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terça-feira, 31 de março de 2020

QUANDO A GRIPE ASIÁTICA ATACOU NATAL

Autor – Rostand Medeiros – IHGRN

A atual Pandemia de COVID-19, o novo coronavírus, não é a primeira situação do gênero que Natal e o Rio Grande do Norte enfrentam. Talvez poucos saibam, mas em 1957 houve uma pandemia que ficou conhecida como gripe asiática, que aqui chegou causando medo e confusão.  

As crianças foram as mais atingidas pela gripe asiática.
Esse novo vírus teria se desenvolvido no norte da China e nessa época o regime comunista local era extremamente autoritário e controlava a saída de praticamente todas as informações do país para o exterior. O mundo só tomou conhecimento com maiores detalhes desse surto quando esse vírus chegou a Cingapura, onde foi relatado pela primeira vez em fevereiro de 1957. O certo é que em abril do mesmo ano a gripe avançou de Cingapura para Hong Kong e no verão alcançou as cidades costeiras do oeste dos Estados Unidos, primeiramente na Califórnia. Logo atacou a Oceania, África e Europa.
Veículos das Pioneiras Sociais, utilizados contra a gripe asiática. Foi uma ação do governo Juscelino Kubitschek de Oliveira .
Qual era o tipo de Vírus
Através de testes o vírus foi reconhecido como sendo do tipo Influenza A e que ele era diferente de qualquer outro encontrado anteriormente em humanos. Pesquisas posteriores apontaram que a gripe asiática foi resultado de um cruzamento entre um vírus encontrado em patos selvagens na China (H2N2) e de uma cepa de vírus da gripe humana (H1N1). Convencionou-se na época denominar esse vírus como H2N2, mas ela ficou conhecida mundialmente como gripe asiática.
Pedido para não beijar a criança da foto, durante a pandemia de 1918.
Depois da gripe espanhola de 1918, a pandemia de gripe asiática de 1957 foi a segunda maior pandemia a ocorrer no mundo durante o século XX. Quando esse surto surgiu, apenas pessoas com mais de 70 anos de idade possuíam lembranças claras da experiência ocorrida quase quarenta anos antes. Apesar das advertências dos mais velhos, muitos não acreditaram na letalidade da nova gripe. Logo ficou patente que os mais jovens estavam errados.
No Reino Unido os primeiros casos foram informados no final de junho, com um surto mais grave ocorrendo na população em geral em agosto. O País de Gales e a Escócia tiveram os primeiros casos em setembro e no início de 1958 estima-se que cerca de 9 milhões de súditos da rainha Elizabeth II havia contraído a gripe asiática. Destes, mais de 5,5 milhões foram atendidos por seus médicos e cerca de 14.000 pessoas morreram devido aos efeitos imediatos do ataque. 
Foi relatado no Reino Unido que os pacientes sentiram fortes calafrios, seguido de prostração, dor de garganta, nariz escorrendo e tosse. Na sequência os relatos apontaram para membros doloridos (adultos), cabeça (crianças), seguido de febre alta (ambos os casos). Crianças pequenas, principalmente meninos, sofreram sangramentos no nariz. Cientistas ingleses observaram que a gripe asiática tinha duas ou três fases, sendo a segunda a de natureza mais grave.
Os sintomas eram geralmente leves e a maioria dos pacientes normalmente se recuperava após um período na cama, com medidas antipiréticas simples. Houve complicações em 3% dos casos, com mortalidade de 0,3%. Pneumonia e bronquite foram responsáveis ​​por 50% dos óbitos, sendo o restante por agravamento de doenças cardiovasculares já existentes. Durante a pandemia aumentou bastante a incidência de pneumonia.
Houve uma falta de uniformidade no tratamento ao surto. Alguns médicos prescreveram antibióticos para todos os casos, até os menos complicados. Mais tarde, no entanto, observou-se que o uso indiscriminado de antibióticos não era benéfico.
Na época foi possível detectar o agente com rapidez e trabalhar em novas soluções. Uma vacina para a gripe asiática foi introduzida ainda em 1957 e a pandemia diminuiu. Ocorreu uma segunda onda dessa gripe em 1958 e ela passou a fazer parte daquilo que os cientistas classificam como gripes sazonais. Em 1968 foi comprovado que a gripe asiática H2N2 havia desaparecido na população humana e acredita-se que ela tenha sido extinta na natureza. 
Apesar de praticamente desconhecida nos dias atuais, essa doença matou entre 1,4 e 2 milhões de pessoas, sendo 116.000 nos Estados Unidos. Outros cientistas apontam que esse surtou ceifou muito mais gente. Colocando a cifra em 4 milhões de mortos, principalmente no continente de onde se originou, sendo as crianças suas vítimas preferenciais.
A Gripe Chega a Natal
Juscelino Kubitschek de Oliveira e Dinarte Mariz. Respectivamente presidente do Brasil e governador do Rio Grande do Norte em 1957.
Quem governava o Brasil na época era Juscelino Kubitschek e a gripe asiática aqui chegou entre julho e agosto de 1957, com um primeiro surto no Rio Grande do Sul. No início de setembro, sua presença foi identificada no Rio de Janeiro pelo Instituto Oswaldo Cruz e pelo Instituto de Microbiologia da Universidade do Brasil – hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pouco depois pandemia desembarcou em Belo Horizonte, Salvador e Belém, sempre com alta incidência em crianças.
Dinarte de Medeiros Mariz era o governador do Rio Grande do Norte em 1957 e o médico Dary de Assis Dantas o diretor do Departamento de Saúde Pública, atual SESAP – Secretaria de Estado de Saúde Pública do Rio Grande do Norte. Este último havia nascido na cidade de Serra Negra do Norte, mesmo local de nascimento do governador, se formou em medicina no Rio de Janeiro onde atuou na Santa Casa de Misericórdia e no Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI), quando foi convidado por Dinarte para assumir o cargo. Dary era pessoa de extrema confiança do governador e médico de sua família.
Eider Furtado, correspondente do Diário de Pernambuco em Natal naquela época, informou na edição de 15 de setembro daquele jornal (pág. 7) que na primeira quinzena de agosto Dary Dantas havia formado a Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe. Esse grupo começou a estudar medidas contra a doença que se avizinhava do Rio Grande do Norte. O diretor do Departamento de Saúde Pública também solicitou ao governador uma verba no valor de 500 mil cruzeiros para combater a gripe no estado.
Provavelmente a criação dessa comissão se deveu, ao menos em parte, a divulgação de um primeiro alarme da presença da gripe asiática entre os potiguares. Em agosto de 1957 surgiu a informação que cerca de “400 pessoas” teriam contraído a nova doença no município de Goianinha, 50 quilômetros ao sul da capital. O surto teria surgido na Usina Estivas, mas logo o caso foi negado e devidamente esclarecido pelo médico Luís Antônio dos Santos Lima. O que aconteceu foi que realmente havia naquele lugar um surto de gripe, mas de gripe sazonal. Além disso, nesse período a gripe asiática ainda se encontrava restrita ao sul do Brasil.
Após o susto inicial não demorou a surgir os primeiros casos comprovados da doença no Rio Grande do Norte, ou “Cingapura”, como a doença também ficou igualmente conhecida. NaTribuna do Norte, em O Poti e no Diário de Natal, os principais jornais que circulavam na capital potiguar na época, é possível conhecer detalhes desse acontecimento.
Em 25 de setembro de 1957, na página 6, o Diário de Natal estampou que em uma residência na Rua Apodi, na Cidade Alta, quatro pessoas estavam acamadas, com muita febre e forte gripe. Interessante comentar que esse jornal não informou a localização da casa e nem os nomes das pessoas doentes, mesmo sendo editado em uma cidade com cerca de 140.000 habitantes, onde praticamente todos se conheciam e sabiam do ocorrido.
Médicos da Saúde Pública estiveram presentes ao local. Eles aconselharam o isolamento e recolheram amostras dos pacientes, que foram enviados ao Rio de Janeiro por um avião da Força Aérea Brasileira para confirmação da doença. Esse exame ocorreu no Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, atual Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ. O resultado foi divulgado dias depois e se confirmou a existência da gripe asiática em Natal.
Mortes no Tradicional Bairro do Alecrim e Cobranças
Após a chegada da confirmação do Rio de Janeiro, Dary Dantas e os membros da Comissão pediram calma a população e informaram que ainda “não estava formado um surto epidêmico em Natal”. Pouco mais de uma semana depois aconteceram as primeiras mortes!
Nessa época o bairro do Alecrim já era considerado o maior da cidade, possuindo um forte comércio, a maior feira de alimentos, concentrando uma grande parte da população de Natal e possuindo uma característica única e marcante – suas principais artérias eram conhecidas pelo povo através de uma antiga numeração. E foi nesse bairro de características tão peculiares e marcantes para os natalenses que em 5 de outubro de 1957 duas crianças faleceram de gripe asiática em suas casas, respectivamente nas antigas Avenidas 7 e 8[1].
Consideram que, apesar das crianças estarem acometidas de forte gripe, suas famílias não tomaram as “necessárias medidas preventivas”. Os jornais só não explicaram quais eram essas medidas. Somente próximo ao final do mês de outubro é que vamos encontrar nas páginas dos jornais algum tipo de material informativo oriundo do Departamento de Saúde Pública explicando o que a população deveria fazer. Aqui trago um exemplo.
Ainda em 18 de outubro, na página 6 do Diário de Natal, é relatado que seus repórteres realizaram um levantamento que, mesmo sem confirmação oficial, indicou que mais de 100 pessoas com sintomas da gripe asiática eram transportadas diariamente pelas ambulâncias Ford F-1 do SAMDU – Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência, para o Hospital Miguel Couto, atual Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL. Existiam casos graves no bairro das Rocas, mais precisamente na Rua Floresta, perto do Canto do Mangue, não muito distante do rio Potengi. Ali eram as crianças as mais atingidas, algumas com relatos de expectoração de sangue do trato respiratório.
O jornal Diário de Natal foi contundente na crítica a ação governamental: “Não obstante as reiteradas e solenes afirmações das nossas autoridades sanitárias, de que o assunto da gripe asiática em Natal era objeto apenas de informações alarmistas, aí está o surto da “Cingapura” tomando conta da cidade”.
Ambulâncias Ford F-1 do SAMDU – Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência, partindo do Hospital Miguel Couto, em Natal.
Apesar da gravidade do caso, não encontrei nos jornais referências sobre aplicação de métodos de isolamento social para a contenção desse surto.
Uma Criança Morre na Calçada
Igualmente não encontramos material oriundo do Departamento de Saúde Pública da Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe com estatísticas sobre o alcance da gripe asiática em Natal. Por isso não temos meios de afirmar se os jornais estavam corretos ao informarem no dia 22 de outubro, que o número de vitimas da doença era “de aproximadamente 6.000 pessoas”. Por outro lado encontramos registros que os profissionais da Saúde Pública já haviam visitado mais de 800 doentes em suas residências e que em um único dia ocorreu mais de 500 notificações de atingidos por essa gripe, apontando para uma provável estagnação na capacidade de atendimento do Hospital Miguel Couto, o principal da cidade. Noutra parte da reportagem informava que famílias inteiras estavam com a gripe em suas casas.
O Instituto Oswaldo Cruz começou a enviar vacinas para Natal, mas o número foi pequeno para a demanda. Não demorou e circulou a informação que o surto atingiu 10.000 natalenses, principalmente no bairro das Rocas.
Houve uma situação trágica, que chamou atenção na cidade e o combativo advogado e jornalista Luís Maranhão Filho registrou em sua coluna no Diário de Natal de 25 de outubro de 1957. No dia anterior, na calçada do Centro de Saúde da cidade, na Avenida Junqueira Aires, atual Câmara Cascudo, foi encontrada uma criança morta. Não existem maiores detalhes sobre seu falecimento, tendo sido creditado a gripe asiática. Luís Maranhão foi extremamente contundente em sua crítica ao descaso do poder público em relação à saúde do povo natalense.  Realmente as notícias envolvendo mortes trágicas de crianças em Natal, mesmo sendo as de origem mais humilde, eram estampadas com destaque nos jornais. Mas não nesse caso. Nem Luís Maranhão foi desmentido por algum dos periódicos locais.
Anúncio Precipitado do Fim da Pandemia
Cerca de trinta dias após a chegada dessa pandemia em Natal, os jornais de 26 de outubro destacam que o número de casos começou a declinar. Realmente alguns jornalistas comprovaram um declínio dos casos nos locais de atendimento na capital. Um dos membros da Comissão Estadual de Defesa Contra a Gripe atestou a redução dos casos, tranquilizando a população. Entretanto fez questão de apontar que “o maior número de gripados foi constatado em bairros afastados, entre a pobreza”.
Mas o anúncio foi precipitado, pois uma semana depois novos casos surgiram, com pessoas tendo febres de 40 graus, fortes calafrios e vômitos. Dessa vez o foco foi principalmente na região conhecida antigamente como Alto do Juruá, no atual bairro de Areia Preta. Nessa região, na Rua 2 de novembro, hoje Major Afonso Magalhães, famílias inteiras foram duramente atingidas, sendo necessário o apoio de vizinhos para solicitar socorro junto a Saúde Pública.
No dia 5 de novembro houve um caso que mereceu bastante destaque na imprensa natalense.
Nessa época existia o bar e restaurante Flórida, que ficava localizado na Avenida Duque de Caxias, nº 45, Ribeira. Ali trabalhava um garçom chamado Antônio Domingos Filho, que devido se encontrar com uma febre muito alta, pediu ajuda ao seu colega de trabalho Abel Gomes para levá-lo ao Hospital Miguel Couto para ser atendido. Eles foram, mas lá informaram que “ali não tratavam mais casos dessa natureza e que eles fossem pra o SAMDU”. Nesse local o garçom teve novamente negado qualquer tipo de atendimento. Sem jeito de resolver a situação, Abel então levou seu amigo Antônio Domingos até a sua residência, em uma humilde casa na Travessa Primeiro de Maio, bairro de Petrópolis. Segundo declarou Abel Gomes aos jornais, devido ao agravamento do quadro, de madrugada Antônio saiu pela rua gritando tresloucadamente em busca de socorro. Mas aí quem veio não foi a Saúde Pública, mas a Polícia Militar. O pobre garçom, tido como alterado, acabou no chão frio de uma cela na 2ª Delegacia de Polícia. O resultado foi que às seis da manhã ele foi encontrado morto.
Logo o caso repercutiu na Rádio Poti e outros meios de comunicação, mas nada foi feito. Não encontrei algum pedido de abertura de inquérito, ou alguma providência por parte do Ministério Público.
Enfim, ele era apenas um pobre garçom!
Até gostaria, mas certamente a atual pandemia de COVID-19 não será a última ocasião em que Natal vai testemunhar. Mas será muito interessante que na atual conjuntura as pessoas mais humildes e necessitadas, que é grande parcela da atual população potiguar, venha ater por parte das autoridades o devido apoio para enfrentar essa situação e que o caso do garçom Antônio Domingos Filho fique restrito a memória histórica dessa terra!
NOTA
[1] Muitos imaginam até hoje que essa situação é fruto da presença das tropas norte-americanas em Natal durante a Segunda Guerra Mundial, onde as autoridades locais teriam numerado as principais vias do Alecrim para facilitar a circulação dos militares estrangeiros na área. Nada disso! Oficialmente o bairro do Alecrim foi criado em 23 de outubro de 1911, mas existem informações que já em 1903, quando a região ainda era um amplo matagal pontilhado por alguns sítios, ali foi criado um traçado numerado de futuras avenidas e ruas. Mesmo sem existir uma documentação comprobatória, acredita-se que essa delimitação foi realizada pelo arquiteto italiano Antônio Polidrelli. Este havia sido contratado pelo poder municipal para desenvolver o traçado da área denominada Cidade Nova (atuais bairros de Petrópolis e Tirol) e a ideia de criar esse traçado no Alecrim tinha o objetivo de facilitar junto a Intendência Municipal de Natal o aforamento de terrenos dos futuros moradores. As antigas Avenidas 7 e 8 são atualmente as Ruas dos Caicos e dos Pajeús. Sobre a história relativa a questão das numerações das ruas do bairro do Alecrim, ver SOUZA, Itamar de. Nova História de Natal, 2008, 2ª Ed. págs. 522 a 524. Mesmo com as numerações das antigas avenidas e ruas do Alecrim tendo sido oficialmente abolidas em 1930, até hoje uma grande parcela dos natalenses continua a utilizar as velhas numerações para se localizar no bairro, inclusive o autor dessas linhas (antigo morador do bairro, na Rua Borborema).
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NOTA DE PESAR!



O blogdomendesemendes tomou conhecimento através do Relembrando Mossoró do falecimento que ocorreu ontem à noite da enfermeira ÍRIS FERREIRA. Ela  faleceu no Hospital de Oncologia de Mossoró. 

O nosso blog ainda não tem conhecimento o que causou a sua mote. 

Nossos sentimentos aos familiares e amigos.

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segunda-feira, 30 de março de 2020

LIVRO SOBRE CANGAÇO ADQUIRA LOGO O SEU


O cientista cearense de Lavras da Mangabeira Melquiades Pinto Paiva, publicou entre 2001 e 2008 uma coleção de 5 exemplares com o titulo "Bibliografia Comentada do Cangaço. 

Em 2011 resolveu reunir os 5 volumes, com mais outros apontamentos, num único Volume, com o titulo" CANGAÇO: uma ampla bibliografia comentada", com 390 páginas, capa dura, papel especial, edição de luxo, Editora IMEPH. 

Este trabalho contém o comentário sério e fundamentado de 200 livros, 55 Revistas, 200 artigos de jornais, 140 cordéis e 12 filmes e documentários. 

Livro da mais alta importância para quem deseja fazer um estudo sistemático do fenômeno do Cangaço e formar uma boa biblioteca sobre este tema. Quem desejar adquirir este e outros livros: 

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AOS HERÓIS E HEROÍNAS DE SANTANA DO IPANEMA

Clerisvaldo B. Chagas, 30 de março de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.283

Muito ainda teremos que agradecer, contudo, gratidão não se confunde no início, meio ou final do benefício. Particularmente estou agradecendo aos profissionais de vários segmentos que estão em seus postos de trabalho lutando em favor da saúde do povo santanense. Numa ocasião dificílima como essa em que a humanidade estar passando, é quando surgem figuras valorosas e iluminadas que saem da vida real e se agigantam à vista do mundo. Rasgam-se as roupas e as origens das estrelas futuristas de telinhas e telões com a presença em carne e osso dos combatentes humanos contra o inimigo número um: o vírus corona assassino.

P. DE SAÚDE SÃO JOSÉ EM TARDE CHUVOSA. ( FOTO: B. CHAGAS).

Em Santana do Ipanema, profissionais da Saúde, Polícia, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Prefeitura, Justiça... Estão cumprindo o papel de defensores da população. Ainda que fosse elaborada uma lista individual dos lutadores pela própria linha de frente, muitos por esquecimento ainda ficariam fora do rol; quanto mais se fosse elaborada por mim que estou em quarentena obedecendo as regras básicas da Saúde! São essas grandiosas pessoas que estão  arriscando suas vidas por nós no batente dessa guerra insana. Agradecer, aplaudir, rezar também por elas para a fortificação espiritual do combate.
Com o surgimento da cheia incomum do riacho Camoxinga, muitos anônimos vieram em socorro dos desabrigados em diversas ocasiões. Louve-se a solidariedade em vários sentidos que continua em evidência dentro e fora dos pontos de apoio. Assim todos estão no mesmo patamar em busca da felicidade de uma população de 50.000 habitantes. Sob as orações de milhares de santanenses, trabalham incansavelmente esses heróis e heroínas da Saúde e dos diversos setores sociais, iluminados pelas bênçãos divinas.
Deixem descer as nuvens...
Deixem correr os rios...
Deixem fluir a vida...

O VÍRUS, NÃO!
*Amanhã: “O riacho Camoxinga tem jeito?”

http://clerisvaldobchagas.blogspot.com/2020/03/aos-herois-e-heroinas-de-santana-do.html

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UM SENHOR DOCUMENTÁRIO!

Alpercata de rabicho - O xaxado em Pernambuco (1999)

 David Gomes Jurubeba

Trabalho pioneiro nos sertões, o documentário Alpercata de Rabicho de Petrônio Lorena é um documento essencial da cultura no Pajeú.

Depoimentos históricos de David Jurubeba, "Senhor da Beleza", Marilourdes Ferraz e Frederico Pernambucano de Mello.



Pescado no canal de Camilo Melo

E eu repesquei no blog do http://Lampiãoaceso.blogspot.com

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DEPOIS DAS NOVE

*Rangel Alves da Costa

Em Poço Redondo, no sertão sergipano, está havendo toque de recolher depois das nove horas da noite.
O motivo não é outro senão o coronavírus que veio e está dando trabalho para partir, como se de repente tomasse conta de nossas vidas e nosso futuro.
Por isso mesmo o toque de recolher foi imposto através de decreto municipal. Justo que assim seja. Não haveria como conter a displicência e o descaso de grande parte da população.
Certo que seja assim, já que parte da população, mesmo sabendo que pode colocar em risco a saúde e a vida da outra parte da população, estava continuando com aglomerações noturnas em ruas, calçadas e praças, então a medida serviu como meio de evitar o surgimento dos mesmos graves problemas que assolam o país e o mundo.
Mesmo sendo forçado o recolhimento, nada que se possa ter como quebra das liberdades individuais. Há, acima de tudo, o resguardo maior do direito à saúde e à vida. Há, enfim, uma tentativa de preservação da saúde e da paz do poço-redondense.
Além disso, o surgimento de diversos aspectos altamente positivos, de cunho pessoal, familiar e até mesmo espiritual, sem falar na segurança maior que acaba assomando. As pessoas nunca estiveram tão reunidas em seus lares.
Os lares nunca estiveram tão tomados de diálogos, conversas, e até dos necessários silêncios. As pessoas encontraram mais tempo para si mesmas, para refletir, meditar, encontrar respostas para questões que continuavam pendentes.
Há mais tempo para arrumar a casa, o quarto, a própria pessoa. Há mais tempo para folhear álbuns, para relembrar situações, para reencontrar retratos de memória e saudade. Há tempo para a leitura de um bom livro, para escrever qualquer coisa, para arrumar a estante e colocar em saco de lixo o que já não possui serventia.
Há mais tempo para namorar, para fazer confissões, para ficar abraçadinhos no calor do sofá. Há mais tempo para o carinho, para o afago, para o dengo, para o cafuné. Há mais tempo para a prece, para a oração, para o ajoelhamentos perante os velhos oratórios, para conversar com Deus, com os santos e anjos.
Há tempo também para o romantismo, para olhar o luar da fresta da janela e sentir um apertinho por dentro, bem dentro do coração. Há mais tempo para sentir a chuva batendo no telhado, para fazer da nostalgia um encontro que alegre a alma.
E também para deitar mais cedo, para ter mais tempo de sonhar, sonhar, sonhar. E, mesmo na crise, encontrar motivos para sentir e dizer que a vida é boa. E como é bom viver!
Assim, depois das nove, ao invés de a vida se recolher, ela abre suas portas interiores para o muito que se tem de viver.

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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MINHAS IMPRESSÕES SOBRE O LIVRO DO LAMPIÃO DE PÃO DE AÇÚCAR


Por Junior Almeida

Muita gente já falou em grupos especializados em cangaço no Facebook e também nos de WhatsApp sobre a obra “Lampião a sua Verdadeira Morte - Angicos Não Foi o Fim”, do escritor Antônio Pinto, obra que tem a presunção de contestar TODA literatura cangaceira e todos os depoimentos dos remanescentes da época, cangaceiros, coiteiros e volantes. O livro é fininho, são apenas 104 páginas, muitas delas preenchidas com fotografias, então, de uma tirada só dá pra ler. Como não acho correto elogiar ou criticar um livro sem conhecer, quis tirar minhas próprias conclusões depois de ler. Vamos lá:

A capa tem uma fotografia de Lampião (legítimo) ao lado do “Lampião de Buritis”, de autoria do fotógrafo mineiro Geraldo Aguiar. O detalhe é que acrescentaram por programa de computador uns óculos com um tapa olho na imagem. Será que o autor quis usar a técnica do Super-Homem, que se disfarça apenas com óculos e achou que ninguém reconheceria o Lampião mineiro? Tive essa impressão.

O prefácio feito por um padre, a princípio um homem de Deus, tenta passar credibilidade ao leitor, mas se percebe logo que o religioso sabe tanto de cangaço como um ateu sabe da missa.

Na página 11 do livro eu achei que tivesse lido errado e voltei no texto. Confesso que tive vontade de parar de ler, mas insisti e fui em frente. Dá pra acreditar que o autor diz que as pinturas rupestres espalhadas pelo Nordeste são obras de alienígenas, que desembarcaram aqui em suas naves espaciais?! É mole? Papel aceita cada coisa...

Na 15, Pinto faz um resumo do resumo das brigas entre os irmãos Ferreira com Zé de Saturnino, inclusive fala nas cercas que dividiam as propriedades de Zé Ferreira e o velho Saturnino das Pedreiras, quando se sabe que as confusões entre as famílias se deram justamente pela falta destas, o que fazia que os animais fossem de uma propriedade à outra sem nada que os impedisse.

Duas páginas adiante uma informação nova, pelo menos pra mim: segundo o autor, os filhos de Zé Ferreira assistiram a sua morte, quando a volante comandada por Zé Lucena estava na propriedade onde ele morava justamente procurando Antônio, Virgulino e Levino, envolvidos num assalto na então vila de Pariconha. Dá pra imaginar três “doces meninos”, os cangaceiros Esperança, Lampião e Vassoura, ver o pai morrer crivado de balas e não reagir?

Página 18 o escritor diz que a palavra “macaco”, como jocosamente os cangaceiros se referiam aos policiais, tem origem no fato de “os militares terem origem pobre, mas serviam ao governo dos ricos, fazendeiros e grileiros, vindo a PULAR de posição ficando contra suas origens”. Interessante...

Na 20 ele diz que foi por ordem de Getúlio Vargas que uma força volante de um Estado poderia entrar em outro, mas só lembrando que Getúlio Vargas assumiu pela primeira vez a Presidência da República em 1930, sendo que em 1922 os poderes ESTADUAIS das Unidades da Federação atingidos pelo cangaceirismo, já haviam assinado um tratado de cooperação.

Na página seguinte o autor fala que Joca Bernardes em 27 de julho de 1938 foi a Entremontes e não à feira de Piranhas dizer ao “tenente Aniceto” que Pedro de Cândido sabia onde o bando de Lampião se encontrava, e na página 22 ele se refere ao local que Lampião e parte do seu bando tombaram sem vida como GRUTA de Angicos. Apesar de mudar apenas uma letra na palavra o correto é GROTA, pois como o autor se referiu, passa a impressão ao leitor desatento que o cangaceiro morreu numa caverna.

Página 24 o escritor diz que a ação policial que resultou na morte de Virgulino era denominada “operação pijama”. Hã?! Confesso que desconhecia isso. No bom “cearês”: Aí dentro, macho!

No capítulo 23, o autor reforça o seu lado na história, pois se refere aos policiais volantes como sendo “covardes”, e aos cangaceiros como “pobres e indefesos”. Anteriormente Antônio Pinto já tinha exaltado os bandidos, chamando-os de “heróis, bravos, valentes” e que tinham qualidades de “ariscos e ligeiros”.

Mais duas páginas pra frente, uma revelação do outro mundo, literalmente falando, pois vem do mundo do além. Pinto afirma que Antônio Ferreira, irmão de Lampião, morto na Fazenda Poço do Ferro, do Coronel Ângelo (Anjo) da Jia, em Ibimirim, Pernambuco, no começo de 1927, estava também em Angicos em 1938. Podem acreditar, tem isso no livro.

No capítulo 8, “Lampião ferido sim, vencido nunca”, o autor discorre de como supostamente o rei do cangaço escapou do massacre de Angicos e mostra mais uma vez que não é do time das volantes, pois se refere mais uma vez aos militares com desdém, e os condenando, ao afirmar que “após matarem os cangaceiros em Angicos, os militares todos bêbados, riam muito”. Só uma pergunta: quando o time da gente ganha, a gente se alegra e ri, ou fica triste e chora? Agora deu mesmo! Historiador não pode ter lado.

Na página 27 o autor diz que durante a chuva de balas de Angicos Lampião ficou escondido numa caverna. Já fui algumas vezes ao local e de novo confesso desconhecer uma caverna por lá, mas como o escritor chamou o a grota de gruta, pode ser que exista, não é?

Na página seguinte mais uma afirmação do outro mundo, acrescentando dessa vez uma viagem no tempo, pois Antônio Pinto diz que Lampião após escapar ferido do tiroteio, foi a Juazeiro agradecer ao Padre Cícero o livramento. Um detalhezinho de nada que o autor não se atentou: o Patriarca do Juazeiro tinha morrido havia QUATRO ANOS. Morreu em 20 de julho de 1934. Pois é, segundo a obra do escritor de Pão de Açúcar, Antônio Ferreira reviveu depois de mais de uma década e o Padim, depois de quatro anos.

Na 29, o livro tem a foto da placa colocada pela Prefeitura de Poço Redondo na Grota de Angico como sendo a primeira cruz do local de morte, não se referindo em nenhum momento a cruz de madeira colocada por João Ferreira, irmão de Lampião e a de metal, colocada depois pelo tenente João Bezerra e que hoje se encontra em uma faculdade de Aracaju.

Mais duas páginas adiante mais um erro de identificação: a famosa foto das cabeças dos cangaceiros na calçada da prefeitura de Piranhas, o Palácio Pedro II, é postada como se fosse na cidade de Pão de Açúcar, também em Alagoas. A imagem é conhecidíssima, me admira o autor não saber disso.

Página 34 tem o desenho tosco do autor mostrado como se fosse uma fotografia, mostrando a casa do homem que ele afirma que era Lampião, e que usava o nome de João Novato.

Um trecho curioso na página seguinte, pois Antônio Pinto alfineta os moradores da sua terra, ao dizer que o povo de Pão de Açúcar “acolhe os novos moradores e maltrata os conterrâneos”. Particularmente achei uma forte crítica por parte do autor. Pode ser que magoado com alguém, ele teceu críticas a todos e tais comentários no livro expliquem o fiasco do lançamento da obra e o enterro simbólico de João Novato/Lampião. Os vídeos apresentados nas redes sociais mostraram os gatos pingados participantes dos eventos. Foi de dar dó.

Página 36 tem outro desenho, que parece ter sido feito por uma criança, alegando ser um retrato da rua que morou João Novato/Lampião e na 41 fala do principal personagem do seu livro como sendo um grande contador de histórias, tendo sua esposa Rita ao seu lado, confirmando tudo. Acho que o autor se inspirou em Panteleão, personagem de Chico Anísio, que tinha seu bordão “é mentira, Terta?!” – Verdade! Respondia ela, com sua voz fina.

A partir da página 58 o autor apresenta várias fotos de objetos que supostamente provariam que João Novato era na verdade Virgulino Ferreira. Na 79 tem até uma foto de Tânia Alves, caracterizada de Maria Bonita, no famoso seriado da Globo, do ano de 1982, para mostrar como eram as toldas dos cangaceiros.

Mais pra frente, na página 87 Pinto novamente recorre aos assuntos do outro mundo. Transcrevendo o depoimento da testemunha Heitor Pinto, o autor diz que “em sua rua aparecia um lobisomem que corria pelos telhados das casas e, que Lampião teria lhe dado um punhal, que bastava mostrar ao bicho, que ele correria com medo”. Segundo o relato, foi exatamente o que aconteceu.

Na 90, uma testemunha do livro diz que Lampião dançava para os estudantes que passavam em sua rua e na página 93 outro depoimento descreve o suposto como Lampião como um homem bastante extrovertido, diferente dos primeiros relatos, que dizem que o homem mal saia de casa, sendo bastante arisco.

Como podemos observar nesses pontos por nós apontados, o livro traz alienígenas, viagens no tempo, ressurreição dos mortos (Antônio Ferreira e Padre Cícero), lobisomem e várias outras “viagens” do autor, e isso sem falar nuns errinhos de português e digitação, que podem estar em todo tipo de obra, até de autores renomados, mas não revela o mais importante que o livro deveria revelar: VERDADE. Em nenhum momento nada de nada de verdadeiro foi apresentado pelo autor Antônio Pinto. Se ele colocasse na capa ou primeira página que sua obra se tratava de uma fantasia, tudo bem, mas tentar vender por verdade essa loucura é no mínimo um absurdo. O escritor pode até reclamar do “pau” que tem levado da imprensa e nas redes sociais, mas sem razão, pois quando uma pessoa se propõe a escrever o que ele escreveu, tem que ter o coro grosso e se preparar pra o que estava pra vir.


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