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quarta-feira, 9 de outubro de 2024

SEU GALDINO E A ONÇA LEITEIRA.

 Por José Mendes Pereira


- Dionísia, minha velha, gritava seu Galdino, o diabo das ovelhas do morador da viúva estão todas dentro do nosso cercado. Não se pode mais criar nada nas nossas terras. Ele sabe que as suas ovelhas são umas verdadeiras ladras, e as solta perto do meu cercado.

- Calma, meu velho! Calma! - aconselhava-o dona Dionísia. É melhor ter paciência. Intrigas com vizinho já se parece morte.

- Mas por que ele não as coloca no cercado de cima, se lá é bem mais farto o parto do que ali? - dizia ele com ignorância.

Enquanto isso, se ouvia o toc, toc de um animal que vinha caminhando. Era seu Leodoro Gusmão, montado em um lustroso cavalo de campo, que havia tomado emprestado à fazendeira dona Chiquinha Duarte, para a captura de um boi mandingueiro.

Fazendeira dona Chiquinha Duarte

- Apeie-se, compadre Leodoro, para tomar um cafezinho. A Dionísia acabou de fazer, e está bem quentinho... Dionísia, trás um cafezinho para o nosso compadre! – gritou seu Galdino em direção à cozinha.

E virando para o seu Leodoro, perguntou-lhe:

- Conseguiu ver o seu boi mandingueiro nos cerrados, compadre?

- Infelizmente não o vi, compadre Galdino. O parto está muito unido ainda, e torna-se difícil ver qualquer vivente naquelas matas fechadas.

- Mas assim é que é bom, compadre! Muito pasto e os nossos animais não morrerão de fome; ao contrário, eles estão nadando no meio da fartura.

- Deus nos livre de seca! Nossa! Só trás sofrimento para nós e para os animais. - Disse seu Leodoro.

- Quando eu vejo a fartura, me lembro de quando ainda não era fazendeiro. O sofrimento era grande. Nós morávamos nos fundos das terras do fazendeiro Chico Duarte, lá bem próximo à Favela.

Fazendeiro Chico Duarte esposo da dona Chiquinha Duarte

Eu vivia de campear gado bravo nos cerrados. Eu era vaqueiro de aluguel. Nunca fui vaqueiro de fazendeiro nenhum. O fazendeiro me dizia o bicho que precisava no seu curral, e me dava uma radiografia completa. A cor do animal, o ferro, se era adulto ou ainda novilho, tudo, sem faltar nada. E a partir das características do vivente, eu me mandava em busca dele, e só retornava para casa com ele na frente, mascarado e com chocalho...

- Mas o senhor sempre campeava sozinho, compadre Galdino? Interrompeu-lhe seu Leodoro.

- Sim senhor! Nunca precisei de vaqueiros para tanger gado comigo. E naquele tempo as onças viviam passeando por todos os lugares. Todos os dias, nas fazendas, amanheciam bezerros mortos e estraçalhados pelas danadas.

- E o senhor tinha medo delas?

- Nunca tive medo de tal animal. Eu a tratava como se fosse um cachorro, com uma diferença, apenas de grande porte.

- Eu não tenho medo, compadre Galdino. Eu evito de vê-las, porque elas são traiçoeiras, e não se deve dar chance a esse tipo de animal.

Seu Galdino precisava urgente contar uma história sobre onça a seu Leodoro. E de imediato, deu início a uma de suas aventuras.

- Certa vez, eu precisava de uns cabos para as minhas ferramentas. Os meus dois filhos, os que moram lá na grande São Paulo, o Artur e o Severino ainda eram pequenos, o mais novo com sete anos, e o mais velho com oito. A nossa situação era de lástima, porque os fazendeiros não estavam precisando de serviços dos vaqueiros, vez que os rebanhos estavam muito bem, obrigado. Naquela época, eu ainda nem sonhava em possuir fazenda. Mas, o senhor sabe, que quem é pobre, sofre por tudo. E o pior é a falta de alimentos. A minha casa estava sem nada, apenas água no pote e nada mais. O que ainda tinha em casa era açúcar, e quando um deles sentia fome, a Dionísia fazia garapa, isto no intuito de amenizar a fome do menino.

- Os meus filhos também foram criados bebendo garapa, compadre. - afirmava seu Leodoro para reforçar o que dizia seu Galdino...

- Pois bem, já que eu iria tirar os cabos para as minhas ferramentas, e como a situação andava de pior a pior, que o senhor sabe que quem anda pelas matas, vez por outra encontra uma fruta, mel de arapuá..., levei o Artur e o Severino, pois se caso eu encontrasse frutas ou mel, eles aliviariam um pouco a fome. Mas eu os levei, não só para isto, também para conhecerem as terras que eles teriam que passear por elas quando atingissem a adolescência, à procura de animais. E nós seguimos por uma vereda feita por bodes, e bem próximo ao Pai Antonio, que o senhor o conhece muito bem, do Soutinho, avistamos um animal que se escondia por detrás de uma árvore derreada. 

Dona Edith Souto e Soutinho

E fomos nos aproximando daquele bicho, para termos a certeza que vivente era. Mas com muito cuidado, pois eu temia que poderia ser uma onça, e já que os meus filhos andavam comigo, talvez acontecesse um ataque contra nós, feito por ela. E lentamente, fomos mais perto, e adivinhe, compadre, o que era!?

- Eu suponho que era uma rês pastando bem escondidinha. – Dizia seu Leodoro.

- Que rês que nada, compadre! Era uma enorme onça, em pé, diante de nós. Os meninos ficaram assustados. Mas para consolá-los, eu os disse que não tivessem medo, que ela não iria lhes fazer nenhum mal.

- Meu Deus, uma onça! – exclamou seu Leodoro.

- E vi logo que era uma onça parida, porque as suas mamas estavam muito inchadas, como se ela tivesse perdido os seus filhotes. Mas em nenhum momento, ela demonstrou insatisfeita com a nossa presença. Mas com receio, que ela poderia atacar os meus filhos, coloquei-os trepados em uma árvore, pois se ela tentasse me atacar e eu corresse, ela não conseguiria subir, para estrangular os meus garotos. E fui me aproximando mais dela, e nas mãos, eu levava um enorme facão, mais uma corda que eu a conduzia amarrada em minha cintura. A onça era tão mansa, mas tão mansa, que nada fez contra mim. Fiquei alisando o seu corpo, repuxando o couro, e a danada se era covarde, naquele dia se tornara um cordeiro. Olhando as suas tetas, desejei secá-las. Mas com medo que ela se revoltasse contra mim, continuei alisando o seu couro, e com a outra mão, fui peando as suas patas traseiras. Ali, eu iniciei secar as suas tetas.

- O senhor estava tirando leite da onça, compadre?

- E eu brinco, compadre Leodoro!? Como eu já havia peado as suas patas traseiras, cheio de certeza que ela era uma verdadeira amiga, pedi que o Artur descesse da árvore, para que eu o arriasse em uma das patas dianteira da onça, para facilitar a esgotada do leite, que com certeza, seria melhor para eu mungi-la.

- O senhor arriou o seu filho na onça, compadre Galdino? - Perguntava seu Leodoro com espanto.

-Arriei-o! Eu notei logo que a onça era uma lesada..., eu achando que era um desperdício, já que o leite era de boa qualidade, chamei o Severino para mamar nela, porque ele sentia fome. A onça nem ligava, e me parece que ela estava achando boa aquela arrumação. Como ela estava tranquila, desarreei o Artur das mãos da onça, e ordenei-o que fosse mamar também. Eles ficaram com os as barrigas enormes, porque a onça tinha muito leite.

- E depois, compadre, a onça não se revoltou com vocês?

- Pois diga! De forma alguma! Eu vendo que ela era uma besta, isto é, muito mansa, peguei a corda, fiz um cabresto, encabrestei-a, e meus filhos e eu fomos para casa montados nela.

- Que bom que um dia, nos tabuleiros, eu me encontrasse com essa mesma onça, compadre Galdino, para a Gertrudes passear montada nela nesse nosso sertão sofrido.

História contada, seu Leodoro resolveu ir embora, pois precisava fazer algumas compras lá em Mossoró.

- Até mais tarde, compadre! - Disse e saiu galopeando vagarosamente em direção à sua casa.

- Até, compadre...!

Seu Leodoro não tinha mais espaço para guardar a tamanha mentira do seu Galdino.

- Vai-te corno! - Dizia seu Galdino. Quem irá sempre montar na Gertrudes sou eu, e não onça nenhuma!

Minhas Simples Histórias

Se você não gostou da minha historinha não diga a ninguém, deixe-me pegar outro.

Se você gosta de ler histórias sobre "Cangaço" clique no link abaixo:

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JOSÉ MARTINS DE VASCONCELOS

 


José Martins de Vasconcelos nasceu na cidade de Apodi, no dia 11 de novembro de 1874. Ainda muito moço foi para mossoró a fim de procurar trabalho e estudar. Ali, iniciou sua vida, desenvolvendo atividades modestas; foi vendedor de jornais, alfaiate, músico, para depois ingressar no jornalismo, dedicando-se ao mesmo a serviços tipográficos, instalando uma tipografia, ``O NORDESTE´´, ainda hoje em pleno funcionamento. (Não existe mais). Participou ativamente de todos os movimentos literários e políticos de sua época, fundou jornais, fez teatro, criou bandas de música, escreveu e publicou os seguintes livros: ``Saltérios de Saudades´´(poesias), ``Renovos D´Alma´´(poesias), ``O Sultão´´(poesias), ``Histórias do Sertão´´(contos), ``Goivos´´(poesias). Faleceu em mossoró aos 73 anos de idade, onde viveu e desenvolveu suas atividades de jornalista, poeta, músico, comerciante e intelectual dos mais primorosos.

MINHA TERRA (APODI)

VINHA DE LONGE, DE OUTRAS TERRAS VINHA CISMADO EM TI, A LUZ D´UM SOL CANDENTE QUANDO VISEI-TE NO TAPIZ FLORANTE, FORMOSO E ALTIVA, O MEIGA TERRA MINHA.
VI-TE CINGINDO UM ARREBOL QUE TINHA UNS NIMBOS DE OURO SOB O CÉU RIDENTE; RIA A TEUS PÉS UM ESTENDAL VIRENTE DE UM LAGO AMENO, ONDE O AMOR SE ANINHA!...
VIA A IGREJINHA DE SÃO JOÃO BATISTA, NOSSO PATRONO; E A CAPELINHA ANTIGA DO CEMITÉRIO, ONDE EU FUI BATIZADO.
QUANTA SAUDADE NESSA TARDE QUISTA TIVE DE TI, COMO DA QUADRA AMIGA DE MINHA INFÂNCIA, O MEU TORRÃO AMADO.

MOSSORÓ, 8 DE AGOSTO DE 1903
JOSÉ MARTINS DE VASCONCELOS

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FOTO INÉDITA - O POLÊMICO CANGACEIRO " VOLTA SECA " DANDO UMA ENTREVISTA, QUANDO ESTAVA RECLUSO NA PENITENCIÁRIA DE SALVADOR/BA.

 Por Volta Seca pesquisador do cangaço


Passou mais de 20 anos preso, até ser indultado pelo presidente da república, Dr. Getúlio Vargas.

Segundo alguns historiadores, após Lampião retirá-los do quartel da cidade de queimadas e, atirar nos 07 (sete) soldados, o cangaceiro -mirim "Volta Seca", os sangrou e, lambeu o seu punhal melado de sangue. (Verdade ou mentira?)

OBS: Notar, que ele gostava de Cachorro...
FOTO : cortesia jornal A Noite.

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VOLTA SECA VOLTA

 Por Voltaseca Nolta

FOTOS: Fonte Google

O UMBUZEIRO era muito utilizado pelos cangaceiros, e policiais volantes, principalmente, como alimentação (frutos/batata/água).

Nas secas, os cangaceiros conseguiam água das raízes(Batata) dos umbuzeiros. Faziam uma fogueira no solo, com gravetos, á altura das raízes tornando-as mais aquosas, e, retiravam os Tubérculos, partiam, e, o seu miolo (massa branca), era raspada e espremida em lenços, e em pedaços de panos, donde saia um líquido aquoso (água).

A casca dos tubérculos servia de panela. Era a fruta sagrada do sertanejo. Os cangaceiros chupavam o umbu que saciava a fome e a sede. Adicionado ao leite, preparava-se a umbuzada (vitamina do sertanejo).

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CASA QUE PERTENCEU AO COITEIRO ANTÔNIO DE CHIQUINHO. (POVOADO ALAGADIÇO).

 Por Geraldo Júnior



Aspectos da casa que pertenceu a Antônio de Chiquinho localizada no povoado Alagadiço no município de Frei Paulo no estado de Sergipe.

Nessa casa aconteceram inúmeros encontros entre o anfitrião e cangaceiros. Palco de incontáveis festas com a presença, principalmente, do célebre cangaceiro Zé Baiano e seus Cabras. Inclusive o próprio Lampião se utilizou dos serviços de Antônio de Chiquinho, tendo sido a princípio como guia e posteriormente como coiteiro e dos "finos" diga-se de passagem.

Porém quem mais se serviu dos “serviços” de Antônio de Chiquinho foi Zé Baiano, por estar o povoado Alagadiço localizado em sua área de atuação.

A relação de amizade e negócios entre Antônio de Chiquinho e Zé Baiano teve seu fim no dia 07 de junho de 1936, quando o coiteiro acompanhado de outros civis, todos residentes da região, resolveram dar cabo de Zé Baiano e seus comparsas. (Geraldo Antônio de Souza Júnior)

Abaixo uma transcrição do livro LAMPIÃO - A RAPOSA DAS CAATINGAS de José Bezerra Lima Irmão que conta a história do assassinato de Zé Baiano e seus comandados.

Antônio de Chiquinho tinha um pequeno comércio e era marchante. Havia sido preso pela terceira vez em abril de 1936. Ao ser solto, ele voltou a Alagadiço disposto a matar Zé Baiano, de acordo com o plano traçado por Antônio Conrado.

O mais difícil era a escolha de outras pessoas para ajudá-lo, pois Zé Baiano nunca andava sozinho. Antônio precisava procurar uns quatro ou cinco amigos da maior confiança, e estes teriam de ser cabras dispostos, que não fossem se acovardar na hora da verdade. Primeiro pensou em Pedro de Nica, um sujeito valentão, temido naquelas paragens – ninguém sabe como já não tinha se tornado cangaceiro. Pensou também em Pedro Guedes, um rapagão enorme, de 24 anos.

A seleção foi mais fácil do que Antônio esperava. Pedro de Nica e Pedro Guedes disseram que topavam. Os outros escolhidos eram empregados de Antônio de Chiquinho: Toinho (Antônio de Júlia) e Dedé de Lola, que trabalhavam em sua fazenda, e Birindim, seu ajudante de marchante.

Escolhidos os companheiros, passou-se a aguardar uma oportunidade propícia.

* * *

Zé Baiano tinha uma grande e respeitosa estima pela professora Prazeres, que lecionava na fazenda Altamira, de Antônio de Inês. Ele costumava acoitar nessa fazenda. No início de junho, Antônio de Chiquinho soube que a Festa de São João na Altamira ia ser um sucesso. Na zona do Guedes e das Pias só se falava então no baile da professora. Com certeza Zé Baiano estaria lá. Antônio de Chiquinho pensou em surpreender Zé Baiano durante a festa. O problema é que nessas festas costumavam aparecer também os grupos de cangaceiros chefiados por Zé Sereno e Canário. Não ia dar certo. A coisa teria de ser feita ou antes ou depois.

Foi quando, no dia 3 de junho de 1936, quarta-feira, Antônio recebeu um recado de Zé Baiano dizendo que estava precisando de mantimentos, os de costume – jabá, feijão, farinha, café, sal, açúcar, fumo, rapadura, querosene...

Antônio de Chiquinho decidiu que era chegada a hora. Mas precisava saber quantos cangaceiros estavam com Zé Baiano. Para verificar isso, enviou Dedé, numa missão aparentemente inocente: Dedé iria dizer ao cangaceiro que Antônio de Chiquinho estava custando a levar a encomenda porque vinha sendo vigiado pela polícia, mas no domingo à tarde, depois da feira, a encomenda seria entregue, sem falta.

Dedé encontrou Zé Baiano na fazenda Preá. Deu o recado. Notou que ele estava com apenas dois cangaceiros, Demudado e Chico Peste.

Ao saber que Zé Baiano estava somente com dois cabras, Antônio de Chiquinho animou-se. Ia ser fácil.

* * *

No domingo, 7 de junho de 1936, Zé Baiano, acompanhado de Demudado, Chico Peste e um cangaceiro novato chamado Acilino, passou de manhã pela fazenda Altamira para saber como iam os preparativos para a festa. A professora Prazeres o recebeu com alegria, disse que ele não poderia faltar e mandasse chamar também os primos de Poço Redondo. Zé Baiano disse que viria, com certeza, e ia mandar chamar Zé Sereno e Manoel Moreno. Zé Baiano tinha encomendado presentes para algumas moças. Só pelo feitio de um vestido tinha pagado 30 mil-réis. Despediu-se da professora e foi para a fazenda Baixio, do amigo Antônio de Chiquinho.

Antônio de Chiquinho não se encontrava na fazenda porque, sendo domingo, dia de feira no povoado, ele estava ocupado, pois era marchante. Porém, ao dar meio-dia, Zé Baiano começou a ficar desconfiado da demora do coiteiro, pois a feira de Alagadiço terminava antes do meio-dia, Antônio de Chiquinho só matava um carneiro e um porco, e portanto já devia estar na fazenda. Zé Baiano deixou um recado para que Antônio de Chiquinho fosse encontrá-lo na fazenda Lagoa Nova – a Lagoa Nova pertencia justamente a Pedro de Nica, um dos homens que Antônio de Chiquinho tinha convidado para a melindrosa empreitada.

Antônio de Chiquinho e os companheiros chegaram ao Baixio logo depois com as encomendas. Ao tomarem conhecimento de que os cangaceiros tinham ido para a Lagoa Nova, rumaram para lá. Conheciam o esconderijo, que ficava não muito longe da estrada, a meia légua do Baixio.

Antônio ia um pouco apreensivo. Desde que fora preso, nunca mais tinha se encontrado com Zé Baiano.

Além dos mantimentos, os coiteiros levavam também uma pá e uma picareta. Perto da Lagoa Nova, esconderam as ferramentas no mato. Apenas Antônio de Chiquinho ia armado – portava um parabelo. Dedé levava um facão metido na bainha, preso na cintura.

Deixaram a estrada e seguiram por uma vereda do gado. Logo adiante, avistaram os cangaceiros, sentados no chão, debaixo de umas baraúnas. Zé Baiano e seu cangaceiro de confiança, Demudado, vieram ao encontro dos coiteiros. Zé Baiano estava aborrecido com a demora. Antônio justificou-se explicando que seus passos estavam sendo vigiados, tinha sido preso...

– Não, Antonho, você nun tem discupa, andou munto má!

Demudado emendou:

– Cuma é qui você fais nóis isperá nun sei quantos dia? Tá pensano o quê? E pere aí: pur qui é qui aquele cabra tá cum um facão?

Dito isto, Demudado tomou o facão de Dedé e deu-lhe uns safanões, segurando-o pela abertura da camisa, chegando a rasgar a jabiraca que o coiteiro usava no pescoço. Zé Baiano também queria saber para que Dedé queria o facão.

Dedé explicou que era carreiro e precisava tirar uns paus a fim de fazer uns canzis e fueiros para o carro de bois. A resposta não convenceu Demudado, que objetou:

– Mais qui mintira é essa, cabra? Hoje é dumingo... Ninguém trabaia no dumingo! Nun é pecado?

– Cortá ũas varinha nun é trabaio... – justificou-se Dedé.

Antônio de Chiquinho contemporizou:

– Voceis tão fazeno ũa tempestade num copo d’água. Pra qui diabo serve um facão? Acho qui Demudado nun pricisava dismoralizá o meu carrero...

– Nóis nun gosta de vê coitero armado! – disse Zé Baiano.

– Apois eu tou armado – avisou Antônio de Chiquinho. – Tou cum meu parabelo.

– Ora, Antonho, você é meu amigo! Você pode! Agora, me diga ũa coisa: qui diabo tá haveno hoje, Antonho? Pur que você veio cum tantos home?

– Oxente! E cuma era qui eu pudia trazê essas coisa toda sozim? Eu nun sou jegue não... Eles viero pra me ajudá...

– Hum! Já vi você sozim carregá munto mais coisas, Antonho!

– É qui eu tou ficano véio... – brincou Antônio de Chiquinho.

Todos riram. Zé Baiano conformou-se. Estava entre amigos. Conhecia Pedro Guedes, Toinho e Birindim. Só nunca tinha visto Pedro de Nica. Perguntou quem era. Antônio de Chiquinho respondeu que Pedro de Nica era justamente o dono daquele lugar onde eles estavam, e era gente de confiança, tinha vindo para ajudar. Zé Baiano comentou:

– É... cabra forte... dava um bom cangacero...

Antônio de Chiquinho aproveitou a oportunidade e observou, meio desinteressadamente:

– Tou notano qui você tá cum um cabra novo. Eu só cunheço Demudado e Chico Peste. Quem é o outo?

Zé Baiano respondeu que o novato se chamava Acilino. Era da fazenda Pulgas, ao lado das Cotias, na zona do Gameleiro. Tinha ingressado no bando no dia anterior. Parente de Chico Peste, nascido e criado no Bandeira.

Passados aqueles momentos de tensão, todos relaxaram. Antônio de Chiquinho mandou que os companheiros acendessem o fogo, pois ele tinha trazido uma buchada de carneiro já pronta, bastava esquentar. Tinha trazido também três litros de conhaque.

O plano era este: embriagar os cangaceiros para facilitar o ataque; Antônio de Chiquinho seguraria Zé Baiano, Toinho e Birindim pegariam Demudado, e Dedé de Lola ficaria com Chico Peste; bastava agarrá-los, para que Pedro Guedes e Pedro de Nica, que ficavam sobrando, pudessem matá-los. O problema é que encontraram um cangaceiro a mais. Enquanto acendiam o fogo, numa trempe de pedras, Antônio de Chiquinho falou baixo para os companheiros:

– Tem nada não. Pedo Guede ajuda Toinho, e Birindim fica cum o discunhicido. Pedo de Nica mata tudo sozim.

Alegando que estava fazendo muito calor, Antônio de Chiquinho tirou a jabiraca do pescoço e depois a camisa. Lutar sem camisa era mais fácil. Tirou também o parabelo e colocou-o ao pé de uma árvore. Como haviam combinado, os companheiros também se queixaram do calor e tiraram suas camisas.

Antônio de Chiquinho abriu um litro de conhaque e foi o primeiro a tomar um trago, para mostrar que a bebida não tinha veneno. A garrafa foi passando de mão em mão, cada um despejando a bebida na boca diretamente do gargalo, pois não havia copos ou canecos.

Só Zé Baiano não bebeu:

– Quero não. Bibida é coisa de gente rũim...

Quando a buchada começou a ferver, Antônio de Chiquinho tirou a panela do fogo, preparou o pirão e fez um molho com bastante pimenta. Cada homem encheu o seu prato. Sentaram-se nas sombras das árvores e foram comer. A essa altura, já estavam no segundo ou terceiro litro de conhaque. A bebida aumentava o apetite. Comiam com ganância, mastigando forte, como bichos. E haja conhaque.

O fato de Zé Baiano se manter sóbrio não era problema para Antônio de Chiquinho, porque, apesar de Zé Baiano ser um homem grandalhão e corpulento, não tinha força no braço direito, em virtude de um ferimento recebido tempos atrás.

Quando terminaram de comer, alguns se deitaram no chão para dormir. Outros continuaram sentados, proseando, contando lambanças, como era de costume. Zé Baiano mostrou a Antônio de Chiquinho um lindo punhal com incrustações de ouro,sendo o cabo e a bainha de prata, uma verdadeira obra de arte, presente de Lampião.

Conversa vai, conversa vem, Antônio de Chiquinho começou a cantar uma musiquinha que estava na moda, cuja letra tinha um trecho mais ou menos assim: “Ajoelha, Marica! / Mulher comprida / De cabeça seca. / Já soube / que estou nos braços de Marinete?”. Tinha sido combinado que esta seria a senha para o ataque. Antônio de Chiquinho pôs-se de pé e continuou cantando a musiquinha meio desafinado. Chico Peste, completamente bêbado, esparramou-se debaixo de um pé de esporão-de-galo e fechou os olhos. Os coiteiros aguardavam impacientes o momento em que seriam cantados os versos da senha combinada. No ponto certo, Antônio de Chiquinho caprichou na letra:

– Ajueia, Marica, muié cumprida, de cabeça seca, já soube qui tou nos braço de Marinete?

E aí o mundo fechou. Antônio de Chiquinho e Pedro de Nica voaram em cima de Zé Baiano, ao tempo em que Pedro Guedes e Toinho se atracavam com Demudado, enquanto Birindim se engalfinhava com Acilino, e Dedé pegava Chico Peste.

Parecia uma briga de touros. Tendo ajudado Pedro Guedes a dominar Demudado, Toinho deu uma cacetada em Chico Peste, que conseguira desvencilhar-se de Dedé. Dedé correu para pegar o facão, e Chico Peste precipitou-se atrás dele, com o punhal na mão. Toinho gritou:

– Coidado, Dedé!

Dedé voltou-se, brandiu o facão, golpeando o cangaceiro no pescoço. Chico Peste caiu, e Dedé deu-lhe mais três facãozadas, acabando de matá-lo. Correu em seguida para socorrer Birindim, que estava atracado no chão com Acilino, e enfiou o punhal no cabra, à altura do tórax.

Toinho e Pedro Guedes estavam tendo dificuldades com Demudado. Pedro de Nica deixou Zé Baiano com Antônio de Chiquinho e foi socorrer os companheiros. Toinho aplicou quatro punhaladas em Demudado. Pedro Guedes deu um empurrão, e Demudado caiu, se estrebuchando, arrastando-se, tentando alcançar o fuzil. Pedro de Nica acabou de matá-lo, enfiando-lhe o punhal bem na veia do pescoço.

Antônio de Chiquinho havia dominado por completo Zé Baiano, já que o cabra só tinha força no braço esquerdo, pois o direito só servia para manejar o fuzil, era meio dormente. O cangaceiro esbatia-se no chão, esperneava-se, urrando como uma fera no laço, com Antônio de Chiquinho montado sobre ele, ajudado agora pelos companheiros. A camisa de Zé Baiano estava toda rasgada. A luta tinha sido terrível, e o cangaceiro, cansado, aflito, molhado de suor, aos berros, subjugado pelos coiteiros, implorava que o soltassem, prometendo que nada de mal faria a eles, lhes daria o tudo o que tinha.

– Cadê o seu dinhero?! – perguntou Antônio de Chiquinho.

– Tá tudo nos meus bolso. Tem uns seis conto e pouco.

– Só? E o resto? Onde tá o resto?!

– Nun tenho mais aqui purque meus dinhero tão imprestado.

– Deixem ele ficá im pé – disse Antônio de Chiquinho aos companheiros. – Vamo fazê um trato, Zé Baiano. Se você diché os nome de todo mundo pra quem você imprestou dinhero e quanto imprestou a cada um nóis lhe sorta.

– Eu imprestei esta sumana vinte conto a Ioiozinho Capitinga e mais vinte a outos fazendero.

– Diga os nome – ordenou Antônio de Chiquinho –. Eu quero qui você diga o nome de um pur um, e quanto foi qui imprestou.

O cangaceiro passou a citar nomes e valores. Era muita gente. Uma fortuna.

Antônio de Chiquinho fez uma proposta aos companheiros:

– Vamo prendê ele num quarto bem fechado qui eu tenho na mĩa casa, nóis fais ele ficá sem roupa e obriga ele a iscrevê ũas carta pros fazendero, e daqui uns vinte ou trinta dia nóis mata ele...

Pedro de Nica deu sinal de que concordava com a proposta. Zé Baiano viu ali uma forma de ganhar tempo. Prometeu:

– Amanhã vou recebê setenta conto e dou tudo a voceis. Me sortem!... Me sortem!... Pelo amô de Nossa Sinhora, me sortem!...

Então Pedro Guedes se postou na frente do cabra e disse:

– Ô seu peste, cê tá lembrado da morte de Moisés, fio de Cazuza Paulo? Cê teve pena dele, quando sangrou o rapais sem nĩhum mutivo?

– Eu tenho munto dinhero! Dou tudo a voceis! Vou dexá voceis rico! Eu prometo qui vou simbora daqui pra bem longe, dexo o cangaço! Antonho, pelo amô de Nossa Sinhora, me sarve! Se alembre de nossa amizade! Quano foi qui eu lhe fartei cum a palava? Pelo amô de Deus, Antonho, nun me mate!...

Antônio de Chiquinho era um homem bom. Seu coração amoleceu ante os rogos do amigo. Estava propenso a soltá-lo. Ponderou:

– Nóis pudia dexá esse cabra ir simbora...

– Nada disso! – gritou Pedro Guedes.

E, antes que Antônio de Chiquinho tomasse qualquer atitude maluca, Pedro Guedes aplicou uma punhalada no cangaceiro, e Birindim, outra, ambas na clavícula. Zé Baiano, ao cair, gemeu, dizendo:

– Matou-me agora...

O cangaceiro tentou levantar-se, mas Pedro de Nica e Dedé o seguraram pelas pernas e o atiraram de novo ao chão, enquanto Birindim lhe aplicava várias punhaladas no peito. Em seus estertores, ofegando, de olhos esbugalhados, Zé Baiano murmurou:

– Se acabou-se o home de Segipe...

Foram estas suas últimas palavras, pois logo em seguida recebeu mais duas punhaladas de Birindim. Pedro Guedes pegou o facão de Dedé e cortou o pescoço do cangaceiro.

A luta durara cerca de 5 minutos. Em toda parte, a terra estava revolvida, o mato estava amassado, e sentia-se um cheiro de sangue insuportável.

Eram 4 horas da tarde do dia 7 de junho de 1936.

* * *

Os matadores diziam que em dinheiro só encontraram nos bolsos de Zé Baiano pouco mais de seis contos, informação esta pouco confiável. Além do dinheiro, eles recolheram 3 rifles, vários punhais, sendo um com cabo e bainha de prata, um parabelo e outras pistolas e revólveres, muita munição e diversos artefatos de ouro. Porém isto é o que foi declarado oficialmente.

Falta muita coisa nessa relação. A bandoleira do fuzil de Zé Baiano era toda enfeitada de moedas de ouro. Seu chapéu tinha 65 medalhas de ouro na testeira e duas alianças na barbela. Isso tudo sumiu. Na relação dos bens apresentados às autoridades não constam os bornais dos cangaceiros. Ora, era nos bornais que os cangaceiros carregavam seus pertences de valor, especialmente dinheiro. Cada cangaceiro costumava portar quatro bornais. Falou-se que em vez dos 6 contos e quebrados que foram declarados, somente de Zé Baiano os matadores se apossaram de mais de 25 contos de réis.

Os quatro corpos foram enterrados num formigueiro, onde a terra era fácil de ser cavada.

Terminado tudo, sujos de barro e sangue, os coiteiros limparam-se com o que sobrou do conhaque. A caminho do povoado, passaram por um tanque e se lavaram bem. Só à noite voltaram para casa. Os objetos dos cangaceiros foram guardados na casa da mãe de Birindim.

Combinaram guardar segredo, porque temiam o que poderia vir a acontecer quando Lampião soubesse do fato. Não só Lampião, mas também, e principalmente, Zé Sereno e Manoel Moreno, primos de Zé Baiano.

Sigilo suspeito

Zé Sereno, Diferente, Canário e Delicado tinham sido convidados por Zé Baiano para o São João da professora na fazenda Altamira, mas, como de costume, ficaram aguardando a confirmação, pois cangaceiro não fazia plano para o futuro, tudo era decidido na hora. Chegou o dia da festa, e nada de receberem o recado tão esperado. Desconfiados, não foram. Passaram o São João nas Capoeiras de Julião, em Poço Redondo.

A Festa de São João foi uma maravilha nas fazendas Altamira e São Mateus. Os sanfoneiros tocaram até o dia amanhecer, enquanto o foguetório rasgava o céu do sertão.

Em Alagadiço, Antônio de Chiquinho e os cinco companheiros resolveram comemorar a façanha, mas sem dizer a ninguém o que estavam comemorando. Fizeram uma fogueira na frente da igreja, para espantar o frio, e começaram a soltar foguetes, bebendo cachaça e assando milho verde nas labaredas. Logo começou a juntar gente. Vieram os tocadores de gaitas e zabumba. Moças e rapazes começaram a dançar. De repente, o furdunço improvisado se transformou na Festa de São João mais animada que já houve no povoado. Ninguém dormiu em Alagadiço naquela noite. Até os velhos saíram de suas casas para ver o que estava acontecendo.

Todo mundo sabia que Antônio de Chiquinho e os amigos gostavam de farra, mas daquela vez eles saíram das medidas. Só a mãe de Birindim era sabedora do motivo daquela comemoração. A velha terminou contando o fato a uma filha, mas pediu segredo. A filha, por sua vez, contou ao marido, Jovino Pereira, e, claro, também pediu segredo. Depois de beber umas quatro cachaças, Jovino Pereira ficou soltando fogo pelas ventas. Lá pelas tantas, um sujeito da fazenda São Mateus comentou:

– É, a festa tá boa mais eu vou pra casa, purque Zé Baiano pode chegá aqui a quarqué hora e bota nóis pra dançá nu...

Jovino, bêbado, soltou a língua:

– Mais cuma, home, se Zé Baiano tá morto e interrado? Tem mais de quinze dia qui Antonho de Chiquim matou ele...

– Antonho de Chiquim matou quem?! – perguntou Laurindo Gomes, dono da fazenda Cachoeira, que estava de orelha em pé, desconfiando daquela comemoração.

Jovino repetiu, e foi além:

– Zé Baiano tá morto e interrado na fazenda Lagoa Nova. Foi matado pur Antonho de Chiquim, Pedo Guede, Pedo de Nica, Toinho, Dedé e Birindim!...

Pronto, acabou-se a festa.

Em plena noite, dois fazendeiros, Chiquinho das Aroeiras e Antônio Campinas, foram com uns candeeiros ao local indicado e lá constataram: tinha uma coisa enterrada num formigueiro.

O fato foi comunicado ao delegado de São Paulo, Germino Góis. O sargento Epaminondas telegrafou para a capital e foi dar uma olhada no local da chacina.

Exumação e reconhecimento dos corpos

Em Aracaju, os homens do governo puseram as mãos na cabeça: quando Lampião soubesse ia arrasar Sergipe. Como havia dúvida quanto à veracidade da morte de ZéBaiano, mandaram exumar os corpos.

O próprio chefe de polícia do Estado, Osvaldo Nunes dos Santos, que era major do Exército, deslocou-se no dia 26 de junho até Alagadiço, levando o médico legista Dr. Carlos Meneses, peritos, jornalistas, fotógrafo e uma formidável escolta da Polícia Militar.

A essa comitiva juntaram-se muitos moradores de São Paulo. Em pleno inverno, muita chuva, a estrada era um atoleiro só. De Alagadiço para a Lagoa Nova todo mundo foi a pé. O local da luta ficou apinhado de curiosos. Todo mundo queria ver o desenterramento dos cangaceiros. Tinha gente até de Itabaiana.

A exumação dos corpos foi feita no dia 26 de junho de 1936 – 19 dias depois das mortes.

A cova era rasa, e logo a picareta trouxe a descoberto uma cabeça. Os corpos estavam amontoados uns sobre os outros. O coveiro levantou a cabeça pelos cabelos. Antônio de Chiquinho informou:

– Essa cabeça é de Zé Baiano. Os outo nóis nun cortou as cabeça não.

Quando retiraram o primeiro corpo, que não estava degolado, Antônio de Chiquinho disse:

– Esse aí é Acilino. Zé Baiano vai sê o úrtimo, tá pur baxo de todos.

O segundo corpo era o de Chico Peste. Depois, o de Demudado. E de fato Zé Baiano estava embaixo de todos. O médico mandou que tirassem as roupas de mescla azul dos cadáveres e jogassem água para remover a lama dos corpos. As roupas tiveram de ser cortadas de facão, pois os corpos tinham inchado. O ar era quase irrespirável, apesar da água-de-colônia e outros perfumes e desinfetantes que as pessoas usavam a fim de assistir aos trabalhos.

Para ajudar na identificação dos corpos, haviam mandado chamar várias pessoas que conheciam os cangaceiros. Trouxeram inclusive Marcionílio Soares, de Carira, que apesar de ser o subdelegado daquele povoado era um notório coiteiro de Lampião. Os corpos estavam tumefatos, nem pareciam gente. Porém Marcionílio foi preciso:

– A cabeça de Zé Baiano é esta aqui. Ói a faia no dente. O corpo dele é o grandão. Cortaro a cabeça dele. E esse aqui eu acho qui é de Demudado. Os outo eu nun cunheço.

O médico legista começou a fazer as devidas anotações em sua prancheta: faltava na boca de Zé Baiano o incisivo mediano direito superior; seu corpo...

Marcionílio afastou-se, engulhando. Nem o diabo aguentava o fedor.

O corpos foram fotografados de um a um pelo fotógrafo Artur Alves Costa. Foi batida uma chapa da cabeça de Zé Baiano, e outra de seu corpo estendido no chão com a cabeça equilibrada sobre ele. Por fim, o médico ordenou o batimento de uma chapa dos corpos em conjunto.

Terminada a perícia, os corpos foram recompostos e inumados no mesmo local.

A volante de Antônio de Chiquinho

Os homens que mataram Zé Baiano foram levados para Aracaju a fim de prestar depoimentos e contar à imprensa o incrível feito. Lá, ficaram 8 dias na residência do comerciante Antônio Conrado. O governador do Estado, Eronides de Carvalho, que era amigo de Lampião, fez um arremedo de comemoração pela vitória dos valentes homens de Alagadiço e mandou dar-lhes um prêmio de 9 contos de réis – recompensa pífia, já que teria de ser dividida por seis.

Depois disso, Antônio de Chiquinho e os companheiros foram chamados mais duas vezes à capital. Temendo-se que quando Lampião soubesse do fato destruísse Alagadiço, foi constituída uma volante com 15 rapazes do próprio povoado, tendo como comandante Antônio de Chiquinho. Cada componente da volante ganhava 118 mil-réis por mês. Antônio de Chiquinho fez furos nas paredes de sua casa, para olhar o que se passava na rua sem precisar abrir porta ou janela, e pelos quais podia atirar. Ele chamava sua casa de “fortaleza”. Mandou cavar trincheiras nos caminhos de acesso a Alagadiço, onde os rapazes da volante e os próprios moradores se revezavam, dia e noite, para resistir a um eventual ataque. O povoado vivia em clima de guerra.

A existência dessa volante foi breve – no ano seguinte o governador mandou desarmar Antônio de Chiquinho e seus companheiros, acusados de desordens e bebedeiras, sem nenhum resultado prático. O jornal Correio de Aracaju considerou uma iniquidade a atitude do governo, e publicou uma carta de Antônio de Chiquinho em que ele rebatia os insultos à sua moral e refutava as acusações de que sua tropa andava embriagada, observando que havia poucos dias o coronel Liberato tinha louvado a conduta de sua volante.

A notícia chega ao coito do Craibeiro

Lampião passou a noite de São João de 1936 num coito no Riacho Craibeiro, abaixo de Poço Redondo. A festa emendou a noite com o dia, sem parar. Foi quando chegou um coiteiro de Alagadiço com uma carta, informando que tinham matado Zé Baiano e três cabras.

Ao ler a carta, Lampião mandou parar a festa. Chamou Zé Sereno e Manoel Moreno e deu-lhes a notícia.

Zé Sereno ouviu a história, baixou a cabeça e comentou:

– Eu tou triste nun é só pela perda do meu primo, mais tamém pela traição de um amigo. Nun posso cumprendê cumo um home de cunfiança cumo Antonho de Chiquinho pôde fazê ũa coisa dessa, matano um home qui era cumo se fosse irmão dele...

– Apois é... – concordou Lampião. – Os cangacero de verdade tão se acabano... E nun inziste mais amigo cumo antigamente. Só farta agora eu sê traído pelo coroné Antonho Caxero ou pur João Maria da Serra Nega...

Lampião mandou que Manoel Moreno, Zabelê e Diferente fossem apurar o que aconteceu. No dia 29 de junho, eles estiveram na cova de Zé Baiano.

Veneno, foice e fuga para Goiás

Segundo Felipe de Castro, Zé Baiano e seus companheiros teriam sido mortos com uma feijoada envenenada.

Estácio de Lima escreveu que os cangaceiros foram mortos dormindo, a golpes de foice e machado.

Há outra versão segundo a qual a história contada pelos coiteiros era tudo mentira, tendo Zé Baiano escapado vivo e fugido para Goiás, destino de todos os fugitivos àquele tempo, sendo morto em seu lugar um sósia dele. Os matadores teriam custado a comunicar o fato às autoridades justamente para que os corpos apodrecessem e não fosse possível a identificação. A exumação dos corpos foi feita 19 dias depois das mortes. Em lugar de Zé Baiano teriam matado um sujeito de quase igual porte e catadura, sósia dele.

O pesquisador Antonio Amaury Corrêa de Araújo, que se tornou amigo de Zé Sereno, Criança e outros ex-cangaceiros, tendo inclusive hospedado em sua casa em São Paulo por mais de cinco meses a legendária Dadá, viúva de Corisco, afirma que essa versão lhe “foi narrada por Dadá e particularmente aceita pelo primo da vítima, Zé Sereno e outros antigos companheiros”.

Amaury considera que, embora não haja provas, é possível que tal versão seja verdadeira, dadas certas coincidências e circunstâncias que cercam o caso. Os matadores eram coiteiros de Zé Baiano, o mais rico dos cangaceiros. O próprio Antônio de Chiquinho acenara-lhe com a possibilidade de escapar, rico e incógnito, das garras dos inimigos e das malhas da lei. Como para viajar Zé Baiano precisava de uma roupa decente, no início de maio Antônio de Chiquinho pediu a um alfaiate que fosse à sua casa a fim de tirar as medidas do cangaceiro para fazer um terno. A roupa ficou pronta em quinze dias. Havia nas vizinhanças um caboclo chamado Acilino que vivia só com a mãe viúva. Quem o conheceu dizia que esse rapaz tinha a mesma altura e a mesma cor de Zé Baiano. Na noite de 6 de julho, véspera da “morte” de Zé Baiano, o cangaceiro esteve na casa da viúva e levou Acilino consigo.

Dadá disse a Amaury que chegara a conhecer Acilino e confirmou sua semelhança física com Zé Baiano. E mais: Dadá revelou que quando soube dessa história esteve com a mãe de Acilino, que, chorando muito, lhe disse que Zé Baiano tinha levado o rapaz para morrer.

Zé Baiano e Antônio de Chiquinho haviam marcado uma fatada para o dia seguinte. Zé Baiano embriagou os próprios companheiros e ajudou a matá-los. Acilino foi vestido com as roupas de Zé Baiano. Tiraram ou quebraram um incisivo central superior para propiciar o “reconhecimento”. Foi morto também outro indivíduo, de identidade ignorada. Zé Baiano combinou com Antônio de Chiquinho para somente espalhar a notícia do fato muitos dias depois. Teria sido por isso que os corpos somente foram exumados 19 dias depois da chacina. Culminando a farsa, o reconhecimento de Zé Baiano foi feito pelos próprios coiteiros. E o mais curioso é que os corpos foram reconhecidos apesar de estarem em adiantado estado de putrefação... Zé Baiano teria vivido algum tempo na região de Poços de Caldas, Minas Gerais, e depois foi dono de um restaurante na capital paulista.

A ronqueira

Embora Lampião procurasse restabelecer o equilíbrio de antes, as coisas não iam bem. Sergipe já não era mais o refúgio que fora tempos atrás. Apesar de a polícia sergipana fazer corpo mole, as autoridades não tinham controle sobre as volantes dos outros Estados. As volantes de Zé Rufino e Odilon Flor revezavam-se em Carira, Alagadiço, Poço Redondo e Canindé.

No dia 2 de setembro de 1936, três meses depois da morte de Zé Baiano, Lampião esteve no local da chacina. Pretendia invadir o povoado, dizendo que não ia deixar ninguém vivo, mas foi informado de que o povoado estava cercado de trincheiras. Considerou que não valia a pena correr o risco de invadir Alagadiço só por vingança. Todo o bando de Zé Baiano havia sido morto. Vingança não traria de volta o amigo. Maria Bonita ainda não havia se recuperado inteiramente do ferimento sofrido em Pernambuco. Além do mais, parece que havia um canhão em Alagadiço. Da LagoaNova, escutava-se o estampido.

É que Antônio de Chiquinho tinha mandado fazer uma arma estranha, que ele disparava de vez em quando, fazendo um barulho assustador. O canhão de Alagadiço era na verdade uma ronqueira – apesar do estrondo ensurdecedor, era totalmente inofensiva.

Lampião rezou um terço junto à cova. Estava acompanhado de mais de 30 cangaceiros, entre homens e mulheres. O bando acampou no pé da Serra do Saco. No dia seguinte, tomou a estrada de Carira, porém adiante dobrou à esquerda, no rumo de Pinhão.

Na noite de 3 para 4 de setembro, em Paripiranga e arredores, houve saques e espancamentos.

Nas caatingas de Sítio do Quinto e Guloso havia muitos coiteiros, pois ali era o “feudo” do cangaceiro Ângelo Roque. Lugar bom para descansar uns dias.

Fonte: Livro LAMPIÃO - A RAPOSA DAS CAATINGAS.

https://cangacologia.blogspot.com.br/2018/01/aspectos-da-casa-que-pertenceu-antonio.html?spref=fb

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A TESOURA E O CORONEL SANTANA DE MISSÃO VELHA.

  Por Bosco André

Bosco André é pesquisador do cangaço...

Certa feita o Cel. Santana chegou à casa de uma sua parenta nas redondezas de Missão Velha, a qual se encontrava chorando muito, ao que foi interpelada pelo coronel, o que estava acontecendo? 

Coronel Santana

Ela lhe disse que havia desaparecido uma tesoura de ouro que fora herança da sua avó, e que suspeitava de umas mulheres que estavam apanhando um feijão na sua roça, em número de oito trabalhadoras rurais. 

A famosa tesoura de ouro

O Cel. Santana pediu calma e perguntou a que horas aquelas mulheres voltariam da roça, tendo a sua parenta dito que ao final da tarde; lá para as quatro e meia da tarde.

À hora marcada o coronel chegou à casa da sua parenta e mandou que as mulheres desocupassem os lençóis, jogando o feijão ao pé da parede e mandou que pegassem quatro lençóis daqueles e cada uma, pegasse numa ponta do lençol e tentassem rasgá-lo. A certa altura o Cel. Santana disse: 

- A mulher que roubou a sua tesoura minha prima, não vai conseguir rasgar o lençol! 

Ao que uma das circunstantes, disse: 

- Não Coronel, eu vou conseguir! 

Então aí o Cel. Santana mandou que ela fosse buscar a tesoura e entregasse a sua legítima dona. Terminando assim o segredo do roubo da tesoura.

O João Bosco André ativamente pesquisador do cangaço do nosso nordeste brasileiro.


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CORONEL SANTANA E LAMPIÃO

Por CANAL CANGAÇO EM FOCO 

https://www.youtube.com/watch?v=PBexRY2kfn8

Nas terras que pertenceram a Coronel Santana. Com o neto dele, Elieser Santana.

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QUEM MATOU DELMIRO GOUVEIA?

 


ANO DE PUBLICAÇÃO: 2021 (Segunda edição).

Adquira-o com o professor Francisco Pereira Lima através deste endereço:

franpelima@bol.com.br

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ACUSADOS DE MATAR DELMIRO GOUVEIA SÃO ABSOLVIDOS.

 Por Manoel Canabarro (*)

Publicado em 08 de junho de 1983

O coronel Delmiro Gouveia, pioneiro da industrialização do Nordeste e ferrenho adversário das multinacionais inglesas, lia tranquilamente um jornal na noite de 10 de outubro de 1917, sentado no alpendre de seu pequeno chalé no município de Água Branca, Alagoas, quando foi fulminado por três tiros de carabina. Dois anos depois, os operários têxteis José Ignácio Pia e Róseo Moraes do Nascimento, demitidos de uma fábrica de Gouveia duas semanas antes do crime, foram condenados a trinta anos de prisão, apesar de sempre terem dito que eram inocentes. Pia morreu em 1924, baleado quando tentava fugir da prisão. Nascimento cumpriu quinze anos de pena, foi solto por bom comportamento e morreu em 1979, aos 86 anos, amargurado por ser chamado de “assassino” nas ruas de Maceió. No último dia 24, 63 anos depois do primeiro julgamento, os Juízes do Tribunal de Justiça de Alagoas entenderam que seus avós togados haviam cometido um erro – e absolveram postumamente Pia e Nascimento.


Poucos dias depois do crime, Pia e Nascimento foram capturados em Própria, Sergipe, pela polícia de Alagoas. Brutalmente torturados pelo capitão PM Pedro Nolasco da Silva, assinaram minuciosas confissões e apontaram como mandante do assassinato o coronel José Rodrigues de Lima, rival de Gouveia. Posteriormente os operários afirmaram perante o juiz que confessaram porque tinham medo de morrer e que, no dia em que Gouveia tombou morto, estavam trabalhando em Maroim, em Sergipe, distante 200 quilômetros de Água Branca. Sem meios de comprovar sua versão, Pia e Nascimento foram condenados, apelaram e, em 1922, num segundo julgamento, tiveram suas penas confirmadas.

TELEGRAMA NO ARQUIVO – Trabalhando no caso desde 1968, preso a uma promessa feita a Róseo do Nascimento, o advogado e professor universitário Pedro Aleixo Paes de Albuquerque, 46 anos, considerava virtualmente impossível, depois de mais de seis décadas, obter alguma prova material da inocência dos dois operários. Em agosto do ano passado, no entanto, a prova afinal surgiu, graças ao historiador e advogado Moacir Medeiros de Sant’Ana, 51 anos, diretor do Arquivo Público de Maceió. Ao pesquisar os documentos arquivados no cartório de Água Branca, Sant’Ana topou com o processo em que o coronel José Rodrigues de Lima era acusado de mentor intelectual do assassinato. Para provar sua inocência, Lima exibira no inquérito um telegrama do coronel Gonçalo Prado assegurando que Róseo do Nascimento e José Ignácio Pia estavam efetivamente em Maroim quando Delmiro Gouveia morreu.

De posse deste telegrama, que não apareceu em nenhum dos julgamentos de Pia e Nascimento, Paes de Albuquerque conseguiu a reabertura do caso e, agora, a absolvição dos réus por cinco votos a quatro. “Apesar de tudo, sempre confiei na Justiça”, dia a empregada doméstica Laurentina Moraes do Nascimento, 47 anos, filha de Róseo. “Só lamento que meu pai não esteja vivo para poder respirar aliviado e encarar os outros de frente.” Morando com seus quatro filhos numa pequena casa no bairro do Prado, na periferia de Maceió, Laurentina não pretende processar o Estado de Alagoas para pleitear uma indenização por perdas e danos a seu pai. “Eu só queria que a verdade fosse vitoriosa”, explica.

VITÓRIA PARCIAL – A verdade, porém, foi parcialmente vitoriosa, pois ainda persiste um mistério: quem assassinou Delmiro Gouveia? O mistério continuará a desafiar a argúcia dos historiadores. “Não existe revisão criminal em favor da sociedade, mas apenas em benefício do réu”, diz Paes de Albuquerque. “Por isso nunca mais será aberto um processo judicial para apurar a identidade dos criminosos.” De qualquer maneira, muitos livros de história que tratam da vida desse coronel de idéias nacionalistas, que utilizou a força hidráulica da Cachoeira de Paulo Afonso para gerar energia no território sob sua influência, terão de ser revistos, face a sentença do Tribunal de Alagoas. 


Filme “Coronel Delmiro Gouveia” - https://www.youtube.com/watch?v=ZMsyOSwK3zc

E o filme “Coronel Delmiro Gouveia”, dirigido por Geraldo Sarno e lançado em 1979, talvez merecesse algumas cenas adicionais que isentassem Pia e Nascimento de qualquer responsabilidade no assassinato do legendário coronel.

(*) Jornalista de Maceió (AL)


http://memo-delmirogouveia.blogspot.com.br/2008_11_16_archive.html

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A VERSÃO DE LAMPIÃO

Por Antônio Corrêa Sobrinho

A rigor, a HISTÓRIA, como conjunto de conhecimentos relativos ao passado, segundo o lugar, a época, o ponto de vista escolhido, costuma ser contada pelos vencedores, pelos conquistadores, pelos dominadores. A história do Brasil é uma delas.

A História, portanto, como um recorte, como versão de algo ocorrido, como tradução e interpretação de fatos e acontecimentos do passado, será sempre incompleta, incerta, não conclusiva. A história do Cangaço é uma delas.

VIRGULINO FERREIRA DA SILVA, o famoso cangaceiro LAMPIÃO, cria do adusto e vulnerável sertão pernambucano, chefe de um sem número de bandoleiros, considerado o Rei do Cangaço, um dos civis que mais afrontaram e afetaram a sociedade e o poder público brasileiro, caso tivesse sobrevivido ao banditismo que ele protagonizou, muito ele teria a dizer, a relatar, a argumentar, a explicar, a definir. Diria da sua infância; da sua relação com seus pais e irmãos, dizia dos seus outros parentes e de amigos; das causas que o levaram ao cangaço; das dezenas de encontros com as volantes; de suas tratativas com chefes políticos e líderes poderosos; diria do seu encontro com Padre Cícero Romão Batista; discorreria sobre a sua aventura inglória em Mossoró, no Rio Grande do Norte; sobre sua espetacular presença em Capela, na zona da mata sergipana; sobre seu romance com Maria Bonita; sobre seus atos antijurídicos, acertos e desacertos; seus sonhos, ambições e desejos; e, especialmente, tudo mais porque ele passou e a pesquisa sequer cogitou.

Isto considerado, sou levado a imaginar o quanto a história do Cangaço perdeu sem A VERSÃO DE LAMPIÃO.

Tivesse o ditador Getúlio Vargas um pouco que fosse de historiador, decretaria em letras garrafais: QUE SEJA LAMPIÃO CAPTURADO, MAS VIVO.

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