Por Rubens Antonio
A raiz mais
antiga da história aponta para uma ascendência mais antiga pernambucana, que
migrou para a Bahia no final do século XVIII, aparecendo a família em 1812, em
Monte Santo, na Bahia, com Rafael dos Anjos.
Este era
proprietário de uma posse de terra na fazenda Abóbora, onde, mais tarde, se
desenvolveu o cenário de um embate em que morreu o cangaceiro Mergulhão.
A partir daí,
a família se espalhou rumo Uauá e Vila Nova da Rainha, com Joaquim Cardoso da
Silva Matos, filho de Rafael dos Anjos, sendo avô de Francisco Borges.
Entre seus
descendentes destacaram-se os Borges de Sá, de Uauá, dentre os quais emergiram
sete prefeitos dessa cidade.
Entretanto, o
filho de Francisco cujo nome assumiu maior significado na História do Cangaço
foi Herculano Borges, nascido em Uauá, cerca de 1894.
Herculano
Borges, que se casou com Maria Ossanta Borges Salles.
Foi este
Herculano Borges que, em 1931, aos 37 anos de idade, foi trucidado por
Corisco...
2 de outubro
de 1931, no “Diario de Noticias”
... Um negociante
cortado em postas!
Corisco e seu
grupo torturaram uma ex–autoridade policial.
GUERRA
IMPLACAVEL AOS BANDOLEIROS ATÉ QUE O SERTÃO SE LIBERTE DA PRAGA SINISTRA
Santa Rosa é
um districto de paz do ex–municipio de Jaguarary, ultimamente annexado a
Bomfim, de onde dista cerca de 12 léguas. Não é um lugar prospero:
caracteriza–o o abandono em que jazem as localidades do Nordeste, onde apenas
as feiras conseguem offerecerum pouco de vida, de movimento, de intensidade
commercial, um dia em cada semana.
Em Santa Rosa
residia o sr. Herculano Borges, sobrinho do coronel João Borges de Sá, de Uauá.
Negociava com relativo exito, vivendo vida corrente e tranquilla com sua mulher
e filhas. Era estimado e possuia amigos. Nada mais que isso desejava, para se
considerar feliz.
NO “INDEX” DO
BANDIDO
Um dia,
indicaram–no para as funcções de subdelegado local. Relutou elle em aceitar,
porque não era politico: disseram–lhe que esse seria um relevante serviço que
ia prestar ao Governo e á população local, cooperando na campanha empenhada
contra Lampeão.
Herculano
Borges pensou melhor e aceitou o cargo; no exercicio do mesmo, fez–se uma
autoridade util áquella campanha, trazendo o sicario apertado e, por isso
mesmo, caiu–lhe no ról das pessôas condemnadas.
Além disto, o
seu tio coronel João Borges de Sá é velho inimigo de Virgolino, tendo–o
mettido, certa feita, na cadeia, em Uauá, quando elle era, apenas, tropeiro de
Delmiro Gouveia.
PRIMEIRO, OS
BENS INCENDIADOS
Lampeão, chefe
dos bandidos, e como tal tido e obedecido por elles, conseguiu, ha tempos
burlando a vigilancia da autoridade de Santa Rosa, penetrar, de surpresa, nessa
localidade.
Herculano mal
teve tempo de fugir com a familia, numa inevitavel viagem desabalada, vindo a
fixar residencia, com suas cinco filhas menores, na cidade de Bomfim. Mas
perdeu quanto possuia. O grupo sicario quebrou, espatifou, os moveis do seu
perseguidor policial; na loja que elle possuia, praticou um saque de vandalos e
depois, ateou fogo á casa com todo o “stock” nella existente.
Era o inicio
da vingança.
Herculano
experimentou, assim, o castigo de haver sido um homem de bem, que não
compactuou com o crime, na sua vida de cidadão. Ficou residindo em Bomfim, não
sem ir, de vez em quando, a Santa Rosa, menos para enfrentar o risco ou matar
saudades, que por irrecusavel necessidade de alli commerciar, na feira local,
ás sextas feiras, como negociante ambulante.
A ESMAGADORA
SURPRESA!
No dia 19,
penultimo sabbado de setembro, Herculano Borges, feita a feira na vespera,
regressava, pela estrada quente, interminavel, a serpentear entre capoeiras
sombrias, descampados nús de vegetação, a subir encostas fatigantes e a descer
serrotes. Vinha montado e trazia suas mercadorias no lombo da burrama docil á
voz do “pagem”...
Fazia calor e
Herculano, cansado da viagem, fez uma parada, Apeou. Perto havia uma “cacimba”.
Para ella encaminhou–se e, descuidado, pensando certamente na familia, que ia
revêr satisfeito, abaixou–se mitigando, no fio claro dagua corrente, a sêde que
lhe seccava a garganta.
Surpreendeu–o
nessa posição o tropel de cavalleiros inesperados. Elle voltou–se, na convicção
de que talvez se tratasse de algum caixeiro viajante. Mas, não; a divida durou
o tempo de um relampago, porque alguem, do grupo, despertava–o para a negra
realidade:
– Cel.
Herculano, levnte–se para morrer, que vocês está com “Corisco” pela frente”
VERDADEIRO
SUPPLICIO
Era,
realmente, aquelle grupo composto do emulo de Lampeão, e de mais 9 cáibras, que
detinham o infeliz sertanejo.
O crime deste
era não ser “coiteiro”, era o de haver servido á sociedade contra salteadores e
assassinos; era o de haver cumprido com o dever que assiste a todos os
sertanejos, nessa luta contra os bandidos de Lampeão.
Não
descreveremos o supplicio pelo qual padeceu, como um martyr christão, o sr.
Herculano Borges.
Amarraram–no.
Cortaram–lhe
os braços.
Cortaram–lhe
os pes.
Degollaram–no.
E,
esquartejado, feito em postas, os pés sangrentos dentro das botinas, foram seus
restos mortaes enfiados em estacas, como demonstrações do quanto é perverso o
odio da horda de Lampeão...
PELO SANGUE
DERRAMADO, GUERRA AOS SICARIOS!
O doloroso fim
desse sertanejo deve inspirar ás populações do Nordéste um compromisso sagrado
– o de lutar, ao lado da Força Publica, contra os sicarios.
Pelo sangue
que elles teem derramado das victimas que surpreendem, o de prestigiar os
perseguidores da gente de Lampeão, dennunciando–lhes os seus “coiteiros”.
É proposito do
Governo do Estado não dar tréguas a Lampeão, lançando em pratica um traçado
modo de campanha que não póde ser divulgado, mas que deve ser facilitado.
O Capitão Facó
espera, conforme ainda hoje declarou ao DIARIO DE NOTICIAS, que os sertanejos
favoreçam as tropas volantes com um ambiente de facilidações, contando para
isso com o auxilio da imprensa. É o que fazemos – apontando esse novo barbaro
crime á execração geral!
.
Aparece em
Felippe de Castro (1975), a narrativa do início do problema:
Corisco foi
para a cidade de Bonfim, corrido, afastando-se para sempre da região de Glória
e Pedra de Delmiro. Na nova cidade que passou a residir iniciou vida nova,
negociando com bugingangas na feira - era camelô - aos dezessete anos.
Certo dia,
Herculano Borges, delegado de polícia daquela cidade, homem, segundo conceito
popular, de máus bófes, recebe de um dos fiscais da feira uma queixa contra o
camelô, acusando-o de sonegação de imposto, naquela época, cinqüenta réis de
ocupação do solo. Apresentado ao delegado, este indaga-lhe o motivo da
protestada recusa, tendo o acusado se justificado, alegando já ter pago a outro
fiscal, por isso que a acusação era injusta. Não se conformando, todavia, o
delegado, mandou recolhê-lo ao xadrez debaixo d eimpropérios ofensivos, culminando
por agredi-lo com um pontapé nas nádegas. Sabe-se que no percurso da feira ao
quartel, onde ficava o xadrez, os soldados da escolta espancaram o rapaz que,
raivoso com o ato injusto e violento, prometeu vingar-se declarando, em
presença do próprio delegado, chorando de ódio: “Quando eu saí daqui o sinhô me
paga seu Herculano”. Só depois de vinte e quatro horas soltaram-no.
Desesperado
com os maus tratos que lhe deram, injustamente, resolveu vender o que tinha e
com o produto desse negócio comprou um rifle e internou-se nas caatingas.”
Depoimento de
Raimundo Gonçalves, nascido em 1926, em Jaguarari:
Fonte:
O Cangaço na
Bahia imagens e texto professor: Rubens Antonio. Rubens Antonio.
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