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terça-feira, 2 de abril de 2019

FEIRA DE CABEÇAS..(..Grandes artigos do Grupo LCN..)

Por: Aurélio Buarque de Holanda 
(ESCRITOR E GRAMATICISTA)

De latas de querosene mãos negras de um soldado retiram cabeças humanas. O espetáculo é de arrepiar. Mas a multidão, inquieta, sôfrega, num delírio paredes-meias com a inconsciência, procura apenas alimento à curiosidade. O indivíduo se anula. Um desejo único, um único pensamento, impulsa o bando autômato. Não há lugar para a reflexão. Naquele meio deve de haver almas sensíveis, espíritos profundamente religiosos, que a ânsia de contemplar a cena macabra leva, entretanto, a esquecer que essas cabeças de gente repousam, deformadas e fétidas, nos degraus da calçada de uma igreja.

Cinco e meia da tarde. Baixa um crepúsculo temporão sobre Santana do Ipanema, e a lua crescente, acompanhada da primeira estrela, surge, como espectador das torrinhas, para testemunhar o episódio: a ruidosa agitação de massas que se comprimem, se espremem, quase se trituram, ofegando, suando, praguejando, para obter localidade cômica, próximo do palco.

Desenrola-se o drama. O trágico de confunde com o grotesco. Quase nos espanta que não haja palmas. Em todo caso, a satisfação da assistência traduz-se por alguns risos mal abafados e comentários algo picantes, em face do grotesco. O trágico, porém não arranca lágrimas. Os lenços são levados ao nariz: nenhum aos olhos. A multidão agita-se, freme, sofre, goza, delira. E as cabeças vão saindo, fétidas, deformadas, das latas de querosene - as urnas funerárias -, onde o álcool e o sal as conservam, e conservam mal. Saem suspensas pelos cabelos, que, de enormes, nem sempre permitem, ao primeiro relance, distinguir bem os sexos. Lampião, Maria Bonita, Enedina, Luiz Pedro, Quinta-Feira, Cajarana, Diferente, Caixa-de-Fósforo, Elétrico Mergulhão...

- As cabeças!

- Quero ver as cabeças!

Há uma desnorteante espontaneidade nessas manifestações.

- As cabeças. Não falam de outra coisa. Nada mais interessa. As cabeças.

- Quem é Lampião?

Virgulino ocupa um degrau, ao lado de Maria Bonita. Sempre juntos, os dois.

- Aquela é que é Maria Bonita? Não vejo beleza...

O soldado exibe as cabeças, todas, apresenta-as ao público insaciável, por vezes uma em cada mão. Incrível expressão de indiferença nessa fisionomia parada. Os heróis de tantas sinistras façanhas agora desempenham, sem protesto, o papel de S. João Batista...

Sujeitos mais afastados reclamam:

- Suspende mais! Não estou vendo, não!

- Tire esse chapéu, meu senhor! - grita irritada uma mulher.

O homem atende.

- Agora, sim.

A pálpebra direita de Lampião é levantada, e o olho cego aparece, como elemento de prova.

Velhos conhecidos do cangaceiro fitam-lhe na cabeça olhos arregalados, num esforço de comprovação de quem quer ver para crer.

- É ele mesmo. Só acredito porque estou vendo.

Houve-se de vez em quando:

- Mataram Lampião... Parece mentira!

Virgulino Ferreira, o rei do cangaço, o "interventor do sertão", o chefe supremo dos fora-da-lei, o cabra invencível, de corpo fechado, conhecedor de orações fortes, vitorioso em tantos recontros, - Virgulino Ferreira, o Capitão Lampião, não pode morrer.

E irrompe de várias bocas:

- Parece Mentira!

No entanto é Lampião que se acha ali, ao lado de Maria Bonita, junto de companheiros seus, unidos todos, numa solidariedade que ultrapassou as fronteiras da vida. É Lampião, microcéfalo, barba rala, e semblante quase doce, que parece haver se transformado para uma reconciliação póstuma com as populações que vivo flagelara.

Fragmentos de ramos, caídos pelas estradas, durante a viagem, a caminhão, entre Piranhas e Santana do Ipanema, enfeitam melancolicamente os cabelos de alguns desses atores mudos. Modestas coroas mortuárias oferecidas pela natureza àqueles cuja existência decorreu quase toda em contato com os vegetais - escondendo-se nas moitas, varando caatingas, repousando à sombra dos juazeiros, matando a sede nos frutos rubros dos mandacarus.

Fotógrafos - profissionais e amadores - batem chapas, apressados, do povo, e dos pedaços humanos expostos na feira horrenda. Feira que , por sinal, começou ao terminar a outra, onde havia a carne-de-sol, o requeijão de três mil-reis o quilo, com o leite revendo, a boa manteiga de quatro mil reis, as pinhas doces, abrindo-se de maduras, a dois mil-reis o cento, e as alpercatas sertanejas, de vários tipos e vários preços.

Ao olho frio das codaques interessa menos a multidão viva do que os restos mortais em exposição. E, entre estes, os do casal Lampião e Maria Bonita são os mais insistentemente forçados. Sobretudo o primeiro.

O espetáculo é inédito: cumpre eternizá-lo, em flagrantes expressivos. Um dos repórteres posa espetacularmente para o retratista, segurando pelas l=melenas desgrenhadas os restos de Lampião. Original. Um furo para "A Noite Ilustrada".

Lembro-me então do comentário que ouço desde as primeiras horas deste sábado festivo: -"Agora todo o mundo quer ver Lampião, quer tirar retrato dele, quer pegar na cabeça...Agora..."

Há, com efeito, indivíduos que desejam tocar, que quase cheiram a cabeça, como ansiosos de confirmação, por outros sentidos, da realidade oferecida pela vista.

Desce a noite, imperceptível. A afluência é cada vez maior. Pessoas do interior do município e de vários municípios próximos, de Alagoas e Pernambuco, esperavam desde sexta-feira esses momentos de vibração. Os dois hotéis da cidade, literalmente entupidos Cheias as residências particulares - do juiz de direito, do prefeito, do promotor, de amigos dessas autoridades. Para muitos, o meio da rua.

Entre a massa rumorosa e densa não consigo descobrir uma só fisionomia que se contraia de horror, boca donde saía uma expressão, ainda que vaga, de espanto. Nada. Mocinhas franzinas, romanescas, acostumadas talvez a ensopar lenços com as desgraças dos romances cor-de-rosas, assistem à cena com uma calma de cirurgião calejado no ofício. Crianças erguidas nos braços maternos espicham o pescoço buscando romper a onda de cabeças vivas e deliciar os olhos castos na contemplação das cabeças mortas.

E as mães apontam:

- É ali, meu filho. Está vendo?

Alguns trocam impressões;

- Eu pensava que ficasse nervoso. Mas é tolice. Não tem que ver uma porção de máscaras.

- É isso mesmo.

Os últimos foguetes estrugem nos ares. Há discursos. Falam militares, inclusive o chefe da tropa vitoriosa em Angico. Evoca-se a dura vida das caatingas, em rápidas e rudes pinceladas. O deserto. As noites ermas, escuras, que os soldados às vezes iluminam e povoam com as histórias de amor por eles sonhadas - apenas sonhadas... Os passos cautelosos, mal seguros sobre os garranchos, para evitar denunciadores estalidos, quando há perigo iminente. Marchas batidas sob o sol de estio, em meio da caatinga enfezada e resseca, e da outra vegetação, mais escassa, que não raro brota da pedra e forma ilhotas verdes no pardo reinante: o mandacaru, a coroa-de-frade, a macambira, a palma, o rabo-de-bugio, facheiro, com o seu estranho feitio de candelabro. A contínua expectativa de ataque tirando o sono, aguçando os sentidos.

O sino toca a ave-maria. Dilui-se-lhe a voz no sussurro espesso da multidão curiosa, nos acentos fortes do orador, que, terminando, refere a vitória contra Lampião, irrecusavelmente comprovada pelas cabeças ali expostas.

Os braços da cruz da igrejinha recortam-se, negros, na claridade tíbia do luar; e na aragem que difunde as últimas vibrações morrediças do sino vem um cheiro mais ativo da decomposição dos restos humanos.

Todos vivem agora, como desde o começo do dia, para o prazer do espetáculo. As cabeças!

A noite fecha-se. Em horas assim, seriam menos ferozes os pensamentos de Lampião. O seu olhar se voltaria enternecido para Maria Bonita.

Que será feito dos corpos dissociados dessas cabeças? O rosto de Maria Bonita, esbranquiçado a trechos por lhe haver caído a epiderme, está sinistro.

Onde andará o corpo da amada de Lampião? A cara arrepiadora, que mal entrevejo à luz pobre do crescente, não me responde nada.

E Lampião? Sereno, grave, trágico. O olho cego, velado pela pálpebra, fita-me. (1938).

(*) Autor do mais importante dicionário da língua portuguesa publicado no Brasil neste século. Texto do livro esgotado "O chapéu de meu pai, editora Brasília, 1974.

Fonte: Diário Oficial -Estado de Pernambuco-Ano IX - Julho de 1995

Material cedido pelo escritor, poeta e pesquisador do cangaço: Kydelmir Dantas

(** ) Fotos pescadas no Google

Do acervo do pesquisador do cangaço Voltaseca: 


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OPINIÃO LAMPIÃO ANALFABETO?!

O pesquisador e confrade Luiz Ruben compartilhou um recorte em que o jornalista e meu conterrâneo Ancelmo Gois, em sua coluna do Jornal do Commércio de Recife, edição de 16 de Dezembro de 2012, publicou a seguinte "nota":

Um conceito demasiado. Faltou especificar, completar o adjetivo com o termo "Funcional". Virgolino, mesmo limitado, sabia ler, "escrever" e contar. E não são as imagens que nos fazem duvidar ou acreditar em tal habilidade. São testemunhos de ex companheiros e até mesmo dos seus oponentes, disponíveis na literatura. 

Vejamos o que localizei no livro de memórias do tenente João Gomes de Lira, conterrâneo e inimigo de Lampião que tem um capitulo sobre o aludido assunto:
Apesar de sertanejo inculto, vivendo em meio atrasado, José Ferreira procurou dar aos filhos a educação básica. O menino Virgolino Ferreira, assim como os seus irmãos Antonio e Livino receberam os primeiros conhecimentos no ano de 1907.  
Residindo no Riacho São Domingos distrito do município de Vila Bella (Serra Talhada), enviou os três filhos mais velhos à casa do senhor Raimundo Gago, em Pitombeira, próxima a cidade de Vila Bella, afim de que os meninos frequentassem a escola pública do professor Auxêncio da Silva Viana... 1.
Os pesquisadores Antonio Amaury e Vera Ferreira em sua obra "De Virgolino a Lampião" ainda indicaram um outro professor chamado Justino de Nenéu 2. 

 Um outro autor bastante consultado, o pernambucano Frederico Bezerra Maciel, também dedicou um capitulo sobre este período. 

Os métodos pedagógicos que fizeram época foram de inegáveis resultados positivos: O sertanejo que se interessou, aprendeu a ler soletrando e cantando as 26 lições da famosa "Carta do ABC" de Landelino Rocha, que continha apenas 16 páginas. E da tabuada cantada ritmicamente em comum pela classe, com palmatória.
O professor Justino de Nenéu viera ensinar Virgolino e seus irmãos na casa da Fazenda Serra Vermelha, de Manuuel Ferreira de Lima bem perto da fazenda deles, a Ingazeira.3
 
 Reprodução 
Disponivel no www.minharuatemmemoria.ning.com

Voltando as memórias de Gomes de Lira:
Naquela ocasião, tinha Antonio Ferreira, doze anos, Livino, 11 anos e Virgolino, 9 anos de idade. Em 1910, estudaram na "Escola" particular do Professor Domingos Soriano, na Serra Vermelha. 
Entenda-se a escola aqui não como um espaço físico. As aulas eram dadas ao ar livre embaixo de Juazeiros e Quixabeiras. 
...Os alunos traziam de casa os banquinhos em que se sentavam para assistir às aulas à sombra das árvores. “O esforçado mestre não se furtava aos pedidos de pais residentes em outras fazendas das ribeiras adjacentes, os quais receberiam a rara oportunidade de poder proporcionar instrução aos filhos.
Hoje a escola Municipal de ensino fundamental e médio Domingos Soriano é um dos primeiros prédios públicos avistados pelos visitantes ao chegarem à Vila de Nazaré do Pico, distrito de Floresta em Pernambuco. 

Outra referencial: Lampião – Cangaço e Nordeste de Aglae Lima de Oliveira nos traz mais informações. 
Que o tempo de assistência com Domingos Soriano foi de apenas "90 dias". (Período em acordo com todos os depoentes).Que a mensalidade deste curso era de "dez tostões". Que o 'cabrinha' nunca havia levado os temidos bôlos ao ser testado em conhecimento de Tabuada e de algarismos romanos. E ainda sugere que o primeiro livro do qual Virgolino tenha explorado por completo foi o "Primeiro livro de leitura" de Felisberto de Carvalho. 4
 
 Reprodução
In: www.ler-e-escrever.blogspot.com.br

O objeto da foto comentada por Ancelmo não era mero enfeite, nem instrumento de abano. Pelo método de soletração de Landelino ou de Felisberto é fato que Virgolino aprendeu a ler. Mais tarde aplicaria seu conhecimento ao se deleitar com os jornais e revistas que chegaram até ele. 

Especialmente os que traziam manchetes sobre seus feitos. E, ainda que sem devida concordância, mas com uma caligrafia regular escreveu cartas. Hoje, documentos históricos preservados em museus e coleções particulares. Reproduções de alguns de seus escritos estão disponíveis em diversos livros e sites. 

Como esta carta abaixo, endereçada a um fazendeiro de nome Cantidiano Valgueiro dos Santos Barros, dono da propriedade Tabuleiro Comprido no município de Floresta, PE. Na carta, escrita na peculiar maneira de Lampião se expressar, ele pede a Cantidiano dois contos de réis, de forma extorsiva, a fim de serem evitados “prejuízos”.

Segundo o pesquisador Artur Carvalho, que utilizou os conhecimentos profissionais de um especialista em paleografia , a “tradução” é a seguinte;
“Ilmo. Sr Cantidiano Valgueiro,

Eu (ou “le”) faço esta para “vc” mandar-me dois “conto dereis”, isto sem falta, não tem menos, para “vc” saber se assinar em telegrama contra mim como “vc” se assinou em um com “Gome” Jurubeba. Eu ví e ainda hoje tenho ele. Sem mais, resposte logo para “envitar” muito prejuízo. Sem mais assunto.
Cap. Virgulino ferreira Lampião. [sic]” 5.
O pesquisador e colaborador Ivanildo Silveira teceu comentário em uma discussão anterior sobre este mesmo assunto:  
"O Rei Vesgo dominava, a grosso modo, o idioma pátrio, comunicando-se, de forma clara, precisa, apesar dos erros gramaticais que cometia. Inclusive, ás vezes, empregava pronomes de tratamentos de forma correta. A grafia de seus famosos bilhetes, era perfeitamente entendível".
E como vovó já dizia...  

"Estude meu fio, estude pra não ser que nem sua avó, que não sabe nem pegar numa caneta, que dirá assinar o nome, não faço um "O" com um copo"-----------------------------------------------------------------------------------------------
Fontes: 
[1] Lira. João Gomes de, Lampião, Memórias de um Soldado de Volantes 2006 (vol. 2) Companhia Editora de Pernambuco – CEPE. Recife/PE, 2007. PÁG. 20
[2] Vera Ferreira /Antonio Amaury. De Virgolino a Lampião, 1ª edição, Ideia Visual, São Paulo, 1999. PÁG. 52
[3] Maciel, Frederico Bezerra. - Lampião, seu tempo e seu reinado, | I : As origens : Por que Virgulino se tornou Lampião?  3ª Edição. Petrópolis, RJ : Vozes, 1992. PÁG. 90
[4] Oliveira, Aglae Lima de. Lampião – Cangaço e Nordeste. 3ª edição, O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1970. PÁG 22.
[5]  Rostand Medeiros  - Uma carta de Lampião e a história do soldado volante que se tornou ambientalista. Disponível em: http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/10/12/a-carta-de-lampiao-e-a-historia-do-soldado-volante-que-se-tornou-ambientalista/
 Att Kiko Monteiro

SE ENTREGA CORISCO


Publicado em 2 de dez de 2009
Trecho final do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol
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segunda-feira, 1 de abril de 2019

UM CASAL DE LUTA E DE FÉ

*Rangel Alves da Costa

Dona Beatriz e Seu Bernardo. Família Soares e Caldeira numa contínua união difícil de imaginar nos tempos de agora.
Não sei a idade dos dois no momento, mas certamente já nas porteiras dos oitenta. Também não sei quantos anos de união, mas certamente já depois da cancela dos cinquenta.
Dois troncos, duas raízes brotadas de famílias das mais tradicionais e respeitadas de Poço Redondo e além-sertões, pois os Soares e os Caldeira são como da terra primeira que fecundou o lugar.
E que bom reencontrá-los assim ainda unidos e tão enamorados como nos tempos idos. E que exemplo de comunhão espelhada nas faces trigueiras, nos rostos de luta e de fé.
Seu Bernardo então me disse: “É aqui que eu me escondo”. Voltando o olhar para a singela e humilde moradia.
E acrescentou: “Na casinha de minha roça também é assim, desse mesmo jeito”. Estava se referindo ao grande número de imagens de santos espalhadas pelas paredes.
Desenhos, retratos, molduras, santos e mais santos, fitas, terços e rosários, como num céu sertanejo. Não só nas paredes mas por todo lugar.
Numa mesinha coberta em pano rendado, de brancura e limpeza, outras representações sagradas. Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora, Padre Cícero, Frei Damião...
A vela acesa, a luz chamejando e tremulando na imagem que diz: Estou aqui! Ali a exemplificação maior da fé e da religiosidade sertaneja, nordestina, poço-redondense.
Somente em fotografias eu já havia visto tamanha representatividade devocional. Retratos de vez em quando são avistados de paredes rústicas, no barro, tomadas de imagens de santos.
Mas meus passos foram até lá, até Dona Beatriz e Seu Bernardo, e meus olhos e meu coração testemunharam o significado maior da crença e da devoção de um povo.
E é na casa humilde do casal, no Conjunto Augusto Franco, logo após o centro de Poço Redondo, que a Semana Santa é vivenciada com rezas, orações, ladainhas e incelenças.
Todas as quartas e sextas, após as sete da noite, Reginaldo, filho do casal, comanda os cantos de fé. Senta-se ao lado da mesinha dos santos e começa a soltar o fôlego em belas e entristecidas melodias cristãs.
E na última semana da quaresma, nos dias maiores da religiosidade, os ofícios são diários, indo até após a meia-noite. De vez em quando um copo d’água, uma caneca de chá, um biscoito, mas nada mais forte que a força da própria fé.
Nada mais dizer, Dona Beatriz e Seu Bernardo, apenas rogar que Deus os proteja sempre, e que continuem na fé e na união, que permaneçam exemplificando o que de melhor ainda temos nos corações sertanejos: a crença e a devoção!

Escritor
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Benjamin Abrahão - ENTRE ANJOS E CANGACEIROS


Autoridade na cultura do Nordeste do Brasil, o historiador Frederico Pernambucano de Mello, nos apresenta o livro Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (Escrituras Editora), que traz a biografia do secretário particular do padre Cícero, do Juazeiro, de 1917 a 1934, além de fotógrafo autorizado do cangaceiro Lampião, tendo acompanhado os diferentes bandos de que este dispunha em sete Estados do Nordeste, no meado de 1936, creditando-se como responsável pela mais completa documentação do cangaço jamais obtida, ao incorporar a imagem cinematográfica às velhas fotografias conhecidas.

A obra é ensaio interdisciplinar que ocupou boa parte da vida do autor, e também um livro de arte, com dezenas de fotografias e de fotogramas históricos da trajetória do sírio Benjamin Abrahão Calil Botto -- um “conterrâneo de Jesus”, como se declarava, por conta do nascimento em Belém, na Terra Santa --, que desembarcou no Porto do Recife em 1915, aos 15 anos de idade, fugindo da Grande Guerra, para trilhar uma aventura extraordinária pelos sertões do Brasil setentrional.

No livro, Pernambucano de Mello, reconhecido por Gilberto Freyre, já em 1984, como “mestre de mestres em assuntos de cangaço”, apresenta pesquisa profunda, feita ao longo de 40 anos. Pela primeira vez, é divulgado o conteúdo da caderneta de campo deixada por Benjamin Abrahão, recolhida pela polícia no momento de seu assassinato com 42 punhaladas, no começo de 1938, no sertão de Pernambuco, aos 37 anos de idade. Cobrindo os anos da missão sobre o cangaço, a caderneta abrange o período 1935-1937, com lançamentos alternados em português e em árabe, assim impusesse a necessidade de sigilo sobre o assunto.

O historiador trabalhou por três anos, com dois professores de árabe, traduzindo, ponto a ponto, o conteúdo averbado -- muitas vezes resultante de conversas noite adentro com Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros -- que são relatos que matam polêmicas e contestam versões atuais sobre fatos e figuras das décadas de 1910, 1920 e 1930, como o polêmico Floro Bartolomeu da Costa e a apregoada amizade entre Lampião e o padre Cícero, além de informações que dizem respeito ao real combate do Batalhão Patriótico à Coluna Prestes, para o qual traz entrevista inédita que fez com Prestes, em 1983, no Recife.

Particularmente importante, pela originalidade, é a revelação da matriz setecentista e estrangeira do pensamento social brasileiro dos anos 1930 sobre o cangaço, presente, sobretudo no chamado romance nordestino, tendente a culpar a sociedade e a desculpar os excessos dos protagonistas do fenômeno. O mesmo se diga sobre a revelação, de todo desconhecida até o presente, dos esforços de apropriação internacional do apelo épico que o tema encerra, por parte das facções travadas em luta de morte ao longo da década aludida: o Reich alemão contra o Soviete russo, Hitler contra Stalin, ao tempo em que Lampião dava as cartas na caatinga.

O livro traz ainda apêndice com a reprodução de importantes documentos, colhidos em pesquisa que contou com o apoio de muitos colaboradores e instituições, como a Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, a Cinemateca Brasileira de São Paulo, os arquivos Renato Casimiro/Daniel Walker, do Juazeiro, e da antiga Aba-Film, de Fortaleza, ambos do Ceará, entre outros.

Sobre o autor:

FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO possui formação em história e direito. Na Fundação Joaquim Nabuco, do Ministério da Educação, integrou a equipe do sociólogo Gilberto Freyre, de 1972 a 1987, período em que se especializou no estudo da cultura da região Nordeste do Brasil, tendo publicado os seguintes livros: Rota batida: escritos de lazer e de ofício, Recife, Edições Pirata, 1983; Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil, Recife, Editora Massangana/ Fundação Joaquim Nabuco, 1985 [ora em 5ª edição pelo selo A Girafa, de São Paulo]; Quem foi Lampião, Recife-Zürich, Stähli Edition, 1993 [ora em 3ª edição]; A guerra total de Canudos, Recife-Zürich, Stähli Edition, 1997 [ora em 3ª edição pela A Girafa]; Delmiro Gouveia: desenvolvimento com impulso de preservação ambiental, Recife, Editora Massangana/ Fundação Joaquim Nabuco-CHESF, 1998; Guararapes: uma visita às origens da Pátria, Recife, Editora Massangana/Fundação Joaquim Nabuco, 2002; Tragédia dos blindados: a Revolução de 30 no Recife, Recife, Editora Massangana/Fundação Joaquim Nabuco, 2007; Estrelas de couro: a estética do cangaço, São Paulo, Escrituras Editora, 2010, livro finalista do Prêmio Jabuti de 2011, nas categorias projeto gráfico e ciências humanas. 

É membro dos Institutos Históricos de Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte, do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, e da Academia de História Militar Terrestre, tendo sido curador internacional da Fundação Bienal de São Paulo para a Mostra do Redescobrimento – Brasil 500 Anos, São Paulo, 2000, e presidente da União Brasileira de Escritores – Seção de Pernambuco.  Na Academia Pernambucana de Letras, ocupa a cadeira 36 desde o ano de 1988. Pela originalidade de seus estudos, pelo volume da obra que produziu, e por se dedicar a aspectos de nossa história considerados ásperos e de pesquisa difícil, tem sido considerado o “historiador do Brasil profundo”, na palavra do professor Nelson Aguilar.

Prefácio: Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes. 
Texto das orelhas José Nêumanne Pinto
Gênero História/Cangaço e cangaceiros/Usos e costumes/Ensaio interdisciplinar.
Formato brochura, com mais de "97 imagens. Páginas "352

Carmen Barreto – comunicação e imprensa – imprensa@escrituras.com.br
escrituras editora e distribuidora de livros ltda.

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Preço? R$ 45,00 (Quarenta e cinco reais) e com frete já incluso. Onde comprar? Com nosso revendedor oficial Professor Pereira através do E-mailfranpelima@bol.com.br ou pelos tels. (83) 99911 8286 (TIM) - (83) 98706 2819 (OI). Podem comparar a oferta, façam simulações de compra nos demais revendedores na Internet. 
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*Matéria gentilmente enviada por Alfredo Bonessi


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ENTRE MACEIÓ E SALVADOR... ... O TRASLADO DA CABEÇA DE LAMPIÃO FOI DECAMINHÃO, NAVIO, OU...

Transcrição de Antonio Correia Sobrinho


O jornal "CORREIO DA MANHÃ", no dia 13 de Agosto de 1938, assim noticiou:

Para o Museu do Serviço Médico- Legal
Chegaram à Bahia as cabeças de Lampião e Maria Bonita

Bahia, 12 (Havas) – Chegaram a esta capital de avião as cabeças de Lampião e Maria Bonita, recompostas pelo doutor Arnaldo Silveira, médico comissionado pelo governo para conseguir as mesmas para o museu do serviço médico legal.

Bahia, 12 (Havas) – Chegaram hoje, às nove horas, de avião, as cabeças de Lampião e Maria Bonita, trazidas pelo doutor Arnaldo Silveira, médico comissionado pelo governo para estudar os despojos do “rei do cangaço”.


O doutor Arnaldo Silveira recompôs as duas cabeças, tendo tirado modelagens em gesso que ficaram no Museu Arqueológico de Alagoas.

Falando à imprensa, o doutor Silveira declarou que teve grande trabalho para fazer a recomposição, pois as duas cabeças tinham todos os ossos fraturados, provavelmente devido a coronhadas de armas.
Acrescentou o Dr. Silveira que haviam desaparecido as obturações em ouro dos dentes de Lampião como também de sua companheira.

As cabeças de Lampião e de Maria Bonita ficarão no Museu do Serviço Médico do Estado.


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AS MARAVILHOSAS PEDRAS DO SERTÃO DE SEU RABELO


Por Manoel Severo

Bruno Paulino, David Rabelo, Manoel Severo e Antônio Rabelo

Costumo dizer que somos movidos por paixão. As paixões acabam transformando-se em combustível precioso para a realização de nossos sonhos, sonhos de todas as naturezas... Assim tem sido com nosso empreendimento que é o Cariri Cangaço, assim tem sido com o senhor Francisco Antônio Rabelo do sertão maravilhoso de Quixeramobim.

Mas, quem é o ilustre Francisco Antônio Rabelo, ou simplesmente Rabelo; como é conhecido por toda Quixeramobim e por todo o planeta ? Poderia dizer que Rabelo é o marido da dona Lúcia, ou o pai do David e do Darvin , poderia dizer que Rabelo é aquele "louco" apaixonado por fusquinhas, por skate e exímio piloto de motocross, ou ainda o esforçado cantor de rock romântico dos anos 80... 

 Rabelo em apresentação no curso de Pós-graduação de Administração da Unifor na noite do último dia 26 de março de 2019
David Rabelo, Ingrid Rebouças, Manoel Severo e Antônio Rabelo 
na Pós-graduação na Unifor

Mas vou começar pelo fim: O ilustre Francisco Antônio Rabelo, o Rabelo; é hoje um dos mais respeitados designer de jóias artesanais do Brasil. De sua oficina em Quixeramobim a Ceará Designer de Jóias Artesanaisvem ano a ano conquistando a paixão e o respeito de todos que possuem um requintado bom gosto e prezam pela arte a partir das coisas do sertão. Rabelo utiliza todo o seu talento nato transformando pedras rústicas e as mais variadas matérias primas da caatinga em jóias preciosas, de rara beleza e extremo bom gosto. Sua produção tipicamente e preciosamente artesanal; anéis, brincos, colares, braceletes, dentre outros inúmeros acessórios, possuem um marca  inconfundível que tomou conta do Brasil e do mundo: A Marca Rabelo de Ser e de Fazer... Por ocasião da construção de nosso Cariri Cangaço em Quixeramobim, que acontece nos próximos dias 24 a 26 de Maio de 2019, tivemos a oportunidade de nos aproximar e de imediato nos apaixonar pelo "jeito Rabelo de Ser".  

"uma das matérias primas mais inusitadas e preciosas de nosso sertão, o espinho de mandacaru, aqui ganha tratamento e roupagem de luxo para encantar o mundo"
  
Encontrar Rabelo em pleno centro de Quixeramobim; em sua motocicleta, na sede de sua empresa ou mesmo na sua casa; é sinal de muita conversa boa e muita conversa espetacularmente "louca", daquelas que você fica torcendo para não acabar.... Assim é Rabelo, que nos confessa:"Severo é muito difícil ser doido no meio de vocês que são normais..." Uma boa gargalhada se segue à confissão de um dos artesãos de  mais sucesso em nosso Ceará; o menino humilde, de pouco estudo que com muito talento, determinação, persistência e trabalho, venceu, e venceu fazendo bonito.

Hoje a Ceará Designer, além de vender para o mercado interno, onde está presente nas principais capitais do país, exporta suas jóias para a América Latina, Europa e Ásia, "são peças exclusivas, feitas a mão, aqui dedicamos nossa alma à cada peça, ainda  mais quando carregam a força de nossa origem que é o sertão" revela um entusiasmado artesão, Rabelo que conclui:"aqui desenvolvemos nossa própria tecnologia de produção, com equipamentos e máquinas criadas por nós mesmos".

Dona Lúcia, a "guardiã" e fiel companheira de sonhos e realizações

Na fábrica, Rabelo tem como principais colaboradores, a esposa e eterna companheira; dona Lúcia; parentes e principalmente pessoas da comunidade. "Aqui emprego apenas pessoas da nossa comunidade, todos moram aqui bairro, formamos uma família", revela Rabelo, que aos poucos vai orientando e ensinado a cada um o oficio das joias do sertão e conclui, "mais recentemente começamos a lançar para o mundo jóias a partir de uma das matérias primas mais inusitadas e preciosas de nosso sertão, o espinho de mandacaru, que aqui ganha tratamento e roupagem de luxo para encantar o mundo". Em sua empresa Rabelo recebe mensalmente grupos de universitários de varias faculdades que se deslocam até Quixeramobim para conhecer um pouco do oficio do artesão e principalmente para receberem uma aula de campo sobre mineralogia.

Quem vai ate a sede da Ceara Designer de Jóias Artesanais, na cidade de Quixeramobim, conhece não só a sede da empresa como também a casa de Rabelo, que fica ao lado, como também a pista de motocross que também fica ao lado, como também a oficina de seus fusquinhas e a "Mina  do Rabelo", como assim? Pois é, Rabelo certo dia acordou com mais uma ideia "maluca" na cabeça: "Vou construir uma mina aqui no meu quintal para que os mais jovens possam ter essa incrível experiência da mineração e conhecer um pouco da beleza que a natureza nos reserva" e assim é o extraordinário Rabelo, o "professor Pardal" de Quixeramobim.

Ingrid Rebouças, Zé e Cotim, os sobrinhos do "professor Pardal" de Quixeramobim, 
na entrada da Mina no quintal de Rabelo
o
Rabelo é uma dessas pessoas que se guarda no coração, não apenas o artesão talentoso, o empresário de sucesso que hoje compõe o TOP 100 do Sebrae; figurando entre os melhores artesãos do país; mas e principalmente pelo grande ser humano que é. "Rasgar seda é uma arte e quando vejo toda a historia de vida do Rabelo, vejo suas realizações, sento em sua casa para tomar uma cerveja com amigos enquanto dona Lúcia prepara algo delicioso para comermos, quando vejo o olhar amoroso e cuidadoso do pai aos filhos David e Darvin, o abraço apertado nos sobrinhos Zé e Cotim e percebo que Rabelo dá o seu melhor para que tudo possa valer a pena, me dedico com prazer a "rasgação de seda" , obrigado Rabelo por estar ao nosso lado nos ajudando a sonhar e a realizar, é isso que faz nosso olho brilhar", afirma Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço. Francisco Antônio Rabelo, será um dos homenageados em nosso Cariri Cangaço Quixeramobim 2019.

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço
Quixeramobim, 23 de Março de 2019

E vem aí
Cariri Cangaço Quixeramobim
24 a 26 de Maio de 2019


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