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domingo, 26 de março de 2023

A MORTE DO CANGACEIRO SABONETE 2 | GRAVEL SERTÃO NA HISTÓRIA

 Por Gravel Sertão

https://www.youtube.com/watch?v=ojPhS5Gd-d4&ab_channel=GravelSert%C3%A3o

Gravel Sertão na História.
Acompanhe o desfecho do cangaceiro Sabonete 2.
Fomos até Adustina/BA em busca das histórias do cangaço.

Fonte: Diário Oficial da Bahia, 1937. 

Nosso propósito: levar história, cultura e boa prosa através da bicicleta.

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NA ÉPOCA A MULHER MAIS ALTA DO MUNDO ERA UMA SERGIPANA, QUE ANDAVA NOS CIRCOS COM O SANFONEIRO LUIZ GONZAGA.

Por História e Cultura do Mundo - Fábio Murilo

A mulher mais alta do mundo. É uma Sergipana! Dona Maria Feliciana!!! Amiga de circo do rei do baião Luiz Gonzaga.

Raríssima fotografia da mulher mais alta do Brasil... Amiga de Luiz Gonzaga o seu sonho é conhecer Exú terra do rei do Baião.

Maria Feliciana dos Santos (Amparo de São Francisco, Sergipe, 27 de maio de 1946).

Ela foi por muito tempo considerada a mulher mais alta do mundo. Aos 23 anos ela já tinha 2,25 m.

História:

Filha única, descendente de uma família marcada pela altura, ela tem 2,25 m. Seu pai Antônio Tintino da Silva tinha 2,40 m; sua mãe Maria Rodrigues dos Santos, 1,80 m; a avó paterna, 2,30 m; e uma tia paterna tinha 2,30 m.

Ela cresceu normalmente até os 10 anos, quando seu crescimento disparou. Foi jogadora de basquete, cantora e atração de circo. Suas primeiras apresentações públicas foram em 1962, aos 16 anos. Aos 18 anos recebeu o título de Rainha da Altura, no programa do Chacrinha.

Sob a orientação de Antonio Freire de Souza, seu descobridor e empresário, ela se apresentou em circos, cinemas e televisões. Numa dessas apresentações, conheceu José Gregório Ribeiro, Josa, "O Vaqueiro do Sertão", que lhe apresentou a Luiz Gonzaga, com quem chegou a viajar por quatro meses, numa turnê do cantor. Foi por indicação dele que ela conseguiu se apresentar no programa do Chacrinha, A Hora da Buzina.

Depois dessa apresentação, o programa promoveu um concurso internacional para escolher a maior mulher do mundo e ela foi a vencedora, sendo nomeada como a "Rainha da Altura". A coroação contou com a presença de Luiz Gonzaga, que entregou a coroa, e de Grande Otelo, que entregou a faixa. Entre as candidatas havia uma americana com 2,15 m.

Começou a jogar basquete aos 25 anos. Fez parte da Seleção Sergipana por dois anos, seguindo depois para Porto Alegre, onde participou dos jogos da Confederação Brasileira de Desportos Universitários. Participou ainda, em 1971, dos 22 Jogos Universitários Brasileiros.

Durante 12 anos cantou no Trio Sergipano. Apesar de sua altura, pesava, na época, apenas 65 quilos e usava sapatos número 39. Deixou o trio quando conheceu Assuíres José dos Santos, com quem se casou e teve três filhos: Charles, Shirlei, e Cleverton, com 2,10 m, 1,65 m e 2,10 m, respectivamente. Em 1973, fez várias parcerias com duplas sertanejas, quando realizou muitos shows pelo Brasil.

Em 1995 teve que fazer uma cirurgia no pé, que não foi bem-sucedida, o que a obrigou a fazer outras. Na última, o médico retirou ossos e cerca de um terço de seu pé. Isso lhe impossibilitou de se firmar em pé. Para piorar ainda mais a sua situação, o seu esposo faleceu num acidente de carro, em 1998. Com a morte dele, que se tornara a única fonte de renda da família, aumentaram os seus problemas.

Mesmo assim conseguiu fazer novos tratamentos no seu pé e conseguiu a cura. Passou, então, a residir numa casa modesta. Hoje dona Maria vive em Aracaju muito doente e precisando de ajuda por conta de vários problemas por conta do seu tamanho gigante. Com seus 77 anos de idade e muita dor teve problemas sérios na coluna e em seus pés por conta do seu tamanho.

Via Guilherme Machado Historiador

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CARIRI CANGAÇO

 Por Jose Irari

Evento cariri cangaço pPrincesa Isabel, São José de Princesa e Triunfo... Mais um evento repleto de conhecimentos e amizades. Parabéns Manoel Severo Barbosa.! Que venha os próximos!

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TRIBUTO AO CARTEIRO - JOSÉ DI ROSA MARIA - CANTAM: ANTÔNIO DOMINGOS & JOSÉ DI ROSA MARIA

 Por José Di Rosa Maria

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Autor: José Di Rosa Maria Interpretação: Antônio Domingos & José Di Rosa Maria Acompanhamento & Arranjos: Bonedis Eduardo Apoio: Do professor Lucas Vinícius & Severino Inácio (Poeta)

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AMIGO

 Por José G. Diniz


Meu amigo José Mendes

Eu tenho bonitas glosas

Já não publiquei no face

Não por serem maldosas

Tenho umas colocações boas

Mas existem pessoas

Que são preconceituosas.


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"MUIÉ"

 Por Hélio Xaxá



Eita, muié braba!!

Passa o dia brigando

E a noite ronronando...

Vira aquela baba.


De dia, só drama

E gritos nos ouvidos

De noite só gemidos

E choro na cama...


Durante o dia é leoa

Mas amansa, perdoa

De noite, é gatinha...


Baixam os canhões...

Lambe os arranhões...

Amada é mansinha.



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90 ANOS DA MORTE DE ISAIAS ARRUDA

Por José Cícero da Silva - Aurora-CE>

Cel Isaias Arruda de Figueiredo

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Na última quarta-feira, dia 8 de agosto completaram-se os 90 anos do célebre e terrível assassinato do Cel. ISAÍAS ARRUDA DE FIGUEIREDO ocorrido na Estação do trem de Aurora. Episódio do dia 4 de agosto de 1928 tendo o coronel morrido quatro dias após(8 de agosto do ano predito). Pondo um fim a uma rixa histórica entre os Arrudas e os irmãos paulinos. 
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Iniciado com a morte do chefe João Paulino um ano antes, o episódio continua até hoje sendo um dos mais marcantes e também palpitantes casos que compõem as narrativas historiográficas do Cariri. Por conta disso, o pesquisador do cangaço, meu amigo Jair Tavares, radicado em João Pessoa na Paraíba me propôs um "desafio", quer seja, que eu escrevesse uma carta fictícia e literária como se fosse do punho do próprio cel. Isaías. A fim de comemorar os 90 anos da morte do caudilho caririense; filho de Aurora e então prefeito de Missão Velha. De bom grado, aceitei o desafio de produzir literariamente e do meu jeito, a tal missiva.De cara, um dos maiores coiteiros de Lampião no Cariri que, inclusive, patrocinou e ajudou a arquitetar a trama Lampiônica com vistas à invasão de Mossoró, um ano antes da sua morte. Vejamo-la a seguir... 

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Pesquisador e escritor José Cícero Silva
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"Meus amigos!

Deixai que o tempo e a história pacientemente julguem ao seu modo, todos os seus homens, porque os homens de carne e osso, até hoje e em geral são lobos e inimigos de si mesmos. Por conta disso, sequer com um pingo de justiça e de juízo, jamais conseguiram julgar ninguém.

Apenas vinte e oito anos de vida eu vivi. Tive o tempo necessário para alcançar na vida, o que a eternidade da história exigiu de mim. No fundo eu sei, que o preço que sempre se paga quando não se é compreendido por mais que se queira é demasiado.,, Ainda, deveras grande, o castigo de ter que aprender com seus próprios erros na vida e com os lajedos quentes em que se pisa, a robustez da alma e dos sentimentos. Crescer nas agruras e nunca reclamar em vão da dor. Tampouco, não se entristecer tão fácil diante dos sofrimentos mais agudos. Nunca abdicar de fazer o que por necessidade já se parece imperioso e preciso. E assim a alma da gente se depura, eu imagino, nada temi no mundo, senão a falsidade dos amigos que, acaso confiei em qualquer momento. E que eu diria ainda agora, que me foram tão poucos e muito caro.
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Viver é isso. Quer seja, provar o tempo todo deste risco iminente que nos ronda dia e noite como um cão danado latindo alto no nosso quengo. Como igualmente, desse gosto amargo que nos molha a língua o tempo todo. Fel e sangue que nos enchem a boca justamente nos momentos mais difíceis e determinantes, tanto na sobrevivência do dia a dia, quanto no derradeiro instante. Quando nos afirmamos ou nos arrependemos do que fizemos.Travei o bom combate do meu jeito. Diria que, a ferro e fogo. Sem nunca dizer “amém” ao tal destino que pela vida inteira me fizera acreditar que estávamos para todo o sempre condenados ao sofrer, sem dó nem piedade. Há quem diga que fui por todos estes anos, um inveterado fazedor de inimigos. Mas não. Eu apenas me fiz respeitar e, quando preciso usei dos meus métodos mais ferrenhos. Impus aos inimigos as regras duras e infalíveis do meu jogo. Quem assim mesmo me desafiou e decidiu por jogar comigo, sabia disso. Perdi muito pouco. Como pouco ou quase nada foi a minha disposição para aprender o sentido de qualquer derrota.
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Sempre soube que na vida tudo tem um preço. Vencer a qualquer custo foi sempre o meu prumo. Mas somente diante do esforço e do trabalho empreendido. Conquanto, foi este o meu maior desiderato. O meu sentido prática de estar de fato vivo e útil entre os cães do mundo. Nunca dormi em paz com qualquer desaforo não resolvido, 'freviando' na minha cabeça como piolho. Não gosto de senti minha alma em parafuso. Resolvi todos eles sempre no calor dos próprios fatos acontecidos. Pois, para mim desaforo é comida que se come quente. Porque depois dá congestão e bucho inchado. 
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Penso que, ‘perder’ ficou mesmo para os fracos. Os piedosos desmiolados. Os ingratos. Os preguiçosos. Os covardes. Os que em vão imaginam ainda agora com medo dos pecados, aplacar nos seus corpos frágeis as próprias chagas de Cristo. E que por conta disso, se puseram de joelhos diante dos seus impiedosos carrascos. Todos aqueles para quem a vida não passara de uma noite insone de 'malassombro' e medo. Os que se deram ao sofrimento mundano como algo predeterminado e merecido. Os vassalos ingênuos. Os que se acostumaram demais com o sofrimento a guisa de castigo merecido. Os que se benzem até diante de jumentos mancos quando passam pelas encruzilhadas dos caminhos.
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Não fui bandido como dizem. Fiz-me forte apenas com as armas que estavam ao meu alcance para assim não ser tragado por toda sorte de violência dos poderosos. Os que nunca me aceitaram como um deles, sequer em fazer uso da tal alcunha de “coronel”. Uma eguagem sem tamanho. Porque muito mais que o “coronel” sisudo gritou forte dentro de mim a voz altiva do jovem homem sobremaneira indignado com as mentiras, as injustiças, a violência e a dureza bruta de uma realidade no mais das vezes, fabricada de propósito para oprimir os que a desdita da vida já os oprimiam além da conta..
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Jagunços de Isaías Arruda, sob o comando de Zé Gonçalves
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Lutei, portanto, com unhas e dentes, contra a minha sina e a imposição dos que se achavam grandes o suficiente para querer escravizar as gentes desse meu mundo chamado sertão. Os que mais sofriam pagando, inclusive, o alto preço por se manterem vivos e abnegados sobre aquele ressequido chão. Eis a maldição de nascença a que todos os miseráveis dos sertões, acreditavam estar, de algum modo condenados. E assim, me impus ao suposto determinismo da ordem natural das coisas. Não me deixando jamais ser escravo de seu ninguém. Principalmente quando me dei conta de que o paraíso prometido pela resignação dos sertanejos, não estava noutro lugar, senão ali mesmo, onde eles todos sofriam. Fiz, portanto, o que foi preciso para conquistar o meu lugar no tal paraíso. Quem sabe, um pacto de sangue com o ser esperançoso que habitava minhas entranhas. 
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Nunca culpei ninguém(senão eu mesmo) pelas escolhas ou pelas lutas que enfrentei. Nem Deus, nem os santos, nem os anjos, nem o diabo. Sempre fui o principal sujeito de todos os meus atos. Êxito ou fracasso há de ser tão somente uma questão de tempo e de oportunidade. Só a essência das coisa me interessavam. Confesso até que me dei bem, com as opções que fiz e as decisões que tomei. Tive sucesso na minha ousada empreitada de quase três décadas de existência terrena. Quis rapidamente concretizar todos os projetos que sonhei. Tomei gosto pela coisa.,, Segui em frente a passos largos. Acho até que perdi por algum momento a exata noção do limite na dimensão do meu próprio tempo. Tinha pressa de viver e de conquistar o quanto antes, o galardão a que me propus buscar.
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Juntei num só espaço ousadia, inteligência e coragem. Logo progredi, ao tempo que também comecei a colher os meus primeiros frutos e um montão de inimigos(diga-se de passagem). Despertei o ódio e a inveja de muitos ricos da região. Minha fama começou a romper fronteiras. De modo que precisei arregimentar de chofre, a minha proteção. Foi o que fiz desde então. Crie também meu bando de proteção pessoal. Cresci num tempo e num ambiente onde não era comum sequer acreditar nos sonhos. Onde e quando só se podia ser grande de verdade pela força do dinheiro, da violência e do poder político. Custei um pouco para aprender tudo aquilo. Mas, logo superei todos os demais...
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De menino pobre, filho de roceiro esquecido no oco do mundo; lavador de cavalo dos potentados nas águas do rio Salgado durante as missas dos sábados e nas feiras do domingo; cheguei ao posto de delegado. Tendo aprendido a ler por mim mesmo, quase num piscar de olhos orientado pelos padres que vinham para Aurora nas festas do padroeiro.
Nasci e cresci às margens do rio Salgado. Tempos difíceis aqueles. Mas o destino havia me reservado algo. Até o dia que um juiz da capital, sob o pedido de um influente padre me fizera delegado. E eu correspondi bem neste ofício. Muito aprendi e em seguida me rebelei pela primeira vez no mundo. Revoltei-me contra tudo o que eu até então achava injusto, mentiroso e errado. Terminei assim por acabar uma eleição na bala, na terra em que nasci. Perdi por causa disso o meu primeiro emprego. Corri para não morrer. Fui me esconder na vila do Juazeiro. Aproveitei para pedir conselhos ao padre Cícero. Disse-me que eu não era disso. Pediu-me prudência e eu, nem mesmo um resto de fé tinha mais para lhe oferecer. Logo em seguida terminei por me fixar em Missão Velha. Julguei ser ali um bom lugar. Fiz amigos, correligionários e levei parentes para lá morar.
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José Cícero mostrando a Fazenda Ipueiras no Cariri Cangaço Aurora
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Fui um homem de diálogos. Fiz contatos. Peguei o trem, fui à capital. Falei de eleição e de inusitados projetos políticos. Gostaram de mim. Estariam do meu lado(claro) sempre que eu vencesse. Já me era algo. 
Voltei animado, com novo fôlego e até com um pouco mais de prestígio e de dinheiro na algibeira. Refleti assim que cheguei. Conclui que precisava de uma pequena guerra para alicerçar de vez a minha paz. Uma ferroada de marimbondo, quem sabe, para o necessário despertar dos adormecidos dos grotões. As armas de fogo eu conseguiria fácil na terra do padre. Lá eu fiz alguns amigos que também se aliaram ao meu propósito. Mas tudo estava guardado no mais completo dos segredos. Correram-se os dias, finalmente.
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Tudo o mais era mistério. Quase um previsível milagre dos acontecimentos; fácil como se fosse mel de engenho a escorrer aos poucos pelos dedos sujos de doce dos meninos. Chegara por fim o momento oportuno que eu tanto queria.Logo percebi que pelo Estado inteiro o poder da força também estava a fazer seus prefeitos. E, decerto, vi que nenhuma lei se rebelava contra aqueles novos acontecimentos. Estava aberta a porta que me levaria ao paraíso ou até mesmo ao inferno que eu não mais desejava. Não poderia eu, perder a única chance da vida de montar de vez a mula selada que passava a minha frente. Não titubiei. Criei coragem. A sorte estava lançada. Naquele instante, não cabia em meus planos de conquistas o medo da vida e nem da morte. Não podia mais retornar. 
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Não sei se porventura Deus naquela hora decisiva me olhava. Mas penso que ele depois me batera palma. Pois, nenhum homem que se preza pode mentir para si mesmo sobre as coisas que confia e acredita. E Deus sabia disso, em relação a mim. Minha sinceridade era do conhecimento dele...Fui em frente. Sem, no entanto, perder mais tempo com questões relacionadas ao sagrado ou ao profano. Porque na história o que mais interessa é o próprio homem.Acerquei-me de armas, de cobre e de alguns amigos que confiei naquele instante. Parti. Fui aos finalmente. Expulsei os dirigentes. Destitui sem muito diálogo e com a persuasão de alguns tiros o cel. Senhor Dantas do comando da cidade. E não o que acaso o povo possa pensar dele em qualquer tempo. De repente, estava eu prefeito. Mas não esqueçam! Em seguida fui eleito.
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Bando de Lampião em Limoeiro no retorno a invasão mal lograda a Mossoró
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Fortaleza me deu votos de parabéns e eu, me animei. Abiscoitei rapidamente fama e prestígio. Acreditei na razão da força do meu juízo para amestrar do meu jeito, a ignorância dos homens. Estava fascinado pela primeira vez com o poder que conquistei. Desde então, não sei por que cargas d’água todos passaram de repente a me chamar de coronel. Achei esquisito, mas asseguro-lhes que gostei.Choveu em meu entorno novos amigos e, com os quais, também a proporção numérica dos meus inflexíveis inimigos. Mas eu nunca confiei sem as devidas reservas em nenhum deles. Nem nos que me diziam amigos sendo inimigos, tampouco nos que, mesmo sendo inimigos, às vezes me eram mais dignos e mais sinceros do que aqueles. Razão porque até hoje desconheço qualquer homem sábio que seja feliz e viva bem sem ter que conquistar a duras penas seus verdadeiros inimigos íntimos. 

A meu ver, são um desastre, todos os que imaginam que ao seu redor só existem amigos. Confiar na lealdade no escuro é um tremendo perigo. Um pecado. Uma estupidez sem tamanho. Os que assim pesam estão definitivamente fadados ou ao fracasso ou quando muito ao anonimato.o
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Na função de prefeito, depressa me tornei fazendeiro. Dono de terras. Criador de gado, produtor de cereais. Diria que um homem relativamente rico com tino para ganhar dinheiro nos negócios. Quase um predestinado como diria mais a diante governo.Como disse, quando me senti invejado e perseguido pela ira dos inimigos criei meu bando de proteção. Jagunços mesmo... Mas modestamente disciplinados sob as duras ordens do seu comandante. Todos bem pagos, confesso, pelos bons serviços prestados. Muito melhor do que os que uma vez compunham o bando do tal Cel. Zé Inácio. Confiei o comando ao amigo Zé Gonçalves. Um dos homens mais inteligentes e leais que conheci na vida. Que mesmo sem nenhum estudo sabia muito e, muito igualmente, aprendi com ele. Ademais, quem foi bom vaqueiro na caatinga braba deste mundo haveria de ser também um bom condutor de homens rudes. E o foi sem par. Muito do que fiz confidencie(quando deu) com ele.
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Ainda quanto ao bando, não nego que à distância fizeram aqui acolá algumas estripulias. Algumas sem o meu apreço ou conhecimento. Outras com meu crivo quando era absolutamente necessário. Como da vez que puseram fogo e destruíram a ponte do trem no Olho d’água nas proximidades de Ingazeiras. posto que mexeram comigo os chefetes da RVC e ainda cometeram a desfeita de romper o contrato sobre o fornecimento de madeira que firmamos. Como ainda, se negaram a pagar o resto do dímetro que me deviam por direito.
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Por conta disso fiquei de mal com o então governo que prometera me processar e retaliou o diabo a quatro. Uma vez tive que expulsar do bando, alguns cabras por andarem brigando, criando problemas sem ser preciso...O grupo também se precipitara quando resolveu dá cabo do João Paulino - chefe dos irmãos Paulinos d'Aurora. Mas nada disso me impôs medo. Toda minha vida foi administrar conflitos e desafiar mim mesmo..Ninguém me amou no mundo, além da minha Estelita com quem casei no início da década de 20 na Aurora. Além da minha pequenina Orlandina, minha filha. Só por causa delas, vez por outra, sentir o raro temor de morte repentina. No mais, posso dizê-los que o cangaceirismo entrou na minha vida mais por acaso do que por necessidade. Foi, por assim dizer, um acidente de percurso. Ou ainda, um ato falho. Mas, tudo o que foi é porque era mesmo para ter sido.  
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Explico: o bando que formei para me proteger dos inimigos em umas das suas incursões mais distantes terminou por conhecer outras gentes por aí, Assim, me trazendo notícias de Décio Holanda do Pereiro, Júlio Porto e Massilon. Por sinal, foi por intermédio deste último, que acabei por conhecer o próprio Lampião. Num encontro acertado numa manhã de sábado na fazenda Ipueiras de minha propriedade na Aurora, confiada aos cuidados de Zé Cardoso, meu parente.
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Massilon
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Nada se diz, mas naquela reunião havia mais gente interessada no lucrativo negócio de invadir Mossoró. Uma empreitada que não geraria apenas lucros financeiros, mas acertos de contas, desejo de vingança e muitos dividendos políticos para tantos outros no seu entorno.Após a reunião predita, Lampião, homem experiente, não quis ficar na referida fazenda. Segundo ele, seria um alvo fácil para os seus perseguidores(as volantes que vinha desde Mossoró no seu encalço). De fato, a fazenda(Ipueiras) ficava bem nas proximidades da cidade. Preferiu então, o capitão, o seu antigo coito... Um esconderijo estratégico bem no alto do inóspito serrote do Diamante, sob os prestimosos cuidados do vaqueiro Miguel Saraiva.Pediram-me para aquela empreitada, além de homens, alguns animais de monta, armas, munição e dinheiro. Acenei com tudo. Apenas solicitei que mantivessem segredo, isto é, deixassem meu nome distante dos acontecimentos.
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Final de junho quando, enfim, partiu o bando sob o comando do afamado rei do cangaço. Nem sei como o capitão Virgulino se deixou levar pela conversa mole daquele tal de Massilon Leite. Um aventureiro falastrão querendo ser jagunço a pulso, porém, mais parecia um caixeiro-viajante tangedor de burros e jogador de carteado. Penso, contudo, que o capitão fora mais por curiosidade de conhecer de perto em seus meandros as terras do riogrande, do que pelo dinheiro que lhe prometeram.
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Em meu compromisso firmado sob a forma de patrocínio vos garanto, não tive nenhuma culpa pelo ocorrido, visto que eu também fui convidado e, por isso mesmo enganado acerca de um suposto lucro fácil. Além de prestar favor a uns amigos distantes. Emprestei meu dinheiro, pouco mais de 30 contos de réis contados, com a garantia de que era um investimento exitoso e seguro. Não tive outro interesse na tal invasão da povoação potiguar. Nem tampouco, do que fizera antes pelos caminhos, Massilon aquele mentiroso desgraçado.
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Naquele fatídico dia 13 estava eu em Missão Velha onde era prefeito. Fiquei sabendo dias depois pelo trem, acerca grande ato malogrado. Não esperei muito. Antecipei-me aos fatos logo que percebi que Lampião estava em perigo e uma vez acuado pelas volantes de três estados, voltaria certamente para o coito da Ipueiras e Diamante.  


Peguei o trem. Rumei para à capital. Fui ter com Moreirinha meu aliado político; chefe do Governo, então presidente do Ceará. Novamente expliquei-lhe meus planos. Ele aquiesceu deveras comigo. 
 
Agora, além de livrar meus couros do fracasso iminente de Lampião com seu bando, negociei outros possíveis lucros com o Governo. Moreira da Rocha tinha interesse em dizer para todos que deu cabo dos facínoras e temíveis bandoleiros nordestinos. Os jornais da época não falavam de outra coisa.De modo que deixou tudo a cargo do major Moises, curiosamente, meu parente.

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Casa do Cel Isaías Arruda em Missão Velha
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Voltei. Dei ordem à Cardoso. Falei-lhe dos últimos acontecimentos e das consequências do tal fracasso. Era teimoso. Não achou razoável a linha dos procedimentos. Pensava como Moises. Tinham eles, uma outra linha de raciocínio. O major pedira-me num bilhete rabiscado; que eu me aquietasse e deixasse as coisas sob seu tirocínio. Mantive-me mesmo assim preocupado com o ocorrido. Não me agastei. Retornei à Missão Velha. Deixei que Viana o agente da RVC de Aurora me pusesse a par de todos os vindouros acontecimentos. Voltei de troler já que não era mais prudente esperar o trem do outro dia. Eu precisava correr contra o tempo...Foi o que fiz. Depois de Limoeiro, a coisa ficou mais preta. Jornais davam conta de que a morte ou prisão de Lampião se daria a qualquer momento. ‘Mas o homi era muito esperto, um verdadeiro preá das caatingas’. De todos os fogos e dos piquetes, malgrado os pouquíssimos homens que ainda lhe restaram e, acossados pelo cansaço, a fome e a pouca munição, ele ainda assim saíra ileso de todos os conflitos. Mesmo em absoluta desvantagem de armas e de homens. Era de fato, insuperável na sangrenta batalha do seu mundo catingueiro. Não dava tiro à toa. Munição pra ele naquele momento era ouro.
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Como supus, vinha mesmo na direção da Aurora. Atravessara por fim, a serra da Várzea Grande. Venceu o fogo que se deu no Ribeiro no riacho do Bordão do Velho. Amanheceu com seus cabras já nas matas seguras da Ipueiras. Mas, deixei ali tudo pronto.O trem da volante já estava estacionado na estação esperando Lampião e seus comandados, vivos ou mortos. Major Moises ainda se mantinha distante demais do palco do conflito. Nascera o novo dia...E quando enfim, o sol apontou seus primeiros raios: Um intenso tiroteio deu as boas-vindas para o bando. Lampião gritou: - Fomos traídos cambada! Viva Jesus Cristo e o padre Cícero do Juazeiro! E os cangaceiros em uníssono lhe responderam: - Não temos medo. Deus seja louvado, capitão! Em disparada corriam atirando pra todos os lados. E, quanto ao veneno, aquilo foi ideia de Miguel, o tal vaqueiro.Porém, esperto demais, Lampião não caiu em nenhuma dos engôdos tramados. Quando se deu conta dos tiros e, em seguida do incêndio no baixio; empreendeu fuga com seus homens pela margem direita do velho açude. Cardoso depois me contou tudo em detalhes...
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Danado. O major ainda continuava longe demais dos fatos concretos.De certo modo, fiquei feliz em saber da fuga do capitão, que não nego, era meu amigo. Fui seu coiteiro, afora esta vez, asseguro, ele nunca foi embora sem me deixar um bom dinheiro. Não me enraivo quando me chamam de bandido, mas juro que me dói por dentro quando me têm como traidor e covarde. Não foi nada disso, eu vos prometo que não minto. Em nome de Deus ou dos seiscentos diabos! Perdi um amigo. Acrescentei na minha lista mais um considerado inimigo de vulto e peso.Deixei-lhe até uma carta escrita contando tudo(tim tim por tim tim) sobre o meu aperreio e tudo o mais que se passou comigo. O portador, uma ex-vaqueiro das Emboscadas não chegou a tempo de entregá-lo no cruzamento da linha do trem depois da Ingazeiras pras bandas do Morro Dourado, quando Lampião fugia na direção de Milagres e Mauriti rumando, enfim, na direção Conceição de Piancó na Paraíba.
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Adailton Macedo e José Cícero no Cariri Cangaço Aurora

Nunca mais o vi. Apenas tive aqui acolá, algumas notícias vagas dando conta da sua passagem pelo Coité, dizendo um dia se vingar de mim. Um padre foi quem me trouxe este recado. Desde então me preparei pra isso. Fiquei de olho na Lagoa do Mato na serra da Goianinha.Não sei até hoje se por conta de tudo disso, posso dizer seguramente, que estou em paz com Deus e com os homens. Só sei que a vida não me foi tarefa fácil. Foi preciso ser fogo e pedra para conseguir chegar aonde cheguei. Isso é fato.E, não obstante todos estes acontecimentos fatídicos, como então se daria a história do fim? Passei o resto daquele ano remoendo estes tormentos. Veio o ano de 28, meados dos meses de julho e agosto... A velha rixa com os Paulinos e os Santos da Aurora não me deu nenhuma trégua. Parecia um imbróglio que não tinha mais fim.Quando parava e se arrefecia um pouco era porque estava a tomar novo fôlego. Eu tinha efetivamente que preparar chumbo grosso.Viana sempre me cobria de informações e de cuidados enviando-me recados escritos, ou notícias pelo código Morse da estação do trem. Adoecera naqueles dias o agente.
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Eu não via poder de fogo nos Paulinos. Faltavam-lhes um pouco mais de coragem e muito dinheiro. Contudo, é mister saber que os grandes inimigos nunca dormem. E eu os subestimei neste quesito, pois nunca é prudente permitir que os inimigos se reúnam contra a gente sem uma peleja atras da outra. Havia uma trégua estranha.Os paulinos foram usados por muitos dos meus inimigos, inclusive gente grande daqui e do além-fronteira.Tudo parecia tranquilo. Porém nunca gostei quando avistava um céu de chumbo no horizonte. Nem urubus brincando sobre minha cabeça. Mais uma vez viajei à capital. Tinha muitos negócios a resolver. Dias tranquilos aqueles. Edifiquei grandes obras sociais na Missão Velha. Novos correligionário estavam do meu lado. Estava feliz, como nunca estive.Na volta de Fortaleza contabilizei bons lucros, inclusive políticos. Namorei, visitei amigos. Esqueci um pouco das intrigas da minha vida cotidiana. Vinha na companhia dos primos.Viana há dias que não fora ao trabalho na estação do trem. Estava doente me disseram o cobrador e o maquinista. Fiquei assim sem suas notícias acerca do que se passava na terrinha. Alheio demais dos acontecimentos.
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Estelita tinha até pedido para que eu deixasse a política e fôssemos morar de vez na Fortaleza. Que eu poderia me tornar na terra de Alencar um grande comerciante. Fiquei de pensar qualquer dia em tudo aquilo. Ela adorava contemplar o mar. Era filha daquele litoral bonito. 

Nossa filhinha Orlandina haveria de crescer muito bem, sob os ventos saudáveis e frescos do grande mar. E aprender muitas letras. Pensei nisso durante a viagem. Queria mudar meu rumo e fazer novos planos...Mas não é tão fácil assim a gente não ter que aceitar de bom grado o seu destino. Cochilei um pouco. Nem vi quando passei nas Lavras. Só despertei no riacho fundo(na pequena estação do Iborepi). Em seguida, fiquei tagarelando umas amenidades que não lembro. Quando me dei conta o trem já adentrava a bela paisagem de Aurora ladeada pelo rio que parecia correr ao contrário do trem. Na estação de Aurora eu iria descer tomar um café e talvez rever algum amigo.
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José Cícero Silva mostra o local onde Isaías foi baleado na Estação da RVC em Aurora, aos pesquisadores, Sousa Neto, Bosco André e Manoel Severo
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De repente, quando o trem ainda deslizava sobre os trilhos. Um barulho de gente... Senti um cutucão na constela. Outro e mais outros. Seguida de uma sensação de frio e um formigamento na barriga. Um afã no peito. Uma tontura. Um repentino cansaço. Uma falta de ar. Um gosto diferente na boca.Quando em seguida, vi a cor do meu próprio sangue pintando de vermelho a parte inferior do linho meu terno cinza. Fortes pisadas sobre o assoalho do vagão onde eu estava. Som de batidas nos acentos. Uma correria. Uma gritaria de gente dizendo: - É tiro, é tiro!
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Tentei pegar a arma que eu trazia comigo. Não deu tempo. Tampouco tive a força necessária em minha mão para segurá-la no tempo devido. Pela janela vi o meu primo correndo na direção da rua. Estava em perseguição dos meus agressores. Meus antigos inimigos aurorenses.

Tentei sair da ali. Mas foi em vão. Apenas alguns passos na direção da porta de acesso à plataforma... Sustentado sob os braços das pessoas desci do trem. Puseram-me sobre a pedra morna da velha estação que muitas vezes pisei altivo com meus passos firmes. Estava então abatido como um pássaro canoro em seus últimos estertores. Mas eu estava calmo. Não era medo o que eu sentia naquele instante. Era saudade e desilusão da vida. E, assim mesmo sob a rês do chão ainda enxerguei, ao nível dos sapatos e dos chinelos da multidão que me cercava o céu do mundo daquela Aurora pela última vez.Roucamente com a voz cansada ainda expressei: - Covardes, covardes! Ao que respondeu meu outro primo: - Foram os paulinos Isaías, foram os paulinos. – Mas eles vão pagar por isso, completou.
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Estação da RVC em Aurora, cenário da morte de Isaias
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Ainda vi também o farmacêutico dizendo: - “o estado do coronel é grave. Chamem depressa o dr. Sérgio Banhos de Iguatu. Avise ao pessoal de Missão Velha. Pois estar muito grave o coronel. Mas ele é jovem há de aguentar, quem sabe.” dissera ele.Quase sem visão, ainda me foi possível vislumbrar o meu velho amigo Augusto Jucá, pedindo para que me levassem para a sua casa. Depois adormeci. Sem senti nenhuma dor. Apenas com uma sensação estranha de quem ia morrer assim, tranquilamente, logo que os olhos se fechassem e quando dormisse. Dormi suavemente...Era uma tarde morna do dia 4 de agosto de 1928. Um ano de muitas mudanças em que todas as promessas acumuladas por minha vida inteira iriam ser realizadas de vez em minhas mãos. Estava disposto a mudar.
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Nada mais que se diga. Nada puderam fazer os dois médicos(Banhos e Antenor) que me assistiram durante os quatro dias que ainda tive de vida. Durante todos aqueles dias, homens disfarçados de bêbados retirantes, mendigos e de vendedores de cavalos ficaram pelos arredores da cidade, bem como no entorno da estação e da residência em que eu me encontrava moribundo. Homens dispostos e de confiança armados até os dentes, com a missão de garantir a minha segurança e, que também tentaram vingar a minha desdita.No dia oito daquele mês, o bando estava pronto para invadir pela região de Ingazeiras o lugar onde moravam meus assassinos. Mas, minha familiar ordenou que não.
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Dona Orlandina, filha de Isaías Arruda, entre os Conselheiros do Cariri Cangaço; 
Bosco André, Manoel Severo e Aderbal Nogueirao
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Parti finalmente às 6h da manhã do dia 8 de agosto daquele ano. Meu corpo foi de troler para Missão Velha onde uma multidão entristecida me esperava pela derradeira vez na mesma estação em que tantas vezes cheguei com boas notícias e grandes novidades. Fui sepultado à tardinha após a missa, no antigo cemitério da terra em que fui prefeito e que também amei.Quis o destino, todavia, que na mesma terra em que nasci se findassem os meus dias. Foi assim que tudo aconteceu de verdade. Tudo o mais, ou é incompreensão subjetiva dos fatos ou pura má-fé dos que não aceitaram até agora o necessário acerto de contas do passado com o presente e o futuro, sob o pano de fundo da história.E lá se foram 90 anos...Ainda tem quem não acredite na eternidade. Um forte abraço, de algum lugar no passado.
Cel Isaías Arruda de Figueiredo"

José Cícero, poeta, pesquisador e escritor
Secretário de Cultura de Aurora
Conselheiro do Cariri Cangaço
Aurora – CE.

http://cariricangaco.blogspot.com/2018/08/90-anos-da-morte-de-isaias-arruda.html

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MOSQUITO– ANTIGO BOTADOR DE ÁGUA DA VELHA CIDADE*

Por José Cícero - Aurora-CE.

Quando menino fui um moleque tímido, mas um tanto perspicaz e curioso. Tinha receio até de dizer meu nome em público. Em meu silêncio, contudo, quase estratégico, eu via e ouvia muito mais que os outros. Foi o jeito que inventei para me inserir naquele mundo cruel e capcioso. E assim esquadrilhava com meus olhos de lince e meus ouvidos de cachorro matreiro as coisas que aconteciam ao meu redor. Ninguém sabia disso. Eu fingia que estava desligado dos assuntos... Mas no fundo, eu era um menino atento, cujo senso de curiosidade e percepção estava muito além da maioria. Um ser estranho  (eu confesso), mas que sempre aprendia por trás do silêncio e do soturno aparente que estavam em mim.

Coisas que lembro até hoje. Eu tinha um medo tremendo de hospital, do posto de saúde e da farmácia. Sim, de farmácia. Porque naquele tempo toda farmácia tinha seu ambulatório onde se fazia aplicação das injeções que me causavam tanto medo. Na época das vacinas era um Deus nos acuda. Eu queria mesmo era desaparecer... Mas não havia escapatória. Estava condenado aos temíveis instrumentos tênues e perfurantes de seu Otacílio, como igualmente de Zé Landim (o nosso bom farmacêutico), Odaízio e Zé Brasil.

Mas recordo que, malgrado o temor que eu tinha; terminei por encontrar uma maneira surreal de me distrair e, assim, aliviar minha dor pela furada no músculo. Mirava meus olhos num quadro modestamente emoldurado que havia na parede da farmácia. Uma fotografia simplória em preto e branco de um sujeito pequeno de ar cansado ao lado do seu jumento com duas ancoretas de água. Acho que às margens da rodovia, bem ao lado da ponte na entrada da cidade que dava para o Juazeiro sob o riacho. Imagino, lá pras bandas da antiga rua da várzea.

Nunca perguntei a ninguém de quem se tratava aquele quadro na parede. Imagem típica. Talvez feita pelas lentes de Seu Basílio, antigo e único retratista do lugar naquele tempo. Nem sei ao certo, a razão daquela imagem ter mexido tanto com aquele menino que era eu. Pois nunca me cansei de olhá-la. De observar aquele homem sertanejo como que pousando com o seu jerico. Aliás, era o que eu primeiro vislumbrava na farmácia, mesmo quando entusiasmado eu ia pegar de graça, a revistinha – Almanaque Fontoura, contendo as estórias do Zeca Tatu do Monteiro Lobato, que eu gostava. Inicialmente, pelas imagens ( minha leitura visual) já que eu não estava completamente alfabetizado. Mas fui lendo devagarinho, sem nenhuma pressa... Quem sabe, como o próprio caminhar daquele jerico da fotografia.

E hoje, quase quatro décadas depois é que vi a saber, de quem na verdade se tratava aquela fotografia amarelada pelo passar dos anos. Coisas que o tal destino nos apronta de vez em quando. Era Mosquito. O nome do tal homezinho da foto com seu jumento Lopreu.

Mosquito - O botador de água da cidade. O ser que dera de beber a tantos, mas que até hoje, parecem não mais se lembrarem dele. Mosquito – o verdadeiro mito de um Prometeu sertanejo, posto que passara sua vida inteira a exemplo de Chaim a carregar água paras às residências dos ricaços em sua maioria. Quem sabe, o Hércules Quasímodo como bem dissera certa vez Euclides da Cunha na sua obra seminal: Os Sertões.

Mosquito - O nosso herói esquecido. Perdido deste então nas brumas de um tempo ido a que tudo mata, devora e apaga em nome do esquecimento total. Alimentando assim à memória dos que passam a vida toda alheios ao essencial. Ocupados demais com seus sonhos absurdos de poder e de dinheiro. Talvez agora nem mais sintam sede estátuas que são de olhares fixos no nada, como mortos insepultos abraçados a tal madame frigidaire.

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MULHER DE CORAGEM – A HISTÓRIA DA ÚNICA ENFERMEIRA MILITAR AMERICANA CAPTURADA PELOS ALEMÃES

 

As Mulheres na Segunda Guerra – O Duro e Perigoso Ofício das Enfermeiras de voo – Ferida em um Avião Derrubado na Alemanha Nazista – A Surpresa dos Soldados de Hitler em Capturar uma Mulher Vestida Com o Uniforme de Oficial do Exército Inimigo – Repatriada Através da Suíça Pela Cruz Vermelha – Volta aos Estados Unidos e Casamento – As Injustiças e a Sua Dura Batalha Contra a Burocracia Militar Para Conseguir Seus Direitos

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Durante a Segunda Guerra Mundial normalmente os exércitos aliados não permitiam que mulheres que usavam uniformes atuassem na linha de fogo. A maior exceção foi no Exército Soviético, onde as mulheres atuaram com galhardia em várias ações de combate direto aos inimigos. Já nas forças armadas da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos e de outras nações Aliadas, a maioria das mulheres atuou principalmente nos setores da administração militar, para assim liberar mais homens para o combate nas linhas de frente. No geral, poucas foram as mulheres que serviram nesses exércitos que chegaram perto de áreas de combate e a maioria nunca levou ou recebeu tiros dos inimigos.

Mas ocorreram exceções.

Uma das aviadoras americanas do Women Airforce Service Pilots (WASP)- Fonte – NARA.

Entre elas estava a importante tarefa de pilotar aviões saídos de fábrica para serem entregues aos esquadrões da linha de frente. Um trabalho que poderia se tornar perigoso muito mais por problemas mecânicos, ou alterações do tempo, do que serem abatidas por alguma aeronave hostil, fato que nunca ocorreu. Essas mulheres faziam parte do Women Airforce Service Pilots (WASP) e será que alguma delas passou por Natal e pousou em Parnamirim Field?

Outra exceção aconteceu na Grã-Bretanha, onde os bombardeios da Luftwaffe, a força aérea nazista, cobraram um alto preço as cidades e as suas populações. Nessas ocasiões várias britânicas atuaram de forma mais direta em combates, ao operarem poderosas baterias de canhões antiaéreos que buscavam derrubar as aeronaves inimigas. Mas elas disparavam em alvos a centenas de metros de altura e não chegavam a ver “a cor dos olhos dos oponentes”, como acontecia nas pelejas corpo a corpo dos soldados da infantaria.

Mulheres artilheiras antiaéreas da Grã-Bretanha – Fonte – TR 453 Part of MINISTRY OF INFORMATION SECOND WORLD WAR COLOUR TRANSPARENCY COLLECTION Malindine E G (Lt) Tanner (Lt) War Office official photographer.

Algumas poucas mulheres atuaram no escritório de serviços estratégicos dos americanos e no serviço de operações especiais dos britânicos, chegaram a saltar de paraquedas atrás das linhas inimigas para ajudar a resistência francesa e houveram alguns raros casos de combates.

Mas foi a enfermagem a atividade que mais levou mulheres militares dos exércitos Aliados na frente oeste da Europa a ficarem próximas de áreas de combate.

Fosse no atendimento de militares feridos, ou, como aconteceu em algumas ocasiões, estando em locais de atendimento clínico que foram atacados por disparos de artilharia e por atiradores de infantaria inimigos, muitas dessas mulheres testemunharam as terríveis crueldades da guerra. Inclusive o Brasil, um dos países Aliados, enviou para a Itália entre 1944 e 45 um grupo de 73 enfermeiras que se juntaram às tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e da Força Aérea Brasileira (FAB), para realizar seu trabalho de forma digna e honrada.

Enfermeiras brasileiras desfilando no Rio de Janeiro no período da Segunda Guerra.

Enfermeira de voo

Mas durante a guerra, o comando militar dos Aliados achou por bem desenvolver as enfermeiras um trabalho específico, onde elas realizavam sua nobre atividade em meio a perigos reais. Foi criada então a função de “Enfermeira de voo”.

As mulheres que desejassem seguir por esse caminho teriam de se voluntariar e a rotina de treinamento desenvolvida era dura e pesada. De saída elas deveriam fazer um forte treinamento militar durante seis a nove semanas, que incluíam a utilização de mapas em áreas de combate, camuflagem de sobrevivência, habilidades no transporte de feridos em aeronaves, preparação para pousos forçados, uso de paraquedas, muita ênfase para o condicionamento físico, uso de diversas armas militares e até a participação em treinamentos que simulavam ataques inimigos em aeródromos.

Treinamento de Enfermeira de voo– Fonte – NARA.

Essas enfermeiras voaram com muito mais frequência do que outras mulheres da sua profissão e precisavam aprender a cuidar delas mesmas. O treinamento foi projetado para tornar as enfermeiras amplamente autossuficientes durante o voo. Elas foram treinadas para tratar dor, sangramento e choque, atendendo os pacientes na ausência de um médico.

A Força Aérea do Exército dos Estados Unidos criou o primeiro programa de treinamento no outono de 1942. As primeiras 39 Enfermeiras de voo foram formadas em fevereiro de 1943 e muitas mais passaram pela nova escola de evacuação aérea em Randall Field, no estado do Texas. Na Grã-Bretanha, um programa semelhante foi estabelecido com voluntárias da Força Aérea Auxiliar Feminina e a Marinha dos Estados Unidos também criou uma escola semelhante na Estação Aeronaval de Alameda, no estado da Califórnia.

Esquadrões de evacuação aero médica dos Estados Unidos foram criados e divididos em equipes compostas de um cirurgião de voo, que comandavam outras seis equipes compostas de Enfermeiras de voo e vários técnicos cirúrgicos.

As Enfermeiras de voo americanas foram autorizadas a usar em seus uniformes as asas de voo, com um “N” na cor marrom, para “Nurse”, enfermeira em inglês. Mas ao contrário das forças armadas britânicas, todas essas enfermeiras do exército americano foram comissionadas como oficiais, para, no caso de serem capturadas, serem melhor tratadas pelos inimigos.

Curtiss C-46 Commando.

Como o trabalho dessas mulheres era prioritariamente ligado à evacuação de pacientes, elas utilizavam basicamente aeronaves bimotores de transporte Douglas C-47 Dakota e Curtiss C-46 Commando, modificadas internamente para acomodar várias macas. Esses aviões eram pilotados por aviadores especialmente treinados, enquanto as Enfermeiras de voo eram as principais operadoras das atividades de saúde a bordo. Elas comandavam um ou dois técnicos cirúrgicos, onde a equipe tinha de lidar com o uso de oxigênio e qualquer emergência médica que ocorresse durante o voo, incluindo pacientes em situação de choque, hemorragias, sedação e o que houvesse mais necessidade.

Enfermeiras de voo em Guam aparecem diante de um avião quadrimotor R5D (Douglas Skymaster) em abril de 1945. (Arquivos BUMED)

Voar era em si perigoso e muitas enfermeiras de voo salvaram suas vidas e de muitos pacientes durante terríveis emergências, enquanto suas aeronaves desciam no mar ou em terra. Existem casos em que elas retiraram com sucesso pacientes para botes salva-vidas em alto mar, ou de aeronaves em chamas após um pouso forçado no norte da África. Teve o caso de um avião que recebeu disparos de artilharia antiaérea japonesa na Birmânia e uma enfermeira de voo saltou de paraquedas com sucesso.

A tenente Pauline Curry e o técnico médico sargento Lewis Marker cuidam do conforto de um paciente durante um voo de evacuação nos céus da Índia. Aproximadamente 500 enfermeiros serviram em 31 esquadrões de evacuação aérea médica durante a Segunda Guerra Mundial – Fonte – NARA.

Houve o caso de um avião que se perdeu durante um voo e acabou fazendo um pouso forçado na Albânia, atrás das linhas alemãs, sendo os tripulantes contactados e protegidos por guerrilheiros desse país. Na sequência, unidades especiais aliadas saltaram de paraquedas para ajudar esse grupo. Mesmo com as patrulhas alemãs caçando-os por dois meses em áreas montanhosas durante o inverno, todos foram salvos.

A enfermeira do Exército, segundo tenente Katherine Friedrich, atende a um paciente ferido a bordo de um avião de transporte Douglas C-47 com destino à Grã-Bretanha. O avião de evacuação decolou de Toul, na França, onde os soldados aliados feridos em combate ou doentes foram preparados para o voo– Fonte – NARA.

Apesar das histórias de heroísmo e dedicação, dezesseis Enfermeiras de voo americanas foram mortas durante a Segunda Guerra Mundial.

Atribui-se que grande parte dessas ocorrências aconteceu porque a maioria das aeronaves britânicas e americanas envolvidas em voos de evacuação médica não eram marcadas com cruzes vermelhas, sinalização internacionalmente conhecida para o trabalho e transporte de feridos. Isso aconteceu para que essas aeronaves também pudessem ser utilizadas para transportar armas, suprimentos, munições, etc. Mas é claro que isso significava que a aeronave era legalmente um alvo para os hábeis aviadores de caça, ou os precisos membros das armas de artilharia antiaérea inimigas.

Em julho de 1943, a tenente Katye Swope, enfermeira do 802º Esquadrão de Transporte de Evacuação Aéreo Médica, prepara pacientes para um voo de Agrigento, Sicília, Itália, para a Grã-Bretanha onde foram submetidos a tratamento médico adicional. As operações de evacuação aérea dos Aliados começaram durante a campanha no norte da África em fevereiro de 1943 e continuaram durante a Segunda Guerra Mundial em todos os teatros– Fonte – NARA.

Um incidente pouco conhecido foi a história da única mulher do serviço militar aliado que foi feita prisioneira pelos alemães na frente oeste.

Queda do C-47 na Alemanha Nazista

A Enfermeira de voo Reba Zitella Whittle, fotografada logo após sua libertação de um campo de prisioneiros alemão.- Fonte – NARA.

Reba Zitella Whittle nasceu em Rock Springs, Condado de Edwards, estado de Texas, e estudou no North Texas State College, antes de frequentar a escola de enfermagem do Medical and Surgical Memorial Hospital, da cidade de San Antonio. Depois de se formar, Whittle se alistou no Forte Sam Houston, no Corpo de Enfermeiras do Exército em 10 de junho de 1941. Com o posto de segundo-tenente, foi designada para o hospital da Base Aérea do Exército de Albuquerque, estado do Novo México, onde atuou como enfermeira de serviço geral, sendo posteriormente transferida para Mather Field, Sacramento, estado da Califórnia.

Em 6 de agosto de 1943, Whittle foi aceita pela Escola de Evacuação Aérea da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, para se tornar Enfermeira de voo. Em setembro chegou à escola em Bowman Field, no estado de Kentucky.

Whittle se formou com notas excelentes e em janeiro de 1944 partiu para a Inglaterra a bordo do navio RMS Queen Mary, com outras 25 enfermeiras de voo do 813º Esquadrão de Transporte de Evacuação Aero Médica, cuja sigla em inglês era 813º MAETS. Essa unidade ficou baseada na Royal Air Force Station Grove, ou RAF Grove, uma antiga estação da Força Aérea Britânica perto da vila de Grove, Oxfordshire, Inglaterra.

Douglas C-47 Dakota.

Entre janeiro e setembro de 1944 a enfermeira Reba Whittle realizou mais de 40 missões em aviões C-47, com 500 horas no ar, incluindo 80 em momentos de combate.

Na quarta-feira, 27 de setembro de 1944, ela embarcou em um voo ligando a Inglaterra até um campo de pouso na cidade belga de Saint-Trond. Mais uma missão de rotina. Três meses antes os Aliados haviam desembarcado na Normandia e desde então ocorriam intensos combates, com um elevado número de mortos e feridos.

Além da tripulação de voo, da enfermeira Reba e de um técnico cirúrgico, o avião carregava toneladas de suprimentos e retornaria com feridos em suas macas.

A enfermeira Reba Whittle está na porta de um avião de transporte C-47 antes da partida.

Em algum momento durante o voo foi cometido um erro de navegação que colocou o C-47 cerca de 70 quilômetros fora de sua rota, quando foi atingido pela precisa artilharia antiaérea alemã.

Reba Whittle estava dormindo na parte de trás do avião, mas repentinamente foi acordada por uma detonação incrivelmente alta dos projéteis alemães explodindo ao redor do C-47. Lá fora um dos motores estava pegando fogo, enquanto o avião descia rapidamente para um difícil pouso forçado em um campo nevado. O C-47 pousou a cerca de quatro quilômetros da cidade de Aachen, a maior área urbana mais ocidental da Alemanha, junto à fronteira com a Bélgica e a Holanda, e era um lugar fortemente defendido.

O seu técnico cirúrgico, o sargento Hill, tinha ferimentos por estilhaços em um dos braços e uma das pernas. Um dos pilotos morreu, o outro ficou gravemente ferido com lesões múltiplas e a própria enfermeira Whittle sofreu uma concussão e lacerações no rosto e nas costas.

Ainda no período de treinamento vemos a Enfermeira de voo Reba Whittler na extrema esquerda da foto, com uma submetralhadora Thompson, calibre 45, em treinamento de tiro.

O C-47 estava queimando e os sobreviventes rastejam para fora dos destroços, quando viram que vários soldados se aproximavam. Inicialmente eles pensaram que eram britânicos, mas logo descobriram que eram alemães e estes ficaram vividamente surpresos ao encontrarem uma mulher com uniforme militar e a patente de oficial.

Prisioneira de Guerra

Passada a surpresa, um deles enrolou um curativo em volta da cabeça da enfermeira Whittle, que sangrava profundamente. Na sequência os feridos foram colocados em um caminhão alemão e conduzidos para a aldeia mais próxima para um tratamento médico mais adequado.

Notícia nos Estados Unidos da captura de Reba Whittle.

Depois houve então uma longa viagem a bordo de um outro frio e sujo caminhão do exército alemão, com passagens frequentes em aldeias e cidades para refeições, ou discussões sobre o que fazer com aquela prisioneira. Os alemães não tinham certeza de como tratar uma prisioneira aliada, que além de tudo era enfermeira e oficial do exército. Todo o sistema alemão de prisioneiros de guerra havia sido projetado para cativos do sexo masculino e as únicas mulheres aliadas prisioneiras eram cidadãs civis de nações inimigas, detidas em campos de internamento especiais, sendo a maioria localizados em castelos antigos.

Reba e o resto da tripulação foram enviados para Auswertestelle West (Escritório de Avaliação Oeste), o principal centro de interrogatório da Luftwaffe em Oberursel, ao norte de Frankfurt, onde todas as tripulações inimigas capturadas eram interrogadas antes de seguirem para um campo de prisioneiros.

Aviadores aliados e soldados nazistas no centro de interrogatório da Luftwaffe em Oberursel, ao norte de Frankfurt.

Após um interrogatório educado, os alemães separam Reba Whittle do resto de sua tripulação e ela ficou alojada no Hohemark Hospital, que era parte de Auswertestelle West e projetado para fornecer ajuda imediata a prisioneiros feridos.

Consta que após algum debate os alemães decidiram que a enfermeira americana poderia ser usada para ajudar os soldados aliados. Então Reba foi transferida para um hospital militar para prisioneiros de guerra, administrado por uma equipe médica britânica, sendo parte do campo de prisioneiros Stalag IX-C, perto de Bad Sulza, um lugar entre as cidades de Erfurt e Leipzig, na região da Turíngia, centro da Alemanha. Em 19 de outubro, ela foi transferida para outro hospital de prisioneiros de guerra, nas proximidades da cidade de Meiningen, onde trabalhou com pacientes queimados e no centro de reabilitação para amputados.

Trabalho de enfermeira americana na Segunda Guerra – Fonte – Wikimeda Commons.

A captura de uma mulher oficial do Exército dos Estados Unidos chamou a atenção dos representantes suíços do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que regularmente inspecionavam os campos de prisioneiros alemães. Reba deu detalhes de sua situação e de sua patente a esse pessoal.

Os membros da Cruz Vermelha por sua vez notificaram o Departamento de Estado, como é conhecido o Ministério das Relações Exteriores dos Estados Unidos, que começou a negociar sua libertação através da troca de prisioneiros.

Para alguns pode parecer esquisito, mas durante a Segunda Guerra ocorreu regularmente entre os Aliados e os alemães a repatriação de vários prisioneiros considerados muito doentes, ou psicologicamente incapazes de serem ainda úteis para o esforço de guerra. Evidentemente que a enfermeira americana não se enquadra nesta situação, pois estava totalmente sã e lúcida, podendo retomar ao seu trabalho para o esforço de guerra dos inimigos dos alemães.

Foto de jornal mostrando a enfermeira Reba Whittle no seu retorno aos Estados Unidos.

Mas todos que se debruçaram sobre o tema são unânimes em afirmar que os alemães se sentiram muito incomodados com a presença daquela oficial e, para surpresa de muitos, preferiram mandá-la de volta.

O retorno ocorreu em 25 de janeiro de 1945, quando Reba Whittle foi transportada em um trem com um grupo de repatriados para a Suíça e de lá ela foi capaz de embarcar em um avião para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos.

Injustiça

A Enfermeira de voo Reba Zitella Whittle recebeu várias condecorações por sua provação como prisioneira, pelas feridas recebidas no acidente, por suas 41 missões em aviões C-47 evacuando os feridos e também foi promovida ao posto de primeiro-tenente. A enfermeira recebeu um telegrama do presidente Franklin Delano Roosevelt, agradecendo a ela por seu serviço e reconhecendo sua provação como uma prisioneira de guerra dos alemães por quatro meses.

Mas a concussão que ela sofreu no acidente a deixou com problemas duradouros, principalmente fortes dores de cabeça. Mesmo assim ela retornou ao serviço ativo na Estação Número 2 de Redistribuição da Força Aérea do Exército, em Miami Beach, Flórida. Depois foi transferida para trabalhar como enfermeira em um hospital do exército na Califórnia até o final da guerra.

Em 3 de agosto de 1945 ela se casou com o tenente-coronel Stanley W. Tobiason e em seguida solicitou dispensa do serviço ativo. Ela foi dispensada com todas as honras em 13 de janeiro de 1946.

Sua vida pós-exército foi marcada por vários problemas físicos e psiquiátricos. Ela buscou uma indenização da Administração dos Veteranos e iniciou uma série de apelos para a aposentadoria médica militar. Apesar dos diagnósticos de encefalopatia pós-traumática, reação crônica de ansiedade grave e artrite lombossacral precoce, seus apelos foram negados.

Finalmente, em janeiro de 1954, o Conselho de Apelação de Deficiência Física do Exército concordou que ela foi dispensada do serviço ativo por motivo de deficiência física e, portanto, elegível para benefícios de aposentadoria. Mesmo com sua deficiência sendo classificada como “ocorrida em combate”, ela foi retroativa apenas ao momento de sua inscrição, abril de 1952, e não ao período da guerra, o que lhe gerou um grande prejuízo financeiro e emocional. Reba realizou vários apelos, mas seu processo não foi reconhecido e acabou indeferido. Alguns dos seus biógrafos acreditam que sua condição de mulher pesou nessa equivocada e injusta decisão.

Ela e o Coronel Tobiason tiveram dois filhos, um dos quais se tornou Aviador Naval e serviu na Guerra do Vietnã.

Reba Whittle Tobiason morreu de câncer em 26 de janeiro de 1981, aos 62 anos.

Em abril de 1983, o Coronel Tobiason escreveu ao Exército, afirmando que o Departamento de Defesa e a Administração dos Veteranos não conheciam nenhuma outra militar americana que tenha sido feita prisioneira pelos alemães durante a Segunda Guerra na Europa.

Em 2 de setembro de 1983, Reba Zitella Whittle finalmente recebeu o status oficial de prisioneira dos alemães, mas somente em 1997 ela foi agraciada postumamente com a Medalha dos Prisioneiros de Guerra.

FONTES

https://www.tshaonline.org/handbook/entries/tobiason-reba-zitella-whittle

https://blog.theveteranssite.greatergood.com/reba-whittle/

https://www.memorialflightclub.com/blog/c-47-dakota-za947-75th-birthday

https://tokdehistoria.com.br/2023/03/22/mulher-de-coragem-a-historia-da-unica-enfermeira-militar-americana-capturada-pelos-alemaes/

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