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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

CINEMA E CANGAÇO NA TERRA DO SOL

Por Fernando Monteiro
O encontro de Abrahão com o bando de Virgulino, em foto tirada pelo cangaceiro Juriti. Da esquerda para a direita: Vila Nova, não identificado, Luís Pedro, Benjamin Abrahão (à frente), Amoroso, Lampião, Cacheado (ao fundo), Maria Bonita, não identificado, Quinta-Feira

A saga do cineasta amador Benjamin Abrahão, o único a filmar Lampião e seu bando de cangaceiros, antes do massacre de Angicos.

Dentre os jovens libaneses que, durante a Primeira Guerra Mundial, deixaram vilas e cidades até hoje obscuras entre as montanhas de cedros, estava um rapaz de Zahelh (a das tâmaras doces) chamado Benjamin Abrahão. Ele seguiu o impulso de evasão, mas em vez do destino preferencial, a América do Norte, foi para o borrão dos edens do hemisfério sul e suas estranhezas: selvas, sertões e sertanejos parecidos com alguns dos imigrantes da sua terra. Abrahão deu adeus às tâmaras em busca dos frutos tropicais ácidos e barrocos no aspecto, naqueles lugares de sol refulgindo em nomes inesperados como "Pernambuco" - com a sua sugestão de oco do mundo e porto de ventos entre fáceis riquezas. Abrahão chegou, assim, a um Recife ainda sereno, cortado por um rio lento. O rapaz dos jardins orientais viu o Derby elegante, os jogos de times de futebol e regatas, os cinemas Royal e o Glória às vezes exibindo filmes locais, cujos letreiros ajudavam a aprender a língua.

No melodramático Filho sem mãe, de Edson Chagas, o imigrante veria, pela primeira vez, a figura de um cangaceiro, ao mesmo tempo mítica e pobre, injuriada e condenada a morrer, no futuro imediato, pela chegada do progresso. Nessa altura, Abrahão vendia tecidos, como um mascate entre os muitos que percorriam as ruas de casas com varais coloridos de roupas ao vento. Passado um tempo, as ofertas do libanês se ampliaram também para farinha, fubá de milho, rapadura e carne do sertão. Esta palavra - "sertão" - viria a fazer parte fundamental da sua vida, embalaria seus sonhos e selaria, um dia, o seu destino. Ele era um montanhês, e sentia falta dos espaços mais livres das pontes graciosas sobre o Capibaribe. Um dia, Benjamin comprou dois burros - Assanhado e Buril -, o cavalo Sultão e um segundo estoque de mercadorias. Em seguida, partiu para Juazeiro do Norte (CE), o antigo arraial "inchado" pelos romeiros do padre Cícero Romão Batista. Começava a aventura cinematográfica do mascate vindo dos sertões do Líbano.

No staff do Padim

Estrangeiro jeitoso e falante, Benjamin Abrahão conheceu logo o Padim Padre Ciço dos cangaceiros e coronéis, e se tornou, com o tempo, nada menos que o seu "secretário para assuntos internacionais". Na louca Juazeiro das fanáticas multidões, passava pela cabeça do padre a possibilidade de ter assuntos de "relações exteriores" para tratar. Foi nessa condição que o nosso peregrino da sorte pôde testemunhar, na verdade, as relações conflitadas no próprio sertão, quando, numa clara manhã de março de 1926, o cangaceiro Lampião e mais 49 cabras triunfalmente entraram na cidade das rezas. Dizem que Abrahão já alcançara status suficiente, naquela "corte", para estar presente à reunião na qual o "primeiro-ministro" do padre Cícero - o deputado Floro Bartolomeu - concedeu a patente de "Capitão" ao controverso "afilhado" do religioso, a fim de atraí-lo para a luta contra a Coluna Prestes, inimiga do governo do presidente Artur Bernardes.

Virgulino Ferreira da Silva desde o primeiro momento impressionou o assessor juazeirense para assuntos das "estranjas". Ali estava uma espécie de guerreiro de Saladino, agarrando o seu punhal de 48 centímetros com dedos morenos enfeitados dos anéis de pedras duvidosas. Tinha senso da cena, nas suas chegadas e ataques: vestia-se com uma roupa de campanha atravessada de bandoleiras que lembravam mexicanos revoltosos, sem perder nada do exame de uns óculos de finos aros de ouro a lhe darem certa distinção equívoca, feita de segurança e ameaça. Desfilando pela rua, pisava forte como um príncipe tisnado, e dava entrevistas, era fotografado pelos repórteres (Lauro Cabral e Pedro Maia) convidados do "Dr. Floro".

Com senso de decoro, o bandoleiro não se hospedou na casa vizinha do "coroné", nem muito menos foi se aboletar numa casa próxima da residência casa paroquial. Ficou alojado no lar do comerciante e cordelista João Mendes, amigo de Abrahão Benjamin. "Tem um filme nisso tudo" - é possível que ele tenha pensado, lembrando dos cinemas do Recife. Seja como for, a impressão ficou, indelével, nas retinas do almocreve e antigo fã de Tom Mix. Abrahão era, agora, fã do cavaleiro andante do sertão de verdade, no "Oeste" da seca queimando entre os santos e pecadores cantados em folhetos.

Passou o tempo. Aclimatado aos Brasis, mais adiante o libanês-brasileiro estava em outro cenário: num cinema da avenida Rio Branco, em julho de 1931, já casado com cabocla cearense que o acompanha em viagem de férias ao Rio de Janeiro. No Cine Parisiense, ele recebeu o impacto de A fera do Nordeste, documentário da época do filão aberto pelos filmes sobre crimes, trazia fotos da "chacina do rio de Peixe", na Bahia, Um retrato realista das fammigeradas acções do famoso bandido Lampeão.

Na vida de Abrahão, tal impacto foi ao mesmo tempo bom e mau: bom, porque ele viu que o assunto já despontava nas telas, e mau, porque aquela "fera" nordestina não correspondia à imagem viva do homem que ele pudera ver na cidade dos romeiros. Mais do que de perto, na verdade ficara ao alcance da perscrutação aguda do olho bom do "Cego", espécie de olhar de Anjo da Vingança, ou de Demônio de Astúcia, atravessando um sujeito. Nunca o esqueceria.

Em busca do protagonista 

Quando voltou para o sertão, Abrahão se associou com dois tropeiros - Noel Cassis e Zé da Bodega - que gostavam de conversar sobre Virgulino Ferreira. Zé dizia que, aos 15 anos, conhecera o cangaceiro, ainda um artesão de selas, cabrestos e arreios bem feitos, que ele vendia nos dias de feira em vilas do alto sertão pernambucano. Por isso, podia falar dos motivos pessoais, que Virgulino tivera, para entrar na vida de bandoleiro: vingar a morte do pai e outras humilhações sofridas nas disputas com um fazendeiro de Vila Bela (José Saturnino) e a jagunçada a seu serviço. Por Noel, o mascate ficou sabendo que, muito recentemente, dois americanos tinham andado pelas caatingas, com "máquinas de fazer filmes", dispostos a mostrar "o paradeiro do bando de Lampião". Sabedor da sabujice dos sujeitos afoitos na sua pista, parece que o celerado tinha mandado "dar um susto nos gringos" - o que fora feito (e bem feito). Os dois cineastas desistiram da empreitada e foram para Juazeiro, com o intuito de aproveitar o espetáculo das procissões de romeiros. Deviam estar lá, naquele momento.

Foi assim que os dois aventureiros - seus nomes se perderam - foram procurados por Abrahão, mais do que nunca interessado em câmeras e truques de cinema. Servindo de guia para os ianques na cidade que era a sua base, Abrahão se inteirou dos erros cometidos por eles, nas tentativas de aproximação do arisco "Capitão", e também de como funcionava aquele equipamento capaz de imortalizar as criaturas pelo menos em celulóide (o que era, sim, um milagre verdadeiro).

Outro milagre era a sorte que Abrahão, o Pai, reservara para o filho do Líbano: estar em condições de pedir carta de apresentação do Padim para o Cego que gostava de cinema, quando acontecia de encontrar algum em funcionamento nos lugares que ele invadia como se fosse o Pancho Villa. Os americanos contaram que o ex-bandoleiro Pancho fora, um dia, procurado no seu retiro de Chihuahua - depois dos anos de "revolucionário" -, para encenar as batalhas contra os "federales", diante de uma equipe de Hollywood. A oferta em dinheiro, atraente para o velho "general", fizera Villa sair dos seus cuidados e se lançar à tarefa de reunir antigos comandados, com armas e outras lembranças guardadas em casa. Feito isso, aconteceram as filmagens veristas e violentas, no meio da poeira. Nada foi aproveitado pelos produtores de Los Angeles. Ou seja, o contrário da meta cinematográfica do ex-mascate, que agora lidava com o comércio de pedras preciosas e queria filmar cangaceiros de carne e osso, no seu áspero hábitat em vias de mudança, naquele Brasil dos anos 30: um país que não admitia lidar com os redutos do banditismo rural individualista.

Sandálias ao contrário

Certo de que o cangaço "estava com os dias contados" (ouvia isso nas rodas de Juazeiro e da boca torta do deputado Floro Bartolomeu), Abrahão Benjamin sentiu a urgência de filmar o bando de Virgulino Ferreira, no seu cenário. Contou com a influência do Padim e de alguns bons contatos na rede dos coiteiros que, bem ou mal, garantiam os meios de proteção do bandido. Era um trançado de nós de confiança misturados com o poder da ameaça e das altas quantias, pagas pelo cangaceiro.

O antigo mascate resolveu se internar na sombra perigosa da busca dos "coitos" e esconderijos do chefe cheio de truques e mestre da contra-informação. Lampião nunca dormia dois dias no mesmo lugar. Ao "farejar" perigo, fazia seus homens calçarem as sandálias de couro ao contrário, a fim de mudar o ir para o "vir" falso dos cabras, e espremia roupa ensangüentada, nas trilhas, para dar a impressão de arrastar muitos, no cálculo dos seus perseguidores. E, principalmente, vigiava a lealdade dos sertanejos incumbidos de levar, para o chefe e os subgrupos, os víveres necessários, as armas e as notícias, vitais, da movimentação dos macacos (os soldados das volantes).

Virgulino Ferreira da Silva gostava de ver filmes, quando havia quem os projetasse para ele e seus cabras. Na invasão da cidade sergipana de Capela, em 25 de novembro de 1929, quando tomou o lugar na companhia do irmão (Ezequiel) e dos famosos Zé Bahiano, Volta Seca, Arvoredo, Mourão, Gavião e Moderno, ele encontrou um cinema funcionando. O filme em exibição era Anjo das ruas, com Janet Gaynor. À surpresa da entrada daqueles novos espectadores, foi-se a música do pianista e do sanfoneiro presentes. Pouco depois, pararam a projeção. Lampião apenas dardejou um olhar inquisitivo na direção da cabine às escuras. A sessão recomeçou, mas tão nervosa e confusa, na troca dos rolos de filme , que o bandido se retirou com os seus. Zé Bahiano, dizem, costumava atirar na tela, contra os soldados romanos da Paixão de Cristo.

Assim, quando um obstinado Abrahão Benjamin fez chegar o seu primeiro recado, Lampião apenas mandou perguntar se o estrangeiro teria mesmo coragem de vir se embrenhar "nas sertãs do inferno". Em resposta, Abrahão garantiu que era o que mais queria, depois de aumentar a fama do "Capitão" promovido no Juazeiro ("Lampião lembrava-se dele?"). No passo seguinte, o antigo mascate seguia a caminho de Fortaleza, onde sabia que o cearense Adhemar Bezerra Albuquerque, dono da Abafilm, possuía uma câmera 35 mm disponível. Era uma engenhoca de corda, da marca Nizo Kiamo, com lente normal Zeiss, que Abrahão contava poder dominar, com um treino básico e muita vontade de pôr na frente da Zeiss aquele violento fantasma do Brasil profundo.

Adhemar Albuquerque foi conquistado para a idéia da produção de um filme-reportagem sobre o mais célebre dos cangaceiros. Dele, Abrahão levou a tal câmera, cinco rolos de 100 pés de filme Gevaert Belgium e mais uma máquina fotográfica Interview Établissements André Debrie, carregada com cartuchos. Adhemar também lhe deu noções elementares do manejo do equipamento, com a recomendação de que os filmes teriam de ser bem protegidos e revelados na processadora de origem francesa que compunha o estúdio da Abafilm, no começo de 1936.

Diante da "costureira"

Passando por Juazeiro, Abrahão fez mais alguns testes de câmera com padre Cícero e depois partiu em busca da aventura da sua vida, tomando o rumo do interior de Alagoas. Em maio daquele ano, estava no sítio das Emendadas do velho Bilé, parada de "reconhecimento", onde foi abordado por dois cabras (um dos quais, o temível Sabonete) enviados pelo "Capitão", depois de mudanças e rumos novos, traçados por emissários discretos, cruzando aquelas paragens como simples tropeiros. Abrahão chegou ao seu destino, na viagem ao centro da terra do seu interesse: foi levado, com o equipamento, para as terras da fazenda Bom Nome, onde esperou ainda algumas hora antes de se apresentar diante do homem que, durante anos, não havia esquecido, na sua estranha magnificência. Dele ouviu uma pergunta hostil, já que boas-vindas Lampião só dava ao Padim Ciço: "Cuma é que você chegou aqui com vida, cabra velho?".

A primeira tomada feita no reduto de Bom Nome foi operada pelo próprio chefe dos cangaceiros. Foi o take número 1 da produção que restaria incompleta, inacabada e parcialmente destruída nos porões da ditadura Vargas. Ao fazê-lo, Lampião se tornou o cineasta de si mesmo, o diretor de uma cena que mostrava Benjamin Abrahão olhando para a câmera e fincada, sobre o rústico tripé de madeira da Abafilm. Isso aconteceu porque um homem com a história de Virgulino teria de desconfiar até da própria sombra alongada sob os céus da tarde. Ou seja, seus óculos examinaram a geringonça de metal, cheia de parafusos e manivelas, meio parecida com as "costureiras" (como chamavam as metralhadoras). E o "cabra velho", afinal, o que havia de querer com ele?

Mandou, portanto, que Abrahão montasse a coisa, de imediato, e ficasse na frente dela. Só então largou do fuzil e, pedindo instruções, acionou, ele mesmo, a máquina misteriosa. Ela fez um som cavo, de algum tatu-bola rodando numa caixa de alumínio, e foi tudo. Estava feita a primeira cena, perdida para sempre. Em seguida, foram ao almoço tardio - o estranho da máquina sem balas como convidado do "Capitão".

Abrahão, naquele primeira "temporada", ficaria cinco dias no coito de Bom Nome e mais um outro acampamento provisório. Fez fotografias (Lampião gostava delas) e gastou os cinco rolos 35 mm com as primeiras cenas, nas quais apareciam Lampião e Maria Déa ("Maria Bonita", no imaginário popular), além de Cacheado, Luiz Pedro, Elétrico, Gorgulho, Vila Nova, Marreca, Juriti, Zabelê e outros homens enfeitados ao máximo para aparecer "dentro da geringonça do turco".

Dançarino e escrevinhador

Usados os primeiros rolos, o produtor arrojado correu para Fortaleza, a fim de revelar aquele material inacreditável, histórico, etnográfico e documental da mais alta importância. Estava apenas no começo do projeto que rolava na sua cabeça.

Pretendia voltar para prosseguir filmando um modo de vida já condenado a morrer, pelas ordens - cada vez mais impacientes - do Rio de Janeiro: o "cangaço" é para ser extirpado, e seus favorecedores e admiradores, castigados pelas forças policiais e de segurança vigiando, ao máximo, os focos de resistência e simpatia para com a sobrevivência, anômala e bizarra, de sertanejos violentos e desafiadores dos poderes da República.

Tudo se revelou melhor do que o esperado, na processadora importada da Abafilm. A primeira tomada, feita pelo "Cego", estava perfeita na angulação e na luz do acaso movendo o dedo mais acostumado com o gatilho. Aqui e ali, acontecera alguma subexposição do negativo, pelo amadorismo do "iluminador" que nem sempre verificara, também, o perfeito encaixe da fita na grifa. A imagem, em conseqüência, tremia um pouco, por momentos, até o celulóide se ajustar, naturalmente, no chassi da Nizo. Normalizadas, tais cenas até pareciam refletir, pitorescamente, o nervosismo do cineasta diante da "fera do Nordeste" desembainhando seu longo punhal exibido para a lente.

Adhemar Albuquerque ficou, mais do que nunca, entusiasmado com a co-produção ousada. Forneceu uma boa quantidade de latas de filme ao seu sócio, e o instruiu em mais alguns detalhes técnicos, antes de ver o homem temerário partir, de novo, para o mistério das trilhas mal escondendo, agora, um cangaceiro perseguido com fúria nova. Ao mesmo tempo, a façanha do árabe era notícia em jornais como o Correio de Aracaju, não deixando de se insinuar certo receio de o futuro filme vir a dar contornos de herói a um velho "inimigo do povo". Em outubro, apareceram matérias redigidas, de Piranhas (AL), por Abrahão a caminho de um novo encontro com Lampião e, agora, francamente malvisto pela polícia. Como é que o gringo poderia saber das tocas e dos descansos do Cego, de modo a filmar aquela gente posando como "artistas"?

Quando Abrahão mais uma vez sumiu de vista, todo mundo sabia que deveria estar em algum lugar perdido da caatinga, na companhia do "cínico facínora", dormindo nos bivaques, de dia, para se movimentar durante a noite. E era assim mesmo. Só que, agora, tudo estava sendo impresso nos rolos de filme de que restou só uma parte das cenas de Lampião escrevendo bilhetes, costurando numa máquina (macho à prova das Singers), fingindo atirar e, logo, dançando perfumado como uma "mulé-dama".

Seus cangaceiros apareciam cumprindo ordens de rotina: caçar, preparar comida etc., e também junto com as poucas mulheres introduzidas nos grupos, tudo em boa e espartana disciplina, na medida do possível. Um mundo de homens, organizado para cabras dispensados de se retardar fazendo agrados em mulheres talvez cansadas das longas caminhadas ("diagnóstico" que se ouvia, com outras palavras, quando ainda estavam vivos muitos dos cabras e sertanejos contemporâneos de Virgulino Ferreira da Silva).

Não havia saída para o cangaço, por volta do terço final da década de 30. O cerco se fechava, sob o tacão da Nova República, e na dobra da falta de lealdade de alguns coiteiros abrindo caminho para o massacre de Angicos. Por um leito sinuoso de traições, armou-se a armadilha para Lampião e seus comandados, na manhã do dia 28 de julho de 1938. A história é bem conhecida. Só alguns poucos dos cabras escaparam, e os mortos de destaque (Virgulino Ferreira e Maria Déa, entre eles) tiveram as cabeças decepadas e levadas, no mesmo dia, para exposição improvisada na calçada da prefeitura de Piranhas.

Homem implacável 

Onde estava Benjamin Abrahão, que não apareceu para acrescentar um tão horrível epílogo ao projeto do seu filme? O ex-mascate que se tornara o cineasta de uma obra só, rodada em duas temporadas nas caatingas, já estava morto a essa altura. Sua vida tomara rumos estranhos, após voltar a Fortaleza, depois das últimas tomadas de 1936, noticiadas na primeira página da edição de O Povo de 9 de janeiro de 1937, com manchetes em negrito: "O Filme de Lampeão - Regressou a Fortaleza o Ex-Secretário do Padre Cícero - Uma Entrevista a O POVO sobre os seus Encontros com o famoso Cangaceiro. Como o Sr. Benjamin Abrahão conseguiu apanhar o Grupo - A Mulher de Virgulino Ferreira - As Precauções do Bandido".

Suas "atividades" haviam despertado o mais vivo interesse da polícia. Três dias depois da publicação da matéria, o homem do filme foi ouvido, em depoimento, pelo sargento Optato Gueiros, um dos mais ferozes perseguidores de Lampião. Optato fora cabra do bando de Sinhô Pereira, onde conhecera o jovem Virgulino (obsessão de 17 anos da vida do cabra depois transformado em macaco caçador de bandoleiros). Esse homem implacável "apertou" Abrahão de muitas maneiras, e a montagem do documentário foi feita, na Abafilm, debaixo de um clima de medo da polícia desconfiada dos "filmadores de cangaceiros".

Abrahão ficou assustado. Viajou para Pernambuco. Deixou seu filme por ser ordenado pelo menos num conjunto mais ou menos lógico das cenas que ele pretendia comentar, ao vivo, nas apresentações um dia sonhadas, ao conceber o documentário como uma espécie de esforço de "humanização" da figura anatematizada como fera, celerado, facínora e monstro bandido inimigo do governo e do povo. Em Águas Belas, no dia 10 de maio de 1938, o documentarista amador apareceu morto, com 42 facadas, supostamente dadas por um ladrão em busca das pedras que o antigo comerciante já não trazia nos bolsos. E quando, afinal, se pôde exibir, no Ceará, uma primeira montagem do filme Lampeão, o seu autor já estava sepultado com os segredos nos quais, eventualmente, poderia ter se enfronhado a respeito do bando que a polícia iria aniquilar, dois meses depois. Essa sessão - no Cine Moderno - não foi aberta ao público, mas especial para o então chefe de polícia, capitão Cordeiro Neto, e outras autoridades presentes à projeção privada de 2 de julho de 1938.

Alguns jornalistas - convidados da polícia - fizeram eco ao protesto dos homens de farda, após se acenderem as luzes. Um deles perguntou, mais tarde, em tipos impressos: "Haverá, porventura, maior vergonha para nós do que assistirmos, país afora, a uma película, em série, do famoso assaltante de lares, de bolsas e de vidas, que é Virgulino?". Apreendida pelas instâncias de segurança federal - sob a alegação de "ser de molde a comprometer a ordem pública" -, a obra de Abrahão Benjamin foi parar num porão do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) de Lourival Fontes, o Goebbels tupiniquim do Estado Novo. E lá ficaria por 20 anos, oxidando em meio ao mofo e à poeira, até ser recuperada, por Alexandre Wulfes e Alcebíades Ghiu, em 1957. Estava reduzida a cerca de 15 minutos de filme ainda aproveitável para se fazer as cópias que, então, puderam se espalhar pelo mundo, talvez chegando, quem sabe, muito próximo de algum Cinema Paradise das montanhas da terra natal do cineasta das caatingas.

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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

GENTE DO MEU LUGAR (E DO MEU CORAÇÃO)

Por Rangel Alves da Costa*

Outro dia, a amiga Taysa Godoy lembrava-me de algo interessante. Sabedora que sempre gosto de visitar pessoas aparentemente esquecidas da atual sociedade poço-redondense, então ela perguntou se eu recordava de Neném de Rita.

Mas claro que sim, logo respondi. Quando meninote eu não saía dos arredores da casa de Dona Jovita, onde sempre me reunia com Antônio José, Aderaldo, Vadinho, Gérson, Juarez, Zelito (os dois) e tantos outros amigos, ora para brincar de futebol na calçada (com jogador feito de plástico levado ao fogo em tampinha de leite ninho) ou catando sacola velha de plástico para fazer rede de trave de futebol. Nosso campinho era bem ao fundo da casa. E todas as vezes que eu estava por ali sempre avistava Neném, eis que Dona Rita morava na vizinhança.

Hoje em dia a família não mora mais ali, mas já procurei saber onde poderei encontrá-lo, e logo após a ponte, na estrada depois da casa de Arnaldo e Lucinha, quase defronte à casa de comadre Conceição, onde vive num quartinho separado da residência de um parente. Não demora muito e o farei uma surpresa. Certamente pouco recordará dos tempos idos, mas jamais esquecerei o seu jeito terno de ser, um eterno menino num homem feito. Seu problema de demência ou algo parecido, jamais impediu de se manter sempre sorridente e cumprimentando quem o conhecia com aquela voz arrastada e cativante.

A história de Neném é o próprio enredo da negação de muitos conterrâneos para com seus irmãos. Além do ser humano maravilhoso que é, pertence a uma família das mais importantes de toda a região sertaneja. É gente de Zé de Julião, de Rita, de Anita e, desse modo, vindo de uma linhagem familiar de tradicional pujança e profunda e verdadeira raiz. Talvez poucos soubessem, mas Neném ainda pode ser encontrado a poucos passos do centro da cidade. A ele devo uma visita, várias, e a ele também devo o prazer do reencontro com os esquecidos da sociedade.


São simples gestos, assim como um cumprimento ou uma visitinha, que tantas vezes provocam grandes transformações nos sentimentos humanos. Gente há que vive tão desolada, esquecida, praticamente renegada aos desvãos da existência, que um pouco de atenção já desperta um verdadeiro renascimento. Atualmente, quem chegar à humilde residência de Dona Clotilde, lá pelas bandas da Praça de Eventos (a última casa pelo lado da serraria), logo será convidado por Neném a apreciar um retrato. Dois, melhor dizendo.

O primeiro, um santinho pelo falecimento de Alcino num porta-retratos, e outro maior, numa moldura de parede, onde são avistados a própria Neném, sua mãe Clotilde e eu. Ela sente imenso prazer em mostrar tais fotografias, principalmente a mais recente. Assim acontece porque, intimamente, se sente valorizada por alguém ter fotografado e a presenteado com tal recordação. Por isso mesmo que toda vez que chego por lá ela se ajeita toda no sofá para que meu lugar fique garantido junto a ela. É como se estivesse repetindo a pose do retrato logo adiante.

Também não faz muito tempo que a amiga Ana de Juvenal, igualmente a Taysa, recordou-me acerca de Argentina, irmã de Agostinho, aquele que de paixão perdeu o juízo e entre nós vivia em estado de humana e cordial loucura. Pois bem, segundo Ana, Argentina ainda vive, porém convive com o injusto esquecimento da população de Poço Redondo. Disse-me ainda o quanto ela se sentiria imensamente feliz com qualquer visitante que na sua moradia chegasse como uma surpresa boa.

Ana tem razão, e também Taysa. As pessoas precisam ser mais valorizadas, mais reconhecidas enquanto estão entre nós. Não adianta proclamar saudade, bondade ou reconhecimento, após a partida terrena. Além dos afazeres cotidianos, precisamos sempre encontrar um tempinho para visitas aos esquecidos, aos enfermos, aos idosos, àqueles que um dia foram tão importantes quanto supomos que agora somos.

Quem conhecerá o amanhã de nossos passos incertos? Mas desde já ninguém deseja ser esquecido.

Poeta e cronista
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FOTOGRAFIAS HISTÓRICAS...


Para começarmos o ano com o pé direito trago uma fotografia pouco conhecida do Padre Cícero Romão Batista do Juazeiro do Norte/CE e de Benjamin Abrahão, seu Secretário particular.

A fotografia foi registrada durante um passeio do Padre e do Secretário pelas ruas da cidade de Juazeiro do Norte/CE no ano de 1925.

No ano seguinte a esta fotografia Lampião surgiria na vida desses dois personagens... Mas aí já é outra história.

Fonte: Facebook
Página: Geraldo Antônio de Souza Júnior (Administrador)

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SEU JOSÉ MARIA DE JEREMOABO-BA.


Jorge Roberto
Publicado em 3 de janeiro de 2016
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GONZAGUEANOS RECEBEM CERTIFICADO EM SIMPÓSIO SOBRE VIDA E OBRA DE LUIZ GONZAGA





Enviado pelo professor, escritor e pesquisador do cangaço José Romero de Araújo Cardoso

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PRIMEIRO CARRO QUE CHEGOU NA CIDADE DE MOSSORÓ


Foi exatamente no dia 11 de maio de 1911 que chegava ao município o "Westinganse, veículo de fabricação alemã, comprado no Rio pela firma Tertuliano Fernandes e Cia, para estabelecer linha mais fácil de comunicação entre Mossoró e cidades do oeste", conforme descrevera Lauro da Escóssia, em O Mossoroense de 24 de dezembro de 1977.

O jornalista informou que quando da chegada do carro, o comércio fechou suas portas para que todos tivessem oportunidade de vê-lo. Acrescentou que muita gente se ajoelhou nas calçadas ao ver o veículo.

O carro "desembarcou no Porto de Santo Antônio, até ali trazido por navio de pequeno calado, em maré alta. Não veio funcionando por ter quebrado uma de suas peças ao desembarcar. Acompanhou um mecânico motorista do Rio, Cesário Martins, contratado pela firma para instruir alguém capaz de servir de motorista em sua substituição", descrevera Lauro da Escóssia, na seção "Mossoró no Passado".

Sobre a movimentação com a chegada do automóvel, ele assim escreveu: "Foi um deus-nos-acuda, sua entrada na cidade pela praça da cadeia, rua Ulrich Graff, praça da Redenção, ruas Almeida Castro até a praça do Coração de Jesus, onde ficou adaptado um prédio para servir de garagem, com porta larga, fosso de cimento para lavagem e reparos nos baixos da carroceria (pouco se falava em macaco para levantá-lo).


Fonte: facebook

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SÍTIO PASSAGEM DAS PEDRAS


SÍTIO PASSAGEM DAS PEDRAS - Onde nasceu Lampião - Os visitantes embrenham-se na zona-rural, deliciando a paisagem do sertão, mesmo cenário que viveram os cangaceiros no século passado, com o guia narrando histórias alusivos a Lampião.

A primeira parada nas PEDRAS onde aconteceu o primeiro confronto armado entre os irmãos Ferreiras (família de Lampião) e Zé Saturnino (primeiro inimigo).

Sem sair da trilha chega-se as ruínas da antiga casa-grande da fazenda Pedreira, pertencente a Zé Saturnino. Onde foi palco de um dos mais emocionantes capítulos da história do cangaço.

Um pouco mais adiante se pisa no Sítio Passagem das Pedras – onde está à casa de Dona Jacosa, avó materna de Virgolino, onde ele nasceu. É como se a família ainda estivesse lá, com sua avó, a Mulher Rendeira, cantando loas... Consta de um maravilhoso acervo em fotografias, utensílio e móveis, objetos e documentos que têm referência com os guerrilheiros do sertão e remete o visitante a um mergulho no mundo mágico do cangaço, por onde começou a saga do mito Virgolino Ferreira da Silva.

É o ponto de partida da vida daquele que por duas décadas percorreu a maior parte do nordeste brasileiro fazendo justiça com as próprias mãos, pondo em xeque o poderio dos coronéis.

No Sítio tem um passeio pela caatinga em visita ao Riacho de São Domingos, ao sopé da Serra Vermelha.

O Sítio Passagem das Pedras – onde nasceu Lampião – fica situado a 35 km. do centro de Serra Talhada, pela Rodovia Estadual Virgolino Ferreira da Silva (PE 390), na direção da cidade de Floresta.
Visitas agendadas:

Telefones (87) 3831 3860 e (87) 99938 6035
E-mail: cabrasdelampiao@gmail.com.br

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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

ANÚNCIO DO FECHAMENTO DO JORNAL GAZETA DO OESTE


‎Fonte: facebook

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A IMPRENSA ESCRITA DE MOSSORÓ ESTÁ DE LUTO!

Por José Mendes Pereira
Retificando: 38 Anos

Todos aqueles que fazem parte da Imprensa Escrita de Mossoró está de luto! 

No dia 01 de janeiro do ano que iniciou, a cidade de Mossoró e as regiões adjacentes receberam a notícia do fechamento do Jornal "O Mossoroense", o qual já estava com 143 anos que funcionava.

Infelizmente o ano de 2016 não começou nada bem para a imprensa do município de Mossoró. Hoje foi anunciado também o fechamento de mais um jornal, o jornal "GAZETA DO OESTE", que já fazia 38 anos que ele funcionava.

Canindé Queiroz fundador e proprietário do Jornal Gazeta do Oste

Quando este jornal nasceu foi com o nome de "ASTECAM", fundado pelo jornalista e proprietário Francisco Canindé Queiroz, tendo sido vice-prefeito de Mossoró, ao lado do então Dr. Jerônimo Dix-huit Rosado Maia da família numerada de Mossoró.

Dr. Jerônimo Dix-huit Rosado Maia da família numerada de Mossoró -18

A Informação do fechamento é do Lindomarcos Faustino

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DOIS LIVROS DO ESCRITOR LUIZ RUBEN BONFIM

Autor Luiz Ruben Bonfim

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Valor: R$ 40,00 Reais 
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Luiz Ruben F. de A. Bonfim
Economista e Turismólogo
Pesquisador do Cangaço e Ferrovia

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CANGAÇO NO PIAUÍ?


Em breve, será lançado mais um livro sobre "Cangaço" do escritor, pesquisador e fundador da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço Paulo Medeiros Gastão.

 Professor e escritor Paulo Medeiros Gastão

Será que o Maranhão também teve cangaceiros por lá? Se o Piauí recebeu visitas de cangaceiros, possivelmente o Estado do Maranhão também acoitou em suas terras uma porção de facínoras.

Mas isso será outra história para ser estudada, que com a continuação do tempo, os pesquisadores dirão que Virgulino Ferreira da Silva, o afamado e sanguinário cangaceiro Lampião visitou ou não todos os Estados do Nordeste.

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MARIA GOMES DE OLIVEIRA A MARIA BONITA


Maria Gomes de Oliveira, vulgo Maria Bonita (Paulo Afonso, [4] 8 de março de 1911[1] — 28 de julho de 1938) companheira de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião e a primeira mulher a participar de um grupo de cangaceiros.

Maria Bonita nasceu e cresceu no povoado Malhada da Caiçara, que se localiza no município Paulo Afonso[5], na época município Gloria, na Bahia.

Depois de um casamento fracassado, no qual não gerou filhos, em 1929 tornou-se a namorada de Virgulino Ferreira da Silva, conhecido também como o "Rei do Cangaço".

Morando na chácara dos pais, um ano depois do namoro foi chamada por Lampião para fazer efetivamente parte do bando de cangaceiros,[carece de fontes] assim se tornando a mulher dele, com quem viveria por oito anos.

Supõem-se que Maria Bonita engravidou quatro vezes e que em duas gravidezes perdeu os filhos, sendo eles natimortos.[carece de fontes] Comprovadamente ela teve uma filha com Lampião de nome Expedita Ferreira Nunes[4], a única reconhecida legalmente,[3] que foi criada por um casal de amigos vaqueiros. Existem porém dúvidas sobre o parentesco dos supostos gêmeos Arlindo e Ananias Gomes de Oliveira. Ambos até então considerados filhos de Maria Bonita e Lampião.[2]

Maria Bonita morreu em 28 de julho de 1938, quando o bando acampado na Grota de Angicos, em Poço Redondo(Sergipe),[4] foi atacado de surpresa pela polícia armada oficial (conhecida como "volante"). Foi degolada ainda viva, assim como Lampião, porém este já morto, e outros nove cangaceiros.

Em 2006 a Prefeitura de Paulo Afonso restaurou a casa de infância de Maria Bonita, instalando o Museu Casa de Maria Bonita no local.[5]


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A LENDA DE LAMPIÃO E MARIA BONITA CONTINUA

por Fabíola Ortiz

Antropólogos ainda não conhecem ao certo as técnicas utilizadas na mumificação do casal ou onde estão as cabeças do rei e da rainha do cangaço.

Maria Bonita

"Se, para muitos, Lampião foi um bandido sanguinário, para muitos outros foi um herói e continua a ser uma fascinante e lendária figura.” É desta forma que o rei do cangaço é descrito em reportagem publicada na revista O Cruzeiro, em 6 de junho de 1959, intitulada Justiça para Lampião. O fascínio que despertam a história do cangaço e a imagem das cabeças decepadas dos cangaceiros expostas segue intacto 75 anos após a morte de Lampião e Maria Bonita, em 28 de julho de 1938.

Em uma emboscada na madrugada daquele dia, 48 soldados da polícia de Alagoas avançaram contra o bando de 35 cangaceiros na grota do Angico, na margem do rio São Francisco, no município de Piranhas. Após um rápido combate, Lampião e Maria tiveram suas cabeças decepadas e, posteriormente, exibidas nas escadarias da prefeitura local, ao lado de outras de componentes do seu grupo. Depois, por 30 anos, as cabeças foram expostas no museu do Instituto Nina Rodrigues, em Salvador. Por lá passaram também as cabeças dos cangaceiros Corisco, Azulão, Zabelê e Canjica.

A preservação das cabeças embalsamadas de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Maria Bonita ainda gera questionamentos e discussões entre legistas, antropólogos e historiadores. Antropólogos do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, querem agora desvendar em que condições as cabeças foram manuseadas e embalsamadas.

O então professor da Faculdade de Medicina e diretor do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues na década de 50, Estácio de Lima, confirmou na ocasião da matéria de O Cruzeiro que as cabeças haviam sido conservadas pelo método egípcio de mumificação. Elas representam “documentos inestimáveis” de uma época da criminalidade brasileira, comentou. “

As informações que existem é que foram usadas técnicas egípcias. É exatamente isso que queremos descobrir. Por que usar como parâmetro a técnica egípcia? Provavelmente não foi usada a técnica completa, inclusive porque ela não é conhecida detalhadamente”, contou à História Viva a antropóloga biológica Cláudia Carvalho, diretora do Museu Nacional no Rio.

Sabe-se que o processo de mumificação no antigo Egito envolvia uso de resinas, essências aromáticas, limpeza com água do Nilo, retirada do cérebro pelo nariz, dos fluidos corporais e uma cobertura de sal por um longo período.

“Acho muito difícil que tenham sido seguidas essas técnicas. As cabeças foram aparentemente salgadas num lugar e levadas para outro. A temperatura e a umidade controladas não eram uma possibilidade naquela época. Não dá para saber se o resultado da técnica foi bom ou não”, admitiu Cláudia, ao duvidar que as sofisticadas técnicas milenares tenham sido utilizada no Nordeste na década de 1930.

(...)

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/a_lenda_de_lampiao_e_maria_bonita_continua.html

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LAMPIÃO TINHA RESPEITO PELOS VELHOS E POBRES


Conta-se que certa noite, os cangaceiros pararam para jantar e pernoitar num pequeno sítio, Um dos homens do bando, queria comer carne e a dona da casa, uma senhora de mais de 80 anos, tinha preparado um ensopado de galinha. O sujeito saiu e voltou com uma cabra morta nos braços.

- Tá aqui! Matei essa cabra. Agora, a senhora pode cozinhar pra mim.                                                                                    
A velhinha, chorando, apoderada de medo, contou que só tinha aquela cabra, e que era dela que tirava o leite para alimentar os seus três netos, já que não tinha outro alimento.                                

Sem tirar os olhos do prato, Lampião ordenou ao sujeito:        

- Paga a cabra da mulher.                                                    

O cangaceiro, contrariado, jogou algumas moedas na mesa, dizendo:                                                                                      
- Isso pra mim é esmola.                                                                      

- Agora paga a cabra, sujeito! – Disse Lampião.                             

- Mas, capitão, eu já paguei.                                                

- Ainda Não pagou. Aquilo, como você disse, era uma esmola. Agora, paga a cabra.                                                              

E o sujeito pagou a cabra outra vez.

Infelizmente eu não tenho a fonte deste material

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OS HOMENS QUE TRABALHARAM PARA LAMPIÃO E GOSTAVAM DE CAVALO BRANCO

Esquadrão de Lampião que preferia Cavalo Branco.

Luís Pedro (morto na chacina de 1938), Maquinista, Jurema, Bom Devera, Zabelê, COLCHETE (Morto no ataque de Mossoró em 1927), Vinte e Dois, Lua Branca, Relâmpago, Pinga Fogo (irmão de Massilon), Sabiá, Ben-te-vi, Chumbinho, Az de Ouro, Candeeiro, Vareda, Barra Nova, Serra do Mar, Rio Preto, Moreno, Euclides, Pai Velho, MERGULHÃO (morto na chacina de 1938); Coqueiro, Quixadá, Cajueiro, Cocada, Beija Flor, Cacheado, Jatobá, Pinhão, Mormaço, Ezequiel Sabino, Gato, Ventania, Romeiro, Tenente, Manuel Velho, Serra Nova, Marreca, Pássaro Preto, Cícero Nogueira, Três cocos, Gaza, Emiliano, Acuana, Frutuoso, Feijão, Biu, Sabino, Cordão de Ouro, Ferreirinha, Antônio Ferreira (irmão de Lampião). Mais JARARACA (Baleado em Mossoró), e assassinado depois de cinco dias de sua captura pelos homens de Mossoró e morto posteriormente.   

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COISAS SIMPLES (E GRANDIOSAS)

Por Rangel Alves da Costa*

De repente, você encontra uma velha amizade e sente que a pessoa baixa a cabeça um tanto envergonhada, como se temesse não ser reconhecida nem cumprimentada. Geralmente acontece quando a situação de um parece estar melhor que a do outro e a pobreza faz a pessoa querer evitar reencontros.

Em instantes assim, como faz bem um olhar sincero, um abraço apertado, um punhado de palavras antigas, daquelas que se dizia em meio às alegrias de outros tempos. E logo a percepção que as amizades verdadeiras são aquelas construídas na flor dos anos e que não haverá pobreza ou riqueza que as tornem esquecidas.

Nem todos percebem, mas pessoas existem cujo sorriso no coração espera somente uma palavra ou um gesto amigo do outro. Chamar alguém pelo nome causa um efeito de chuva perante o sertão. Relembrar convívios passados causa um efeito de lua perante olhos enamorados. Perguntar por parentes, amigos e conhecidos, causa um efeito imensamente grandioso nos sentimentos.

É que as pessoas gostam de ser reconhecidas, valorizadas, consideradas pela história de vida e não apenas por situações. As pessoas - e quando mais em situação de humildade estejam - gostam de ser reencontradas, principalmente nos seus próprios lares, onde uma simples visita se torna num gesto inesquecível.

Pessoas existem que conviveram juntas a criancice, a meninice, boa parte da vida adulta. Por força do destino, cada uma segue um rumo diferente e mais tarde uma está com melhores condições de sobrevivência que a outra. Muitos sequer recordam do tempo passado, se negam sempre a relembrar os momentos iguais. A riqueza e a bonança os tornam esquecidos daqueles que sempre se mostraram verdadeiros amigos.


Lastimosos são os corações assim, vaidosos, egoístas, presunçosos. Não há maior pobreza de espírito que deixar de reconhecer o outro pelo fato de este estar economicamente fragilizado, por viver na pobreza ou não poder ostentar o mesmo anel. E se esquecem das voltas que o mundo dá e os exemplos recolhidos em cada passo da vida.

Grandiosa é a alma, primoroso é o espírito que possui a dádiva do reconhecimento, do amor incondicional, do companheirismo e da fraternidade. Imenso é o coração e potentado é o gesto daquele que convive para a vida e não para o momento, daquele que se reconhece apenas um favor divino e não uma imposição humana.

Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, assim prega o Eclesiastes. Por que fugir ao bem e buscar a arrogância e a desnecessária altivez? O que hoje se mostra de uma forma, amanhã já terá outra feição. Quanto mais foge aos que cresceram no mesmo ninho mais perto estará da solidão do amanhã.

Gostar de quem gosta da gente é sublime reconhecimento. Sentir o que o outro sente é gesto incomparável de igualdade. E não é difícil saber quem verdadeiramente é amigo, quem nos admira, quem nos preserva no coração. Tudo na simplicidade do encontro, do olhar, do abraço, da palavra sincera.

Eis aqui as sandálias da humildade. Nenhum reinado é mais poderoso que uma boa amizade. O velho amigo - mesmo em barraco de cipó e barro - adoça o café no prazer em receber, entrega todo o contentamento do mundo porque não possui algo mais valioso para oferecer. E há muita gente assim na minha Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo.

Conheço o dourado, o de anel, o de riqueza e o que pensa que tem. Conheço o rico e o pobre, a arrogância e a humildade, aquele que é amigo e aquele que apenas finge, que sempre age por conveniência. Mas afirmo com sinceridade: sempre abraçar o velho amigo de chapéu de couro e roupa remendada, sempre abraçar aquela de mão calejada e feição marcada pelo sacrifício. E assim com o moço, a moça, o jovem, o menino. É que aprendi a amar os meus iguais.

Por que somos apenas o que somos. Antes de tudo a raiz. E sem sair do chão. Por que a ele retornaremos feito pó, leve, suave e com a consciência dos justos.

Poeta e cronista
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MANOEL SEVERO BARBOSA E O MITO VIRGULINO:

Por Manoel Severo Barbosa

"Parece estranho falarmos de cangaço e termos que recorrer a conceitos próprios do ambiente empresarial moderno; mas, aprofundando-nos um pouco mais na história intrigante de Virgulino, não nos parece exagero considerar que já naquela época o engenhoso bandido das caatingas conhecia muito bem o valor do Marketing Pessoal, a Política da Boa Vizinhança, Lobby e Tráfico de Influência, até mesmo noções de Logística Empresarial; na verdade não conseguimos conceber um reinado tão extenso de uma vida fora da lei em circunstâncias tão adversas, sem que boa parte desses conceitos não fizesse parte da mente prodigiosa de Lampião.

Desde cedo pela própria profissão da família, Virgulino e os irmãos passaram a conhecer toda a região e fazer um grande ciclo de relacionamentos, que mais tarde, unido a ingredientes como o medo e o favor, seriam de muita valia. Sem falar que essa espetacular rede de “apoiadores”; famosos coiteiros; formada de gente miúda e graúda; foi fundamental para a sobrevivência por tanto tempo do famoso grupo.

As condições inóspitas e hostis da caatinga exigiam, além da extrema capacidade física, um exagerado instinto de sobrevivência. Comida, água, descanso, dormida, eram luxos muitas vezes esperados por dias a fio. Andanças intermináveis, muitas vezes em círculos, passando por vários estados em poucos dias carecia de um mínimo de organização e senso de direção.

Outro fator preponderante era o acesso à munição. Até os mais próximos do grande chefe do grupo, não sabiam de onde vinha tamanha carga de armamento, inclusive recebendo o que havia de mais moderno na época, exclusividade que nem as forças policiais recebiam.

Penso que o maior de todos os diferenciais entre Lampião e os outros grandes chefes do cangaço, como Jesuíno Brilhante, Antonio Silvino e mesmo Sinhô Pereira, sem dúvidas era o seu cérebro privilegiado. Mesmo compreendendo a posição de amigos pesquisadores quando defendem a desconstrução do mito de que Lampião não tinha nada de estrategista militar e que seu sucesso e longevidade na vida cangaceira se deveu a uma “mistura de incompetência e corrupção, por parte dos governos, e instinto de sobrevivência da parte dele, Lampião”; as espetaculares técnicas desenvolvidas para a “guerrilha” na caatinga, muitas vezes foram determinantes para salvar vidas e vencer batalhas, muitas delas beirando ao absurdo do desequilíbrio de forças, como a de Serra Grande onde uma força volante de perto de 400 homens não conseguiu dá cabo do grupo cangaceiro com pouco mais de 70 cabras, que se valiam desde o ousado enfrentamento em nítida desvantagem, à retirada estratégica quando lhe era conveniente, muitas vezes o bando simulava o abandono do embate e voltava pela retaguarda e encontrava a força volante totalmente desprevenida.

No cangaço de Virgulino, cada peça se encaixava em seu lugar...

Na verdade, o próprio estilo de vida cangaceira; uma espécie de nômade das caatingas, o profundo conhecimento da região e suas sólidas redes de apoio logístico, lhes conferiam um grande poder de mobilidade, como também maiores condições de escaparem da polícia.

Um dos maiores cuidados do grupo era evitar o movimento pelas estradas, e mesmo dentro da caatinga tomavam cuidados excessivos com relação aos rastros. O ato de andar em fila indiana, todos seguindo na mesma pegada, o mito de calçar alpercatas com o salto na frente e o último do grupo apagar as pegadas com galhos de plantas eram providências costumeiras para dificultar o trabalho dos rastreadores das volantes, o cuidado em acender o fogo para a comida e até mesmo em enterrar os restos de animais sacrificados e restos de comida eram costumais, além do uso de cães para a sentinela e um entrançado de fios e chocalhos ligados entre si pela catinga, para denunciar a presença indesejada. Ao invadir os lugarejos o primeiro alvo eram sempre os fios do telégrafo.

Outra tática que visava confundir o trabalho das volantes era não deixar os corpos de seus companheiros abatidos em combate, quando era inevitável, cortavam as cabeças dos mesmos para evitar que fossem identificados. O grupo também possuía o hábito de para os novos membros adotar a alcunha ou apelido de outro companheiro morto, também na intensão de confundir a polícia, perpetuando o personagem abatido.

Dessa forma não seria exagero nenhum, declinar Virgulino Ferreira como um dos cérebros mais privilegiados de sua época, razão sem dúvidas que permitiu seu “reinado” por quase vinte anos; de sua simpática Vila Bela em 1918 até o fatídico julho de 1938, em Angico.Virgulino "Um líder consciente do poder de sua própria imagem e mito..."


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domingo, 3 de janeiro de 2016

COMPRE DIRETO COM O AUTOR


O LIVRO:

O romance “A Volta do Rei do Cangaço,” de Junior Almeida, mantém vivo o mito de Lampião.

Neste livro de sabor regional o mais famoso cangaceiro nordestino não foi morto pela polícia em Sergipe, em 1938. Alguém foi assassinado em seu lugar mas prevaleceu a versão das “volantes” e do governo.

Lampião, na verdade, foi atingido por uma espécie de maldição e ainda está vivo, sem nem ao menos envelhecer. Já morou em vários lugares do Nordeste e usou diversos nomes. Atualmente usa o nome de Luiz Ribeiro, é coronel da Polícia Militar de Pernambuco e mora num recanto escondido no município de Capoeiras, no Agreste do Estado.

O romance faz uma viagem ao passado, relembrando os tempos do cangaço e da violência, tanto por parte dos bandoleiros como da polícia. No presente, Virgulino Ferreira, com outro nome interage com militares de alta patente e até com o governador do Estado.

Um historiador, obcecado pela vida misteriosa dos cangaceiros, desconfia que Lampião não morreu em Angicos e começa a fazer investigações por conta própria, enfrentando a descrença de muitos e os perigos dessa busca pela verdade.

“A Volta do Rei do Cangaço” retrata o interior das pequenas cidades do Nordeste, mostra as ligações de Lampião com o padre Cícero Romão e nos apresenta o cangaceiro como uma espécie de justiceiro, capaz ainda hoje de recorrer a violência quando é preciso enfrentar uma desfeita ou punir algum bandido.

Um livro que vai dar o que falar.

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RUA DAS ÁRVORES

Por Clerisvaldo B. Chagas, 3 de janeiro de 2016 - Crônica Nº 1.494

Quem esteve na orla de Maceió no final do ano passado, contemplou a maravilhosa decoração natalina. Um encanto! E se a orla por si só já é belíssima, imaginem decorada artificialmente com aquele marzão ao fundo e no cair da tarde. Vários outros lugares da capital faz jus ao título ganho  como a capital mais bonita do Brasil. Deixando todos esses lugares, voltemo-nos para o comércio que tomou ares de lugar civilizado com os famosos calçadões.

Rua da Árvores, em Maceió. (Foto: Clerisvaldo).

Em alguns pontos desse mesmo comércio falta manutenção em parte do saneamento que fede mesmo. E nesse entrevero todo, entre o progresso e o atraso, particularizamos a Rua Augusta, sempre conhecida como Rua das Árvores. Rua do Ipaseal Saúde, rua de pequeno e médio comércio, rua de comércio ambulante de frutas, rua de pontos de ônibus. Ali você encontra um verdadeiro Frutal, mercadorias vindas de diversos lugares, tanto do estado quanto de fora. Entretanto, os pedestres sofrem com as  calçadas estufadas que a ambição pelo dinheiro não consegue sequer um conserto. E naquele pomar ambulante sobre as sarjetas, escorrem as águas pretas de fossas, misturando a fedentina com o cheiro enjoativo dos pequenos restaurantes. Um descaso total com a saúde pública.

A Rua das Árvores, dessa maneira, torna-se complemento do Calcanhar de Aquiles de Maceió: o imundo mercado que gestor nenhum que meter a mão, como se fosse paciente em estado terminal. Não estamos falando dos Haiti moradias da Levada, nem das grotas inchadas de pobreza. Estamos nos referindo ao centro de Maceió que nos lugares citados continuam no Século XIX.

Continuemos desfrutando as partes sadias, mas não se pode calar diante das mazelas que atentam contra o coletivo. É dever, até, o grito da população para os ouvidos distraídos dos gestores.

Rua das Árvores, pedaço de tradição maceioense.  


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