Seguidores

domingo, 10 de maio de 2020

DAS ASSOMBRAÇÕES DO CANGAÇO – A CABEÇA PROCURANDO O CORPO

*Rangel Alves da Costa

Eis uma história que já se alquebrou de velhice, mas que de vez em quando ainda sai assombrando de boca em boca. E sempre contada durante o dia, pois muita gente tem medo de ouvi-la depois do anoitecer.
Uma história envolvendo um cangaceiro que foi morto nas matarias duma fazenda nos arredores de Poço Redondo. Depois de morto, contudo, sua cabeça, na altura do pescoço, foi cortada a punhal e levada para outras bandas como troféu, e o restante do corpo enterrado ali mesmo, um pouco mais adiante do local da morte.
Pois bem. A separação da cabeça do restante do corpo passou a causar estranhezas nunca vistas antes nos sertões poço-redondenses. Os mais velhos contavam histórias de arrepiar acerca desse episódio, mas não pelo fato da separação dos membros, mas pelo que isso provocaria depois.
As noites pela fazenda, nos arredores e por toda aquela região, passaram a ser mais temidas que tudo. Como o corpo sem cabeça estava enterrado no meio do mato, debaixo dum umbuzeiro, então dizem que o que mais se via era, no meio da noite, uma cabeça procurando um corpo.
Nas fazendas e pequenas propriedades, em noite fechada, abrir a porta e sair era temeroso demais. Certa feita, um sertanejo foi fumar um cigarrinho de palha na malhada e de repente viu, bem ao lado, suspensa no ar, a cabeça horrenda perguntando onde era a cova de seu corpo.
Arrepiou-se todinho, mijou na calça, sentiu-se sem forças para correr, mas conseguiu sair em disparada. Mas o medo era tanto que errou o caminho. Ao invés de correr pra dentro de casa, o que fez foi sair em correria por uma vereda, e logo em direção ao lugar da cova.
Quanto mais corria mais sentia a cabeça atrás, perguntando e perguntando, “onde tá minha cova”. Sem querer, o cabra foi tropeçar bem em cima da cova. Tropeçou e caiu. Antes de desmaiar ainda ouviu: “agora me enterre!”.
Somente ao alvorecer recobrou a consciência, pensou no que havia acontecido, olhou onde estava, e reconhecendo a cova deu um pulo que quase pega umbu com a boca. Olhou para ver se a cabeça estava por ali, mas nada viu. Chegando a casa, contou a história e ninguém acreditou.
Naquela mesma noite olhou pela fresta e viu a cabeça, Não só ele, mas muita gente, na mesma noite, via essa cabeça procurando o corpo. “Onde tá minha cova?”. Era o que se ouvia antes de se mijar de medo.

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

VAQUEIROS DO PAJEÚ PERNAMBUCANO, 1926.



Fonte:

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A Girafa Editora, 2004.

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

A MÃE DE LAMPIÃO


Por Osvaldo Abreu (Abreu)
Alto da Compadecida, 10 de maio de 2020

A incerteza da vida; a certeza da morte...
Estamos vivendo em prisão domiciliar.
Coronavírus determina a má-sorte
Triste quarentena! Qual o próximo a viajar?
Ninguém pode se achar forte,
O vírus ri da gente kkkk


O dia das mães amanheceu tristonho,
Uma mãe não pode o filho abraçar,
Lembrar tempo de criança, que sonho!
Uma mãe no berço o filho a beijar,
Mundo encantador e risonho.
Até quando o vírus vai perturbar?


Há muitos de coração de luto,
Perderam a mãe querida,
Falar mal de uma mãe é absurdo!
Quantas mães morreram de bala perdida?
Quantas morreram de coração e de susto?
Mãe é a grandeza da própria vida.


Tenho minha rosa querida,
De cadeira de roda, fazendo hemodiálise,
Guerreira, lutando pela vida.
Já teve câncer, triste fase!
Deus sempre alonga a partida.
A vida é difícil fazer análise.


Outro dia passei em São José do Deserto,
Distrito de Mata Grande nas Alagoas,
Vi e entrei em um cemitério aberto,
Cai no sertão a chuva boa,
Cheguei mais perto,
O vento corria e soprava soa, soa.


Naquele recanto do sertão,
Foram enterrados Seu Zé e dona Maria,
Pais de Virgulino, famoso Lampião,
Nove filhos, para o sertanejo, galhardia.
E Dona Maria que tinha Purificação,
Em 1920, em Alagoas morria.


Mãe, mãe, mãe é boa lembrança.
Quem, nesta vida, não tem uma saudade?
Recordar a mãe, tempo de criança.
Muitas mães chegaram a longa idade,
Outras de um filho a lembrança
De uma mãe no céu, na eternidade.


Osvaldo Abreu ( Abreu)
Alto da Compadecida

Lampião e a Família


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

A CARTA DE SINHÔ PEREIRA PARA LAMPIÃO.



Teria Sinhô Pereira convidado Lampião a abandonar o cangaço? Afinal qual o conteúdo dessa polêmica carta endereçada pelo antigo chefe cangaceiro ao seu sucessor? Conheçam a história. Geraldo Antônio de Souza Júnior.

Categoria

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

RESISTENTE DA CIDADE DE MOSSORÓ CONTRA O BANDO DE LAMPIÃO, FATO ACONTECEU NUMA SEGUNDA FEIRA NUBLADA NO DIA 13 DE JUNHO DE 1927



http://blogdomendesemendes.blogspot.com

DAVID GOMES JURUBEBA. SÉRIE: OS GRANDES INIMIGOS DE LAMPIÃO. RESUMO BIOGRÁFICO.

Por Gerlado Júnior

Cangaçologia

David Gomes Jurubeba ou simplesmente Davi Jurubeba como era conhecido, foi um dos maiores inimigos de Lampião de toda sua trajetória na vida da canga. Entre parentes e amigos, foram dezessete o total eliminado por Lampião e seus seguidores, entre eles o irmão Olímpio Gomes Jurubeba, morto em seus braços por um tiro disparado durante um confronto entre o bando de Lampião e os Nazarenos do qual fazia parte. Fato que ficou conhecido como o "Fogo das Baixas". Conheçam um pouco da biografia desse singular personagem da história cangaceira. Forte abraço, Cabroeira! Geraldo Antônio de Souza Júnior

Categoria


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

MORRE LITTLE RICHARD, LENDA DO ROCK, AOS 87 ANOS



Um dos maiores astros da história do rock, músico foi responsável por hits como 'Tutti Frutti', 'Lucille', Rip it up' e 'Long tall Sally'


O Globo

RIO - Astro da história do rock, Little Richard morreu aos 87 anos, na manhã deste sábado (9/5). A notícia foi confirmada pelo filho do artista, Danny Penniman, à revista "Rolling Stone". À CNN, o ex-empresário de Richard, Dick Allen, disse que Richard faleceu em Nashville, com o irmão e o filho ao seu lado, de câncer ósseo.

Pioneiro do rock n’ roll, nascido na Georgia em 5 de dezembro de 1932, incansável músico, pianista e intérprete, Richard Wayne Penniman, como constava em sua identidade, foi um dos nomes sagrados do ritmo conduzido pelas guitarras elétricas.

Clique no link para ler a sua trajetória artística.


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

PRIMEIRO CANGACEIRO DO NORDESTE BRASILEIRO

Por José Mendes Pereira

No ano de 1751 nasceu em Glória do Goitá pertencente à Vitória de Santo Antão, cidade da zona da mata pernambucana José Gomes o Cabeleira. O seu apelido possivelmente foi dado  devido suas compidas mechas. Era filho de branco com índio, de  olhos escuros, corpo debilitado, lábios delgados e nariz curto. Ele aterrorizou sua região.

Quando menino José Gomes tinha que escolher qualcaminho seguiria: ou seguiria os bons modos da mãe Joana,  de coração amoroso, ou seguiria o mundo pai Joaquim Gomes, um homem assassino  que o treinara para matar passarinhos, e depois gente. Sem escolha, o menino segue o pai para se tornar perverso e assassino tornando-se “O Cabeleira”, criminoso “perigoso” procurado da justiça. Infelizmente o menino escolheu seguir o pai pelas matas matando e judiando quem encontrava pela frente.

A literatura do cangaço afirma que o primeiro homem a agir como cangaceiro no Nordeste do Brasil teria sido o Cabeleira como era chamado o José Gomes, apesar de o termo (cangaceiro estava adormecido no dicionário) nem ter existido na sua época em que viveu. Um homem que se tornou perverso e sanguinário ao estremo ensinado pelo próprio pai Joaquim Gomes que com certeza era desequilibrado. O Cabeleira utilizava métodos bastantes violentos que sem dúvida resultavam em mortes.

No dia 1º de setembro de 1773 o Cabeleira em companhia do pai Joaquim Gomes de igual perversidade, e outro delinquente de nome Teodósio de grande confiança do Cabeleira e que esteve ao seu lado em diversos crimes. Até no momento de sua execução ele estava ao seu lado. O Estado de Pernambuco sofreu com assaltos e mortes praticados pelos três, mais o roubo de um armazém que findou na morte de um soldado e de um civil.  Em 1775 José Gomes com o pai Joaquim Gomes e o Teodósio bagunçaram os sertões nordestinos.

Os principais relatos sobre o criminoso foram escritos em 1876 pelo historiador e folclorista Franklin Távora, que lançou o primeiro romance denominado de "O Cabeleira". Posteriormente a vida do Cabeleira se tornou poesia escrita  pelo escritor e diplomata brasileiro João Cabral de Melo Neto.

Sua trajetória de crimes teve fim em 1776, ao fugir da polícia se escondendo num canavial em Paudalho, na zona da mata e foi capturado.

Na justiça nada foi perdoado tendo sido condenado à forca pelos assassinatos e roubos que fizera durante a sua vida de bandido, sendo executado no dia 28 de março de 1776, no Largo das Cinco Pontas dentro da capital de Recife.



http://blogdomendesemendes.blogspot.com

CACHORRO DE LAMPIÃO USAVA COLAR DE OURO E PRATA

Acervo do José João Souza

Um dos artigos publicado no jornal Diário de Pernambuco, de 30 de maio de 1935, assinala que até os cachorros de Lampião não escapavam ao gosto do luxo que reinava no grupo: "Dourado", o cachorro do cangaceiro, que será morto depois por uma "força volante", usava um "precioso colar de ouro e prata".

Fonte: site Observatório da Imprensa


http://www.observatoriodaimprensa.com.br/primeiras-edicoes/lampio-e-a-construo-do-mito/


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

NA ÉPOCA DO CANGAÇO OS COMBATES ERAM FERRENHOS


Por Adalto Silva

Na época do cangaço, os combates eram tão ferrenhos, que pesquisadores acharam esses dois projéteis que se encontraram... Pergunta-se, em que combate esses projéteis foram encontrados:

1. Entre os Ferreiras e os Saturninos;
2. Entre os Ferreiras e os Nazarenos;
3. No combate de Maranduba;
4. Pura invencionice.


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

sábado, 9 de maio de 2020

TÁ AQUI QUE DONA FIDERALINA MANDOU

Por Antonio Morais

Ildefonso Lacerda Leite, médico que logo depois de formado pela Faculdade do Rio de Janeiro, começou a exercer a profissão em Princesa, terra de seu pai, Luiz Leônidas Lacerda Leite, marido de Joana Augusto Leite, filha de Fideralina. Lá, Ildefonso casou-se com Dulce Campos, filha de um chefe político do município, Cel. Erasmo Alves Campos.

Com esse casamento o doutor arranjou um inimigo, Manoel Florentino que desejava ter Dulce por esposa e enraivado ao vê-la se casar com um forasteiro juntou-se a José Policarpo, ex-aluno do Seminário da Paraíba e ligado ao vigário de Princesa, Pe. Manoel Raimundo Donato Pita e resolveu se vingar de Ildefonso.

Em 6 de janeiro, feriado de Dia de Reis, Florentino e Policarpo mataram com uma punhalada no peito e um tiro no coração, o neto de Fideralina. O moço ia à farmácia providenciar remédios para aliviar aos antojos da mulher. Após o crime tentaram os criminosos enterrar o cadáver. Mas, por imperícia deixaram o corpo com os pés de fora. Vingança pior aguardava a dupla de assassinos!

Dona Fideralina reuniu no Sítio Tatu os cem cabras que havia conseguido juntar com a ajuda de outros coronéis da região. Tudo isso, para vingar a morte do seu neto. Ildefonso Lacerda Leite, assassinado em Princesa - PB. A Velha Fideralina despachara seu estranho exército com a incumbência de lhe trazer as orelhas de cada um dos assassinos do neto.

Não era à toa que se dizia nas Lavras que a velha do Tatu rezava toda noite num rosário feito das orelhas dos seus inimigos mortos. Depois dos seus cabras entrarem em Princesa e fazer o serviço, arrancaram as orelhas dos assassinos do neto da matriarca e disseram a célebre frase: "Tá aqui que Dona Fideralina mandou!".

Esse crime de princesa, ocorrido em 1903, marca o início da projeção de Dona Fideralina para além dos sertões do Cariri, e a extensão da sua influência junto ao governo do Estado do Ceará.


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

"O PATRIARCA"

Por Sálvio Siqueira

No dia 3 de setembro de 2016 será lançado, em Serra Talhada - Pe, mais uma obra prima da literatura sertaneja, intitulado 'O PATRIARCA', o livro nos traz a notória história do cidadão "Crispim Pereira de Araújo", que na história ficou conhecido como "Ioiô Maroto", contada pela 'pena' do ilustre amigo venicio feitosa neves

Crispim Pereira de Araújo (Ioiô Maroto) 

Sendo parente de Sinhô Pereira, chefe de grupo cangaceiro e comandante dos irmãos Ferreira, conta-nos o livro, a história que "Ioiô Maroto" foi vítima de invejas e fuxico. Após sua casa ter sido invadida por uma volante comandada pelo tenente Peregrino Montenegro, da força cearense.

Sinhô Pereira

Sinhô Pereira deixa o cangaço, não sem antes fazer um pedido para o novo chefe do bando, Virgolino Ferreira da Silva o Lampião e o mesmo cumpre o prometido.


Além da excelente narração escrita pelo autor, teremos o prazer e satisfação de vislumbrar rica e inédita iconografia.

Não deixem de ter em sua coleção particular, mais essa obra prima literária.

https://www.facebook.com/groups/545584095605711/675945445902908/?notif_t=group_activity&notif_id=1471274094349578

ADQUIRA- COM FRANCISCO PEREIRA LIMA ATRAVÉS DESTE EMAIL: 

franpelima@bol.com.br

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

LIVRO "LAMPIÃO A RAPOSA DAS CAATINGAS"


Depois de onze anos de pesquisas e mais de trinta viagens por sete Estados do Nordeste, entrego afinal aos meus amigos e estudiosos do fenômeno do cangaço o resultado desta árdua porém prazerosa tarefa: Lampião – a Raposa das Caatingas.

Lamento que meu dileto amigo Alcino Costa não se encontre mais entre nós para ver e avaliar este livro, ele que foi meu maior incentivador, meu companheiro de inesquecíveis e aventurosas andanças pelas caatingas de Poço Redondo e Canindé.

O autor José Bezerra Lima Irmão

Este livro – 740 páginas – tem como fio condutor a vida do cangaceiro Lampião, o maior guerrilheiro das Américas.

Analisa as causas históricas, políticas, sociais e econômicas do cangaceirismo no Nordeste brasileiro, numa época em que cangaceiro era a profissão da moda.

Os fatos são narrados na sequência natural do tempo, muitas vezes dia a dia, semana a semana, mês a mês.

Destaca os principais precursores de Lampião.

Conta a infância e juventude de um típico garoto do sertão chamado Virgulino, filho de almocreve, que as circunstâncias do tempo e do meio empurraram para o cangaço.

Lampião iniciou sua vida de cangaceiro por motivos de vingança, mas com o tempo se tornou um cangaceiro profissional – raposa matreira que durante quase vinte anos, por méritos próprios ou por incompetência dos governos, percorreu as veredas poeirentas das caatingas do Nordeste, ludibriando caçadores de sete Estados.

O autor aceita e agradece suas críticas, correções, comentários e sugestões:
 josebezerra@terra.com.br
(71)9240-6736 - 9938-7760 - 8603-6799

 Pedidos via internet:

franpelima@bol.com.br

Mastrângelo (Mazinho), baseado em Aracaju:
Tel.:  (79)9878-5445 - (79)8814-8345
E-mail:   lampiaoaraposadascaatingas@gmail.com

Clique no link abaixo para você acompanhar tantas outras informações sobre o livro.
http://araposadascaatingas.blogspot.com.br/
http://blogdomendesemendes.blogspot.com

A MORTE DE FLORO NOVAIS O CANGAÇO NA LITERATURA | #308



Começamos hoje nossa saga em busca da história do vingador do Sertão. O mito Floro Gomes Novais chega ao nosso programa em 5 programas, que vai de sua morte até seu nascimento. Acompanhe nosso canal.

O CANGAÇO EM BREJO DOS SANTOS NO REGIME MONÁRQUICO - PARTE I


Vista da região do Poço, em Brejo Santo - CE.
 Cenário de atuação de João Calangro e seu séquito.


"A arma preferida dos facínoras era o bacamarte, sendo muito usado o boca de sino, de cano de bronze, reforçado e curto."

Sempre foi de notória agitação o clima na região sul cearense. No Cariri, região que de certa forma, lhe corresponde, desde seus primórdios, registraram-se disputas e conflitos, a partir mesmo do período da posse da terra, na época das Sesmarias. Muito mais conturbado, todavia, surgiu o século 19.
A seca de 1877, com seu cortejo de miséria, arruinou a província do Ceará. Milhares de retirantes percorriam as estradas em demanda de vilas e cidades onde imploravam a esmola para matar a fome. No Cariri, a despeito de ser região privilegiada, a fome fazia devastações. Morriam, diariamente, no Crato, de 12 a 16 pessoas. Os famintos não tinham força para mendigar. Às vezes, antes de recolher a esmola, caiam agonizantes, com as feições convulsas, no transe derradeiro.

No meio dessa calamidade, surgiam bandos de cangaceiros que se apoderavam dos bens alheios. Os próprios retirantes invadiam as propriedades em busca de alimento. Furto, roubo, tomada de presos, assassinatos, prostituição e morte por falta de pão, eis as consequências desse flagelo.


Vários grupos de cangaceiros andavam sobre o chão do povoado de Brejo dos Santos. O flagelo começou nos fins de 1874, com o bando de Inocêncio Pereira da Silva, vulgo Inocêncio Vermelho, foragido da vila de Misericórdia (atual Itaporanga), na província da Paraíba, onde assassinara Andrelino Araújo. Perseguidos por Antônio Tomás de Araújo Aquino, irmão da vítima, passavam-se os criminosos para a Comarca confinante de Jardim. Residiam, ora no Salgadinho, do termo de Milagres, ora na povoação de Brejo dos Santos, do termo de Jardim.  


Gozando da proteção do Juiz Municipal de Jardim, Dr. Antônio Augusto de Araújo Lima, Inocêncio chegou a exercer funções policiais contra criminosos desvalidos, em toda zona banhada pelo riacho dos Porcos. Logo depois, fugido da cadeia de Crato, juntou-se ao grupo de Inocêncio Vermelho, o criminoso João Calangro, natural de Milagres, onde era conhecido por João Senhorinha. Seu verdadeiro nome, porém, era João de Sousa Calangro. Ele era de estatura baixa, sardento e de cabelos cor de fogo, e não deve ser confundido com o negro João Calangro, perverso cangaceiro de Antônio Quelé, abatido no dia 27 de novembro de 1910 por companheiros seus, nas proximidades de Jati, entre a ladeira do Pacífico e a fazenda Oitis.


Com isso, os salteadores, transformados em agentes policiais, mantinham a ordem nos povoados e prendiam os criminosos desvalidos. O banditismo político chegava ao ponto de uma autoridade regeneradora encarecer ante o Governo Provincial, os serviços que Inocêncio Vermelho tinha prestado, e pedir, ao mesmo tempo, para o bandido, remuneração por iguais serviços, ou promover a sua livrança. A Comarca de Jardim tornava-se um viveiro de criminosos, no qual José Ataíde Siqueira (Zuza Ataíde), Inocêncio Vermelho, João Calangro, Barbosas, Brilhantes, Viriatos, Agostinho Pereira, Pedro Simplício, Carneiro, Manuel Tomás e outros representam o papel de peixe-rei, cuja força estava na razão das façanhas.


 Em junho de 1876, Inocêncio foi morto na região do Poço, por Sebastião Pelado, que agia a mandado de Antônio Tomás de Araújo Aquino, irmão de Andrelino de Araújo. Morto Inocêncio, João Calangro assumiu a chefia do grupo, ao qual se incorporou Antônio Vermelho, irmão de Inocêncio, a fim de liquidar Sebastião Pelado, que, por sua vez, formava outro grupo. A luta entre esses bandos rivais, cuja zona de operações se estendia ao território paraibano, atingiu seu clímax quando Dinamarico e José Pombo Roxo, do grupo de Pelado, eram mortos por João Calangro e Gato Brabo, e Manuel de Barros, do séquito de Calangro, foi morto por Pelado.


Naqueles velhos tempos, o Brejo era o lugar preferido pelos bandoleiros que infestavam o Cariri, por motivo de suas condições naturais. No meado de 1876, procedente da vila de Várzea Alegre, ali se encostou o facínora Luís de Góis, acompanhado de Zuza Ataíde. Dentro da povoação de Porteiras, os dois grupos se defrontavam e travavam forte tiroteio, morrendo na luta José Roberto, que ali se reunira com Pelado. O morto, famoso sicário, vivia sob a proteção do capitão José Mateus Pereira da Silva, morador na comarca de Vila Bela, da província de Pernambuco. O capitão José Mateus e sua esposa, Dona Joaquina Pereira da Silva (Chiquinha Maroto), exigiam de Sebastião Pelado a orelha de João Calangro, ameaçando-o de morte caso não se desincumbisse logo a tarefa. Para agravar ainda mais a situação dos habitantes da região, forças irregulares do capitão José Mateus chegaram ao Brejo, em perseguição ao grupo de Calangro.


Num encontro entre os dois grupos, Sebastião Pelado recebia mortal ferimento, enquanto João Calangro, sabendo do estado do capitão José Mateus em Porteiras, ia até a povoação, no dia 02 de agosto de 1877, e lá diria-lhe toda sorte de impropérios e ameaças por espaço de dez horas. O capitão José Mateus seguia com destino ao Pajeú, região baluarte dos Pereiras, e de lá trazia mais de cem homens, encontrando-se entre eles grande número de delinquentes. O 2° suplente de Juiz Municipal de Jardim, capitão Juvenal Simplício Pereira da Silva, sobrinho legítimo de José Mateus, assumia o exercício e autorizava a Força de Mateus a capturar João Calangro. A Força era divida em três grupos. Seguia um para Brejo dos Santos, outro para Missão Velha, e outro, comandado por Mateus e seus genros Galdino Alves de Araújo Maroto e Manuel Pereira da Silva, para Milagres.


Em 15 de agosto de 1877, o grupo comandado por Mateus assassinava a Manuel Valentim e espancava barbaramente a Trajano de tal, pelo simples fato de agasalharem o grupo de Calangro. A Força pernambucana, a pretexto de perseguir Calangro, praticava uma série de delitos. O tenente Alfredo da Costa Weyne, que se achava em Milagres, deliberava por cobrança a tais atrocidades. Aceitava, porém, a sugestão do Dr. Antônio Augusto de Araújo Lima, que julgava mais acertado enviar Balduíno Leão, amigo de Galdino Maroto, a fim de encontrar uma solução honrosa. Balduíno, amigavelmente, conseguia que dez homens de Mateus se incorporassem à Força de Weyne, o que ocorria no sítio Bela Vista, distante meia légua de Milagres.


De volta de sua excursão, os Mateus chegavam a Milagres no dia 23 de agosto, em número de 40, depois de terem cometido as maiores violências contra sertanejos indefesos. A permissão dada ao capitão Mateus, para, com Força irregular, perseguir os Calangros, criava péssimo precedente e aumentava a insegurança individual na região. Os grupos de Mateus preocupavam sobremaneira as autoridades cearenses. Um dos grupos tinha por comandante a José Rodrigues e o outro a Vila Nova, ambos conhecidos assassinos. No dia 29 de agosto, o tenente Weyne recebia requisição dos Juízes de Direito de Barbalha e Crato, cujas cidades estavam ameaçadas de ser assaltadas por mencionados grupos.


A exemplo dos bandos de Mateus formavam-se outros grupos que se diziam gente do aludido Capitão, mas que visavam ao roubo e ao furto. O sul cearense vivia dias incertos. Além dos Calangros, operavam os Viriatos na Boa Esperança (atual Iara, distrito de Barro - CE) e os Barbosas no Salgadinho. À parte, mas sob os comandos de João Calangro, havia surgido, em Milagres, o grupo dos Quirinos, chefiados por três irmãos, o mais velho dos quais se chamava Quirino. Agiam também, sob a proteção de Calangro, Jesuíno Brilhante (Jesuíno Brilhante de Melo Calado) e Gato Brabo, os dois últimos também no comando de grupos. Por conveniência, esses bandos agiam separadamente. Havia, entre eles, porém, um “tratado de aliança defensiva e ofensiva de sorte que, quando receavam alguma conspiração, reuniam-se imediatamente, tomando João Calangro o comando geral”.


João Calangro acabara por expulsar os Mateus do Ceará. As populações caririenses responsabilizaram o capitão Mateus pela quase extinção de gados. E com isso, passavam a confiar em João Calangro. Essa confiança “subiu ao ponto de desejar-se pelos povoados, sobretudo em dias de feira, a presença de João Calangro para garantia daquilo que cada um trazia ao mercado publico. Ultimamente povoados, senhores de engenhos e fazendeiros disputavam, como ainda disputam, à porfia, a sua presença sempre que sabem que se aproxima algum grupo de malfazejos, ou temem qualquer assalto. Por isso ele foi obrigado a aumentar o número de seus policiais... E desse modo nulificou-se entre nós completamente a autoridade publica que foi substituída por João Calangro, que entende que a ele e tão somente a ele, o Cariri deve não ter sofrido maiores desgraças” (em “Cearense”, edição de 11 de outubro de 1877).


Correspondências de Barbalha publicadas em Cearense diziam que a cidade estava "sendo garantida pelo grupo do célebre João Calangro, protegido pelas autoridades". Compunha-se o grupo de 22 homens "que trajava a casimira, notando que quase todos os outros são subordinados, pelo fará 100 homens a qualquer hora". Um dos correspondentes concluía: "Hoje é perigoso ser rico, pois o povo pobre (os bandidos) lhes hão declarado guerra de extermínio" (em Cearense, 24.02 e 17.03.1878).


No Cariri, os particulares garantiam o direito de propriedade com armas nas mãos. Em Barbalha, as casas Sampaio, Santiago e outras estavam convertidas em quartéis. Em Constituição, de 17 de fevereiro de 1878, publicava carta de Missão Velha, na qual o correspondente afirmava que os ladrões de gado aumentavam dia a dia, e que a cadeia estava cheia deles. Carta de Barbalha, publicada na mesma edição, comunicava que o gado, a cana e a mandioca não podiam mais produzir, "porque o furto é por demais". E finalizava: "A seca é a causa de tudo". Aliás, por toda a Província flagelada pela seca, o direito de propriedade recebia tremendos impactos. O gado, retirado para o Piauí, ao voltar para o Ceará, na Serra Grande, não conseguia atravessar a linha de salteadores. No centro da Província, outros bandos de salteadores "acometem a propriedade com a maior ostentação, dir-se-á que se proclamou entre nós o comunismo". Na vila de União, o célebre José Rodrigues, à frente de um bando, assaltava os carros nas estradas, tomava os víveres e os distribuía "como se fosse coisa sua" (em Cearense, de 22 e 27.02 e 01.03.1878). Continua...


http://blogdomendesemendesa.blogspot.com

DIA 13 ÀS 20 HORAS.


No instagran dia 13/5 às 20 horas


httP://blogdomendesemendes.blogspot.com

PRIMEIRAS EDIÇÕES LAMPIÃO E A CONSTRUÇÃO DO MITO


Edição 177 por lgarcia 19 de junho de 2002 IMPRENSA & CANGAÇO

Leneide Duarte, de Paris

Lampião, vies et morts d?un bandit brésilien, de Élise Grunspan-Jasmin, Le Monde/PUF, 292 pp, 22 euros.

A francesa Élise Grunspan-Jasmin chegou ao Recife em 1991 e, até então, nunca ouvira falar de Lampião. Mas logo tomou conhecimento desse personagem quase onipresente na vida do Nordeste brasileiro, tão construído e mitificado com o passar do tempo que a legenda se mistura com a realidade no imaginário popular. Livros de cordel, filmes, músicas, bonecos de barro, todo o universo do cangaço e dos cangaceiros começou a invadir o cotidiano da jovem historiadora francesa, formada em história da arte, com especialização em fotografia.

Impressionada com a força do mito, logo Élise decidiu iniciar uma pesquisa sobre Lampião. Anos depois, em 1999, apresentava sua tese de doutorado em História, na Universidade de Paris IV, com o título "Lampião, seigneur du sertão: vers 1897-1938".

O trabalho foi premiado com o "Prix Le Monde de la recherche universitaire" e publicado no fim do ano passado pelo jornal Le Monde, em edição conjunta com as Presses Universitaires de France, transformando-se no livro Lampião, vies et morts d?un bandit brésilien. Um título que explica ao público francês quem é o tal "senhor do sertão" da tese.

Lampião não é uma referência para o público francês e a palavra "sertão" também não funcionaria no título de um livro. Por isso, Élise cedeu à proposta de chamar Lampião de bandido brasileiro, o que parece à primeira vista redutor para quem conhece de perto as contradições de um personagem complexo, que se tornou um "fora da lei" para cobrar justiça para seu pai injustiçado.

Espetáculo da vida

Em um dos capítulos do primoroso texto sobre o "senhor do sertão", Élise dedicou-se a explicar como a imagem de Lampião foi construída pela imprensa que, ao mesmo tempo que atacava o banditismo e seus horrores, ajudava a criar o mito do herói invencível, de corpo fechado, que se evaporava quando chegavam as forças da lei. De bandido a herói popular foi um pulo, como lembra o jornalista Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique, autor da apresentação do livro. Escreve ele:

"O itinerário de Lampião ?bandido brasileiro? é o de um revoltado social que se torna herói popular. Um revoltado incapaz, por falta de cultura, de teorizar sua própria prática de delinqüente e de propor uma leitura política para ela. Mas um rebelde que se insurge concretamente, de armas na mão, contra a hierarquia do poder no sertão, contra a justiça de classe, contra a ordem dos ?coronéis?, contra uma sociedade colonial, e que, na sua escala, opta por uma contra-sociedade, a do cangaço".

Em suma: com um pouco de teoria Lampião poderia ser o que não foi porque não tinha condições para elaborar um conteúdo político para seu percurso. Mas tinha um agudo senso de marketing e foi, com alguns jornalistas que o entrevistaram, também responsável pela construção do mito. "Havia um prazer em Lampião em posar para fotografias. Existe uma aparente contradição entre sua clandestinidade e a enorme quantidade de fotos que foram feitas dele e de seu grupo, entre 1926 e 1938. Essa contradição é apenas aparente pois havia uma vaidade em Lampião, um enorme prazer em se preparar para fotos. Há aí uma dimensão do desafio e a literatura de cordel mostra bem isso", assinala Élise. Segundo ela, deixar-se fotografar é uma forma de conjurar a morte; há uma conservação simbólica do grupo, que tem relação com o mito do corpo fechado que acompanhava Lampião, cangaceiro desde 1922.

A exposição de Lampião e de seu grupo na imprensa começou, na realidade, em 1926 e durou até sua morte, em 1938. A pesquisa incluiu jornais do Rio, de Pernambuco e do Ceará para entender como um personagem é construído através da imprensa e como a imagem e o texto estabelecem uma dinâmica poderosa. Antes de 1926, os artigos na imprensa eram factuais, davam contas das cidades atacadas, das pilhagens levadas a cabo pelo grupo de cangaceiros. A partir de 1926 começa uma narrativa do espetáculo de sua vida, para o qual os jornalistas contribuem; os folhetos de cordel descobrem o personagem e começa a legenda.

Cenas preciosas

Para a autora, Lampião passou de indivíduo a personagem graças à mídia impressa dos anos 30. O cangaceiro fez uso de um senso inato de marketing para se comunicar com o mundo exterior, manipulando jornais e jornalistas na construção de seu mito. Para os jornalistas, descrever um personagem temível, aparentemente indescritível, pode ter a função de exorcismo: descrever serve para se tranqüilizar, apropriar-se do objeto temido para dominar o medo.

E o próprio Lampião gostava de se ver nos jornais. Várias pessoas servem de intermediários para entrevistas com o cangaceiro, que se preocupava com os comentários de jornalistas sobre ele e se deixou fotografar por Benjamin Abrahão, em 1936, lendo matérias que falavam dele.

Os jornalistas não deixam de ressaltar a imagem de um grupo de arrivistas amantes do luxo e vestidos ricamente. Numa matéria de 14 de julho de 1936, o jornalista Antônio Napoleão, editor do jornal sertanejo O amigo do matuto, descreve uma horda de bandidos fascinados pelo luxo e pela riqueza.

Um dos artigos publicado no jornal Diário de Pernambuco, de 30 de maio de 1935, assinala que até os cachorros de Lampião não escapavam ao gosto do luxo que reinava no grupo: "Dourado", o cachorro do cangaceiro, que será morto depois por uma "força volante", usava um "precioso colar de ouro e prata".

A "moda cangaço" ou "cangaceiro" também foi divulgada e sedimentada pelas fotos. Num artigo do Diário de Pernambuco (6 de dezembro de 1935), o jornalista ressalta que "as ?forças da ordem? que vinham de Recife utilizavam sandálias, calças e um chapéu do tipo Lampião". Em outra matéria do mesmo jornal (12 de novembro de 1936), o jornalista descreve a "força volante" de "Mimosa vestida à moda de Lampião".

Numerosos artigos de jornal insistem em descrever os óculos que o cangaceiro usava: alguns falam de coqueteria, para esconder seu olho doente (ele era cego e tinha um olho de vidro). Outros atribuem os óculos a uma necessidade de melhorar a visão e atenuar sua fotofobia. O Povo, de Fortaleza, descreve na edição de 5 de agosto de 1928 os óculos "de lentes escuras, em armação de ouro e tartaruga, usados para esconder uma doença que atingiu a córnea do olho direito".
Pensando em controlar sua imagem mais de perto, Lampião permitiu, em 1936, ao cinegrafista e fotógrafo Benjamin Abrahão fazer fotos e um filme que foi intitulado Lampião, o rei do cangaço. O Diário de Pernambuco publicou em primeira mão um depoimento de Abrahão sobre o filme e as condições em que foi rodado. A revista O Cruzeiro, de 27 de março de 1937, deu a notícia do filme como um furo de Benjamin Abrahão. Toda a imprensa falou do filme rodado no sertão, mostrando a vida cotidiana dos cangaceiros.

Abandonado em um depósito úmido até 1957, o filme foi quase totalmente perdido. Dele restam 10 minutos com cenas de Lampião dando ordens a seus homens, falando a um público virtual, costurando numa máquina de costura e dirigindo uma missa, rodeado de seus cangaceiros. Perderam-se cenas preciosas em que o cangaceiro era penteado por Maria Bonita, lia um livro de Edgar Wallace, acariciava seus dois cachorros, entre outras do grupo rindo ou dançando. Mas para as autoridades da época, o bandido midiático e seu cineasta eram igualmente perigosos. Benjamin Abrahão foi assassinado em maio de 1938 e Lampião foi morto em julho do mesmo ano.

A autora observa que o poder do Estado tinha todo interesse em que o filme desaparecesse num momento em que operações de propaganda do governo Getúlio Vargas apresentavam os cangaceiros como bandidos abjetos, sistematicamente violentos, cruéis, inimigos da sociedade e da civilização.


http://blogdomendesemendes.blogspot.com