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quarta-feira, 24 de julho de 2019

O CANGAÇO ARRUDIANO ITABAIANA/SE


Por Robério Santos

SAIBA QUAL A RELAÇÃO ENTRE ITABAIANA E O CANGAÇO

O banditismo social, como é rotulado por muitos, é um fato que atravessa os séculos. Começou basicamente quando o colonizador europeu chegou por essas bandas no século XVI trazendo a corja de malfeitores que nos viam como simples objetos de lucro (mudou alguma coisa?). Começou a montar suas barracas no litoral e explorando o interior em busca de ouro, prata, terra para o gado, lavoura e umas indiazinhas safadas para seu deleite. Em Itabaiana não foi diferente. Itapváma (segundo José Almeida Bispo, o V era colocado no lugar do U por dificuldades tipográficas), cresceu muito desde quando Simão Dias Francês nasceu debaixo da quixabeira no final do século XVI onde hoje fica a Igreja de Santo Antônio e Almas. Este recém nascido era filho de um francês com uma índia daqui do agreste, se tornou o primeiro itabaianense e foi amamentado por uma cabra (Rômulo Dias ou Remo Dias?). Pronto, a mentira vem de longe. Mas, uma pergunta que sempre me fiz foi: por que o valente Lampião e seu bando nunca invadiram Itabaiana, já que aqui tinha tanta riqueza na década de 20 e 30? Será que por medo do que podia encontrar aqui ou por ter amigos coiteiros no local? Será que aqui a concorrência era grande por ter bandidos ou heróis demais? Qual a relação entre o cangaço e Itabaiana? Foi aí que fiquei encucado desde minha adolescência, quando comecei a bisbilhotar as ideias históricas da terra da cebola (e também uns engraçados que disseram que não há relação). Toca a procissão adiante.


Comecemos por um cabra ruim virado na gota serena. Seu apelido (aqui não temos nomes de batismo): Mata Escura, parido em 1821 com o nome de (Santo) Antônio (São) José e (Simão) Dias. Assassino e ladrão profissional, foi levado à forca aos 25 anos de Idade no dia 08 de março de 1847 (primeira vez que a forca foi usada em Itabaiana) após assumir nove assassinatos e mais umas caridades (citado em Vila de Santo Antonio de Itabaiana, do escritor Vladimir Souza Carvalho. Pg. 252, 2009. Aracaju-SE). Seu enforcamento se deu em frente à Igreja Matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. Mas, qual a relação dele com o cangaço? Bem, Virgulino só nasceria 50 anos depois da execução de Mata Escura. Mas, dia 13 de março de 1918, nas brenhas de Saco Torto, então povoado de Itabaiana, nasce Antônio dos Santos, que onze anos mais tarde, ao viajar para a Bahia em 1929, dá de cara com Lampião e é convidado a ingressar no bando deste. Passa a ser chamado instantaneamente de Volta Seca e apelidado de “menino”. 


Com o passar dos anos, este mascote se mostra muito destemido e cruel, mas por um ato heróico tenta salvar um amigo baleado e é pego pela polícia baiana em 1932. Durante sua passagem pelo bando, acabou compondo uma música em ritmo de xaxado chamada “Sabino e Lampião”. Depois de sair da cadeia, casou-se e foi morar no Nordeste, quando recebe um convite para morar em São Paulo, do cineasta e diretor Lima Barreto, para assistir e criticar o filme, O Cangaceiro (1953), mediante uma gratificação. O excangaceiro condenou a cena em que Lampião chicoteia um cabra na cara. Diz que nos sertões, não se faz isso com homem, se mata, pois cara de homem no Nordeste é sagrada. Graças às novas amizades conseguiu emprego na Estrada de ferro Leopoldina, onde trabalhou por vários anos. Por essas desventuras, no ano de 1957, é chamado pela Rádio Nacional para gravar um disco que retratasse as músicas do cangaço. Entre uma faixa e outra, há ainda curtos trechos de narração de Paulo Roberto, o então apresentador da Rádio Nacional. Neles, o radialista dá as devidas introduções às canções, explicando-as com um tom romanceado característicos dos anos 50. Antes da devida música, que citarei na íntegra adiante, ele fala:


 “Quando entrou para o bando de Lampião, Antônio dos Santos era um menino de apenas 11 anos. Passou desde logo a ser Volta Seca, um simples tratador de Cavalos promovido mais tarde por merecimento a bandoleiro de fuzil marchetado, facão de três palmos e cartucheira cruzada. Agora, ele recorda a cantiga em que os cabras faziam uma brincadeira perigosa, mas fariam o mesmo de mexer com o Capitão Virgulino, o Terror do Sertão”. 

Segue-se abaixo a letra da música:
Sabino e Lampião - xaxado
E lá vem Sabino
Mais lampião
Chapéu de Couro
E o Fuzil na mão
Vem Sabino mais Lampião
Chapéu quebrado
E o Fuzil na mão
Lampião diz que é valente
É mentira, é corredor
Correu da Mata Escura1
Que a poeira levantou
Lá vem Sabino mais lampião
Chapéu de Couro
E o Fuzil na mão
Lampião tava dormindo
Acordou muito assustado
Deu tiro numa brauna
Pensando que era um soldado.

Volta Seca, Cantigas de Lampeão, São Paulo-SP, 1957 Volta Seca cita Mata Escura como se fosse algo amedrontador, capaz até de botar para correr o Capitão Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. Lógico, pode ter sido inconsciente, mas o terrorista itabaianense do século XIX era algo que servia de inspiração para os pais dizerem em tom de ameaça a seus filhos: “Vá pro mato não, Mata Escura te pega”, da mesma forma que se fala de saci, caiporas e luzernas. Há também uma entrevista feita com Volta Seca pelo Grande cartunista, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor, Millôr Fernandes para o Pasquim de setembro/outubro de 1973, no221. Em uma abertura simples e uma resposta seca inicia-se a entrevista: 

“O Pasquim encosta na parede O „Jésse James‟ do nordeste: ‘Volta Seca’ - O cangaceiro Millôr - Você morava a que distância de Aracaju? VOLTA SECA - A seis léguas. Em Itabaiana Grande.” 


Viagem minha? Pode até ser, mas que é lógica é. Podem contestar. Vocês não viram nada ainda. Vamos para a próxima relação? O cinema. Pois é, o cinema... Segundo relata Joãozinho Retratista no jornal O Serrano, no 187 de 10 de dezembro de 1972 na matéria História do Teatro e do Cinema em Itabaiana: “Nos meados da primeira década deste século (ainda no XX), um trio, composto por Santinho de Tetéu, Zezé da lagoa e Oseas Preto, montou o primeiro cinema fixo em terras de Itabaiana. Funcionou ele, na Rua Tobias Barreto (Rua do Futuro), esquina com a General Siqueira, em casa especialmente para se servir de sede do cinema. Demorou pouco, e apesar da aceitação popular, o trio dispersou-se, e o cinema foi parar em Capela”. Pois bem, agora o cinema estava instalado lá pra riba depois dos Enforcados (atual Nossa Senhora das Dores). Dando voltas em páginas dos livros sobre o cangaço acabei me deparando com um fato interessante sobre Capela: o dia que Lampião foi ao cinema. O lagartense Ranulfo Prata em 1934 já havia narrado este fato, mas foi mesmo no livro do jornalista Fernando Portela e do advogado carioca Cláudio Bojunga no aclamado livro Lampião, O Cangaceiro e o Outro de 1982, que encontrei mais detalhes sobre o evento. No capítulo VI “Capela se rende e Lampião vai ao cinema”, tem um trecho interessante: “O telegrafista de Capela estava no cinema sentado ao lado do Juiz de Direito. Era o dia 15 de outubro de 1929. (...) o filme se chamava O Anjo das Ruas. Janet Gaynor se agitava, portanto na tela do único cinema daquela cidade (...). (após entrar no cinema a sombra de Lampião foi projetada na tela) Quem virou a cabeça (e todas se viraram) viu o Capitão Virgolino em pé, perto da última fila. Pavor, pânico, reboliço. Lampião gritou „daqui num sai ninguém. 

Quem corrê vê o gosto de uma bala atrás‟” (...) (depois de umas conversas e de desafinar a banda) „E agora, quero ver cinema‟. Compadre Ramos apagou a luz e Janet Gaynor voltou à tela. Por pouco tempo. Lampião não gostou (do filme). Os músicos se sentiram aliviados, alguns empunhavam o violino de cabeça para baixo” (pg. 39 e 40). Coincidentemente o filme fala de Angela (Janet Gaynor) que é presa após tentar roubar dinheiro para pagar o remédio de sua mãe, mas consegue escapar do reformatório e se esconde em um circo. Lá conhece Gino (Charles Farrell), um pintor. Ângela quebra seu tornozelo e tem que se aposentar do circo, mas não pode voltar para Nápoles, onde ainda é procurada pelo roubo.

Anos no futuro, em uma película de Paulo Caldas e Lírio Ferreira de 1996 chamada Baile Perfumado (filme centrado nas fotografias e filmes de Benjamim Abrahão) há uma citação clara a Itabaiana. Era assim: “Ói, os Firimento foram muitos. (...) O derradeiro (ferimento) foi coisa leve aqui no quadrí, lá em Pinhão, „Tabaiana‟, 1930”. A descrição dos “ferimentos” de Lampião, encontra-se também inserida no livro "Quem foi Lampião” pg. 151, do renomado pesquisador/escritor, Frederico Pernambucano de Mello. Assim se deu a passagem pelo cinema de Capela com a aparelhagem de Itabaiana e no filme nacional. Acha pouco? Não viu nada, pule para o próximo parágrafo, cabra!



Agora vamos aos coiteiros e intrigados. Segundo Luis Antônio Barreto em “Lampião em Sergipe II”, publicado em 09 de julho de 2004 nas páginas do portal na internet, Infonet: “Antes de chegar a Poço Redondo em 29 de abril de 1929, Lampião esteve em Ribeirópolis, Pinhão e no povoado do Alagadiço, pertencente a Frei Paulo. Parecia procurar alguém ou reconhecer um terreno onde contava com amigos, como Otoniel Dória, de Itabaiana, terra de Volta Seca. A amizade entre Lampião e Otoniel Dória certamente evitou a entrada do cangaceiro e do seu grupo em Itabaiana. No dia 21 de abril Lampião estava em Ribeirópolis, de lá foi para Pinhão, voltou para Ribeirópolis, foi a Alagadiço, seguindo viagem até chegar a Poço Redondo, a terra que mais contribuiu com gente – homens e mulheres – para os bandos de cangaceiros”. De Saco do Ribeiro (Atual Ribeirópolis) Lampião manda uma piadinha para Itabaiana. Segundo Ranulfo Prata em “Lampião”, nas páginas 84 e 89 de 1934 diz: “Do Saco do Ribeiro-SE, lugarejo da fronteira (com Itabaiana), telefonou ao delegado de polícia e chefe de Itabaiana/SE, Otoniel Dórea, chamando-o de „colega‟. - Colega, por quê? Indaga intrigada, a autoridade. Explica Lampião: -„Pruque você é cego de um oio cumo eu!‟“, finalizou esse bate papo produtivo de mangações entre os dois cangaceiros (agora fui eu quem zoei kkkkkk).


Ainda em outros dois livros e em uma memória nada enferrujada, acabei encontrando outros fatos relacionados ao bando de Lampião à Itabaiana. Lendo há alguns anos um livro de semiverdades chamado Os Tabaréus do Sitio Saracura de um amigo itabaianense chamado Antônio Francisco de Jesus (pense num cabra gente boa esse tal de Chico Saracura, fã de Breguedela), li um relato semifantasioso na página 116 chamado “Lampião no oitão da Tenda”. O conto falava da passagem do Capitão pelo povoado Flechas, a poucos quilômetros de Itabaiana. Também, claro, poderia ser o bando de Zé Sereno ou de Curisco separados do grupo principal, como também o de Zé Baiano (que inclusive mataram-no aqui perto de Itabaiana no povoado de Frei Paulo, Alagadiço). Um trecho do conto (se quiser ler todo compre o livro, oras): “Nessa passagem pelas flechas, Lampião não fez mal a ninguém, a não ser a surra que deu na mulher de João de Ioiô, da Água Branca. Foi logo na chegada! O bando parou na bodega sortida com a intenção de comprar algum mantimento. A mulher do bodegueiro afobou-se e desacatou o chefe com impropérios, pois era conhecida como abusada mesmo. 

Lampião mandou um cabra segurar a malcriada, levantou-lhe a saia e deu-lhe vinte rebengadas com gosto”. Ao ser indagado sobre o fato, Tonho disse: “Rapaz, o povo conta né?”. Quem mora por essas bandas sabe muito bem como é isso. 

O segundo relato citado em livros sobre Itabaiana e o cangaço é no livro autobiográfico de Ilda Ribeiro de Souza, mais conhecida como a Cangaceira Sila, esposa de Zé Sereno. O livro me foi cedido por Fefi que provavelmente será um dos primeiros a ler este texto. No livro de 1995, publicado no Recife e de nome Sila, Memórias de Guerra e Paz ela relata algo extraordinário sobre Itabaiana. Segue-se adiante partes do capítulo que narra os fatos de 1938, depois da Tragédia de Angico, páginas 54, 55 e 56:
  


“(...)Ficamos no mato, nas terras de Sergipe, aquela cena triste não saia da nossa imaginação, andamos muitas horas sem trocar nenhuma palavra (...). Fomos para a fazenda de Etelvino (Mendonça), um fazendeiro de Itabaiana; era de confiança, amigo nosso e valente, porque para ter amizade com cangaceiro, precisava ser destemido e valente.

Zé Sereno disse a Etelvino, que eu precisava fazer um tratamento dentário. E indagou se podia fazer. Etelvino disse que eu podia ficar lá em Itabaiana, pois teria todo cuidado, em não atacarem. Então Zé disse a Etelvino, que eu ia me preparar e Etelvino ficou de marcar a hora, o dia do dentista (...). Fui para a casa de Etelvino, como estava combinado. Zé Sereno continuou no mato (...). Todo dia eu ia ao dentista com Etelvino. O dentista porém, cheio de curiosidade, começou a me indagar:

– Onde você estudou? Onde comprou essas roupas? De onde você é? (Itabaiana nunca muda mesmo).

Saí da casa de Etelvino e fui para a casa de Fonseca, que também era amigo de Zé Sereno e delegado de Itabaiana. Terminei o tratamento.


Zé Sereno organizou um baile de despedida do cangaço, em Pinhão; com a força sergipana estava com os cangaceiros, principalmente contra Zé Sereno (porque ele se entregaria às forças da Bahia), houve um tiroteio e um soldado foi morto.

Os macacos observaram e viram que eu não estava presente. Começaram então a me procurar. Fonseca soube dessa notícia. 

Chegando em casa, contou-me sobre o tiroteio em Pinhão e falou: Em minha casa eles só tiram você se passarem por cima de meu cadáver. 

Seguiu para a rua. O ambiente já estava calmo. Recebemos uma carta de Zé Sereno, avisando que ia mandar um coiteiro me buscar. Para sair da cidade, foi muito difícil; todos já sabiam que eu estava na casa de Fonseca e podiam me atacar para se vingar de José. O coiteiro chegou à casa de Fonseca, ele havia deixado os animais fora da cidade, para ninguém desconfiar.

Saímos pelos fundos da casa à noite, pegamos os animais e seguimos. Zé Sereno já estava em um local me esperando (...)”.

Ilda Ribeiro de Souza (Sila), relatando os fatos de 1938 após o massacre de Angico. 


Segundo o Advogado Bosco Carvalho, o dentista que tratou Sila foi Dr. Alfredo e segundo Fefi, o delegado Fonseca (mais conhecido em Itabaiana como Fonsequinha) foi indicação de “Dorinha”, ou melhor, Otoniel Dórea. Outro comentário foi feito pelo ilustre Mozart Fonseca. Este jura de pé junto que o tal dentista que tratava cangaceiros era o senhor Antônio Agostinho de Oliveira, seu pai, que na época também era promotor público. Um fato marcante de nossa Itabaiana, esquecido pela cidade e lembrado na memória da já falecida excangaceira e sócia-honorária da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), Ilda Ribeiro de Souza, conhecida como Sila de Zé Sereno. Faleceu em São Paulo no dia 15 de abril de 2005. Ela era natural de Poço Redondo-SE e tinha 80 anos quando foi para o céu dos carneirinhos.

Lampião esteve uma primeira vez no Pinhão, que pertencia a Itabaiana nas décadas de 20/30. Segundo Juarez Conrado (in memoriam), no seu recém lançado “Lampião: Assaltos e Mortes em Sergipe”, ele fala no capítulo 11 que “(...) Lampião esteve a 22 de abril de 1929 no lugarejo Pinhão, onde, embora não cometendo qualquer atrocidade, em companhia de Ponto Fino, Moderno, Corisco, Luis Pedro, Mariano, Arvoredo, Volta Seca (Menino), Labareda e Fortaleza, promoveu grande saque”. Um personagem que guardou muito bem esse fato se chama Joãozinho Veneno que foi matéria do jornal Cinform em 06 de maio de 2001 na edição 942. João Batista da Costa, conhecido em Pinhão como Joãozinho de Danona ou Joãozinho Veneno, nascido em 04 de julho de 1914 no povoado Lagoas. Ele foi duas vezes vereador, caminhoneiro e delegado, tudo em Itabaiana. Pelas bandas de Itabaiana ele era conhecido como Joãozinho da Padaria, como relata Fefi e Zé Almeida ao serem perguntados se conheciam o cabra. Falecido em 05 de janeiro de 2007 viveu a vida inteira narrando os fatos da passagem de Lampião por duas vezes no Pinhão. “de dez palavras que falava, ele tinha que pôr Lampião no meio”, relatou Zé Almeida. Um dos fatos mais marcantes, relatado por Joãozinho foi o seguinte: "Na passagem do bando de Lampião em 14 de outubro de 1938, o cangaceiro Zé Sereno matou o soldado José Paes da Costa". Com emoção ele continua seu relato: "Quando chegou a volante, que veio brigar aqui à noite, o Zé Sereno pediu ao soldado José Paes, que era amigo deles, para tirá-los da cidade, porque eles não conheciam muito

bem a região. Zé Paes saiu com os cangaceiros e, mais adiante, depois de tê-lo guiado, sem mais nem menos Zé Sereno atirou nele, pelas costas, na traição. Não tinha motivo, foi só maldade", trechos da matéria do Cinform.


Voltando ao capítulo 11 do livro de Juarez Conrado: “(...) Entre os mais entusiasmado pelo bando destacava-se o garoto Joãozinho, que aliás, fez amizade com o temível Zé Baiano, coisa impensável, em se tratando de um bandido cruel e sanguinário como ele”. Pois é, o livro foi lançado dia 14 de abril de 2011, Joãozinho Veneno não se viu eternizado nas páginas do já falecido jornalista baiano que foi conversar com São Pedro aos 79 anos no dia 25 de outubro de 2011. Tá vendo? Era verdade de Joãozinho, muitos diziam que era lorota.

Mas, não para por aqui as relações de Itabaiana com o cangaço. Agora vamos para Terezinha Teixeira Lobo, filha do ilustre retratista Itabaianense João Teixeira Lobo, o Joãozinho Retratista. Segundo Dona Terezinha: “Papai tinha os negativos fotográficos que ele fez do bando de Lampião. Ele passou a vida inteira contando essa história e mostrando as placas de vidro em contraluz. Ele não os tinha revelado ainda, mas contava que seu Etelvino Mendonça o chamou na época (1929 e eu nem era nascida ainda) para tirar foto dos cangaceiros na fazenda deste. Chegando lá e vendo o bando, papai que não gostava de armas (nunca precisou de uma em toda sua vida), ficou amedrontado. Tanto foi que na hora de se fazer um dos retratos, papai disse ao ver as armas apontadas para ele em pose para a foto, disse: „virem essas armas pra lá, senão não faço a foto‟, o medo das armas apontadas era maior que o temor ao bando naquele instante. Muitos anos depois ele sai de casa novamente para fazer umas fotos das cabeças do bando morto que passaram em cima de um caminhão por „Itabaiana‟. Papai morreu em 1982 e junto com ele uma caixa de madeira contendo esses negativos que sumiram, ninguém sabe onde foi parar”, finaliza pela décima vez dona Terezinha, senhora de boa prosa e feliz de quem tem alguns minutos com ela para um bom papo. Todas as vezes que me conta essa história eu fico pensando “onde estariam os negativos?”. Já sonhei inúmeras vezes com esse achado. Imaginem se achássemos e revelássemos as fotos do nosso Benjamim Abrahão Tupiniquim?! Isso seria o achado fotográfico do século. Outro fator é que, Etelvino pode ter chamado Joãozinho para sua fazenda no Pinhão em 1929, este com 33 anos já e no auge da carreira de fotógrafo. Já em 1938 ele pode ter ido fazer fotografias de Sila, em sua passagem por Itabaiana ou até mesmo ido a Maceió ou Salvador fazer fotografias das cabeças recém arrancadas no fatídico 28 de julho de 1938. Terezinha era uma jovem de apenas oito anos de idade, mas cresceu ouvindo o pai contar essas histórias que foram enterradas pelo tempo.

Por fim, em 2009 em oficina de cinema no Curso e Colégio Alternativo, eu e um grupo de alunos produzimos um stop-motion de doze minutos chamado Lampião em Itabaiana, usando quatro maquetes, 120 bonequinhos de barro e mais de 4000 fotografias para dar movimento a uma fictícia invasão de Lampião à Itabaiana em 1930. O filme está completo no Youtube em duas partes no:
www.youtube.com/roberioxiquita.

Cangaço, tema que nunca se esgota. Seja em livro, filmes, novelas, cordel, prosa popular, músicas, memória, desenhos, cicatrizes, capitalismo, linguagem, roupas, mentiras, piadas, comida, toadas, xilogravuras ou qualquer que seja a forma cultural de se localizar em meio ao cangaço, ele sempre estará presente. Seria assim o nosso bang-bang do Old-West norteamericano. Mas, se for assim, os cangaceiros seriam os índios Pele Vermelha e os mocinhos bonitões que atiram rapidamente sem pestanejar seriam José Osório de Farias, o famoso Zé Rufino e seu bando? Pensando dessa forma, será que Lampião foi bandido ou herói? Eu mesmo não me atrevo a me posicionar, só sei que se Virgulino tivesse vindo para Itabaiana ele teria sim asilo político e ai de quem mexesse com ele, tendo uns cabras valentes (citando Wanderlei da Marcela), como General João Pereira, Otoniel Dórea, Manoel Leite Sampaio, Etelvino Mendonça e o delegado Fonseca. Imagine a cena, um novo bando de cangaceiros seria formado em Itabaiana. Bem, olhando o corpo do texto e relendo, vejo que nada mudou, pois Itabaiana ainda aporta assassinos, desocupados e coisas ruins. Os lampiões existem e os coiteiros mais ainda. Proteção política e assassinatos são o que não falta na nossa Sucupira Sergipana que teima em continuar parada. Hasta luego, fiducansos!

Robério Barreto Santos
É escritor, fotógrafo, professor, cineasta,
jornalista e de vez em quando historiador.
DRT/SE 1539


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O IRMÃO INVOCADO DE VOLTA SECA

 Por Robério Santos
Antonio Alves de Sousa, o Volta Seca

Muitos pesquisadores não se importam com as ramificações familiares que existem dos antigos cangaceiros, mas deveriam, pois existem histórias interessantes influenciadas pelos parentes famosos. Bandoleiros, na sua imensa maioria, já mortos por causas diversas, até as naturais (quem diria!). Volta Seca ficou famoso desde sua saída do Saco Torto, na época, povoado de Riachuelo, no final da década de 20. Mas, para trás ele deixou um magote de irmãos, tios e conhecidos. Depois da sua entrada no bando, Lampião deu suas voltas pelo agreste sergipano, chegando muito perto do que conhecemos hoje como Malhador e que antes não passava de um povoadinho pequeno com duas ruas e uma pequena capela sendo construída. Mas, Lampião, numa destas passagens pelo agreste daqui despertou a curiosidade dos moradores.

O fazendeiro João Barbosa, conhecido como Joãozinho da Lema, irmão de Gentil Barbosa, morava numa modesta fazenda entre o que ia desde o Rio Jacaracica (Cajueiro Antigo) até a região que hoje situa o grupo escolar do Povoado Cajueiro, onde tudo era Itabaiana Grande. Obrigatoriamente, Lampião e seu bando passavam por estas terras, aproveitando e recebendo de Joãozinho muitos mantimentos, poucos armamentos, pois eles não tinham com frequência. Também havia um tanque enorme, com o minadouro ao lado, onde os cangaceiros se abasteciam. Era uma região com muitos recursos, bem diferente de outras que eles já haviam passado. As pessoas tinham medo dos cangaceiros, mas quando os viam pessoalmente chegavam à conclusão que “não eram tão maus”, assim dizem alguns mais velhos que moram ainda naquele trecho. Havia um acordo: Lampião seria sustentado pelo fazendeiro e em troca não praticaria atrocidades com o povo da região. 
Trato feito. 


Numa dessas passagens, esteve com Lampião o menino Volta Seca. Este ficou descabreado, pensativo e falou pouco, mas todos se espantavam pela pouca idade. Lampião comentou até que o pequeno era da região, mas não podia deixar o cangaço para não entregar os segredos. Nenhum segredo foi revelado aos curiosos que se aproximavam sem medo e até proseavam com alguns dos cangaceiros. Era um misto de medo e curiosidade. 

O tempo foi passando, as conversas se alongando e o mito Lampião se consolidou. Mas, quem roubou a cena mesmo depois de sua prisão foi Volta Seca. Os jornais do país inteiro noticiavam a prisão do pequeno. Foi aí que um desses jornais da capital Rio de janeiro chegou até o Saco Torto (talvez enrolado num mamão da feira de Itabaiana), grande curiosidade se instalava. Um dos irmãos de Volta Seca se chamava Aprígio dos Santos, apelidado de Aprígio Capuchinho ou Aprígio Carrapeta e foi ele quem ficou com o jornal. 

Décadas e décadas se passaram e os anos 60 chegou. Aprígio já não morava no Saco Torto, havia se deslocado mais a norte nas proximidades do povoado Malhada Velha, no povoado João Gomes, perto do Carvalho em direção ao Zanguê. Casado com Joana (mulher corpulenta, que foi rebatizada de Joana Baleia, pelos meninos da região), pai de vários filhos, ele era temido por todos na região. Moravam numa casa do tio de Manoel Messias de Jesus, que na época era ainda uma criança e lembra de alguns acontecimentos. Trabalhavam todos juntos, ora na lavoura e também na arte de fazer cestos e caçuás. Aliás, Aprígio era considerado o melhor cesteiro da região e um hábil tirador de mel das famosas “oropas” arranchadas em ocos de pau e em formigueiros. 


Manoel Severo e as Obras de Robério Santos

Aprígio era conhecido na região por ser valente e cheio de mandingas. Ele contava histórias de assombração, de cangaceiros, de brigas, dizia que matou pessoas e de outras coisas que amedrontavam as pessoas do sítio, aliás, naquele tempo, qualquer coisa assustava. Mas, o que mais assustava era o fato de que ele era irmão de um cangaceiro famoso e enchia a boca para dizer nos bares e esquinas que o irmão havia assassinado sete soldados de polícia lá no interior da Bahia. As pessoas temiam que Aprígio fosse igual ao irmão, por isso o respeitava. Não se sabia se por medo ou respeito mesmo, mas todos mudavam de direção quando apontava na vista ele ao longe. 

Uma certa vez, o então jovenzinho João do finado Antônio Sevino, primo do já citado Manoel, estava no sítio, no meio do pasto e Aprígio chegou sem aviso prévio. Nisso, ambos puxaram assunto e ficaram lá por um bom tempo. Não existia mato, nada ao redor deles, só capim baixo, de quase dez centímetros. João assustado com a conversa ouve um barulho no lado oposto, olha rapidamente para trás e ao retornar à vista para a frente, Aprígio havia sumido como num passe de mágica. João começou a tremer e não conseguia sair do lugar, começou a procurar onde o homem estava e nada de encontrar. Não havia explicação lógica para que isso acontecesse. Ele se gabava que conseguia se transformar num topo, numa formiga e até num pássaro, mas ninguém acreditava, até aquele momento. O povo começou a chama-lo de “encantado”, assim como o pessoal do sertão chamava outro místico de João Valentim, lá na cidade de Nossa Senhora da Glória, anos depois. Veio a reaparecer dias depois como se nada houvesse acontecido. 

Aprígio era magro, moreno claro, barba ficando branca, olhos grandes e assustadores. Ele já não é mais vivo, mas seu filho Zé Preto da família dos Pixititas, morador de Malhador atualmente, e guarda seu legado, assim como as memórias de Manoel Messias de Jesus, que inclui Carrapeta no rol dos mitos que colocava criança para dormir, assim como o temível Volta Seca e o mítico Mata Escura que assolaram nosso agreste e ainda estão vivos no imaginário popular.


Robério Santos
Pesquisador, escritor 
Itabaiana, Sergipe


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A RAINHA DO CANGAÇO

Por: José Mendes Pereira
Maria Gomes de Oliveira - Maria Bonita 

Maria Bonita como já é do conhecimento de todos nasceu no dia 8 de março de 1911 (há uma outra data de nascimento de Maria Bonita comprovada), no município de Paulo Afonso, no Estado   da Bahia. Viveu sua infância e adolescência no sítio dos pais. Aos quinze anos casou-se com o sapateiro José de Neném, e não estando satisfeita com o matrimônio, abandonou o seu cônjuge de uma vez por toda, e decidiu  gostar do cangaceiro Lampião e posteriormente acompanhar o homem mais temido do Brasil, o rei Lampião, para  fazer parte de seu respeitado bando de cangaceiros, onde permaneceu até a sua morte ao lado do seu admirado cangaceiro, na madrugada de 28 de julho de 1938, lá na Grota de Angico, no Estado de Sergipe.

 Antonio dos Santos - O cangaceiro Volta Seca
  
Em 1973, o Jornal “O Pasquim”, Nº. 221, referente aos meses Setembro e Outubro publicou uma entrevista que havia feito com Antonio dos Santos, o cangaceiro Volta Seca, afirmando ele que quando Maria Bonita incorporou-se ao bando de cangaceiros, já fazia mais de dois anos que ele estava em companhia dos asseclas. (Confirme no abaixo): - http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2009/12/entrevista-de-volta-seca-jornal-o.html)

O encontro da futura cangaceira com Lampião se deu quando certo dia o bando havia se hospedado na Malhada da Caiçara, e lá, chegou uma senhora conhecida por Maria Déia, afirmando ser a mãe de Maria (a futura Maria Bonita), e foi de encontro a Lampião, dizendo-lhe que sua filha Maria desejava muito conhecê-lo. Lampião se sentindo orgulhoso disse-lhe que para ela o conhecer não havia dificuldades, pois ele estava sempre por ali. E voltando-se para Dona Maria Déia, perguntou-lhe onde ela morava.  Ela o respondeu que a filha era casada e residia em Santa Brígida. 
Lampião interessado para conhecê-la pediu que a chamasse, pois estaria até a manhã do dia seguinte, e não comunicasse mais a ninguém da sua presença naquele lugar.

Dona Maria Déia querendo que a filha o conhecesse já que era um dos desejos dela, mandou um dos filhos chamá-la em sua residência.  E ao chegar, mãe e filha dirigiram-se à presença do desejado homem. E depois de se apresentarem, os dois ficaram palestrando.

Maria desejou acompanhá-lo, mas Lampião tentou convencê-la, explicando-lhe que não tinha futuro, pois ele era um homem que vivia da desgraceira, e não era engraçado levá-la para uma vida que não tinha tranquilidade. E lá, o sofrimento era constante; passava fome, sol, poeira..., e ele mesmo vivia naquela vida, mas não gostava.

Disse-lhe ainda que muitas vezes eles passavam dias sem se banharem, e  não era justo uma mulher tão linda quanto ela, levar a vida sem se banhar. Ainda a aconselhou que ficasse com o seu marido, já que haviam sido abençoados por Deus, para viverem a vida até que a morte os separassem. A vida de cangaceiro não era mar de rosas, nem para ele e nem para ninguém. Ele ainda alegou que não era um homem da sociedade. Mas ela insistiu tanto, que tempo depois Lampião findou a carregando na garupa do seu cavalo para as caatingas, sendo ela a primeira cangaceira brasileira.

Minhas Inquietações, mas esta expressão é do escritor Alcindo Alves Costa

O que disse Volta Seca ao jornalista sobre a entrada de Maria Bonita para o cangaço, foi bem detalhado. Mas uma resposta me deixou confuso:

O jornalista do Jornal "Pasquim" fez-lhe uma pergunta:

- Ela atirava também?

E ele o respondeu:

- Atirava! Eu queria está com ela e não queria está com dez homens da marca dos que eu conheço por aqui. Estava mais satisfeito.

A resposta de Volta Seca contraria o que disse Balão em novembro de 1973 à Revista Realidade. (Confira no site abaixo): - 
http://lampiaoaceso.blogspot.com/2009/08/cangaceiro-balao-sensacional-entrevista.html).

“Maria Bonita usava uma pistola Mauser de 11 tiros, mas também não atirava nada”.

Balão deixou a sua resposta com duplo sentido. Quem era que não atirava nada, Maria Bonita ou a pistola mauser?

Mesmo eu discordando algumas respostas de Balão na entrevista que ele cedeu à Revista Realidade, e deixando a resposta com duplo sentido, eu estou mais para acreditar nele, quando disse que "ELA" não atirava nada.

Embora não tenha se casado oficialmente com   Lampião, mas Maria Bonita é considerada a sua primeira esposa, onde viveram juntos durante oito anos enfrentando todos os tipos de perseguições.
  
Fontes de Pesquisas:

Jornal “O Pasquim”, Nº. 221 - Setembro/Outubro de 1973
Revista Realidade - 1973.

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terça-feira, 23 de julho de 2019

LIVROS SOBRE CANGAÇO... É COM FRANCISCO PEREIRA LIMA

Por Sálvio Siqueira

Pedido através deste e-mail:

franpelima@bol.com.br

No dia 3 de setembro de 2016 será lançado, em Serra Talhada - Pe, mais uma obra prima da literatura sertaneja, intitulado 'O PATRIARCA', o livro nos traz a notória história do cidadão "Crispim Pereira de Araújo", que na história ficou conhecido como "Ioiô Maroto", contada pela 'pena' do ilustre amigo venicio feitosa neves

Crispim Pereira de Araújo (Ioiô Maroto) 

Sendo parente de Sinhô Pereira, chefe de grupo cangaceiro e comandante dos irmãos Ferreira, conta-nos o livro, a história que "Ioiô Maroto" foi vítima de invejas e fuxico. Após sua casa ter sido invadida por uma volante comandada pelo tenente Peregrino Montenegro, da força cearense.

Sinhô Pereira

Sinhô Pereira deixa o cangaço, não sem antes fazer um pedido para o novo chefe do bando, Virgolino Ferreira da Silva o Lampião e o mesmo cumpre o prometido.


Além da excelente narração escrita pelo autor, teremos o prazer e satisfação de vislumbrar rica e inédita iconografia.

Não deixem de ter em sua coleção particular, mais essa obra prima literária.

https://www.facebook.com/groups/545584095605711/675945445902908/?notif_t=group_activity&notif_id=1471274094349578

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LENHA NA FOGUEIRA!

Ademar ou Benjamim? 
Por: Renato Casimiro
Severo me pediu uma opinião sobre o excelente Depoimento de Nirez, com respeito à participação de Ademar Bezerra Albuquerque na realização do filme com Lampião. A rigor, não ouvi ali nada do que não seja o restabelecimento da verdade. Nirez tem a seu favor um zelo muito grande por tudo que lhe cerca, seja na fotografia, na música e em todas as suas manifestações de grande memorialista.

Não há dúvida que o seu depoimento procura esclarecer a verdade sobre aquilo que, historicamente, se aceitou como sendo uma ação de Benjamim Abrahão.

É perfeitamente factível que as atenções de Ademar Bezerra Albuquerque para não perder a oportunidade de realizar o trabalho, através de Benjamim, sejam verdadeiras e incontestáveis. E nisto o Nirez juntou detalhes fornecidos pelo Chico Albuquerque com grande propriedade para firmar a veracidade das afirmativas.

Procurando imagens do Juazeiro antigo, não encontrei em muitos anos uma só que pudesse ser referida ao “fotógrafo” Benjamim. E olhe que ele tinha tudo para fazê-lo, pois no período em que foi secretário do Pe. Cícero, Juazeiro se viu descoberto por uma quantidade enorme de visitantes ilustrados e o dia-a-dia da casa do padre era muito favorável a isto.
Ademar Bezerra Albuquerque 
Pescada em Fortaleza Nobre

Efetivamente, este período de Juazeiro e do Pe. Cícero (época em que Benjamim servia à casa do padre) é muito rico em imagens fotográficas e filmes. A propósito destes filmes, reproduzo o texto que apresentei em nosso então jornal eletrônico Juazeiro on line, na sua edição de 18.01.2009, numa coluna denominada Juazeiro, por aí, que ainda pode ser encontrado disponível em 
http://www.juaonline.info/.

FILMOGRAFIA(I)...

Numa consulta à Cinemateca Brasileira (Secretaria do Audiovisual/Minc), São Paulo, localizei dados sobre os filmes realizados pelo sr. Lauro Reis Vidal, durante sua visita a Juazeiro, em 1925. Foram três películas: um filme original, de 1925, e dois outros montados nos anos 1939 e 1955.

FILMOGRAFIA(II)...

O JOAZEIRO DO PADRE CÍCERO

(Infelizmente, a Cinemateca Brasileira não possui este filme), é um documentário inscrito na categoria de curta-metragem/silencioso/não-ficção. O material original foi em 35mm, BP, 16q. Produção de 1925, em Fortaleza, onde foi lançado em 08.12.1925, no Cine Moderno. A produtora foi a Aba Film, de Adhemar Albuquerque, que fez a direção. Sinopses: "Surpreendente filme natural apresentando magníficos aspectos da região do Cariri em que se vêem: Joazeiro, Crato, Barbalha e outros lugares, assim como Missão Velha, Lavras, Quixadá, Ingazeiras, Fortaleza, etc.

Impressionante vista do grande açude do Cedro". (Jornal do Comércio, 28.11.1926). "Trata-se de uma bela reportagem cinematográfica do Cariri, zona em que o padre Cícero exerce a sua infatigável atividade e o seu grande prestígio. O Joazeiro, a cidade do padre Cícero, é apresentada em seus diversos aspectos, mostrando o seu progresso, o seu povo, enfim tudo o que ali existe de importante. Além do Joazeiro, o público aprecia outros bonitos pontos do sertão cearense, destacando-se o Crato, Barbalha, Missão Velha e o colossal açude do Cedro, obra grandiosa da engenharia brasileira. De Fortaleza há algumas, como sejam o porto, o passeio Público e o Parque da Liberdade. 

Há também belos trechos da estrada de ferro e fotografias de Lampião e seu grupo. É um filme digno de ser apreciado. Não fatiga o espectador. Ao contrário, torna-se atraente pela variedade de cenas, que desenrola. Além disto satisfaz uma curiosidade: mostra o maior domador de homens dos sertões, o padre Cícero Romão Baptista, que se apresenta em diferentes cenas, entre o povo que o aclama, em sua residência trabalhando, abençoando afilhados e romeiros, discursando, enfim de diversas maneiras é ele visto na tela". 
(Jornal do Comércio, 02.12.1926)

FILMOGRAFIA(III)...

O JUAZEIRO DO PADRE CÍCERO, o segundo documentário, foi realizado em 1939, na categoria de curta-metragem/sonoro/não-ficção, a partir de um material original anterior, em 35mm, BP, com duração de 8min, 220m, 24q. A produção foi de Lauro Reis Vidal, no Rio de Janeiro.

FILMOGRAFIA(IV)...

PADRE CÍCERO, O PATRIARCA DO JUAZEIRO, o terceiro documentário, foi realizado em 1955, na categoria de curta-metragem/sonoro/não-ficção, a partir do material original em 35mm, BP, com duração de 11min, 300m, 24q. A produtora foi a Filmes Artísticos Nacionais, do Rio de Janeiro, e a co-produção foi de Lauro Reis Vidal, tendo como direção Alexandre Wulfes. Por exigência da época, o documentário passou pela censura em 19.01.1955, com o certificado 31942, válido até 19 de janeiro de 1960.

FILMOGRAFIA(V)...

Comentários: Observe que fotos de Lampião são referidas em período anterior à sua visita a Juazeiro, em 1926. Algumas das cenas destes documentários podem ser vistas em outras produções recentes, tanto para cinema como para TV. Na ilustração da coluna de hoje, o arquivo do Juaonline apresenta algumas delas, em fotos que foram obtidas por Raymundo Gomes de Figueiredo (anos 50), a partir de fotogramas destas películas. Especialmente sobre esta primeira película, encontro um registro cartorial firmado pelo Pe. Cícero nos seguintes termos:
1931, 13 de Novembro 
-  DOCUMENTO DO PADRE CÍCERO CONCEDENDO AUTORIZAÇÃO EXCLUSIVA, AO SR. LAURO DOS REIS VIDAL, PARA EXIBIÇÃO DO FILME" JOAZEIRO DO PADRE CÍCERO E ASPECTOS DO CEARÁ. "ÍNTEGRA: 
" Amigo e Sr. Laudo Reis Vidal. Saudações. Consoante os seus desejos, pela presente, dou a V.S. a exclusividade absoluta para exibição e representação cinematográfica em "qualquer parte do país e fora dele" de filme que diz respeito a aspectos deste município ou fora dele, nos quais figure a minha pessoa. Assim autorizado poderá V.S. fazer a exibição de qualquer película authentica que tenha obtido, ou que possa obter, conforme melhormente consulte as suas conveniencias e as aspirações gerais do povo, a exemplo da que já é de sua propriedade. 
Joazeiro, 13, de outubro de 1931.  
Ass. Padre Cícero Romão Baptista. (Lo. B-l, N° de Ordem 10, p. 18)

No dia seguinte, o Pe. Cícero faz constar no mesmo livro do primeiro tabelionato uma outra comunicação, reafirmando a concessão do dia anterior e ampliando suas prerrogativas:
1931, 14 de Novembro 
- DOCUMENTO DO PADRE CÍCERO CONCEDENDO AUTORIZAÇÃO EXCLUSIVA AO SR. LAURO REIS VIDAL, PARA IXIBIÇÃO DO FILME "JOAZEIRO DO PADRE CÍCERO E ASPECTOS DO CEARÁ. "Integra:
"Amigo e Sr. Lauro Reis Vidal. Local. Reportando-me a minha carta passada onde lhe concedo a exclusividade de minha exibição cinematográfica ficando V.S. com plena autorização por ser o único habilitado a propagar o município de Joazeiro e minha pessoa, através da mesma exclusividade, em todos os tempos, como proprietário do filme "Joazeiro, do Padre Cícero e Aspectos do Ceará" ou outro qualquer filme que possa obter; sirvo-me da presente para juntar as fotografias e documentos que solicitou, em relação separada e por mim assignada, como elementos precisos para a via de propaganda acima citada. Encerrando, cumpre-me, de já, agradecer a sua manifesta boa vontade para comigo, os meus amigos e as coisas do Joazeiro. 
Saudações. 
Joazeiro, 14 de novembro de 1931. 
Ass. Padre Cícero Romão Baptista.( Lo.B-l, N° de Ordem 12, p. 19/20).

O ano de 1925 foi pródigo para filmagens em Juazeiro. Conhecemos a película realizada em 11 de janeiro, quando da inauguração da estátua ao Pe. Cícero, na Praça Alm. Alexandrino de Alencar; conhecemos a película realizada em setembro, quando da visita da comitiva do presidente Moreira da Rocha; conhecemos a que foi realizada por Ademar Albuquerque/Reis Vidal; mas não conhecemos uma que teria sido realizada por iniciativa do então deputado estadual Godofredo de Castro, neste mesmo ano.

É muito mais provável que Ademar esteja como realizador em todas estas películas e este relacionamento teria servido para oferecer um treinamento mínimo para o que viria anos depois com o filme de Lampião, pois é neste ponto que o testemunho de Chico Albuquerque a Nirez é importante.

Não tenho dúvida em aceitar que Ademar e Benjamim tornaram-se parceiros, sendo este cliente daquele e a quem poderia realizar pelo motivo apresentado por Chico Albuquerque e Nirez, o da confiança de alguém que não o punha, e a seu grupo, em apuros com a repressão policial.

Embora tenha feito isto, publicamente, em depoimento durante uma edição do Cine Ceará, anos atrás, aproveito a oportunidade para relatar brevemente o que me foi ensejado conhecer desta atividade cinematográfica de Benjamim. No início dos anos 80, eu e Daniel Walker adquirimos uma coleção de fotografias antigas de Juazeiro e alguns pequenos pedaços destas películas que o seu proprietário, Raymundo Gomes de Figueiredo, cidadão juazeirense, mantinha como acervo e no qual se incluíam livros e jornais, e a que deu o nome de Arquivo Benjamim Abraão.

 Benjamim

Quando adquirimos e isto foi divulgado pelo Diário do Nordeste, o fato foi relevado como se tivéssemos adquirido o Arquivo “de” Benjamim Abraão. A família de Benjamim, através de seu filho, então residente em Niteroi e comerciante no Rio de Janeiro, Atalah Abraão, instruído por Eusélio Oliveira, resolveu mover uma ação contra nós dois e a levou adiante nas instâncias de Juazeiro do Norte e Fortaleza. Vencemos nas duas e o material nos foi devolvido, anos depois.

Mais adiante, numa conversa com o ex-senador da república, José Reginaldo Duarte, cuja família criou nos arredores de Juazeiro, o filho de Benjamim, o sr. Atalah, nos chamou para uma conversa onde algumas coisas foram faladas a respeito da frustração que aquele ato determinou para nós e para a família, sobretudo porque ficou demonstrado que nós não havíamos comprado nenhum roubo, portanto, não éramos receptadores de um acervo, até então procurado.

O sr. Reginaldo Duarte nos lembrou, inclusive, que por vários anos, encontrando-se diversos rolos de filmes pertencentes a Benjamim (não se sabe se apenas outros que não o relativo a Lampião) num canto da casa, na localidade de Brejo Seco, proximidades do atual Aeroporto Regional do Cariri, guardados em latas...

...a garotada do sítio tomava aqueles rolos e os queimavam durante as festas juninas. Certamente que por conta do material cinematográfico de então, sua queima se assemelhava a uma chuva de prata, coisa que fazia a garotada delirar.

Este é o fim trágico, pelo qual, inclusive tivemos que pagar duramente por uma suspeita descabida, a partir da ignorância e má vontade do então, meu amigo, Eusélio Oliveira, que não se permitiu aceitar o convite para conhecer de perto o que tínhamos comprado. A grande indagação que ficou, como moral da história foi mais uma grande dúvida sobre o que teria feito ou não Benjamim Abraão, como fotógrafo e cinegrafista, aluno de Ademar.

Em tudo o que mencionei antes e do que ouvi, destaco: Sem querer por fogo na fornalha e já pondo, enfatizo o que registra a ficha da Cinemateca, mencionada: Há também belos trechos da estrada de ferro e fotografias de Lampião e seu grupo. Não é interessante que haja estas fotografias tomadas em data(s) anterior(es) a 1926. Observar que no filme com Lampião, Benjamim aparece usando um bornal com a inscrição Aba Film. Nunca houve omissão de que a produtora foi a Aba Film, de Adhemar Bezerra Albuquerque, que (também) deve ter feito a direção, à distância. Por isto, o depoimento de Nirez corrobora com as indicações anteriores de que ele era, efetivamente, produtor, diretor e fotógrafo destas películas em torno de 1925.

Entre 1925 e 1936, quando filma Lampião, certamente Benjamim já teria apreendido objetivas e eficientes lições para manejar a máquina. Em mais de 10 anos de relação profissional com Ademar, Benjamim só teria feito isto? A resposta se foi, desgraçadamente, no fogo ingênuo das crianças, em noitadas de São João, nos arredores de Juazeiro do Norte.

Renato Casimiro

Pescado no açude do Coroné Severo: Cariri Cangaço


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