Seguidores

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

CINEMA E CANGAÇO

Cangaceira com muito brio

No contexto do cangaço, Lídia é uma mulher que persiste na sua própria existência, mais do que em apenas sobreviver. Casada com o violento cangaceiro Zé Baiano, ela se apaixona por Bem-te-vi. Inspirada em história real, a traição misturada ao desamparo e à solidão da protagonista instigou a atriz e diretora cearense Iziane Mascarenhas a realizar o curta Querença. O filme estreou na última terça-feira 24, na mostra competitiva Foco, da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que começou no dia 20.

“Interessa do feminino a necessidade de se expressar e de se revelar, de ter orgulho e coragem de ser. Sem falar que dentro do cangaço, é um tema que não foi muito explorado. A mulher sempre aparece acompanheirando algum homem”, comenta Mascarenhas. Desde O Céu de Iracema (2002) – também selecionado anteriormente pelo mesmo festival –, o feminino estava presente na obra de Iziane, que divide as atenções entre Ceará e o Rio de Janeiro. “A luta no cangaço é marcadamente masculina. Quando Maria Bonita s apaixona por Lampião, as mulheres já não estavam para servir, mas para construir parcerias”, argumenta a diretora.

Após Dona Carmela (2004), Iziane dedicou-se a projetos como atriz, como sua participação em A Pedra do Reino (2007), minissérie da TV Globo. Também escreveu dois roteiros para longa-metragem: O Brinquedo do Pai e A Coleção Invisível. Prestes a ser finalizado com direção de Bernard Attal, o segundo roteiro foi co-escrito em parceria com o baiano Sérgio Machado. Pensado em 2008, o projeto de Querença desembocou em um curta, mas desdobrou-se em roteiro de longa, temporariamente intitulado Lídia. “Estou procurando formas de viabilizar”, esclarece Iziane.

Querença foi completamente filmado em Quixeramobim, com apoio da prefeitura do município e com recursos do Edital Ceará de Cinema e Vídeo da Secretaria de Cultura do Estado (Secult). Costureiras, bordadeiras e outros artesãos de Quixeramobim participaram da confecção de roupas e objetos cênicos e 17 moradores da cidade foram convidados como personagens secundários.

O ator Lúcio Leonn interpreta o cangaceiro Coqueiro

Da trágica descoberta da traição, o filme procura desenvolver como a situação é administrada pela protagonista. “É o enfrentamento com o ser humano diante de seus limites. Lídia poderia ceder com a chantagem. Ela corre risco de vida. Gosto deste momento em que a vida desta mulher se depara com a possibilidade de dar o jeito que ela prefere”. A própria Mascarenhas interpreta Lídia, contracenando com os atores Tavinho Teixeira e Lázaro Machado. “Não me identifico com a personagem, mas admiro o exercício de uma ideologia, de ter o brio, palavra que minha avó usava”.

SERVIÇO
O que: 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Quando: até 28 de janeiro (Querença, de Iziane Mascarenhas será exibido amanhã, às 22h30)
Onde: Cine-Praça, Cine-Tenda e Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes
Info.: www.mostratiradentes.com.br


Matéria indicada pelo coroné Ângelo Osmiro

Eu repesquei do blog: Lampião Aceso
http://lampiaoaceso.blogspot.com/

Empresa terá de responder por naufrágio, diz Promotoria


Agências

O chefe da Promotoria da Toscana, Beniamino Deidda, disse ontem que o inquérito sobre o naufrágio do Costa Concordia se focará agora nos principais executivos da proprietária, a Costa Cruzeiros.
Em entrevista à imprensa italiana, Deidda citou “problemas e atos de irresponsabilidade na segurança” nas decisões tomadas pela empresa dona do navio.
O navio afundou em 13 de janeiro, perto da ilha de Giglio, num desastre que a empresa atribuiu a manobras “não autorizadas” do capitão Francesco Schettino.
Ontem, as equipes de resgate encontraram o corpo de uma mulher na embarcação, o que elevou para 16 o total de vítimas do naufrágio. Há 20 pessoas desaparecidas.
Schettino declarou à Justiça italiana que havia informado o chefe da unidade de crise da Costa Cruzeiros, Roberto Ferrarino, sobre a gravidade da situação após o acidente com o navio.
O capitão disse ainda que a empresa os encorajava a executar a manobra de aproximação da costa como forma de ação publicitária.
Deidda pede que sejam esclarecidas as razões do atraso na retirada dos passageiros do navio, após ter sido confirmado que a situação estava fora de controle.
Ele acredita que houve negligência da empresa e cita imagens de um membro da tripulação pedindo que as pessoas permanecessem nas cabines.

URL curta: 
http://correiodopovo-al.com.br/v3/?p=10218

“A vontade de Deus está sendo feita” declarou esposa de Chico Anysio sobre o estado de saúde do ator


Malga di Paula, esposa do humorista de Chico Anysio, está sempre usando o Twitter para dar notícias sobre o estado de saúde do marido. No último sábado (21) a empresária deixou claro que não gosta de ler mensagens negativas sobre a recuperação do marido.

A esposa do artista trocou mensagens com uma pessoa que lhe disse para aceitar a vontade de Deus caso esta for a hora da morte do ator. Malga respondeu à mensagem afirmando que sabe separar o apego da esperança e que acredita que será feita a vontade de Deus.

Em sua série de mensagens publicadas na rede social Malga disse “A vontade de Deus esta sendo feita. Não ha apego que seja maior que a vontade dele. Chico continua vivo e aqui porque Deus… Se Deus já quisesse ter levado o Chico, ele teria ido… Não estou apegada a nada… Meu poder não é maior que o poder divino. O que eu seu é que Deus me pôs ao lado do Chico para que eu tenha fé e esperança… E nada vai tirar isso de mim… Como você mesma diz “eu sou inteligente” e sei distinguir o que é desapego do que é esperança. Todas as pessoas do mundo… Estou aqui para TUDO o que vc precisar… Conte comigo porque eu te amo. Isso é o que mais digo ao Chico. Sempre, sempre…”

De acordo com o portal Terra Chico Anysio está internado no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital Samaritano, na Zona Sul do Rio de Janeiro, há um mês. Recentemente, o humorista teve um bom desempenho na primeira sessão de diálise, mas ainda está inconsciente e respirando com a ajuda de aparelhos.

Diferente da esposa que demonstra ter fé, Chico Anysio declarou publicamente não crer em Deus após a morte do filho de Cissa Guimarães em um acidente automobilístico.

Fonte:
http://noticias.gospelmais.com.br/vontade-deus-esta-sendo-feita-declarou-esposa-chico-anysio-29692.html



Links dos artigos que você não os leu

http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/eduardo-coutinho-ouve-e-grava-o-canto.html 
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/o-auto-da-liberdade-parte-ii-20-de.html 
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/gingas-do-brasil-maria-bonita-rainha-do_25.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/gingas-do-brasil-maria-bonita-rainha-do.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/o-beneficio-da-leitura-na-formacao-do_25.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/joao-saturnino.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/brisa-lilas-poesia.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/amigos-mais-que-importantes-cronica.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/o-beneficio-da-leitura-na-formacao-do.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/as-cores-na-rampa-e-na-base-de.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/padre-cicero-romao-batista.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/certidao-de-nascimento-de-lampiao.html

TONNI LIMA

[book+TONNI+205+-+C%C3%B3pia.jpg]

Não deixe que coloquem seus sonhos na gaveta, abrace causas que imaginas perdida, inove, mesmo sozinho, aos poucos  reinvente, viva, nada começa grande, a não ser a maldade de alguns.
Essas sim, essas deixe-as na gaveta...
Tonni Lima
Blog: fraseS sbntendidaS

A MORTE DE LAMPIÃO

Por: Antonio Amaury C. Araujo

O sertão já havia perdido a esperança de que aquele fato um dia viesse a acontecer... Lampião é o Satanás, não morre nunca! Diziam uns. É um enfeitiçado, não tem bala que o acerte! Diziam outros...
Mas, um dia aconteceu. E foi o fim do cangaço.
Vejamos as belas páginas escritas por Antonio Amaury C. Araujo:
"Angico!
Esse é o momento culminante na história do cangaço. Todos aqueles que de uma forma ou de outra, participaram dos fatos que levaram ao combate viveram o momento que marcou o princípio do fim de uma forma de vida que subsistiu nos sertões nordestinos. Por mais de cem anos.
Por mais de um século?
Talvez, essa seja a pergunta cheia de surpresa do nosso leitor. Mais de um século sim, se levarmos em conta, as lutas do grupo familiar formado pelo Cabeleira, seu pai e outros que o acompanhavam. A morte de Lampião, em Angico, foi o dobre de finados do mundo dos cangaceiros. A agonia do cangaço começou nesse dia.
Nossos biografados, Sila e Zé Sereno, estiveram presentes e conseguiram sobreviver para contarem como foi a luta naquele amanhecer sangrento. Não só esse casal, outros que estavam também no coito de Angico, conseguiram escapar ao sinistro chamado da morte configurado materialmente nos disparos feitos por fuzis e metralhadoras. Criança e Dulce, Juriti e Maria além dos vários cabras que saíram dali com rapidez de veado baleado, são testemunhas incontestes do que ocorreu naquele distante amanhecer do dia 28 de julho de 1938.
E não são só os cangaceiros que têm o que contar. Os soldados da volante do tenente João Bezerra ( promovido a capitão nesse mesmo dia) também são uma imprescindível fonte de informações. Escrevemos um livro, "Assim morreu Lampião" que foi levado ao prelo em sua terceira edição pela Traço Editora e no qual damos todos os informes sobre tudo o que ocorreu naquele pedaço do sertão nordestino.
Aqui vamos narrar somente o que nos contaram Sila e Zé Sereno. Sobre o que sentiram, o que pensaram, o que fizeram, como agiram e o que sofreram. Isso tanto nos dias que precederam o combate como no dia em que se feriu o mesmo.
O palco onde se desenvolveu o sangrento reencontro está localizado a uns dois mil metros da margem do rio São Francisco, em terras da fazenda Angico. Esta fazenda, naqueles tempos de bandos de cangaceiros e de forças volantes, fazia parte do Município Ribeirinho de Porto da Folha. Sereno estava numa ascensão vertiginosa em sua carreira de cangaceiro e estava chefiando um grupo numeroso e aguerrido. Seu nome ganhava evidência dia a dia, quer nos meios cangaceiros quer dentre as forças volantes contra as quais lutava. Vamos transcrever aqui o que contou-nos Zé Sereno nas dezenas e dezenas de vezes em que conversamos com o mesmo. Nas visitas que lhe fazíamos em suas diversas moradias na cidade de São Paulo, bem como nas prolongadas internações no Hospital Municipal de São Paulo.
Sua companheira Sila, igualmente, em várias oportunidades narrou-nos como foi o tiroteio de Angico e de como conseguiu escapar da morte. Tem a lamentar com sentidas lágrimas a perda, nesse combate, de seu irmão Gumercindo que no cangaço ganhara o vulgo de Mergulhão.
Sereno contou-nos que recebera um recado de Lampião, trazido por um coiteiro de confiança, cujo nome era Eráclito, morador de uma das fazendas do coronel Antonio Caixeiro. O recado dizia onde deveriam encontrar-se e quando. Pouco depois de receber o recado, o grupo de Sereno seguiu para o local do encontro e chegaram na casa de dona Cândida a tardinha. Quando chegaram na fazenda, o pessoal de Lampião já se encontrava lá, um pouco distante da casa e descansando sob umas quixabeiras, que foi para onde Sereno e seus cabras se dirigiram incontinente.
Cumprimentaram-se rapidamente e depois todos seguiram para a grota do riacho onde armaram as tordas. Sereno perguntou a Lampião:
- Capitão, quem trouxe o senhor aqui?
O chefe mor dos cangaceiros respondeu:
Pedro de Cândida. Por quê?
Num tenho confiança im Pedro de Cândida.
Ao autor destas linhas, Zé Sereno confessou que não gostava daquele lugar e que tinha desconfiança do coiteiro. O filho de dona Cândida, que era popularmente conhecido como Pedro de Cândida, morava do outro lado do rio, exatamente em frente às terras da fazenda Angico. Dormiram essa noite com toda tranquilidade. Mal o dia 27 de julho amanheceu, e Zé Sereno já estava falando com Lampião que deviam deixar aquele lugar. Lampião recebera, a coisa de uns três dias, um sobrinho, José, filho de sua irmã Virtuosa e pediu a Sila que costurasse um uniforme de cangaceiro para o mesmo. O rapaz, nesse tempo, contava com 17 anos de idade. Foi incumbido o coiteiro de trazer uma máquina de costura. Sua mãe tinha uma dessas de mão (que eram comuns naquela época) e ele trouxe para o coito e Sila começou a fazer a roupa. Esse fato, aliás, veio novamente à tona ao conversarmos com Sila e chegamos a conclusão de que cai então por terra a tese de alguns de que Lampião queria abandonar o cangaço.
Se em verdade, esta era a idéia dos chefes dos cangaceiros ele não iria permitir que o seu sobrinho fosse investido como cangaceiro. Com roupas, armas e tudo o mais que transforma um sertanejo qualquer em um guerreiro das caatingas. Quando foi à tarde, o coiteiro Pedro de Cândida trouxe as compras em um jegue e disse:
- Capitão, as compra tão aqui. Vamu acertá as conta Qui eu quero saí.
Fizeram as contas e depois, quando Pedro ia saindo, ele passou por Sereno e perguntou:
- Quantos são?
Sereno respondeu:
Num interessa. Por que qué sabê?
As incumendas podi di num dá. – respondeu Pedro de Cândida desculpando-se.
Num interessa di sabê. – disse Sereno que não confiava e nem gostava desse coiteiro.
Depois que Pedro foi embora, o cangaceiro foi vistoriar as compras. Pegou uma garrafa de conhaque e viu, quase imperceptível um furinho no estanho que selava a rolha da garrafa. O furo deixado por uma agulha hipodérmica.
Zé Sereno levou a garrafa a Lampião e disse:
"Seo" Capitão, o sinhô é cego de uma vista mais cum a outra inxerga até dimais. Olha prá Qui. Mostrou o furo por onde tinham injetado o veneno.
É mesmo, disse Lampião, i o resto das incomenda?
Tá tudo invenenado, menos a cachaça qui Pedro sabia qui ia tê di prová, respondeu Zé Sereno e continuou:
É bom nóis sai daqui si não nóis vamu se cuberto di bala.
Amanhã cedo nóis sai, disse Lampião.
Sai é, nóis vai sair é cum bala, retrucou Sereno.
Ficou ali pelo acampamento, preocupado.
Maria Bonita teve uma discussão com Lampião e como ficou nervosa convidou Sila para irem sentar-se sobre umas pedras. Conversaram bastante tempo. A escuridão da noite as envolvia e somente se avistava os pontos vermelhos dos cigarros que as duas fumavam. Quando Maria queixou-se de Lampião, dizendo que o cego não morria e que ela, Maria, não tinha receio da força alagoana, a companheira de conversa respondeu:
- Eu não tenho medo da força de Sergipe, tenho até parentes lá, esses eu não temo.
Em dado momento, Sila viu luzes piscando à distância, acendendo e apagando e falou:
- Olha Maria, num é luz di palha? (lanterna)
Maria Bonita preocupada com seus pensamentos, respondeu que não era nada de mais, só vagalumes no mato. Já seriam mais de 21:00 h quando foram para as barracas dormir. Sila não falou nada para Zé Sereno que estava dormindo. Durante a noite, Sereno acordou com o barulho de um jumento que havia se assustado com os soldados que avançavam. Sonolento ficou prestando atenção para ouvir se os cachorros davam o alarme. Nenhum cachorro latiu. Tudo continuou em silêncio. Como não escutou mais nada, o cangaceiro tornou a recostar-se e dormiu, novamente. Lá pelas cinco horas, Zé Sereno acordou e foi rezar o Santo Ofício com o Rei do Cangaço, depois retornou e acordou seus cabras dizendo:
- Acorda e vamu tomá banho no poço.
Havia um "caldeirão" de água numa lage de pedra. Sereno desceu até onde estava Luís Pedro e disse-lhe:
Cumpadre se equipe.
Qui é isso, tá assombrado?, respondeu o outro.
Assombrado? Você vai vê daqui a pouco.
Luís Pedro começou a equipar-se e Sereno caminhou até onde Lampião estava calçando a alpercata do pé esquerdo e foi quando ouviram-se os primeiros tiros. Ao passar por Lampião, Sereno disse-lhe:
Num disse qui nóis brigava hoje?
Vamo brigá, respondeu e alto para os outros cabras: Oh, mininos, descem aí uns di voceis pro riacho.
Quando Zé Sereno percebeu já tinha tirado três pentes de bala de fuzil. Viu quando o tenente João Bezerra avançava em direção às barracas de seu grupo. Atirou. Ao ser baleado, o tenente caiu. O cangaceiro gritou:
- Perdeu a fama macaco fio da puta.
Olhou para trás e viu Lampião caído por terra, morto. No fuzil ainda tinha duas balas, uma na agulha e outra no pente. O dia estava clareando, mas ali na grota a fumaça dos tiros misturando-se com a neblina do dia mal permitia que visse alguns passos adiante.
Na cabeça Sereno trazia um chapéu de massa, semelhante aos usados pela polícia. Foi sua sorte. Sem poder subir pelos barrancos laterais ele foi adiantando-se pelo leito seco do riacho e, de repente, encontrou-se com os soldados do aspirante Ferreira que vinham em sentido contrário. Como se sabe, os trajes da polícia, quando em diligências pela caatinga, e o dos cangaceiros eram quase iguais, variavam, às vezes, só nos chapéus ou quepes. Sem outra saída usou de um estratagema, levantou o braço esquerdo e com a mão espalmada, gritou várias vezes:
É cumpanheiro, é cumpanheiro, num atiri qui é cumpanheiro.
Na mão direita levava o fuzil, foi avançando pelo meio da fumaça, da neblina e das sombras e passou pelos soldados. Viu um varedo de bode, no meio do xique-xique e da macambira, que descia pela ribanceira. Antes de descer pelo mesmo virou-se de súbito e deu os dois tiros de fuzil em direção aos soldados. Rapidamente sacou do parabellum e deu toda a carga nos policiais surpresos e correndo e saltando desceu pelo trilho. Foi assim que Zé Sereno conseguiu escapar do cerco e da morte certa.
Com sua companheira Sila aconteceu o seguinte. Ela ainda estava na barraca quando dos primeiros tiros, pegou os bornais e saiu. Ouviu o barulho das metralhadoras que mais pareciam latas cheias de pedra sendo sacudidas violentamente. Seu irmão Mergulhão estava atirando ali perto. Quando ele foi baleado mortalmente, ela pegou o fuzil dele e escondeu-se atrás de um pedra. Escutou os soldados que a chamavam:
Vem prá cá, vem aqui.
Nisso, Criança e Dulce passaram por ali e o cangaceiro chamou-a:
Cumadri Sila, Cumadre Sila.
Ela saiu de onde estava e seguiu o casal. Tinham andado somente alguns metros quando viram Candieiro atirando. Ao chegarem perto, ele foi atingido no braço direito, o fuzil caiu e Sila apanhou-o do chão e levou-o também. A mulher de Cajazeiras, Enedina, juntou-se ao grupo que fugia. Ia caminhando atrás de Sila quando uma bala atingiu-a no alto do frontal, o osso levantou-se e a massa encefálica foi atirada nas costas de Sila, ficando grudada em sua roupa. Depois que estavam distantes do lugar do tiroteio e o silêncio dizia que o mesmo terminara. Sila disse para Criança:
- Olha, eu acho que só escapou nóis. O resto deve ter morrido tudo.
Mais tarde, ouviram os disparos de um parabellum.
Criança falou:
Isso é bem cumpadre Sereno. Vamo até lá.
Realmente, Sereno disparara a carga do parabellum com a finalidade de avisar aos companheiros o ponto onde estava. Chegaram onde estava Sereno e, aos poucos, outros sobreviventes foram se agrupando. Alguns vinham feridos, como Candieiro e Balão que tiveram que ser tratados. Falavam dos que tinham visto cair mortos e contavam uns aos outros de como haviam escapado às garras da morte. Estavam todos aparvalhados, desorientados, com medo e sem saberem que atitude tomar agora que perderam o chefe. Zé Sereno foi quem primeiro se refez. Começou a tomar as providências e assumiu o comando."
(Texto transcrito da obra Sila e Zé Sereno/Antonio Amaury C. Araujo/Traço Editora).
Fonte:

Mossoró em dois momentos, o ano:2009

Por: Manoel Severo

Confraria da SBEC / Cariri Cangaço em Mossoró; o ano: 2009

Por todo o ano de 2009 nos dedicamos a construção da primeira edição do Cariri Cangaço, que viria a acontecer em setembro daquele ano. Entre as atividades à qual nos debruçamos foi visitar as várias cidades onde mantínhamos núcleos de pesquisadores ligados a nossa SBEC, para a apresentação do Projeto Cariri Cangaço. Estivemos naquele ano em Serra Talhada,Triunfo, Piranhas, Poço Redondo, Aracaju, Recife, Canindé, Frei Paulo, Paulo Afonso, Natal, enfim; mas nossas primeiras visitas foram a Mossoró, sede da Sociedade. Ali, estivemos por duas vezes ao lado dos confrades, Kydelmir Dantas, Paulo Gastão, Chagas, Manoel e Assis Nascimento, Jarino Rolim, enfim; para que conhecessem e abraçassem a idéia do Cariri Cangaço. Nas fotografias, imagens dos dois momentos daquele 2009.

Maristela Mafuz e Aderbal Nogueira, na Mossoró dos idos de 1927...

Reunião Cariri Cangaço em Mossoró, Hotel Termas

Paulo Gastão e Lívio Ferraz

Aderbal Nogueira, Danielle Esmeraldo e confrades da SBEC, era a apresentação do Cariri Cangaço em Mossoró

Manoel Severo, Jarino Rolim, irmãos Nascimento...

Por todo esse chão maravilhoso do nordeste visitado por nós àquela época, tivemos a companhia de confrades do GECC; Aderbal Nogueira e Ângelo Osmiro, companheiros de primeira hora; e ainda Lívio Ferraz e Dário Castro Alves, que inclusive, nos brinda com  seu olhar diferenciado em fotografias dos momentos de então.

Manoel Severo

Cariri Cangaço








ALANE Convida !

ZABÉ CANGACEIRA E LAMPIÃO (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa
Rangel Alves da Costa

ZABÉ CANGACEIRA E LAMPIÃO

As peripécias e valentias de Zabé Cangaceira haviam se alastrado, ganhado o mundo nordestino, ecoado mata adentro até chegar aos ouvidos de Virgulino Ferreira da Silva, o temido Lampião. Informado sobre tudo que acontecia ao redor, de certo modo a saga da destemida já havia virado zunzum-zunzum dentre o bando, despertando-lhe diferenciado interesse.

O senhor das revoltas sertanejas logo quis conhecer além do que se comentava por ali, procurando saber de tudo, timtim por timtim. Um coiteiro se fez de mensageiro da notícia e contou a história da mulher de cabo a rabo. E confirmou que ela havia organizado um bando de mulheres raivosas, decididas e de armas em punho, que expulsaram das redondezas interioranas tudo que havia de homem casado safado e mulher quengueira.

Lampião achou interessante a história e, chamando-o perto de uma moita mais afastada, ordenou ao coiteiro que fosse até a dita valentona e lhe entregasse um bilhetinho que iria escrever. Então rabiscou três linhas dizendo que tinha muito interesse de conhecê-la pessoalmente, ali mesmo no esconderijo onde se encontrava. E pediu ao mensageiro que passasse todas as informações sobre como chegar ao lugar.

No dia seguinte, logo no clarear do dia, Zabé cortou vereda, subiu e desceu a serra, chegando enfim ao ninho de cobra acompanhada do coiteiro. Estranho é que já trazia um saco de mantimento, roupas apropriadas para a vida na caatinga e algumas armas que já guardava desde outras batalhas. Pelo jeito já tencionava ficar, como de fato ficou fazendo parte do bando.

Assim que a mulher foi apresentada ao Capitão e este a vasculhou de cima a baixo, e antes mesmo de qualquer conversa mais demorada, foi repassada ordem para que Zabé fosse apresentada aos demais cangaceiros e confirmado que dali em diante ela seria mais uma seguindo o mesmo destino. Mas quem não ficou gostando nem um pouquinho dessa história foi Maria Bonita, sua agrestina esposa.

Com o olho mais que apurado, retina de enxergar a cor dos olhos de vagalume no breu da noite, Maria Bonita percebeu um leve sorriso no rosto de Lampião assim que avistou a novata. E disse consigo mesma que aquilo não ia cheirar nada bem, pois se aquela zinha começasse a arrastar as asinhas pro seu homem não demoraria pra sair dali com uma quente e outra fervendo. Se não fizesse pior.

Mesmo se roendo por dentro, raivosa e enciumada até dizer chega, Maria Bonita preferiu silenciar e fazer de conta que não havia acontecido nada demais. Ora, era apenas mais uma mulher fazendo parte do bando, como aliás outras já o acompanhava há tempos. Só que aquelas outras já eram compromissadas com cangaceiro mesmo, muitas vezes vivendo as agruras daquela vida por amor ao seu homem. Mas agora a situação era outra, pois pelo que sabia a tal Zabé era solteira, espadaúda, bonitona.

Mas ficou mesmo em tempo de explodir quando viu Lampião abrir um embornal e escolher um vidro cheinho de perfume e seguir em direção a Zabé para lhe presentear. Levantou afoita, se formigando toda, e assim que o Capitão colocou a água de colônia na mão da outra, avançou feito raposa arisca e arrebatou o objeto, abrindo o frasco em seguida e derramando todo o líquido aos pés da nova e assustada cangaceira.

A atitude de Maria Bonita deixou Zabé num envergonhamento de baixar a cabeça para pensar melhor antes que tivesse uma reação desnecessária para aquele momento. Mas num segundo já lhe veio à mente o que fazer. E descaradamente disse: “Num tem nada não meu Capitão. Água de cheiro aos poucos perde mesmo o perfume. Diferente do perfume de sua presença, que cheira a sertão e a tudo de bom”.

As consequencias dessas palavras foram as piores possíveis para Zabé. Mesmo a força de Lampião, sua tentativa desesperada de que não acontecesse o pior, nada disso impediu que Maria Bonita apanhasse ao redor um pedaço de pau espinhento e partisse pra cima da desditosa. Deu uma paulada que a mulher se curvou toda, deu outra perto das ancas que os gemidos brotaram.

Não deixou a mulher completamente moída porque esta não esperou por tempo ainda pior. Deu um último olhar para o seu inerte Capitão e se danou a correr mundo afora, pulando por cima de pedras, arrancando garrancho, se lanhando toda nos espinhos de mandacarus e xiquexiques.

Lampião tinha os seus motivos para não interferir com mais força. Se quisesse Maria nem tinha derramado o perfume e começado aquele surramento todo. Até que gostaria que Zabé ficasse, mas até gostou que a cangaceira partisse. Seria mais difícil manter a paz entre aquelas mulheres do que lutar contra inimigos.      


Rangel Alves da Costa* 
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CANGAÇO, CANUDOS E CONTESTADO

Por: Enéas Athanázio

PAINEL COMPLETO

O livro “Lampião e o Estado-Maior do Cangaço”, de autoria dos pesquisadores Hilário Lucetti e Magérbio de Lucena, publicado em segunda edição, revista e ampliada (Gráfica Encaixe – Ceará – 2004 – 380 págs.), é o mais completo painel que conheço sobre o assunto, descrevendo com precisão as atrocidades dos bandos de cangaceiros que fervilhavam no Nordeste desde as últimas décadas do Século XIX até os anos 40 do Século XX, mostrando o ambiente sócio-econômico e político que permitiu o exercício dessa forma de banditismo ao longo de tantos anos e descendo a minúcias biográficas de cada um dos mais importantes atores de uma atividade tão desumana quanto trágica. Baseado em longas e minuciosas pesquisas, incluindo investigações in loco e entrevistas com numerosos personagens, sem faltar o mergulho em incontáveis coleções de jornais e na melhor bibliografia disponível, é um trabalho sério e confiável, merecedor de algumas observações, escolhidas dentre as muitas que ensejaria. Embora se trate de ensaio de cunho histórico, contém passagens antológicas, a exemplo da retirada do bando de Lampião para Pernambuco, após o malogro do assalto a Mossoró, cruzando três Estados, viajando quase só à noite e nas altas madrugadas, varando as mais ásperas caatingas da região e realizando saques sempre que a oportunidade se apresentava. Façanha que poderia inspirar excelente novela literária, assim como o livro, no conjunto, forneceria matéria para um belo romance
                        
O QUE É CANGAÇO

A palavra cangaço, segunda consta, deriva do fato de que os bandoleiros transportavam sempre, junto ao corpo, todos seus pertences. Entregues ao nomadismo, sem paragem certa, levavam em embornais cujas alças se cruzavam no peito e nas costas os objetos miúdos e de valor, tais como jóias, dinheiro, moedas, papéis etc. Feitos de tecidos fortes, os embornais ficavam estufados com o conteúdo, implicando, com certeza, em considerável peso. Observando-se as fotografias em que os cangaceiros posavam com esses embornais, fica a impressão de que eles exteriorizavam a riqueza: quanto mais estufados, mais rico seria o seu portador. Por outro lado, lembravam uma canga, daí surgindo a denominação cangaço e todos seus derivados. Aqui no Sul os embornais seriam chamados de bocós.

APOIO POPULAR: COITOS E COITEIROS

A sobrevivência do cangaço, por outro lado, encontra explicação ou, pelo menos, uma delas, na circunstância de que contava com o apoio das populações rurais das regiões onde se desenrolava. Os cangaceiros famosos acabavam se tornando figuras admiradas pelo povo miúdo, a cujos olhos muitos deles apareciam como justiceiros que afrontavam um Estado injusto e incompetente, responsável pela miséria reinante e pelas gritantes desigualdades econômicas e sociais. Os cangaceiros, por sua vez, buscavam com empenho criar vasta rede de relacionamentos com pessoas poderosas, em cujo meio se encontravam os grandes coiteiros (*), e com o povo em geral, de cujo seio saíra a maioria deles. Graças a isso, obtinham apoio nos momentos cruciais, bem como a indispensável ajuda na aquisição daquilo de que necessitavam. Muitos coiteiros, vivendo isolados num meio rude, não tinham como se negar à ajuda, sob pena de sofrerem represálias. Nenhum movimento revolucionário, nem mesmo na forma arcaica do cangaço, consegue se manter e vingar sem a simpatia e o apoio popular. Essa condição foi sempre ressaltada pelos revolucionários, inclusive no Brasil. “A gente humilde das caatingas ainda tinha Lampião como um homem honrado, respeitador e bom para os pobres... O povo era aliado de Lampião” – palavras de um ex-coiteiro em depoimento aos autores (pág. 316).

SURGIMENTO E TÉCNICAS

O surgimento do cangaço se explica com facilidade. Voltado para o litoral, onde se acumulava o grosso da população, o Estado brasileiro pouco se importava com o hinterland, e isso acontecia em todas as regiões do país. Entregue à própria sorte, o interior se transformava em território livre para as investidas de aventureiros de todos os tipos. Inteligentes como eram, não tardaram a intuir da necessidade de se juntarem em bandos organizados, com regras, chefias definidas, sub-grupos, estratégias e táticas próprias. Passavam de simples arruaceiros a profissionais especializados. A guerra móvel, similar às guerrilhas, as emboscadas, os ataques pelos flancos e pela retaguarda, os truques para furar cercos e despistar os rastros, unidos ao perfeito conhecimento do palco de ação, tudo isso deixava aparvalhadas as forças policiais, muitas vezes despreparadas para o combate, quando não mais interessadas nos lucros obtidos com a “indústria do cangaço”. A divisão em sub-grupos, desfechando ataques simultâneos em lugares diferentes, dava-lhes a aura de ubiqüidade e contribuía para o surgimento das lendas que cercavam os bandos chefiados pelos grandes nomes do cangaço. O medo que provocavam nas pessoas pacíficas facilitava suas tropelias. “Ninguém ignorava o pavor que causava por toda parte a presença de Lampião. Em geral, quem tinha a infelicidade de se encontrar com semelhante fera procurava o melhor meio de bem tratá-lo” – escrevem os ensaístas (pág. 225). Daí a razão pela qual foram tantas vezes recebidos com festas, banquetes e rapapés em inúmeros lugares, passeando com liberdade pelas cidades, organizando bailes e comilanças (**).

NEOCANGACEIROS

O ingresso no cangaço, uma vez consumado, quase sempre se tornava irreversível. Desde então a família do neocangaceiro não tinha mais sossego. Os motivos para entrar nesse “mundo da espingarda” variavam, embora os mais constantes fossem a prática de crimes que geravam inimizades e perseguições, não deixando ao infeliz outra saída. Muitos se iniciavam por pura e simples vocação, aspirando a uma vida superior à miséria em que vegetavam. A admiração pelos cangaceiros famosos, seus trajes vistosos, sua postura exibicionista e arrogante de seres que estavam acima do bem e do mal influíam na decisão, em especial de jovens, muitos dos quais se iniciaram cedo nas lides do banditismo. Após o ingresso, depois do batismo de fogo, recebiam um apelido, e o senso moral aos poucos se embotava, tornando-os capazes das mais frias atrocidades. Atrás dessas alcunhas muitos deles se anulavam como personalidades, apagando para sempre o passado. A consciência aguda de que o caminho trilhado não tinha volta parecia aumentar sua sede de sangue e a ganância pela riqueza em forma de ouro, jóias e dinheiro que pudessem transportar. Tudo indica que não confiavam em ninguém para depositário de seus teres.

APAGANDO O PASSADO: A ALCUNHA

A maioria dos cangaceiros recebia ou adotava uma alcunha, quase sempre relacionada com suas características pessoais, habilidades ou fatos biográficos e que serviam como luva. O apelido, apagando o verdadeiro nome, contribuía para despistar inimigos e perseguidores. Alguns, no entanto, lutavam bradando o próprio nome aos quatro ventos, desafiando o mundo e arrotando valentia. Poucos continuavam a ser conhecidos pelos próprios nomes. Entre os numerosos apelidos referidos no livro, anotei os seguintes: Bom Deveras, Jararaca. Pai Véio, Zé Sereno, Gavião, Corisco, Manoel Toalha, Moderno, Cajueiro, Fortaleza, Gato, Umbuzeiro, Colchete, Jurema, Tempestade, Azulão, Musquêro, Caracol. Tempero, Chico Chicote, Bronzeado, Casca Grossa, Mormaço, João Cocó, Pinga Fogo, Mergulhão, Chumbinho, Mão Foveira, Navieiro, Volta Seca etc. O apelido de Lampião se devia à rapidez com que atirava, dando a impressão de um lampião que se acendia.
É interessante anotar que, apesar das brutais condições em que viviam, muitos cangaceiros tiveram “carreiras” mais longas que os gangsters norte-americanos em geral, como Dillinger, Pierpont, Bonnie e Clide etc., cuja sobrevivência em atividade foi de poucos anos, acabando presos ou mortos. Vários cangaceiros famosos permaneceram em ação por anos a fio e alguns até se “aposentaram”, retirando-se para lugares distantes, em Goiás, Minas Gerais, no Maranhão, em São Paulo e até no Sul do país, como Antônio Massilon Leite, que teria migrado para o Rio Grande do Sul. Na nova querência mudavam de vida, desaparecendo no anonimato.

LEIS RÍGIDAS E IMPLACÁVEIS – DESTINO DAS VIÚVAS

O mundo cangaceiro tinha suas leis, rígidas e implacáveis. Assim, por exemplo, a humilhação, por mínima que fosse, exigia vingança, e ela acabava acontecendo, mais cedo ou mais tarde. O mesmo se diga das traições, fossem das mulheres aos companheiros ou de coiteiros, amigos ou conhecidos. A vindita viria, infalível e brutal. Lampião desaprovava as costumeiras surras em homens desarmados. “Não é vantagem para um homem; vantagem para um homem é falar alto para outro homem armado!” – pregava ele (pág. 204). Existia ainda o “padre-nosso de Lampião”, ensinado quando o novato entrava no bando: desrespeito a moça de família amiga se punia com a morte, como aconteceu com o cangaceiro Sabiá (pág. 329). Algumas regras, no entanto, poderiam ser mais elásticas, dependendo das necessidades e circunstâncias.

As mulheres que viviam no bando, cujos maridos ou companheiros morriam em combate deveriam ser sacrificadas para “queima de arquivo”, prática que se repetiu com mais freqüência nos últimos tempos. No início algumas “viúvas” foram devolvidas às famílias. Depois, avaliando o perigo que constituiria a queda delas em mãos policiais, foram eliminadas sem piedade. Conhecedoras das minúcias da vida do bando, elas o deixariam em permanente risco. Mediante tortura, com certeza tudo revelariam. Narram os autores algumas execuções dessas infelizes. Durante muito tempo foi vetada a presença de mulheres nos bandos.

MEDICINA SERTANEJA

Para os casos de doenças e ferimentos os cangaceiros dominavam ampla “medicina sertaneja”. Conheciam as propriedades de ervas e os efeitos de seus chás e todo um instrumental rústico de cuidados para estancar hemorragias, evitar infecções, combater a dor e debelar outros males. “A medicina cangaceira era a mesma do imenso sertão ao redor: chás que serviam para tudo, garrafadas, emplastros, pimenta e sal soprados nos ferimentos com canudos de mamoeiro, balas extraídas a ferro quente, remédios da homeopatia primitiva, encontradiços nas boticas dos lugarejos, rezadeiras, dentistas autodidatas, cachimbeiras, quando o menino não queria nascer” – dizem os autores (pág. 39). Alguns cangaceiros se destacaram como competentes “médicos”.Em casos de maior gravidade, parece que sempre surgia um meio de ser examinado por médicos de verdade.

LAMPIÃO ENTRA EM CENA

Foi nesse meio fervilhante de cangaceiros que a figura de Lampião se impôs, entrando em cena para reinar durante 22 anos de “carreira”. Quando o célebre Sinhô Pereira, cangaceiro temido, decidiu mudar de vida, seu sucessor natural, reconhecido a una voce, foi Lampião, já integrante do bando e então com 25 anos de idade. A estréia do novo chefe ocorria em 1922, ano emblemático da história nacional, e ele logo se destacaria pela inteligência, liderança inconteste, frieza e crueldade.
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, nasceu em Serra Talhada (PE), em 7 de julho de 1897. Segundo a lenda, teria ingressado no cangaço para vingar a morte do pai, embora a verdade histórica revele o oposto, como mostram os ensaístas. Na realidade, o pai foi morto depois da entrada do filho no cangaço e justamente por esse motivo. A lenda, porém, se disseminou de tal forma que ainda hoje corre solta. Mais de 500 cangaceiros das mais variadas procedências, formações e temperamentos serviram sob seu comando ao longo desses anos. Com rara habilidade, conseguiu formar uma rede de “coiteiros” e “coronéis de barranco” que o apoiava de forma decisiva, fornecendo armas e munições em quantidade, além de mantimentos e proteção. Entre eles estava o célebre “coronel” Zé Pereira (Lima), chefe político de Princesa Isabel (PB) e que declarou a “independência” de seu município, instituindo a República de Princesa, de breve duração mas de repercussão nacional. Sobre ela o jornalista Joaquim Inojosa publicou um livro onde informava de sua participação no movimento sedicioso. A ligação de Lampião com Zé Pereira, no entanto, não se prolongou por muito tempo e se transformaram em inimigos rancorosos (***).

O CAPITÃO VIRGULINO

Em 1926 Lampião e seu grupo foram convidados a visitar Juazeiro do Norte, ocasião em que ele recebeu a patente de capitão e membros do bando receberam patentes de graduação inferior. Foram armados e municiados, passando a integrar os chamados “Batalhões Patrióticos” que deveriam combater a Coluna Prestes, embora Lampião nunca se defrontasse com a mesma. Numa atitude de incrível insensibilidade e reacionarismo, as autoridades preferiram se colocar ao lado dos maiores facínoras do sertão e contra os jovens idealistas que realizavam uma empreitada épica pela melhoria de nossos costumes político-administrativos. É verdade que esse ato custou caro, muito caro, tanto que os cangaceiros, agora armados até os dentes, com farta munição e armas modernas, se tornariam invencíveis, e o Padre Cícero Romão Batista morreu jurando não ser o autor da infeliz iniciativa, fato que tem provocado o gasto de muita tinta, sem uma conclusão definitiva. Para os ensaístas, no entanto, estão fora de dúvida a participação do “Padim” no episódio e sua bênção aos novéis “oficiais”.
No correr dos anos, entre vitórias e derrotas, Lampião perdeu os três irmãos cangaceiros – Antônio, Livino e Ezequiel. Foi em geral bem sucedido, ainda que tenha ficado manco em virtude de ferimento na perna direita. Entre seus ataques, na maioria positivos, sobressaiu-se um fracasso: a invasão de Mossoró (RN), maior cidade sertaneja da região, de onde se retirou para Pernambuco, cruzando três Estados e varando o mais árido da caatinga, perseguido por centenas de policiais de vários Estados. O malogro deixou profunda marca em sua alma de homem vaidoso e preocupado com a própria imagem. É verdade que ele realizou esse ataque à cidade potiguar algo contrariado. Suas incursões em regra visavam cidades onde apenas uma torre de igreja apontava para o céu, ao passo que Mossoró possuía quatro. . . As táticas de guerrilha, a chamada guerra móvel, os ataques pela retaguarda e pelos flancos, a divisão em sub-grupos, o despiste dos rastros, o perfeito conhecimento da região, a surpresa, as falsas fugas, os contra-ataques fulminantes, os informantes e a infiltração de “olheiros”, aliados à coragem sobre-humana e ao terror que provocavam permitiram carreira tão bem sucedida e longa.

PREMONIÇÃO DO FIM

Arguto como foi, Lampião pressentia que o progresso selaria o fim do cangaço. Transformou-se, por isso, em inimigo das estradas através das quais chegariam caminhões transportando numerosos “macacos” bem armados. Sempre que possível, procurava atrapalhar a construção de rodovias, amedrontando os trabalhadores e praticando violências contra alguns.

MARCA PESSOAL: CANGAÇO SEM ÉTICA

Lampião imprimiu marca pessoal no cangaço. Segundo os autores, com ele “muita coisa mudou no modus vivendi dos cangaceiros. Os punhais enormes, as bandoleiras enfeitadas com libras esterlinas, os chapéus enormes, ornados com estrelas e signo de Salomão, os dedos cheios de anéis, apurado gosto na confecção de luvas, lenços e embornais, vidros de perfumes baratos que eram usados em profusão para afastar o odor do suor e para agradar as mulheres que eram mimadas como princesas. Tudo isso trazia um pouco da marca pessoal de Lampião que não era um gênio somente no campo de batalha” (págs. 39/40). Tocava harmônica, realizava trabalhos em couro e “era metido a poeta”. Os cangaceiros foram exímios costureiros, atividade que exerciam com naturalidade.
 
Segundo os ensaístas, foi Lampião o iniciador da fase do “cangaço sem ética.” No seu reinado, dependendo da situação, valia tudo, inclusive o assassinato de mulheres, velhos e crianças, seqüestros, extorsões, torturas, castrações, estupros, saques e destruição de propriedades alheias. E de fato, os episódios relatados ao longo do livro, todos confirmados, são de arrepiar os cabelos. “Conotações de heroísmo”, “injustiça social” e a idéia de um “Robin Hood caboclo, que tirava dos ricos para dar aos pobres”, não passam de lendas sem base histórica – afirmam os autores (pág. 186). Pelo contrário, como rolo compressor, Lampião passava sobre tudo que se opusesse aos seus desejos.

A GROTA DO ANGICO E A TRAGÉDIA FINAL

Lampião foi morto na manhã do dia 28 de julho de 1938, na Grota do Angico (SE), aos 41 anos de idade. Nos últimos tempos, cercado e atacado por todos os lados, agia mais como “empresário do crime” que na linha de frente. O depoimento de Manoel Félix, último coiteiro, deixa a impressão de que o Rei do Cangaço estava cansado, descuidando da segurança e confiante em demasia. No local onde morreu só havia uma saída, circunstância que não aconselharia a permanência, ainda mais diante do alerta de outros cangaceiros sobre detalhe tão importante. Mas Lampião parecia ter baixado a guarda, atitude que lhe foi fatal, marcando a partida para o dia seguinte. Foi tarde demais.
Sua morte ecoou na caatinga e os sertanejos em geral não podiam crer que um “homem como aquele pudesse morrer assim” (pág. 363). Decorridos 66 anos de sua morte, a figura do Rei do Cangaço ainda intriga e fascina.  

A SECA DO JOÃO MIGUEL

Em 1931, acuado por Getúlio Vargas para dar fim ao cangaço, o interventor Juracy Magalhães urdiu um plano tão inacreditável quanto desumano: esvaziar os sertões, obrigando a população a migrar para as cidades, onde foi engrossar as favelas periféricas. As famílias foram instadas a apanhar o que pudessem, deixando tudo mais ao deus-dará. Esse plano insólito ficou conhecido como “seca do João Miguel”, recebendo o nome do oficial encarregado de sua execução. Entre dez e quinze mil sertanejos foram coagidos a abandonar terras, casas, roças e criações, transferindo-se para as cidades, onde muitos sobreviviam de esmolas. Imaginavam os mentores de tão estapafúrdio plano que esvaziando as caatingas, o cangaço morreria por ausência de apoio, mas o resultado foi o oposto: os sertanejos pobres voltaram miseráveis e o cangaço se banqueteou em liberdade com tudo que foi deixado (págs. 34 e 321).

O BANDO E O ESTADO-MAIOR
   
O estado-maior de Lampião sofreu inúmeras alterações. Muitos de seus integrantes ingressaram, saíram e retornaram; outros pertenceram a gerações diferentes, nem sempre se conheceram ou foram contemporâneos. Apesar dessas dificuldades, os autores rastrearam toda a história de Lampião e levantaram as biografias dos mais importantes. Em forma sintética, anotamos a seguir os elementos essenciais de cada um deles:
Antônio Ferreira (1895/1926). Irmão mais velho de Lampião. Homem sisudo, não ria e nem sequer sorria. Autêntica víbora. Morreu por acidente, numa brincadeira – um “sucesso”, na linguagem do cangaço.
Livino Ferreira, vulgo Vassoura (1896/1925). Também irmão do Rei do Cangaço. Tagarela e extrovertido, foi um indivíduo bruto e áspero no trato. Corajoso ao extremo, levava uma faca nos dentes na hora do ataque.
Antônio Matilde. Irmão bastardo do pai de Lampião. Esteve afastado do grupo e morreu em 1927.
Antônio Rosa, vulgo Antônio do Gelo (1897/1924). Alagoano. Valente e vaidoso. Foi morto pelas costas por Livino e Enéas.
Antônio Augusto Correia, vulgo Meia-Noite ou Bagaço. Alagoano. Valente e mau ao extremo, matou quando ainda era menino, Virou inimigo de Lampião. Morreu traído por um coiteiro.
Horácio Novaes, vulgo Horácio Grande (1891/ ? ). Misto de cangaceiro e policial; ora um, ora outro. Desapareceu para sempre sem deixar vestígios.
Sabino ou Sabino das Abóboras. Lugar-tenente de Lampião. Homem corajoso, violento e cruel ao extremo. Atarracado e feio, nada temia e praticou “um rosário de crimes.” Ferido, foi morto a seu próprio pedido e a sangue-frio, pelo cangaceiro Marguião (pág. 105).
Cícero Costa (de Lacerda - ? - 1924). Paraibano. Figura curiosa, de nível superior ao bando. Destemido e feroz na luta, matava com facilidade, embora se recusando a torturar, roubar e maltratar mulheres, idosos e crianças. Simpático, conquistava as pessoas com facilidade. Foi o “médico” do grupo, conhecendo os tratamentos e a farmacopéia do sertão. Parece que não foi sepultado, ficando seu corpo ao relento.
Os irmãos Marinheiros. Pernambucanos. Foram quatro, de gerações diferentes: Cassiano, José, André e Antônio. Os dois últimos abraçaram o cangaço a pretexto de vingar o assassinato dos irmãos. Entregavam-se à extorsão, ao rapto de moças e às ameaças. Fugiram para o Maranhão e desapareceram. “Nos sertões pernambucanos – ensinam os autores – diz-se marinheiro aquele cuja aparência física lembra os invasores holandeses que vieram pelo mar. Estatura elevada, cor branca, cabelos loiros, olhos azuis, características comuns a esses quatro irmãos bandoleiros” (pág. 137).
Mariano (Laurindo Granja – 1898/1937). Pernambucano. Fiel a Lampião, acompanhou-o tanto nos tempos bons como nos maus. Alegre, risonho, tocador de gaita. Não cometia atrocidades desnecessárias. Valente até o fim, morreu baleado e esfaqueado múltiplas vezes.
Os Marcelinos. Também irmãos: Manoel (Bom Deveras), João (Vinte e Dois), Raimundo (Lua Branca) e José, este último ladrão contumaz, fugiu para São Paulo. Cruzavam a Chapada do Araripe para o Ceará e Pernambuco, sempre acoitados por gente graúda. Vinte e Dois foi morto pela polícia e Lua Branca ferido e preso na mesma ocasião, assim como Manoel Toalha e Pedro Miranda, ambos do bando chefiado pelo primeiro. Também foram presos Joaquim e João Gomes, primos, acusados de coiteiros. No dia 5 de janeiro de 1928 os cinco foram levados ao lugar Alto do Leitão e sumariamente executados, depois de cavarem as próprias sepulturas (pág. 171).
Virgínio Fortunato da Silva (Moderno – 1903/1936). Cunhado de Lampião, nascido no Rio Grande do Norte. Educado, comedido, pouco falante. Foi o “capador oficial” do bando.
Ezequiel Ferreira (Ponto Fino – 1908/1931). Irmãos mais jovem de Lampião, morreu aos 23 anos de idade. Criou-se na malandragem de rua de Juazeiro do Norte (CE) e idolatrava o irmão, de quem foi a própria sombra. Tinha excelente pontaria e não foi sanguinário.
José Zeferino Andrelino dos Santos (Oliveira ou Alagoano - 1912 - ? ). Pernambucano. Cangaceiro-mirim, entrou no bando aos 14 anos, sendo considerado uma espécie de filho por Lampião. Muito malvado na juventude, ficou famoso pelas crueldades praticadas. Deixou o bando em 1928 e cumpriu pena de prisão. Em 1984 ainda vivia, quando foi entrevistado pelos autores, descrevendo o ambiente do cangaço e as chegadas do bando nas cidades daquela época. Participou da frustrada invasão de Mossoró (págs. 196 e 198).
Antônio Massilon Leite (Benevides). Nascido no Rio Grande do Norte, fôra pistoleiro profissional e já chegou ao Ceará com 26 mortes nas costas. Atirador exímio, foi um cangaceiro sofisticado, usando bússola na caatinga, andava sempre bem trajado e sabia dirigir veículos. Um dos idealizadores do assalto a Mossoró, dele participou, no dia 13 de junho de 1927, quarta-feira, por volta das 16:00h. Repelido pela população enfurecida, o bando se retirou para o Pajeú, numa marcha inacreditável através da caatinga. No ataque morreu o cangaceiro Colchete e Jararaca, ferido, foi preso e consta que teria sido sepultado vivo. Deixando o bando, Massilon se entregou a assaltar fazendas e parece que foi bem sucedido. Com o dinheiro, fugiu para o Rio Grande do Sul, onde teria mudado de nome e ingressado na polícia, chegando a oficial. Nos anos 50 foi visto no Nordeste, bem trajado e elegante, num caminhão novo, de sua propriedade, com motorista particular. Visitava parentes e amigos no Ceará e dizia residir em algum recanto do Brasil Central (págs. 110 e 235).
José Leite de Santana (Jararaca – 1901/1927). Nascido em Buíque (PE), foi soldado da polícia e do exército, tendo andado pelo Sul e participado da Revolução Paulista. Voltando à terra natal, formou o primeiro grupo e iniciou a “carreira”. Foi ferido e preso no assalto a Mossoró, onde acabou executado.
Antônio Francisco (Moreno). Pernambucano. Irmão de um dos matadores de Delmiro Gouveia. Em 1938, ao saber da morte de Lampião, fugiu para o Maranhão e nunca mais se soube dele.
Cristino Gomes da Silva Cleto (Corisco ou Diabo Louro – 1907/1940). Muito famoso, foi o derradeiro dos grandes chefes. Virou verdadeiro carrasco, embora às vezes revelasse um lado bom. Em virtude de ferimentos, ficou aleijado de ambos os braços, incapacitado para o manejo de armas longas. Nunca se entregou.
Os Engrácias. Família baiana, teve vários membros envolvidos no cangaço. Foram eles:
Antônio de Engrácia (1897/1930). Cangaceiro garboso, rival de Lampião, foi assassinado pelo próprio irmão, Cirilo. Era considerado um dos dez maiores cangaceiros existentes.
Cirilo de Engrácia (Véio Cirilo - 1890/1935). Com o assassinato do irmão, ficou marcado para sempre. O crime foi escondido pelo bando por muito tempo.
Manoel Moreno (Bentevi – 1905/1937). Sobrinho de Antônio e Cirilo. Preguiçoso e covarde, gostava de perfumes, danças e mulheres. Um bon vivant das caatingas.
Aleixo, vulgo Zé Baiano (  ? – 1936). Sobrinho de Antônio e Cirilo. Indivíduo perverso, sádico e tarado, estuprador sistemático. Marcava as pessoas a ferro e usava uma palmatória a que chamava “Boneca de laço e nó”, com a qual aplicava “bolos” nas mãos das pessoas.
José Ribeiro Filho (Zé Sereno – 1913/1981). Sobrinho de Antônio e Cirilo. Esteve com Lampião em Angicos. Conseguiu escapar ao massacre e fugiu para São Paulo, onde viveu recolhido, quieto e até respeitado pelos conhecidos.
Esses foram os Engrácias, célebres e temidos.
Mariano Barbosa da Silva (Azulão – 1911/1933). Baiano. Foi o terceiro com a mesma alcunha, mas não o último. Decepada, sua cabeça foi levada para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador (BA).
Ângelo Roque da Costa (Labareda ou Anjo Roque – 1899 - ?). Pernambucano. Entregou-se à polícia e ainda viveu muitos anos.
Luiz Pedro (Cordeiro – c. 1910/1938). Permaneceu cerca de quinze anos com Lampião. Em acidente, matou Antônio Ferreira, irmão do Rei do Cangaço, mas foi perdoado por este, reconhecendo que fôra um “sucesso”. Fiel extremado ao chefe, morreu com ele em Angicos.

FIGURAS SINGULARES

Resta uma palavra sobre três personagens envolvidos com o cangaço e que ficaram na história. O primeiro foi o Padre José Furtado de Lacerda, mais conhecido como Padre Lacerda, da Vila do Coité. Segundo os autores, ele “achava que a vontade de Deus vez por outra precisava da ajuda das armas para ser cumprida. Muito valente, andava sempre armado e cercado de homens de sua confiança” (pág. 124). Chegou a ser atacado por bandos de cangaceiros, travando-se violentos tiroteios que deixaram sua casa perfurada pelas balas. Antônio Teixeira Leite (Antônio da Piçarra – 1855 - ? ). Foi o mais conhecido coiteiro de Lampião no Cariri Cearense. Vivendo isolado em meio à caatinga, esse fazendeiro alegava que não teria como negar ajuda ao cangaceiro sob pena de implacáveis represálias. Entrevistado pelos autores, muito colaborou com eles. Odilon Flor, o Nazareno (nascido em Nazaré, hoje Carqueja), perseguidor implacável de Lampião e colaborador de quantos procuraram o cangaceiro, morreu frustrado pela ausência de reconhecimento de seu trabalho e pela traição da “volante” que eliminou o Rei do Cangaço (págs. 358/359).

COMPARAÇÃO IMPRÓPRIA

Por fim, uma palavra a respeito da confusão que tantas é feita entre Cangaço, Canudos e Contestado.Embora fossem revoluções populares arcaicas, denunciando estruturas injustas e omissão de qualquer assistência, Canudos e o Contestado foram movimentos messiânicos, características que o Cangaço não teve. Embora este último, em certa fase, contasse com o apoio do Padre Cícero Romão Batista ao grupo de Lampião, apenas isso não lhe confere índole religiosa ou mística. Foi o Cangaço uma espécie de banditismo organizado sem similar no país ou no mundo. Mas os três acontecimentos espelhavam o mal-estar social diante da miséria, da injustiça, do abandono e da incompreensão. Contasse o país com governantes mais sensíveis e todos eles, com seus horrores, poderiam ter sido evitados. Acabaram ficando como manchas indeléveis de nossa civilização.
  
(*) Segundo os dicionaristas, coiteiro é o indivíduo que dá asilo a bandidos ou os protege. Coito é o local onde se escondem.
(**) Em um de seus romances memorialistas, o escritor piauiense J. P. de Lima Cordão relata a tranqüilidade com que o cangaceiro Antônio Silvino passou vários dias numa pequena vila, revelando sentir-se em casa, com total segurança. O aparecimento repentino do cangaceiro, um dos “donos do sertão”, provocava medo e curiosidade. Labioso e vestido de forma aparatosa, destoante da pobreza geral, sua presença agitou a vila nos quatro dias em que lá esteve. Após sua partida, sobreveio o receio da “volante” que poderia estar no seu encalço. Elas podiam ser tão violentas quanto os cangaceiros (“Muquém”, Edição do Autor – Teresina – 1996). Analisei esse livro em “Fazer o Piauí”, B. Camboriú, Editora Minarete, 2000. 
(***) “República de Princesa – José Pereira x João Pessoa”, de Joaquim Inojosa, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira/MEC, 1980; “A Revolta de Princesa – Poder Privado x Poder Instituído”, de Inês Caminha L. Rodrigues, S. Paulo, Editora Brasiliense, 1981; “Presença de Inojosa”, de Enéas Athanázio, ensaios, Blumenau, Fundação Casa Dr. Blumenau/Gráfica 43, 1985.  

B. Camboriú, 14 de dezembro de 2004
http://www.riototal.com.br/coojornal/eneasathanazio155.htm


Links dos artigos que você não os leu


http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/gingas-do-brasil-maria-bonita-rainha-do_25.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/gingas-do-brasil-maria-bonita-rainha-do.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/o-beneficio-da-leitura-na-formacao-do_25.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/joao-saturnino.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/brisa-lilas-poesia.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/amigos-mais-que-importantes-cronica.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/o-beneficio-da-leitura-na-formacao-do.html
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/as-cores-na-rampa-e-na-base-de.html 
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/padre-cicero-romao-batista.html      
http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2012/01/certidao-de-nascimento-de-lampiao.html