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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Luto no Cangaço - Faleceu Alcino Costa


Por: João da Mata Costa

Caros amigos poetas e cangaceiros
Modifiquei um pouco o texto, fiz algumas correções e ampliei

Saudações canganceiras

João da Mata Costa

Adeus a Alcino Alves da Costa 17/06/1940 à 01/11/2012

Kiko Monteiro, Alcino Alves Costa e seu filho Rangel Alves da Costa

Na véspera do dia de finados, dia de Todos os Santos, faleceu um grande estudioso do cangaço e da cultura sertaneja.  Alcino Alves Costa - sobrinho do cangaceiro- poeta Manoel Marques da Sila, o Zabelê-, nasceu em Poço Redondo - SE, e ai viveu intensamente  como ativo protagonista e guardião de sua história contada numa dezena de livros. Filho de Ermerindo

Luitgarde Cavalcanti Barros e Antonio Vilela de Sousa

Alves da Costa e de Emeliana Marques da Costa, Alcino foi um politico que amava sua terra e costumes.  Foi prefeito por três vezes do município de Poço Branco, deixou a politica para se dedicar ao estudo do cangaço e das ricas tradições culturais de sua terra natal amada. 

Família de Alcino Alves Costa e Manoel Severo

Grande contador de causos, um caipira como gosta de ser chamado, é referencia obrigatória em se tradando de cangaço. Mesmo sendo um profundo conhecedor da saga lampiônica, não tinha a presunção daqueles que se consideram dono da verdade. Gostava de dizer, essa é a minha versão. 

Jack de Witte,...,..., Alcino e...

O seu primeiro sobre o cangaço, já em terceira edição, teve o prefácio da professora antropóloga Luitgarde Barros, que escreve: “este livro não é de ficção”, pelo contrário, o livro tem como objetivo a desmistificação de alguns detalhes envolvendo um dos fenômenos social mais estudado do Brasil, o cangaço. 

Robervânio Rubinho, Alcino Alves e Antonio Tomáz 

Alcino é um grande contador de estórias ou histórias. Seus livros são muito bem escritos e referenciados com outros escritores da mesma saga.

Aderbal, Leandro, Antonio Amaury, Paulo Britto e Alcino Alves Costa

Muitas vezes Alcino corrige informações contidas em outros livros referencia da saga do cangaço. É um escritor que escreve com paixão a dura realidade de um nordeste exsicado pelas longas secas onde sobrevivem as plantas cactáceas: xiquexique, macambira, quipá, mandacaru, cabeça –de-frade e facheiro.  

Bando de Lampião

E por que não falar da árvore sagrada do sertão, o umbuzeiro. Árvore que mata a sede, serve de sombra e de refúgio para beatos e cangaceiros.  A crueldade do bando de Lampião não é maior que a dos volantes. 

Chagas Nascimento, Alcino Costa, Manoel Severo e...

Muitas vezes existe uma migração de um lado para outro. Os nazarenos foram os grandes combatentes dos temidos cangaceiros.  Mané Neto. o temido vesgo de Nazaré – PE,  luta contra o  bandido  Sabonete. “um bandido pula para a frente dos inimigos. Está enlouquecido Com um punhal na mão, corre na direção de Mané Véio. Parece que quer sangrá-lo. 

Professor Pereira, Manoel Severo e Alcino Alves Costa

O cangaceiro está tão próximo do nazareno que este não tem dificuldade nenhuma em dar um tiro certeiro na cabeça. O assecla cai morto aos seus pés”. Morto de sede o nazareno toma a água com sangue na cabaça do “cabra”. (Fogo de Maranduba. Lampião Além da Versão PP. 168). As Nas Batalhas de Maranduba e Serra Grande os cangaceiros desafiaram seus algozes.

Kydelmir Dantas e Alcino Alves Costa

Lampião só pode surgir num sertão esquecido pelo poder, numa terra desolada e esturricada por tenebrosas secas, onde reinava os grandes latifúndios governados por coronéis. Lampião teve desavença com poucos
coronéis e a sua presença fez tremer o poder e riqueza dos senhores das terras que remonta às capitanias hereditárias.

Juliana Ischiara, Alcino Alves Costa e Paulo Medeiros Gastão

O cangaço era poder e muitos filhos de famílias entraram para esse mundo sem nenhuma motivação provocada por mortes ou vinganças.  Muitas vezes as desavenças surgiam por uma intriga,  fuxico ou delação (veja o terrível caso da morte de Zé Vaqueiro ).  Cangaceiro detesta fuxico e covardia.

Rostand Medeiros, João de Sousa Lima, Ivanildo Alves, Alcino Alves e Juliana Ischiara

Outras vezes as brigas aconteciam por vinganças entres famílias ou traição. “ O traidor sempre foi a figura mais odienta dentro do mundo caipira e do meio do cangaceiro. Para o delator não havia perdão” ( op. Cit. pp. 239).

Alcino, João de Sousa Lima, Ângelo Osmiro e Ivanildo Alves Silveira

Um homem simples apaixonado pela vida e pelas mulheres. A paixão pelo cangaço e Sergipe, só perdia para elas. Casou muitas vezes e deixou muitas viúvas. Além dos livros que conseguiu publicar, deixou outros inéditos. 

José Cícero, Alcino Alves Costa e Bosco André

No início de 2012 estivemos visitando o Alcino em sua casa em Poço Redondo. Ele se queixava de gota e andava com dificuldade, mesmo assim nos atendeu e tivemos uma bela proza coletiva onde bebíamos a largos goles tanta sabedoria feita de um longo e laborioso viver cantando e glosando as coisas do cinzento sergipano, palco da morte de Lampião na grota de Angicos. 

Alcino Alves Costa, Pedro Luiz e Drª.Francisquinha

Na ocasião da nossa visita ele me autografou vários livros de sua autoria. "Lampião além da versão - mentiras e mistérios de Angico" ( 3ª edição 2011) ,  “O Sertão de Lampião”  ( 2ª edição 2008); e “Poço Redondo, a saga de um povo” ( 2009).

A professora Ana Lúcia e Alcino Alves Costa

No prefácio ao livro lampião Além da Versão, ele repte: Estimado João da Mata, nas paginas deste livro a história de Lampião além da versão. Do amigo e autor Alcino Costa 25/01/2012.

Jairo e Alcino

Na dedicatória ao livro “O sertão de Lampião“, ele escreve: Na história brasileira a saga de Lampião tem lugar de destaque e o nosso sertão “O sertão de Lampião” o seu principal e social cenário. 

Manoel Severo e Alcino Alves Costa

Alcino Alves Costa viveu toda a sua vida num  dos principais cenários, palco da saga de Lampião.  Ouvindo pessoas  e pesquisando os  lugares e refúgios onde foram travadas as batalhas ele pode  reunir muitas histórias e versões contadas dos embates entre coroneis, volantes, coiteiros e beatos.

Danielle Esmeraldo e Alcino Alves Costa

Pode não ser a versão verdadeira, mas é uma versão que precisa ser ouvida e lida. Seus livros ficam e são imprescindíveis para quem estuda o cangaço e os costumes e cultura dos nordestinos.

Capitão Alfredo Bonessi, Ângelo Osmiro, Alcindo e Tomaz Cisne

O autor ainda escreveu um livro que ele considerava o seu melhor trabalho. “Maria do Sertão”, seu primeiro romance ficcional.

Archimedes Marques, Alcino e Elane Marques

História e Lendas do Sertão, Sertão Viola e Amor, Preces ao Velho Chico entre outros livros escritos por Alcino Costa, enriquecem a etnografia nordestina e a cultura brasileira.

Vai em paz, meu querido amigo.

Saudades

Enviado pelo poeta, escritor e pesquisador do cangaço:
Kydelmir Dantas


Aquele jeito moleque de ver a vida

Por: Julio Cesar Ischiara
Juliana e Júlio Cesar Ischiara

Falar de Alcino é muito fácil... difícil é conseguir sufocar esse sentimento de saudade que sinto. A biografia do Caipira de Poço Redondo todos os seus amigos e admiradores conhecem ou podem conhecer, mas poucos tiveram o privilégio de entrar na alma desse grande guerreiro. Digo poucos, mas isso é uma figura de linguagem, porque o que é pouco no universo dos conhecidos e admiradores de Alcino é uma multidão para qualquer outro mortal.

Alcino Alves Costa

Tive o grande prazer de ser um desses "poucos". Compartilhar de seus sonhos, seus prazeres, alguns objetivos (sim, ele ainda tinha muito a fazer aqui), seus feitos cheios de boas intenções (outros com intenções boas) enfim, muitas coisas interessantes, mas, o melhor de tudo era ver aquele sorriso largo em seu rosto. Aquele jeito moleque de ver a vida, de amar as pessoas incondicionalmente, com entrega total da sua alma.

Alcino É um homem fantástico. Inteligente, sensível, perspicaz, criativo, amoroso... imensamente amoroso... e que, agora, está compartilhando tudo com outras pessoas lá no alto... só cuidando da sua Poço Redondo e dos amigos que ele deixou por aqui.

Abraços Alcino...

Júlio Cesar Ischiara

http://cariricangaco.blogspot.com

De um Francês para o Caipira do Poço Redondo Por: Jack de Witte

Pedro Luiz,Jack de Witte e Alcino Alves

A tous les familiers et passionnés du Cangaço et du Sertão,

C’est avec tristesse que j’apprends la mort de notre cher Alcino ! Dans son œuvre, à la recherche de la vérité historique , ou dans son comportement quotidien, il a toujours fait preuve de rigueur et d’une grande humanité.

Dommage que certains hommes ne soient pas éternels!

Il va nous manquer beaucoup et j’adresse avec émotion toutes mes condoléances à sa famille et à tous ses proches.Il restera longtemps présent dans notre mémoire et dans nos cœurs. Un exemple.
Amitié

Jack de Witte
França


 http://cariricangaco.blogspot.com.br/

Tradução:

Em todos, cangaço familiar e apaixonado sertão

É com tristeza que soube da morte de nosso querido Alcino! Em seu trabalho, a busca da verdade histórica, ou no seu comportamento diário, que sempre foi rigoroso e grande humano.

Pena que alguns homens não são para sempre!

Nós vamos perder muito dele e eu carinhosamente envio todas as minhas condolências à sua família, sua longa permanecerá presentes em nossa memória e em nossos corações. 
Um exemplo.
amizade

Jack Witte
França

 http://blogdomendesemendes.blogspot.com

OS MISTÉRIOS DO ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ, QUARTA E ÚLTIMA TEORIA, QUARTA PARTE

Por: Honório de Medeiros(*)
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Quarta teoria: o ataque a Mossoró resultou de um plano político (quarta parte)

Acerca do mesmo episódio ocorrido em 10 de maio de 1927 o historiador Válter de Brito Guerra, em “APODI, SUA HISTÓRIA[1]”, é enfático:

O ataque a Apodi, de 10 de maio de 1927, por um grupo de bandidos, organizado no Estado do Ceará, município de Pereiro, foi resultado de uma vingança política, insuflada por elementos de fora, inimigos de Apodi. Na madrugada daquele dia, penetraram nesta cidade, causando pânico e terror à nossa população, nada menos que 18 bandidos, fortemente armados, comandados por Massilon Leite.

A empreitada, organizada e dirigida de longe, por pessoa ligada a importante família do Apodi, tinha uma terrível missão a cumprir na cidade. Em primeiro lugar figurava, no plano sinistro, o assassinato do então chefe político Francisco Ferreira Pinto, para cuja residência se dirigiram os bandidos, prendendo-o imediatamente[2]. O vigário da paróquia, que naquele instante acabara de celebrar a santa missa, foi chamado às pressas, para salvar o chefe político, em poder dos cangaceiros, que já se preparavam para eliminá-lo.

Enquanto permanecia preso o chefe local Francisco Pinto, por cuja liberdade o bandoleiro Massilon exigia vultosa quantia em dinheiro, elementos do grupo terrorista praticavam na cidade, atos de violência, e assassinato. Tomada de terror, ante a ação dos cangaceiros, quase toda a população abandonou a cidade, buscando refúgio na zona rural, nos sítios e fazendas.

Desta cidade os cangaceiros se retiraram pela manhã do mesmo dia 10, entre as nove e dez horas, rumo ao distrito de Itaú, neste município.

Frustrado o assassinato do Coronel Francisco Pinto em 1927, quem sabe de propósito, como o veremos logo mais, mesmo assim não serenou o ânimo dos seus inimigos políticos. Em 1934, durante o Governo do Interventor Mário Câmara, novo atentado pôs fim a sua vida.

Conta-nos, ainda, o historiador Válter de Brito Guerra, em obra já mencionada:

Assaltada de surpresa, a cidade não teve condições de reagir ao premeditado ataque, sob o comando do temível Massilon, famoso por suas façanhas na história do crime e banditismo no Nordeste, onde se criou na época, um ambiente propício ao cangaceirismo.

Os ânimos serenaram e houve um período de relativa calma. Porém as marcas e os resquícios daqueles dramáticos acontecimentos, permaneceram vivos no espírito de muitos, sempre sequiosos de represálias.

O movimento revolucionário de 1930 veio reavivar os graves acontecimentos do passado. Não só em Apodi, mas em todo o Rio Grande do Norte, o panorama sofreu radical transformação, com o advento da revolução vitoriosa de 1930. Iniciou-se então, neste Estado, o mais revoltante período de hostilidade e humilhações contra adversários políticos decaídos. Com a vitória da revolução, a família Pinto em Apodi perdeu o mando político e administrativo, conquistando novamente o poder em 1935, com a vitória do Partido Popular.

Realmente, a Revolução de 1930 não cumpriu a missão a que se propusera. Os seus princípios, seus postulados e ideais, que serviram de alento àquela arrancada cívica, caíram por terra ou foram esquecidos. Prevaleceu, acima de tudo, a vontade dos oportunistas, que a tudo custo, queriam encastelar-se no poder, à sombra do governo revolucionário.

Instalou-se então no estado, o terrorismo político que tomou vulto a partir de 1933, com a designação do quinto Interventor Federal, filho da terra, nomeado pelo presidente revolucionário, Getúlio Vargas.

Mario Câmara, quinto Interventor Federal do RN

Incutira o novo governante em sua cabeça, a idéia de candidatar-se à sua própria sucessão, na eleição que se aproximava para governador do Estado. A partir desse momento, e com o objetivo de ganhar eleitores e conquistar chefes políticos, o interventor pôs em jogo a máquina administrativa do Estado, desencadeando-se, então, a mais violenta e desastrosa campanha política de que se tem notícia no Rio Grande do Norte.

A série de atos de suborno, coação e violências, segundo os depoimentos da história, preparada pelo partido do governo, espalhou-se por todos os recantos do Estado.

Nenhum município ficou livre das arbitrariedades que atingiram o Rio Grande do Norte em todas as direções, sob a conivência das autoridades governamentais.

Ao aproximarem-se as eleições de 14 de outubro de 1934, em plena campanha política, contingentes policiais foram destacados para cidades, vilas e povoados, com a finalidade de coagir os adversários do governo, generalizando-se o pânico e o medo entre as populações. Populações que se dividiam em duas facções partidárias: o Partido Popular, de oposição ao governo; e a Aliança Social ou Liberal, partido governista. Perrepista ou perré, era a denominação dada ao partidário da oposição, liberal ou Pela-Bucho, era o correligionário do Governo ou a pessoa filiada da Aliança Liberal.

A proporção que se aproximava o dia das eleições, a onda de crimes aumentava assustadoramente, sob as mais diversas formas. Prisões ilegais, espancamentos de adversários do governo. Assassinatos eram presenciados a todo o instante, ficando os criminosos livres de qualquer punição.

Em Apodi, onde o chefe político Francisco Ferreira Pinto liderava a corrente de oposição ao governo, as perseguições políticas alcançaram o seu ponto culminante. Sucediam-se as prisões, intimidações a adversários do partido governista, surras e ameaças de toda a ordem.

O esquema de opressão posto em prática, estarrecendo a opinião pública, não se limitou apenas às agressões físicas e desmoralizadoras, pelos agentes do partido revolucionário, de que foram vítimas chefes políticos de prestígio e respeito. O processo de violência evoluía a todo momento, amedrontando as famílias e eleitores oposicionistas.

Acontecimentos de maior gravidade começaram a surgir em diversos municípios do Estado; o assassinato de chefes políticos do Partido Popular. Isso devia fazer parte do plano preestabelecido, com o objetivo de aterrorizar o eleitorado e afastá-lo do pleito que se aproximava.

Incluído na lista negra da Aliança Social, comandada neste município pelos senhores Luis Ferreira Leite e Benedito Dantas Saldanha[3], estaria o líder Francisco Ferreira Pinto, ou Chico Pinto, como era chamado, assassinado nesta cidade no dia 02 de maio de 1934. O crime, praticado às caladas da noite, teve grande repercussão em todo o Estado, principalmente no seio do Partido Popular, onde o falecido gozava de elevado conceito. Era um dos chefes políticos de maior prestígio desta região. Não só pela expressão do colégio eleitoral que comandava, mas também pela sua bravura cívica e qualidades morais, que caracterizavam sua personalidade. Desenvolveu no município intensa atividade político-partidária, ao lado de João Józimo de Oliveira Pinto e João de Brito Ferreira, tendo sido eleito Prefeito Municipal e Deputado à Assembléia Legislativa Estadual.

O Coronel Benedito Saldanha seria o de botas longas e braços cruzados

Os métodos postos em prática pelo Governo e seus partidários com a finalidade de ganhar a eleição, não arrefeceram o ânimo dos eleitores populistas, que se mantiveram firmes nos momentos mais difíceis, quando sofriam as mais absurdas perseguições. A eleição de 14 de outubro de 1934, deu ao Partido Popular a mais consagradora vitória. Com a eleição de Dr. Rafael Fernandes ao Governo do Rio Grande do Norte, pela Assembléia Constituinte, o Estado voltou à sua normalidade. A paz voltou a reinar entre as famílias potiguares.

MASSILON

Massilon, desde o assassinato do Delegado de Belém do Brejo do Cruz, PB, entre 1923 e 1924, acossado pela perseguição policial, passou à proteção da poderosa família Saldanha, presença proeminente naquela cidade e arredores e oposição aos Dutras que a governavam e, mais especificamente, à Manuel Paulino Dutra de Morais, seu chefe político, aquele que trouxera, ao Brejo, o militar que seria assassinado pelo cangaceiro.

É o que soubemos por intermédio de Dna. Tércia Leite de Oliveira, sua irmã, graças à entrevista gentilmente cedida ao Autor pelo escritor Sérgio Dantas e realizada pelo Tenente Raimundo Nonato de Oliveira, este casado com Salete, filha de Fenelon Leite, irmão de Massilon.

Essa afirmação foi corroborada depois, em entrevista realizada pelo Autor com o Capitão Viana, da qual foi dado notícia um pouco antes, neste livro.

O mesmo Massilon, que foi apontado pelo Capitão Viana como tendo sido jagunço de Benedito Saldanha, era protegido de seu irmão Quincas Saldanha, a quem chamava de “Padrinho”, segundo Deusdedite Fernandes Pimenta, entrevistado pelo Autor, por Franklin Jorge e Kydelmir Dantas, em Março de 2009, na sua Caraúbas natal.

Coronel Quincas Saldanha

Relata Franklin Jorge em seu “site”[4]:

CARAÚBAS –Passei a tarde de sábado em Caraúbas, para onde fui a convite de Honório de Medeiros e Kydelmir Dantas, que iam com a missão de entrevistar Deusdedite Fernandes Pimenta. Ele nos recebeu em sua casa em animada “sessão nostalgia”, quando recordou que estivera nos braços do famoso Massilon Leite, incentivador de Lampião no ataque a Mossoró, fato ocorrido em 1927.

Em voz clara e cheia de energia, evocou ainda outras figuras populares de Caraúbas, entre as quais a não menos famosa de Quincas Saldanha que há mais de cinqüenta anos aterrorizou uma vasta região, cuja casa forte, um digno exemplar da arquitetura rural sertaneja, centro político da sua propriedade rural retalhada por seus herdeiros, ainda continua de pé, incorporada já ao perímetro urbano do município.

Homem corpulento e cordial, de 83 anos, Deusdedite tinha apenas alguns meses de vida quando a fazenda Timbaúbas, do seu avô Hipólito Fernandes, foi invadida por Massilon que se fazia acompanhar por oito ou dez cabras armados, onde pernoitou e trocou uma sela nova pela velha que trazia. Na saída, vendo-o nos braços da babá, tomou-o nos próprios braços e depois de alguns minutos o devolveu à negra que, assustada, tremia.

Definitiva, entretanto, para demonstrar a veracidade da afirmação alusiva ao vínculo entre Massilon e os Saldanha é a Denúncia oferecida pelo Promotor Público da Comarca de Souza, PB, Dr. Emílio Pires Ferreira, servindo“Ad-Hoc” em Brejo do Cruz, no mesmo Estado, em 10 de fevereiro de 1927, transcrita no Jornal “União”, da Paraíba, número 82, em 9 de abril de 1927, um sábado[5].

Nela vamos encontrar esse trecho, em grafia da época:

A excepção de MASSILON LEITE, pronunciado neste termo, por crime de homicídio que, apezar de já ter vivido sob a proteção de Joaquim Saldanha, estava ultimamente com Benedito Saldanha, irmão deste, no Estado do Ceará, os demais são moradores do mesmo Joaquim Saldanha e são tidos como homens afeitos do crime.

Massilon sabia, pois, que na Paraíba, desde que matara um Delegado, não havia mais lugar para ele. Dos beneficiados pelos seus crimes obtivera passaporte e amparo para começar outra vida longe dali. Cortara o território do Alto Oeste potiguar e reaparecera no Ceará, mais precisamente em Alto Santo, sob a proteção do Coronel Benedito Saldanha, grande proprietário rural na Região, irmão do Coronel Quincas Saldanha, este, por sua vez, latifundiário em Brejo da Cruz, Paraíba, e Caraúbas, Rio Grande do Norte.

OS CORONÉIS QUINCAS E BENEDITO SALDANHA

O Coronel Quincas Saldanha desde que saíra de Brejo do Cruz após o evento de 1926[6], e se fixara em Caraúbas, no Rio Grande do Norte, voltara seu interesse, secundando seu irmão Benedito Saldanha, fazendeiro em Alto Santo, Ceará, para a política do Rio Grande do Norte, com especial atenção pela Região Oeste, mais especificamente Caraúbas e Apodi, nesta alinhado à oposição radical ao Coronel Francisco Pinto, chefe político da cidade.

Abelardo Montenegro conta, em “FANÁTICOS E CANGACEIROS”[7] o seguinte episódio acerca do Coronel Quincas Saldanha, dando idéia da importância e liderança que desfrutava entre seus pares:

Em 1904, aproximadamente, o coronel Joaquim Saldanha enviava gado da fazenda Amazônia, nos limites entre Paraíba e Rio Grande do Norte, para Riacho do Sangue (Frade), Cachoeira (Solonópoles) e Jaguaribe-Mirim. Tempos depois, fazia retornar o gado. Comprava, ao mesmo tempo, boiadas para vender na Pedra do Fogo, em Pernambuco, e em Pocinhos, na Paraíba.

Diversos fazendeiros, entre os quais João Patrício de Almeida, da fazenda Serrote do Mato, João Roque de Macedo, da fazenda Arara, e Elpídio José de Queiróz, da fazenda Juazeiro, procuravam o coronel Joaquim Saldanha, que se hospedava na fazenda Arara, e pediam-lhes providências contra os Bocas e José Dantas. Saldanha assegurava-lhes que ia pedir a interferência do Padre Cícero Romão Batista, seu amigo, que se entenderia com o Governador Nogueira Acioli.

Algum tempo depois, surgiam as primeiras volantes da polícia cearense. Uma delas, comandada pelo tenente Romão Nunes, ficava sediada em Pereiro, sob a orientação do coronel Alcoforado.

Os Bocas e José Dantas tinham os seus ‘pombeiros’ que os avisavam da aproximação da polícia. Os assaltos, por isso, continuavam. Voltava a ser feitos apelos ao coronel Saldanha, que convidava um dos Bocas a comparecer a sua presença, não sendo, porém, aceito o convite.

Em outra viagem, recebia o coronel Saldanha, por intermédio de Francisco Melo, proprietário da fazenda Espinheiro, a relação dos principais culpados. Os Bocas, além de gado, raptavam mulheres.

Após vários convites, dois chefes Bocas iam à fazenda Espinheiro, onde estava arranchado o coronel Saldanha. Ao penetrarem no pátio da fazenda, eram alvejados a bala, morrendo um e saindo outro ferido.

O Coronel Benedito Saldanha, por sua vez, chegou a ser Interventor em Apodi em 1933, durante 6 meses e 14 dias. E foi Deputado à Constituinte Estadual de 1935 pela Aliança Social do Rio Grande do Norte, liderada pelo Interventor Mário Câmara.

Edgar Barbosa[8] fixou um perfil de Benedito Saldanha[9] ao relatar o seguinte episódio por ele protagonizado em 1934:

Na tarde de 29 de novembro, após um almoço na residência oficial do interventor, precisamente no dia do seu regresso do Rio, o Sr. Benedito Saldanha, candidato da Aliança Social à Assembléia Constituinte e figura de evidência do situacionismo, entrou, à frente de um grupo, no prédio d’A Razão. Chegando à redação do órgão do Partido Popular, o político aliancista, em companhia do Tenente José Paulino, sem declinar o seu nome nem os motivos que ali o traziam, entrou sem mais detença a depredar os móveis, rasgar papéis, quebrar caixas e empastelar os tipos com os quais se confeccionava A Razão. Tal empastelamento se deu à hora meridiana, em plena Avenida Tavares de Lyra, a artéria principal da Ribeira. Após, o Sr. Benedito Saldanha saiu dizendo ir à procura dos próceres oposicionistas, ameaçando assim de novas violências o Partido contra cujo porta-voz na imprensa agira tão desabragadamente.

Relembremos Válter de Brito Guerra[10]:

Incluído na lista negra da Aliança Social, comandada neste município pelos senhores Luis Ferreira Leite e Benedito Dantas Saldanha, estaria o líder Francisco Ferreira Pinto, ou Chico Pinto, como era chamado, assassinado nesta cidade no dia 02 de maio de 1934. O crime, praticado às caladas da noite, teve grande repercussão em todo o Estado, principalmente no seio do Partido Popular, onde o falecido gozava de elevado conceito. Era um dos chefes políticos de maior prestígio desta região. Não só pela expressão do colégio eleitoral que comandava, mas também pela sua bravura cívica e qualidades morais, que caracterizavam sua personalidade. Desenvolveu no município intensa atividade político-partidária, ao lado de João Józimo de Oliveira Pinto e João de Brito Ferreira, tendo sido eleito Prefeito Municipal e Deputado à Assembléia Legislativa Estadual.

E Giocondo Dias, célebre líder comunista, assim a ele se refere quando entrevistado pelo jornalista e escritor Luis Gonzaga Cortez[11]:

Giocondo -Claro. Havia uma grande instabilidade, permanente. E o que acontecia?Os políticos, tanto os cafeístas, como os perréis, trabalhavam a oficialidade do batalhão. Por exemplo, o capitão Everardo Barros de Vasconcelos, que depois foi general, era homem ligado aos perréis. Aluísio Moura, outro capitão, era ora ligado aos perréis, ora aos cafeístas, e assim por diante. Por outro lado, Café Filho, ao lado do apoio popular, era apoiado pelos Saldanha, pelo Benedito Saldanha, pelo Aristides Saldanha, que eram verdadeiros senhores feudais. Tinham um autêntico exército, forças que giravam em torno de 500 jagunços, à disposição deles. Conseguiram manter este status quo exatamente na medida que apoiaram a Revolução de 30.

CONTINUA...

[1] Coleção Mossoroense, Volume 1.145, Mossoró, RN, 2000.
[2] Grifei.
[3] Observemos a presença do Coronel Benedito Saldanha, a quem Massilon era ligado, segundo a Denúncia do Ministério Público de Brejo da Cruz e o depoimento de várias testemunhas, dentre elas o Capitão Viana.
[4] www.franklinjorge.com
[5] Ver, do Autor, “MASSILON”.
[6] A invasão de Brejo do Cruz executada por Massilon, acerca da qual se escreveu acima.
[7] Organização de Gildácio J. Almeida Sá; Expressão Gráfica Editora; Reedição; 2011; Fortaleza.
[8] “HISTÓRIA DE UMA CAMPANHA”; Edfurn – Editora da UFRN; Natal, RN; 2008.
[9] Em 6 de maio de 1934 o jornal “O Mossoroense” traz matéria com manchete de primeira página acerca do assassinato do Coronel Francisco Pinto por Roldão Maia, “cabra” de Benedito Saldanha segundo o historiador Marcos Pinto em “DATAS E NOTAS PARA A HISTÓRIA DE APODY”;Livro I; Coleção Mossoroense; Série “C”; Volume 1.164; 2001; Mossoró, RN.
[10] “APODI, SUA HISTÓRIA”; Coleção Mossoroense; volume 1.145; Abril de 2000; Mossoró, RN.
[11]http://www.dhnet.org.br/dados/livros/memoria/estaduais/cortez.doc(“A REVOLTA DE 1935 EM NATAL”)

(*) Mestre em Direito; Professor de Filosofia do Direito da Universidade Potiguar (Unp); Assessor Jurídico do Estado do Rio Grande do Norte; Advogado (Direito Público); Ensaísta.

http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/ 






terça-feira, 6 de novembro de 2012

“Lampião Contra o Mata Sete é uma obra prima. Um tratado com uma riqueza de detalhes de causar inveja a qualquer pesquisador da academia."


Do Professor PAWLO CIDADE para o Dr. ARCHIMEDES:

Caro amigo Archimedes,

O tempo e algumas questões do meu dia-a-dia como gestor da cultura, escritor e professor que sou, me impediram de responder de imediato a leitura do seu gigante “Lampião contra o Mata Sete”. Confesso que fiquei com receio de lê-lo de uma tacada só. Afinal, sou um amante da literatura, sobretudo aquela que retrata as peripécias, a trajetória, o habitat e tantos outros elementos de um período tão significativo da nossa história: o cangaço.

Ler “Lampião Contra o Mata Sete” foi como armar-se de uma M-16 e disparar, sem dó, nem piedade, sobre as alegações oportunistas e infundadas do Sr. Pedro Morais. Não sei quais foram os motivos deste escrever mentiras, não só fétidas, como descabidas sobre o nosso Rei do Sertão. Não há como negar a masculinidade de Virgulino Ferreira ou manchar honra de Dona Maria. Sei, que se vivo estivessem, neste momento, estaríamos ouvindo histórias de um tal Pedro Morais que desapareceu pelas caatingas, sem deixar rastro ou poeira. “É difícil acreditar que um homem está a dizer a verdade quando você sabe que mentiria se estivesse no lugar dele.” Esta frase célebre do jornalista Henry Mencken (1880-1956) retrata bem o que está a dizer o Sr. Pedro Morais.

Por fim, meu amigo, “Lampião Contra o Mata Sete” é uma obra prima. Um tratado com uma riqueza de detalhes de causar inveja a qualquer pesquisador da academia. Deixemos a imaginação de Pedro divagar, embasada em hipóteses que sequer foram comprovadas. Afinal, podemos não apagar estas alegações, uma vez que elas foram lançadas ao vento.

 Todavia, podemos sim fazer prevalecer a verdadeira história de Virgulino, Maria e seu bando. E, uma vez estabelecida, mais do que já está, um  tal “Lampião o Mata Sete” será página virada. E olhe lá se ele já não estiver sido esquecido pelo tempo e enterrado pela sola das “alprecatas” dos que primam pela verdade dos fatos.
Viva “Lampião Contra o Mata Sete!”

Do Dr.  ARCHIMEDES para o Professor PAWLO CIDADE:

Muito obrigado pelas palavras elogiosas amigo Pawlo Cidade. Excelentes colocações vindas de uma pessoas que prima pela verdade dos fatos e que também está de acordo com a nossa cultura nordestina que passa principalmente pelas figuras de Lampião e Luiz Gonzaga. Dois ícones que não podem ser esquecidos nem enlameados a bel prazer de quem quer que seja, mesmo um sendo um bandido sanguinário e o outro o nosso símbolo maior...

Falar no indigesto Pedro de Morais, me falaram que ele está escrevendo sobre a GUERRA DE CANUDOS e que também colocará nas entrelinhas do seu livro que ANTONIO CONSELHEIRO ERA UM HOMOSSEXUAL. Vê se pode um negócio desse? O cara quer fazer de todos os personagens importantes VIADOS... Daqui a pouco ele vai escrever também dizendo que PADRE CÍCERO TAMBÉM ERA... Coisa horrível!...

Não sei se você soube que a uns quinze dias atrás a Vera Ferreira (neta de Lampião e Maria Bonita) entrou com outra ação na Justiça sergipana pedindo a bagatela de DOIS MILHÕES DE REAIS por danos Morais a esse imbecil...

Aproveitando, quero de antemão dizer que se um dia eu publicar a segunda edição do LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE, farei algumas reformas e acrescentarei mais alguns comentários, daí desde já peço permissão para publicar o seu que está excelente.

Gostaria, se possível for, que o amigo comentasse o meu texto sobre o GRANDE AMIGO ALCINO que está publicado no meu www.cangacoemfoco.jex.com.br

Saúde, Paz e Prosperidade!
Archimedes Marques

http://espetaculocangaco.blogspot.com.br

Lançamento de livro e agradecimento do Capitão Alfredo Bonessi ao escritor Frederico Pernambucano de Melo

Capitão Alfredo Bonessi

Dr Frederico:

Como sempre, é uma honra receber um email do amigo. Fico feliz e agradecido por  ter tido a chance histórica de conhecê-lo pessoalmente e de ser reconhecido como  amigo de um ser humano notável, um pesquisador serio e renomado como é você.


Obrigado e o parabenizo mais uma vez por mais um nobre lançamento histórico, cultural, informador, esclarecedor, das nossas tradições nordestinas.

Escritor Frederico Pernambucano de Melo

Como informação ao amigo de minha parte e por obra do destino me recolhi ao meu Estado Natal, o Rio Grande do Sul, por razões de negócios, de onde estou a 3500 km do meu saudoso Nordeste. Por aqui caminho por terras  vermelhas de sangue  farrapo, derramado nas pelejas pela libertação do Pampa Gaucho nas batalhas contra o Império do Brasil. Às vezes o vento Minuano carrega consigo um som, um lamento, um gemido que me  leva a imaginar ser proveniente no tempo, espaço cósmico, da agonia dos feridos a lança e a espada nas pelejas contra o invasor Português, Espanhol, Correntino, Paraguaio, ou mesmo entre Gaúchos mesmo, nas contentas políticas  e nos sangramentos dos desafetos derrotados.

Boa tarde - Abraço - Bonessi

Enviado pelo pesquisador do cangaço: Capitão Jorge Alfredo Bonessi

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Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros

Autor: Frederico Pernambucano de Melo

Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros

Benjamin Abrahão - Sinopse

Autoridade na cultura do Nordeste do Brasil, o historiador Frederico Pernambucano de Mello nos apresenta o livro Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros (Escrituras Editora), que traz a biografia do secretário particular do padre Cícero, do Juazeiro, de 1917 a 1934, além de fotógrafo autorizado do cangaceiro Lampião, tendo acompanhado os diferentes bandos de que este dispunha em sete Estados do Nordeste, no meado de 1936, creditando-se como responsável pela mais completa documentação do cangaço jamais obtida, ao incorporar a imagem cinematográfica às velhas fotografias conhecidas.

A obra é ensaio interdisciplinar que ocupou boa parte da vida do autor, e também um livro de arte, com dezenas de fotografias e de fotogramas históricos da trajetória do sírio Benjamin Abrahão Calil Botto -- um “conterrâneo de Jesus”, como se declarava, por conta do nascimento em Belém, na Terra Santa --, que desembarcou no Porto do Recife em 1915, aos 15 anos de idade, fugindo da Grande Guerra, para trilhar uma aventura extraordinária pelos sertões do Brasil setentrional.

Frederico Pernambucano de Melo

No livro, Pernambucano de Mello, reconhecido por Gilberto Freyre, já em 1984, como “mestre de mestres em assuntos de cangaço”, apresenta pesquisa profunda, feita ao longo de 40 anos. Pela primeira vez, é divulgado o conteúdo da caderneta de campo deixada por Benjamin Abrahão, recolhida pela polícia no momento de seu assassinato com 42 punhaladas, no começo de 1938, no sertão de Pernambuco, aos 37 anos de idade. Cobrindo os anos da missão sobre o cangaço, a caderneta abrange o período 1935-1937, com lançamentos alternados em português e em árabe, assim impusesse a necessidade de sigilo sobre o assunto. O historiador trabalhou por três anos, com dois professores de árabe, traduzindo, ponto a ponto, o conteúdo averbado -- muitas vezes resultante de conversas noite adentro com Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros -- que são relatos que matam polêmicas e contestam versões atuais sobre fatos e figuras das décadas de 1910, 1920 e 1930, como o polêmico Floro Bartolomeu da Costa e a apregoada amizade entre Lampião e o padre Cícero, além de informações que dizem respeito ao real combate do Batalhão Patriótico à Coluna Prestes, para o qual traz entrevista inédita que fez com Prestes, em 1983, no Recife.

Particularmente importante, pela originalidade, é a revelação da matriz setecentista e estrangeira do pensamento social brasileiro dos anos 1930 sobre o cangaço, presente, sobretudo no chamado romance nordestino, tendente a culpar a sociedade e a desculpar os excessos dos protagonistas do fenômeno. O mesmo se diga sobre a revelação, de todo desconhecida até o presente, dos esforços de apropriação internacional do apelo épico que o tema encerra, por parte das facções travadas em luta de morte ao longo da década aludida: o Reich alemão contra o Soviete russo, Hitler contra Stalin, ao tempo em que Lampião dava as cartas na caatinga.

O livro traz ainda apêndice com a reprodução de importantes documentos, colhidos em pesquisa que contou com o apoio de muitos colaboradores e instituições, como a Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, a Cinemateca Brasileira de São Paulo, os arquivos Renato Casimiro/Daniel Walker, do Juazeiro, e da antiga Aba-Film, de Fortaleza, ambos do Ceará, entre outros.

Sobre o autor:
Frederico Pernambucano de Mello possui formação em história e direito. Na Fundação Joaquim Nabuco, do Ministério da Educação, integrou a equipe do sociólogo Gilberto Freyre, de 1972 a 1987, período em que se especializou no estudo da cultura da região Nordeste do Brasil, tendo publicado os seguintes livros: Rota batida: escritos de lazer e de ofício, Recife, Edições Pirata, 1983; Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil, Recife, Editora Massangana/ Fundação Joaquim Nabuco, 1985 [ora em 5ª edição pelo selo A Girafa, de São Paulo]; Quem foi Lampião, Recife-Zürich, Stähli Edition, 1993 [ora em 3ª edição]; A guerra total de Canudos, Recife-Zürich, Stähli Edition, 1997 [ora em 3ª edição pela A Girafa]; Delmiro Gouveia: desenvolvimento com impulso de preservação ambiental, Recife, Editora Massangana/ Fundação Joaquim Nabuco-CHESF, 1998; Guararapes: uma visita às origens da Pátria, Recife, Editora Massangana/Fundação Joaquim Nabuco, 2002; Tragédia dos blindados: a Revolução de 30 no Recife, Recife, Editora Massangana/Fundação Joaquim Nabuco, 2007; Estrelas de couro: a estética do cangaço, São Paulo, Escrituras Editora, 2010, livro finalista do Prêmio Jabuti de 2011, nas categorias projeto gráfico e ciências humanas.  É membro dos Institutos Históricos de Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte, do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, e da Academia de História Militar Terrestre, tendo sido curador internacional da Fundação Bienal de São Paulo para a Mostra do Redescobrimento – Brasil 500 Anos, São Paulo, 2000, e presidente da União Brasileira de Escritores – Seção de Pernambuco.  Na Academia Pernambucana de Letras, ocupa a cadeira 36 desde o ano de 1988. Pela originalidade de seus estudos, pelo volume da obra que produziu, e por se dedicar a aspectos de nossa história considerados ásperos e de pesquisa difícil, tem sido considerado o “historiador do Brasil profundo”, na palavra do professor Nelson Aguilar.

carmen barreto – comunicação e imprensa – imprensa@escrituras.com.br
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Telefones: (11) 5904-4499 (PABX) /5904-4492 (direto)

Título:
Benjamin Abrahão
entre anjos e cangaceiros 
Autor:
Frederico Pernambucano de Mello 
Prefácio:
Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes 
Texto das orelhas
José Nêumanne Pinto
Gênero:
História/Cangaço e cangaceiros/Usos e costumes/Ensaio interdisciplinar 
ISBN
978-85-7531- 447-0
Formato:
16 X 22,5 cm
brochura, com mais de 97 imagens
Peso:
a definir 
Páginas:
352 
Preço:
R$ 45,00
Qualidade em conteúdo
e forma
www.escrituras.com.br

Enviado pelo pesquisador do cangaço: Capitão Jorge Alfredo Bonessi

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Mané Cruza Faca e o cangaceiro Mergulhão

Por: Francisco C. Jorge de Oliveira

Sou cabo da Polícia Militar do Paraná. Meu nome é Francisco C. Jorge de Oliveira e moro na cidade de Florestópolis, Norte do Paraná.

Tem um Senhor aqui no meu bairro, um pernambucano da cabeceira do Pajeú.  Ele se chama Tenório, tem 101 anos de idade e goza de plena lucidez. Eu adoro prosear com ele só para ouvir suas histórias com seu sotaque coloquial nordestino, pois lendo sobre o cangaceiro Mergulhão,  lembrei-me de um caso que ele me contou deste pérfido cangaceiro.

Diziam que numa fazenda por nome "Água do Teiú" de um coronel chamado Juvêncio Dantas, havia um jagunço de alcunha Mané cruza faca. Diziam que o cabra era um demônio, brigava de punhal, no tiro, matava, feria e sempre saia ileso; ele tinha o corpo fechado; todos o temiam e ninguém se atrevia a saquear aquela propriedade.

Um dia o tal jagunço se apaixonou por uma inócua mocinha de um sitio ao lado, e simplesmente a raptou, levando-a para viver em sua companhia naquele remoto lugar. Só o que o facínora não sabia, era que a tal donzela era prima do cangaceiro "Mergulhão”, e neste mesmo dia Mergulhão chegou com mais três cangaceiros para pernoitar no sítio do seu tio que os acolheu.

Durante o jantar, lhes pôs a par dos fatos. Mergulhão ficou possesso, queria já naquela hora ir buscar a prima, mas, foi logo advertido pelo tio dos poderes místicos do jagunço, e que naquela noite o carrasco não iria molestar a menina, pois era dia de São Cipriano.


Mergulhão foi informado que o tal malfeitor todos os dias de manhã, ia beber água em uma cacimba cavada por um raio perto de um lajedo nas margens de um riacho temporário. Assim que a zabelê cantou despertando a alvorada, Mergulhão já se encontrava na emboscada pronto para agir. Sua arma era um velho bacamarte doado pelo Sinhô Bento, um preto velho benzedor amigo da família, e foi carregada na noite de sexta feira, com quatro dedos de pólvora negra, e a bucha era de mortalha de defunto, socada até a vareta pular fora da boca do cano. Os projéteis eram três balotes de estanho derretidos e forjados com fogo da madeira de cruzes de cemitério.

Quando o sol despontava entre os ramos de guipás, surge o tal jagunço montado em um burro preto dos olhos vermelhos como os do cão. Mergulhão sentiu um friozinho na espinha, mas permaneceu firme na cilada. Então o homem mal apeou de sua montaria, e pegando uma cabaça, mergulhou-a nas águas turvas e salobras da cacimba. Mergulhão apontou a arma, mas quando fez a visada, o cabra ficou invisível e desapareceu, e só se ouvia o gorgolejar do jagunço. Foi aí que uma voz murmurou no ouvido de Mergulhão: “atire no fundo da cuia.” Mergulhão obedeceu a voz e arrastou o dedo. O tiro foi um trovão que acordou lá nas caatingas o bando de Lampião.


Parecia até que a carga foi feita por satanás; que no açoite da pancada, o cão se armou e voltou para trás. O burro corcoveou pulando e caiu com o ânus sobre um galho de um pau de braúna e agonizando morreu lentamente ali empalado.

Mergulhão que havia desmaiado com o tranco da arma, acordou assustado, vendo inerte o corpo do jagunço sem a cabeça, que foi arrancada com o impacto do disparo

Mergulhão nem o enterrou, deixou-o ali á mercê dos urubus, e deslocou imediatamente para onde estava a menina. E assim que lá chegou, tirou-a das mãos dos estranhos que atônitos não esboçaram nenhuma reação. Ilesa, Mergulhão a trouxe e entregou ao tio que de tão alegre, matou um bode e o assou para almoçarem tomando pinga. 

Ao entardecer jantaram uma buchada com pimenta, farinha e cachaça da boa. No outro dia, antes do sol nascer, Mergulhão partiu com seus comparsas embrenhando-se às caatingas, tomando um rumo ignorado. 

Então meus amigos leitores, é ou não é verídico este caso? Cabe a vocês decidirem.

Francisco C. Jorge de Oliveira
Da cidade de Florestópolis, Norte do Paraná.