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segunda-feira, 16 de março de 2020

FIM DO CANGAÇO: AS ENTREGAS

 Autor Luiz Ruben F. de A. Bonfim

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JUNIOR ALMEIDA: A VOLTA DO REI DO CANGAÇO NO FESTIVAL DE INVERNO DE GARANHUNS


Entre em contato com o professor Pereira através deste e-mail:  franpelima@bol.com.br

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SANTANA E O JEGUE

Clerisvaldo B. Chagas, 16 de março de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.274

Povoado, vila e cidade de Santana do Ipanema, Alagoas, até a década de 1960, bebiam água azinhavrada das cacimbas arenosas do leito do rio Ipanema. Essas águas, tanto das cacimbas quanto das cheias, eram também usadas nas tarefas domésticas. Até mesmo telhas e tijolos fabricados às suas margens contavam com as águas salobras do rio. Para abastecer as residências, a água do Panema ficava armazenada em potes, jarras e porrões (u) de barro. A quartinha, também de barro, esfriava a água que era servida nos copos. Mas, como era trazida a água da fonte para as casas? Conduzida à cabeça, pelas mulheres, em latas e potes de barro com rodilhas. Para lugares mais longe a tarefa era exercida por jumentos (mais de cem) cada qual equipado com manta, cangalha, quatro ancoretas, quatro ganchos e cabresto. Alguns desses jegues usavam quatro latas acomodadas em caçambas de madeira, no lugar das ancoretas.
JUMENTO E BOTADOR D'ÁGUA EM FOTO ARTÍSTICA DE B. CHAGAS)

Pessoas menos letradas chamavam as ancoretas (pequenos   barris de madeira) de ancorota. Foram os jumentos que impulsionaram a nossa civilização com esse trabalho supimpa. Era dirigido pelo seu dono que não tinha outra denominação a não ser “botador d’água”. Nem “aguadeiro” nem “tangedor”, essas expressões não existiam. O costume de chamar o condutor do jegue de “tangedor” em nossa região, é um erro.
O jegue foi reconhecido como amigo do sertanejo pelo, então, prefeito Adeildo Nepomuceno Marques; este ergueu uma estátua ao jerico juntamente com o seu botador d’água, em homenagem aos relevantes serviços prestados por ambos ao povo santanense. A obra foi encomendada ao escultor de Pão de Açúcar, Lisboa. Muito polêmico na época, o monumento de concreto firmou-se e hoje é também um símbolo nordestino e mundial pela bravura em conviver com a estiagem característica do clima sertanejo.
Agora o orgulho é geral e a famosa estátua ao jegue recebe os visitantes que vêm das bandas da capital, bem defronte a rodoviária.
Virou febre do artesanato no semiárido.


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UMA FOTOGRAFIA

*Rangel Alves da Costa

Eu estava revendo umas fotografias quando me deparei com uma onde eu estava sentado ao lado de um cemitério, bem na proximidade de túmulos.
Lembro-me bem como ocorreu a fotografia. Passeando pelos arredores da cidade, então cheguei a primeira capela construída em Poço Redondo, meu berço de nascimento, no sertão sergipano.
A capelinha de Santo Antônio surgiu por iniciativa das primeiras famílias que habitaram aquela região denominada Poço de Cima. O pequeno cemitério que hoje circunda a capela não nasceu para o sepultamento de pessoas das pessoas de toda a povoação, mas somente daqueles das primeiras origens.
Hoje existe a capela restaurada e o pequeno cemitério ao redor, em campo aberto, sem cercas ou muros, e com pessoas sepultadas até mesmo de outras localidades.
Mas a feição do lugar, não só da capela como das sepulturas espalhadas, acaba como um fascínio aos bons observadores, aos que gostam de história e a todos que admiram conhecer as raízes da povoação.
Por ali eu sempre andejo, pois sempre caminho pelos arredores da cidade em busca de cacos do tempo. Muitas vezes já visitei a capelinha e caminhei entre os túmulos, observando nomes e datas, imaginando coisas e situações.
E certa feita resolvi pedir a alguém que me acompanhava para tirar uma fotografia que pudesse eternizar minha visita ao local. Avistei uma pedra ao lado e fui sentar. Tirada e guardada e fotografia, então a reencontrei. E para ela escrevi o texto que segue:
Uma fotografia. Uma capelinha. Um pequeno cemitério ao redor. Eu sentado numa pedra. Túmulos ao redor. Então eu disse em seguida:
Um dia eu sentei aí, tão perto da morte, exatamente para pensar a vida. Eu não estava aí só para visitar ou fotografar, mas para compreender a vida ao redor da morte.
Um dia eu caminhei até o Poço de Cima e adentrei pelos arredores de sua igrejinha, onde túmulos foram sendo abertos desde os primórdios de Poço Redondo, exatamente para estar na presença daquelas partidas e daquelas saudades.
Certamente que eu não cheguei e nesta pedra sentei e logo pedi para ser fotografado. Calmamente caminhei entre as sepulturas, li os epitáfios, identifiquei os nomes e datas grafados nas cruzes, meditei naquele silêncio que era de voz e de grito.
Nada que ecoasse dos túmulos, mas dos meus próprios pensamentos. Um turbilhão de coisas chegando, como se não houvesse coisa mais instigante na vida do que a morte.
Perguntas e respostas, interrogações e espantos, lembranças e relembranças, diálogos com o estranho e desconhecido mundo, enfim.
Aquele silêncio de planície, aquela calma de afastamento da cidade, aquela paisagem bonita e triste. O que é a morte? Perguntei-me. Logo respondi: É a presença na inalcançável distância.
Ora, para grande parte dos humanos, a morte nunca é exatamente fim para o ente que partiu. A morte leva, distancia, mas grande parte fica no luto, na saudade, na contínua presença.
A dor pela perda de alguém é exatamente esta: o distanciamento forçado do ente amado. E quanto mais se quer a presença mais a saudade e a dor retomam o entrelaçamento.
Acaso o esquecimento fosse a consequência mais lógica, certamente não haveria saudade, tristeza, desejo de presença, o contínuo entrelaçamento.
E as cruzes, os epitáfios e as flores dos túmulos, dariam lugar ao reles esquecimento, e a voracidade do tempo logo encobriria os leitos do repouso último.
E perante os túmulos ali espalhados, a minha certeza de estar ainda diante de tantas vidas. Vidas silenciadas, mas vidas. Nomes, sobrenomes, datas, lembranças das feições em vida.
Que sono profundo, que paz no Senhor!

Escritor
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SERTÃO NORDESTINO E SUAS HISTÓRIAS DO CANGAÇO



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ENTREVISTA COMPLETA DE OLEONE FONTES CONCEDIDA À EQUIPE DO CENTRO DE ESTUDOS EUCLYDES DA CUNHA



Entrevista completa de Oleone Fontes concedida à equipe do Centro de Estudos Euclydes da Cunha – CEEC/UNEB na ocasião da produção do documentário "ASSIM ERA DADÁ – A Vida Pós Cangaço de Sérgia da Silva Chagas". Direção Geral: Manoel Neto Direção de Fotografia: Lucas Viana Assistência de Produção: Vicente Rivelino Link para o documentário: https://youtu.be/rlo0A2bMKZU Inscreva-se no canal do CEEC para acompanhar nossas próximas produções: https://www.youtube.com/channel/UCw6t... 

FACEBOOK: https://www.facebook.com/ceecuneb/ TEL: (71) 3321-5081 Rua do Cabeça, n. 10 – Ed. Marquês de Abrantes, 8º Andar – Sala 812, Salvador-BA, Brasil. CEP:40060-230

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ASSIM ERA DADÁ | INDAIÁ SANTOS (ENTREVISTA COMPLETA)



Entrevista completa de Indaiá Santos concedida à equipe do Centro de Estudos Euclydes da Cunha – CEEC/UNEB na ocasião da produção do documentário "ASSIM ERA DADÁ – A Vida Pós Cangaço de Sérgia da Silva Chagas". Direção Geral: Manoel Neto Direção de Fotografia: Lucas Viana Assistência de Produção: Vicente Rivelino Link para o documentário: https://youtu.be/rlo0A2bMKZU Inscreva-se no canal do CEEC para acompanhar nossas próximas produções: 


FACEBOOK: https://www.facebook.com/ceecuneb/ TEL: (71) 3321-5081 Rua do Cabeça, n. 10 – Ed. Marquês de Abrantes, 8º Andar – Sala 812, Salvador-BA, Brasil. CEP:40060-230.

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SERRA DE NAZARÉ DO PICO, LUGAR ONDE LAMPIÃO PASSOU...

Por Verluce Ferraz

A Serra de Nazaré do Pico, no Município de Floresta do Navio-Pernambuco, foi um dos lugares em que Virgulino, o Lampião, passou; mas com coragem e altivez, o Povo Nazareno, construiu a Villa de Nazaré, a Igrejinha de Nossa Senhora da Saúde, e, toda a família, conseguiu expulsar o cangaceiros da Terra Nazarena, uma Terra Santa.

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SANTINHO O SANGUINÁRIO TENENTE QUE COMBATEU LABAREDA EM FÁTIMA

Disponível em: https://lampiaoaceso.blogspot.com/search?q=Ladislau

Ladislau Reis de Souza ficou conhecido no sertão baiano como o “Tenente Santinho”. De acordo com texto postado no blog “Lampião Aceso” do pesquisador Kiko Monteiro, o tenente santinho tinha fama e atitude de um homem extremamente duro, para não dizer cruel, com os cangaceiros.

Sua fama de homem implacável no combate ao cangaço ecoou pelos quatro contos em toda essa região. Muitos cangaceiros pereceram sob o fuzil do tente Ladislau, alguns com requintes de crueldade como o caso do cangaceiro Baliza, brutalmente torturado, pendurado de cabeça para baixo em uma árvore e queimado vivo pelo cruel Tenente.

Na obra “O mundo estranho dos cangaceiros”, do renomado escritor Estácio de Lima, Ângelo Roque, o Labareda, narra com detalhes as suas andanças pelos sertões enquanto combatia nas frentes do cangaço. Labareda relata a chegada do seu grupo no lugar chamado Monte Alegre, onde foi surpreendido pela volante do tenente Santinho. Segundo Labareda, o grupo foi recebido por um vaqueiro de nome Manoel Gregório. Era um dia de domingo e o bando descansou, comeu e dançou. Entretanto, a volante comandada por Santinho entrou em pesado confronto com o grupo de cangaceiros. Ainda segundo os relatos de Labareda ao professor Estácio de Lima, um dos cangaceiros foi baleado e morreu na hora, sua cabeça foi cortada pelos soldados e levada à Jeremoabo.

De acordo com relatos de antigos moradores de Fátima, Monte Alegre foi um dos nomes através dos quais Fátima foi chamada no passado. Borges (2006) chega a firmar que tal nomenclatura fora dada à povoação por conta da alegria do seu povo, o que eu, pessoalmente, acho improvável.

Mas voltando ao caso do Monte Alegre narrado por Ângelo Roque, eu conversei com Kiko Monteiro e buscamos evidências que nos fizessem acreditar que tal povoação era, de fato, a atual cidade de Fátima. Neste caso, até existe uma cidade homônima em Sergipe, mas de acordo com a narrativa de Labareda, conhecido pela excelente memória, o grupo estava na região de Paripiranga, onde sobe o Vaza Barris, assassina um soldado na Ponta da Serra, em Adustina, e Segue para Monte Alegre. Esses fatos, de acordo com sua narrativa ocorrem em questões de poucos dias (A Estimativa feita por Kiko Monteiro é que, de Paripiranga à Monte Alegre Sergipana levaria pelo menos uma semana de caminhada). Tudo isso, aliado ao fato de a volante do Tenente Santinho, ser mais atuante no sertão baiano e não no estado de Sergipe, nos leva a crer que, de Fato, o povoamento citado por Labareda e reproduzido por Estácio de Lima em seu livro era realmente Fátima.

Já era sabido que o bando de Ângelo Roque, o Labareda, atuou fortemente por toda essa região, contudo, a história citada na obra “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, coloca Fátima definitivamente no rol dos cenários das lutas entre cangaceiros e soldados nos anos 1920/1930. Um outro dado curioso é que a morte de um cangaceiro pela volante e a sua decapitação, por via de regra, significa que o corpo do bandoleiro sem a cabeça foi enterrado no local da morte, ou seja, em solo fatimense. O relato de Labareda nos leva a crer que o combate com a volante de Santinho se deu nos arredores do povoamento de Monte Alegre, contudo, o seu local exato é desconhecido.

O tempo decorrido desde o acontecimento, possivelmente fez com que a história se perdesse na memória do fatimense, entretanto, histórias de cangaceiros são recorrentes entre as pessoas mais velhas em nossa cidade. Essa história específica, possivelmente contribuiu para a formação de todo esse enredo popular.


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JORNAL DE PARIPIRANGA NOTICIA A PASSAGEM DE LAMPIÃO PELA REGIÃO

Patrocínio do Coité, 23 de dezembro de 1928. Jornal O Paladino. Ano X - N° 9.

Na edição de 23 de dezembro de 1928 o jornal O Paladino da então Vila de Patrocínio do Coité noticiava a passagem do rei do cangaço por essa nossa região. Os fatos da reportagem foram narrados à redação do jornal pelo Coronel João Sá que tinha encontrado com Lampião e seu bando no Sítio do Quinto na noite anterior. O Coronel, deputado naquela ocasião, seguia de Jeremoabo (escrito com “G” na época) para Salvador em seu automóvel Ford na companhia do seu pai e de um aliado político, um dos trajetos da viagem era seguir de Jeremoabo para Salgado onde pegaria o trem em direção à capital baiana. Na altura do atual município de Sítio do Quinto o coronel e seus companheiros de viagem foram surpreendidos pelos cangaceiros. A conversa foi amistosa, Lampião pediu dinheiro para o político e foi prontamente atendido. Na verdade, nascia ali uma longa amizade que traria benefícios para João Sá, mas também problemas com a justiça.
          
De acordo com a reportagem, de passagem pela vila do Coité, João Sá relata o seu encontro com o bandoleiro e a história logo vira notícia. É bem possível que a população local tenha ficado apreensiva com a proximidade do grupo de Lampião da povoação. O encontro de Lampião com os moradores de Patrocínio do Coité não tardaria a acontecer.
           
A passagem de Virgulino Ferreira as Silva e seu bando por toda essa região é narrada com riqueza de detalhe por Oleone Coelho Fontes no livro Lampião na Bahia de 1988. Na obra é relatada a entrada do grupo na Bahia, fugindo de intensa campanha de perseguição das volantes de Pernambuco após a frustrada tentativa de invasão da cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Após esse fato, Lampião e parte do bando ruma para a Bahia onde alega chegar em paz, mas logo entraria em confronto com a polícia local.
           
A edição do jornal Paripiranguense compõe o acervo da UNIAGES e foi enviada ao Blog HF pelo pesquisador Juan K. Menezes e é mais uma fonte a atestar a intensa atividade de cangaceiros por essa circunvizinhança. 


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domingo, 15 de março de 2020

LIVROS "PEREIRAS" DO PAJEÚ E "FEITOSAS" DOS INHAMUNS - HISTÓRIA GENEALOGIA


Outra grande obra com a assinatura do Professor Venicio Feitosa Neves que se avizinha, trazendo a história das famílias "Pereira" do Pajeú e "Feitosa" da região dos Inhamuns no Ceará.

Recentemente o Professor Venicio Feitosa Neves lançou o Livro "O PATRIARCA - CRISPIM PEREIRA DE ARAÚJO (IOIÔ MAROTO", um estudo com 712 páginas, focado na saga dos colonizadores, origens das famílias Feitosa dos Inhamuns e Pereiras do Pajeú, coronelismo, biografia e história do patriarca Crispim Pereira de Araújo e narrativas do cangaço.

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INDICAÇÃO BIBLIOGRÁFICA

Por Francisco Pereira Lima

O excelente livro Flores do Pajeú, de Belarmino de Souza Neto, sempre será indicado como fonte de estudo e pesquisa sobre fatos referente ao Pajeú pernambucano. Quem desejar adquirir este e outros 550 títulos: 

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TACANDO FUMO NOS CABRAS

Clerisvaldo B. Chagas, 12 de março de 2020
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.273


Estive na casa do senhor Luís Soares Filho em manhã de domingo de 2 de abril de 2006, localidade Aterro. Fiz uma entrevista com o popular Luís Fumeiro, então, com 83 anos de idade. O homem que era feirante, negociava com fumo de rolo vindo de Arapiraca. Era comum encontrá-lo aos sábados na Feira do Fumo, primeiro entre o “prédio do meio da rua” e o “sobrado do meio da rua”, depois, defronte ao Mercado Público e finalmente por trás da Rua Ministro José Américo. A entrevista completa está no livro inédito: “O Boi, a Bota e a Batina, História Completa de Santana do Ipanema”. O entrevistado parecia ansioso e fez o seu desabafo, ainda com uma lucidez impressionante.
LUÍS, AO CENTRO. (FOTO: B. CHAGAS).

Foi ele quem fundou a Avenida Nossa Senhora de Fátima (via da Câmara de Vereadores), com cinco casas. Foi ele também quem fundou o time de futebol Ipiranga, que se tornou o principal adversário do Ipanema, por longos anos. Luís dá detalhes de tudo. Ainda foi ele quem fundou a rua do antigo Aterro, onde morava na época da entrevista; rua que faz parte da BR-316 e desafoga o trânsito de Santana do Ipanema. Da última metade do século XX, o bloco carnavalesco “Os cangaceiros” foi um dos mais famosos de nossa folia. Também foi Luís Soares o seu fundador que gastava muito dinheiro em carnavais e pastoris. O time do Ipiranga sempre foi sustentado por ele e não pedia ajuda a ninguém. Todos os anos o fumeiro fazia uma casa para vender e aplicar a verba no Ipiranga.
Pessoa pacata e empreendedora, morava com a mãe – senhora   de idade avançada – na rua onde atualmente funciona a popular empresa ROBRAC. Quase defronte. Vez em quando eu lhe fazia uma visita em sua casa para ouvir suas ideias. Outras vezes as visitas eram feitas à sua própria banca de feireiro, onde o encontrava animado, mas sempre com alguma sombra de preocupação nos gestos. A feira específica foi migrando em diversas gestões municipais, mas nunca neguei a minha presença à banca do fundador e dono do Ipiranga. Luís faz parte muito forte da história do nosso município.
Sempre que eu chegava à sua banca, a saudação e a resposta eram quase sempre as mesmas: “Diga aí, amigo, o que estar fazendo?”.
E Luís, entre a ironia e a tristeza: “Tacando fumo nos cabras”.


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NO PASSO, NA CAMINHADA...

*Rangel Alves da Costa

Sou de passo, sou de estrada e de caminhada. O olhar tantas vezes avista ao longe, mas nunca como ir mais distante e conhecer o além mais além, o que até não se imagina que possa existir. E há tanto há se descoberto que não é pouca caminhada que possa encher a cuia.
Minha curiosidade me faz querer saber sempre mais. E de trás pra frente e da frente pra trás. Nada melhor que conhecer a raiz e não somente a flor. Quem se acostuma a somente avistar o que vive por riba, jamais vai conhecer a fonte rica que corre embaixo.
E é no adiante que está a história. História fincada no tempo, escondida em escombros, oculta entre tufos de mato. Ou mesmo gritando pelos fantasmas que ainda vagueiam pelas distâncias. Mas tudo possível de ser encontrado, visto, conhecido.
Sim, o meu passo vai, minha caminhada segue, minha necessidade de conhecer me guia. Não há tempo de chuva ou sol, nublado ou de indecisão, pois sei que tenho de andar por aí para escrever na memória cada letra avistada na vida, do antigo ao agora.
Chego na beirada do pote e o barro antigo, lanhada de tempo e sede, sempre me ensina alguma coisa. Chego perante a cancela do velho casebre e os restos toscos e encardidos daquele mundo, ecoam a me chamar para conhecer suas entranhas. E vou...
Aió e embornal pelos cantos, candeeiro de parede e oratório de fé, tudo me ensina. Enxada e enxadecos, foice e gadanho, retalhos de chão e história, de luta pela sobrevivência e retratos do mundo-sertão. Sou moço do mato, sou da cidade não. Nem quero ser.
O batente ainda manchado do sangue da luta, o tronco alquebrado mais adiante, o esquecido baú com suas saudades guardadas, tudo isso me ensina. E também me ensina a palavra matuta, a mão calejada, a face marcada de tempo. Olhares fundos e profundos, testemunhos de tudo aquilo que tanto eu quero ouvir, saber e conhecer.
Não prossigo sem antes seguir aos pés da cruzinha abandonada, já pendendo ao chão, sem mais dizer quem ali tombou pela emboscada. Que tocaia maldosa. Sim, sei que houve um tempo de armas famintas e gemidos soltos, de estampidos saídos dos canos vorazes e de corpos estendidos ao chão. Histórias de carnicentos, de urubus, de gaviões e carcarás.
E vou lendo nas paisagens as letras pelos anos já apagadas. Ninguém quer falar sobre aquilo. Dói demais, dizem. Eu sei que dói. Conheço as artimanhas e os labirintos desses sertões. Um sertão tão belo como a florada do mandacaru, como a suntuosidade da flor da jurubeba, mas também tão feio e medonho quanto a fome, a sede e as vinditas de sangue.
Os clavinotes ainda estão apontados entre os tufos de mato. Cangaceiros, jagunços, volantes, bandoleiros de paga, tudo ainda assombra e amedronta. As folhagens farfalham gemidos estranhos. A avoação da tem-tem anuncia uma presença escondida. Quem será? Meu Deus, meu Deus...
Os cemitérios estão debaixo dos umbuzeiros e suas fitas e suas cruzes choram as saudades tantas. Rosários e terços perante o meu olhar. As mãos velhas passeiam ao paraíso enquanto as bocas sussurram as sagradas confissões. Eita coisa bonita nesse povo: sempre o céu na lua, sempre o céu no sol, sempre o céu no prato cheio ou na panela vazia.
Mas também ainda ouço as sentinelas, as ladainhas, os ofícios de um povo ajoelhado aos pés do altar. As igrejinhas silenciam mistérios. Os santos e anjos saíram para visitar os empobrecidos destes sertões. Por isso que sempre encontro um fogão de lenha aceso. Abro a porta da velha igreja e ajoelho-me.
Mas não sei rezar, confesso. Só sei pedir a Deus que sempre proteja esse sertão e o seu povo. E não se esquecendo de que também sou sertanejo.

Escritor
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O SAMURAI DO SERTÃO.

Por João Filho de Paula Pessoa

Segundo o historiador e pesquisador Frederico Pernambucano de Mello, a estética do canganço foi um fato de extrema riqueza material, moral, cultural e histórica, que seguiu acompanhada por fortes códigos de honra, e poucos personagens na história da humanidade tiveram tamanha riqueza de indumentária e estilo. Afirma o historiador: “Nisso, talvez apenas o Cavaleiro Medieval Europeu ou o Samurai Oriental possa rivalizar com o nosso capitão do cangaço” e, “A despeito de ser um criminoso muito violento e sem escrúpulos humanitários, era um homem que tinha um requinte muito grande e um senso estético à flor da pele” e diz ainda “Eu diria que Lampião e o cangaço, indissoluvelmente ligados, respondem pela formação da mais importante mitologia popular brasileira, que é uma mitologia baseada no épico e que foi objeto da ocupação das mais ilustres cabeças do país, como José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado”. 

João Filho de Paula Pessoa, Fortaleza/Ce. 14/02/2020.


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LAMPIÃO E O TORMENTO DA LEPRA.

Por João Filho de Paula Pessoa

Conta-se que por volta de 1926, quando Lampião andava pelo Ceará já como capitão, certa vez, após alguns combates nos sertões de Pernambuco e Paraíba, fugiu pelo sertão cearense e embrenhou-se na remota caatinga em busca de refúgio e ao longe, avistou uma precária casa de taipa no meio do nada e foi até lá em busca de água e comida, ao se aproximar percebeu que não havia rebanho, nem criações, mas havia pessoas na casa. Mandou um de seu cabras chamar o morador, que o fez, porém sem resposta, mandou então que batesse na porta, sem derrubar, pois estavam em terras de Pe. Cícero, este bateu várias vezes, mas não abriram. Lampião impacientou-se e foi até a porta e bateu fortemente com a coronha de seu rifle, ordenando que abrissem senão poria a porta à baixo. A parte superior da porta abriu-se pela metade e por esta brecha ouviu-se uma fraca voz perguntar o que queriam. Lampião anunciou-se dizendo que vinham em paz e precisavam de água. Disse a voz, que tinham água, mas que de sua água Lampião não poderia beber. Lampião irritou-se pela insolência e disse que abririam fogo contra a casa e pegariam a água de qualquer jeito e mandou o bando preparar as armas para abrirem fogo, momento em que a porta se abriu por completo e mostrou duas almas moribundas envoltas em trapos brancos encardidos por todo o corpo, inclusive nos rostos, mais parecendo umas múmias vivas com cheiro de morte. Lampião assustou-se pavorosamente, baixou a guarda e todos do bando também baixaram as guardas assustados. Uma destas criaturas desenrolou os panos da cabeça e mostrou seu rosto desfigurado pela lepra, que já tinha corroído parte de seus lábios e nariz, sua bochecha, deixando aparente e expostos seus dentes e mandíbula lateral até a orelha, também já corroída pela doença, e num ar desafiador e desesperançoso encarou Lampião e esperou por sua atitude, como se não temesse a morte. Lampião nesta hora escureceu a vista, a tontura tomou conta de seu corpo e atônito lutou par manter-se em pé, extremamente impressionado enfrentou o desmaio e o calafrio, o suficiente para fazer o sinal da cruz três vezes, beijar seu escapulário e retirar-se vexado dalí aos enjoos, levando consigo aquela perturbadora visão, que atrelada à suas inúmeras crenças e superstições, tornou-se um tormento em seus medos, presságios e pesadelos por muito tempo. 

João Filho de Paula Pessoa, Fortaleza/Ce. 26/02/2020.


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O DESCANSO DO DIABO NA IMENSIDÃO DO MAR.

Por João Filho de Paula Pessoa

Corisco, o Diabo Loiro, morreu em 1940 e foi enterrado no cemitério da Consolação em Miguel Calmon/Ba, doze dias após o enterro, seu corpo foi exumado e sua cabeça e seu braço esquerdo arrancados. A cabeça de Corisco ficou exposta à visitação pública durante 30 anos no Museu Antropológico Nina Rodrigues em Salvador ao lado das cabeças de Lampião, Maria Bonita e de outros cangaceiros mortos em Angicos. Em 1969, o Governo da Bahia publicou um decreto para o sepultamento das cabeças dos cangaceiros, pondo fim àquela exposição macabra. Dadá identificou os restos mortais de Corisco enterrados há trinta, os quais foram juntados, formando a integralidade do corpo e sepultado novamente. 


Dadá faleceu em 1994, em Novembro de 2012, seu filho Silvio Bulhões, já com idade avançada e considerando que o corpo de seu pai permaneceu desmembrado e separado por trinta anos, com parte dele, cabeça e braço, exposta à curiosidade alheia por todo este tempo e considerando ainda que a cabeça de Corisco estava embalsamada e que poderia durar ainda muitos e muitos anos, podendo ser explorada futuramente por algum descendente ou museu, o exumou novamente, pela terceira e última vez, o cremou e jogou suas cinzas na imensidão do mar em 2013, para que seu pai, enfim, tenha um permanente e seguro descanso eterno. 

João Filho de Paula Pessoa, Fortaleza/Ce. 11/02/2020.


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"O SUCESSOR DE LAMPIÃO. CORISCO."POR GONÇALO FERREIRA DA SILVA.



UM BREVE RELATO SOBRE O CANGACEIRO, QUE QUERIA SER REI MAS NÃO PASSAVA DE UM VASSALO DA CORTE.

Serviu em Sergipe no Batalhão de Caçadores. E Maynard revoltado, seus próprios inferiores, estes foram transformados em soldados desertores.

Houve debandada feito ensurdecedor tropel o desertor perseguido tão leal quanto cruel o fugitivo Corisco abandonou o quartel.

Corisco sofreu o mais cruel martírio. Indefeso quando Herculano Borges mandou conduzi-lo preso. Todo tipo de torturas sofreu Corisco, e desprezo.

Estando no Nordeste em vigência a lei do mais forte quem dessa forma humilhasse o valente homem do Nordeste com sua mão assinava sua sentença de morte.

Quem provocava em Corisco tão dolorosas feridas cedo ou tarde pagariam com as suas próprias vidas quando as cartas do baralho da sorte fossem invertidas.


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DONA NAIR VIU "LAMPIÃO"

Por Antônio Corrêa Sobrinho

Toda vez que boto os pés em Nossa Senhora da Glória, cidade do sertão sergipano, lembro que ela foi visitada por Lampião e asseclas em 1929, e fico a imaginar, em cima do que nos conta a história, como isso se deu.

Estou de novo na antiga Borda da Mata, e agora lembrei da matéria que há dois anos aqui publiquei, sobre a entrada de Lampião nesta, à época, minúscula localidade do sertão sergipano, hoje cidade progressista e porta de entrada do nosso sertão.


Leiam o texto até o fim, para saberem de dona Nair, a senhora que me disse que viu Lampião; ela que já se aproxima de um século de vida.

EM BUSCA DE LAMPIÃO

Demorar um pouco mais na sertaneja e progressista cidade sergipana de Nossa Senhora da Glória, antiga Borda da Mata, onde estou nestes dias, a trabalho, foi a disponibilidade de tempo que eu precisava para ir a lugares que Lampião e seus asseclas Luiz Pedro, Volta Seca, Quinta Feira, Ezequiel (Ponto Fino), Virgínio (Moderno), Corisco, Arvoredo, Ângelo Roque (Labareda), Mariano, Delicado e Zé Fortaleza (Fortaleza II), no dia 20 de abril de 1929, nesta cidade estiveram em razia.


Fui ao local da feira, onde Lampião e os seus amigos cangaceiros fizeram-se presentes, até assistiram à morte de um bode, ali mesmo, na feira; feira onde ele, quieto, tranquilo e bem humorado, deu esmolas, agradou a crianças, conversou com pessoas. Tirei foto onde funcionava o salão de Zé Besouro, onde Lampião fez a barba. Também da Intendência, hoje a Prefeitura, cujo gestor João Francisco de Souza (Joãozinho), também comerciante de tecidos, tratou Lampião muito bem e atendeu a todas às suas reivindicações: bom dinheiro, lauto almoço e animais de montaria. E a Cadeia, segundo consta, xadrez sujo e fedido, onde ficaram presos enquanto Lampião agia, sem antes entregarem as armas, o sargento Alfredo e os soldados Osório, João e Zé Rodrigues.

Nada, porém, foi mais interessante do que o encontro que eu tive com a senhora Nair Aragão Feitosa, de 95 anos, viúva do ex-escrivão Pedro Alves Feitosa, ofício que ela também exerceu; dona Nair que foi uma das centenas de pessoas que naquele dia, estiveram a mercê do mais temível bandoleiro das terras sertanejas.


Embora convalescendo de uma cirurgia ortopédica, mas lúcida como poucos na sua idade, dona Nair me disse coisas a respeito desta presença de Lampião, confirmando o que disseram os pesquisadores. Informações que, considerando a sua pouquíssima idade em 1929, ela, em boa parte, deve ter obtido de terceiros, no correr dos seus anos.

Porém, o que eu mais queria dela, era saber se ela realmente viu Lampião.

Quando lhe fiz a pergunta, ela respondeu imediatamente, sem pestanejar, que sim.

Disse dona Nair que naquela manhã estava em casa, uma edificação situada na praça da feira, e ouviu quando o seu pai bradou: “Lampião entrou, Lampião entrou!” Portas e janelas foram fechadas, e de uma fresta na janela, a uns 20 metros de distância, ela com alguns da família viram claramente quatro cangaceiros, juntos, em pé, parados, segurando o fuzil fora de posição, na vertical, cano pra cima, coronha no chão. Tinham chapéus grandes na cabeça, que brilhavam muito, reluziam, contou ela.

Num momento, seu pai lhe disse: “Lampião é aquele mais alto, o de óculos”.

Ela voltou a dizer, também com gestos de mãos, sem eu perguntar: Os chapéus deles brilhavam muito...

Perguntei se seu pai teve medo. Ela disse que não.

Nossa conversa durou pouco, não quis cansá-la, em razão de sua idade e de seu estado de saúde, mas o suficiente para, atento às suas palavras, ao tom de sua voz e, principalmente, ao seu olhar que parecia vivenciar aquele inesquecível instante, aquele misto de medo, apreensão, curiosidade e expectativa, eu saí transbordante de satisfação. Agora eu posso dizer que estive com alguém que, muito provavelmente, viu Lampião, o rei do cangaço, este que fez dona Nair recordar e contar essa história durante toda a sua vida.

Nossa Senhora da Glória/SE, 22/01/2015.

Foto da hoje centenária, a notária Nair Aragão Feitosa, extraída da obra "Grandes Notáveis", de Euvaldo Lima.



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