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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A HISTÓRIA DA COLUNA DE REVOLTOSOS EM SÃO MIGUEL

By: Rostand Medeiros
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O ano de 1926 iniciava de forma tranquila para a pequena cidade de São Miguel, mas pelo Brasil afora fortes tensões e graves problemas políticos cresciam desde 1922.
Em 1924 estouram vários levantes armados pelo país, com os mais sérios ocorrendo em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Grupo Escolar Padre Cosme, em São Miguel, um ano após a passagem dos Revoltosos pela região - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de fé", pág. 65
Estes movimentos eram sempre motivados pela insatisfação generalizada da jovem oficialidade militar em relação a política do então presidente da República, o mineiro Artur Bernardes. Este era um homem de temperamento complicado e extremamente autoritário. Como exemplo podemos comentar que durante a gestão Bernardes, todo o seu período governamental, do primeiro ao último dia, foi realizado com o país em estado de sítio.

Foto aérea de São Miguel na atualidade - Foto - Prefeitura Municipal de São Miguel - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de f'é", pág. 367
As forças do governo em pouco tempo esmagam estas ações, mas os grupos revoltosos de São Paulo e do Rio Grande do Sul resistem e formam duas colunas revolucionárias. Os paulistas eram comandados pelo general Miguel Costa e os gaúchos pelo tenente engenheiro Luís Carlos Prestes. No dia 11 de abril de 1925 os dois grupos se encontram próximos a Foz do Iguaçu. Deste encontro os revoltosos, como ficaram conhecidos na época, decidem realizar a “guerra de movimento”, marchando pelo interior do Brasil, permanecendo na luta até a população se sensibilizar com o exemplo destes guerreiros, ajudarem a derrubar o despótico governo de Artur Bernardes e criar uma nova ordem.

Notícia sobre a invaso de São Miguel - Fonte - Coleção do autor
No início de fevereiro de 1926, dez meses depois de deixarem a fronteira com o Paraguai e cruzarem grande parte do país, a Coluna está deixando o estado do Ceará e seu caminho segue em direção ao Rio Grande do Norte, mais precisamente a São Miguel.
O então Governador potiguar, José Augusto Bezerra de Medeiros, sabendo da aproximação da Coluna de Revoltosos, informa ao coronel João Pessoa de Albuquerque, então Presidente da Intendência de São Miguel, cargo equivalente atualmente ao de prefeito, que os Revoltosos se aproximavam de sua cidade. Um curto telegrama informava que o grupo de revoltosos era composto de “70 combatentes”.

A Ladeira do Engenho, local do combate entre os revoltosos e os defensores de São Miguel - Foto - Rostand Medeiros - Fonte  - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 269
Foi formado então um contingente para interceptar o grupo na conhecida Ladeira do Engenho, um antigo caminho que ligava a região serrana ao Jaguaribe, no Ceará.
O advogado, atualmente residente na cidade de Coronel João Pessoa, Nivaldo Moreno Pinheiro, comenta que seu pai, o comerciante João das Chagas Moreno, mais conhecido como “Joca Gato”, participou da resistência. Homens da cidade se reuniram em seu ponto comercial, um bar conhecido como “bodega de Joca Gato”, onde o grupo aproveitou para tomar algumas “lapadas” de cachaça para dar o combustível da coragem. O proprietário do bar estava preocupado e questionou o grupo se os homens da cidade de São Miguel que se dispunha a lutar contra os Revoltosos, possuíam armamento e munição em condições adequadas? Ao invés de debaterem seriamente sobre a dúvida informada pelo precavido vendeiro, este foi sumariamente perguntado “-Se estava com medo?”. Diante destas discussões, “Joca Gato” nada mais perguntou, nem esperou por novos debates. Apenas foi em casa, pegou seu rifle Winchester, farta munição de calibre 44, lubrificou sua arma e partiu juntamente com um grupo, que os pesquisadores locais apontam como sendo superior a vinte homens armados.

Ata da então Intendência de São Miguel, sobre os Revoltosos - Fonte - Coleção do autor
Sobre esta questão, a ata da “Sessão Ordinária da Intendência Municipal de São Miguel”, datada de 3 de maio de 1926, elaborada três meses após a passagem da Coluna de invasores, lista nominalmente vinte “patriotas”, mas informa haver “alguns outros” membros que faziam parte do grupo de defensores da cidade. Este importante e histórico documento se encontra atualmente nos arquivos da prefeitura municipal de São Miguel.
Já Raimundo Nonato é categórico ao afirmar em seu livro que os “patriotas” foram vinte civis e quatro policiais do destacamento de São Miguel. Este grupo potiguar foi reforçado por mais quatro homens do vizinho município cearense de Pereiro.
No total, apenas vinte e oito combatentes.

Aspecto da trilha da Ladeira do Engenho - Foto - Rostand Medeiros
Do outro lado os números são diversos. O documento elaborado pela municipalidade de São Miguel aponta que a Coluna de Revoltosos era composta de 2.000 homens. Os que se debruçaram sobre o assunto apontam um número mais modesto, entre 450 a 1.000.

O advogado Nivaldo Moreno Pinheiro em uma solenidade quando era prefeito da cidade de Coronel João Pessoa - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de fé", pág. 132
Mas voltando ao dia 3 de fevereiro de 1926, que São Miguel jamais esqueceu, Nivaldo Moreno informa que o grupo se posicionou na “cabeça”, no alto da ladeira do Engenho, já em território da vizinha cidade cearense de Pereiro, aguardando os “70 Revoltosos”, como dizia o documento do governo estadual.
O que os valorosos defensores avistaram do alto da sua privilegiada posição, a uma altitude em torno dos 650 metros, nem de longe se parecia com o reduzido grupo anteriormente informado. Diante dos seus olhos se avolumava uma grande quantidade de combatentes, mostrando-se como um verdadeiro exército em marcha.
Mesmo diante desta multidão motivada, armada, a maioria fardada de uniformes de cor kaki, lenços vermelhos ao pescoço e extremamente calejados na guerra de guerrilha, o grupo de combatentes de São Miguel não titubeou.
O primeiro a atirar teria sido Francisco da Costa Queiroz, o “Chico Queiroz”. Ele teria disparado não contra o grosso de um dos quatro grupos que formavam a Coluna, mas contra um contingente de umas trinta pessoas, que efetuavam a averiguação do terreno, em busca de possíveis inimigos. Os jornais antigos existentes no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte afirma que o grupo de defensores de São Miguel ainda conseguiu atingir e matar um dos revoltosos.
Mas a resposta dos experientes seguidores de Miguel Costa e Luís Carlos Prestes foi uma intensa chuva de balas. Um dos revoltosos atirou a poucos
metros da trincheira dos defensores com duas armas curtas. Os rebeldes recuaram deixando alguns materiais. Por sorte o grupo de defensores de São Miguel se protegeu atrás de várias pedras.
Logo outros membros da Coluna retornavam para novo combate. Os defensores da cidade serrana recuaram, se entrincheirando em uma casa e, segundo Raimundo Nonato, sustentaram forte tiroteio por duas horas.

A conhecida “Cruz do Revoltoso”. Segundo a tradição oral da região neste lugar estaria enterrado um membro da Coluna Prestes - Foto - Rostand Medeiros - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de fé", pág. 271
Diante do volume avassalador de fogo efetuado pelos membros da Coluna, que cercava a casa, além da noite se aproximando, o grupo onde estava “Joca Gato” percebeu que a sua resistência era inútil e todos fugiram deste local.
Nas primeiras horas do dia 4 de fevereiro de 1926, um novo grupo de doze defensores voltou para fustigar a Coluna de Revoltosos.
O grupo partiu armado de rifles, comandados por Manoel Vicente Tenório, tendo sido reunido em São Miguel, quando o fazendeiro Manuel Antônio Nunes, utilizou uma prática comum na época e atualmente esquecida nas cidades do
sertão; com um búzio marinho, ele “buzou”, alertando e chamando as pessoas na casa do coronel João Pessoa, para seguirem para a luta.

Resto do antigo engenho, que serviu de abrigo aos defensores de São Miguel contra os Revoltosos - Foto - Rostand Medeiros
Era noite fechada quando no sítio Crioulas, a alguns quilômetros da cidade, os defensores defrontaram-se com um contingente de trinta rebeldes. O tiroteio foi rápido, mas rendeu para os defensores a prisão do revoltoso Policarpo Gomes do Nascimento.
Este era natural do Maranhão, onde havia aderido às hostes revoltosas quando da sua passagem pelo seu estado natal.
O dia vinha clareando quando este grupo de defensores retorna a São Miguel com o prisioneiro. Tenório está com mais dois outros companheiros quando na entrada da cidade estoura um novo tiroteio. Apesar da reação dos defensores, este grupo de rebeldes era mais numerosos e o chefe Tenório recebeu dois balaços de fuzil na coxa esquerda. Agora não tinha mais jeito, a Coluna de Revoltosos entrou em São Miguel.

Fonte - Coleção do autor
Ao adentrarem a cidade, primeiramente um oficial em um cavalo negro percorria as ruelas e gritava para que o povo não tivesse medo, que eles lutavam para derrubar um governo podre.
Depois um grupo vai direto á a agência dos correios onde destroem a estação telegráfica, para evitar a transmissão de informações à polícia em Pau dos Ferros. Estas informações foram transmitidas pela micaelense Zenaide Almeida Costa, autora do livro “A vida em clave de dó”. Na época da invasão Zenaide era uma criança, que juntamente com a família, foram alguns dos poucos habitantes de São Miguel a ficarem na cidade e testemunharem os fatos.
Logo uma grande quantidade de cavaleiros, com algumas mulheres, que acompanhavam seus homens pelos sertões afora, entraram na pequena cidade. Tiros eram dados para o alto e um grupo acampou diante da casa da família de Zenaide.

Igreja de São Miguel Arcanjo, com a fachada igual a época do ataque dos Revoltosos - Foto - Manuelito, através de material cedido pelo historiador René Guida - Fonte -- Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 287
Segundo Nivaldo Moreno, os líderes dos revoltosos ficaram na casa de Manoel Vieira de Carvalho, que buscou receber o grupo da melhor forma possível. Outros membros foram ao cartório público, retiraram praticamente toda a documentação, fizeram uma pilha diante do prédio, jogaram querosene sobre a papelada e atearam fogo. Outro grupo ateou fogo em documentos diante da prefeitura.
Nivaldo conta que os invasores solicitaram ao então tesoureiro municipal, Chico Dias, a chave do cofre da prefeitura. Ao tentar entregar a chave, o tesoureiro foi obrigado ele próprio a abrir o cofre da municipalidade e o material que se encontrava no interior foi examinado pelos revoltosos. Membros do grupo obrigaram pessoas da comunidade a lavrar um termo onde apontavam o que continha este cofre. Foi encontrado dinheiro, que foi contado, listado, mas nada foi retirado.

Antiga Cadeia Pública de São Miguel, edificação com mais de 200 anos, que viu a Coluna passar diante de suas portas. Foto - José Guadêncio Torquato - Fonte - Fonte - - Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 357
Segundo o advogado, algumas pessoas indicaram para um grupo retardatário e revoltosos que determinados proprietários de casas comerciais afirmavam ser contra as causas que motivavam aquele grupo contra o Governo Federal, ou que este ou aquele dono de loja havia participado do tiroteio na Ladeira do Engenho.
Ao tomarem conhecimentos destes relatos, muitos destes inverídicos, alguns revoltosos promoveram diversos saques em várias casas comerciais de São Miguel. Foram espalhadas pelas poeirentas ruas de terra batida farta quantidade de produtos. Peças de tecidos foram abertas, a farmácia de Chico Queiroz foi saqueada, gêneros alimentícios subtraídos e em outros locais a cena foi se repetindo. Segundo a edição do jornal natalense “A Republica”, de 10 de fevereiro de 1926, o número de casas comerciais atingidas foi de dezessete. Para Nivaldo Moreno, inúmeras pessoas, algumas até mesmo com determinado nível financeiro de São Miguel, se aproveitaram da situação.

Nezinho Moreira, quando criança ficou frente a frente com os Revoltosos, nunca esqueceu que utilizavam lenços vermelhos no pescoço - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 330
Um grupo de batedores seguiu da cidade em direção a fazenda Riacho Fundo, analisando o caminho por onde seus companheiros deveriam prosseguir. Ao chegar neste local foi feito um contato e ocorreu uma troca de tiros com um contingente da polícia militar do Rio Grande do Norte comandado pelo tenente Juventino Cabral. Este pelotão policial havia saído de Pau dos Ferros, sendo composto por vinte homens e haviam levado oito horas para chegar ao Riacho Fundo.
Como resultado do encontro armado, um jovem morador deste sítio foi morto por disparos feitos pela força governamental, com balaços que lhe atingiram a cabeça.
Para a polícia potiguar, diante da realidade de se combater um grupo lutador e motivado, que superava todo o contingente policial potiguar da época, o melhor a fazer era dar meia volta em direção a Pau dos Ferros. Nesta cidade, esperando a chegada dos revoltosos, se encontrava um contingente de 150 homens armados e sob as ordens do major Luís Júlio, então comandante do Regimento de Polícia Militar.

Sítio Riacho Fundo, local do combate entre os membros da Coluna e a Polícia Militar do Rio Grande do Norte - Foto - José Correia Torres Neto
Para os rebeldes, o tiroteio no Riacho Fundo aparentemente motivou o grupo a seguirem pôr uma rota que os levaria para os sítios da Serrinha de João Paulo e Pau Branco.
Segundo Raimundo Nonato, se não tivesse ocorrido os confrontos na Ladeira do Engenho, nas Crioulas, na entrada da cidade e o encontro armado com a polícia no Riacho Fundo, provavelmente o tempo que os revoltosos ficariam em São Miguel seria mais longo. Ou como resultado destes combates a Coluna, ao invés de seguir em direção a Paraíba, poderia ter tomado o rumo de outras cidades potiguares, que seriam interessantes de serem conquistadas, como Pau dos Ferros, Apodi, Mossoró, ou até mesmo Areia Branca e seu importante porto.
Os historiadores que se debruçaram sobre este assunto não concordam com esta versão. Para eles a entrada da Coluna no território potiguar era apenas uma passagem para os estados vizinhos e não tinham o intuito de atacar outras localidades potiguares.
Os líderes dos revoltosos esperavam que os oficiais do Exército Brasileiro, Souza Dantas, Seroa de Melo e Cleto Campelo, todos ligados a causa revolucionária, conseguissem rebelar os seus respectivos quartéis e aderissem ao grupo de combatentes revolucionários. Os dois primeiros militares estavam lotados na capital paraibana e o último em Recife. Mas as tentativas de rebelião destes militares fracassaram.

Membros do batalhão criado para defender Caicó dos membros da Coluna - Fonte Livro "Era uma vez em Caicó", de Marcelo Rocha Coelho
Já o então deputado federal e futuro governador potiguar, Juvenal Lamartine de Faria, temeroso que diante de alguma ação bélica da polícia da Paraíba, houvesse a possibilidade dos revoltosos retornarem ao Rio Grande do Norte pela região do Seridó, organizou grupos de defesa em Caicó, Serra Negra do Norte, Jardim de Piranhas, Parelhas e outras localidades. Em Caicó, a mais importante cidade da zona seridoense, o grupo de defensores ali criado foi pomposamente chamado de “Batalhão Patriótico de Caicó”, ou “Batalhão Treme Terra”. Este era formado, segundo o pesquisador Adauto Guerra Filho, autor do livro “O Seridó na memória de seu povo” (2001), por um contingente que chegava a 300 combatentes. Para muitos, Juvenal Lamartine aproveitou a passagem dos revoltosos para ganhar politicamente com o fato e assim ratificar sua indicação como futuro governador potiguar. Fato que ocorreu em 1927.

Juvenal Lamartine a frente do Batalhão de Caicó - Fonte - Coleção do autor
O certo é que a partir das notícias do combate no Riacho Fundo, o grosso dos combatentes rebeldes converge em direção ao sítio Pau Branco.
Uma parte do contingente de milicianos revoltosos passou na mesma estrada que hoje passa exatamente defronte a sede da fazenda São Gonçalo, pertencente à família de João Alves de Lima, o João Rufino, o nosso biografado.
A Coluna de Revoltosos seguiu em direção aos atuais territórios dos municípios potiguares de Venha Ver e Luís Gomes, onde o trajeto utilizado aparentemente foi através dos sítios Bananeira, Formoso, Bartolomeu e depois Venha Ver, na época uma fazendola com algumas casas na beira de um açude.

A rezadeira Maria Bernarda de Aquino, conhecida como Dona Cabocla - Foto - Rostand Medeiros
Nesta cidade, segundo relatos da conhecida rezadeira Maria Bernarda de Aquino, conhecida como Dona Cabocla, através do que seus pais lhe contaram, enquanto o grosso da tropa seguia adiante, alguns membros da Coluna acamparam próximos ao açude, aonde chegaram a permanecer alguns poucos dias na região, inclusive com suas mulheres. Estas utilizavam lenços e panos na cabeça de cor vermelha, mostrando orgulhosamente que faziam parte do grupo rebelado.
Logo os revoltosos mataram vários porcos para sua alimentação e não molestaram ninguém. Estavam sempre com um vigilante permanentemente de plantão e andavam todo o tempo “equipados”, com suas amas e munições prontas para o uso imediato.
Uma mulher de Venha Ver, conhecida como Josefa, ou Zefa de Zé Lauro, ajudou as mulheres dos rebeldes com lavagens, concertos de roupas e preparação de alimentação. Como pagamento pelo seu trabalho ela ganhou farta quantidade de dinheiro, tecidos, redes, lençóis, roupas prontas e utensílios variados.

A cidade de Venha Ver - Foto - José Correia Torres Neto

Para Dona Cabocla a pobreza naquela época era tão grande que sua mãe, Maria das Dores de Jesus, comentava que com este material, a família de Zefa de Zé Lauro se tornou “rica” do dia para a noite em Venha Ver.
Após saírem deste lugarejo, a Coluna de Revoltosos seguiu em direção a propriedade Cacos (ou Cactos), e após passarem pela Ladeira dos Miuns, estiveram na região dos sítios Tigre, Imbé, São Bernardo, Feira do Pau e na pequena área urbana da cidade de Luís Gomes.

Praça central da cidade de Luiz Gomes - Foto - Rostand Medeiros
Em Luís Gomes se repetiram as “ações revolucionárias”, com uma sequência de saques de casa residências e comerciais. Foram provocados incêndios no cartório e na agência dos correios. Já no dia 6 de fevereiro, os revoltosos deixaram Luis Gomes e o Rio Grande do Norte, adentrando na Paraíba.
Depois de deixarem terras potiguares, a Coluna de Revoltosos combateu ainda por vários estados brasileiros.

Cruzeiro nas proximidades da Ladeira dos Miuns, local de passagem dos revoltosos - Foto José Correia Torres Neto - Fonte - Livro "João Rufino-Um visionário de f´é", pág. 277
Exatamente um ano após passar por São Miguel, a 4 de fevereiro de 1927, o grupo cruzou a fronteira com a Bolívia, onde foi dissolvido.
Já seus líderes tomaram rumos diversos. Luís Carlos Prestes, o mais conhecido e respeitado de todos, inspirou o mito do “Cavaleiro da Esperança”, que durante anos alimentou aspirações das camadas médias urbanas por uma vida melhor. Em 1930 Prestes adere ao comunismo e continua fiel a esta ideologia até a sua morte em 1990. Com o passar dos anos, conforme a popularidade do antigo comandante crescia, o exemplo de sua liderança e ideais se tornam conhecidos, a Coluna de Revoltosos é esquecida e se torna a Coluna Prestes.
Para São Miguel e região, este foi o mais importante acontecimento histórico ocorrido no século passado.
Mesmo diante de um inimigo extremamente experiente e poderoso no número de combatentes, mesmo com invasão da cidade pelos revoltosos sendo inevitável, a postura de seus defensores demonstra a capacidade de luta do seu povo e merece ser lembrada sempre.

Fonte: Coleção do autor
Entretanto, na opinião deste pesquisador, este momento histórico é timidamente recordado pela comunidade e consequentemente pouco conhecido pelos habitantes mais jovens de São Miguel.
Na região oeste potiguar é notório o enorme sucesso do trabalho de resgate da memória, em relação à resistência da população da cidade de Mossoró contra o bando do cangaceiro Lampião, no dia 13 de junho de 1927.
Entretanto não podemos deixar de comentar que no dia do ataque de Lampião a esta cidade, um número em torno de 200 defensores em armas estavam preparados, em diversas barricadas, para defender Mossoró contra um grupo de cangaceiros que girava em torno de cinquenta membros.

Capa do nosso trabalho onde está inserido este artigo - Fonte - Coleção do autor
Proporcionalmente a “Capital do Oeste” teve uma nítida vantagem. Já no caso de São Miguel, sem contar o tiroteio na fazenda Riacho Fundo, protagonizado entre revoltosos e policiais, nos outros três entreveros antes da Coluna adentrar a cidade, o número máximo de defensores foi apenas de vinte e oito homens.
Mesmo fracionada, os revoltosos chegaram a esta região serrana com um número muito superior ao de cangaceiros que atacaram Mossoró. Além do mais, sem desmerecer o fato, mas não se pode esquecer que Mossoró se defendeu de cangaceiros. De bandoleiros que praticavam a rapinagem e o sequestro em larga escala. Mesmo levando-se em conta a capacidade de combate dos homens de Lampião, São Miguel tentou a defesa, considerada impossível, contra um número muito maior de calejados e motivados combatentes. Homens e mulheres comandados por alguns dos mais corajosos, idealistas e preparados grupos de oficiais que o Exército Brasileiro já formou.

Noite de autógrafos em São Miguel - Fonte - Coleção do autor
Os quatro dias da passagem do bando de Lampião em território potiguar, teve um enorme saldo negativo. Foram assassinatos, diversos sequestros, suspeitas de estupros, roubos, saques e outros tantos delitos.
Nos dias da passagem da Coluna Prestes no Rio Grande do Norte, é inegável que os revoltosos saquearam casas comerciais, em busca de medicamentos e materiais para a continuidade da luta. Várias foram às apropriações de equinos para a continuidade de sua marcha e, antes deles terem matado alguém, tiveram um dos seus combatentes morto na subida da Ladeira do Engenho.

Show do grande Raimundo Fagner em São Miguel no dia do lançamento do livro - Fonte - http://doutorseverianonews.blogspot.com/
Para quem estuda o fenômeno de banditismo social ocorrido no Nordeste do Brasil entre 1820 e 1944, conhecido por cangaço, conversar com os raros sobreviventes ou suas famílias, tentar uma entrevista com muitas destas pessoas, muitas vezes é tratar de um assunto delicado, difícil e complicado, diante do que as pessoas passaram nas mãos de bandidos da pior espécie.
Já ao tratarmos do tema Coluna Prestes em São Miguel, ocorre uma situação totalmente inversa. Na região da serra as pessoas têm orgulho em contar que a “Coluna passou na minha casa”, como os descendentes de João Rufino têm ao comentarem sobre a passagem de membros da Coluna Prestes diante de sua propriedade na fazenda São Gonçalo.

Festa de lançamento, com exposição fotográfica - Fonte - Coleção do autor
Para as pessoas da região, diferentemente de Lampião, os revoltosos possuíam um ideal, eram educados, tinham um objetivo.
Apesar de serem movimentos históricos distintos em diversas características, pelo que aqui foi descrito, em nossa opinião, este momento histórico deve ser lembrado na região de São Miguel com maior ênfase, para evitar o seu total esquecimento.
Este texto é parte integrante do livro “João Rufino-Um visionário de Fé”, páginas 268 a 280, de nossa autoria. Est obra foi lançada em São Miguel-RN, em abril de 2010, com o ISBN nº – 9788590942412, editado pela Caravela Selo Cultural, de Natal-RN.
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É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.
 Extraído do blog: "Tok de História"
do historiógrafo Rostand Medeiros
 http://tokdehistoria.wordpress.com/author/tokdehistoria/


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Todas as vidas de um sertanejo

Por: Rangel Alves da Costa*
Rangel Alves da Costa

Na história dos grandes e destemidos homens sertanejos, certamente uma de suas páginas épicas retratará com orgulho a vida e os feitos de corajosos de José Francisco do Nascimento, o Zé de Julião para os seus conterrâneos, ou ainda Cajazeira, nome de batismo no bando de Lampião.
Zé de Julião, nascido num Poço Redondo caracterizado pela pobreza e longas estiagens, teve melhor sorte que a grande maioria das crianças do lugar. Seus pais, Julião do Nascimento e Constância do Nascimento, eram fazendeiros, possuidores de muitas terras e rebanhos. Contudo crescer em meio ao sertão cercado de explorados e exploradores, soldados desumanos e jagunços atrevidos, certamente faria brotar no jovem um destino muito além do que ser herdeiro das posses dos seus pais.
Foram continuadas pressões que fizeram com que o pai de Zé de Julião mudasse para outra localidade. Mesmo casado com Enedina, o rapaz segue o pai.
 
Entretanto, numa das vezes que jogava baralho com amigo se reconhecido por soldados da volante, que acostumados a tomar dinheiro emprestado com o seu pai, querem fazer o mesmo com ele. Isso revolta profundamente Zé de Julião. E é isso que o impulsiona e encoraja a entrar no bando de Lampião. Com a decisão tomada, sua esposa segue-o nessa perigosa aventura. Ao ser aceito como integrante do bando, é alcunhado como Cajazeira. Sua esposa continua com o mesmo nome, Enedina.
Logo demonstrou ser um dos mais corajosos e valentes do bando. Tais aspectos fizeram dele um confidente respeitado por Lampião.
A cada empreitada sertaneja que se tratava, crescia o seu prestígio diante dos demais. Ao lado da esposa, fazia planos para maiores conquistas, mas nunca passou pela sua cabeça o que viria acontecer naquela manhã de 28 de julho de 1938, na grota do Angico, às margens do rio São Francisco quando a Volante atacou e matou Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros, sua querida Enedina ficou entre as vítimas. Desesperado conseguiu romper o cerco e fugir. O resto do bando de Lampião não consegue reagrupar-se para vingar o seu líder. Alguns se entregaram à polícia, outros simplesmente fugiram. E isto foi o que acontece com Cajazeira. Vagou pelo Estado da Bahia, até se abrandarem os anônimos das perseguições, retornando tempos depois para Poço Redondo.
Já em sua terra natal, casa-se com a irmã de sua falecida esposa. A paz tão esperada não chega, pois as perseguições policiais continuam. Mais uma vez Zé de Julião foge com sua esposa, agora para Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Ele passa a residir numa fazenda herdada pelo pai. O tempo passa e Zé de Julião vê sua influência crescer na região. Com o desmembramento de Poço Redondo, do município de Porto da Folha, em 1953, e as primeiras eleições municipais  marcadas para o dia 3 de outubro de 1954, o ex-cangaceiro lança-se como candidato pelo PSD. Tinha certeza que não teria opositores . eis que surge um político de Porto da Folha, Artur Moreira de Sá, como candidato pelo PR.
Chegado o dia da eleição, os dois candidatos dão como certa vitória, mas o resultado foi o empate: 134 a 134. Como Artur era mais velho e proclamado prefeito. Entretanto, mesmo sendo derrotado Zé de Julião vê sua influência crescer e prepara-se para a próxima eleição, que foi realizada em 1958. Correndo com Eliezer Santana, Zé de Julião invade as seções eleitorais da sede do município e do povoado Bonsucesso e rouba as urnas , mas Eliezer Santana é proclamado segundo prefeito de Poço Redondo.
Zé de Julião volta a ser alvo de perseguições policiais. Ele é preso e posto em liberdade e alguns meses depois resolve fazer a vida em Nova Iguaçu, mas na manhã de 19 de fevereiro de 1961 foi encontrado assassinado nas terras do seu Poço Redondo. Sabe-se apenas que foi uma morte política.
* Rangel Alves Costa é bacharel em direito e poeta, natural de Poço Redondo.
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Cangaceiros do Nordeste..Uma jóia literária para os amantes do tema "Cangaço"


O paraibano Pedro Baptista escreveu e publicou Cangaceiros do Nordeste, a primeira publicação sobre o cangaço brasileiro, em 1929, na Parahyba do Norte, quando o mundo caía com a crise econômica e João Pessoa não existia como cidade.
Cangaceiros do Nordeste é a história do cangaço, de 1724 ao começo do século XX, na Paraíba, Pernambuco, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte, quando os cangaceiros famosos eram Padre Veras, José Antônio, Cabeleira, José Félix Mari, Jesuíno Brilhante, Liberato e toda a grande Família Terrível. Grande parte dos combates acontece na Serra do Teixeira, Borborema e Pajeú.
O Rio Grande do Norte é citado em diversas páginas do livro de Pedro Baptista, assim como Martins, Portalegre, Pau dos Ferros, Caicó, São João do Sabugi, Jardim do Seridó, Serra Negra e Patu. Em certo momento, quando a justiça pernambucana procurava Liberato, um coronel sugere que ele vá residir e conviver com Jesuíno Brilhante, em Patu, em 1870.
O livro de Pedro Baptista, a maior raridade da bibliografia do cangaço, termina com o significado da palavra cangaceiro: “o vocábulo cangaceiro, de cangaço, homem de cangaço, recebeu do autor d’Os Sertões, página 223, e de Gustavo Barroso, em nota 16 à página 31 de Heróis e Bandidos, o seguinte batismo: Armamento; de canga, porque o bandoleiro antigo sobrecarregava-se de armas, trazendo o bacamarte passado sobre os ombros como uma canga. Andava debaixo do cangaço”.
Pedro Baptista nasceu em 1876 e faleceu em 1937, sem perceber a importância de sua obra. Setenta e dois anos depois, o Sebo Vermelho reedita Cangaceiros do Nordeste, em edição fac-similar, com um agradecimento todo especial ao pesquisador Francisco Pereira, de Cajazeiras, que foi o autor da descoberta desta raridade. Obrigado, Francisco Pereira!
Abimael Silva
Sebista e editor

FONTE: SEBO VERMELHO
Mas adquiri no Blog do Neto - http://afnneto.blogspot.com/
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Não custa nada lembrar...

Por: Manoel Severo

Recentemente me foi enviada essa copia da famosa fotografia de
Padre Cícero ao lado de seu não menos famoso e polêmico, secretário Benjamim Abraão; a foto conhecida pela maioria daqueles que pesquisam a temática, nos foi enviada pelo confrade Wilton Dedê e faz parte de um acervo de Padre Lauro, do Crato. 

Frederico Pernambucano de Melo
Na verdade, quando se trata de Padre Cícero e ainda mais, de Benjamim  Abraão, vamos sempre ter assunto para algumas décadas de pesquisa, então é agradecer ao amigo Dedê o envio da fotografia. Mas por falar em pesquisa, não seria exagero dizer de nossa grande ansiedade pelo mais recente trabalho do amigo Frederico Pernambucano de Melo; que nos trará muito da fantástica saga desse inigualável e surpreendente "mascate libanês" ao qual devemos muito; no que diz respeito à imagens imortais do ciclo cangaceiro de Virgulino Ferreira; chamado Benjamim. Então Mestre Frederico, estamos ansiosos aguardando este grande presente editorial.


Manoel Severo
Cariri Cangaço
 
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TONNI LIMA

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O importante na vida do homem nâo é o sonho, o importante na vida do homem é  sonhar!

o importante na vida do homem é  sonhar!
Tonni Lima

Do blog: FraseS subntendidaS, do amigo
Tonni Lima



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GENILDO MIRANDA


José Genildo de Miranda, natural de Mossoró, nascido em 1924. Foi eleito vice-prefeito de Mossoró em 15 de novembro de 1998, na chapa do saudoso prefeito
blogdogemaia.com
Antonio Rodrigues de Carvalho (18/06/1927 – 03/12/2009), presidente da Câmara Municipal de Mossoró e também radialista de grande projeção na Rádio Difusora de Mossoró.
É patrono da Escola Municipal na zona rural de Mossoró, criada pelo
saudoso Dix-huit Rosado, através do Decreto nº 622, de 6 de janeiro de 1988. Faleceu no dia 30 de maio de 1985
Independente do texto acima

Hoje na História - 06 de Novembro de 2009

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Em 06 de novembro de 1869 nascia em Oeira(PI), o poeta
Tibério César Conrado Burlamaqui, que segundo a opinião de
Lauro da Escóssia, era a maior expressão poética de quantos habitaram esta terra. 
Veio para Mossoró em 1904, onde viveu até a sua morte ocorrida em 10 de abril de 1932, participando de uma assídua produção literária, notadamente na poesia. 
A época em que chegou a Mossoró, já sofria de uma paralisia que o mantinha preso a uma cadeira de rodas. Mesmo assim, era uma pessoa de espírito alegre, organizando cluber recreativos, blocos de carnaval e contribuindo sempre com a imprensa mossoroense com sua poesia, ora de rimas alegres, ora em versos alexandrinos, contando, invariavelmente o cotidiano da cidade.


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Autor:
Jornalista Geraldo Maia do Nascimento

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“QUANDO PENSO EM VOCÊ FECHO OS OLHOS DE SAUDADE...” (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa
Rangel Alves da Costa

“QUANDO PENSO EM VOCÊ FECHO OS OLHOS DE SAUDADE...”
No verso de Flávio Venturini diria que minha linda juventude foi página de um livro bom; na canção daqueles meninos do Clube da Esquina afirmaria que também me chamava moço e também me chamava estrada, viagem de ventania. E lá fui eu...
Contudo, se lembro dos tempos idos, daquela linda juventude, falo pela poesia de Cecília Meireles musicada por Fagner e digo que quando penso em você fecho os olhos de saudade, porque tenho tido muitas coisas, menos a felicidade...
E quando penso em você significa muito, indo além da recordação em si de uma pessoa que foi muito importante naqueles tempos idos. Pensar em você é rememorar a feição da própria idade, de pensamento aventuresco e de mochila às costas repleta de sonhos.
Pensar em você é relembrar os bons e velhos amigos, aqueles mesmos que compartilhavam os sonhos achando que estes não envelheciam. Amigos de qualquer conversa, de confidências da idade, de compartilhamento da cerveja no bar da esquina, dos encontros ao violão e desafinos.
Pensar em você é viver saudosamente a escola, os estudos um tanto descompromissados, professores e colegas, conversas na recreação e olhares para olhares que fingiam não enxergar. Lembrar que um dia fui percebido e me apaixonei, me fiz poeta e entrelaçadamente perdido nos braços do juvenil e doce amor. Onde andará você, que compensava as notas baixas pelo prazer de estar na escola?
Pensar em você remete à rebeldia que começou a ser tecida até o novelo da utopia e da irresignação acabar. Costurava-se a bandeira de luta, adornava-se o sabre para o combate, procurava-se a receita da bomba caseira, pichava-se o muro, ensaiavam-se palavras de ordem. Os livros proibidos, os panfletos, as cartas, tudo no porão, embaixo do chão, tudo folheado à luz da vela que de repente tinha de ser apagada.
Eram muitos os deuses e herois, os mitos que povoavam nossos sonhos libertários, os doutrinadores e profetas de uma luta que não valia a pena combater senão para justificar a indignação com quase tudo existente. Tantos marxistas, guevaristas, anarquistas, rebeldes, comunistas, trotskistas, socialistas e ateus que até se poderia imaginar o adolescente nascido para a luta contra as diferenças de classes, as injustiças sociais e a exploração capitalista. Mas de repente...
De repente ficaram somente a aprendizagem e a bagagem revoltistas e o quase heroi sonhador se viu diante de outra realidade. Quando a vida chamou a viver e a realidade mostrou que é pelo chão que se anda, então o moço teve que tirar sua roupa de guerrilheiro e se contentar em ser apenas diferente da maioria das pessoas. Diferente porque sabia ouvir uma canção e dizer que ali, nas suas entrelinhas, estava um grito de revolta contra a opressão, o militarismo, as perseguições.
Por tudo isso, pensar em você é como abrir um baú e mostrar o passado ao presente. Depois deles, quem apareceu mais? A turma mineira do Clube da Esquina, Geraldo Vandré, Gil, Caetano, Chico Buarque, Belchior, Taiguara, Raul Seixas, Elis, Alceu Valença, Sérgio Ricardo, Edu Lobo e tantos outros. E depois deles apareceu mais alguém? Pelas esquinas foram ficando a inteligência e o comprometimento, ficou amarelado o Pasquim, sumiram os quadrinhos de Lapi e Henfil.
Num dia de saudade, lembro muito bem, me dividi demais por amor. Já conseguia amar uma só mulher, e que bela flor era aquela ingrata que quebrou meu espelho cristalino. E por ela esvazie barris e misturei Espanhola, Todo Azul do Mar, Clube da Esquina II, Sá Marina, Jogo de Damas, Outra Vez, Rua Ramalhete, Não Chore Por Mim Morena, Grito de Alerta, Na Primeira Manhã, Espelho Cristalino...
Mas, de coração apaixonado, não deixava de repetir Canteiros: “Quando penso em você/ Fecho os olhos de saudade/ Tenho tido muita coisa/ Menos a felicidade/ Correm os meus dedos longos/ Em versos tristes que invento/ Nem aquilo a que me entrego/ Já me dá contentamento/ Pode ser até manhã/ Sendo claro, feito o dia/ Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria/ Eu só queria ter do mato/ Um gosto de framboesa/ Pra correr entre os canteiros/ E esconder minha tristeza/ E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza/ E deixemos de coisa, cuidemos da vida/ Pois se não chega a morte/ Ou coisa parecida/ E nos arrasta moço/ Sem ter visto a vida...”.
Foi tudo muito difícil, muito sonho, muito bom. Mas o melhor de tudo é que até hoje quando penso em você fecho os olhos de saudade. É que tenho tido muita coisa, menos a felicidade...

Rangel Alves da Costa* 
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com



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