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domingo, 16 de setembro de 2012

ENCONTRO DO CORONEL E DO CANGACEIRO

Por: Rostand Medeiros

Lampião e seu bando, depois de vários anos atuando nos sertões dos estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte, passaram a sofrer uma grande perseguição dos aparatos policiais destes estados.

Jornal recifense “A Província”, edição de sexta feira, 28 de agosto de 1928, 1ª página.

Ciente da perseguição que as volantes infligiam a seu debilitado grupo, Lampião precisava de repouso para repor as energias, recrutar novos homens e procurar novas áreas de atuação. Nesse sentido, em agosto de 1928, ele resolveu atravessar o grande Rio São Francisco e se internar nos sertões baianos.

Em um primeiro momento, buscando refúgio nas fazendas de novos amigos, Virgulino Ferreira da Silva, o nome real do “Rei do Cangaço”, encontrou nestas paragens a almejada paz para recompor suas forças.

Primeiramente a polícia da Bahia fez vista grossa em relação ao ilustre visitante. Lampião aproveitou para firmar contatos, compor alianças, ampliar sua rede de coiteiros que lhe dariam apoio e proteção.

Propalou que estava “em paz” no território baiano, utilizava a velha cantilena que “havia entrado no cangaço pelos sofrimentos sofridos pela sua família” e que se “houvesse condições”, ele largaria aquela vida em armas e buscaria ficar em paz.

Mesmo divulgando estas novas intenções, não deixou de coagir os fazendeiros baianos, pedindo para estes lhe “ajudar” no sustento do seu bando.

Lampião e seu equipamento – Fonte – http://www.joaodesousalima.com/2010/04/lampiao-rei-do-cangaco.html

E assim, ao seu modo, durante quase três meses, Lampião e seus cangaceiros viveram tranquilos junto ao povo do sertão da “Boa Terra”.

FOTO FAMOSA

Sua primeira aparição pública ocorreu na antiga vila do Cumbe, atual município de Euclides da Cunha, em um sábado, dia 15 de dezembro de 1928.

Ali não houve alterações. Mas o chefe não deixou de fazer uma arrecadação pecuniária com os abonados do lugar e chegou até mesmo a almoçar e beber cerveja com o delegado. A tranquilidade era tanta que deu até para alguns alfaiates do lugar confeccionar novos uniformes para seus homens.

Depois do Cumbe os cangaceiros seguiram para a cidade de Tucano, onde novamente nada de anormal ocorreu. Ali os bandoleiros das caatingas chamaram a atenção de todos, tratavam todos bem e foram bem acolhidos pelos moradores.

Mercado Público de Ribeira do Pombal na década de 1950.

Para Oleone Coelho Fontes, autor de “Lampião na Bahia” (4ª Edição), após a estada em Tucano, o chefe cangaceiro e seus homens, seguiram em direção nordeste, por cerca de 40 quilômetros, até a vila, atualmente município, de Ribeira de Pombal, já próximo a fronteira sergipana. Para este deslocamento consta que Lampião obrigou o padre de Tucano a ceder o seu carro e um motorista.

Segundo o pesquisador baiano, o chefe e mais sete cangaceiros chegaram ao lugarejo às seis da manhã do domingo, 16 de dezembro. Os moradores locais sabiam através da passagem de viajantes, que Lampião encontrava-se em Tucano e que certamente logo chegaria a Pombal.

O intendente local era Paulo Cardoso de Oliveira Brito, mais conhecido como Seu Cardoso, e foi ele quem recebeu Virgulino e seus homens.

Foi ofertado café a todos os bandoleiros e Lampião avisou que não queria brigar com os poucos policiais que estavam de serviço no lugarejo, comandados pelo cabo Esmeraldo. Com a boa hospitalidade oferecida, Lampião se sentiu a vontade e logo procurou saber se havia um fotógrafo no lugar.

A famosa foto de Lampião e seu bando, batida por Alcides Fraga em Ribeira do Pombal e divulgada na edição de quarta feira, 30 de janeiro de 1929, no jornal carioca “A Noite”. Coloquei a notícia na íntegra para que seja visto e analisado o cangaceiros ali nomeados.

Foi chamado Alcides Fraga, alfaiate e maestro da Filarmônica XV de outubro, que prontamente bateu uma chapa. Esta é uma das mais célebres fotografias do ciclo do cangaço, que inclusive circulou com destaque em jornais do Rio de Janeiro, em janeiro de 1929.

Por volta de oito horas da manhã o bando saiu da vila, acompanhados do cabo Esmeraldo, partindo em direção destino ao município de Bom Conselho, atual Cícero Dantas, 30 quilômetros em direção nordeste.

Bom Conselho, atual Cícero Dantas, na década de 1950.

A chegada dos cangaceiros ocorreu em um dia de feira, com o cabo baiano já rouco de tanto gritar: – Viva Lampião! – Viva o Capitão Virgulino!

Apesar deste detalhe, a única outra alteração praticada pelos cangaceiros, foi terem se apoderado dos fuzis dos quatro soldados da polícia baiana destacados no lugar.

Após saírem de Bom Conselho, ainda motorizados, o bando seguiu em direção mais ao norte, cerca de 40 quilômetros, para um pequeno aglomerado de casas denominado Sítio do Quinto.

A hora exata que os facínoras chegaram de caminhão a esta localidade não sabemos, mas lá onde procuraram a casa de José Hermenegildo.

Por volta da meia noite de 16 para 17 de dezembro de 1928, um pequeno automóvel modelo Ford, que transportava três homens, também chegou ao mesmo lugar.

AO ENCONTRO DO PERIGO

Enquanto Lampião e seus homens passavam por Pombal, Bom Conselho e chegavam a Sítio do Quinto, da cidade baiana de Jeremoabo, cerca de 50 quilômetros ao norte, partia um automóvel conduzindo três homens, entre estes estava um dos mais importantes coronéis do interior baiano.


Este era João Gonçalves de Sá, referência regional, prestigiado líder político e rico proprietário de muitas fazendas com grande extensão territorial, que englobava muitos dos municípios da região Nordeste da Bahia. Naquele dezembro de 1928 o coronel João Sá exercia os cargos de presidência da Intendência de Jeremoabo e, pela segunda vez, o mandato de deputado estadual pelo legislativo baiano.

Junto ao coronel João Sá seguia seu pai Jesuíno Martins de Sá e um dos secretários da Intendência de Jeremoabo, o jovem José da Costa Dórea. O destino de todos era Salvador, onde o trajeto naquele tempo exigia seguirem pelo território sergipano e depois todos continuariam o trajeto por via ferroviária, utilizando os trens da ferrovia conhecida como Leste Brasileira.

Segundo nos conta Oleone Coelho Fontes, no capítulo 5 do seu livro “Lampião na Bahia”, através de extenso relato descritivo feito por Dórea (e até hoje, aparentemente, inédito na sua íntegra), devido a um problema mecânico no automóvel, a viagem foi realizada a noite, tendo a saída ocorrido às seis horas.

Mesmo sabendo que o grupo de Lampião circulava pela região, o coronel Sá confiou que guiando durante grande parte da noite, seguindo pelas antigas estradas poeirentas da região, eles poderiam passar despercebidos pelo bando.

Ao realizarem uma parada para tomar café na fazenda Abobreira, o medo de um encontro com Lampião e seus cangaceiros se tornou mais real, pois o proprietário do lugar, José Saturnino de Carvalho Nilo, confirmou que eles estavam nas redondezas. Mesmo assim seguiram adiante, em direção ao lugarejo Sítio do Quinto.

Já na edição do dia 30 de dezembro de 1928 do jornal carioca “A Crítica” (cujo proprietário era o pernambucano Mário Rodrigues, pai do dramaturgo Nelson Rodrigues), na sua página 5, encontramos um relato inédito sobre o encontro do coronel João Sá com Lampião e seus homens.



Nas duas descrições desta aventura, consta que os viajantes de Jeremoabo, ao entrarem no pequeno arruado, viram diante de uma casa um veículo parado, com alguns homens ao seu redor.

A reportagem do jornal carioca informa que um deles estava com um candeeiro. O coronel João Sá imaginou que a casa onde o veículo e os homens estavam deveria oferecer algum tipo de apoio aos viajantes.

Após brecarem, os passageiros do Ford foram cercados por homens armados e intimados a informarem quem eram. Após isso o coronel João Sá descobriu que estava diante do cangaceiro Lampião. E como para confirmar, o homem armado aproximou o candeeiro de seu rosto, mostrando a característico defeito em seu olho.

MOMENTOS ENTRE O CORONEL E O CANGACEIRO

Em um primeiro momento o medo e o pavor com o que iria acontecer tomou conta dos viajantes, mas o chefe cangaceiro, prontamente lhes garantiu que nada de ruim lhe aconteceria.

Conduzidos por Lampião e seus homens, todos entraram na casa de José Hermenegildo e foram se acomodando em cima de sacos de algodão e de peles de animais, que na época era um produto mais fácil de encontrar no sertão e tinha mercado nas capitais.

O informante Dórea afirma que em certo momento Lampião chamou o coronel João Sá para uma conversa particular na parte de fora da casa, fato que o deixou assustado, imaginando que o chefe político de Jeremoabo seria fuzilado. Mas nada aconteceu.

Enquanto isso Dórea e Jesuíno Martins de Sá, então com 76 anos, entabulavam conversa com alguns cangaceiros, entre estes o irmão do chefe, Ezequiel, conhecido pela alcunha de Ponto Fino. Dórea afirmou que o coronel João Sá não transportava dinheiro vivo, apenas ordens bancárias, assim este lhe chamou fora da casa e lhe solicitou 200$000 réis para dar a Lampião. Este por sua vez deixou que os viajantes do Ford escrevessem cartas as suas famílias, que um portador levaria as missivas para Jeremoabo.


As duas versões apontam que em dado momento a tensão se desvaneceu e o clima ficou mais tranquilo.

Segundo o coronel João Sá observou, e assim ficou registrado no jornal carioca, os cabelos do chefe cangaceiro chegavam aos seus ombros, seu uniforme de mescla azul se mostrava já bastante gasto e Lampião trazia um semblante abatido.

Na sequência Lampião pediu a José Hermenegildo que colocasse três redes para acomodar a ele, ao coronel e a seu pai no mesmo quarto. Neste momento o líder político do Nordeste da Bahia pediu ao maior cangaceiro do Brasil que narrasse a epopeia de sua vida. Lampião descreveu as perseguições que sofreu ao longo da vida como bandoleiro das caatingas, mas que estava “a fim de descansar” no sertão baiano.

O coronel João Sá descreveu nas páginas de “A Crítica” que depois das narrativas feitas por Lampião, este foi dormir. Mesmo com a vida atribulada que levava, em meio a tantos combates e com tantas mortes nas costas, o coronel descreveu que o chefe cangaceiro dormiu um “sono profundo”. Mesmo estando em companhia de estranhos “adormeceu como um justo”. Logo todos os homens, “cavaleiros e salteadores”, como descreveu a reportagem, dormiram “confiantes e tranquilos”.

NO “TRANCO”

No capítulo 5 do livro de Oleone, o texto em que José da Costa Dórea conta este episódio sobre Lampião, este afirma que foi ele quem fez a solicitação para que o chefe cangaceiro narrasse a sua vida e que anotou tudo em um bloco escolar.

O livro de Oleone Coelho Fontes, “Lampião na Bahia”. Para mim esta é uma das obras mais inspiradoras e interessantes sobre o tema cangaço.

Segundo a opinião do autor de “Lampião na Bahia”, esta entrevista é seguramente a mais longa que o “Rei do Cangaço” fez em toda a sua vida e que seria parte integrante de um livro de Dórea intitulado “Vida e morte do cangaceiro Lampião”. Vale ressaltar que Oleone Coelho Fontes informou em seu livro possuir os originais deste material, mas que, salvo engano, até o momento continua inédito.

Nas páginas de “A Crítica”, nos primeiros albores da manhã, após o despertar, o coronel João Sá comenta a Lampião que na condição de deputado estadual teria de informar as autoridades sobre aquele encontro. Consta que Lampião não se alterou com as palavras do político baiano.

Quando o coronel deu na partida do seu automóvel, provavelmente devido ao frio noturno do sertão, a máquina não pegou. Na mesma hora, vários comandados de Lampião deram uma mãozinha ao coronel João Sá, empurrando o carro que pegou no “tranco” e estes seguiram viagem.

SIMPATIA OU NECESSIDADE?

Dali Lampião continuaria seu caminho pela Bahia e logo a sua lua de mel com os habitantes daquele estado estaria encerrada. O fato se deu com o combate ocorrido no lugar Curralinho, no dia 28 de dezembro de 1928, onde foram mortos o sargento José Joaquim de Miranda, apelidado “Bigode de Ouro” e os soldados Juvenal Olavo da Silva, e Francellino Gonçalves Filho. Depois destas primeiras mortes na Bahia, Lampião e seus homens, ainda no primeiro semestre de 1929, cobrariam um alto preço a polícia baiana. Logo veio o combate do Arraial de Abóbora, em Jaguarary, hoje povoado de Juazeiro, ocorrido no dia 7 de janeiro e que ocasionou a morte de dois soldados. Depois veio Novo Amparo, no dia 26 de fevereiro de 1929, com a morte de mais outros dois soldados. Ainda no primeiro semestre de 1929 temos o sangrento combate do Brejão da Caatinga, município de Campo Formoso, no dia 4 de junho, com a morte de um cabo e quatro soldados.

Quanto ao coronel Sá e sua família, segundo Oleone Coelho Fontes afirma em seu livro (Pág. 39), enquanto Lampião na Bahia jamais ocorreu nada com suas terras e seus protegidos. O pesquisador afirma que, fosse por simpatia, ou por necessidade de preservar seus bens, ou por ter vislumbrando vantagens outras nesta aliança com o grande cangaceiro, o coronel Sá se tornou um dos mais importantes protetores de Lampião na Bahia.

E tudo aparentemente começou naquele encontro divulgado até em jornais cariocas.

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 Extraído do blog "Tok de História" do historiógrafo e pesquisador do cangaço: Rostand Medeiros



1938 - Angico


Autor: Paulo Medeiros Gastão


E Lampião de "A a Z"

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AS ORDINÁRIAS (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

AS ORDINÁRIAS

Muita coisa na vida é costumeira demais, é usual, é vulgar, acontece sempre do mesmo jeito, não apresenta novidade alguma no seu modo de ser e fazer. Por isso mesmo que é ordinário, de baixa qualidade, algo que não mereça maior importância.

Muita gente na vida faz tudo para continuar no patamar da desimportância, ou quando aparece é para negativar ainda mais o seu nome. Não pratica nada de útil, diferenciado, que chame atenção pela qualidade positiva e possibilite uma boa reflexão. Por isso mesmo que é uma gente ordinária, reles, apenas estando sem ser.


Muito homem e muita mulher vivem como adeptos da mediocridade, sem jamais ter praticado nada que seja proveitoso. Quando olhares são lançados na sua direção é no sentido de avistar ali pessoas preguiçosas, mentirosas, falsas, desprezíveis na vida em sociedade. Por isso mesmo que tais homens e mulheres são tão ordinários, pois vivendo às margens de aceitáveis conceitos sociais.

Contudo, dificilmente serão encontradas pessoas que queiram ou aceitem ser vistas como ordinárias, ou mesmo que não reclamem ou se contraponham às insinuações pejorativas feitas a seu respeito. Não lutam para mudar sua situação, para serem vistas noutras condições, mas batem o pé quando se sentem inferiorizadas, mesmo que nenhuma valia tenha as insurgências.

Mas nem tudo acontece assim, pois existe uma classe de mulheres que parece até lutar para serem vistas como absolutamente ordinárias. Extraordinariamente ordinárias, melhor dizendo. Homens existem, e na mesma proporção, que também são assim, mas uso esse recorte do sexo porque no masculino não são geradas as mesmas consequências observáveis quando se trata do feminino.

Como afirmado, mulheres existem cujo caráter de ordinariedade parece ser usufruído como a bela roupa que se veste para os olhos dos outros. Revestem-se de tal forma da erotização, das inconveniências sociais, do despudoramento, da pecaminosidade e do afloramento sexual, que até a família – que sempre é a última a querer enxergar – não pode deixar de reconhecer e lamentar a perda da bela para o mundanismo.

De antemão, afirme-se que não se trata aqui de citar a ordinariedade feminina como sinônima de prostituição, putanismo, raparigagem. Ora, na maioria das vezes a prostituição é uma condição assumida, vivenciada no cotidiano das alcovas escondidas ou nos meretrícios, mas o mesmo não acontece com a outra classe aqui citada. E não acontece porque as ordinárias não fazem sexo por dinheiro, não fazem programas, não arrumam machos pelas esquinas por profissão.

Verdade é que as ordinárias possuem características muito próprias. São mocinhas bonitinhas, alegres, espevitadas, requebrosas, com olhares de incessantes flertes. Mas até aí tudo dentro da normalidade cotidiana. Contudo, não conseguem namorar firmemente com qualquer rapaz porque sua fama não é a de dama, senão a da cama. Assim, qualquer um que se aproxime já chega querendo tirar algum proveito sexual. Foi assim com um, que abriu a boca para o outro, e de repente a fama é a da lama.

Portanto, as ordinárias são daquelas que nem precisam saber do nome de quem lhe lança o olhar. Sem demora e já estarão pelos fundos, pelos quintais, pelas camas de capim, dentro dos automóveis, nas camas debaixo da lua. São festeiras, geralmente bebem e fumam, e não sentem qualquer dificuldade em beijar bocas estranhas, entregar-se às lascívias em todo canto, ser mais fácil do que o próprio homem imagina.


Passa toda perfumada, apertadinha, requebrando e usa uma tática já conhecida desde os tempos mais antigos, e que na sua pouca imaginação acha que dá resultado: não aceita que a chame de quenga, prostituta ou rapariga. Também não precisa, pois a maioria dos rapazinhos já conhece a frente e o verso daquele corpo deveras atraente e encantador. E assim vai levando os seus dias se potencializando na força atrativa que provoca, ficando com um e com outro, baixando de nível nas escolhas feitas, até chegar o dia do inadiável reconhecimento: a ordinária já é de qualquer um que lhe pague, já faz programa, já faz vida no cabaré.

E tudo acontecesse assim, num percurso de descuidado afloramento sexual, até o momento em que o corpo, já marcada de tantas batalhas sexuais, não quer mais fugir da luta, abandonar o campo de batalha. E a saga das ordinárias passa a se confundir com a mesma saga das prostitutas de beirais estradeiros.

(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com


sábado, 15 de setembro de 2012

Para quem não o leu ainda ... E de onde vem Dadá?

Por Manoel Severo
Daniele Esmeraldo e Manoel Severo

Todos conhecem a fantástica história de uma das mais destacadas mulheres do cangaço, nomenclaturada como a "número 2" dentro da hierarquia feminina cangaceira: A senhora Sérgia Ribeiro da Silva, a Sussuarana que não tinha medo de nada e que era a única dentre todas as mulheres do cangaço, que realmente empunhava o fuzil ou a mauser, pronta para a batalha, nossa famosa Dadá. Mas, todos sabem qual a origem do nome Dadá? Vamos recorrer ao escritor Antônio Amaury em seu livro "Gente de Lampião - Dadá e Corisco"...


"Outra ocasião Corisco está com Ferrugem quando passa Sérgia. O cabra olha e se lembra: - A sussuarana é paricida cuma noiva qui eu tinha. Era bunita , o nome era Darvina, mas a gente chamava ela di Dadá"

Dadá... Dadá. É assenta bem


Desse dia em diante, para todo o sempre, ninguém mais chamou Sérgia pelo nome, nem pelo apelido de Sussuarana. Ficou sendo Dadá."

Fonte:
"Gente de Lampião - Dadá e Corisco" - Antônio Amaury Correa de Araujo

Pois sim, a origem de um dos nomes mais famosos do Cangaço, a valente Dadá, se deu a partir do nome de uma namorada de um dos cabras do grupo do Capitão Corisco, Ferrugem, a jovem sertaneja Darvina, que certamente nunca soube que foi na verdade, a "musa inspiradora" do nome que viria a marcar a presença da mais valente cangaceira de que se tem notícia; Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá de Corisco.


Manoel Severo

Fonte: 


Os últimos cangaceiros - Apenas restam três


Manoel Dantas Loyola, o cangaceiro Candeeiro, hoje é mais conhecido como Seu Né. Com a saúde debilitada e dificuldades de fala, ele, que tem 96 anos, lembra de quando entrou para o bando de Lampião ainda adolescente e que o apelido de "Candeeiro" lhe foi dado pelo rei do cangaço devido à energia e disposição apresentados pelo jovem cangaceiro. Ele esteve em Angicos (AL) e sobreviveu por um golpe do destino.


Segundo o escritor e pesquisador do cangaço João de Sousa Lima, José Alves de Matos, o cangaceiro Vinte e Cinco, reside em Maceió, Alagoas. Funcionário público aposentado e é dono de uma mente brilhante, relembrando seu passado com detalhes vividos nas caatingas.


 
Da esquerda para direita: Dulce, Dona Dil (sobrinha) e Cicera ( irmã de Dulce), que faleceu recentemente, próxima a completar 103 anos de vida, e o escritor João de Sousa Lima. Foto (do acervo do escritor)

A cangaceira Dulce foi uma das sobreviventes de Angico, e hoje reside em campinas, São Paulo. Na foto, da esquerda para direita: Dulce, Dona Dil (sobrinha) e Cícera (irmã de Dulce), hoje com 102 anos de vida. Reside em paulo Afonso.

João Ferreira da Silva - suposto filho de Lampião e Maria Bonita



Segundo alguns pesquisadores do cangaço João Ferreira da Silva, conhecido por João Peitudo, ganhou fama quando disse ser filho de Lampião e Maria Bonita. 


Após dois exames de DNA, constatou-se que não era verdade. João Peitudo faleceu com 62 anos de idade, morte natural, no dia 26 de Junho de 2000, em Juazeiro do Norte, a 563 quilômetros de Fortaleza.

É claro que ele se dizia ser filho de Lampião e Maria Bonita, não criado por ele, mas, lógico, a afirmação deve ter saído da boca de quem o criou. 

Sem essa afirmação, jamais o João Peitudo iria se considerar filho dos reis do cangaço.

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TENENTE João Bezerra



João Bezerra, o tenente pernambucano, delegado da cidade alagoana de Piranhas, foi o depositário dos louros pelo assassinato histórico do maior de todos os cangaceiros. 


Depois do ocorrido, João Bezerra escreveu o livro Como dei cabo de Lampião, mas deixou inacabadas suas memórias. Ele relatava com satisfação como cortou a cabeça de Maria Bonita, ainda viva, agonizando depois dos muitos tiros que recebeu. Conta-se também, que Bezerra era coiteiro de Lampião, fornecendo armas para contrabando.

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Combate de Serra Grande (PE).



Em 26 de novembro de 1926 Lampião travou uma das mais intensas batalhas. Cerca de 320 policiais atacaram o grupo de Lampião que contava com 80 homens. A luta durou o dia inteiro e teve como saldo 47 soldados mortos e feridos. Um dos comandantes, sargento Arlindo Rocha, ansioso para atacar disse: “Eu hoje quero almoçar é bala.” Acabou levando, durante o combate, um tiro na mandíbula. De fato, almoçou bala... Ficou conhecido posteriormente como “Queixo de Prata”.

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Cangaço: fotografia de cabeças degoladas

Por: João de Sousa Lima(*)
[joao_Efeito1.jpg]

Volante policial  ao lado de três cabeças de cangaceiros.


A degola era comum entre os policiais, tanto para comprovar as mortes dos cangaceiros quanto para assegurar o ganho de patentes na hierarquia militar.


(*)Escritor, Pesquisador, autor de 09 livros. membro da Academia de Letras de Paulo Afonso e da SBEC- Sociedade Brasileira de estudos do Cangaço. telefones para contato: 75-8807-4138 9101-2501 email: joaoarquivo44@bol.com.br joao.sousalima@bol.com.br

MEU RETIRO NO MONTE SAH’Y (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

MEU RETIRO NO MONTE SAH’Y

Por toda minha vida vivi planejando um dia criar coragem, arrumar a velha mochila de partida e seguir adiante, curva a curva, uma após outra, até pegar o rumo certo do Monte Sah’y.

A primeira vez que ouvi falar desse monte sagrado foi através do sábio do entardecer. Na luz avermelhada da tarde indo embora, a cada novo por do sol ele me segredava uma palavra acerca desse misterioso e venerado lugar.

Mas certa feita, juntando palavra a palavra, e quando meus olhos se apertaram para avistar o fogo vermelho-amarelado da tela lá em cima, descortinei o lugar do monte e qual caminho que deveria percorrer para chegar até o seu cume.


Isso já faz mais de duzentos anos, e todo esse tempo passei me preparando para o grande dia da partida. Foi um processo muito longo e meticuloso porque ouvi o sábio da manhã, que me ensinava a caminhar sempre após o anoitecer; e o sábio do anoitecer, que me ensinava a caminhar sem temer os espinhos na estrada nem os labirintos ao redor.

Quando me decidi de vez que já havia chegado o momento da partida, eu já contava com mais de trezentos anos. Com toda essa idade bíblica, mas ainda assim me achando forte o suficiente para caminhar léguas a fio, levando pouca comida e pouca água, e ainda assim fazer valer a minha fé e alcançar o cume do monte sagrado.

Desde os tempos mais antigos, ainda nas vizinhanças da criação, os velhos pastores, errantes, andarilhos e pagadores de promessas, já falavam coisas extraordinárias sobre o Monte Sah’y. Uns diziam estar ali o verdadeiro altar do céu, outros afirmam ali voz silenciosa da sabedoria, e ainda outros afirmavam acerca da imensa igreja ali construída, mas que somente alguns podiam sentir estando dentro dela.

Quando comecei a planejar tão árdua e difícil viagem, todos aqueles que viviam ao meu redor gracejaram do que eu dizia e até começaram a espalhar suspeitas sobre a minha sanidade. Tive que sair de aldeia a aldeia, como verdadeiro fugitivo, por mais de uma centena de vezes. Somente os três sábios consideraram o meu desejo e me deram ouvidos, mas ainda assim um tanto incrédulos inicialmente.

Quando me perguntaram o que eu pretendia fazer no Monte Sah’y, sem saber realmente o que responder, disse apenas que queria conhecer um lugar tão misteriosamente diferente. E todos, sem jamais pronunciarem uma resposta completa, diziam poucas palavras e muitas vezes desconexas. Somente muitos anos depois consegui decifrar, juntando os dizeres de cada um, o que verdadeiramente diziam acerca do monte sagrado. Eis o que acabei decifrando:

“Sim. Ali o Monte. O Monte Sah’y. Uma montanha. Um templo. Um oráculo. Tudo e nada. A fé e a descrença. A palavra e o silêncio. A presença ou a solidão. Enxergar ou cegar. Ficar ou partir. Um deus ou a pedra. Deuses ou os galhos mortos. Deus ou nada. Um coração ou um vazio. A morte ou o renascimento. Apenas a vida ou sempre a eternidade. A escolha do homem”.

Juro que lutei por mais de vinte anos tentando entender além dessas palavras. Sim, as palavras diziam muito, mas também significavam quase nada. Mas numa noite, enquanto armava minha rede debaixo da lua, eis que de súbito a frase completa me veio à mente, ou ao menos aquilo que eu achava querer dizer o emaranhado de palavras. E enfim interpretei o seguinte:

“Existe sim o Monte Sah’y. E nele pode haver tudo aquilo que seu coração de fé pretender encontrar, a voz do que você quer ouvir, a presença do que você sentir. E também a presença de deuses ou de um Deus único, que se não acolhidos na sua alma serão como pedras ou matos, coisas insignificantes. Mas ao acreditar terá a divindade no coração para a eternidade”.

Após compreender ao meu modo as palavras dos sábios, me enchi de uma felicidade tão grande que passei dois meses cantando a cantiga do orvalho. A folha molhada só secou quando atravessei a porteira do meu casebre, já na curva me despedi da minha aldeia, e segui destemidamente em frente, tendo sempre à mente as lições recebidas.

Depois do longo canto chorei por dez meses seguidos. Confesso que rios de lágrimas porque sabia jamais retornar até ali. A minha viagem não era a passeio, para fazer visita, ficar por lá apenas alguns meses ou anos e depois retornar. Não. Meu objetivo maior era permanecer por lá, viver em cima do monte até a noite dos meus dias não mais acordar.


O meu retiro no Monte Sah’y seria eterno enquanto vida eu tivesse. E assim que avistei a montanha não mais duvidei que seria assim mesmo. Ao longe, bem ao longe, já no fim do dia, precisamente ao entardecer, senti a presença da voz do silêncio. E segui adiante. Dois dias após não encontrei mais nada que pudesse subir. Estava bem no cume do monte.

O lugar era deserto, rodeado apenas por plantas espinhentas, pedras, árvores antigas e um constante som da ventania que ali soprava de forma diferente. Logo joguei o saco de viagem no chão, me ajoelhei para a prece de agradecimento pela chegada. E depois abri os olhos para encontrar uma imensa igreja adiante. E lá dentro havia um Deus que logo trouxe para dentro do meu coração.

E até hoje continuo em retiro no Monte Sah’y. E de lá de cima olho abaixo e ao redor e vejo apenas o mundo. Mas como o mundo é diferente da vida com Deus no coração!

(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com



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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Volantes, Cangaço

João Gomes de Lira, tenente que participou ativamente do combate ao cangaço

O agravamento do problema do cangaço levou as polícias estaduais a criar forças especiais para combatê-lo, as chamadas "volantes", comandadas por policiais de carreira, mas formadas por "soldados" temporários e cujos métodos de atuação - em especial em relação à população pobre - não era muito diferente daqueles dos próprios cangaceiros. Quanto ao governo federal, seu descaso pelo cangaço foi sempre o mesmo manifestado pelo semi-árido de um modo geral.

Maria Bonita e Lampião

De qualquer modo, em 1938, o governo de Alagoas se empenhou na captura de Lampião. Uma volante comandada por João Bezerra conseguiu cercá-lo na fazenda de Angicos, um refúgio no Estado de Sergipe. 


Depois de vinte minutos de tiroteio, cerca de 40 cangaceiros conseguiram escapar, mas onze foram mortos, entre eles o líder do bando e sua mulher, conhecida como Maria Bonita.

Para se ter uma idéia do caráter violento da sociedade em que isso aconteceu, vale mencionar que os onze mortos foram decapitados e suas cabeças, levadas para Salvador (BA), ficaram expostas no museu Nina Rodrigues até 1968 - quando foram finalmente sepultadas.
Fonte: Uol Educação



http://onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Volantes,+Canga%C3%A7o&ltr=v&id_perso=2964

Nos tempos das volantes

Por: Audaci Junior

Milícias que 'caçavam' cangaceiros, as volantes, fazem parte de um passado histórico marcado pela violência

Geralmente a História é escrita pelo lado vitorioso. Essa máxima pode ter suas exceções quando se fala do cangaço nordestino, movimento que surgiu no final do Império.

Com a grande seca no Sertão de 1877-1879, a miséria e a violência eram lancinantes, o que viabilizou o surgimento dos primeiros bandos armados independentes do controle dos coronéis. O seu auge começava durante a República, com o surgimento de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e as volantes dos Estados que caçavam cangaceiros.

“As volantes criaram mais cangaceiros do que mataram”, analisa o pesquisador Antônio Amaury Corrêa de Araújo, sumidade sobre o tema que realizou cerca de sete mil entrevistas ao longo de 60 anos, colhendo depoimentos de ex-cangaceiros, membros das forças policiais, pessoas da sociedade da época e familiares remanescentes. Publicou dezenas de livros como Assim Morreu Lampião.


De acordo com Amaury, as autoridades contratavam quem tinha coragem e conhecimento da região. Mas as milícias “maltratavam, judiavam e matavam” atrás dos cangaceiros. “Eu comandei verdadeiras feras”, lembra o pesquisador paulista das palavras do Major Optato Gueiros nas suas Memórias de Um Oficial Ex-Comandante de Forças de Volante (1953). “Conversando com pessoas daquele tempo, ficaria surpreso pelo conceito que as volantes deixavam”, conta.

Amaury Corrêa de Araújo desconhece uma biografia específica sobre as volantes, mas atenta pelos vários livros escritos pelo outro lado, como o “bem escrito” Como Dei Cabo de Lampião (1940), do tenente João Bezerra da Silva.


VOLANTES DA PARAÍBA

Entre as participações das volantes paraibanas nos tempos do cangaço, Amaury destaca um dos importantes combates entre as forças policiais e os salteadores do Sertão. Apesar de acontecer na Fazenda de Serrote Preto, Alagoas, o embate foi entre os cangaceiros e três volantes, sendo uma de Pernambuco e duas da Paraíba. “Foi em época como esta, de Carnaval, só que em 1925”, puxa pela memória.

Foram 78 soldados contra cerca de 40 cangaceiros. Antônio Amaury revela que o grande prejuízo foi para a volante da Paraíba.

Entre as baixas que eram vítimas até do 'fogo amigo', morreram dois oficiais paraibanos, os tenentes Adauto e Francisco Oliveira, e um número não definido de feridos.

Mas o maior entrave do cangaço aconteceu em Serra Grande, Pernambuco, na divisa de Triunfo e Serra Talhada, no mês de novembro de 1926: foram exatos 298 integrantes de volantes, munidos de duas metralhadoras, contra um número incerto entre 60 e 120 cangaceiros. O saldo ficou em 45, entre mortos, feridos e desertores, e quase nulo do lado dos 'bandidos'.

Isaías Vieira - o cangaceiro Zabelê

Amaury entrevistou o cangaceiro pernambucano Isaias Vieira, mais conhecido como o Zabelê, presente no confronto. Ele relatou que "combate como aquele queria que fosse todo o dia", já que o bando se encontrava em local privilegiado geograficamente.

O paraibano que Lampião tinha respeito e que o próprio evitava era o tenente-coronel Manuel Benício, natural de Santa Luzia do Sabugi.


Com o 'Rei do Cangaço' teve 18 combates, chegando a brigar duas vezes no mesmo dia, na cidade de Princesa Isabel, onde Virgulino perdeu dois cabras, Coruja e Jararaca, sendo o último o primeiro integrante do bando.

As milícias não se resumiam em coragem. De acordo com Antônio Amaury, a volante dos Oliveiras, na qual Lampião matou quatro integrantes, "eram mais destemidos do que inteligentes", já que combatiam o bando de "peito aberto" no meio da caatinga.

http://www.jornaldaparaiba.com.br/noticia/77201_nos-tempos-das-volantes

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Conexões Nordestinas

Autor: Antonio Júnior
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Frase do cangaceiro Sinhô Pereira



"Eu fiquei muito admirado quando soube que Lampião havia consentido que mulheres ingressassem no cangaço. Eu nunca permiti, nem permitiria."


(Frase de Sinhô Pereira, já aposentado, manifestando sua surpresa)

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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Corisco, o compadre de Lampião



Aí estão Corisco e o tenente José Rufino. 

Após a morte de Lampião, em 28 de julho 1938, Corisco matou uma família inteira que supostamente relatou o esconderijo do amigo, e durante mais dois anos ainda espalhou terror pela Bahia. 


Porém não tinha mais o apoio de tantos coiteiros e o próprio bando estava se dizimando, com muitos se entregando à polícia.

Em 25 de maio de 1940, escondido numa casa em Barra do Mendes, na Bahia, foi descoberto pelo tenente José Rufino, que deu-lhe a chance de se entregar. 


Preferiu, contudo, a troca de tiros, que tirou-lhe a vida e quase decepou um dos pés de Dada. 


Esta, porém, teve a vida poupada e foi capturada. Com a morte de Corisco o cangaço terminou completamente no nordeste.

Por Cristino Gomes da
Silva Cleto batizado,
por Alemão conhecido,
por Diabo Louro chamado,
por Louro de Fogo tido,
por Corisco apelidado.

Tão somente doze anos
mais novo que o capitão
pois em mil e novecentos
e dez, em pleno sertão
nasceu Corisco o temível
sucessor de Lampião.

Fraternalmente porém
o capitão Virgulino
sentado em torno das trempes
dava ao cruel assassino
café, enquanto o chamava
de meu compadre Cristino.

Trecho do livro “Lampião, a Força de um Líder”
de Gonçalo Ferreira da Silva

http://www.jvicttor.com.br/liquidificordel/?p=45 

Maria Bonita

Por: José Nêumanne Pinto
Rainha do cangaço, a companheira de Lampião ganhou um estudo da neta, Vera Ferreira


Trecho: “Tentamos ressaltar um olhar sobre Maria que nos conduz ao significado de uma mulher em um determinado contexto e período na história do Brasil”
Legenda: Aventura 

Ela tinha 19 anos quando saiu de casa para percorrer o sertão. Nascida e criada na Malhada da Caiçara, no sertão baiano, Maria de Déa foi destinada ao casamento, celebrado em plena adolescência, e a uma vida pacata. Aos 16 anos, casaram-na com o sapateiro Zé de Nenê, mas o lar do casal, que foi morar no povoado de Santa Brígida, ali perto, logo desmoronou, segundo as más línguas porque o varão era pacato demais para a inquietação fabril da mulher. Além do mais, o marido era estéril e a diferença de temperamento gerou conflitos que levavam o par a se separar e se reconciliar até o dia em que, no final de 1929, cruzou a soleira dos pais dela, Zé Filipe e Dona Déa, o temível Rei do Cangaço no sertão, Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, aos 32 anos.


O chefe de bando era vingativo, cruel e destemido, mas também tinha lá seus laivos de herói romântico. Dos saques das fazendas dos ricaços do sertão furtava perfumes franceses de boa cepa e o melhor uísque escocês. Ao relento nos acampamentos no zigue-zague das fugas para escapar da perseguição policial, puxava um fole de oito baixos e a ele foi atribuída a autoria de um dos maiores sucessos do cancioneiro sertanejo e nacional, Muié rendeira, de cuja autoria se apropriaria, no Rio, o malandro Zé do Norte. Não era de estranhar que fizesse corte à morena e começou por lhe encomendar que bordasse suas iniciais CL (Capitão Lampião) em 15 lenços de seda, o que permitiu a abordagem e, depois, serviu de pretexto a novo encontro, que terminou com a retirada da morena separada do marido da casa dos pais. Foi, então, que a beleza da escolhida do Rei lhe deu a alcunha com que morreu na Grota do Angico, Sergipe, ao lado do amante, e que se fixou na memória do povo: Maria Bonita.

Expedita, filha do casal real da caatinga, criada no Estado em que os pais morreram, Sergipe, sobreviveu à carnificina e gerou, entre outros filhos, Vera Ferreira, que, professora universitária em Aracaju, tem mantido viva a memória dos avós e empreendeu obra de vulto para comemorar o centenário da avó. Bonita Maria do Capitão, livro trazido a lume pela Editora da Universidade do Estado da Bahia, lançado em São Paulo na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915), por R$ 100, é obra de fôlego O volume de 328 páginas, organizado pela neta, jornalista e escritora, com a cumplicidade da desenhista paraibana Germana Gonçalves de Araújo, reproduz o legado da personagem lembrada pelos caprichos e vontades, mas também pelo bom humor e descontração quase infantil, com esmero e bom gosto.

A aventura da menina que saiu de casa aos 19 anos para percorrer o sertão nordestino a pé num bando de cangaceiros até tombar, aos 27, humilhada a ponto de ter a cabeça, decepada quando ainda vivia, exposta à curiosidade popular, tem sido narrada em prosa, verso, imagem e som.
O casal, evidentemente, foi tema de muitos romances de cordel. Num deles, Sabóia, chamado de Marechal de Cordel do Cangaço, registrou: “Cupido fez passatempo / com Maria e Lampião/ ela Rainha ele Rei / governou nosso sertão / cangaço e amor viveu / não foi uma ilustração”. Rouxinol do Rinaré e Antônio Klévisson Viana versejaram: “Maria Gomes de Oliveira / amou muito a Lampião / decidiu ser a primeira / cangaceira do sertão / ignorando o destino / acompanhou Virgolino / pela força da paixão”. O livro reproduziu a capa de um cordel de Sávio Pinheiro sob título O arranca-rabo de Yoko Ono com Maria Bonita ou A desaventura de John Lennon e Lampião, editado em 2008.

Seu apelido famoso também foi muito cantado. “Acorda, Maria Bonita, / levanta pra fazer café, / que o dia já vem raiando / e a polícia já está de pé” - esta é uma estrofe de Muié Rendeira, que ou foi acrescentada depois ou se tornou, como mofou Bráulio Tavares em seu texto registrado no livro, o caso de premonição mais espetacular da história da música popular, de vez que o casal foi morto, de fato, ao amanhecer.

Seu nome também foi muitas vezes lembrado em funções de repentistas pelo sertão afora. Certa vez, Otacílio Batista glosou: “Virgolino Ferreira, o Lampião, / bandoleiro das selvas nordestinas / sem temer a perigo nem ruínas / foi o rei do cangaço no sertão, / mas um dia sentiu no coração / o feitiço atrativo do amor / a mulata da terra do condor / dominava uma fera perigosa. / Mulher nova, bonita e carinhosa / faz o homem gemer sem sentir dor”. Zé Ramalho pôs música nos versos e a canção virou tema da minissérie Lampião e Maria Bonita, na Rede Globo.

A beleza de Maria, mostrada em foto e cinema por Benjamin Abrahão, fascinou artistas plásticos como Mino e virou tema obrigatório de xilogravadores como J. Borges, Mestre Noza, J. Miguel e Marcelo Soares. Suas peças de vestuário e as joias que usava foram reproduzidas no livro, que também se refere à peça de Rachel de Queiroz sobre ela e a filmes do gênero dito nordestern que a adotaram como personagem. Como resumiu Maria Lúcia Dal Farra em poema: “Maria de Déa, Maria Bonita, minha Santinha! / Mulher de tantos nomes / tão poucos para contê-la”.

Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde
Recriações
Artes plásticas

A permanência de Maria Bonita como personagem emblemática se fez presente nas diversas recriações feitas por artistas, reproduzidas no livro, como a retratada na xilografia de Humberto Araújo.
Cinema
A cantora Vanja Orico de Maria Clódia caracterizada como Maria Bonita no filme Lampião, o Rei do Cangaço , de 1964, dirigido por Carlos Coimbra, uma das muitas adaptações de sua história para a tela grande.
Teatro
Croqui do “vestido de caatinga”, feito pelo artista plástico Aldemir Martins em 2006 para a montagem da peça Lampião , escrita nos anos 50 por Rachel de Queiroz, encenada no Teatro Leopoldo Fróes, em São Paulo.

JOSÉ NÊUMANNE PINTO 

http://blocoson.blogspot.com.br/2012/04/maria-bonita.html

JUQUINHA: UM AMIGO QUE SE FOI, UM EXEMPLO QUE FICA

Por: João Paulo História

Ainda criança conheci um dos mais importantes personagens da história de Nossa Senhora das Dores. Naqueles idos da década de 1990, ouvia atentamente meu avô - o senhor Orestes Souza de Carvalho - falar de um homem que, na opinião dele e da maioria dos de sua geração, havia sido o maior administrador público que a cidade, criada em 1920, conheceu.

O argumento usado por meu avô para convencer-me de sua versão era o fato de que ninguém, até então, tinha calçado tantas ruas, construído tantas escolas e, o mais importante para ele, demonstrado tanto zelo pela coisa pública. Afinal, afirmava (e continua afirmando ainda hoje) que o então prefeito Antônio Cardoso de Oliveira se fazia presente no canteiro de obras a fiscalizar e orientar os operários para que os recursos fossem aplicados sem desperdício e com a mais alta qualidade na matéria-prima implementada. Além do mais, chamava sua atenção o fato de que o prefeito fiscalizava, pessoalmente, inclusive aplicando multas que irritavam alguns, a limpeza e a organização das ruas da cidade e do município.

Após conhecer S. Juquinha por meio da memória de meu avô, tive a oportunidade de pessoalmente ser apresentado a ele. O jovem daquela época, então, passou a chamá-lo de “general”, pois, na mente daquela criança de menos de 10 anos de idade, aquela figura de fala e fisionomia firmes só podia ser um “general”. E o “general” logo nomeou-me “capitão”.

Essa imagem, do exemplo de homem público que havia conhecido a partir do meu avô e depois nas idas e vindas pelo calçadão da Getúlio Vargas, ficou durante muito tempo em minha mente.

Ao tornar-me um catador de histórias passei a mergulhar ainda mais na trajetória desse personagem cuja história confunde-se com a da própria cidade. E essas pesquisas solidificaram ainda mais em minha mente a imagem construída na infância, a de um homem sério, honesto e zeloso pela coisa pública, querido, admirado e respeitado pelos familiares, amigos e adversários políticos.

Ele nasceu no dia 15 de novembro de 1922, na fazenda Poço dos Paus, município de Capela. Filho de Francisco Cardoso de Oliveira e dona Maria Clarice de Oliveira, aos quatro anos de idade mudou-se com a família para N. Sra.das Dores, onde seu pai havia adquirido, dois anos antes, a fazenda Riacho da Areia. Passaram, então, a residir no povoado Volta onde o menino Juquinha conheceu suas primeiras letras pelas mãos da professora Maria da Glória Santos, a mesma que se tornou patrona da escola do povoado Gentil—construída pelo prefeito Antônio Cardoso.

Ingressou na vida política em 1951, quando foi eleito vereador pelo PSD para o quadriênio 1951-1955, tendo recebido mais de 400 votos (algo expressivo tendo em vista o pequeno eleitorado da época). Em 1967, assumiu o cargo de Prefeito de N. Sra. das Dores pela ARENA-2. Exerceu o cargo durante os anos 1967 e 1971, tendo tido o apoio do Governo do Estado, na pessoa de Lourival Baptista (1967-1970), com quem a Prefeitura fez diversas parcerias com vistas à realização de benfeitorias na cidade.

Dentre as principais obras de sua administração vale destacar: construção de um Matadouro Modelo, o mais moderno do Estado na época, no bairro “Cruzeiro Velho”; reforma da Pç. da Matriz; calçamento na Av. Lourival Batista, Pç. Joel Nascimento, Rua Edézio Vieira de Melo, Pç. José Barreto de Souza, Av. Augusto Franco, dentre outras; construção do Centro de Supervisão Escolar, hoje DRE´05; reforma do Estádio “Lourival Baptista”, atual “Ariston Azevedo”; construção de escolas nos povoados Sapé, Ascenso, Gentio, Bravo Urubu e outros; e a mais importante delas, a construção do prédio do Ginásio “Tertuliano Pereira de Azevedo”, hoje Colégio Cenecista Regional “Francisco Porto”, que proporcionou a muitas gerações de dorenses o acesso ao ensino secundário, antes somente possível aos ricos que podiam pagar para seus filhos estudarem em Aracaju. Juquinha, eu sou um dos frutos dessa sua ação, pois, sou ex-aluno desta escola que você não deixou ser extinta.

Devido a essa destacada atuação como prefeito de N. Sra. das Dores foi homenageado, em 1969, no Iate Clube de Aracaju, como o melhor administrador público do Estado de Sergipe naquele ano. Sua simplicidade não o envaideceu por causa deste reconhecimento, que ele dizia ser “coisa de Lourival”. Não Juquinha, não foi “coisa de Lourival”, você mereceu esta justa homenagem.

Ele nasceu Antônio Cardoso de Oliveira, mas ficará imortalizado em nossa memória como Juquinha, simplesmente Juquinha, pois, simplicidade era uma de suas marcas, exemplo de amigo e de homem público, exemplo de honestidade. Afinal, como ele mesmo dizia: “Eu cumpri com o meu dever. E quem cumpre com seu dever merece ter valor.” E é com esta certeza de dever cumprido que até hoje Juquinha é reverenciado por todos os dorenses, independente de idade e filiação político-partidária, pois, mesmo aqueles que não vivenciaram sua administração, como eu, podem acompanhá-la por meio da memória dos mais velhos que o apontam como um dos maiores homens públicos que Dores já viu surgir, um homem leal, honesto e zeloso com a coisa publica, um homem com muitos predicados. Predicados reconhecidos até mesmo por seus adversários, os quais sempre foram tratados com urbanidade, com respeito.

Juquinha, você não morreu, os heróis não morrem, ficam para sempre vivos na memória dos homens de bem!

Obrigado pelo seu exemplo e pela sua amizade!

Descanse em Paz meu “general”, sei que neste momento você está nos braços do Pai, ao lado daqueles que você tanto amou!

Esta é uma pequena homenagem do seu amigo, o “capitão”!

N. Sra. das Dores (SE), 12 de setembro de 2012.


João Paulo Araújo de Carvalho

Enviado por:  Paulo Paulo História