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domingo, 15 de janeiro de 2012

Lançado em Jequié romance sobre a primeira cangaceira do Nordeste Brasileiro

Por: Domingos Ailton

Mais de 300 pessoas compareceram ao lançamento Anésia Cauaçu, de Domingos Ailton, na noite de sábado, dia 29 de outubro último, na Casa da Cultura Pacífico Ribeiro em Jequié, interior baiano. Homenagens foram feitas pelo autor do livro, houve apresentação de repente e do autêntico forró mesa de serra e a mesa dos trabalhos foi composta pelo e por convidados como o advogado Jorge Amado Neto, o historiador Émerson Pinto de Araújo, o escritor Álvaro Ricardo Veiga, representando a Academia de Letras de Jequié, o professor da Uneb – Campus XXI, Vitor Hugo Fernandes Martins, que escreveu a orelha do livro, o secretário de Comunicação e Relações Institucionais da Prefeitura de Jequié, Mário Alves Filho, o ilustrador Gileno Alves, autor do desenho da capa do romance e a jovem Vera trajando gibão, peneira e chapéu de couro em uma alusão a vestimenta de Anésia Cauaçu.


“Foi o lançamento de livro em Jequié que eu já vi reuniu o maior número de pessoas”, afirmou o repórter fotográfico Zenilton Meira, que há mais de 25 anos realiza cobertura jornalística na região. A Casa da Cultura Pacífico Ribeiro, localizada no centro comercial de Jequié, ficou tão lotada que não havia mais espaço para as pessoas se acomodarem. Muita gente não conseguiu entrar no recinto cultural, cujo palco foi transformado pelas decoradoras Dilza Santana e Natália Andrade em um cenário de uma venda antiga (Anésia foi proprietária de um desse tipo de estabelecimento comercial em Jequié). No cenário da venda onde havia feixe de vassouras, pratos de barros, candeeiros, balanças e pesos antigos, panelas de ferro e de barro, resta de alho e rapadura, foi local onde o repentista e cordelista Beija Flor abriu a noite de autógrafos cantando um repente de improviso. Em seguida houve execução do hino de Jequié (letra do poeta Wilson Novaes e música de Acyvando Luz) e pronunciamento do escritor Domingos Ailton, que se reportou ao seu processo de criação literária e a produção literária de Anésia Cauaçu. O romancista contou que escreveu um conto aos seis anos de idade, que teve como base a história de vida de Pedro Januário de Freitas um alagoano de Palmeira dos Ìndios, que nasceu em um tribo indígena, participou do bando de Lampião e conheceu Pe. Cícero. Domingos Ailton forneceu detalhes de como escreveu o texto ficcional, que é baseado em narrativas orais e em fontes escritas como o Jornal A Tarde. O autor do livro homenageou a memória o escritor Jorge Amado, a centenária Alvina Ferreira, que morreu aos 112 anos e conviveu com Anésia Cauaçu, Braulino Antônio de Souza, que conheceu o pai de santo Heitor Gurunga (outro personagem do romance), e o boiadeiro Antônio Ribeiro de Novaes (que revelou dados importantes que embasaram a obra). “Jorge Amado tem influenciado minha produção literária desde a adolescência. Identifico com estilo dele em valorizar a gente simples do povo, em registrar a oralidade e em revelar a dimensão da cultura popular baiana”, afirma o escritor Domingos Ailton. O advogado Jorge Amado Neto e familiares dos outros homenageados in memorian agradeceram a lembrança.
Também foram prestadas homenagens aos guardiões de memória que estiveram presente ao lançamento, a exemplo do historiador Émerson Pinto de Aráujo, o cantor Charles Meira e a mãe do autor, Helena Ribeiro de Novaes, que contribuíram com suas narrativas orais para a produção literária do romance.
No seu pronunciamento, Jorge Amado Neto lembrou de suas ligações afetivas com Jequié. A mãe e a esposa de Jorginho como ele é conhecido são de Jequié e o advogado tem um apreço muito grande pela Cidade Sol. Ele recordou também que durante as comemorações dos 80 anos de Jorge Amado, em 1992, Jequié foi uma das três cidades do interior baiano onde seu avó incluiu no seu roteiro comunicativo (as outras foram Itabuna e Ilhéus onde o autor de Gabriela nasceu e viveu a sua infância). Jorge Amado Neto destacou que a produção literária regionalista de Domingos Ailton é um exemplo para as novas gerações.
Além de compor a programação dos 114 anos de Emancipação Política de Jequié, o lançamento do romance Anésia Cauaçu, de Domingos Ailton, dia 29 de outubro, marcou o centenário do assassinato de Zezinho dos Laços e da carta patente de capitão Silvino de Araújo. O documento foi assinado pelo então presidente da República Hermes da Fonseca, em 11 de janeiro de 1911, concedendo a patente de Capitão Ajudante da 132 Cavalaria da Guarda Nacional da Comarca de Areia a Silvino de Araújo, também conhecido por Silvino do Curral Novo, um canoeiro que se tornou uma forte liderança política de Jequié na República Velha e na Revolução de 1930. A carta patente esteve em exposição durante o lançamento do romance.
As cenas do romance Anésia Cauaçu são iniciadas com a tocaia montada por José e Marcelino Cauaçu e o jagunço Macaúbas para assassinar Zezinho dos Laços, que ocorreu na vida real há exatamente cem anos, dia 26 de outubro de 1911, na Fazenda Rochedo, região da Volta dos Meiras, que hoje é denominada Catingal e pertence ao município de Manoel Vitorino.


O tradicional forró pé de som foi a trilha sonora do lançamento. Enquanto o escritor Domingos Ailton autografava os livro de uma extensa fila, músicos como João Mendes, Mário Alves Filho, Seresteiro, o grupo Xodó da Bahia, Claudinho dos Oito Baixos, Tribuna do Acordeon, Jorge Beck dentre outros tocavam o autêntico forró pé de serra..

Lançamento na Bienal em Salvador


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Romançe e a Historia da Cangaceira Anésia Cauaçu:

Por: Guilherme Machado
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Anésia viveu no sudoeste baiano, exatamente na cidade de Jequié e região das Terras do Sol... Mais uma bela história de outra guerreira baiana, nas páginas do cangaço.


Acima ver-se um antigo retrato da cangaceira Anésia Cauaçu.


Este é o  romance do Escritor Baiano Domingos Ailton. 


Este é um cartaz do filme Anésia Cauaçu, Sem Datas...

Inicialmente, Anésia era uma dona de casa dedicada ao marido e a filha. Mas abandonou essa vida para ingressar no cangaço, juntando-se aos seus tios e seus irmãos que formavam o temido e afamado bando dos Cauaçus.

Carismática e extremamente bonita, Anésia era o membro mais célebre desse bando, pois, além de ter conhecimento de táticas de guerrilha e ter uma mira infalível, ela também jogava capoeira. Um de seus grandes feitos foi de arrancar com um tiro certeiro, o dedo de um delegado que indicava aos policiais onde deveriam se posicionar, durante um tiroteio no centro de Jequié, a uma distância considerável.

Em 1916, Anésia abandonou o cangaço e foi viver com sua família sob proteção de um fazendeiro que devia favores aos cauaçus, mas, traída pelo mesmo, foi entregue a polícia e nunca mais se teve notícias dela.

O escritor Ivan Estevam Ferreira, no seu livro "A Pedra do Curral Novo", sugere que Anésia pode ter falecido em Jequié e a identifica com uma anciã que morreu no ano de 1987 com 93 anos, que vivia sob os cuidados de pessoas caridosas... Conheci a saga da cangaceira Anésia Cauaçu através de um presente, do Livro o Romance de Anésia Cauaçu,  a mim doado pelo poeta repentista, José Junqueira de Oliveira (Beija Flor da Bahia). 

Agradecidamente Guilherme Machado. 



Extraído do blog: Portal do Cangaço de Serrinha - BA

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O Carro dos Fernandes - 02 de Maio de 2010

Por: Geraldo Maia do Nascimento

E, de repente, chega o automóvel e transforma a cidade. O monstro irrompeu bufando, “soltando fumaça pelas ventas feito a besta-fera”. Era a modernidade que chegava ao interior do Estado. E veio pra ficar!

 
                
Antes, existia apenas os velhos carros de boi e a Diligência de Seu Pompílio, que era um carro grande, pesado, de quatro rodas, puxado por dois burros. Essa Diligência era empregada no transporte de passageiros entre o Porto de Santo Antônio e a Cidade de Mossoró, e vice-versa. A viatura tinha vários lugares e pegava diversos passageiros. O preço de uma lotação completa era de dez mil réis; passagens avulsas custavam um mil réis. 

 
Fabricado em 1911 - Fonte:
colunas.cbn.globoradio.globo.com

E tudo ia bem até que em 11 de maio de 1911 apareceu o primeiro automóvel em Mossoró, adquirido pela firma Tertuliano Fernandes & Cia. Era um veículo de marca “Westinghause”, de fabricação alemã, com capota desmontável, buzina externa e caixa de ferramentas no estribo esquerdo, além de manivela e rodas com aros de madeira. No motor, 40 cavalos; tinha acomodação para 8 passageiros. 
                
O jornal “O Mossoroense” noticiava, na época: “ O carro dos Fernandes fez lindas evoluções pelas ruas da cidade”. 
                

Lauro da Escóssia registrou no seu livro “Cronologias Mossoroenses – quando, como e onde aconteceram os fatos... – Coleção Mossoroense – Vol. CLXXXII – que “o povo acolheu a chegada do esquisito invento portando-se de joelhos nas calçadas da praça da Redenção e rua Almeida Castro, por onde passou o veículo, mesmo empurrado, pois vinha com uma peça quebrada”. 
                
Nesse mesmo período, a municipalidade inicia a construção de estradas para automóveis, concedendo ajuda financeira à firma Tertuliano Fernandes & Cia., que pretendia usar o automóvel adquirido para transporte de passageiros em linhas a serem organizadas entre Mossoró e as de Areia Branca, Apodi e Pau dos Ferros. 
                
Junto com o automóvel, veio o motorista do Rio de Janeiro. Era o Sr. Cesário Martins, que durante o período de sua permanência em Mossoró ministrou ensinamentos a várias pessoas. Quem primeiro aprendeu a dirigir a máquina foi Chico Panema. Mas não era um bom motorista. Numa viagem que fez para o Apodi, esqueceu-se de colocar água na caldeira e o motor do carro estourou. Ficou atolado no areal entre Apodi e Mossoró. Não teve mais conserto e alguns anos depois foi vendido e levado para o Rio de Janeiro como sucata. 
                
Veio depois o automóvel do comerciante Delfino Freire da Silva. Era um “Berlier” azul, de sete lugares, imenso. Fez uma verdadeira revolução em Mossoró. Para dirigi-lo, veio um chofer do sul, chamado Fraga. Gostou da cidade e nunca mais saiu de Mossoró. 
                
Outro automóvel que fascinou os mossoroenses da época foi o Itala azul-cinzento, de sete lugares, de origem italiana, pertencente ao capitão zeta, Manoel Tavares Cavalcanti. 
                
Novos carros foram aparecendo em Mossoró. Alguns de marca Ford, o chamado “fura-mundo”, o mais popular da época. E a frota não parou mais de crescer. 
                
Outros tempos aqueles. O automóvel não criou apenas uma profissão nova: a de “chauffer”. Criou também um novo estilo de vida, Símbolo de status no passado.

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comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

Autor:
Jornalista Geraldo Maia do Nascimento

Fonte:
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Por: Luiz Carlos Marques Cardoso

O livro do qual faço a resenha já se encontra na 6° Edição, foi escrito pelo pesquisador Oleone Coelho Fontes, esse que acabou por legar a sociedade mundial uma obra riquíssima em detalhes sobre a vida do maior bandido que o Brasil já teve. Em seus estudos entrevistou uma gama de pessoas, gente essa que teve papel singular em algum dado momento da passagem de Virgulino pelas terras da Bahia. O livro trás ainda fotografias dos integrantes do cangaço, e comentários que nos faz pensar num período de trevas aos sertanejos sofridos, tanto pela seca, a pobreza e naquela época, pela violência imputada pelo bando do facínora.

Lampião, ou Capitão Lampião, assim exigia que fosse chamado, por ter ele recebido do Padre Cícero essa titulação. Saía a dizer ser ele o governador dos sertões, na verdade, por mais de dois séculos foi sim de certa forma o Governador das bandas secas do Brasil. Deixou o Estado de Pernambuco ciente da perseguição que os volantes infligiam a seu debilitado bando, precisava de repouso para repor as energias e recrutar novos homens. Fez aquilo que a polícia não imaginava que seria feito, a travessia de uma margem para a outra do Rio São Francisco, aconteceu depois do meio-dia do dia 21 de agosto de 1928.

Já nas terras baianas, gozava de paz, a polícia débil do Estado fazia vista grossa. Ficou a andar por cidades falando que estava na Bahia em paz, que se meteu no Cangaço por imposição da vida e se lhe tivesse condições ele largaria tudo para viver em paz. Sempre coagindo conseguia dos sertanejos o sustento do bando.

Após o grupo de cangaceiros passarem pela vila do Cumbe uma volante cruza em seu encalço. Numa fazendo logo adiante acontece o primeiro embate dos homens de Lampião com a polícia baiana. Na ocasião, o bando saiu vitorioso, matou um sargento e dois soldados. Aquele momento marcou o inicio das atividades perversas do banditismo na Bahia.

De cidade em cidade os cangaceiros iam pilhando, matando, castrando e tomando das mulheres. Teve uma ocasião em que obrigaram cinco moças a dançarem nuas. Corisco, o Diabo Louro, pegou um antigo inimigo, tinha jurado que quando tivesse o homem nas mãos esse sofreria muito antes de morrer. Corisco afirmava que fora o dito homem o responsável pela sua entrada no cangaço. Teve sociedade com ele, porém foi passado para trás. No momento do pagamento pegou a pobre presa e amarou feito bode a ser morto de cabeça para baixo, tirou o couro do homem, esse ainda em vida, sobre muitos gritos.

Em um conflito com os “macacos” (dessa forma os cangaceiros chamavam os policiais) Lampião perde um dos seus homens, esse fato acirrou ainda mais os embates dos volantes com os cangaceiros. Lampião após tomar uma vila prende oito macacos e um sargento. Depois de beberem muito, dançarem; o bando vai a delegacia, local onde se encontrava os soldados presos, tinha soltado os que estavam presos e encarcerados aqueles. Um por um ia sendo levado para fora e com golpes de punhal e tiro na testa tombavam ao chão. Apenas o sargento foi poupado por Lampião, conta que Virgulino fez uma aposta com uma senhora, como essa ganhou, ele pediu que ela exigisse algo, a mesma inquiriu que soltasse o sargento, o rei do cangaço como não ia contra a palavra dada, dessa forma o fez, contrariando seus ideais, pois o lema dele era matar todos os macacos que colocasse as mãos.

O bando de Lampião cresceu tanto que ele se viu obrigado a dividi-lo em vários subgrupos. Corisco chefiava um, fato esse que poupou da morte no encontro da volante com os cangaceiros na Gruta do Angico. Dessa forma ficou mais difícil em exterminar o cangaço. A polícia que parecia com os cangaceiros, tanto em trajes como em perversidade, fatos comprovados e contados no livro. Em cada encontro os bandoleiros obtinha vitória, eles possuíam informantes e fazendeiros a disporem de armas, além de agirem por meio de emboscadas. Conheciam a caatinga como ninguém, além de usarem técnicas para despistar, conseguia farejar macacos de longe.
    
Em um combate Lampião perde o último irmão que o acompanhara no cangaço, sobrou-se apenas um, por sinal, esse foi o único a não se meter com o cangaço. Depois desse fato, conta-se que Lampião ao ver o irmão sofrendo e sem possibilidade de vida deferiu-se um certeiro na testa, o homem aumentou sua crueldade, matava por matar, castrava. Por vingança ele matou um coronel, mas antes fez despir esse e a mulher e no lombo de animal o homem na frente, a mulher na garupa, foram levados para uma vila próxima para que o ato servisse de exemplo. O coronel foi morto a punhaladas, a esposa foi poupada a pedido dos companheiros de cangaço, todavia essa jamais recobrou a consciência.
    
Zé Baiano tinha como marca um ferro de ferrar animais, porém o usava para marcar mulheres. “J B” era as letras que continha no instrumento. Quantas não foram as moças ferradas por ele? Ferrava-se no rosto, nas pernas, nas nádegas. Carregar uma marca dessas, além da feiúra levantava muitas indagações, pois o povo sabia de quem era tais iniciais.
    
Tamanha brutalidade ocorreu com a família Salina, foi uma verdadeira chacina. Lampião manda um bilhete exigindo do chefe da família uma determinada importância. Esse se aconselha na cidade e a autoridade fala para ele não ceder aos bandidos. Assim feito, Lampião ameaça dizendo que quando colocasse as mãos nele poderia considerar um homem morto. A família Salina passa a residir no povoado, porém suas posses iam sumindo, já que ficava sempre ocioso e precisava de recurso para se manter. Dado dia ele foi obrigado a ir a fazenda colher a mandioca e fazer dessa farinha. Reuniu-se com a família e alguns amigos para o trabalho, era fazer a farinha e voltar logo ao povoado. Lampião chega e cerca a propriedade, matam quase todos, deixam apenas duas moças vivas para contar o ocorrido, um rapaz que se encontrava sobre o telhado também consegue fugir. O velho Salina tem os dois olhos furado, orelhas cortadas e é castrado. Lampião coloca o homem ainda vivo no cavalo e leva para a casa de um dos filhos deste, defronte ele mata o velho, abre o peito a golpe de facão e tira o coração. Mata também o filho de Salina que saiu a porta. A brutalidade de Virgulino chegava ao estremo.
    
Volta-Seca entrou para o cangaço quando ainda era garoto. Por ter muita coragem foi levado por Lampião. Ele na chacina dos soldados chegou após o ocorrido e disse que estava desapontado, pois o chefe só havia deixado sangrar quatro macacos. Certa feita o garoto ameaçou o rei do cangaço dizendo: “Se você bater em mim eu te mato”. Com medo e aconselhado por alguns colegas foge no calar da noite. A namorada vai para a casa dos parentes, ele foge para outro povoado. Retorna para ver a moça, porém a família dela não queria o relacionamento. Volta-Seca fica pelas intermediações, acuado pela polícia os irmãos da moça armam uma emboscada e pega o garoto e o entrega as autoridades. Volta-Seca é conduzido para Salvador, onde após um ano passa a dá entrevistas e conta suas proezas do cangaço.
    
Maria Déia, popularmente conhecida por Maria Bonita, entrou para o cangaço por desejo próprio, pois odiava a mansidão da vida que levava ao lado do marido sapateiro. Certo dia um Luís Pedro foi ao povoado verificar a situação do local, parou ao escutar uma moça falar do chefe dos cangaceiros, ela dizia que largaria tudo se Lampião a quisesse. O cabra retornou ao esconderijo e falou ao chefe tudo que havia escutado. Virgulino quis conhecer a moça, já que pelas palavras do informante a danada era muito bonita. Chegou e com poucas palavras levou Maria, ao sair ainda disse ao marido sapateiro (José de Neném), que se encontrava de cabeça baixa, “Adeus Zé”. Maria Déia nasceu no povoado de Malhada do Caiçara, município de Santa Brígida. Teve alguns filhos, porém somente um conseguiu vingar, essa logo ao nascer foi entregue a um coiteiro do bando. Expedita ficou sobre guarda de dona Aurora, a esposa do vaqueiro Mamede, na fazenda Inchu. Maria Bonita faleceu ao lado de Lampião na Gruta do Angico.
    
A morte de Lampião é cercada por muitas controvérsias, um diz que ele foi envenenado, mas o enredo mais aceito é aquele divulgado pela mídia. Lampião e seu bando de cabras foram repousar na Gruta de Angico, na ocasião iria acontecer uma reunião entre os grupos. Certo é que o Rei do Cangaço já não tinha a mesma vitalidade de outrora, com a idade passando dos quarentas e levando uma vida dura: andava muito sob o sol quente do nordeste, comia muito em alguns períodos e nada em outros, sofria com o pânico de ser surpreendido pelos macacos. Pedro de Cândida foi o coiteiro que traiu Lampião, ficou conhecido como Judas de angico, fez por ter sido ameaçado pelos homens de Bezerra. Na madrugada do dia 28 de julho de 1938 quando os volantes atacaram o pouso do Rei do Cangaço e mataram onze pessoas, nove homens e duas mulheres, uma delas Maria Bonita, que segundo consta, foi degolada ainda em vida, começava ali o fim do cangaço que durou mais de duas décadas. Os policiais saquearam todos os pertences dos cangaceiros, uns chegaram a arrancar as mãos dos cadáveres para quando em casa tirarem os anéis de ouro. As cabeças foram levadas para servir de prova que o cangaço havia perdido seu principal homem, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. Muitos cangaceiros conseguiram fugir, Corisco ainda não tinha chegado ao local.
    
Corisco ao ver a foto contendo as cabeças chorou copiosamente junto sua companheira Dadá. Resolveu se vingar. As primeiras vítimas foram da família de Domingos Ventura, avô da esposa de João Bezerra. Chegou à casa do homem, comeu e pediu que seus cabras levasse um a um para fora, ao final foi ele com o chefe da família, esse último teve o mesmo fim dos demais, foram degolados e suas cabeças enviadas a Bezerra juntas a um bilhete: “Se o negocio é de cabeças, vou mandar em quantidade”. Em um confronto o Diabo Louro foi baleado na perna, fragilizado ele tenta refugio em outras terras, mas o caçador de cangaceiros Zé Rufino o encontra. Ferido por bala não agüenta e morre. Morreu em Brotas de Macaúbas no dia 25 de maio de 1940. Com a morte de Cristino Gomes da Silva Cleto o cangaço chegava ao seu final.
    
Aconselho a todos que leem esse magnífico livro. O leitor verá nessas páginas como foram aqueles anos no sertão, onde o Governador não era o Governador, mas um cangaceiro, homem que para uns era bom, enquanto para outros uma peste; fazia caridade ao mesmo tempo em que tomava do que era dos outros.

Luiz Carlos Marques Cardoso.



Extraído do Blog: "Resenhas"

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A alegria de visitar Paulo Afonso

Por: Manoel Severo

Paulo Afonso e a cordialidade da recepção do Dr. Luiz Alberto

Visitar a cidade de Paulo Afonso, no norte da Bahia, bem ali, na fronteira "estratégica" para nós, "cangacerófilos"; entre Pernambuco, Alagoas e Sergipe, é sempre uma grande satisfação. Satisfação em todos os sentidos, tanto no que diz respeito ao universo a ser pesquisado, como no reencontro com estimados companheiros e amigos e ainda pela forma cordata e alegre como sempre somos recebidos.


Família Cariri Cangaço em recepção festiva em residencia do Dr Luiz Alberto


Wilson Seraine e o rei Luiz Lua Gonzaga

Sob a batuta do grande João de Sousa Lima, acabamos conhecendo uma dessas pessoas especiais. Falo do odontologista Luiz Alberto, que além de ser um grande profissional da área de saúde possui um amor pelas coisas de nossa terra, incomum; transformando sua agradabilíssima residência em um Memorial das coisas do nordeste, onde convivem em harmonia entre outros, dois reis, o do cangaço e do baião. Ao grande amigo Luiz Alberto e a todos os companheiros queridos de Paulo Afonso: João de Sousa Lima, Antônio Galdino, Janinho, Voldi Ribeiro, Gilmar Teixeira, Luiz Ruben, Rubinho Lima, Jadilson Ferraz e tantos outros, a nossa gratidão.


Ângelo Osmiro, presidente do GECC, entre o casal Luiz Alberto, anfitriões da tarde.


Paulo Gastão e Rubinho Lima

As imagens são cortesia da grande profissional, Driele Mutti do site do "Mais Festa" , que compartilhou conosco a satisfação da grande recepção, que sempre se repete por ocasião de nossas visitas a Paulo Afonso, pelo casal Luiz Alberto.

Manoel Severo

Extraído do blog: "Cariri Cangaço"
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Fim do cangaço

Por: José Bezerra Neto

Lampião tomba num raso de sangue e com ele também foi morrendo o cangaço

O jornal A Noite, do Rio de Janeiro, foi o primeiro veículo de imprensa brasileiro a noticiar, em edição extra, o fim de Lampião, Maria Bonita, sua companheira, e mais nove de seu bando de cangaceiros. A manchete de primeira página, escancarava: Morto “Lampião”. E, na matéria principal, a mensagem sucinta, enviada via telégrafo pelo 1º oficial do Tesouro de Alagoas, Durval Jerônimo da Rocha, que se encontrava em Sertãozinho, hoje Major Isidoro – próxima do acontecimento – sua cidade natal. Afirmava a mensagem:

Santana do Ipanema-AL 28/07/1938 - Urgente – “Onze bandidos, inclusive Lampião, foram mortos pela polícia alagoana, na Fazenda Angicos, em Sergipe. Abraços – Durval”. 

Isso foi o bastante para que o irmão do mensageiro, jornalista Melchiades da Rocha, desse jornal, que já trabalhava em cima de farto material sobre a vida do cangaço nordestino, colocasse nas bancas no mesmo dia uma edição especial. Um verdadeiro “furo” jornalístico, sem dúvida! Depois, a Rádio Nacional, emissora que à época fazia parte da mesma organização, encarregou-se de alardear a notícia para o Brasil e para mundo, já que a fama de Virgulino Ferreira da Silva havia atravessado fronteiras como o mais valente dos bandidos.Depois de colocar a edição do seu jornal na rua, viajou incontinente para Santana do Ipanema onde se encontravam o 


tenente João Bezerra, comandante da volante policial que deu cabo do bando assassino, inclusive o soldado Antonio Honorato da Silva – Noratinho – que matou Lampião com um tiro certeiro de fuzil, Sebastião Vieira Sandes e Antonio Bertoldo da Silva – que tiveram a “honra” de degolar Maria Bonita e Lampião – depois da saraivada de balas que aconteceu naquela madrugada frienta dizimando o grupo de cangaceiros que atuava nos sertões nordestinos, apanhando todos de surpresa – uma emboscada bem planejada. 

– “Nosso comandante traçô um plano tão bem feito que ali chegemo sem sê pressentido e abafemo a banca. Depois fumo cortá as cabeças dos bandidos a mando do tenente Bezerra” – no dizer de Noratinho. 
“Abafemos a banca”

Essas palavras, ditas assim, pelo homem que acabara com a vida do famigerado “rei do cangaço”, o soldado raso Antonio Honorato da Silva, o número 145 da volante policial, um não robusto, baixinho, chamaram a atenção do repórter da A Noite, que o entrevistou. Pronunciou-as o destemido soldado, alegre, entre risos, deixando transparecer na fisionomia despreocupada e feliz uma satisfação indizível pelo gostinho que tivera de ter estourado como seu bacamarte os miolos do famoso bandido e vê-lo estrebuchar no chão.
E ele reporta: confesso, fizeram-me as palavras de Noratinho traduzir, no momento, toda a ignorância que envolve a consciência do soldado matuto, irmão do cangaceiro e do qual não tem diferença apreciável, nem mesmo na indumentária, pois ambos, apesar de servia a interesses contrários, rezam, às vezes, pela mesma cartilha: o gostinho de pegar no bacamarte é o mesmo para todos eles.
“As causas do banditismo – o mais importante fenômeno da rude vida do sertão – são complexas e o seu estudo oferece sérias dificuldades. Agrupamentos de muitas causas primárias e secundárias formam, com a ausência de umas, com o conserto de outras ou com a reunião de todas, a razão da existência do tipo social do cangaceiro, alma feita de contrastes, anormalidade quase normal na primitiva e estiolada sociedade sertaneja.”
Gustavo Barroso
A trama

O grupo de cangaceiros, sob o comando do próprio Lampião, esperava pelo carregamento de mantimentos, aguardente e tabaco, que devia ser trazido de Piranhas por Pedro de Cândida, homem de confiança de Virgulino. (Era ele quem cuidava da compra de armamentos, provisões, tabaco e de tudo o resto, como roupas, calçados, chapéus – mandados fazer à moda “napoleônica/sertaneja” – de abas largas e presas sobre a parte alta da cabeça – sabonete, pentes, baton, água-de-cheiro e pó-de-arroz para as vaidosas mulheres – Maria Bonita, Dadá (mulher de Corisco), Sila, Enedina, entre outras.

Entretanto, a polícia, de sobreaviso desde que prendeu um irmão de Pedro de Cândida que, submetido a severo interrogatório confessou o que sabia a respeito da ligação deste com o grupo de bandoleiros e do local de entrega do próximo carregamento, que seria nesta noite no lugar chamado Gruta de Angicos. Preso e ameaçado de morte, caso não colaborasse com a polícia o coiteiro não relutou muito para informar o esconderijo de Lampião, no que deu a imediata reação da volante policial, partindo esta imediatamente para o local revelado na intenção de exterminar, de uma vez por todas, a “cabroeira”. A noite não poderia ser mais propícia à essa intentona, pois era de chuva.
A água caía

Chovia e fazia frio. Chuva fina, mas renitente, que caia na Grota de Angicos, às margens do rio São Francisco, lado de Sergipe, onde se arranchou Lampião e parte de seu bando. Para amenizar a situação o “Capitão” havia mandado que seus “cabras” fizessem uma fogueira e, em volta desta, todos foram se acomodando, em redes, ou mesmo enrolando-se com cobertores no chão duro, nas locas de pedras, onde arriaram as cabeças para dormir. A frieza deu-se à noite toda, varando madrugada adentro, naquele lugar ermo, de pedregulhos, carrapicho e chique-chique.
Silêncio profundo, só quebrado pelo cri-cri dos grilos e o canto rouco da Socó. Virgulino não gostava desse pássaro agourento, mas estava cansado demais para ouvi-lo às quantas vezes cantou. Protegeu-se debaixo de sua barraca e ali mesmo dormiu como uma pedra tendo ao seu lado Maria Bonita, que ficou um tanto “arisca” por causa da referência feita pelo companheiro a respeito da Socó. Mas, era certo que o traquejado homem das caatingas conhecia bem aquele lugar; conhecia-o como as palmas das mãos, onde costumeiramente pernoitava com sua gente quando estava na redondeza e precisava reabastecer o grupo de provisões. Além do mais, confiava na eficácia de Pedro de Cândida em despistar a polícia. Portanto, não havia com o que se preocupar.

A percepção e capacidade de raciocínio aguçados do “Capitão”, faziam-no seguro de si. E mais: a devoção religiosa e a fé que mantinha no poder do padre Cícero do Juazeiro, seu protetor, lhe asseguravam um repouso tranqüilo, apesar de tudo. Se tivesse que acontecer algum mal, com certeza ele pressentiria o que de ruim estava por vir. Por tudo isso, era que o bando todo confiava em seu comando. E se não mandou botar guarda naquela noite, era porque nada haveria o que se temer – pensou a mulher.
Mas, o esperto rei-do-cangaço não se dera conta do perigo que rondava sobre sua cabeça e das de seus comandados, naquela madrugada. Não, não se dera... porque, de repente, viu-se ele acuado; cercado de todos os lados por “macacos”. A volante policial comandada por seu mais ferrenho perseguidor, o tenente João Bezerra, atacou sem dar tempo de alguém sair debaixo dos cobertores e se coçar... A soldadesca saltou em cima dos cabras com todo ímpeto, sem dó e sem pena, crivando-os de balas. - Da barriga dos fuzis “papo amarelo” da polícia, espirraram incontáveis tiros, disparados quase a queira-roupa, que acabaram por trucidar parte do bando de Lampião que estava em Angicos em pouco menos de um quarto de hora.

“A chuva que caía naquele lugar facilitou em muito o trabalho da volante – disse o coronel Waldemar da Silva Góes, também um dos ferrenhos perseguidores do capitão Virgulino e seus cabras, ao ser entrevistado pelo jornalista Batista Pinheiro, do antigo e agora extinto Jornal de Alagoas, em 10/05/1982). Eram aproximadamente 5 horas da manhã quando foi dado por Bezerra a ordem de “fogo”!... A primeira a ser atingida foi a companheira do capitão Virgulino que, mesmo ferida, vendo que o cangaceiro Luiz Pedro tentava fugir, gritou-lhe: “compadre, vosmecê esqueceu a promessa feita a Virgulino? Luiz Pedro voltou para morrer junto a Lampião e Maria Bonita.”
Derrubou-se, ali, a lei do Cangaço, que ao longo de quase vinte anos imperou nos sertões da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Ceará, espalhando pânico por onde passava na sua desenfreada fúria de matar, saquear, estuprar; esfolava qualquer um que se metesse a besta e esboçasse a menor reação. O que Lampião dissesse era lei. E se lhe negassem entregar o que tinham – dinheiro, comida, mulheres e, principalmente a hospitalidade – a coisa ficava preta: havia reação enérgica de sua parte, que dava ordem ao bando para agir sem piedade!
Mesmo assim, o acontecimento daquela madrugada, não se constitui em aterro onde se possa levantar qualquer mural ou pedestal – nem para os facínoras nem para ao que os trucidaram – sendo mais árido do que já era o chão em que se armou a trama da violência contra violência. Não pode nascer frutos do ventre daquelas terras, pois ali não se encerrou o pânico; deu-se uma desumanidade. Há controvérsia quanto o número exato de cangaceiros que estavam com Lampião naquele lugar onde se deu a embosca, já que o bando todo se constituía de 48 militantes (conforme dados confiáveis) e só 11 desses, incluindo-se Lampião e Maria Bonita, saíram dali sem vida – Enedina, “Quinta-feira”, “Caixa de Fósforo”, “Elétrico”, “Mergulhão”, “Diferente”, “Desconhecido”, “Cajarana” e Luiz Pedro.

Fonte: Blog: Cangaceiros

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LAMPIÃO: O COMBATE DA CANOA

Por: Clerisvaldo B. Chagas
Clerisvaldo B. Chagas

 (Para o professor Marcelo Fausto)

Desde o início das suas ações em Alagoas, Lampião agia no extremo oeste do estado, precisamente na região serrana de Matinha de Água Branca (hoje Água Branca) e Paulo Afonso (atual Mata Grande), principalmente. 

Mesmo em suas ações esporádicas, no decorrer da sua vida cangaceira, essa região tinha a preferência por ser rica em serras, ficar perto da fronteira e ser conhecida dele e de Corisco (filho do lugar). 


Além disso, a fertilidade das terras, a produção agrícola e o clima, favoreciam as suas investidas. Já perto do fim, acossado pelas forças de Sergipe, Bahia, Pernambuco e Alagoas, Lampião achava-se espremido em trechos do rio São Francisco, dançando com muito cuidado entre as margens sergipana e alagoana e a região de Mata Grande e Água Branca.

Tenente João Bezerra, o matador de Lampião

No fim de 1931, o futuro matador de Virgolino, era delegado em Piranhas (Al) “cidade presépio” na margem do rio São Francisco. Havia um intenso comércio nesse lugar ribeirinho servido por linha férrea. Houve desentendimento entre o delegado e o prefeito. Este, baseado no prestígio do poder econômico, mandava e desmandava na cidade. Bezerra impediu que os empregados do prefeito andassem armados na cidade e os considerava no mínimo, cangaceiros mansos favoráveis a Lampião. 


Denunciado como arbitrário, João Bezerra foi mandado recolher-se ao Regimento. Ao juntar seus poucos objetos para partir, ainda estava numa canoa que desceria para Pão de Açúcar (Al), quando acontece uma ironia. Um dos empregados do prefeito vem pedir socorro, pois Lampião estava queimando o quartel de polícia de Canindé, do outro lado do rio, onde o prefeito possuía uma fábrica de curtume.

05.01.1932. Jerimum (Se). Data aproximada. Bezerra, para não ser chamado de covarde, foi socorrer o seu desafeto. Mandou retirar couros que estavam em uma canoa e desceu o rio disfarçado de “coringa”, chapéu de palha à cabeça, acompanhado de oito soldados. O ferrador do bando 


José Baiano havia ferrado várias pessoas em Canindé. No lugar denominado Jerimum, travou-se o combate entre a pequena força que atirava amparada na canoa, e os bandidos por trás de pedras, em terra firme. Eram oito soldados contra quarenta e oito cangaceiros. O auxiliar da tropa, José Bagaço foi atingido gravemente. Após dez minutos de tiroteio, com os soldados atirando de ponto, água na cintura, por trás da canoa, Lampião retirou-se deixando rastros de sangue como pista.

O telégrafo nacional e a “Great-Westem” comunicaram-se com o estado todo. O capitão Liberato de Carvalho estava em Pedra (Al) e chegou de Caminhão. O capitão Manoel Neto estava em Jatobá (Pe) e desceu a Piranhas em “wagon” atrelado à locomotiva. Por último chegou o capitão Ramalho, do exército em Mata Grande. Bezerra deixou os capitães Neto e Liberato no campo da luta. Esses, com 75 homens, saíram nos rastros dos bandidos, encontrando o bando na fazenda Maranduba em Sergipe, onde ocorreu um dos dois maiores combates da vida de Lampião e que ficou conhecido como “O Combate da Maranduba”. Pois é, esse famoso duelo aconteceu cerca de uns três dias após o COMBATE DA CANOA.

Fonte:

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Lampião: O dragão da maldade


Por: Lira Neto

Um guerreiro visionário, destemido e inteligente. Ninguém nega as virtudes de Lampião. Agora pesquisadores questionam o verdadeiro papel histórico de Virgulino Ferreira

Eles faziam do assassinato um ritual macabro. O longo punhal, de até 80 centímetros de comprimento, era enfiado com um golpe certeiro na base da clavícula – a popular “saboneteira” – da vítima. A lâmina pontiaguda cortava a carne, seccionava artérias, perfurava o pulmão, trespassava o coração e, ao ser retirada, produzia um esguicho espetaculoso de sangue. Era um policial ou um delator a menos na caatinga – e um morto a mais na contabilidade do cangaço. Quando não matavam, faziam questão de ferir, de mutilar, de deixar cicatrizes visíveis, para que as marcas da violência servissem de exemplo. Desenhavam a faca feridas profundas em forma de cruz na testa de homens, desfiguravam o rosto de mulheres com ferro quente de marcar o gado.


Exatos 70 anos após a morte do principal líder do cangaço, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, a aura de heroísmo que durante algum tempo tentou-se atribuir aos cangaceiros cede terreno para uma interpretação menos idealizada do fenômeno. Uma série de livros, teses e dissertações acadêmicas lançados nos últimos anos defende que não faz sentido cultuar o mito de um Lampião idealista, um revolucionário primitivo, insurgente contra a opressão do latifúndio e a injustiça do sertão nordestino. Virgulino não seria um justiceiro romântico, um Robin Hood da caatinga, mas um criminoso cruel e sanguinário, aliado de coronéis e grandes proprietários de terra. Historiadores, antropólogos e cientistas sociais contemporâneos chegam à conclusão nada confortável para a memória do cangaço: no Brasil rural da primeira metade do século 20, a ação de bandos como o de Lampião desempenhou um papel equivalente ao dos traficantes de drogas que hoje seqüestram, matam e corrompem nas grandes metrópoles do país.

Cangaceiros e traficantes

Foram os cangaceiros que introduziram o seqüestro em larga escala no Brasil. Faziam reféns em troca de dinheiro para financiar novos crimes. Caso não recebessem o resgate, torturavam e matavam as vítimas, a tiro ou punhaladas. A extorsão era outra fonte de renda. Mandavam cartas, nas quais exigiam quantias astronômicas para não invadir cidades, atear fogo em casas e derramar sangue inocente. Ofereciam salvo-condutos, com os quais garantiam proteção a quem lhes desse abrigo e cobertura, os chamados coiteiros. Sempre foram implacáveis com quem atravessava seu caminho: estupravam, castravam, aterrorizavam. Corrompiam oficiais militares e autoridades civis, de quem recebiam armas e munição. Um arsenal bélico sempre mais moderno e com maior poder de fogo que aquele utilizado pelas tropas que os combatiam.

“A violência é mais perversa e explícita onde está o maior contingente de população pobre e excluída. Antes o banditismo se dava no campo; hoje o crime organizado é mais evidente na periferia dos centros urbanos”, afirma a antropóloga Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora do livro A Derradeira Gesta: Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão. A professora aponta semelhanças entre os métodos dos cangaceiros e dos traficantes: “A maioria dos moradores das favelas de hoje não é composta por marginais. No sertão, os cangaceiros também eram minoria. Mas, nos dois casos, a população honesta e trabalhadora se vê submetida ao regime de terror imposto pelos bandidos, que ditam as regras e vivem à custa do medo coletivo”.

Além do medo, os cangaceiros exerciam fascínio entre os sertanejos. Entrar para o cangaço representava, para um jovem da caatinga, ascensão social. Significava o ingresso em uma comunidade de homens que se gabavam de sua audácia e coragem, indivíduos que trocavam a modorra da vida camponesa por um cotidiano repleto de aventuras e perigos. Era uma via de acesso ao dinheiro rápido e sujo de sangue, conquistado a ferro e a fogo. “São evidentes as correlações de procedimentos entre cangaceiros de ontem e traficantes de hoje. A rigor, são velhos professores e modernos discípulos”, afirma o pesquisador do tema Melquíades Pinto Paiva, autor de Ecologia do Cangaço e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Homem e lenda

Virgulino Ferreira da Silva reinou na caatinga entre 1920 e 1938. A origem do cangaço, porém, perde-se no tempo. Muito antes dele, desde o século 18, já existiam bandos armados agindo no sertão, particularmente na área onde vingou o ciclo do gado no Nordeste, território onde campeava a violência, a lei dos coronéis, a miséria e a seca. A palavra cangaço, segundo a maioria dos autores, derivou de “canga”, peça de madeira colocada sobre o pescoço dos bois de carga. Assim como o gado, os bandoleiros carregavam os pertences nos ombros.

Um dos precursores do cangaço foi o lendário José Gomes, o endiabrado Cabeleira, que aterrorizou as terras pernambucanas por volta de 1775. Outro que marcou época foi o potiguar Jesuíno Alves de Melo Calado, o Jesuíno Brilhante (1844-1879), famoso por distribuir entre os pobres os alimentos que saqueava dos comboios do governo. Mas o primeiro a merecer o título de Rei do Cangaço, pela ousadia de suas ações, foi o pernambucano Antônio Silvino (1875-1944), o Rifle de Ouro. Entre suas façanhas, arrancou os trilhos, perseguiu engenheiros e seqüestrou funcionários da Great Western, empresa inglesa que construía ferrovias no interior da Paraíba.

Lampião sempre afirmou que entrou na vida de bandido para vingar o assassinato do pai. José Ferreira, condutor de animais de carga e pequeno fazendeiro em Serra Talhada (PE), foi morto em 1920 pelo sargento de polícia José Lucena, após uma série de hostilidades entre a família Ferreira e o vizinho José Saturnino. No sertão daquele tempo, a vingança e a honra ofendida caminhavam lado a lado. Fazer justiça com as próprias mãos era considerado legítimo e a ausência de vingança era entendida como sintoma de frouxidão moral. “Na minha terra,/ o cangaceiro é leal e valente:/ jura que vai matar e mata”, diz o poema “Terra Bárbara”, do cearense Jáder de Carvalho (1901-1985).

No mesmo ano de 1920, Virgulino Ferreira entrou para o grupo de outro cangaceiro célebre, Sebastião Pereira e Silva, o Sinhô Pereira – segundo alguns autores, quem o apelidou de Lampião. Como tudo na biografia do pernambucano, é controverso o motivo do codinome. Há quem diga que o batismo se deveu ao fato de ele manejar o rifle com tanta rapidez e destreza que os tiros sucessivos iluminavam a noite. O olho direito, cego por decorrência de um glaucoma, agravado por um acidente com um espinho da caatinga, não lhe prejudicou a pontaria. Outros acreditam na versão atribuída a Sinhô Pereira, segundo a qual Virgulino teria usado o clarão de um disparo para encontrar um cigarro que um colega havia deixado cair no chão.

O cangaço não tinha um líder de destaque desde 1914, quando Antônio Silvino foi preso após um combate com a polícia. Só a partir de 1922, após assumir o bando de Sinhô Pereira, Virgulino se tornaria o líder máximo dos cangaceiros. Exímio estrategista, Lampião distinguiu-se pela valentia nas pelejas com a polícia, como em 1927, em Riacho de Sangue, durante um embate com os homens liderados pelo major cearense Moisés Figueiredo. Os 50 homens de Lampião foram cercados por 400 policiais. O tiroteio corria solto e a vitória da polícia era iminente. Lampião ordenou o cessar-fogo e o silêncio sepulcral de seu bando. A polícia caiu na armadilha. Avançou e, ao chegar perto, foi recebida com fogo cerrado. Surpreendidos, os soldados bateram em retirada.

A capacidade de despistar os perseguidores lhe valeu a fama de possuir poderes sobrenaturais e, após escapar de inúmeras emboscadas, de ter o corpo fechado. No mesmo mês da tocaia de Riacho de Sangue, Lampião e seu bando caíram em nova emboscada. Um traidor ofereceu-lhes um jantar envenenado, numa casa cercada por policiais. Quando os primeiros cangaceiros começaram a passar mal, Virgulino se deu conta da tramóia e tentou fugir, mas viu-se acuado por um incêndio proposital na mata. O que era para ser uma arapuca terminou por salvar a pele dos cangaceiros: desapareceram na fumaça, como por encanto.

Mas o maior trunfo de Lampião foi o de cultivar uma grande rede de coiteiros. Isso garantiu a longevidade de sua carreira e a extensão de seu domínio. A atuação de seu bando estendeu-se por Alagoas, Ceará, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe. Lampião chegou a comandar um exército nômade de mais de 100 homens, quase sempre distribuídos em subgrupos, o que dava mobilidade e dificultava a ação da polícia. Em 1926, em tom de desafio e zombaria, chegou a enviar uma carta ao governador de Pernambuco, Júlio de Melo, propondo a divisão do estado em duas partes. Júlio de Melo que se contentasse com uma. Lampião, autoproclamado “Governador do Sertão”, mandaria na outra.

Há divergências – e discussões apaixonadas – em torno da figura histórica de Virgulino. Ele comandava sessões de estupro coletivo ou, ao contrário, punia indivíduos do bando que violentavam mulheres? Castrava inimigos, como faziam outros tantos envolvidos no cangaço? Há controvérsias. “Lampião não era um demônio nem um herói. Era um cangaceiro. Muitas das crueldades imputadas a ele foram praticadas por indivíduos de outros bandos. Entrevistei vários ex-cangaceiros e nenhum me confirmou histórias a respeito de estupros e castrações executadas pessoalmente por Lampião”, diz o pesquisador Amaury Corrêa de Araújo, autor de sete livros sobre o cangaço.

As narrativas de velhos cangaceiros contrapõem-se à versão publicada pelos jornais da época, que geralmente tinham a polícia como principal fonte. Com tantas histórias e estórias a cercar a figura de Lampião, torna-se difícil separar o homem da lenda. “Acho que está justamente aí, nessa multiplicidade de olhares e versões, a grande força do personagem que ele foi. É isso que nos ajuda inclusive a entender sua dimensão como mito”, explica a historiadora francesa Élise Grunspan-Jasmin, autora de Lampião: Senhor do Sertão (Edusp).
“Lampião VP”

Um livro recentemente lançado na França promete aumentar a temperatura dessa discussão. Assinado pelo escritor Jack de Witte, Lampião VP, ainda sem editora no Brasil, compara a trajetória do Rei do Cangaço com a do traficante carioca Marcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, protagonista do livro-reportagem Abusado, best-seller do jornalista Caco Barcelos. “O que produz a violência das favelas? A miséria, a injustiça social, a polícia e os políticos corruptos. As mesmas causas produzem os mesmos efeitos”, diz De Witte. O historiador e professor titular da Unicamp Jayme Pinsky adverte: “É um tanto simplista comparar cangaceiros e traficantes. Corre-se o risco de cometer o pecado historiográfico do anacronismo”. Leia-se: analisar um momento histórico com base em conceitos e idéias de outro.

Já foi moeda corrente entre os especialistas interpretar o “Rei do Cangaço” como um “bandido social”, expressão criada pelo historiador inglês Eric Hobsbawm para definir os fora-da-lei que surgiam nas sociedades agrárias em transição para o capitalismo. Em Bandidos (Forense Universitário), de 1975, Hobsbawn cita Lampião, Robin Hood e Jesse James como exemplos de nobres salteadores, vingadores ousados, defensores dos oprimidos.

A imagem revolucionária começou a se desenhar em 1935, quando a Aliança Nacional Libertadora citou Virgulino como um de seus inspiradores políticos. A tese foi reforçada em 1963 com o lançamento de um clássico sobre o tema, Cangaceiros e Fanáticos, no qual o autor, Rui Facó, justifica a violência física do cangaço como uma resposta à violência social. Na mesma época, o deputado federal Francisco Julião, representante das Ligas Camponesas e militante político pela reforma agrária, declarava que Lampião era “o primeiro homem do Nordeste a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade”.

“Lampião não era um revolucionário. Sua vontade não era agir sobre o mundo para lhe impor mais justiça, mas usar o mundo em seu proveito”, afirma a também a historiadora Grunspan-Jasmin, fazendo coro a um dos maiores especialistas do cangaço da atualidade, Frederico Pernambucano de Mello. Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor de Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste Brasileiro, Mello diz que o cangaceiro e o coronel não eram rivais. Os coronéis ofereciam armas e proteção aos cangaceiros, que, em troca, forneciam serviço de milícia. Dois dos maiores coiteiros de Lampião foram homens poderosos: o coronel baiano Petronilo de Alcântara Reis e o capitão do Exército Eronildes de Carvalho, que viria a ser governador de Alagoas. “Aprecio de preferência as classes conservadoras: agricultores, fazendeiros, comerciantes”, disse Virgulino em uma entrevista de 1926.
Marqueteiro da caatinga

A idéia de que Lampião fosse um vingador também é contestada por Mello. Ele argumenta que, em quase 20 anos de cangaço, Lampião nunca teria se esforçado para se vingar de Lucena e Saturnino, o policial e o antigo vizinho responsáveis pelo assassinato de seu pai. De acordo com um dos homens de Virgulino, Miguel Feitosa, o Medalha, Saturnino chegara a mandar um uniforme e um corte de tecido com o objetivo de selar a paz entre eles. Um portador teria agradecido por Lampião. O mesmo Medalha dizia que o ex-soldado Pedro Barbosa da Cruz propôs matar Lucena por dinheiro. “Deixe disso, essas são questões velhas”, teria respondido Lampião. Segundo o autor de Guerreiros do Sol, os cangaceiros usavam o discurso de vinganças pessoais e gestos de caridade como “escudos éticos” para os atos de banditismo.

Apesar da vida árdua, quem entrava no cangaço dificilmente conseguia (ou queria) sair dele. Havia um notório orgulho de pertencer aos bandos, revelado também na indumentária dos cangaceiros. O excesso de adereços, os enfeites nos chapéus, os bordados coloridos foram típicos dos momentos finais do cangaço. Lampião era um homem bem preocupado com sua imagem pública, o que colaborou para que permanecesse na memória nacional. O Rei do Cangaço também era o rei do marketing pessoal. Assim como adorava aparecer em jornais e revistas, deixando-se inclusive fotografar e até filmar, fazia de seu traje de guerreiro uma ostensiva e vaidosa marca registrada. “Nisso, talvez apenas o cavaleiro medieval europeu ou o samurai oriental possa rivalizar com o nosso capitão do cangaço”, escreveu Pernambucano de Mello.

A antropóloga Luitgarde Barros enxerga aí um outro ponto em comum com a bandidagem atual: “Os traficantes também gostam de ostentar sua condição de bandidos e possuem um código visual característico, composto por capuzes e tatuagens de caveiras espalhadas pelo corpo”. A violência policial é outro aspecto que aproxima o universo de Lampião do mundo do tráfico. Como ocorre hoje nas favelas dominadas pelo crime organizado, a truculência dos bandoleiros sertanejos só encontrava equivalência na brutalidade das volantes – as forças policiais cujos soldados eram apelidados pelos cangaceiros de “macacos”. Nos tempos áureos do cangaço, não havia grandes diferenças entre a ação de bandidos e soldados. Não raro, eles se trajavam do mesmo modo – o que chegava a provocar confusões – e uns se bandeavam para o lado dos outros. Cangaceiros como Clementino José Furtado, o Quelé, abandonaram o grupo e foram cerrar fileiras em meio às volantes. O bandido Mormaço fez o movimento contrário. Havia sido corneteiro da polícia antes de aderir a Lampião.

Como é comum à história da maioria dos criminosos, uma morte trágica e violenta marcou o fim dos dias de Virgulino. Traído por um de seus coiteiros de confiança, Pedro de Cândida, que foi torturado pela polícia para denunciar o paradeiro do bando, Lampião acabou surpreendido em seu esconderijo na Grota do Angico, Sergipe, em 28 de julho de 1938. Depois de uma batalha de apenas 15 minutos contra as tropas do tenente José Bezerra, 11 cangaceiros tombaram no campo de batalha. Todos eles tiveram os corpos degolados pela polícia, inclusive Lampião e Maria Bonita. Durante mais de 30 anos, as cabeças dos dois permaneceram insepultas. Em 1969, elas ainda estavam no museu Nina Rodrigues, na Bahia, quando foram finalmente enterradas, a pedido de familiares do casal mais mitológico – e temido – do cangaço.

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ESSE ENGENHO DE FLORES (Crônica)

Por: Rangel Alves da Costa
Rangel Alves da Costa

ESSE ENGENHO DE FLORES


Verdadeiramente, se existe uma música que mexe comigo, me aflora tudo ao mesmo tempo, esta se chama Engenho de Flores. Ao irromper a melodia, o ritmo contagiante, é como se saíssem dos sons zabumbas, chocalhos, violas, caixas, pandeiros e um povo enfeitado de fitas rodando ao redor, cantando o boi, pisando festeiro.

Cantiga bonita, que viaja nas veredas do nosso espírito. Cantiga diferente, com cheiro de gente e de festança popular. Por isso mesmo nem de longe se trata de uma canção romântica, com melodia de cadência apaixonante, ou daquelas páginas musicais, também chamadas de clássicas, inesquecíveis no percurso da vivência. Nada disso. Engenho de Flores é apenas um buquê de sentimentos.

Composta pelo cantor e compositor maranhense Josias Sobrinho e gravada com grande sucesso por Diana Pequeno, é mais raiz, mais gente, mais suor e povo do que propriamente música. Se for possível uma definição, diria que é um bailado popular, à moda da cantoria de boi. E ao ouvir a pessoa também se enfeita todo, coloca o seu colorido de roda, se enfeita de fita e de chapeu, começa a rodar atrás do povo em cantoria.

Contudo, passada a euforia do ritmo, nas entrelinhas da cantiga se encontra um verdadeiro hino à liberdade, uma bandeira do pobre trabalhador sendo libertado da submissão diária na labuta diária no engenho ou nos latifúndios, uma luz que se acende para chegar um novo dia de canto e alegria.

Um rápido olhar sobre a letra e logo se imagina o povo na sua luta diária para sobreviver, no desvão da vida que faz pingar sangue no lugar do suor. E lá vai o corpo cansado ainda de ontem para a labuta do dia, pois a empreitada chama; a foice, o facão e a enxada chamam. Mas quer dizer muito mais, pois é exatamente para mostrar o momento em que o povo não tem mais que suportar tantas agruras nas mãos dos carrascos empregadores.

E na letra, lá pelos seus escondidos, ouvem-se o barulho da máquina, o apito do trem, as dores nos corpos que se dobram em sacrifício; da ventania que sopra um lamento. E sente-se o cheiro da palha, da palha da cana, da fumaça do engenho, do suor endurecido, da terra queimando, do sol escaldando e esturricando tudo.

E é como se avistasse nas feições desse povo humilde uma junção de sacrifício e fé, de sofrimento pela realidade vivida e religiosidade exacerbada, de inconformismo e alegria por estar sobrevivendo para continuar na luta. E o que seria então o Engenho de Flores cantado na música senão a dor na sublimazia da vida? Ou seria a fronteira entre a dor e a liberdade festeira? Tudo.

Engenho de Flores que poderia também se chamar sacrifício e esperança; Engenho de Flores que poderia também ser denominado o imenso usurpador diante do pequenino que lhe dá valia e enriquecimento; Engenho de Flores que também é verdadeiro Engenho de Flores, com suas riquezas tiradas do sacrifício dos pobres e humildes trabalhadores. E todos os dias, ao apito da alma que não mais se assusta, levantam e vão fiar mais um traçado de sua sina.

Não há que se duvidar de nada disso porque o trem apita, a letra diz; porque chama o povo trabalhador, a letra diz; porque o povo vai virar fumaça e cinza, a letra diz; porque o povo só suporta a ingrata sorte pela fé que possui em São João, Cosme e Damião, como a letra diz. E que bela letra, que síntese melodiosa das fascinantes aflições dos humildes rumo à sua libertação:

“Ê, alumiô, toda terra e mar/ Eu vi fortaleza abalar/ Agora que eu quero ver/ Se couro de gente é pra queimar/ Ê, alumiô, toda terra e mar/ Eu vi fortaleza abalar/ Agora que eu quero ver/ Se couro de gente é pra queimar/ Vou pedir pra São João/ Cosme e Damião/ Pra nos ajudar/ Era o apito do Engenho de Flores/ Chamando pra trabalhar/ Ê, alumiô, toda terra e mar/ Eu vi fortaleza abalar/ Agora que eu quero ver/ Se couro de gente é pra queimar/ Vou pedir pra São João/ Cosme e Damião/ Pra nos ajudar/ Era o apito do Engenho de Flores/ Chamando pra trabalhar/ Ê, alumiô, toda terra e mar/ Eu vi Fortaleza falar/ Agora que eu quero ver/ Se couro de gente é pra queimar...”.

Daí, o que se tem é um verdadeiro grito de liberdade de um povo que não se submete mais ao apito do trem chamando para a sina do Engenho de Flores. E em nome desse forjado destino a usurpação, a submissão, a escravidão na plantação e no corte da cana, na juntada, nos afazeres da moenda, nas fornalhas queimando e soltando fumaça com cheiro de gente.
Como diz a letra, nesse tempo de alumiar sobre toda terra e mar não haverá mais o apito do trem do Engenho de Flores chamando para o sacrifício de vidas. E nesse alumiar surgido não haverá mais chicote nem açoite, nem grito nem imposição, muito menos a queimação de couro de gente.

Ou seria o Engenho de Flores uma metáfora? O engenho como um tempo de dor, e flores como um tempo de liberdade. Nada disso importa, se o mais importante é que não haverá mais couro de gente pra queimar.


Rangel Alves da Costa* 
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com


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