhe pedir dois contos de rs.

Los peço isto sem farta agora e não mande que depois vai
se sahir muito mal. Resposta pelo mesmo portador
sem mais, não falte olhe olhe

Capt. Virgulino Ferreira
vulgo, Lampião”

Fonte: facebook
Página: Sálvio Siqueira
Link: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=685684688238753&set=gm.622366657927454&type=3&theater

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terça-feira, 19 de abril de 2016

TRÊS GRANDES OBRAS DO ESCRITOR E PESQUISADOR FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELO.


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Geraldo Antônio de Souza Júnior 

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BASEADO NOS DEPOIMENTOS DE CANDEEIRO II (MANOEL DANTAS DE LOIOLA)

Por Geraldo Júnior

Baseado nos depoimentos de Candeeiro II (Manoel Dantas de Loiola) posso afirmar que ele não trouxe boas recordações do período em que esteve no cangaço. A vida de lutas e fugas pela caatinga era dura e sofrida e poucos (as) tinham condições de enfrentá-la.

Seu NÉ como assim era conhecido Candeeiro II por seus familiares e amigos foi sempre um homem seguro e sensato em seus depoimentos.

Todos os documentários que tive a oportunidade de assistir, sempre percebi veracidade em suas palavras. Não era homem de contar vantagens ou de chamar para si a atenção sobre qualquer episódio da história do Cangaço.

Prestou importantes declarações sobre o episódio de Angico, assim como de tantos outros fatos que presenciou ou que participou durante sua trajetória na lida cangaceira, porém sempre seguro e taxativo em suas palavras.

Candeeiro II (Manoel Dantas Loiola) faleceu no dia 24 de julho de 2013.
Foto: Jornal Diário do Nordeste.

Fonte: facebook
Página: Geraldo Júnior 
Grupo: O Cangaço
Link: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=574562689374298&set=gm.1208383549174761&type=3&theater

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POESIAS DE JEFFESON THIAGO BESSA PARA UM ALÉM-LÉM

Jeffeson Thiago Bessa

O povo
não existe povo
um amontoado de “eu”
um amontoado de interesses.

Como representar o múltiplo com o uno?
Se a decisão pensasse democrática
o dono da bola não acabaria com o jogo
a maioria deseja jogar!

Não se percebe o diferente com olhos da reprodução
por que a maioria não se permite jogar?
Se é o que necessitam e dar prazer?

Porque a noite, antes de dormir, cada eu
sonha intimamente em “ser” o “dono” da bola.
Porque no jogo: ser-é-ter.

E tendossendo cada eu vai poder concretizar seu maior desejo:
ser re-conhecido!
Porque seu maior pavor é não se reconhecer no espelho
que é o outro
que é um outro eu.

Não existe povo
o povo
o eu
--- 
Por excesso de simplismo complica-se

jeffeson thiago Bessa

Quem faz o gol
é mais importante que o gol
o gol já não existia em todos os toque?

Comemorar o gol no clímax:
é mania de imediatismo
ou ignorância retrospectiva?

O que impossibilita o vislumbre do gol no ponta-pé-inicial? 

Será que o pé do adversário não ajudou a construir o gol?

Futebol é competição!
É o que dizem

A vida é competição!
É o que já foi dito.

A vida humana,
o futebol:
é uma competiçãocooperativa.

Quanto custa um pedaço de pão que não existe?
Ou melhor:
Qual o preço do produto que ninguém está disposto a produzir\vender?

Sua cooperação
com a competição deles.

Envaido pelo professor, escritor e pesquisador do cangaço José Romero de Araújo Cardoso

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CONTRIBUIÇÃO AOS CONCEITOS DO CANGAÇO

*Rangel Alves da Costa

Sempre causa-nos orgulho quando um texto de nossa autoria passa a ser utilizado por autores e escritores renomados. E foi com prazer imenso que li, nesta manhã de 18 de abril, o texto “Do conceito de cangaço, cangaceiro e cangaceirismo”, de autoria de Honório de Medeiros. Mais orgulho ainda porque o meu conceito de coiteiro foi abraçado em sua integralidade, em longa fundamentação.

Dentre os autores citados no artigo estão renomados pesquisadores e cientistas sociais, tais como Luis da Câmara Cascudo (Nota sobre cangaço e cangaceiro), Heitor Feitosa Macêdo (Origem da palavra cangaço), Eric Hobsbawn (Bandidos), Gustavo Barroso (À Margem da História do Ceará), Raymundo Faoro (Os Donos do Poder), Frederico Pernambucano de Melo (Guerreiros do Sol) e Maria Isaura Pereira de Queiroz (História do Cangaço).

No debate acerca dos conceitos de cangaço, cangaceiro e cangaceirismo, a dimensão do termo “coiteiro”, tão próprio ao estudo em questão, não precisou ser cotejado entre posicionamentos diferentes, pois minha escrita sobre o tema serviu de balizamento à compreensão. Neste sentido, eis o que diz o escritor Honório de Medeiros:

“Rangel Alves da Costa diz bem o que é ‘coiteiro’[16]:

Coiteiro era o sertanejo que, mesmo não fazendo parte do bando cangaceiro propriamente dito, compartilhava do seu mundo e de sua existência. Exteriorizava os desejos e as ordens cangaceiras. Servia de elo entre a vida na caatinga e os seus arredores, incluindo pessoas e povoações. Sem o coiteiro, o cangaço não compartilhava do mundo exterior e ficava totalmente vulnerável aos ataques.

Coiteiro era o matuto chamado a colaborar com o cangaço. Nunca forçado, mas sempre disposto a cooperar. Era, a um só tempo, mensageiro, transportador de mantimentos, confidente, conhecedor e guardião de segredos de vida e de morte. Boca sempre fechada e ouvido sempre aberto, talvez fosse o seu lema. Mas nem todos, segundo dizem, cuidaram de seguir os ditames.

Coiteiro era aquele que, conhecedor de cada linha e cada canto da região catingueira, auxiliava nas estratégias de proteção cangaceira. Era o olho pelo arredor, era o cão farejando o inimigo. Logo dizia sobre a segurança do local escolhido para repouso ou alertava acerca dos perigos que estavam correndo.

Coiteiro era o bom amigo do bando que levava a carne fresca de bode, a linha e agulha para costura, o remédio e a porção, as armas e a munição, o dinheiro e outros objetos enviados ao bando; aquele que se esforçava ao máximo, e correndo todos os perigos, para que nada faltasse naquela estadia dos cangaceiros. E eram bem recompensados pelas providências tomadas. De vez em quando um anel dourado era colocado no dedo.

Coiteiro era aquele que servia o abrigo cangaceiro, o local de descanso e repouso, a moradia temporária do bando, o coito. Desse modo, tem-se então que coito era o local onde a cangaceirada se amoitava vindo de longe viagem e desejosa de algumas horas ou dias de descaso.

Assim, coito era o lugar escolhido pelo líder do bando para o merecido descanso, até que a necessidade fizesse levantar acampamento e seguir adiante. Tantas vezes numa correria no meio da noite ou a qualquer hora do dia que o vento inimigo soprasse pelos arredores.”

O artigo completo, primoroso e de fundamental importância para os estudiosos do cangaço, pode ser encontrado no seguinte endereço eletrônico: 

http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/2016_04_17_archive.html.

Poeta e cronista
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JOANA MARTINS ARAÚJO E JACINTA LEITE DE OLIVEIRA.

Por Geraldo Júnior

Respectivamente filhas de Fenelon Leite e

  Fonte da foto: José Tavares De Araujo Neto - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/2015/08/por-tavares-de-araujoneto-este-senhor.html

Anézio Leite irmãos dos cangaceiros “Pinga-Fogo”, e do célebre cangaceiro 

 Anésio Leite, que localizou Pinga Fogo em Imperatriz. - Fonte da foto: José Tavares De Araujo Neto - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/2015/08/por-tavares-de-araujoneto-este-senhor.html

Anézio Leite irmãos dos cangaceiros “Pinga-Fogo”, e do célebre cangaceiro Massilon Leite que integrou o bando de Lampião, e foi um dos mentores do ataque cangaceiro à cidade de Mossoró/RN, ocorrido em 13 de junho de 1927.

Massilon Leite

O ataque à cidade potiguar foi um verdadeiro fracasso, e pouco tempo após a empreitada Massilon Leite e seu irmão “Pinga-Fogo” que o acompanhava durante a jornada, abandonaram o cangaço e poucas informações foram obtidas sobre seus paradeiros, a partir de então.

Este senhor à direita chama-se Manuel Leite, cangaceiro Pinga Fogo, irmão de Massilon, foi o responsável para cuidar dos reféns, quando do ataque à Mossoró. - Fonte da foto: José Tavares De Araujo Neto - http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/2015/08/por-tavares-de-araujoneto-este-senhor.html

Joana Martins Araújo e Jacinta Leite de Oliveira, portanto, são sobrinhas dos cangaceiros Massilon Leite e Pinga-Fogo, antigos cabras de Lampião e personagens de destaque na história do cangaço nordestino.

Quero agradecer às amigas Joana Martins Araújo e Jacinta Leite de Oliveira por me concederem suas imagens para publicação em nossas páginas “O CANGAÇO”.

Fonte: facebook
Página: Geraldo Júnior
Grupo: O Cangaço

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CANGAÇO PRESERVADO NUM COLÉGIO DE FREIRAS

Matéria de Graça Lima e Silva 
Uma cabaça na qual os cangaceiros conservavam a água fresca para a travessia da caatinga. Um pilão de madeira e um pote de barro trabalhado, entre outros objetos usados na época do cangaço. Na decoração, Lampião e Maria Bonita estilizados. Triunfo, no sertão pernambucano, sede do Museu do Cangaço. - Fotos de Natanael Guedes

Triunfo, Pernambuco — Numa pequena sala do Lar Santa Elisabeth, um convento de freiras, estão expostas as primeiras 100 peças reunidas pelo Museu do Cangaço, uma ideia nascida há sete anos e logo encampada pela irmã franciscana Maria José e alguns habitantes desta cidade sertaneja. O grupo tem enfrentado muitas dificuldades, mas a religiosa não desiste de continuar a arrecadar armas, roupas, livros e tudo mais que de alguma forma se relacione com Lampião e seu bando.

A própria cidade onde o museu começou a ser instalado faz parte da história do cangaço. Triunfo fica a apenas 32 quilômetros de Serra Talhada, onde nasceu Lampião, e foi assaltada diversas vezes pelos cangaceiros. Hoje o município tenta se transformar em centro turístico, usando como atrações a sua temperatura amena a um contraste com o clima quente de quase todo o sertão — o vale que circunda à cidade e o Museu do Cangaço. 

O museu foi criado em 1970. Uma sociedade mantenedora foi formada com a contribuição, por sócio, de Cr$ 3,00, "o que é multo pouco para comprar as peças de que precisamos", queixa-se a freira, acrescentando que a verba arrecada dos 100 sócios é a única fonte de renda de que dispõe. 

O Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, presidido pelo sociólogo e antropólogo Gilberto Freyre, demonstrou interesse em apoiar o trabalho mas condicionou a ajuda à instalação do museu em prédio adequado. A Prefeitura de Triunfo, até agora, não doou terreno ou casa à instituição. A diocese da região concordou em ceder uma casa, por tempo indeterminado. As próximas tentativas da freira serão junto ao Governo do Estado e Ministério da Educação. Além da falta de dinheiro, ela enfrenta outro problema: foi transferida para o Recife no ano passado.

Conseguir peças nem sempre é fácil e exige tempo e paciência. Muitas vezes uma viagem a um lugarejo distante resulta na aquisição de apenas dois ou três objetos. Numa destas viagens, a freira e mais três pessoas foram a Nazaré, um povoado de Floresta das Navios, também no sertão, onde vivem alguns parentes de Lampião. Um deles não pretendia se desfazer de pertences do cangaceiro; outro só a muito custo concordou em entregar alguma coisa, em troca de dinheiro. A comitiva acabou adquirindo apenas urna chaleira, uma bandeja pequena, uma chave quebrada e uma telha. A primeira peça doada ao museu foi um punhal de Lampião, dado de presente pelo próprio cangaceiro a um morador da cidade. Armas, balas, utensílios domésticos, roupas, sapatos, chapéus que pertenceram ao bando são característicos da época e fazem parte da coleção. 

Uma biblioteca que ainda não passou de 30 volumes. O trabalho é lento e difícil, diz a irmã Maria José. Ela ainda espera conseguir ajuda oficial. Por enquanto, as primeiras peças continuam precariamente arrumadas numa sala de 3x4 metros do convento das franciscanas, cuidadas pelas próprias freiras que se encarregam de mantê-las limpas e mostrá-las aos poucos visitantes. 

Fonte: facebook

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A HISTÓRIA QUE A HISTÓRIA NÃO CONTA.


A PRIMEIRA VISTA PARECE UMA IMAGEM DO HOLOCAUSTO... MAS FOI REGISTRADA AQUI NO BRASIL, PARA SER MAIS EXATO NO ESTADO DO CEARÁ. CONHEÇAM A HISTÓRIA DO MASSACRE DO CALDEIRÃO DE SANTA CRUZ DO DESERTO (CRATO/CE). "DO CÉU CHOVEU BALAS EM VEZ DE BÊNÇÃOS"!

“No mês de maio encerrado (a sete dias atrás), completou-se (78) anos da primeira vez que civis brasileiros foram mortos pela aviação militar de seu próprio país.

O massacre ocorreu no dia 11 de maio de 1937 na região do Crato, no sul do Ceará. As vítimas: camponeses da comunidade Caldeirão de Santa Cruz do Deserto. Ali morreram 700 pessoas. Nenhum soldado morreu.

A ordem para abrir fogo das metralhadoras dos aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) contra os lavradores partiu do general Eurico Gaspar Dutra, então ministro da Guerra do governo Getúlio Vargas.

A comunidade agrícola-religiosa era liderada pelo beato José Lourenço.

Paraibano, José Lourenço decidiu mudar-se para Juazeiro do Norte (CE). Lá conheceu Padre Cícero, e caiu nas graças dele. Logo o beato arrendou um lote de terra, onde se instalou com alguns romeiros. A produção de frutas e cereais cresceu rápido. Os plantadores dividiam tudo entre si, em partes iguais”.

“Padre Cícero mandava para as terras de José Lourenço ladrões, prostitutas, assassinos e todo tipo de “vidas-tortas”. O beato os consertava fazendo-os trabalhar da manhã à noite, em meio a muitas rezas.

A cada melhora na comunidade de José Lourenço, crescia a ira dos políticos e fazendeiros da região. Em 1921, conseguiram prendê-lo, acusando-o de fanatismo e adoração de animal como objeto de culto religioso. O bicho não passava de um boi, chamado Mansinho, dado de presente por Delmiro Gouveia ao Padre Cícero, que o deixou aos cuidados do beato. Os donos das terras acusaram o beato de atribuir poderes milagrosos às fezes e urina do boi. Mataram o animal e forçaram José Lourenço a comer sua carne.

As humilhações e maus tratos sofridos na prisão aumentaram a devoção do povo com o beato”.

“Tudo era de todos”.

“Em 1926 José Lourenço mudou sua comunidade para a Fazenda Caldeirão dos Jesuítas, pois a antiga terra que ocupava fora vendida. Foi na fazenda Caldeirão que o beato fundou sua Irmandade de Santa Cruz do Deserto. De novo, o trabalho agrícola prosperou logo. Além de alimentar toda a comunidade, sobrava para abastecer toda a região do Crato e Juazeiro. Tanto os produtos colhidos quanto o lucro obtido com a venda dos excedentes, eram divididos em partes iguais. Apesar de analfabeto, José Lourenço tinha talento para dividir tarefas e ensinar medicina caseira.

Em 1932 o Governo do Ceará criou campos de concentração para os flagelados da seca. A intenção era manter os famintos e sedentos longe de Fortaleza, capital do estado. Nestes lugares, severamente sob os fuzis das sentinelas, morria gente feito moscas. Quem conseguia fugir, ia para o Caldeirão. Ali a fartura nunca acabava, graças ao sistema ecológico do plantio e técnicas de conservação de água, com construção de micro-barragens. A Irmandade de Santa Cruz do Deserto crescia, e a ira dos latifundiários também.

Com a morte de Padre Cícero em 1934, José Lourenço perdeu seu grande aliado e defensor. Era a chance que os poderosos esperavam há anos...

Começaram a comparar o Caldeirão a Canudos e dizer que José Lourenço adotara o regime comunista com seus romeiros.
Em 09 de setembro de 1936 um batalhão da Polícia do Ceará expulsou o povo do Caldeirão e queimou suas 400 casas. Os sobreviventes fugiram para o mato, onde se reagruparam”.

AO INVÉS DE BENÇÃOS, BALAS CAÍRAM DO CÉU.

“No ano seguinte, um incidente serviu como sentença de morte para a comunidade do Caldeirão. Um capitão da polícia militar e quatro soldados morreram em uma escaramuça com membros de uma facção da Irmandade.

Dias depois vinha a ordem do Governo Federal para o massacre final. O general Dutra liberou 200 soldados por terra, e três aparelhos de guerra do Destacamento de Aviação. As metralhadoras da FAB despejaram chumbo quente sobre os colonos indefesos.

José Lourenço refugiou-se em Exu, no Pernambuco, onde morreu em 1946 de peste bubônica. O povo carregou seu caixão por 70 quilômetros a pé, até Juazeiro. Os padres negaram-se a celebrar seu funeral.

Os fiéis seguidores então o enterraram no Cemitério do Socorro”.

PACTO DE SILÊNCIO

““Foi uma coisa tão triste, que minha memória esqueceu”. Assim disse o lavrador aposentado João Batista de Morais ao repórter Paulo Mota, da Folha do Ceará, numa entrevista realizada com sobreviventes em fevereiro de 1998. “Já sofri muito, meu filho”, emendou a também aposentada Alexandrina Tavares de Líria, com 81 anos quando a reportagem foi publicada. “O que posso dizer é que Caldeirão foi um sonho que passou e nada mais”.

Até hoje este episódio sangrento não é incluído nas aulas de História do Brasil.

Em 1986 o cineasta Rosenberg Cariry lançou o documentário longa-metragem Caldeirão de Santa Cruz do Deserto.

Em setembro de 2008, a organização não governamental SOS Direitos Humanos entrou com ação contra o Governo Federal e do Ceará, exigindo que o Exército indique o local exato da vala comum onde foram jogados os corpos das 700 vítimas. Exige ainda a exumação e identificação delas por DNA, enterro digno e R$ 500 mil de indenização para seus familiares”.

Obs: Acima uma fotografia de uma cova coletiva de mortos do Caldeirão (Crato/CE)

Fonte: facebook
Página: Geraldo Júnior
Grupo: O Cangaço
Link: https://www.facebook.com/groups/ocangaco/1208180832528366/?notif_t=group_activity&notif_id=1461019127651799


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UM SONHO QUE ESTOU REALIZANDO A CADA ANO

Por Manoel Severo

O Cariri Cangaço é o resultado de um grande sonho. Desde menino me encantava com as histórias dos cangaceiros, suas sagas, aventuras, e notadamente o bando de Lampião; sem dúvidas o de maior destaque e de maior longevidade dentre todos. A motivação pelo fascínio daquele menino, ainda com seus oito anos de idade, pelo universo do cangaço, talvez se confunda com o fascínio que até hoje o cangaço desperta em todos os amantes e curiosos da temática: Em um primeiro momento, ainda nos tempos de menino; a valentia, aventuras, sagacidade, enfim. Com o tempo outras percepções: Senso de adaptação, criatividade, a extensa rede de interesses, a estética, a medicina, o vigor em ambiente tão hostil, a compreensão da importância da imagem, o primeiro "marketeiro das caatingas", enfim. Virgulino Ferreira da Silva, apesar dos muitos senões, acabava por se tornar um mito.

Já homem feito, me vi reaproximar da literatura do cangaço e acabei por me apaixonar verdadeiramente pelo tema, daí me dedicando sempre a buscar novas fontes; participar dos primeiros seminários seria inevitável, e assim aconteceu. Serra Talhada, Mossoró, Paulo Afonso, e nesse "vai e vem" por entre as terras pisadas por Lampião, acabamos por nos aproximar dos "vaqueiros da história". A cada novo evento um novo companheiro, um compartilhador de aventuras, homens e mulheres que dedicaram e dedicam boa parte de suas vidas a seguir as pegadas desse que viria a ser intitulado o "rei do cangaço" ou o "governador do sertão", Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião.

Em março de 2009 quando retornávamos da primeira edição do Seminário de Maria Bonita em Paulo Afonso aflorou em minha cabeça a ideia de tentar realizar em nosso estado do Ceará, mais precisamente na região do Cariri, um seminário onde pudéssemos resgatar um pouco da historiografia cangaceira na região, tão pouco conhecida pela grande maioria das pessoas. Num primeiro momento ouvia muitas indagações e provocações: "Cangaço no cariri?" "Está ficando louco?" "Como realizar um negócio desses aqui, sem nenhuma tradição com o tema?" "Evento para endeusar bandido?" ... Foi aí que alguns ingredientes acabaram se somando e o sonho acabou se tornando realidade: Determinação, perseverança, dedicação e amigos; muitos amigos, inúmeros amigos, de todos os lados e lugares, alguns antigos e outros novos, todos juntos começaram a acreditar que poderíamos fazer...e fizemos. Assim nasceu o Cariri Cangaço, hoje com sete anos de idade, mais de 90 conferencias, 115 visitas técnicas, mais de 30 mil pessoas... Isso não tem preço...


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Luiz Ruben F. de A. Bonfim
Economista e Turismólogo
Pesquisador do Cangaço e Ferrovia

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“CORREIO BRASILIENSE” – 12/04/1970

Por Paulo Dantas

LOUVAÇÃO

... Certa vez viajando de jipe pelas estradas de Sergipe, na estrada de Carira, vi uma tosca cruz, coberta de flores – UM CRUZEIRO DE ACONTECIDO – à beira do caminho.

Era do cangaceiro Gitirana, um cantor do bando de Lampião, um barítono caboclo, de cabelos cacheados, que conheci quando ele esteve na chefatura da Polícia Baiana em 1938, logo depois do massacre da Gruta dos Angicos. Os sobreviventes do bando sem o seu amado chefe, estavam se entregando.

Gitirana será o último cangaceiro chegado do sertão. Estava preso com a companheira, uma morena grávida, mãe de um menino novo que chorava no xadrez ao lado.

Gitirana subiu comigo no elevador e foi para seu aposento. Era noite. Guardei o moço moreno cor de jenipapo, sorriso franco, cabelos anelados, uma inesquecível imagem de simpatia. Não sabia que ele era o cantor, o poeta tirador de rimas do bando, o predileto de Lampião.

Densa era a noite naquele presídio.

Já ao romper da aurora, entre ruídos de grades que se fechavam, abafadas ouvi ao lado, uma doce voz que cantava:

“OU MUIÉ RENDERA 
OU MUIÉ RENDÁ 
CHORO LEVO COMIGO 
SOLUÇO VAI NO EMBORNÁ.
MINHA MÃE ME DÊ DINHEIRO 
PRA COMPRÁ UM CINTURÃO 
PRA FAZER UMA CARTUCHEIRA 
PRA BRIGÁ COM LAMPIÃO. 
OU MUIÉ RENDERA.”

A voz, bem modulada possuía uns acentos como jamais ouvi.

Gitirana, como ninguém nos ermos das caatingas se impunha como o barítono melhor da “MULHER RENDEIRA”.

Gitirana meu gitano cancioneiro caboclo, meu cantor cangaceiro morreu, anônimo e está enterrado nos matos. E virando no ciclo sertanejo da minha ficção além oeste personagem de uma novela: “GIRA, GIRA GITIRANA”.

Adendo:

Diz o pesquisador e escritor Antonio Corrêa Sobrinho: 

Segundo leio no Dicionário de Bismark Martins de Oliveira - "Cangaceiros de A a Z", Gitirana chamava-se Antônio Félix, e era natural do Estado de Alagoas, e entrou para o cangaço no ano de 1937, com o objetivo de vingar a morte do pai, que fora assassinado pela polícia. 

Destacou-se no meio dos companheiros por ser grande repentista, compositor e cantor. Entregou-se em 1940, juntamente com a sua companheira Maria de Gitirana e o companheiro "Sofreu". 

Antônio Félix ou o cangaceiro Gitirana faleceu pouco tempo depois, segundo informações de pesquisadores, e a causa foi de tuberculoso.

Fonte: facebook
Grupo: Lampião, Cangaço e Nordeste

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