Por João de Sousa Costa
Maria Gomes de
Oliveira é de 8 de Março nasceu na Bahia em 1911 numa família numerosa de
homens e mulheres: Ananias, Oséias, José, Isaías, Arlindo; e mais Benedita,
Antônia, Dorzinha, Chiquinha, Nana, Dondon e Deusinha.
Sua avó era
holandesa de nascimento, casada com um português; tendo o casal emigrado para o
Brasil em 1850 e radicado na Região de Santa Brígida.
Mais conhecida
no sitio Malhada da Caiçara, onde vivia Maria de Déa, seguiu uma tradição
social sertaneja, de influência judaica: a endogamia. Casou com um primo
chamado José Miguel da Silva, mais conhecido como Zé de Neném. Sapateiro de
profissão, homem mais velho e condições de sustentar uma família.
Sua irmã
Dondon fez o mesmo, casou com um tal de Cícero, também sapateiro e irmão de Zé
de Neném. Desde a sua infância até a fase adulta, Maria de Déa preservou uma
confidente e conselheira: sua prima Maria Rodrigues.
Como Maria
conheceu Virgulino, há versões para todos os gostos. Em prosa e verso. Mas
segundo Oséias, seu irmão, Lampião frequentava sua casa. E o casal se conheceu,
dançou e namorou, antes de Maria tomar a decisão de seguir o novo amor.
Mas há relatos
que indicam mais sobre as inquietações da baianinha que viria ser a “Rainha do
Cangaço”. Contam que, mesmo casada, Maria de Déa teve aventuras extraconjugais.
O escritor Alcino Costa atribui à Maria Bonita um caso com comerciante de
tecido de Santa Brígida.
“Um romance
sigiloso, com o tal comerciante de nome João Maria, tão sigiloso que ainda hoje
é negado pelos seus familiares”. Este suposto romance extraconjugal não é
mencionado em profundidade por nenhum outro escritor.
Conta-se que
entre 1929 até 1932, já convivendo com Lampião, permaneceu Maria em casas de
coiteiros. Por conta da Revolução de 1930, a repressão ao cangaço arrefeceu, as
forças policiais estavam focadas no Litoral e Lampião aproveitou a oportunidade
para determinar que as mulheres casadas com cangaceiros podiam se juntar ao
bando.
Foi uma
mudança radical no cangaço no que se refere a costumes, higiene e civilidade
nas relações em grupo, porque o bando seguia barbarizando nas razias e
vinditas.
Atentem para
as fotografias de Maria Bonita e das demais cangaceiras; elas expressam
esteticamente como elas gostariam de ser lembradas: bem vestidas, cobertas de
joias e em poses ensaiadas (nas duas fotos abaixo, uma Maria Bonita produzida
para ser fotografada e outra despojada de adereços)
A vaidade
reinante no bando criou uma estética, um estilo. Lampião não deixava por menos:
homem dos “sete instrumentos” pois dominava a arte de costurar em couro, fora
pedreiro, dava uma palinha na harmônica e também compunha, além de ser um “pé
de valsa”.
E a relação
com Virgulino veio a maternidade, uma vez que no primeiro casamento, devido à
infertilidade de Zé de Neném, ter filhos estava fora de questão.
Relatam que
Maria Bonita engravidou quatro vezes, mas só uma filha nasceu e que recebeu o
nome de Expedita. O parto foi assistido por uma senhora de nome dona Rosinha, e
é atribuída a essa parturiente o fato de a criança ter sobrevivido, pois nos
outros três partos anteriores não houve assistência alguma.
Maria Bonita
foi descrita pelo Diário de Pernambuco como “Madame Pompadour” do Cangaço, uma
definição de Benjamin Abraão. Na edição de 30 de julho de 1938, sobre os
acontecimentos em Angico, inclui um parágrafo sobre Maria de Déa, que diz:
“Maria Bonita
amava Lampião doidamente. Nunca o abandonava quando no combate. Com ele viveu,
com ele morreu”.
Por fim, o
relato do soldado José Panta de Godoy, da volante do aspirante Francisco
Ferreira de Melo e que foi o carrasco de Maria Bonita. Diz ele:
“Aí eu atirei
nas costas dela e ela caiu; no que ela caiu, ela levantou-se; eu dei outro tiro
na barriga dela, assim por trás, ela caiu e não levantou mais. O soldado Santo
cortou a cabeça de Lampião, e depois me emprestou o facão para mim cortar a
cabeça de Maria Bonita. Nisso nóis fiquemos levantando a saia dela com a boca
do fuzil, pra vê a caçola que era incarnada”.
E completa o
carrasco:
- No borná de
Maria Bonita tinha um pouquinho de ôro quebrado. Dentro de um pé de meia tinha
uma base de meio quilo de ôro quebrado, além de volta, anel...”
Como Lampião
terminou seus dias todo mundo sabe. Mas como viveu e morreu Zé de Neném?
O pouco que se
sabe, Zé de Neném nunca sofreu assédio da polícia pelo fato de ter sido o
ex-marido da “rainha do cangaço” e também nunca chegou sequer a conhecer
Lampião – seu rival de alcova.
Relatam que
deixou tudo para trás, casou novamente e reconstruiu sua vida; jamais deu
entrevistas; migrou para São Paulo onde fez fortuna e virou industrial do ramo
de calçados.
João Costa.
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Fotos.
Benjamin Abraão.
Fonte:
“Lampião Além da Versão, Mentiras e Mistérios de Angico”, de Alcino Alves da Costa
“Maria Bonita
– Entre o Punhal e o Afeto”, de Nadja Claudino.
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