Por Luz do Dia.
Nas serras do Rio Grande do Sul, quando a mata ainda parecia não ter fim e os caminhos eram marcados mais por rios, árvores e memória do que por mapas, Iara cresceu ouvindo que a floresta sempre devolvia aquilo que recebia. Filha de uma parteira respeitada e neta de uma chamã guarani, ela aprendeu desde cedo a reconhecer folhas que baixavam febres, raízes que fechavam feridas e sinais discretos deixados pelos animais quando algum perigo se aproximava. Aos vinte anos, sua vida era simples, mas cheia de sentido. Ela ajudava mulheres no parto, cuidava de crianças doentes e participava das reuniões entre aldeias próximas ao rio, onde notícias, alimentos e histórias circulavam como parte de uma grande família.
Tudo mudou numa manhã de outubro.
A névoa ainda cobria o vale quando cinco bandeirantes cercaram a aldeia. Vieram armados, acostumados a capturar indígenas para vendê-los como escravizados em propriedades que avançavam pelo sul. Não chegaram para negociar. Em poucos minutos, a rotina das fogueiras foi substituída por gritos, correria e medo. Os mais velhos foram atacados primeiro, depois as famílias foram separadas. Iara viu a avó morrer tentando proteger crianças, viu o pai ser espancado ao defender a esposa e as filhas e assistiu, amarrada, à violência cometida contra sua mãe e suas irmãs. Ela própria também foi brutalizada.
Durante três dias, os homens acreditaram que tinham destruído sua vontade.
Iara baixava os olhos, obedecia, servia água e comida e parecia ter se rendido. Por dentro, porém, fazia o que aprendera desde menina: observava. Percebeu quem bebia demais, quem dormia pesado, quem era descuidado com as cordas, quem temia ficar sozinho e quem verificava as armas antes de deitar. Guardou nomes, hábitos e fraquezas. Também reconheceu plantas ao redor do acampamento e memorizou as trilhas próximas.
Na terceira manhã, surgiu a oportunidade.
Os homens pediram que ela preparasse a bebida que costumavam compartilhar ao amanhecer. Iara usou seu conhecimento de curandeira para colocar na infusão uma substância capaz de enfraquecê-los e paralisar seus movimentos. Um a um, eles perderam as forças. Quando perceberam o que estava acontecendo, já era tarde. Pela primeira vez desde o ataque, Iara ergueu a cabeça.
— Vocês se lembram de mim? — perguntou, olhando para o líder.... Leia mais no primeiro comentário
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