Esse era um
cenário comum em uma época que o cangaço e o banditismo de um modo geral,
imperava nos sertões nordestinos.
Época em que o
medo e o terror causado por cangaceiros, jagunços e polícia, dominava e
aterrorizava o já tão sofrido e judiado povo nordestino.
Um povo
oprimido pela pobreza e que vivia sob o julgo dos poderosos, obrigado a atender
suas vontades e conveniências, onde a negativa, poderia ser a sentença de
morte, inclusive para toda a família.
Quantas
famílias não perderam suas vidas por causa de poucos metros de terra?
Quantos não
foram expulsos de suas terras ou saíram para não serem mortos pelo simples fato
de ter se negado a vender barato, o seu pequeno pedaço de chão?
As injustiças,
a fome e a miséria gera revolta no ser humano e o leva por caminhos que jamais
trilharia, se tivesse oportunidades e condições dignas e humanas para sua
sobrevivência.
Quantas vidas
foram ceifadas e quanto sangue foi derramado por este sertão à fora?
Quanto sangue
ainda será derramado até que as injustiças humanas, sejam exterminadas
definitivamente?
Perguntas que
ecoam sem respostas.
Enquanto
houver injustiças e descasos para com os seres humanos, haverá levantes
populares, surgirá formas de banditismos diferenciadas e cenas semelhantes a
essa da imagem abaixo, continuarão a existir, poluindo visualmente a nossa
paisagem.
E o povo
continuará vivendo entre... A CRUZ E O PUNHAL.
Vejam o que
acabo de receber de presente. Um amigo, vindo das bandas de Petrolina – PE, aumentou
o peso da bagagem e me trouxe esse livro. Para mim, o maior e melhor presente
que uma pessoa dar à outra.... é uma forma de 'passar' conhecimentos. Vendo por
alto, são 700 páginas ao todo... 442 em sua essência pesquisa, o restante
ficando para iconografia e entrevistas com imagens dos entrevistados... já
tenho com que me divertir.
Após a
publicação de Mexendo o Pirão, prefaciado pelo antropólogo Raul Lody, Adriano
Marcena nos oferta mais um estudo inédito na história da alimentação
brasileira:
Raspando o tacho - comida e cangaço: relações etnogastronômicas
entre nômades e sedentários nos sertões nordestinos (1922-1938), com prefácio
de Ésio Rafael.
Desta vez, a
publicação do historiador mergulha no universo nômade do cangaço para discutir
as principais características da ‘munição de boca’ usada pelos cangaceiros.
É sabido que o
nomadismo cangaceiro se dava dentro de uma sociedade sedentária (sertão
nordestino) em meio à complexa rede de interesses socioeconômicos que envolviam
os atores sociais. Como os cangaceiros se relacionavam com a comida e a bebida
em suas andanças?
Com
ilustrações de Carlos Newton Júnior, a publicação concentra suas atenções na
interface entre cangaço – especificamente o bando de Lampião – e as comidas e
as bebidas, tendo como norteador teórico a etnogastronomia, entendida como
práticas alimentares com características próprias de um povo ou comunidade,
desenvolvidas com intencionalidade relacionada a processos educativos de
tradição e resistência, e que permitem a patrimonialização do ato de comer
entre os comensais.
Tal exercício
permitiu ao autor perceber o ato de comer como patrimônio, tanto entre
sertanejos sedentários quanto as extensões vestigiais que escorreram pelos
tachos andarilhos do cangaço.
A publicação
traz uma versão em audiobook do livro para garantir o acesso das pessoas com deficiência
visual e conta com o incentivo do Funcultura, Fundarpe, Secretaria de Cultura,
Governo do Estado de Pernambuco, além de ter o apoio cultural da Recife Promo.
Serviço:
Lançamento de livro –
Título:
Raspando o tacho - comida e cangaço: relações etnogastronômicas
entre nômades
e sedentários nos sertões nordestinos (1922-1938).
Autor: Adriano
Marcena
Local:
Restaurante Teatro Mamulengo - Praça do Arsenal – Recife Antigo
LEMBRANDO AO LEITOR QUE OS VÍDEOS POSTADOS SÃO APENAS PARA PROPAGAR O CANGAÇO, E NÃO FAZEM PARTE DESTE TEXTO.
No sertão do
Nordeste brasileiro, as violentas disputas entre famílias poderosas e a falta
de perspectivas de ascensão social numa região de grande miséria levaram ao
surgimento de bandos armados, gerando o fenômeno do cangaço. Cangaço é a
denominação dada ao tipo de luta armada ocorrida no sertão brasileiro, do fim
do século XVIII à primeira metade do século XX. Cangaceiro era o homem que se
dedicava a essa atividade, trazendo sempre atravessada nos ombros sua
espingarda, como um boi debaixo da canga. Já no começo do século XIX, o
cangaceiro trazia a tiracolo ou dependurada no cinturão toda sorte de armas
suplementares, como longos punhais que batiam na coxa e cartucheiras de pele ou
de couro, praticamente a mesma indumentária de Lampião, cem anos mais tarde.
Existiram três tipos de cangaço na história do sertão: o defensivo, de ação
esporádica na guarda de propriedades rurais, em virtude de ameaças de índios,
disputa de terras e rixas de famílias; o político, expressão do poder dos
grandes fazendeiros; e o independente, com características de banditismo. No
primeiro caso, após realizarem sua missão de caçar índios no sertão do Cariri e
em outras regiões, a soldo dos fazendeiros, os cangaceiros se dissolviam e
voltavam a trabalhar como vaqueiros ou lavradores. As rixas entre famílias e as
vinganças pessoais mobilizavam constantemente os bandos armados. Parentes,
agregados e moradores ligados ao chefe do clã por parentesco, compadrio ou
reciprocidade de serviços compunham os exércitos particulares.
O cangaço político resultou, muitas vezes, das rivalidades entre as oligarquias locais, e se institucionalizou como instrumento dessas oligarquias, empenhadas na disputa para consolidar seu poder. Mas no final do século XIX surgiram bandos independentes que não se subordinavam a nenhum chefe local, tendo sua origem no problema do monopólio da terra. Esse tipo de cangaço já existira no passado, em função das secas, mas não conseguira perdurar, eliminado pelos potentados locais, assim que se restabeleciam as condições normais de vida.
O primeiro dos grandes bandos independentes foi o de Antônio Silvino (1875),
pernambucano que, desde jovem, na última década do século XIX, se dedicara ao
cangaço a serviço da família Aires. A partir de 1906, afastou-se das lutas
políticas e dos conflitos entre famílias, passando a lutar pela dominação
armada de áreas do sertão. Atuou em Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e
Paraíba, espancando, assassinando, cobrando tributos e saqueando. Ferido em
1914, durante combate, foi preso e condenado a trinta anos de prisão em Recife,
sendo indultado em 1937.
Virgulino Ferreira, o Lampião, o mais famoso de todos os cangaceiros, assumiu a
chefia de seu bando em 1922. Por causa da organização e disciplina que impunha
seus cabras, raramente era derrotado, além do fato de aparecer perante a
população sertaneja como um instrumento de justiça social, procurando, dessa
forma, justificar seus crimes, que atingiam pobres e ricos indistintamente.
Morreu em combate em 1938. Outros cangaceiros famosos foram Jesuíno Brilhante
(1844-1879), cearense, morto em luta com a polícia; Lucas da Feira, baiano,
enforcado em 1849; José Gomes Cabeleira, pernambucano, e Zé do Vale, piauiense,
igualmente enforcados nas últimas décadas do século XIX.
Os três tipos de cangaço muitas vezes coexistiram. O defensivo e o político
ocorreram por todo o país e sobrevivem, a bem dizer, até os dias atuais. O
independente, porém, tem localização certa no tempo, pois surgindo em fins do
século XIX, praticamente desapareceu em 1939, com a morte de Corisco, o Diabo
Louro, o mais famoso chefe de bando depois de Lampião. A extinção desse fenômeno social foi consequência sobretudo da mudança das
condições sociais no país, das perspectivas de uma vida melhor que se abriam
para as massas nordestinas com a migração para o Sul, e das maiores facilidades
de comunicação, entre outros fatores. Mais de dez anos antes da morte de
Corisco já os nordestinos começavam a migrar para as fazendas paulistas de
café, em longas viagens a pé; de 1930 em diante, a industrialização no Sul, a
abertura de novas frentes agrícolas, como a do norte do Paraná, e a interrupção
da imigração estrangeira tornaram mais intensa a demanda de braços do Nordeste,
trazendo, como consequência, uma intensa migração para o Rio de Janeiro e São
Paulo. Extensa é a bibliografia sobre o cangaço, de estudos sociológicos à reportagem
documental. Na literatura, destacam-se o romance O Cabeleira (1876) de Franklin
Távora, e as obras de José Lins do Rego, Jorge Amado, Raquel de Queiroz e Guimarães
Rosa, este último autor de Grande sertão, veredas, considerado o maior romance
já escrito sobre os cangaceiros. No cinema, sobressaíram O cangaceiro (1953) de
Lima Barreto e Deus e o diabo na terra do sol (1964) de Gláuber Rocha.
“Sê um patriota verdadeiro e não te esqueças de que a força somente deve ser empregada a serviço do Direito”. Boa parte das gerações militares contemporâneas, bem como setores políticos e acadêmicos, parecem desconhecer o real significado destas palavras atualmente.
Rui Moreira Lima em fotografia de 1953, no Rio de Janeiro. O militar ganhou condecorações por sua participação na Segunda Guerra Mundial e foi torturado por se opor ao regime ditatorial de 1964. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)
Escritas em 1939 pelo juiz de direito Bento Moreira Lima numa carta para seu filho, o cadete Rui Moreira Lima, que aos 20 anos ingressava na Força Aérea Brasileira (FAB), elas parecem ter servido como uma declaração de princípios que nortearia a vida do futuro brigadeiro.
Tenentes Rui Moreira Lima, Alberto Martins Torres e Renato Goulart Pereira
Poucos anos depois, Rui Moreira Lima seria um herói de guerra. Com outros jovens aviadores brasileiros, todos voluntários, integrou o grupo de aviação da FAB, o “Senta Púa”, unidade que recebeu uma das mais altas condecorações americanas em reconhecimento pela bravura de seus membros. Ao final da Segunda Guerra, sua folha de serviços computava 94 missões, pelas quais ganhou as mais altas condecorações militares do Brasil, da França e dos Estados Unidos.
Representação do Republic P-47 Thunderbolt com que o tenente Rui combateu na Itália – Fonte -www.militar.org.ua
Sempre que podia, declamava com sabor de poesia a carta recebida de seu pai. Em um dos trechos, ela aconselhava: “Obediência a seus superiores, lealdade aos teus companheiros, dignidade no desempenho do que te for confiado, atitudes justas e nunca arbitrárias”. Nada mais válido nos tempos da Guerra Fria pra lá de quente que se iniciaria em 1947. O debate em que esteve imerso o jovem oficial trazia não somente o desafio de edificar uma nação, mas principalmente o de construir e defender uma democracia. Patriota, democrata e nacionalista, Rui Moreira Lima teve uma discreta empatia à esquerda, e uma identificação sem militância com o PSB (Partido Socialista Brasileiro), agremiação que tinha entre seus membros militares históricos, compromissados com a democracia e a nação, como o almirante Herculino Cascardo (1900-1967) e o general Miguel Costa (1885-1959).
Ao retornar da guerra, como tenente, Moreira Lima foi condecorado pelas missões na 2ª Guerra Mundial pela FAB (Foto: Agência Força Aérea/Arquivo)
Nos anos 1950 e 1960, atuou na defesa da legalidade democrática e em causas nacionalistas, como a do Petróleo é Nosso. Na polarização entre grupos políticos e ideológicos dentro da própria FAB, condenou tentativas golpistas – como a de abortar a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek (1956) e as Revoltas de Jacareacanga (1956) e Aragarças (1959) – e apoiou a posse de João Goulart por ocasião da renúncia de Jânio Quadros (1961). “O soldado não conspira contra as instituições a que jurou fidelidade. Se o fizer, trai seus companheiros e pode desgraçar a nação”, escreveu o pai.
Jango assiste, em 1963, à demonstração da FAB, com a presença de Rui Moreira Lima, à sua esquerda. O militar se pôs em defesa da ordem democrática e da manutenção da legalidade nos momentos de ruptura. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)
A chegada de 1964 encontrou o militar no comando da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, a mais poderosa unidade de combate da FAB no período, cuja tradição ele ajudou a forjar como piloto de caça nos campos de batalha italianos.
Rui Moreira Lima acompanhava com preocupação os desdobramentos golpistas e lamentava a imobilidade do governo em reagir naquilo que era o princípio basilar das Forças Armadas: a hierarquia e a disciplina.
Reprimiu com rigor tentativas de envolver os comandados em aventuras, chegando a prender alguns de seus jovens oficiais. Em reação à movimentação das tropas do general Mourão, em março de 1964, sobrevoou em um rasante a coluna golpista já próxima de Areal (RJ), cuja tropa foi tomada por pânico. Na volta à unidade, confabulou com seus superiores que os rebelados poderiam ser dissolvidos em um ataque de precisão, sem maiores baixas. Mas só tomaria essa iniciativa se recebesse ordens para tanto. Diante do posicionamento do presidente João Goulart em não resistir e partir para o exílio, deu-se por encerrada qualquer possibilidade de reação.
Ali estava encerrada sua carreira militar, bruscamente interrompida. Antes, porém, teve ainda um ato de resistência: só aceitou passar o comando da Base Aérea se fossem cumpridas todas as formalidades, postura que constrangeu seus algozes. “A honra é, para ele [o militar], um imperativo e nunca deve ser mal compreendida”. Pouco depois, Rui Moreira Lima foi preso em casa e teve de responder a três inquéritos policiais militares. Amargou um total de 153 dias no cárcere. Em uma das prisões, nos anos 1970, chegou a ser torturado.
Diante do quadro de vilania que caracterizou o regime militar, qualificou de infame e covarde a figura do torturador – que, portanto, não deveria ser contemplado com a anistia. Visão compartilhada com o pai: “O soldado nunca deve ser um delator, senão quando isso importar a salvação da pátria. Espionar os companheiros, denunciá-los, visando a interesses próprios, é infâmia, e o soldado deve ser digno”.
Inegavelmente a pátria estava em perigo, e o campo de batalha passou a ser outro para o então coronel. A perseguição foi uma constante para as centenas de cassados, entre oficiais e praças das Forças Armadas e das Polícias Militares. Todos os aviadores, por portarias secretas, foram proibidos de voar.
JORNAIS DE 1964 MOSTRAM O QUE O BRIGADEIRO RUI MOREIRA LIMA SOFREU
Por convicção, não aderiu à opção de resistência armada ao regime militar: decidiu combater a ditadura na ação política. Foi um dos que ergueram a bandeira pela anistia ampla, geral e irrestrita. Ao lado do brigadeiro Francisco Teixeira e de outros oficiais, Rui Moreira Lima foi um dos fundadores da Adnam (Associação Democrática e Nacionalista dos Militares).
A anistia saiu em 1979, mesmo ano em que faleceu seu pai. Mas ela veio restrita em relação aos militares cassados, inclusive o brigadeiro, a despeito de sua folha de serviços.
À frente da Adnam, continuou intervindo na agenda política com o objetivo de aprofundar a democracia e a construção de um efetivo estado de direito. Buscava não só a ampliação da anistia como a reintegração, mas também a reincorporação dos militares cassados. Em outra frente de luta, preocupava-se com a memória e a história. Escreveu Senta Púa e Diário de Guerra, e contribuiu com depoimentos em livros, teses e documentários. Por sua intervenção direta, o acervo da Adnam foi entregue para a guarda do Cedem – Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Acima, recebe pedido de desculpas por meio do ministro da Justiça, em 2011. (Foto: Acervo Pedro Luiz Moreira Lima)
Em seus últimos anos, através de uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) patrocinada pela Adnam e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), contestou a anistia aos torturadores e apoiou com entusiasmo a formação da Comissão Nacional da Verdade, em 2012. Segundo ele, a CNV era um instrumento necessário para aproximar os militares e a sociedade civil, e não pode ser considerada expressão de revanchismo, mas sim de justiça e de um necessário resgate da história. Inclusive a sua história.
Já com mais de 90 anos, não se furtou a outras polêmicas. Em 2012, subscreveu pela Adnam o manifesto “Aos Brasileiros”, confrontando um manifesto de golpistas elaborado por militares da reserva do Clube Militar. No ano seguinte patrocinou a “Carta do Rio de Janeiro”, documento endereçado à Presidência da República com vistas a equacionar em definitivo a questão de uma anistia ampla para os militares cassados e perseguidos após o golpe.
Só depois de seu falecimento, em fins de 2013, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma ação reparatória reconhecendo seus direitos. Não viveu, portanto, para ver o epílogo de uma longa trajetória militar e política: a promoção à patente de tenente-brigadeiro, último posto da Força Aérea.
A FAB o dignificara já no enterro, com toque de silêncio e voos rasantes de aviões de caça da unidade Senta a Púa. A homenagem ao oficial cassado seria um passo importante para a decisão posterior do STF.
Reconhecimento ainda mais cheio de significado, particularmente para os cadetes da Academia da Força Aérea, seria se a instituição de ensino reverenciasse Rui Moreira Lima em um dos painéis de sua ampla entrada onde constam pronunciamentos de várias personalidades civis e militares. Como texto, o ensinamento da carta de Bento Moreira Lima, um conselho que retrata a vida do filho ao mesmo tempo em que serve de lição aos militares e cadetes das novas gerações: “O povo desarmado merece o respeito das Forças Armadas. Estas não devem esquecer que é este povo que deve inspirá-las nos momentos graves e decisivos”.
Paulo Ribeiro da Cunha é professor de Teoria Política na Universidade Estadual Paulista e autor de Militares e militância: uma relação dialeticamente conflituosa (Editora Unesp/Fapesp, 2014).
Saiba Mais
BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942 -1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995.
FERRAZ, Francisco César. Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2005.
SODRÉ, Nelson Werneck. História Militar do Brasil. Rio de Janeiro/ São Paulo: Ed. Civilização Brasileira/ Expressão Popular, 2010 [1965].
Extraído do blog Tok de História do historiógrafo e pesquisador do cangaço Rostand Medeiros
Criminosas.
Quando se fala da participação das mulheres no cangaço, geralmente elas são
reduzidas a esta palavra. Uma imagem que perde de vista os medos, os desejos e
as frustrações que rondaram as cangaceiras nas décadas de 1930 e 1940, e que
ignora as razões que as levaram para essa vida. Enquanto algumas ingressaram
nos bandos voluntariamente, outras foram coagidas e privadas do convívio com
seus familiares.
Nesta clássica
foto vemos Benjamin Abrahão, o armado Lampião e a sua Maria Bonita ostentando
uma profusão de correntes de ouro.
Embora os
motivos fossem variados, a maioria daquelas que aderiram ao cangaço carregava a
ilusão de que viveria em festa e teria liberdade, sensação alimentada pela vida
nômade e errante daqueles homens. A realidade revelou um cotidiano bem mais
complicado: além dos embates violentos contra forças policiais, muitas vezes os
cangaceiros ficavam mal alimentados, sem água nem lugar para repousar,
caminhando quilômetros sob sol e chuva.
A faixa etária
das cangaceiras variava de 14 a 26 anos, e suas origens socioeconômicas eram
diversas, incluindo mulheres de famílias abastadas. Elas viam no cangaço uma
oportunidade para romper com os padrões sociais: naquele grupo poderiam
conquistar outros espaços além da esfera privada do lar e tinham a oportunidade
de escolher seus parceiros sem a interferência dos acordos familiares.
Dadá – Fonte –
blogdomendesemendes.blogspot.com
Uma vez
integradas aos bandos, as jovens tinham que se adaptar à nova vida, sem chance
para arrependimento: tentar fugir implicava retaliações tanto por parte de
cangaceiros quanto por parte das volantes, como eram chamados os grupos de
policiais que perseguiam os “bandidos do sertão”. Nesse espaço permeado pela
violência, eram submetidas aos desejos sexuais de seu raptor, sem contato com a
família, sentenciadas à morte em caso de adultério e envolvidas nos confrontos
com forças policiais. Capturadas pelas volantes, apanhavam, eram estupradas e
sofriam diversas humilhações.
No cangaço os
papéis sociais eram bem definidos: ao homem cabia zelar pela segurança e o
sustento dos bandos. À mulher, ser esposa e companheira. Durante a gestação,
muitas ficavam escondidas. Depois do nascimento do bebê, eram obrigadas a
retornar ao cangaço e entregar a criança a amigos.
A convivência
entre elas não era totalmente pacífica. Testemunhos dão conta de que uma queria
ser melhor do que a outra. O status da cangaceira era medido pelos bens que possuía:
joias, vestidos, animais. As qualidades bélicas também estabeleciam diferenças
entre elas. Sérgia Ribeiro da Silva, conhecida como Dadá, tornou-se emblemática
por sua coragem e desempenho com armas nos embates com as volantes. Chegou a
assumir o comando do grupo no momento em que o líder Corisco se encontrava
ferido. Mas o prestígio feminino acabava sempre associado ao lugar ocupado pelo
companheiro na hierarquia dos grupos.
Maria Bonita
(Maria Gomes de Oliveira), famosa companheira de Lampião, foi a primeira figura
feminina a ingressar no cangaço, em meados de 1930. A partir daí, mais de 30
mulheres participaram da vida nos bandos. A Bahia foi o estado que forneceu
maior número de moças ao banditismo do sertão nordestino, seguida por Sergipe,
Alagoas e Pernambuco.
A cangaceira
Durvalina – Fonte – blogdomendesemendes.blogspot.com
As andanças
dos cangaceiros repercutiam na imprensa, e a presença feminina era mencionada
de forma genérica e depreciativa. Nos jornais O Estado de São Paulo e Correio
de Manhã, aquelas mulheres eram chamadas de bandoleiras, megeras e amantes.
Eram estereotipadas como masculinizadas, belicosas e criminosas, além de serem
tratadas como objetos de satisfação sexual.
A imagem
apresentada pelos jornais, porém, difere daquelas que o fotógrafo sírio-libanês
Benjamin Abrahão Boto produziu na década de 1930. Suas fotografias mostram como
as cangaceiras pretendiam ser lembradas: realçam sua feminilidade, evidenciam
cuidados com o corpo, a aparência e a postura, destacam a beleza dos trajes e o
apreço por joias. Algumas se faziam retratar com jornais e revistas da época,
sinalizando o desejo de serem identificadas como mulheres letradas. Essas
preocupações ficam explícitas nas fotos em que algumas – como Maria Bonita –
reproduziram a postura e o gestual das mulheres da elite rural e urbana, como
se estivessem posando em estúdios consagrados.
Fonte –
lampiaoaceso.blogspot.com
A maioria dos
folhetos de cordel reforça esse aspecto da participação feminina no cangaço. Os
versos destacam a preocupação das cangaceiras com a beleza, o amor e a
cumplicidade dedicados às relações afetivas, além da coragem nos embates. Nesse
tipo de literatura o perfil feminino é recriado a partir de uma perspectiva
mítica, envolvendo um misto de heroína e de bandida.
As práticas e
as representações das mulheres naquele universo da caatinga foram variadas, e
elas não tinham um perfil único. Quando o cangaço chegou ao fim, cada uma teve
de reconstruir sua vida conforme os parâmetros sociais vigentes. Do cotidiano
duro e arriscado das andanças pelo sertão, as ex-cangaceiras largaram as armas
e a fama de criminosas para encarar outros papéis: mães, donas de casa e, em
alguns casos, trabalhadoras fora do âmbito doméstico.
Ana Paula Saraiva
de Freitas é historiadora e autora da dissertação “A presença feminina no
cangaço: práticas e representações (1930-1940)”, (Unesp, 2005).
Saiba Mais
ARAÚJO,
Antonio A. C. de. Lampião, as Mulheres e o Cangaço. São Paulo: Traço,
1985.
BARROS,
Luitgarde O. C. A derradeira gesta: Lampião e Nazarenos guerreando no Sertão.
Rio de Janeiro: Faperj/Mauad, 2000.
QUEIROZ, Maria
Isaura P. de. História do Cangaço. 2. ed. São Paulo: Global, 1986.
MELLO,
Frederico P. de. Guerreiros do Sol. Violência e banditismo no Nordeste do
Brasil. São Paulo: A Girafa Editora, 2004.
Extraído do blog Tok de História do historiógrafo e pesquisador do cangaço Rostand Medeiros