Seguidores

domingo, 10 de junho de 2012

Os Festejos juninos - 10 de Junho de 2012

Por: Geraldo Maia do Nascimento

É só chegar o mês de junho que as cidades, na extensão do Ceará à Bahia, se enfeitam de balões, bandeirolas de papel colorido, além de montar suas tradicionais fogueiras, para comemorar as chamadas “Festas Juninas”.

               
As Festas Juninas, historicamente, estão relacionadas com a festa pagã do solstício de verão, que era celebrada no dia 24 de junho, segundo o calendário juliano (pré-gregoriano) e cristianizada na Idade Média como \"festa de São João\" ou festa “Joanina”. O nome joanina teve origem, segundo alguns historiadores, nos países europeus católicos no século IV. Quando chegou ao Brasil foi modificado para junina.
               
Na Europa antiga, durante o solstício de verão - dia mais curto com noite mais longa do ano - era comemorado o início da colheita. Nessas festas eram oferecidas comidas, bebidas e animais ao deus Juno, da fertilidade, além da fogueira, para espantar os maus espíritos e as danças características da época. O costume vinha de datas imemoráveis e servia para celebrar o ponto alto do verão, até a festa ter ganhado caráter religioso. Então a igreja escolheu exatamente o dia 24 de junho em memória de São João Batista, para banir os velhos costumes pagãos praticados na mesma data. As primeiras referências às festas de São João no Brasil datam de 1603. As festas de Santo Antônio e de São Pedro só vieram mais tarde, mas como aconteciam no mesmo mês, foram incluídas nas chamadas festas juninas.
               
Essa tradição chegou ao Brasil através dos jesuítas portugueses. Mas antes, os índios já realizavam rituais também relacionados à agricultura, que aconteciam no mesmo período, para que a colheita fosse boa. Dessa mistura das comemorações dos índios com a dos jesuítas portugueses, as festas juninas foram ganhando forma e incorporando o famoso jeitinho brasileiro. E esse jeitinho pode ser percebido principalmente na alimentação, quando foram introduzidas as comidas de milho, o jenipapo, o leite de coco e também nos costumes como no forró e no bumba-meu-boi. A quadrilha, que era a dança da nobreza européia, foi adaptada aos festejos juninos. Já os fogos de artifício, que tanto embelezam a festa, foram trazidos pelos chineses. Os fogos eram utilizados na celebração para despertar São João e chamá-lo para a comemoração do seu aniversário. Outra finalidade dos fogos era que o barulho de bombas e rojões podia espantar os maus espíritos. O costume de soltar balões surgiu da idéia de que eles levariam os pedidos dos devotos aos céus e a São João. Essa prática foi proibida devido ao alto risco de os balões provocarem incêndios. A cerimônia de levantamento de mastro de São João é chamada de “puxada do mastro”. Além da bandeira de São João, o mastro pode ter a de Santo Antônio e São Pedro.
               
Para os católicos, a fogueira, que é maior símbolo das comemorações juninas, tem suas raízes em um trato feito por Isabel com a sua prima Maria, para avisá-la sobre o nascimento do seu filho, São João Batista, e assim ter seu auxílio. Após o parto Isabel mandou acendeu uma fogueira sobre o monte como sinal de que o seu filho tinha nascido.
               
No Nordeste, em épocas passadas, existia uma tradição que mandava que os festeiros visitassem em grupos todas as casas da comunidade, levando alegria. Os donos das casas, em contrapartida, mantinham sempre uma mesa farta de bebidas e comidas típicas para servir os grupos. Os festeiros acreditavam que o costume era uma maneira de integrar as pessoas da cidade. Essa tradição tem sido substituída por uma grande festa que reúne toda a comunidade em volta dos palcos onde prevalecem os estilos tradicionais e mecânicos do forró.
               
O Brasil é um país muito rico em acervo cultural, mas é de fundamental importância conhecê-lo, para que possamos compor a identidade de nosso povo. É através destas manifestações folclóricas, que mantêm vivas as tradições e costumes de um povo, preservando deste modo, sua identidade para futuras gerações.

Todos os direitos reservados 

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.


Autor:
Jornalista Geraldo Maia do Nascimento


Conheça o potiguar que serviu a quatro ex-presidentes do Brasil

Luiz Arruda

João Baptista Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor de Mello e Itamar Franco têm muito em comum. Além de ex-Presidentes da República, eles foram também as autoridades que estavam sob responsabilidade de serem conduzidas pelo potiguar de Caraúbas, Luiz Arruda Silva, 64 anos, que hoje vive em Natal (RN).

Luiz Arruda foi o motorista particular dos quatro ex-Presidentes da República, entre maio de 1980 e agosto de 1994, quando se aposentou do serviço público federal. Trabalhava no Departamento de Segurança Pessoal do Presidente da República. Tem distintivo e fotografias para comprovar. Foram anos de serviço público prestado à Nação que ainda hoje são assunto das reuniões de família. 

O potiguar que conheceu os bastidores do poder no Brasil. 

Talvez sem perceber o quão importantes os momentos vivenciou, Luiz Arruda Silva revela um pouco da História do Brasil recente, marcado por, pelo menos, dois grandes acontecimentos contemporâneos: a redemocratização do país e a cassação do primeiro presidente da história do país. A O Poti/Diário de Natal, ele não conta como as coisas ocorreram conforme está escrito nos livros, mas revela o que ocorria do lado de fora das repartições pública de Brasília. Como esteve o tempo todo ali, aguardando a maior autoridade do país, o potiguar guarda relatos, desabafos, momentos de crise que ele guarda na memória. Muitos o motorista compartilha nesta reportagem.

Outros, pela própria natureza de seu ofício, terá que levar ao túmulo. Ele esperava os presidentes sairem de casa, os levava e trazia de compromissos oficiais nas embaixadas, ministérios, no Palácio do Planalto e também nas visitas oficiais. 

Luiz entrou no Exército Brasileiro em 1966 e serviu em batalhões de Natal e Picos (PI). Em 1972 saiu da corporação e foi morar em Brasília (DF), a Capital Federal, que na época ainda era uma cidade jovem e muito promissora. Havia sido inaugurada em 1960 por Juscelino Kubitschek (1902-1976). Em 1978 o potiguar decidiu entrar novamente no Exército, desta vez através de concurso. Passou a trabalhar no Quartel-General, já na função de motorista.

Dois anos depois estava dirigindo para o último presidente da ditadura militar, João Baptista Figueiredo. "Tinha um vizinho que perguntou se eu queria trabalhar na Presidência da República. Sabia que era muito difícil por causa da gratificação, mas aceitei. Três meses depois, fui nomeado". 

Até hoje, a Presidência da República não tem quadro de pessoal, nem civil nem militar, e ele ficou durante todo o período em que foi motorista lotado no quadro de funcionários do Exército, cedido ao Palácio do Planalto. Só que não foi tão fácil assim assumir a função. Ele fez provas, testes práticos, psicológicos e médicos antes de integrar a equipe de motoristas, na época formada por 15 homens, cinco escalados por dia de trabalho. Com o perdão do trocadilho, a rotina era corrida. 

Rotina de motorista 

Quando morava na Capital Federal, Luiz teve direito a um apartamento funcional no Guará II, distante 13km do Plano Piloto. Tinha também à sua disposição carro oficial para deixá-lo e pegá-lo em casa antes de ir ao Planalto. Os carros do presidente tinham que dormir na garagem da Presidência, nunca com os próprios motoristas. "Collor vendeu os apartamentos funcionais, e eu decidi comprar o meu, que depois vendi e comprei essa casa aqui em Natal". 

A mulher, Adelcina, as duas filhas, o genro e a neta, já estão acostumados com as histórias de Luiz, e foram conhecer Brasília (DF) no ano passado. "Moramos 23 anos em Brasília. Conhecemos também os quatro ex-presidentes. Dona Marly Sarney era uma simpatia", diz Adelcina. 

Ainda hoje Brasília fascina o motorista. Luiz poderia ter ficado por mais tempo trabalhando com os presidentes, mas não se arrepende de ter saído, embora não sinta falta da época. "Passou, né?", fala francamente. Só um detalhe curioso: dos quatro ex-presidentes não ficou nenhuma mágoa, apenas de outro, que não esteve sob a responsabilidade de seu volante. Fernando Henrique Cardoso (que ele conheceu ainda quando foi Ministro da Fazenda do governo Itamar), depois que tomou posse como presidente fez uma reforma administrativa na estrutura do Poder Executivo e congelou várias gratificações, incorporando-as ao salário do funcionalismo. 

"Como não me aposentei como motorista do presidente, já que não havia quadro próprio, fiquei recebendo apenas o salário, como qualquer outro aposentado do Exército". 

Ele acredita que pela responsabilidade da função, merecia mais do que recordações, fotografias e o distintivo que recebeu. Pela experiência lado a lado com o poder, Luiz sempre acompanha o noticiário nacional. Gosta de ler jornais e sempre observa o cenário político, em especial o que fazem os presidentes depois que ele deixou o volante do carro oficial. Com relação a Luiz Inácio Lula da Silva, que sucedeu FHC, e a atual presidente, Dilma Rousseff, o motorista apenas observa e imagina como deve ser o comportamento deles. "Acho que Lula é aquele sujeito mais popular, imagino que ele seja inclusive brincalhão. Já a Dilma mostra ser mais exigente. Deve ser mais durona".

Fonte consulta: Diário de Natal

Adquirir no blog do amigo Neto Silva -  Natalense

Lampião - Um homem destemido


Lampião entrou para o cangaço para vingar a perseguição do latifúndio contra sua família. Fazendo-se justiceiro, ao seu modo, organizou um bando e com ele passou a fazer frente ao que considerava injusto, atraindo para si a ira dos poderosos coronéis do sertão que, influentes na política, punham o Estado em seu encalço.

Nascido na essência dessa contradição, onde a violência do explorador exigia como resposta a violência do explorado, Lampião exerceu-a de forma inteligente e sagaz. Aos que de forma unilateral acusavam-no, ou ainda o acusam de sanguinolento, é válido lembrar a advertência de Bertolt Brecht quanto à obrigação que temos de observar, primeiro, as margens que oprimem o rio antes de reclamar de sua violência.

É bem provável que se Lampião tivesse nascido alguns anos antes, seguisse Antonio Conselheiro pelos caminhos do sertão até Canudos, ou, se tivesse nascido escravo na velha Roma ao tempo de Spartacus, talvez parceiro desse libertador. Nascido na segunda metade do século passado, provavelmente, seria encontrado liderando uma tomada de terra ou dirigindo um dos movimentos de camponeses sem terra.

Tantos condicionantes servem para entendermos que a guerra dos escravos, as guerras camponesas e o cangaço têm a mesma base: a opressão e a exploração da maioria do povo por um punhado de parasitas.

Lampião era um revoltado e não um revolucionário. Como tal, não tinha uma visão mais ampla da sociedade, circunscrevendo-se o seu mundo ao sertão nordestino, por ele mesmo demarcado quando mandou carta ao governador de Pernambuco propondo que o mesmo tivesse sua circunscrição limitada do litoral a Rio Branco, deixando daí para frente por conta de Lampião e, para isto, não faltavam planos, como tão bem foram expostos por Zabelê, o poeta e sanfoneiro do bando, no famoso poema Para haver paz no sertão.

Fonte:

Com o título:

Planos para capturar Lampião

Grota de Angico - lugar onde Lampião foi morto

Após dias no encalço e com informações detalhadas sobre a localização dos cangaceiros, colhidas quando o sargento Aniceto Rodrigues recebeu a informação do coiteiro Joca Bernardo e de um cidadão chamado Pedro Cândido, sobre a presença de Lampião na fazenda Angico, imediatamente telegrafa ao seu superior imediato,

 
Tenente João Bezerra à esquerda, Aspirante Ferreira de Melo ao centro
e Sargento Aniceto Rodrigues à direita

o Tenente João Bezerra, transmitindo a mensagem de forma ‘cifrada’, a fim de não levantar qualquer suspeita. Naquele fim de manhã, o oficial estaria com sua tropa estacionada em Pedra (hoje Delmiro Gouveia, alto sertão de Alagoas), descansando de uma ‘batida’ policial realizada em possíveis esconderijos de cangaceiros na região de Mata Grande.

Mantido o contato com o seu comandante, o sargento requisita um caminhão e parte de imediato até um local predeterminado por Bezerra, o sítio Riacho Seco, fincado entre a cidade de Piranhas e a antiga Vila de Pedra, onde de lá saíram em duas canoas com destino à grota de angico, no outro lado do Rio São Francisco, no antigo distrito de Porto da Folha, hoje município de Poço Redondo, Estado de Sergipe, à cerca de 15 Km de Piranhas.

Esquema de emboscada em Angico

A Volante da PM-AL fez então o cerco e, durante às quatro horas daquela madrugada de quinta-feira, começa a batalha que põe fim à vida de Lampião, sua companheira Maria Bonita e mais nove cangaceiros, deixando ainda o militar Adrião Pedro de Souza morto e o Tenente João Bezerra ferido com um tiro que transfixou a mão e um outro na coxa, que ficou alojada no seu quadril.

Após o combate, que durou cerca de 20 minutos, como de costume na época, para provarem o grandioso feito, os cangaceiros tiveram suas cabeças decepadas, salgadas e colocadas em latas de querosene, contendo aguardente e cal para conservá-las, para que pudessem ser expostas em várias cidades de Alagoas; sendo levadas em seguida para Salvador/BA e de lá para o Rio de Janeiro, de onde retornou à capital baiana para a realização de estudos científicos, e onde permaneceram no Museu Antropológico do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues por mais de trinta anos, até que seus sepultamentos fossem autorizados pelo governo.

Os corpos mutilados e ensanguentados foram deixados a céu aberto, atraindo urubus, para evitar a disseminação de doenças. Dias depois foi colocada creolina sobre os corpos.

Observe que sobre um corpo existe uma garrafa de bebida, e afirmam que é o de Lampião

O enterro dos restos mortais dos cangaceiros (cabeças) só ocorreu depois do Projeto de Lei nº 2.867, de 24 de maio de 1965. Tal projeto teve origem nos meios universitários de Brasília (em particular, nas conferências do poeta Euclides Formiga), após o reforço das pressões de suas famílias e da igreja. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969.

Em 22 de dezembro de 1939, João Bezerra recebeu do interventor federal em Alagoas, um prêmio instituído referente à coluna que extinguiu “Lampião”, assim distribuído: pelo estado de Alagoas – 5:000$000 (Cinco contos de réis), pelo estado da Bahia – 20:000$000 (Vinte contos de réis), somando ao todo 25:000$000 (Vinte e cinco contos de réis). Conforme Boletim nº 289, da Polícia Militar de Alagoas.


Após a morte de Lampião, o cangaceiro Corisco, que era natural de Água Branca/AL, assumiu o posto de vingador, mesmo não sabendo quem realmente havia informado a localização do bando. A vingança caiu sobre o vaqueiro Domingos Ventura (avô da esposa de João Bezerra) que foi assassinado pelo "Diabo Louro" com outras duas mulheres e crianças, que também foram decapitadas e suas cabeças enviadas em um saco para o comandante da Volante.

Mais ou menos trinta dias depois do massacre de Angico, a maioria dos cangaceiros remanescentes de outros bandos já haviam se rendido ou sido capturados, permanecendo na ativa apenas os grupos de


Labareda e de Corisco, mas sem realizarem grandes ações, sendo este último morto em 25 de maio de 1940, fechando então o ciclo do cangaço no Nordeste.

GRACILIANO RAMOS E O CANGAÇO

Por: Honório de Medeiros
 
Graciliano Ramos e o Cangaço.

Ricardo Ramos ao ouvir seu pai contar acerca de quando Palmeira dos Índios se armara para enfrentar Lampião, ficara fascinado:

“Passara a meninice acalentado pelas estropolias dos cangaceiros, da polícia volante, duas pestes que nos assolavam.”

“E (lhe) contei de uma noite, após a ceia, em que, atraído por foguetes, sai à calçada e vi os caminhões, as cabeças cortadas, espetadas em estacas, de Lampião, Maria Bonita e mais dez outros, os soldados empunhando archotes, gritando vitoriosos, um cortejo macabro pelas ruas de Maceió”.

Graciliano lhe diz:

“- Eu escrevi sobre isso”.
                              
“Não havia lido, era pequeno e estava fora do Rio. Bem depois, ao se reunirem as crônicas de Viventes das Alagoas (título sugerido por Jorge Amado), afinal encontrei “Cabeças”. Ou reencontrei minha antiga visão, bárbara, mas transporta no sarcástico perfil do tenente Bezerra, que se reformou coronel, o falante matador de Lampião, versado em frases feitas, sua retórica elementar de glorificado primário.”
                              
“Havia mais, bem mais. O Fator Econômico no cangaço, crônica da propriedade que se mantém e cresce pela força, com pequenos exércitos de senhores rurais, sedentários, enquanto os cangaceiros se distinguem dos outros facínoras apenas por serem nômades, no regime de produção agrícola da caatinga.”
                              
“Corisco, uma crônica do diabo louro, seu conterrâneo de Viçosa, filho de decadente família de donos de engenho, forçado a decair, enlouquecido, o pequeno monstro baleado e decapitado, morto quase inédito porque havia a guerra na Europa, tantos crimes. Dois Cangaços, a crônica dos matutos indefesos diante de dois poderes, a volante e o cangaceiro, a primeira muitas vezes obrigando-os à segunda opção, ou o seu reverso, em todo o caso forçando-os a escolher, pela imposição sócia, ou pior ainda, pela econômica.”
                              
“E Lampião e Virgulino, que buscam o perfil. Necessariamente fincado no agreste.”
                              
“Graciliano nunca idealizou Lampião. Desde 1926, ao escrever do assédio a Palmeira dos Índios, sem mencionar a sua participação pessoal. Chama-o ‘bicho montado’, ‘horrível’, ‘sanguinário’, diz dele o animal ‘cruel’, que ‘queima fazendas’, capaz ‘de violar mulheres na presença de maridos amarrados’, e ‘se conservara ruim, porque precisa conservar vivo o sentimento de terror que inspira’, enfim ‘vemos perfeitamente que o salteador cafuzo é um herói de arribação bastante chinfrim’”.
                              
“Por outro lado, não desconhecem a sua projeção lendária. ‘Lampião nasceu há muitos anos, em todos os estados do Nordeste’. E se refere à nossa tradição bandoleira, do remoto Jesuíno Brilhante ao envelhecido Antônio Silvino, para concluir: ‘Resta-nos Lampião, que viverá longos anos e provavelmente vai ficar pior. De quando em quando, noticia-se a morte dele com espalhafato. Como se se noticiasse a morte da seca e da miséria. Ingenuidade.’”
                              
Obra citada: “Graciliano RETRATO FRAGMENTADO”; RAMOS, Ricardo; Globo; 2ª edição; 2011; São Paulo.

Um cangaceiro marcado para morrer - Jararaca

Por: José Mendes Pereira

A história sobre a tentativa de invasão a maior cidade Potiguar, "Mossoró - no Rio Grande do Norte", no dia 13 de Junho de 1927, pelo ainda não tão famoso, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi contada por vários escritores, pesquisadores e historiadores do nordeste brasileiro.

Apesar de ter sido considerado como grande estrategista quando dominava o seu respeitado bando de cangaceiros, mas mesmo assim Lampião bobeou em mandar um bilhete para o então prefeito


Rodolfo Fernandes, comunicando-lhe a sua entrada em Mossoró. Se ele tivesse entrado sem comunicar que estava disposto a fazer a invasão à cidade, teria levado o que ele mais desejava: dinheiro, ouro...

Como não chegou as suas mãos confirmação da quantia solicitada, ao meio dia e meia Lampião escreveu o segundo bilhete. Novamente incumbiu o capanga para que o levasse até a casa do prefeito. E desta vez já com ameaças caso não lhe fosse atendido o segundo bilhete, não demoraria fazer a invasão, e não se responsabilizaria pelos estragos.

Palácio da Resistência

Mas Rodolfo Fernandes amante de Mossoró e zeloso com a sua patente de "coronel", achando que Lampião era quem deveria fazer continência ao passar por ele, já que era apenas capitão, e vendo que o bandido estava disposto a bagunçar a sua amada cidade, disse que não enviaria quantia nenhuma para bandidos, principalmente Lampião que levava a vida roubando dos outros. Não arriscaria afirmar que ele não levava as minguadas reservas da  Prefeitura, mas não pensasse que ele iria ficar nas esquinas de braços cruzados, só olhando ele colocar em seu bornal o que não era seu, ou ele entregar o ouro na bandeja aos bandidos.
           
Como não foi enviada a quantia solicitada Lampião e seu bando deram início ao combate, vingando o desrespeito do prefeito por não atender a sua solicitação.

O cangaceiro Jararaca

Como o prefeito  estava preparado para defender a cidade, vendo que não teria sucesso no combate, Lampião se considerou vencido, saindo às carreiras em busca do Estado do Ceará, deixando para trás o cangaceiro Colchete, já morto, e o afamado Jararaca baleado que se perdera do seu bando. No dia seguinte Jararaca foi preso e levado para a cadeia pública de Mossoró, que não levando sorte foi covardemente assassinado pelas autoridades.

José Mendes Pereira

Leia o que disse  o escritor Xico Sá sobre o que escreveu o jornalista Lauro da Escóssia, na entrevista que fez com o cangaceiro Jararaca

Um dia depois do combate, quando o povo de Mossoró ainda temia o possível retorno de Lampião sequioso por vingança, um dos principais cangaceiros do bando, Jararaca, foi capturado se arrastando por um matagal. O que se deu a seguir foi um roteiro tragicômico, conforme a narrativa de Lauro da Escóssia, então repórter do jornal O Mossoroense.       
            
O nome do pernambucano Jararaca era José Leite de Santana. Ele tinha apenas 22 anos  nos registros policiais, contudo, aparece com 26. Mesmo com um rombo de bala no peito, conseguiu gargalhar durante uma entrevista na cadeia.
           
O cabra de Lampião dizia que era por causa das lembranças divertidas do cangaço. Entre as memórias que ouviu do preso, Lauro da Escóssia descreve o dia em que Lampião teria invadido a festa de casamento de um inimigo e, com seu próprio punhal, sangrado o noivo. Já a noiva teria sido estuprada na caatinga pelos cabras do bando.
            
Segundo o relato de Jararaca, Virgulino também ordenou que os convidados de um baile tirassem as roupas e dançassem um xaxado completamente nus.

VALSA AO LONGE (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa*
Rangel Alves da Costa

VALSA AO LONGE

Às vezes me sinto em meio à suntuosidade e brilho dos grandes salões. Nobres, aristocratas, cortesãs, madames, reis e rainhas, e eu lá valsando a valsa mais bela.

Minha princesa não me estendeu a mão para o grande baile, também ela não sabe dançar e ainda por cima esqueceu seu vestido dourado, suas joias douradas, seu sorriso dourado. Esqueci de convidá-la para a grande festa.

Não quero mais sonhar assim. Nada me agrada em meio ao luxo e a imponência se meu amor não está ao meu lado; nada me satisfaz nessa música, ainda que a valsa seja sublime, se o meu amor não vai valsar comigo.


Meu sonho me levou sozinho em viagem. Gosto disso não. Prefiro pesadelo a estar sozinho por aí, distante, bem distante do meu amor. E me chegam cavalos alados, carruagens de nuvens, caminhos de brilhantes com pedrarias. Nada disso me faz feliz, nada disso me faz sorrir e cantar se não tenho quem amo ao meu lado.

Prefiro acordar no meio da noite, fugindo do sonho de viagem sozinha, e levantar para dançar a valsa da lua. Lá fora, entregue ao negrume da noite, do vento recebendo o açoite, estendo a mão ao meu amor e sigo em direção ao imenso salão.

Que majestoso salão o que nos chama a dançar. Mas emudeço Strauss e Tchaikovsky por instantes. Ainda não é hora de viajar pelo Danúbio Azul nem colher no jardim a Valsa das Flores. Por enquanto prefiro o silêncio.
No silêncio se ouve a valsa do amor, do encontro, do abraço, do toque, do beijo, da busca, do murmúrio, da procura, do olhar sem ver. Em cada sublime acorde e a boca umedecendo, os lábios molhando, o corpo em vapor. E darem-se os braços para a dança é entregar-se para o amor.

Salão iluminado por lua, enfeitado com plantas, cheirando a mangas e goiabas maduras. Cheiro perfumado de fruta madura. Nos imensos espelhos se avista a vida, ainda que ao longe esteja tudo escurecido. E o meu amor nem reclama do nosso quintal.


Quintal de gente pobre, de gente comum, apenas com plantas, caqueiros, ervas medicinais, grilos cantando nos escondidos das ripas, chão de terra batida, uma cerca e um pomar. Talvez o pomar de apenas três árvores frutíferas seja a maior riqueza do lugar.

Mas não tem nada não, deixe ser assim mesmo, pois depois do escurecer do dia tudo ali se transforma num imenso salão, dependência de majestoso palácio para o seu rei e sua rainha, e tantos súditos que também somos de nós mesmos, eu e o meu amor. Quase toda noite é assim, uma soberana fantasia de felicidade real.

E ela chega perto de mim faceira, cheirosa, com flor no cabelo colhida ali mesmo. Digo que espere um pouquinho que vou buscar um presente, e então ergo as duas mãos para o alto e espalho a luz do luar mais belo no seu rosto trigueiro, na sua face de princesa minha, verdadeira rainha.

Sei que meu amor me ama tanto pelo olhar verdadeiro que me olha, pela palavra sincera que tem, pelo beijo ardente que possui, pela entrega absoluta que some dentro de mim. Mas nada disso se compara à certeza de morar em seu coração singelo e amorosamente tão verdadeiro.

Meu amor tem uma palavra bonita que só gosto de ouvir baixinho. Ela chega pertinho de mim e me chama meu nêgo. Mas não é só uma palavra, uma pronúncia, um dizer, uma expressão carinhosa para ativar sentimento. Não, disso sei bem.

Ela me chama assim porque sou assim aos seus olhos, e ser seu nêgo significa ser tudo na vida, como uma posse que ela não permite que o destino nem outra lhe tire. Quando me chama assim respondo também com a palavra que ela mais gosta de ouvir.


E é qualquer palavra, pois nunca tenho tempo de pronunciá-la completamente. Antes que fale o que quero uma boca me invade num beijo de doma. E nesse toque, depois de domado, tudo se permite ser amor. E talvez seja essa palavra que sempre quero dizer: amor.

Mas hoje ela não está aqui. Ela ainda não veio para a valsa da noite. E a saudade é tão grande que pareço ouvir uma valsa ao longe, com sons de porta que se abre e passos que caminham.


Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Canto do amor distante (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa* 

Canto do amor distante


Ao entardecer
de vento e de canto na areia
as palhas dos coqueirais
rezam a mesma prece
que um dia me entreguei
ali na beirada do cais
o verdejar dos coqueirais
acenam o mesmo lenço
que noutros tempos acenei
ao vê-la singrando o mar

oração e lenço
não trazem de volta
nem apagam a saudade
nem a fé e o aceno
chamam de volta
aquela que um dia
partiu para pescar
um sonho todo azul
e se perdeu no mar

não sei se canoa ou mulher
não sei se mar ou estrada
não sei se cais ou porta de casa
não sei se pescador ou solitário
não sei se amante ou abandonado
não sei se eu ou outro eu
não sei se dor ou tristeza
não sei se tarde ou se fim
pois tudo o que sei enfim
é da existência de alguém
que ora e que ainda acena
mas que o meu espelho antigo
se nega a mostrar a face.


Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com