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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Malhada da Caiçara e a Caravana Cariri Cangaço

Por: Manoel Severo

O cenário é simples, a casa de taipa poderia passar como qualquer uma das muitas espalhadas pelo nosso sertão, mas o magnetismo do lugar enfeitiça a todos. Assim é a Malhada da Caiçara, berço de uma das Marias mais famosas do nordeste e do Brasil: Maria Gomes de Oliveira, ou Maria Déa, a Maria do Capitão que depois tornou-se Maria Bonita.

Manoel Severo, João de Sousa, Aderbal e Karlon

 Valentim, Juliana Ischiara, Lívio, Afrânio e João

A Malhada da Caiçara, fica cerca de 13km do rodovia que liga Paulo Afonso a Jeremoabo; ali foi  perpetrada pela Prefeitura de Paulo Afonso a restauração da casa onde nasceu Maria Déa transformando-a em Museu Casa de Maria Bonita. Além de resgatar um dos mais importantes cenários da história do cangaço, possibilitando a todos conhecer as raízes da "morena da terra do condor", também foi um passo importante na direção de criar condições para o pleno desenvolvimento do turismo cultural sustentável, o que já começa a acontecer na região.

Lívio Ferraz e Juliana Ischiara

Pedro Luiz, João de Sousa Lima e Aderbal Nogueira

Pedro Luiz, João de Sousa Lima e Aderbal Nogueira

Múcio Procópio

Luca, o mais novo investigador do cangaço...

Desde meados do ano de 1929 que Lampião e seu bando mantinham pela região da Malhada da Caiçara, Sítio do Tará e por toda Serra do Umbuzeiro amigos importantes que seriam fundamentais na sustentação do grupo pelas terras sertanejas da Bahia, Odilon Café e Zé de Felipe, tio e pai de Maria Bonita, estavam entre esses e a partir das constantes visitas ao lugar, nasceu a atração entre o rei e a futura rainha do cangaço. Ao abandonar o casamento com o sapateiro Zé de Nenem e partir em companhia de Virgulino, Maria inaugurou a entrada de mulheres nos bandos cangaceiros.A Caravana Cariri Cangaço-GECC mais uma vez pisava em terras da Malhada da Caiçara, passagem também obrigatória para todos que pesquisam o tema cangaço.

Manoel Severo

Cariri Cangaço
http://cariricangaco.blogspot.com

LUA CHEIA (Crônica)

 Por: Rangel Alves da Costa

Rangel Alves da Costa


LUA CHEIA

Dizem que num lugarejo distante, lá perto do meio do mundo, o cotidiano das pessoas era dividido em duas situações diferentes: antes e depois da lua cheia surgir.

Lua cheia, como todo mundo sabe, é aquela fase onde a lua reflete sobre a terra na sua totalidade. Na lua cheia o disco lunar está completamente iluminado. E a força desse clarão refletido na terra traz consequencias imprevisíveis.

Quando a lua está totalmente iluminada os corpos também se acendem, se enchem de chamas. Os pensamentos afloram, os desejos se tornam incontidos, a sexualidade se torna vulcânica. Os lobos uivam nos seus montes, outros animais desandam a fazer besteiras, a pedra abre os olhos para chorar de saudade, as árvores começam a desesperadamente voar. Os passarinhos se escondem. Dizem...

Na lua cheia os gatos não miam, mas falam gritando, com gemidos roucos, chamando a gataria para compartilhar safadezas. Dizem que o vento perde a noção de direção, se torna ventania e vai entrando pelas janelas das moças solteiras. E a primeira coisa que faz é jogar os cobertores pelo ar. Quando as virgens se alvoroçam já é tarde demais. As portas e janelas batem como se quisessem sair do lugar. Muitos pedem para ser acorrentados antes dessa fase da lua chegar.

Os doidos enlouquecem ainda mais, gritam, urram, soltam grunhidos terríveis. Querem voar, querem sumir, querem apaixonadamente amar a lua. Sobem nos montes e de braços abertos imploram para que o cavalo de São Jorge venha buscá-los. Os cemitérios se agitam, as catacumbas se abrem, defuntos passeiam com flores mortas nas mãos. Os cachorros se engatam na voracidade do sexo. Muita viúva já foi vista completamente nua e correndo faminta atrás de macho.

Mas no lugar descrito acima, aquele em que a vida se diferenciava entre o antes e o quando a lua cheia chegava, a situação era ainda mais vexatória e complicada. Difícil descrever tanta insanidade, tanta volúpia, tanto afloramento de prazeres, tantas revelações em pessoas insuspeitas, tanta loucura mais louca ainda, tanto festim desajuizado, tanto tudo.

Um dia antes de a lua surgir repleta e misteriosa, naquele brilho estonteante de realmente ensandecer qualquer cristão, duas beatas corriam para a igreja e imploravam de joelhos para que fossem amarradas ao pé da cruz. Tinham medo que o ouro lunar despertasse os desejos escondidos que tanto sonhavam em praticar. E se o padre aparecia, tentavam se soltar a todo custo e se meter debaixo da batina do homem.

Este, o padre, nem se fala. Durante o período de lua cheia não saía da igreja de jeito nenhum, trancando-se na sacristia a rezar incontidamente para aliviar os tantos pecados que carregava nas costas e, logicamente, por debaixo dos paramentos. Mulherengo que só, se sentia ainda mais possuído pelos desejos incontidos em fazer outras confissões amorosas às sonsas beatas e ás pecadoras que chegavam ali com cara de santa. E às escondidas todas iam sendo abençoadas no antro que era a sacristia.

O doido subia no telhado e lá ficava gritando enciumado, perguntando se a lua de mel havia feito amor com outro. E dizia que ia pegar uma escada que desse pra chegar até lá e acabar de vez com aquela história do dragão que nela fazia moradia. Chamava São Jorge de corno e dizia que a lua era dele, só dele. Mas com a doida era diferente, pois ficava numa sanidade tamanha que chegava a temer por aquela maluquice toda do povo em polvorosa.

Debaixo do clarão da lua rapaz virava boiola, aviadado paquerava as mocinhas, o mais sisudo dos homens saía pulando corda, rodopiando com bambolê e dando incontidas gargalhadas. A doceira colocava dois quilos de sal na cocada, o carteiro chorava lendo as cartas de amor de canto a canto da cidade. Uma solteirona esperta, mulher de mais de sessenta, fugiu da cidade no dia anterior e só apareceu por ali pra fazer o rapaz inocente assinar papel de casamento. Quando a lua partiu já havia acontecido a lua de mel.

Creio que eu não precisaria estar lá para enlouquecer mais ainda. Reconheço-me insano na mesma proporção da insanidade daqueles que, sem razão, amam demais. Mas não atiro pedras. Mas canto meu amor na janela e jogo flores.


Rangel Alves da Costa*
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Dona Generosa e a Caravana Cariri Cangaço

Por: Manoel Severo
Capela da Vila de Dona Generosa

Uma das passagens obrigatórias para quem visita Paulo Afonso, é sem dúvidas a Vila de Dona Generosa; uma das mais emblemáticas coiteiras de Virgulino Ferreira e seus grupos, na região. A Vila, composta pela Casa Grande, Capela, Pequeno Cemitério e Casas agregadas, formam um cenário por demais familiar a Lampião e seus "meninos", que por ali passavam costumeiramente quando andavam pelos lados da serra do Umbuzeiro.

Serra do Umbuzeiro



Caravana Cariri Cangaço e as Ruínas da Casa de dona Generosa


Muitas histórias e "causos" pontuam a relação de Virgulino Lampião com dona Generosa. Os famosos bailes promovidos na Casa Grande, quando se podia sentir "o perfume dos cangaceiros de longe", as supostas suspeitas de dinheiro colocado na mão da coiteira para administrar rebanhos do "Capitão rei do cangaço" são exemplos da forte ligação de Lampião com toda região.

João de Sousa Lima, Manoel Severo e a Caravana Cariri Cangaço-GECC na Vila de dona Generosa


Manoel Severo


Cariri Cangaço
http://cariricangaco.blogspot.com/


Aflição (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa
Rangel Alves da Costa


Aflição
 
 
Bicho arriba
da ribanceira do ribeirão
não tem mais lama
não se bebe a sequidão
se muge no tempo
sem haver consolação

vou fazer uma promessa
sei mais que rezar oração
acendo vela na nuvem
pra chover no sertão...

catingueira torta
parecendo árvore morta
não vi o velório da mata
mas vi tristeza que corta
o coração que se maltrata
a chorar de revolta

vou fazer uma penitência
vou ajoelhar pelo chão
sentir o espinho na pele
sacrifício e devoção...

menino não chore não
amanhã será outro dia
coma esse resto de pão
esqueça tanta agonia
logo se ouvirá um trovão
na chuva que se anuncia

vou abrir meu oratório
preciso do São José
pela estrada em ofertório
vou carregar a minha fé...
 
 
 
Rangel Alves da Costa
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Subsídios para a História de Mossoró - 27 de Fevereiro de 2012

Por: Geraldo Maia do Nascimento
Em 1872 surgiu em Mossoró o jornal O Mossoroense, orgão do Partido Liberal do Município, o qual fez ao Padre Antônio Joaquim e ao Partido Conservador, chefiado pelo mesmo, tenaz oposição. Esse jornal saia aos domingos e em todos os números publicados fazia acusação ao dito Padre e aos seus correligionários.

Geraldo Maia do Nascimento
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comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.
Fonte:

Bárbara de Medeiros..Lançamento Hoje!


Antes mesmo de comentar o convite acima, não poderia deixar de registrar o primeiro contato que tive com a autora em questão: Bárbara Medeiros. Era janeiro de 2009 e estávamos em Pipa, Rio Grande do Norte em um almoço marcado para o Restaurante Lampião, juntamente com os amigos Aderbal Nogueira, Carlos Santos e Honório de Medeiros. Chegamos eu e Aderbal com as respectivas famílias; Honório estava nos aguardando ao lado do jornalista Carlos Santos e de uma bela e taciturna adolescente: Bárbara.
Quem tem o prazer de privar da amizade e do convívio da família do confrade Honório de Medeiros depois descobre que por tras daquela adolescente serena e calada, se encontrava um verdadeiro e encantador talento. Bárbara é assim, devastadora ! Tão jovem e já com tanta coisa para contar, e conta bem ! Nada foge ao seu doce e aguçado olhar de menina moça. Seus mairores companheiros: Os livros... E de vez em quando, um ou outro cangaceiro ou volante, amigo de seu pai.
Manoela, Manoel Severo e Bárbara Medeiros
Certamente a noite de hoje será inesquecível, não só para seus pais, Honório e Michaela, nem para seu irmão, Diogo, nem para os que forem até o  Restaurante La Tavola, mas será inesquecível para todos que acreditam na vida, que vale a pena viver e sonhar, e construir dos sonhos, maravilhosas realidades. Parabens Bárbara, de toda família Cariri Cangaço.
Manoel Severo
Extraído do blog: "Cariri Cangaço"

A atual Lagoa do Mel

Por: Manoel Severo
 
A região da Lagoa do Mel, hoje totalmente mudada com a agricultura irrigada proporciona uma produção constante e vitoriosa que é toda comercializada pelas feiras da região, seu Antônio mantém o cultivo em consorcio, de várias culturas. O período do preparo da terra, do semeio, da floração, a colheita e a comercialização são cuidadosamente acompanhadas pelo agricultor que confirma a qualidade da terra milagrosa encravada em plena caatinga.
Visão da Serra do Umbuzeiro, a partir da Lagoa do Mel
Senhor Antônio, proprietário do lugar
Valentim Antunes
João de Sousa Lima
Múcio Procópio Conselheiro
Manoel Severo

Extraído do blog: "Cariri Cangaço"

Uma viagem de muitas alegrias e uma tristeza

Por: Aderbal Nogueira
Aderbal Nogueira e sertão da Bahia
A Caravana Cariri Cangaço - GECC foi para mim uma viagem de muitas alegrias e uma tristeza. Alegria em reencontrar grandes amigos, porque não dizer "IRMÃOS" João de Souza, Jairo Luiz, Antônio Vilela, Mestre Alcino, entre outros que sempre estão a nos esperar. Alegria maior em reencontrar meu amigo Candeeiro, seu Né, como é carinhosamente chamado Manoel Dantas Loyola, que me chama de 'Derval'.
Parece que foi ontem que estive com ele e sua generosa família pela primeira vez. Há aproximadamente 18 anos atrás, onde a incerteza de uma boa acolhida me fez parar na entrada da vila e ficar cerca de 15 minutos hesitando em me aproximar de sua pessoa. Mas, para minha surpresa, a receptividade foi supercalorosa e ao longo desse tempo a amizade entre sua família e a minha só aumentou, a ponto de Eliza, sua filha, me chamar de irmão. Para mim não importa mais quem foi seu Manoel Dantas Loyola, pois agora para mim ele é apenas seu Né.
Tenente João Gomes de Lira
Tristeza profunda também ao passar na entrada de Nazaré e não avistar mais aquela cadeira de balanço ali em frente da casa onde sempre encontrava nosso fiel amigo João Gomes de Lira. Quanta saudade. Dezenas de viagens e sempre ele estava ali. Calmo, com uma serenidade que me impressionava, com uma segurança plena que nos dava a idéia de como devia ter sido na juventude. Dessa vez não tive coragem de entrar em sua casa, agora vazia, sem a sua presença. Somente a casa. Com certeza alguém estava lá dentro, alguém de sua família que sempre nos recebeu tão bem. Em outra viagem vou criar coragem e lá vou adentrar e tenho certeza que a receptividade será a mesma.
Ao entrarmos na estradinha de terra para a casa de seu Luiz de Cazuza o meu desejo não iria se realizar. Sabia que meu querido amigo não estaria mais lá para nos recepcionar e prosear horas a fio, rindo e contando histórias de sua vida centenária. Seu Luiz foi, sem dúvida, aquele que mais me fez rir das histórias do Cangaço. Com ele vi que até nas horas tristes se tira momentos interessantes. Sei que para algumas pessoas como Paulo Gastão, Ângelo Osmiro e alguns outros que tiveram a honra de conhecê-lo mais de perto, essa dor da falta ainda vai durar. Lá não pude conter as lágrimas ao abraçar sua filha, e chorei por dentro e por fora.
Para terminar, agradeço a todas essas pessoas que, de uma maneira ou de outra, me contando as suas vidas, sem querer me fizeram uma pessoa melhor.
Aderbal Nogueira
Sócio da SBEC, Diretor do GECC
Conselheiro Cariri Cangaço

Tipos populares de Mossoró - 26 de Fevereiro de 2012

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Toda cidade, por menor que seja, tem suas personalidades de costumes estranhos, diferente do habitual, do aceitável, que agem fora das normas de vivência e dos costumes da comunidade. São os chamados tipos populares, figuras obrigatórias na vida de uma comunidade. 
Em Mossoró, como na maioria das cidades do interior, alguns desses tipos tornaram-se bastante conhecidos, ao ponto de mesmo depois de suas mortes continuarem sendo lembrados por suas esquisitices. Vamos recordar duas figuras do passado, que terminaram entrando para a história por serem diferentes: 

Manuel Cachimbinho, por exemplo, cujo nome verdadeiro era Manuel Lima da Silva. Viveu em Mossoró numa época em que a cidade passava por transformações estruturais, com a expansão do trem de ferro e dos automóveis de buzinas estridentes. O apelido vinha do fato de estar sempre com um cachimbo na boca, vício que o acompanhou até a morte. Apesar de ter a mente perturbada, era manso como um cordeiro. Vivia na rua pedindo esmolas. E, como diz o ditado, cada doido tem sua mania, Manuel Cachimbinho passou a imitar os carros e trens que circulavam pela cidade. Era um veículo humano, com suas curvas fechadas, em constantes correrias. Ninguém o via senão correndo pelas ruas ou chegando e saindo da cidade. O jornalista Lauro da Escóssia, em matéria escrita sobre o assunto, conta que “certa vez Manuel Cachimbinho ganhou aposta com o trem, ao saírem ambos da estação ferroviária em demanda da ponte de ferro sobre o rio Mossoró. Chegou ao local antes do trem apitar na curva da avenida Alberto Maranhão.” Como disse o jornalista, “Cachimbinho encontrou na linguagem dos automóveis, a impressionante motivação para se anunciar no seu santo ofício de pedestrianismo”. 
Certa vez, saiu correndo do centro da cidade em direção a sua modesta morada situada no sítio Pintos, onde encontrou a sua mãe sentada na porta de entrada da casa. Buzinou, buzinou, deu curvas e como não encontrou área suficiente para acesso à moradia, acelerou a carreira jogando a velha fora do trânsito. 
Outra figura bastante estranha que apareceu em Mossoró pelos idos de 1943 foi o chamado “homem cabeludo”, fazendo assombração, causando espanto pela originalidade de sua vivência nas matas, com cabelos longos em desalinho, barbudo e, além do mais, vivendo completamente despido. Seu nome era João Raimundo, fanático do beato José Lourenço, fugitivo do Caldeirão desde os instantes em que a polícia decidiu dispersar o grupo. O Caldeirão do beato José Lourenço era terra que pertencia ao padre Cícero Romão Batista. Com a morte do padre, as terras foram herdadas pela Ordem Religiosa dos Irmãos Salesianos que não mediram esforços para desocupar a propriedade. João Raimundo passou sete anos fugitivo da civilização. Viveu todo esse tempo uma vida nômade, tendo como companheiros apenas feras e pássaros, alimentando-se de raízes e do que mais conseguia para comer. 
Era realmente espantoso ver aquele homem selvagem, tanto assim que passou a ser chamado por muitos de Tarzan, o que lhe rendeu reportagem nos jornais da época. 
Preso, certa vez na chapada, foi levado à cadeia do Apodi e dali mandado para Pau dos Ferros, de onde era natural e onde havia deixado mulher e filhos. As autoridades daquela região, por não terem nenhuma reclamação contra ele, resolveram deixa-lo em liberdade, desde que voltasse a civilização. Porém solto, voltou a vida selvagem e dessa vez com um agravante: passou a dizimar o rebanho que encontrava. Novamente preso, veio para Mossoró onde, antes de ser recambiado para Natal, teve seu cabelo e barba cortados e foi fotografado. Depois da prisão em Natal, não se teve mais notícias do homem cabeludo.
               

Figuras de comportamento estranhos vivendo em comunidades sempre houve e sempre haverá, como os dois que acabamos de descrever. Outros, como Zé Alinhado e Benício Gago, viraram nomes de ruas em Mossoró como nos conta Raimundo Soares de Brito em seu recente trabalho sobre os patronos das ruas de Mossoró.

Geraldo Maia do Nascimento
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Fonte:

Cabeças Cortadas

Por: Rubens Antonio
Esta surgiu como uma área da Ciência, pendendo entre Medicina Forense, Medicina Legal e Antropologia Física. Propunha-se a localizar e provar que as características de uma pessoa estavam impressas e expressas no formato do crânio.
Desta maneira, o dito "caráter" de uma pessoa já viria marcado desde o seu nascimento. Haveria uma "natureza" de cada indivíduo materializada fisicamente.
No Brasil, o expoente desse conceito foi o Raimundo Nina Rodrigues, nascido em Vargem Grande, Piauí, em 1862, com curso de Medicina em Salvador e Rio de Janeiro.
Estabelecido em Salvador, deu aulas na Faculdade de Medicina. Seu trabalho girou em torno de uma "Antropologia Patológica".
Seus trabalho detém um cunho marcantemente racista, com destaque para ataques às miscigenações. Em sua visão, os miscigenados seriam aqueles que mais mostrariam características tendendo à criminalidade.
Conselheiro.
Nina Rodrigues faleceu em Paris, em 1906, sendo inumado, finalmente, em Salvador, Bahia.
Em contraposição a essa linha, elevaram-se vozes, cujo resplandecer mais claro apareceu nas linhas de Euclydes da Cunha. Este, vindo acompanhar o massacre da Rebelião Conselheirista de Canudos, objetivava flagrar confirmações da posição de Nina Rodrigues. Entretanto, o que testemunhou colocou-o na senda contrária.
Daí, em vez de estropiados fracos, viu-se obrigado a reconhecer:
"- O Sertanejo é, antes de tudo, um forte!"
Entretanto, adentrado o século XX, a linha de Nina Rodrigues seguiu firme, através de vários discípulos.
Estabeleceu uma forte escola assentada nas suas propostas.
Daí, quando aconteceu o evento do Cangaço, tornou-se lugar comum o estudo das cabeças dos Cangaceiros abatidos. O primeiro deles foi a do cangaceiro Gavião, que chegou a Salvador no início de 1930. Quando aprisionado, o cangaceiro Volta-Secca, tiveram os discípulos da proposta de Nina Rodrigues a oportunidade de realizar o estudo do seu crânio em vida. Procuraram sempre indícios da marginalidade e decadência.
Estudaram-se os crânios dos cangaceiros abatidos na Lagoa do Lino, no caso, Azulão, Canjica, Maria e Zabelê. Finalmente, estudaram-se os crânios dos cangaceiros abatidos em Angicos, em 1938.
Um estudioso que começou a se destacar, apontando o caminho da derrocada da Frenologia, foi Estácio de Lima. Nascido em Marechal Deodoro, em Alagoas, em 1897, cursando Medicina, acabou se tornando docente das Faculdades de Medicina e Direito da Universidade Federal da Bahia, antigo catedrático de Medicina Legal da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública da Universidade Católica de Salvador e da Faculdade Federal de Odontologia. Nesse caminho tratou de integrar a luta para desfazer a antiga linha de Nina Rodrigues.


Estácio de Lima
Em sua visão, o meio, a Vida e a História são os elementos que influenciam diretamente na tecitura dos caráteres humanos.
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Como fruto do momento em que ainda se acreditava na Frenologia, os crânios de Lampeão e Maria Bonita foram estudados.
Abaixo o estudo dos seus crânios, conforme apareceu reproduzido na publicação:
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BEZERRA, João. “Como dei cabo de Lampeão.” Recife (Pernambuco): Fundação Joaquim Nabuco - Editora Massangana, 1983.
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O "estudo antropométrico" foi assinado pelo dr. Lages Filho, então diretor do Serviço Médico Legal de Alagoas.
O resultado do estudo antropométrico da cabeça de Lampeão
Infelizmente o estado em que a cabeça chegou à morgue não permite um estudo acurado e minucioso à luz da antropometria criminal e da anatomia, pois atingida por um projétil de arma de fogo que atravessou o crânio saindo na região occiptal, fraturando o mandibular, o frontal, o parietal direito, o temporal direito e os ossos da base que ficaram reduzidos a múltiplos fragmentos. Todavia, podemos traçar-lhe o perfil antropológico: Pele pardo-amarelada, podendo-se classificá-lo como pertencente ao grupo dos “brasilianos xantodermos”, da classificação de Roquette Pinto: testa fugidia, cabelos negros, longos e arrumados em trança pendente; barba e bigode por fazer, de pelos lisos negros e falhos. Dolicocéflo, contrastando com os outros indivíduos do seu grupo étnico, em geral braquicéfalos. O perímetro cefálico é igual a 57 centímetros. diâmetro transversal máximo atinge 150 milímetros, índice encefálico 75. Sua face é de tamanho relativamente reduzido, impressionando à primeira observação as dimensões do mandibular pequeno e com os ramos horizontais a formar um ângulo reto no encontro dos ramos ascendentes, correspondentes. Assim, é o comprimento total do rosto de 170 milímetros, o comprimento total da face de 130 milímetros, o comprimento simples da face de 85 milímetros, o diâmetro gigomático ou transverso máximo da face, de 160 milímetros, índice facial da boca 53,12. Nariz reto, de ápice grosso e rombo, guardando ao dorso a impressão dos óculos, com altura máxima de 50 milímetros e largura máxima de 37 milímetros. O índice nasal transverso 64 milímetros, uma mesorrínia franca, lábios finos. Largura da boca 57 milímetros. Abóbada palatina ogival, dentes pequenos podendo-se enquadrá-los no grupo dos microdontias; orelhas assimétricas, havendo desigualdade manifesta no desenvolvimento das partes similares (orelha Blainville). O comprimento da orelha direita alcança sessenta e cinco milímetros. A largura da orelha direita é de 40 milímetros. comprimento da orelha esquerda 55 milímetros.
A largura da orelha esquerda é de 40 milímetros. Índice auricular de Topinar, tendo-se em conta as dimensões da orelha direita de 65 milímetros. Na face há visível, na região masseterina direita, uma pigmentação escura arredondada, medindo três milímetros de diâmetro, em nervus congênito. O olho direito apresenta um leucoma, atingindo toda a córnea. em resumo; embora presentes alguns estigmas físicos na cabeça de Lampeão, não surpreendi um paralelismo rigoroso entre os caracteres somáticos da degenerescência, revelados pela mesma e a figura moral do bandido. assim, apenas verifiquei como índices físicos de degenerescência as anomalias das orelhas, denunciadas por uma assimetria chocante, a abóbada palatina ogival e a microdontia. Faltam as deformações cranianas, o prognatismo das maxilas e outros sinais aos quais Lombroso tanta importância emprestava para a caracterização do criminoso nato. Todavia, nem por isso os dados anatômicos e antropométricos assinalados perdem a sua valia pelas sugestões que oferecem na apreciação da natureza delinqüencial de Lampeão.
Resultado do exame da cabeça de Maria Bonita
A cabeça de Maria Bonita deu entrada às 10 horas da noite de 31 de julho de 1938 no Serviço Médico-Legal do estado de Alagoas em mau estado de conservação, razão por que não foi retirado o encéfalo, já reduzido a uma pasta esbranquiçada e amorfa que se escoava pelo orifício occiptal. as partes moles infiltradas não permitiram fossem melhor apreciados os traços fisionômicos da companheira de Lampeão, os quais, aliás, não pareciam desmentir o apelido que lhe deram. Aparentava ser uma mulher de trinta a trinta e cinco anos de idade. À primeira impressão, o que mais prende a atenção é vêem vê-la é a sua testa alta e de todo vertical. cabelos negros, longos, finos e lisos, arrumados em tranças pendentes. Tez morena clara. Pode ser incluída no grupo dos brasileiros xantodermos da classificação de Roquette Pinto, o perímetro encefálico é de 57 milímetros. O diâmetro ântero-posterior máximo é de 195 centímetros. O diâmetro transversal máximo mede 150 milímetros. O índice cefálico, 33. Portanto, braquicéfala. O comprimento total do rosto alcança 190 milímetros. O comprimento total da face é de 120 milímetros. O comprimento simples da face, 153 milímetros. Índice facial da boca, 47,0. Lábios grossos, sendo a largura da cavidade bucal de 45 centímetros. Dentes pequenos, bem plantados e em excelente estado de conservação. Olhos castanhos escuros.
São estes os principais elementos colhidos, traçando-se o perfil antropológico de Maria Bonita. Não denunciam eles a existência de quaisquer estigmas de degenerescência ou sinais atávicos. Na busca de sua constituição delinqüencial muito mais importância teria o estudo psicológico que permitiria pôr em relevo os caracteres fundamentais de sua personalidade.
Em verdade, uma conclusão definitiva e segura só poderia ser tirada da apreciação físico-psíquica e biográfica da vítima, único meio capaz de revelar suas tendências ciminosas, mesmo se despertadas pela paixão e pelo amor.
Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço, Rubens Antonio