Por Alexandre Ferreira
Antonio Silvino e seu bando de cangaceiros
Vários são os
relatos em jornais do século XIX E XX da presença e permanência de bandos de
cangaceiros famosos, e, não tão conhecidos nas terras de Mogeiro e Ingá. Entre
eles podemos citar: Antonio Silvino e seu bando, Zé de Totó e Zé Luiz entre
tantos outros anônimos e não tão famosos.
A dinâmica do
cangaço no período em que se instalou nas terras do nordeste, e,
especificamente, nas terras do agreste paraibano, era exaltada na literatura de
cordel e narrada por penas de poetas populares como João Martins de Athayde, de
maneira tão formidável que comparados com os roteiros dos filmes de Hollywood,
ganham em superioridade, realismo e originalidade.
As noticias
sobre o cangaço eram constantes nos jornais da época. Pra se ter uma
ideia, haviam jornalistas especializados em pesquisar, acompanhar e escrever a
saga do cangaço no sertão.
Leia abaixo,
na integra, uma reportagem do jornal O DIARIO DE PERNAMBUCO, (Recife,
quinta-feira, 29 de marco de 1906. Pag. 01), que narra o episodio da prisão do
Cangaceiro Rio Preto.
RIO PRETO
SEU DEPOIMENTO
“Damos abaixo
o depoimento do famigerado cangaceiro Rio Preto.
Algumas outras
declarações fez elle perante o dr. chefe de policia.
Estas, porem,
precisam, por emquanto ficar em segredo de justiça.
Eis o
depoimento:
* Firmo José
de Lima, 24 annos, natural de S. Vicente, solteiro, não sabe ler,
nem escrever.
Declarou o
seguinte;
Ere
trabalhador de Manoel Francisco, no logar Junco, do municipio de Umbuzeiro, !
na Parahyba, quando ha quatro annos, Antonio Silvino, em companhia de nove
cangaceiros, assaltou a casa de seu patrão, roubando-o e espancando-o
barbaramente
Terminando o
assalto, Antonio Silvino obrigou-o a acompanhal-o, afim de fazer parte do
grupo.
Desde esse
dia, começaram as suas relações com o celebre bandido Silvino, relações que
conservou até dois annos passados, quando teve necessidade de abandonar' o
grupo, levado por uma discussão havida entre elle e Silvino, da qual não
resultou funestas consequencias, devido à intervenção do seu companheiro Cocada
Motivou a
discussão querer Silvino obrigal-o a espancar tres homens que passaram no
Mogeiro de Cima, desobedocendo ordens que neste sentido tinham sido dadas.
Cocada,
tomando parte da discussão, colocou-se de seu lado, dando-lhe razão e
separando-se, em companhia de Relampago, do grupo de Silvino.
Algum tempo
depois, ao novo grupo se reuniram Nevoeiro e Barra Nova, ficando o grupo do
Silvino composto pelos cangaceiros Tempestade, Ventania, Balisa e Dois Arros.
Depois da
separação, Silvino procurou novos companheiros, constituindo
forte grupo.
Esta separação
não trouxe, porem, entre os dois grupos intriga séria, tanto que, quando
Silvino tinha necessidade de dar om assalto perigoso, convidava o seu grupo, do
qual era chefe Cocada, sendo sempre attendido.
Todas as vezes
que se separavam combinavam encontros em logares determina dos.
Há mais de um
anno, achando-se com Cocada no logar Gitó, ahi encontrou-se com Silvino.
Nessa
occasião, o famigerado bandido convidou seu chefe para, reunidos os dois
grupos, assaltarem o estabelecimento de Manoel Bello, em Macapá, afim de não so
roubarem tudo quanto podessem, como tambem assassinal-o.
Recusou-se
elle e igualmente Cocada a acompanharem Silvino, porque este tinha o firme
proposito de assessinar Manoel Bello.
Em vista da
recusa por elles apresentada, comprometteu-se Silvino não matar a Bello,
acceitando então elles a proposta
Entraram em
Macapá, Silvino, Cocada Relampago, Balisa e Tempestade, cantando modinhas.
Procuraram o
cabo de policia ali destacado, dssarmaram-no e o obrigaram a ensinar onde
ficava o estabelecimento do Manoel Bello.
Chegando a
porta de Bello, bateram, declarando que era uma força do governo, vinda de
Timbauba, sob o commando do sargento Lopes de Maceio, e que desejavam que o sr.
Bello lhes fornecesse o promettido café.
Manoel Bello,
acreditando realmente tratar-se de uma força legal, não hesitou em abrir a
porta.
Todos elles
precipitaram-se para o estabelecimento, donde roubaram grande quantidade de
mercadorias, conduzindo-as em um cavallo, que para este fim tinha levado
Silvino.
Após a pratica
do roubo, retiraram-se para Piraná, onde novamente se separaram os grupos,
tomando cada uma direcção opposta.
Antonio
Silvino, ao sair, levou o cavallo carregado com as mercadorias, dando antes da
partida uma gratificação, em dinheiro, a Cocada, gratificação que foi dividida
entre os companheiros.
Depois de um
tiroteto que soffreu com Cocada, tiveram necessidade de se separarem, o que
fez.
Deixando
Cocada, foi para o engenho, Barrocas, com recommendações do major Philemon
Nestor e de José Rezende.
Em poder de
Rezende deixou uma comblain, de que Nestor lhe havia feito presente.
Cocada, depois
da sua saida, foi homisiar-se no engenho Paggi, em Nazareth.
Passado algum
tempo, receiou ser preso no engenho, constando-lhe já ser conhecida a sua
permanencia naquelle logar
Deixou o
engenho indo para Aroeiras, da Parahyba, onde se encontrou com Silvino e
Cocada.
Reunidos,
seguiram juntos para Fagundes, onde mataram um empregado de José Alves, por
desconfiarem ter este rapaz denunciado ás autoridades do Ioga o esconderijo de
Papa Mel, que pela policia havia sido morto.
Ainda
reunidos, dirigiram-se ao Surrão, onde Antonio Silvino tomou um rifle ao
negociante Manoel de Mello, delle fazendo lhe presente.
Em seguida,
dirigiram-se para Figueiras, onde, pelas 5 horas da manhan, do dia 15 de
fevereiro de 1903, assaltaram a casa do subdelegado Francisco Antonio Sobral,
matando-o em seguida
Este
assassinato teve como causa desconfiar Silvino que um tiroteio soffrido tinha
sido promovido pelo Sobral.
Pouco tempo
depois da morte do Papa Mel, foi, a convite de Silvino e acompanhado de Cocada,
á casa de Marcos dos Pinhões, a quem assassinaram, por ter constado que Pinhões
os perseguia.
Após o
assassinato, dirigiram-se todos para a casa de Antonio Poggy, em Guaribas, onde
almoçaram.
Não tomou
parte, nem Cocada, no assassinato de Severino de tal, facto este occorrido em
Aroeiras
Motivou este
assassinato desconfiança de que Sevorino denunciara Silvino á força que o
atacara em Torres, pouco acima de Aroeiras, em casa de Manoel Perrera.
Depois do
assassinato, fugiram todos e occultaram-se em casa de João de tal, vaqueiro do
João Barbosa, no logar Tamandua.
Ha dois annos
passados, se achava em companhia de Cocada e Antonio Sllvino na residencia do
major No, logar Mogeiro, quando passou Manoel Paes, ex-sargento de policia
e inimigo deles
Antonio
Silvino chamou-o e, reconhecendo o disparou contra elle o rifle, matando-o
instantaneamente.
Tendo o grupo
informações de que a forca policial não se achava no Pilar da Parahyba,
resolveram dar ali um assalto, o que levaram a effeito.
Ao chegarem á
cidade, mandaram cha. mar o carcereiro da cadeia e ordenaramlhe a entrega das
respectivas chaves.
De posse das
chaves, soltaram todos os presos, desarmando dois soldados que ali encontraram,
prendendo-os, em companhia do carcereiro.
Em seguida
sairam pelas ruas, angariando dinheiro das pessoas dalli, entre ellas o sr.
commendador Napoleão.
Pouco tempo
demoraram, levando o armamento dos soldados
Cocada tinha
sob a sua protecção uma menina de 12 annos de edade, a qual foi offendida por
Francisco Paes.
Chegando esse
facto ao conhecimento do seu companheiro, esse escrevera ao offensor, pedindo
500$00 para resgatar a falta que commettéra.
Francisco
Paes, ao receber a carta, consultou ao vigario da freguezia. que o acon. selhou
a enviar pelo menos 200$00 .
Elle, porém,
não acceitou o conselho, respondendo que para Cocada tinha balas.
Em vista
disso, Cocada resolveu ir á sua casa, encontrando-o em companhia de um filho.
Contra o
rapaz, que fugiu, dispararam as armas, vendo-o cair, a pouca distancia.
Antes de
assassinarem Francisco, obrigaram a dar 100$000.
Em dezembro de
1903, combinaram almocar em casa do velho Felismino em Mano elos, na Parahyba.
Na occasião,
estava elle e Cocada e, ao entrarem na casa do velho, viram um offcial de
policia, que depois souberam ser o capitão Caetano com alguns soldados.
Logo que deram
com a presença da força fugiram precipitadamente.
Pouco adiante,
encontraram Silvino, que declarou não ter ido porque recebêra aviso de que a
força se achava à sua espera, em uma moita proxima á casa do velho Falismino.
Nesse momento,
Silvino contou que ha annos tinha travado um forte tiroteio na usina Santa
Filonilla, do qual resultou a morte de uma menina, facto que lamentara.
Sendo
apresentada na chefatura u'a macaca, confesou Rio Preto conhecel-a, dizendo que
pertencia á Balisa e não a Antonio Silvino, macaca, que fora deixada em
Taquaretinga, quando ali houve um tiroteio Com o destacamento.
impossivel
precisar as datas dos factos em que esteve envolvido, sendo natural não se
lembrar de todos eles.
Alguns factos
são attribuidos ao grupo de que fez parte, porém indevidamente.
Quando Cocada
assaltou a casa de Francisco Paes, foi por elle acompanhado e por Nevoeiro e
Relampago.
Relampago foi
quem, á ordem de Cocada, atirou no filho de Francisco.
Em dezembro do
anno passado, separouse de Cocada em Piraus, donde, em companhia de uma moça,
com quem pretendia casar dirigiu-se para o norte em procura de trabalho, pois
já se achava aborrecido da vida de cangaceiro.
Um mez e oito
dias passou em Mamanguape, em companhia da moça, trabalhando em terras de u'a
mulher conhecida ali I por Dona Anninha.
Todo tempo em
que ali esteve, conservou-se incognito. retirando-se por desconfiar ser preso
pela subdelegado, que desconfiava ter ele raptado a moça que o acompanhava.
Seguiu para o
norte. Cheganda em Goyanninha no dia 10 do corrente.
Ahi procurou
trabalho, sendo finalmente acolhido no engenho Jardim, onde foi preso no dia
seguinte á sua chegada.
O nome
verdadeiro de Cocada é Manoel Marinho, sendo sua idade 49 annos e natural da
Guarila termo de Itabayanna.
Antonio
Silvino conseguiu, por intermedio do coronel Belém, residente no Crato, do
Ceará, assentar praça em tres cangaceiros de seu grupo, conhecidos pelos nomes
de Dois Arros, Pau Revesso e Manoel Ventura.
Ha cinco annos
passados, uma força do Estado do Parahyba. commandada pelo tenente Paulino
Pinto, unida a outra força deste Estado, commandada pelo capitão Angelim
encontrou, no logar Surrão, Silvino, Antonio Francisco, Formigão, actualmente
separado do grupo, e muitos outros cangaceiros, em numero superior a 50, sob a
chefia de José Gato.
Resultou do
encontro renhido combate, do qual sairam muitos cangaceiros mortos e outros
feridos.
Na ocasião do
combate estava doente, o que motivou não tomar parte nelle.
Ao terminar o
fogo, Antonio Silvino fugiu, indo a ele reunir-se”. (DIARIO DE PERNAMBUCO,
Recife, quinta-feira, 29 de marco de 1906. Pag. 01)
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