Seguidores

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Neste Sábado, Cariri Cangaço em Natal

Cangaceiro, com lápis de cor aquarelável, nankin e hidrográfica; de Thales Molina em www.thalesmolina.wordpress.com

Acontece neste próximo sábado, dia 17, às 19 horas no Restaurante Mangai, em Natal, Rio Grande do Norte, mais um encontro do Cariri Cangaço-GECC com os confrades do Grupo de Estudos do Cangaço, de Natal. O encontro se insere dentro do sentimento de estreitar os laços de amizade e integração entre os vaqueiros da história destes dois estados nordestinos com forte viéis de pesquisa e estudo da temática cangaço.

Sábado, dia 17
19 horas
Restaurante Mangai - Natal/RN

Você é nosso convidado, participe! 

Nota Cariri Cangaço: 
 
Apesar do caráter informal do encontro entre Cariri Cangaço-GECC e o Grupo de Estudos do Cangaço de Natal, sem dúvidas teremos uma pauta positiva, dentro das discussões da formatação do Cariri Cangaço 2012.
 
Os Conselheiros Cariri Cangaço:
 
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgry747JaM6E0Qh1V0zoIi_6lC1zibnDxXUzscvh_HoGC3N5tzp8BJlmRqCUlqwc3FrqeaoVondKcjlu8LVld4Mphtl0zAvVd0LvrIhZe_Ber135LFl4rVzChRrPKh74rAsKuwjw_Wptg/s320/IVANILDO+(543).JPG
 
Ivanildo Silveira,
 
 
Honório de Medeiros,
 
 
Múcio Procópio, além dos pesquisadores,
 
 
Sérgio Dantas,
 
 
Rostand Medeiros, Jomar Henrique, João Marcílio, Coronel Angelo, Carlos, dentre outros estarão participando do encontro estarão participando do encontro.
 
Extraído do blog: "Cariri Cangaço"
http://cariricangaco.blogspot.com/
htpp://blogdomendesemendes.blogspot.com

FOTO DOS CANGACEIROS ADÍLIA E CANÁRIO

Na Trilha do Cangaço - Gato massacra por Inacinha


Grávida de oito meses, Inacinha descansava na Fazenda Retiro, em Alagoas, quando seu grupo é atacado pela volante do então sargento João Bezerra.


Na tentativa de fuga, ela é atingida na altura da nádega direita. Seu companheiro, Gato, tenta levá-la nas costas, mas a abandona no meio do caminho para também não ser preso.


Para resgatá-la, Gato protagoniza, no dia 28 de setembro de 1936, um dos maiores morticínios da história do cangaço. Acreditando que a mulher teria sido levada para Piranhas (a 290 quilômetros de Maceió), Gato parte com o objetivo de tirá-la da cadeia ou, então, seqüestrar a esposa de Bezerra para fazer uma troca.

Cyra, esposa do tenente João Bezerra

No caminho, onze pessoas são mortas a tiros ou a golpes de facão. No combate travado na cidade, mais duas vítimas, o telegrafista e um adolescente de 15 anos. Gato levou um tiro que fraturou sua coluna vertebral, ficando paralisado da cintura para baixo. Levado por alguns dos 16 cangaceiros que participaram da empreitada acabaria falecendo três dias depois.

De acordo com os escritores


Hilário Lucetti e


Magérbio de Lucena, autores de Lampião e o estado maior do cangaço, Gato teria instigado


Corisco a atacar Piranhas, mas este achava a ação temerária, porque a cidade era sede de volante. Como Gato partiu para ação, Corisco acabou seguindo-o. A atitude intempestiva e a falta de estratégia enfureceram


Lampião, porque aumentaria a ação policial no encalço dos cangaceiros. O sargento João Bezerra, que depois comandaria o ataque a Angicos, recebeu a promoção a tenente. Inacinha acabou dando à luz na cadeia, mas o bebê não sobreviveu. Como era menor de idade, não enfrentou nenhum processo judicial.

De mulher de cangaceiro, passou a ser esposa de um policial apelidado de Pé-na-tábua, por causa do hábito de dirigir em alta velocidade. Em entrevista ao Diário de Pernambuco, publicada em 3 de outubro de 1936 e reproduzida no livro Lampião, senhor do sertão, da francesa Élise Grunspan-Jasmin, Inacinha revela que foi raptada por Gato e que não gostava da vida do cangaço. "Um dia Gato me chamou para viver com ele, dizendo que, se eu não fosse, me mataria. Com medo das ameaças que recebia, abandonei a minha casa para acompanhar o bandido. E assim passei todo esse tempo com os cabras nas caatingas".

Diário de Pernambuco

FUNDAJ NOS JORNAIS

 

A herança cultural do Cangaço

Por: Andrade Leal


Amigo Severo,
 
 
antes de tudo gostaria de dizer que vc é um gigante por encabeçar o mais importante evento que trata da nossa história relacionada a vida da nossa querida nação nordestina. Evento muito marcante por reunir tantas pessoas especiais deste Brasil, interessadas em nossa realidade histórica, social, cultural. No caso do movimento do cangaço acho que precisamos destacar também a questão da herança cultural desse movimento que não foi apenas bélico, mas, muito mais amplo. Então, com base nessa herança, precisamos discutir como aproveitar melhor essa estraordinária riqueza em que somos possuidores para gerar novas riquezas materiais e imateriais, derivando portanto ocupação parar as pessoas, emprego, renda, bem-estar, auto-estima, prazer de viver, evitar a migração para outras regiões e mesmo para as cidades litorâneas, as capitais em particular. 

Sugiro lançarmos um amplo documento para os gestores públicos, para a comunidade nordestina, falando dessa herança cultural e os seus impactos no desenvolvimento sustentável da nossa região. Poderemos sugerir, através desse documento, politícas públicas para os municípios e estados nordestinos.Também que nossas sugestões sirvam para as cooperativas e associações populares no âmbito da chamada Economia Popular e Solidária. Acho que temos essa responsabilidade. Apartir da nossa cultura popular poderemos incentivar uma maior derivação no campo da música, do teatro, dança, produção artesanal, da ampliação da rede hoteleira com o aumento do turismo, novas e mais amplas agências de viagens, produção cinematográfica, alimentação, transportes, construção civil, novos museus  etc, etc. 

Porém caro amigo Severo, faço essa defesa em prol dos setores populares organizados e carentes do nosso nordeste e defendo que elementos da nossa cultura popular não sejam esplorados como mercadorias, por  grupos econômicos que querem ampliar mais suas riquezas. Assim, acho que poderemos fortalecer ainda mais o Cariri Cangaço e outros eventos relacionados. Fica aqui minha sugestão, grande abraço.

Antonio Andrade Leal, 
Prof. de Economia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, 
Vitória da Conquista
 
Extraído do blog: "Cariri Cangaço"
 

E AGORA JOSÉ? - O sobrinho de Lampião

Por: Ivanildo Silveira

Muitos estudiosos do cangaço ignoram a existência de “ José “, sobrinho de Lampião, e que estava na Grota do Angico/SE, no fatídico 28 de julho de 1938 ( morte do Rei do cangaço).
A literatura lampiônica fala que na quarta-feira, 27 data esta, que antecedeu o massacre, a pedido de Lampião, a cangaceira
“Cila” costurava o culote para “José” que, três dias antes, se incorporara ao bando.
Desculpem a má qualidade. Esse é o "melhor" aliás o único registro existente.
José Ferreira dos Santos era um rapazote com aproximadamente 17 anos de idade na época do fato, sendo filho de Virtuosa, irmã de
Lampião, que vivia no Juazeiro do Norte/CE, desde o convite e proteção do padre Cícero.
O Jornal "A Tarde" da Bahia, em sua edição de 02 de março de 1939, apresentou importante entrevista com a personagem  José, o qual narra para o repórter, a sua entrada no bando, bem como a sua prisão, que ocorreu na cidade sergipana de Canindé.
Esse indivíduo cumpriu sentença, e, depois, desapareceu. Sabe-se que, ainda, alguns anos depois, ele fez contato com alguns familiares. Visitou sua tia "Dona Mocinha" quando esta residia no estado de Pernambuco, e desapareceu no ôco do mundo. Não se sabe, se o mesmo, ainda hoje é vivo, pois estaria com precisos 91 anos de idade...
É mais um mistério do cangaço. Pergunta-se: JOSÉ, PARA ONDE?
Abraço a todos
Ivanildo Alves Silveira
Colecionador/Estudioso do cangaço
Natal/RN

Matéria do jornal - Cortesia do Dr. Sérgio Augusto S. Dantas/Luiz Ruben
Extraído do blog: "Lampião Aceso"

NA TRILHA DO CANGAÇO

Segredos de esconderijos - Diário de Pernambuco
 

Pesquisador Antonio Vilela de Souza afirma que Lampião tinha no Agreste pernambucano um local seguro. Em uma antiga casa-grande, cangaceiros podiam descansar antes de um próximo ataque.


Antonio Vilela e Belízia Canuto de Souza

O casarão de paredes grossas ainda conserva, na sua base, a senzala onde os negros eram recolhidos depois de mais um dia de trabalho. Antiga casa-grande da Fazenda Nova, em Águas Belas (a 273 quilômetros do Recife), o sobrado do Riacho Fundo foi, aos poucos, abandonado em troca do conforto de uma sede, situada às margens da BR-423. Para se chegar até lá, é preciso autorização dos proprietários e disposição para percorrer, a pé ou a cavalo, cinco quilômetros de uma estrada íngreme e deserta. Se hoje é um esconderijo perfeito, na época do cangaço era um dos coitos preferidos de Lampião quando se deslocava pelo Agreste pernambucano.

Na propriedade do coronel Audálio Tenório, chefe político da região, os cangaceiros podiam descansar em um abrigo que tinha cinco quartos, duas salas, uma grande cozinha e que permitia ainda uma visão total de seu entorno. Mas a volante nunca passou por aquelas bandas. O coronel foi considerado um dos grandes coiteiros de Lampião em Pernambuco e responsável, segundo alguns pesquisadores, pelo contato entre

Virgulino e o libanês Benjamin Abrahão que resultou nas imagens registradas em 1936. O vaqueiro Manoel Oliveira dos Santos, 52 anos, conta que ouviu histórias de que havia ouro enterrado perto da casa. "Mas chegar até é aqui judiativo, tem gente que desiste no meio do caminho". Outro coronel que também deu guarida para Lampião em Pernambuco foi José Abílio, de Bom Conselho.
Mesmo atuando preferencialmente no entorno do Rio São Francisco, entre Bahia, Sergipe e Alagoas, Lampião não deixou de fazer suas andanças em seu estado natal. Tanto que, em 20 de junho de 1935,
Maria Bonita acabou baleada durante um ataque à vila de Serrinha, na serra do Catimbau, na época pertencente a Garanhuns. Avisado de que os cangaceiros estavam chegando, o comerciante e comissário João Caxeado montou a defesa com dois soldados e alguns civis. No tiroteio, Maria Bonita foi atingida nas costas e um cachorro do bando foi atingido pelos tiros e morreu. Feirantes foram obrigados a transportar a ferida, como reféns temporários.
"Há duas versões para a entrada dos cangaceiros, uma de que Lampião veio cobrar dez contos de réis de um homem chamado Chiquito e a outra é de que ele pretendia fazer um baile. Assim como Mossoró, Serrinha expulsou o bandido mais temido do Nordeste, mas não tira proveito deste fato histórico como a cidade potiguar", afirma o professor e historiador Antonio Vilela de Souza, 53 anos, autor de O incrível mundo do cangaço. Há uma década que ele, a partir de sua base em Garanhuns, parte em viagens para entrevistar remanescentes do cangaço e conhecer locais onde ocorreram os principais acontecimentos envolvendo os bandos de Lampião.
Integrante da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), Antonio Vilela de Sousa condensou, em sua obra, as curiosidades envolvendo o fenômeno do banditismo no Nordeste, como a existência de pelo menos 24 casais entre os grupos ligados a Lampião. Sobre a mulher no cangaço, Vilela cita a opinião de
Balão, um dos bandidos contrários à presença feminina. "Ele acreditava que a mulher não tinha resistência física e atrapalhava o homem. A prática de relações sexuais deixaria o cangaceiro de corpo aberto", conta.
"A história do cangaço é rica em detalhes", considera Vilela, que passou a se interessar pelo assunto ainda criança, ao ouvir as histórias de uma vizinha sobre os feitos de Lampião. Ela prepara um novo livro, com mais detalhes sobre a passagem de Lampião em Pernambuco. Outro tema que despertou o interesse do garanhuense foi o pouco interesse dado à morte de
Adrião, o único soldado que tombou no ataque a Angicos, que terminou com a trajetória de crimes de Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros.
Fonte:

Lauro Reginaldo da Rocha - Bangu

Por: Souza Neto
Minha foto




Bangu  era o nome de guerra do mossoroense Lauro Reginaldo da Rocha dentro do Partido Comunista Brasileiro. Foi operário, sindicalista, militante político, Secretário Geral do Partido. Sofreu  várias prisões, onde viveu a experiência da violência até o limite da tortura, tudo em nome de uma causa: a causa do proletariado brasileiro. Nasceu em Mossoró no dia 17 de agosto de 1908.

Transcrevemos abaixo parte das memórias de Lauro Reginaldo da Rocha, capítulo em que ele dedica o período em que esteve preso na Colônia Dois Rios.
 A ILHA GRANDE
COLÔNIA DOIS RIOS ILHA GRANDE
Fomos avisados da nossa ida para a Ilha Grande. A Ilha Grande, como presídio, tinha uma pavorosa fama. Em capítulo anterior destas memórias fizemos ligeiras referências ao pavor que a Ilha Grande inspirava aos presos comuns. Quanto aos presos políticos, meus irmãos Jonas Reginaldo da Rocha e Antônio Reginaldo Sobrinho lá estiveram por dois anos, quando vieram deportados do Rio Grande do Norte, juntamente com centenas de outros companheiros, após a revolução de 1935.
Era diretor do presídio naquela época, o famoso Canepa, que celebrizou-se pelas crueldade que infligia os presos em geral, que tinham a infelicidade de cair sob sua guarda. Presos comuns e presos políticos viviam sob regime forçado, obrigados a carregar vigas perigosamente pelas montanhas, sem ter em conta a constituição física e a saúde de cada um.
Jonas, com um pouco mais de resistência, conseguiu subsistir aos maus tratos. Toínho mais fraco, não resistiu e chegou a ser carregado nas costas pelo conterrâneo Epifânio Guilhermino que demonstrou na hora da aflição, o seu elevado espírito de solidariedade, o que fez reforçar a estima e o apreço que sempre tivemos por ele.
Toínho voltou da Ilha Grande com os nervos abalados, nunca mais recuperou a saúde, acabando seus dias tristemente, num hospício em Natal.
Do acervo do jornalista Geraldo Maia do Nascimento

Entretanto, o mundo dá muitas voltas. A nossa ida agora para a Ilha Grande, já não inspirava pavor. O Brasil, como já foi dito, entrou na guerra ao lado das Nações Democráticas para combater o nazi-fascismo. Seria difícil prever qual a reação do nosso povo e dos pracinhas, após a vitória, diante da existência da ditadura do Estado Novo, com seus cárceres apinhados, com seus crimes e atrocidades. Não seria fácil fazer o povo entender essa contradição. Enquanto ele sacrificava sua vida para derrotar o nazismo na Europa, aqui mesmo em nosso país, se mantinha de pé uma ditadura implantada nos mesmos moldes nazistas. Além disto, as ruas das cidades estavam cheias de inscrições pedindo anistia e nas manifestações populares de todo o país, era esse o clamor das multidões.
O governo de Getúlio sentiu que chegara a hora de recuar. Transferiu os presos políticos para a Ilha Grande e entregou a direção do presídio ao Coronel Nestor Veríssimo, caudilho gaúcho, ex-participante da Coluna Prestes, o elemento indicado para abrir caminho à transformação democrática e à anistia.
Um transporte da Marinha nos levou à Ilha Grande. Ao desembarcar em Dois Rios, fomos recebidos na praia, por funcionários do presídio, que ali mesmo procederam a nossa identificação. Horas depois estávamos instalados nos alojamentos a nós reservados.
No dia seguinte, depois do café, os portões foram abertos e pudemos sair, ir à praia, passear pelas ruas. Só não podíamos sair da vila sem permissão.
Nos primeiros passeios ficamos conhecendo a figura curiosa do Coronel Nestor Veríssimo. Ele andava montado numa burra, pachorrento, e foi assim que o vi pela primeira vez. Gordo, estrábico, fala mansa, costumava quebrar a seriedade de algumas conversas com um palavrão chistoso. Diziam que tinha o corpo cheio de marcas de perfurações por balas. Era um tipo patriarcal, com fama de corajoso e justiceiro.
Os presos políticos da Ilha Grande (nacionalistas, socialistas e comunistas) se consultaram e tomaram uma resolução com referência a guerra que o Brasil estava enfrentando, sob a bandeira das Nações Unidas, contra o nazi-fascismo. De acordo com a resolução nós os presos políticos mencionados, nos colocávamos à disposição do governo brasileiro a fim de seguirmos, voluntariamente, para o front da guerra contra o eixo nazi-fascista. Finda a guerra, voltaríamos dispostos a cumprir normalmente, até o fim, as penas a que fôramos condenados.
O nosso oferecimento formal representava apenas uma tomada de posição, pois não tínhamos ilusões quanto a sua aceitação, não só pela absoluta falta de bases jurídicas, mas também por motivos discriminatórias de caráter ideológico, fáceis de imaginar.
A nossa decisão foi encaminhada através da direção do presídio. Entretanto, nenhuma resposta chegou até nós. Como fora previsto, a nossa proposta não foi sequer tomada em consideração.
Entre os “quinta colunas” presos na Ilha Grande havia um rapaz, brasileiro, tipão forte, carrancudo, que chamava a atenção pelos motivos de sua prisão. Ele tinha sido convocado para as fileiras do Exército e incluído no Corpo Expedicionário Brasileiro. Quando se aproximou a hora de embarcar para o front da Itália, ele deu um tiro no próprio pé, para fugir do seu dever. E de fato não embarcou, mas foi preso e processado. E se vangloriava do seu ato vergonhoso.
O Coronel Nestor Veríssimo, diretor do presídio, abriu a possibilidade de trabalho aos presos políticos. Os que voluntariamente quisessem, poderiam trabalhar, recebendo uma pequena remuneração. Essas frentes de trabalho constavam de serviços de pedreiro (construção de casas residenciais, sendo uma para hospedagem das visitas dos próprios presos políticos), carpintaria (construção de uma lancha no estaleiro existente), pintura, fabrico de carvão na mata próxima etc.
O trabalho remunerado era importante, especialmente para os que tinham família e não recebiam “montepio” ou qualquer outro rendimento. O trabalho em si permitia também, uma mudança para melhor no sistema de vida seguido até então, pois a maioria dos presos políticos vivia encerrada nos cubículos, fabricando quinquilharias, dormindo ou passando o tempo com jogos e bate-papos quase sempre inúteis.
Com o novo trabalho proposto, os presos passariam a ter uma vida mais sadia, ao ar livre, alguns teriam oportunidade de aprender uma profissão, outros de exercitar a que já possuíam. Aconteceu que certos líderes presumidos, que não tinham grande necessidades de dinheiro nem estavam muito habituados ao trabalho profissional, deram o contra. Muitos estranharam que alguém pudesse ser contra o trabalho. Uma coisa tão normal, tão necessária e mesmo imprescindível à vida do operário. Conjecturas surgidas daqui e dali atribuíam a ciúmes dos tais líderes, receio infundado de perderem o controle de seus liderados, que iam se afastar de sua proteção.
Foi convocada uma assembléia do coletivo para resolver o assunto. Nos debates, os inimigos do trabalho declararam finalmente, as razões de sua atitude. Segundo eles o trabalho proposto pelo diretor oferecia o seríssimo perigo de corromper alguns companheiros mais fracos. Por isso estavam contra. Esse conceito de fragilidade essa suspeitosa acusação lançada no ar desta maneira, indiscriminadamente, era vexatória e desconcertante.
O argumento em si era frágil demais e não foi difícil e réplica dos favoráveis ao trabalho. Disseram estes que trabalhar é um direito pelo qual lutam os povos em todo o mundo e que qualquer tentativa de impedir o exercício desse direito era uma violência. Mais grave ainda, era essa violência, quando partia de quem justamente devia defender e apoiar essa justa causa. Disseram mais, que o trabalho nunca foi meio de corrupção para o trabalhador e sim de subsistência. E sendo um meio de subsistência, tentar impedí-lo é mais do que uma violência, é uma ação desumana.
Quanto à corrupção, corrompe-se aquele que é corruptível e o corrupto, na sociedade capitalista, encontrará sempre meios de se corromper, quando bem o desejar. Se o trabalho fosse um fator de corrupção, que seria da classe operária, que vive do trabalho, seu único meio de vida? A discussão prosseguiu horas e horas a fio. Depois de três dias seguidos de calorosos debates a mesa teve que submeter o caso a votação. A maioria votou pelo trabalho. Os inimigos do trabalho não se conformaram com a derrota. Abandonaram o coletivo, mudaram-se para outra galeria e formaram um novo coletivo minoritário. Realizaram a cisão sem fundamento, desnecessária e ridícula.
Uma vez que não conseguiram “acaudilhar” a todos os companheiros, conformaram-se em ser chefes de uma minoria.
Trabalhou quem quis. Quem não quis não trabalhou. Porque ninguém foi obrigado a nada. E ninguém se corrompeu nem se desonrou para desespero dos falsos profetas. Quando houve a anistia, vi “trabalhista e não trabalhista” abraçados, na maior alegria. E mais tarde em liberdade, estavam novamente irmanados na mesma luta. As pequenas querelas desaparecem, sempre que há um ideal mais forte.
Um grupo de presos políticos em abaixo assinado, requereu ao Coronel Nestor Veríssimo permissão para que todo aquele que assim desejasse, pudesse morar com sua família na Ilha Grande. O requerimento baseava-se na existência de um antigo projeto de criação de colônias agrícolas para presidiários, no qual esta permissão estava incluída. Segundo nos informaram, o diretor do presídio levou o oficio diretamente ao presidente Vargas, tendo sido por este despachado favoravelmente.
Em vista desse atendimento, todos os presos políticos passaram a ter direito de mandar buscar suas famílias para a Ilha, com casa de graça para morar, podendo retirar semanalmente os gêneros alimentícios em espécie, correspondente à etapa a que um tinha direito como detendo. Viveriam fora do presídio, tendo apenas que se apresentar na portaria pela manhã e à tarde. E seus filhos podiam freqüentar a Escola Pública existente na vila.
Como já havia o direito ao trabalho parcialmente remunerado, ficariam assim com a subsistência garantida, modesta mais suficiente. O ofício solicitando a nossa moradia na Ilha foi assinado (se não me falha a memória) por Mauro, Brás, Azevedo, Bonfim, Epifânio Guilhermino, eu e outros.
Na margem do rio havia um velho edifício abandonado, que noutros tempos fora hospital. Nós mesmos, os futuros moradores, restauramos, pintamos e dividimos o casarão em apartamentos, cada qual escolheu o seu. O tenente França tomou posse de uma casinha desabitada que havia próximo à praia e, caprichosamente, transformou-a nem pequeno “bangalô”.
Antes desses preparativos eu já tinha consultado, por carta, minha família sobre sua vinda para a Ilha. A resposta afirmativa veio rápida e decidida. Agora era só aguardar.
Quanto aos recursos financeiros para a viagem, ficou por conta da “campanha de ajuda aos presos políticos e suas famílias”, que funcionava no Rio e nos Estados. Graças ao trabalho formidável de solidariedade encabeçado pelos abnegados companheiros Jorge da Silveira Martins, Fernando Lacerda e muitos outros, a importância suficiente foi arrecadada e enviada ao Rio Grande do Norte.
O difícil, para minha família era realizar essa viagem por terra, já que a vinda por mar era impossível, devido aos freqüentes torpedeamentos dos navios brasileiros pelos submarinos alemães. Estradas de rodagem, praticamente não existiam e uma viagem como essa na época, era uma verdadeira temeridade.
Minha mulher, com as três crianças, resolveu enfrentá-la. Arrumou a trouxa e se pôs na estrada. O filho mais velho tinha 6 anos de idade, o menor 5 e a menina 4.
Para se ter uma idéia do feito, vamos descrever o roteiro. Essa viagem, nos dias atuais, é uma viagem comum, de ônibus, e leva 4 ou 5 dias. Naquele tempo ela foi realizada da seguinte maneira: de Mossoró a Natal, em caminhão do Correio; de Natal a Recife de trem; de Recife a Petrolina num jipão do Exército; de Petrolina a Juazeiro na Bahia de barca; de juazeiro a Pirapora em Minas, pelo Rio São Francisco de gaiola; de Pirapora a Belo Horizonte ao Rio Janeiro de trem, idem; do Rio a Mangaratiba de trem; de Mangaratiba a Abraão (Ilha Grande), de Lancha (a balalaika); de Abraão a Dois Rios de ônibus.
Com mais de 2 meses de viagem, chegaram ao presídio da Ilha Grande, a mulher e os três filhos. Magros e queimados de sol, de fazer dó. Mas chegaram. Ainda com saúde, alegres e felizes.
A minha família, da mesma forma como as outras que iam chegando, já encontrou a casa pronta, com móveis improvisados e utensílios domésticos indispensáveis. Para isto favoreceu o espírito de solidariedade e ajuda mútua e também o fato de que muitos ali eram operários especializados. Tínhamos, de boa qualidade, marceneiros, pedreiros, pintores, mecânicos, ferramenteiros, além daqueles que tudo fazem e de tudo entendem um pouco e que são utilíssimos nessas horas. Tudo de graça, pelo sistema do cooperativismo.
Para garantir e reforçar a alimentação, já havíamos iniciado a criação de galinhas, patos e cabritos. Tínhamos ao lado da casa o rio que dava alguns robalos e bem perto estava a praia, onde a pescaria de arrastão nos fornecia peixes fresquinhos, quase sempre com fartura. O leite e as verduras vinham da vacaria e da horta do presídio. Aos domingos havia uma feirinha dos caipiras, onde podíamos nos abastecer por bons preços, de frutas e algo mais que nos faltasse.
As crianças se recuperaram rapidamente da longa viagem, ficaram fortes e foram entrando para a escola, à media que iam atingindo a idade. E assim ia transcorrendo a nossa vida de presidiários, agora amenizada com as novas medidas humanizadoras.
Entretanto, à tarde, quando parávamos de trabalhar, quando o sol começava a se esconder no horizonte, é que a gente fazia esforço para afugentar a tristeza e evitar a depressão. É que, por mais que procurássemos nos convencer de que tudo ia bem, não conseguíamos sufocar os nossos anseios de liberdade.
Não estávamos com nenhuma corrente nos pés (também pudera!), os “quadrados”, as “as salas de detidos” e as “solitárias” ficaram para trás. Mas estávamos numa ilha-Prisão.
Tudo corria normalmente. No Cassino dos Guardas realizou-se uma festa dos funcionários do presídio. O Coronel Nestor Veríssimo esteve presente. Depois que tudo terminou ele sentiu-se mal. Disseram que houve qualquer complicação relacionada com seus antigos ferimentos. A doença agravou-se rapidamente. Alguns dias depois estava morto.
Em substituição ao falecido, assumiu a direção do presídio o Major Coimbra, também gaúcho. O novo diretor manteve todas as regalias instituídas pelo seu antecessor, demonstrando boa vontade no tratamento com os presos políticos. Decididamente uma aura aprazível estava amenizando nossas penas. Sá faltava a anistia. Estávamos certos de que ela não tardaria a chegar.
Nas frentes de combate da grande guerra, começou a derrocada das tropas do “eixo”.
No campo decisivo da Europa, pelo leste, a fina flor do Exército nazista era tangida de roldão pelo Exército Vermelho. Pelo oeste, com a abertura da segunda frente pelos aliados, a fuga dos outrora orgulhosos representantes da pretensa raça superior era em sentido contrário, em direção a Berlim. No sul, no front da Itália, onde combatia a valorosa Força Expedicionária Brasileira, fechava-se o grandioso cerco. Só restava às feras nazistas o seu próprio covil, onde seriam definitivamente dizimadas.
19 de abril de 1945. Foi decretada a anistia ampla para todos os presos políticos no Brasil. Quando a notícia chegou ao presídio da Ilha Grande, embora já fosse esperada, a primeira reação que nos causou foi de perplexidade. Depois a realidade foi se formando aos poucos em cada um, até se transformar numa alegria geral, transbordante, incontida. Alegria de quem se sente renascer para uma nova vida. A festa espontânea, cada qual festejou ao seu modo, sem limites de tempo ou de programação. Um transporte da Marinha foi posto á disposição do diretor do presídio, para nos levar para o continente.
A situação de Adauta, esperando o bebê para aqueles próximos dias, nos tirou a chance de viajarmos todos juntos para a liberdade. Combinamos, então, que eu iria na frente, com todos os demais anistiados, a fim de providenciar o arranjo de nossa nova residência no Rio e dar os primeiros passos na procura de trabalho. Ela continuara por uns dias na Ilha com as crianças aguardando minha volta que seria breve. Assim combinado embarquei com todos para a grande cidade.
Quando desembarcamos no Cais do Porto, uma multidão festiva nos aguardava. Os que tinham família no Rio, foram recebidos e conduzidos por seus parentes. Os que não tinham, como era o meu caso, encontraram amigos e correligionários prontos para ajudar.
À minha espera e também do jovem nordestino Ademar, estava o saudoso Saul, companheiro de lutas dos velhos tempos. Ele nos recebeu com grande alegria e, depois de palavras animadoras, nos levou até o seu carro, a sua famosa baratinha. Dentro em pouco estávamos em sua confortável residência.
A minha maior dificuldade era para alugar uma casa. Naquele tempo, os proprietários, de imóveis exigiam altas luvas por um contrato de locação e eu como é fácil de se deduzir, saíra da prisão sem um níquel no bolso.
Mas o Saul tinha uma agradável surpresa para mim. Nos terrenos de sua mansão havia uma casa vazia, com dois cômodos, e ele a pôs à minha disposição até que eu pudesse me arranjar. Nela fiquei por dois anos, quando consegui mudar para uma casa própria, adquirida com muito trabalho e muito esforço.
Quanto ao emprego, o meu plano era recorrer a uma de minhas habilidades profissionais (desenhista, tipógrafo etc.), quando fui informado por um amigo de que havia uma oficina de maquetes na Av. Venezuela, de propriedade de Zanini. Este trabalho, dizia o amigo, seria o recomendado para mim, em vista da minha facilidade em assimilar esse tipo de atividade.
Fui no dia seguinte e fiquei conhecendo Zanini – essa figura humana excepcional, esse artista e arquiteto nato, no dizer de Lúcio Costa. No fim de um ligeiro papo eu já estava empregado. A oficina era bem montada, com uns 30 operários, dividida em setores especializados: desenho, pintura, corte armação e acabamento. Comecei como desenhista, realizando tarefas. Três meses depois passei a desenhar e a dirigir a confecção das primeiras maquetes. Um ano depois, eu era o encarregado de toda a oficina. Após dois anos, quando Zanini mudou-se para S. Paulo, montei meu próprio estúdio de maquetes.
Quanto voltei à Ilha Grande alguns dias depois da Anistia, já encontrei meu novo filho que nascera no dia 1º de maio. Na primeira lancha embarcamos para o Rio, eu e toda a família.
Aí começou tudo de novo. Fomos morar na casa que o Saul nos emprestara. É claro que não havia nada dentro dela, precisávamos de móveis, utensílios domésticos, roupas e alimentos.
Eu tinha diante de mim um desafio. E passei a trabalhar com denodo e entusiasmo, dia, noite, domingos e feriados: e me sentia feliz, como se as próprias dificuldades me empurrassem para frente e me encorajassem. O meu esforço visava apenas criar os meios suficientes para educar os filhos e manter a família dentro de uma padrão de vida razoável e digno. Com o decorrer do tempo eu ia conseguindo o meu propósito, a custa do meu próprio esforço.
O Partido estava agora com nova direção, numa fase de franco desenvolvimento, facilitado pela legalidade e pela euforia criada com derrota do nazi-fascismo e pelo surgimento de novos Estados Socialistas e novas democracias. Eu tinha a impressão de que eu não estava fazendo falta ao Partido, pelo menos não me tinham procurado, até então, para as “grandes tarefas”.
Pelo sim, pelo não, procurei estabelecer contatos com alguns dos novos dirigentes a fim de “oferecer os meus préstimos” e saber se eu podia ser útil em alguma coisa. Mas, encontrava sempre grande dificuldade em falar com esses companheiros, estavam sempre muito ocupados, num entra-e-sai apressado dos seus gabinetes de trabalho nas sedes legais do curto período de legalidade do partido. Tinham sempre reuniões, encontros e tarefas muito importantes, pediam para aparecer noutra ocasião.
Com receio de que pudesse estar importunando, não mãos os procurei. Aproveitei a folga que esses “mui ativos” companheiros bondosa e tacitamente me concediam e continuei o meu trabalho de organização partindo das bases, nos bairros, que já havia começado.
Lauro  Reginaldo da Rocha morreu no dia 4 de abril de 1991, aos 83 anos de idade, consciente de ter  dedicado a vida a uma causa justa.
Fonte:

Coração peregrino (Poesia)

Por: Rangel Alves da Costa
Rangel Alves da Costa

Coração peregrino


Muito distante é o amor
longo e difícil é o caminho
em busca da paz o fragor
mesmo cansado e sozinho
abraço o passo que dou
afastando medo e espinho


fechei a porta em busca de luz
por querer me fiz peregrino
coração carregando uma cruz
cansado de ser desatino
fé que faz caminhar e conduz
ao desejo maior e destino


se todos buscam a felicidade
e a paz encontram no amor
caminho de tamanha verdade
procura eterna de maior louvor
amanhã ao entrar na cidade
direi ao coração que chegou


chegou o momento de refazer
toda a vida que se quer ter
para ter da vida o que merecer...



Rangel Alves da Costa
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

A CIDADE DOS DOIDOS (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa
Rangel Alves da Costa

A CIDADE DOS DOIDOS
Quem me contou jurou por Deus que não era maluco, por isso acreditei, mesmo sabendo que não tenho o juízo muito certo. Mas segundo o amigo, existia - e talvez ainda exista – um lugarejo muito diferente desses que comumente conhecemos. A primordial diferença que é ali só havia doido.
E maluco de todo tipo: doido de pedra, ruim do juízo, afetado pela lua cheia, amalucado, desnorteado da cabeça, alheio às coisas da vida, apatetado, pessoa velha acriançada, lelé da cuca, apatetado.
Mas também outros tipos de doidices, cujos sintomas eram silenciosos e ao mesmo tempo perigosos demais, pois havia o doido de paixão, o endoidecido de amor, a mocinha maluca que conversa com o vento e namorava com uma estrela, rapaz velho que só andava de fralda e com chupeta na boca.
Como a loucura era comum, com todos se entendendo e convivendo na base da maluquice, praticamente não havia diferença de classe, de poder nem centralização deste nas mãos de alguns doidos mais espertos. Verdadeiramente era uma doidice socializada, num sistema comunitário de vida e compartilhamento de ações.
A cidade dos doidos possuía algumas características engraçadas. As ruas não eram pavimentadas nem de terra batida, mas completamente tomadas de pedrinhas, maiores ou menores, que serviam para cada um se abaixar, pegar a que quisesse e jogar no outro. Logicamente que não havia janela de vidro e os telhados das casas eram todos espatifados pelas pedras jogadas.
Quando era tempo de lua cheia uma leva de doidos ficava sem suportar. Com o pouco do juízo querendo voar a todo custo, ao anoitecer se via muita gente segurando a cabeça com as mãos, querendo gritar, indo em direção às lugares mais altos das redondezas. Por lá, subiam nos cumes e se voltavam pra lua imensa, gritando, querendo explodir, ficando ainda mais enlouquecidos. Soltavam uivos feitos lobos, ganiam feito animais feridos.
Ao entardecer, pelas janelas abertas se viam as mocinhas loucas de amor, sonhando com príncipes encantados que surgiriam montados num lindo e alvíssimo cavalo alazão. Muitas choravam, conversavam sozinhas, se lamentavam da vida e do destino desamoroso; outras apareciam com cartas nas mãos, fotografias e objetos, e depois começavam a bater no peito, a pular e a gritar, a desmaiar. Era a coisa mais triste de se ver.
A velha, completamente nua e apenas com um lenço na cabeça, colocava sua cadeira de balanço na calçada e ali ficava matutando em nada, balançando suas pelancas ao vento do entardecer. Todos os dias a mulher se apimentava toda, vestia calcinha e sutiã vermelhos, se lambuzava de pintura e batom também vermelhos, e de bolsinha vermelha no braço saía desfilando pelas esquinas perguntando quem queria fazer coisa feia.
Um doido passava por outro dando bom dia e ouvia como resposta que não tinha visto não; outro saía na frente da casa com uma caneca na mão, mijava virado pra rua e depois bebia o líquido de lamber os beiços; um maluquinho saía catando ponta de cigarro e colando uma ponta na outra, e só começava a tragar quando o seu pacaio chegava a mais de metro; a menina todo dia saía cedinho de casa pra caçar um passarinho invisível. Voltava com qualquer um, dava comida e banho e depois colocava dentro de uma gaiola também invisível. E o bichinho saía voando feliz.
Dificilmente as pessoas se alimentavam de outras coisas senão de folhas do mato, flores do campo, palma cortadinha em cubos, salada de folhagens secas que se juntavam pelo chão. Bebiam todo que encontrasse pela frente, principalmente água de sete dias. E dava uma sede danada esperar esse tempo passar. Mas os mais jovens preferiam se alimentar da brisa, do vento, da ventania. E assim ficavam de bocas abertas nos descampados esperando o alimento chegar.
Mas um dia chegou um forasteiro e não conseguiu entender nada do que encontrou por ali. Cruzaram perguntando se Deus estava passando bem, jogaram uma pedrinha que quase acertou seu óculos, um velho passou de dando língua e o bebezão queria a todo custo que ele lhe colocasse no braço e desse de mamar.
E viu a doida mais linda do mundo soltando bolinhas de sabão na janela. Que coisa mais maluca é essa de se apaixonar tão loucamente assim. Pensou, doido de paixão pela maluquinha. E por ali mesmo ficou, vivendo para sempre da insanidade do amor.

Rangel Alves da Costa 
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com