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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Entrevista com o Escritor Adriano Marcena




O site Domingo com Poesia iniciou uma série de entrevistas com escritores, poetas e personalidades do cenário cultural do estado e do país. Nesta estreia, o escritor Adriano Marcena, um dos grandes nomes da cultura nordestina e em especial de Pernambuco, fala sobre o movimento literário do Estado, sobre o seu mais recente livro, entre outras questões.

Adriano Marcena é escritor, historiador, professor e dramaturgo, nasceu no Recife, em 1965. Estudou teatro na UFPE. Escreveu mais de 50 (cinquenta) textos para o teatro, muitos deles publicados, outros tantos encenados, inclusive fora do Brasil, e alguns nacionalmente premiados. Também concluiu o curso de Licenciatura Plena em História, com estudos voltados às relações simbólicas nas culturas brasileiras. Escreveu artigos científicos e de opinião para sites e revistas especializadas, além de proferir palestras e oficinas em seminários e encontros acadêmicos. Lançou, nacionalmente, o Dicionário da Diversidade Cultural Pernambucana, na São Paulo Fashion Week 2012 e, recentemente, Mexendo o Pirão, com incentivo do Funcultura.

DCP - Como você vê os caminhos da literatura em nosso estado?

AM - Poderemos pontuar essa questão de várias maneiras, mas nos deteremos em apenas alguns aspectos. Alguns avanços se deram, enquanto política pública de cultura, desde a formulação do Plano Nacional de Cultura-PNC que mudou o conceito de cultura nos livrando das famigeradas e reducionistas artes consolidadas. Ações como a criação da Diretoria do Livro, Leitura e Literatura (DLLL), do MinC, os Planos Estaduais do Livro, Leitura e Literatura implementados em alguns estados da Federação para discutir a cadeia produtiva do livro, além dos Pontos de Cultura, foi um novo olhar para a cultura dentro da política de Estado.

Isso permitiu ampliar editais públicos de cultura que, em sua maioria, contemplam as várias dimensões da literatura, inclusive sua relação com as outras manifestações culturais ou linguagens, além de publicações, oficinas literárias, pesquisas, contação de histórias, experiências griôs, rodas de diálogos com escritores, editores, tradutores e ilustradores, realização de feiras do livro e formação de novos leitores.

Os valores destinados aos programas públicos de literatura são insuficientes, para não dizer inexpressivos, diante das demandas atuais, acontecendo o mesmo com outras manifestações da cultura. Avanços foram dados? Sim, mas se desejamos tornar o Brasil um país de leitores é preciso, primeiro, torná-lo um país de cidadãos letrados. Digo cidadãos letrados, não literatos.
O problema é que o trato com a literatura e demais artes, quase sempre está associado às exigências pedagógicas muito mais preocupadas com a aprendizagem, que é o seu propósito, que com o prazer possibilitado pelo exercício dos imaginários e da própria fabulação estética.

O gosto pela leitura passa pelo exercício constante das sensações de agradabilidade proporcionadas pelo contato entre obra e leitor. No tocante ao aumento real da acessibilidade de novos leitores, creio que apenas os programas da pasta da cultura em suas esferas federal, estadual e municipal não minimizarão, sozinhos, problemas tão profundos no cerne da sociedade brasileira. Nesse caso, família, sindicatos, associações comunitárias, bibliotecas, igrejas, escolas e estado desempenham papel fundamental na questão.

Sobre o incentivo para novos escritores, dramaturgos, poetas, romancistas e contistas há tímidas iniciativas quase sempre em editais públicos, mas desconheço uma política de Estado pensada para formar e orientar profissionalmente os brasileiros que desejam ser literatos, ou seja, ter como ofício escrever obras literárias. Outro problema grave é o engasgo na distribuição da produção literária, pois envolve a relação entre autores e os interesses do mercado editorial que são enormemente complexos. Sem falar na discussão dos Direito Autorais.  Virão novas eleições em 2014 e precisamos estar atentos aos programas de governo dos candidatos e ver como eles tratarão o tema.
  
DCP – Qual a importância da pesquisa e consequentemente da literatura para você?

AM - Sem pesquisa não se escreve algo consistente. Refiro-me a pesquisa para além da experimental, teórica, empírica, exploratória, social ou histórica; pesquisa como estudo, inclusive da linguagem, da língua, da história e da filosofia da literatura. A importância da pesquisa permite que o escritor domine a ferramenta mais importante do seu ofício, que é a palavra em seus variados contextos. Uma coisa é a língua escrita, outra é a língua literária. É com o domínio desta última que se faz literatura e, dominá-la, exige dedicação monástica (do grego, monastikós,ê,ón  ‘solitário, relativo à vida solitária’). Lembrando que solitário não é sozinho.

DCP – O que você pode nos falar do seu mais novo livro “Mexendo o pirão”? Algum novo projeto já em vista?

AM - Pirão pra render é esse... O livro Mexendo o pirão: importância sociocultural da farinha de mandioca no Brasil holandês surgiu durante o curso de História quando decidi estudar as trocas culturais em Pernambuco. Ao ler várias fontes primárias, me deparei com relatórios de espiões dos Países Baixos enviados a Pernambuco antes da invasão holandesa  (1630-1654).

Percebi que a farinha de mandioca figurava na documentação sempre com uma advertência pejorativa para diferenciá-la da nobre farinha de trigo. Quer dizer, havia uma relação hierárquica muito evidente entre comida e identidade, fosse pela afirmação ou pela negação. A partir daí, me aprofundei na documentação e consultei diários de viagem, documentos administrativos e correspondências enviadas à Holanda por espiões e gestores da ocupação flamenga a Pernambuco, no período de 1637 a 1646, além de trabalhar com alguns textos dos cronistas da periodização da guerra.

Decidi pela História antropologizada, usando instrumentos metodológicos da Antropologia Cultural, que permitiria observar os documentos pelos fios das relações simbólicas, tendo como prato principal o encontro da cozinha seca dos indígenas com a cozinha úmida ou molhada dos lusos. Parece-me que o gosto do pirão mexido agradou...

Sobre o novo projeto de publicação também será na área de história da alimentação. Trata-se do livro Raspando o tacho - comida e cangaço: relações etnogastronômicas entre nômades e sedentários nos sertões nordestinos (1922-1938).

Neste livro, tentamos mergulhar no universo do cangaço para entendermos as relações entre nômades e sedentários em meio à complexa rede de interesses socioeconômicos que envolviam os atores sociais. Neste contexto, a obra percorrerá a forma como os cangaceiros adquiriam, transportavam, conservavam, preparavam os alimentos e os comiam, além do cuidado que tinham em se desfazer das sobras alimentares sem deixar rastro para a polícia. A edição traz ilustrações do poeta e professor Carlos Newton Júnior.

DCP – Qual a importância sociocultural da farinha de mandioca no Brasil Holandês?

AM - A comida é geradora de símbolos, logo, de identidades, como inclusão das escolhas culturais. A farinha de mandioca está entranhada em nosso DNA cultural muito antes de 1500. Era de extrema importância para os povos indígenas como parte integrante do complexo cultural da mandioca.
A invasão das tropas da Companhia das Índias Ocidentais a Pernambuco, no século XVII, destrói o modelo de produção agrícola que vinha sendo erguido desde a chegada de Duarte Coelho, no século XVI. Com isso, crises no abastecimento interno e também no envio de víveres para a colônia lusa faz a fome se instalar.

A farinha de mandioca, vista por portugueses e holandeses como comida inferior, passa a constar nas mesas daqueles que a difamavam, justo os mais abastados, constituindo-se como alimento para depois tornar-se comida. Ao saciar parte da fome seiscentista, a farinha tornar-se um dos ingredientes que ajuda a alimentar a invenção do nosso paladar.

É quase inconcebível pensarmos um Brasil sem farinha de mandioca para mexer pirão, fazer farofas, mingaus; também para misturá-la no sarapatel, no molho da cabidela, na graxa do guisadinho, na tanajura frita ou irmanada diariamente com o feijão diário do Nordeste brasileiro. Sua importância é porque a farinha de mandioca diz muito do que somos: um povo que incorporou ao longo dos séculos, apesar de negá-las, várias contribuições dos povos indígenas.

É bom lembrar que a casa de farinha se constituiu como importante instituição sociocultural correndo emparelhada com a casa de purgar o açúcar, casa de purga, desde os primórdios da invenção da brasilidade. Se o açúcar e todo seu complexo civilizacional enchiam o bolso a farinha, na outra margem do prato, herdeira da civilização da mandioca, enchia o bucho.

Ao deixar denso rastro no tacho da história do Brasil, a farinha afirma, como outras partículas culturais, que o índio participou de maneira consistente da formação simbólica dos brasileiros e, negá-los como grandes contribuidores deste País é negar quem somos.

Apesar de estarmos no século XXI, os indígenas ainda nos parecem ‘seres’ excêntricos, exóticos, enfim, estranhos, dos quais queremos distância (de nós mesmos), pois se assim agirmos corremos o risco de nos tornarmos incivilizados, pagãos ou incultos. Parece-me que só os aceitamos longínquos dos nossos apinhados civilizacionais, como se os índios nos infestassem de todo tipo possível de atraso.

Para muita gente, basta garantir ao índio uma data em nosso calendário nacional (Dia do Índio) e lembrá-lo como importante ‘peça’ do nosso folclore que está reconhecida a importância indígena entre nós. Sentenças dessa natureza soam tão arrogantes que beiram a imbecilidade pragmática.

DCP – E sobre a gastronomia, qual o seu valor na história dos povos?

AM - É bom lembrar que sem comida não há povos. O que comemos diz de onde somos, como fomos formados historicamente e o que somos enquanto possíveis significações de uma coletividade.

De forma quase imperceptível, a comida denuncia nossas querelas sociais e preocupações enquanto cidadãos, pois envolve saúde pública e do cidadão, nutrição, aspectos sanitários, estética, legislação, tabus, condição econômica e cultura, esta última, por ser a comida patrimonializável e contribuir para desenhar o nosso perfil identitário. Eis os motivos da sentença de Brillat-Savarin (1755-1826) não envelhecer: “Diz-me o que comes que te direi quem és”.

Enviado pelo escritor Adriano Marcena


Fonte: 
http://www.domingocompoesia.com.br

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Consolidação de um grande evento

Por: José Soares Neto
 
Soares Neto e equipe de Barbalha recebem Cariri Cangaço 2013

Caro amigo Severo, mais um ano de muita luta e muito brilho com o Cariri Cangaço de 2013. Com a consolidação deste grandioso evento devemos partir para uma segunda vertente nos anos vindouros, que seria a condição de podermos inserir neste período grandes palestras nas escolas de ensino médio dos municípios participantes; com isto, buscaríamos alcançar um público que em seu dia a dia, não têm a menor oportunidade de desfrutar de temas tão apetitosos e brilhantemente apresentados por seus respectivos palestrantes.

Que 2014 o sucesso seja ainda maior, pois os eixos temáticos do Cangaço quando a gente menos espera, ai é que tem coisa boa para se debater, descobrir novas amizades, bem como o reconhecimento de novos personagens através de lançamentos de livros, de conhecedores do cangaço, bem como, o desenvolvimento no campo do turismo de visitação com a construção de uma Rota do Cangaço na Região do Cariri Cearense, proporcionando a geração de emprego e renda movimentando a cadeia da economia criativa. Sucesso e até mais vê-lo. 
Soares Neto
Barbalha, Ceará

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Uma História de Amor e Fúria: Da Balaiada ao Cangaço Parte II

Por: Verônica Kobs


Se a Balaiada é uma espécie de movimento precursor do Cangaço, a análise que se faz de uma revolta também vale para a outra. Nesse aspecto, importa, sobremaneira, a revisão que se faz das “figuras de herói (Duque de Caxias) e vilão (o Balaio, líder do movimento)”. No final do século XX, às vésperas de o Brasil completar 500 anos, vários momentos e personagens fundamentais de nossa História foram revisados, em um processo longo e determinante para a reconstrução da identidade nacional, baseado em uma leitura mais crítica e questionadora dos fatos e no apagamento das divisas entre Ficção e História.


Os filmes Carlota Joaquina, princesa do Brazil; Desmundo; e Baile perfumado são alguns exemplos dessa reavaliação histórica, cujo principal objetivo era, a partir do distanciamento, da objetividade, apresentar os dois lados de cada questão, permitindo reflexão, crítica e propiciando até mesmo a invalidação dos mitos construídos pelo discurso histórico ao longo do tempo.
 
O Baile Perfumado

Dessa forma, a nova análise que pode ser feita do movimento da Balaiada (e que, pela relação resgatada em Uma história de amor e fúria, vale também para o Cangaço), em contraposição ao discurso histórico (e hegemônico), enfatiza mais as causas das revoltas (ou seja, o que levou os balaios e os cangaceiros a agirem como agiram, confrontando o poder oficial), destaca o aspecto humano dos movimentos e problematiza a manutenção da ordem a qualquer preço (com a vitória dos governantes e a derrota dos revoltosos por morte ou prisão).

A exemplo da Balaiada, o Cangaço também agia contra o Estado. Até mesmo as ações de Jesuíno Brilhante e de Lampião são em parte justificadas pela sede de vingança contra a Polícia. Isso sugere os desmandos e os abusos de poder daqueles que deveriam proteger e manter a ordem, mas que cometiam atrocidades, em nome do poder oficial. De fato, os papéis de herói e vilão não eram bem delineados, de modo que contradição e ambivalência atingiam todas as esferas de poder (incluindo a Polícia, os donos de terra e também os movimentos da Balaiada e do Cangaço). Aliás, esse tipo de conflito é comum a todos os movimentos políticos e sociais. Por trás de toda revolta e de todo líder revolucionário há um rastro de violência e de tragédias. 


Entretanto, o outro lado aparece na luta pelos ideais e no perfil de coragem e tenacidade de quem comanda a reação. Negro Cosme, por exemplo, que foi um dos líderes da Balaiada, “no período, foi visto por muitos como um bandido sanguinário, um facínora sem escrúpulos e até como feiticeiro chegou a ser tratado. Muitos desconhecem suas qualidades de grande líder” (SOUSA, 2013).

Com Lampião não foi diferente. Hobsbawn analisa esse tipo de duplicidade fazendo uso do conceito de “bandido social” para se referir àqueles que são “encarados como criminosos pelo Estado, mas que continuam a fazer parte da sociedade camponesa e são considerados por sua gente como heróis, como campeões, vingadores, paladinos, justiceiros, talvez até mesmo líderes da libertação (...)” (HOBSBAWN, 1969, p. 73).

Também relacionadas à causa de muitos sertanejos terem decidido entrar para o Cangaço estavam as tentativas de ascender social e economicamente e de garantir a proteção da família e de suas propriedades. A “política do medo”, a certeza do poder extraoficial e o mito da justiça social eram consequências da vida no Cangaço e, para muitos, significavam a possibilidade real de alcançar o que o poder oficial por si só não garantia a todos. Essa é mais uma semelhança entre os balaios e os cangaceiros, que acreditavam no levante como única forma de lutar por melhores condições de vida (e, muitas vezes, pela sobrevivência), em uma sociedade em que as leis e os direitos não eram iguais para todos. 


Evidente que isso não se relaciona apenas ao aspecto antropológico que o diretor de Uma história de amor e fúria quis enfatizar, como afirmou nas entrevistas em que falou sobre o filme, mas associa-se também à hierarquia e ao escalonamento social, próprios da filosofia marxista. Em ambos os casos, importam as diferenças entre os grupos sociais e os acordos e conflitos que elas estabelecem.

Como na Balaiada e nos demais episódios históricos representados no filme de Bolognesi, o Cangaço surgiu como um grito da sociedade civil contra o poder hegemônico. O atavismo que é mostrado na trajetória do protagonista do filme não está apenas nas sucessivas rebeliões. Ele aparece também nos diferentes modos de dar nome às classes participantes dos conflitos: ricos e pobres; patrão e operário; colonizador e colonizado; senhor e escravo; dominante e dominado. Mudam os nomes, muda a História, só não muda a política de dominação (que justifica a ênfase dada ao maniqueísmo, no filme), razão de inúmeras guerras - as que já foram e as que ainda estão por vir.

Verônica Daniel Kobs
Professora de Imagem e Literatura e de Literatura e Estudos Culturais,
no Mestrado em Teoria Literária da Uniandrade (Curitiba-PR). 



Referências:
sombria-do-brasil/>. Acesso em: 30 mai. 2013.
GUIMARAENS, G. Crítica: Uma história de amor e fúria. Disponível em:
. Acesso em: 30 mai. 2013.
HOBSBAWN, E. Bandidos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1969.
PASTORELLO, F. Uma história de amor e fúria. Disponível em:
. Acesso em: 30 mai. 2013.
SCHENKER, D. Entrevista: Luiz Bolognesi. Disponível em:.
Acesso em: 25 nov. 2013.
SCHWARZ, R. As idéias fora do lugar. In: _____. Ao vencedor as batatas. Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Livraria Duas Cidades; 34, 2000.
SERRA, A. A Balaiada. Rio de Janeiro: Bedeschi, 1948.
SOUSA, R. M. da C. Negro Cosme: uma página esquecida de nossa história. Disponível em: . Acesso em: 26 nov. 2013.
UMA HISTÓRIA de amor e fúria. Direção de Luiz Bolognesi. BRA: Gullane Filmes; Europa Filmes, 2013. 1 dvd (75min); son.


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