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domingo, 15 de julho de 2012

TRIBUTO A VIRGOLINO E IX ENCONTRO NORDESTINO DE XAXADO

Desculpas de Lampião

Por: José Mendes Pereira

Em uma entrevista que Lampião cedeu ao jornalista José Alves Feitosa, do Jornal “A NOITE”, de Recife-PE, e foi  publicada pelo Jornal Cearense “O POVO”, no dia 04 de junho de 1928, confira no site abaixo: 
http://culturanordestina.blogspot.com.br/2008/05/o-monarca-selvagem-dos-sertes.html 

José Alves Feitosa - Disse-me a pouco que se pudesse abandonaria o cangaço... Lampião respondeu o seguinte: 

"Sim, porque eu não vivo a vida do cangaço por maldade minha. É pela maldade dos outros, dos homens que não tem a coragem de lutar corpo a corpo como eu e vão matando a gente na sombra, nas tocaias covardes. Tenho que vingar a morte dos meus pais. Era meninote quando os mataram. Bebi o sangue que jorrava do peito de minha mãe e, beijando-lhe a boca fria e morta, jurei vingá-la. É por isso que de rifle às costas, cruzando as estradas do sertão, deixo um rastro sangrento na procura dos assassinos de meus pais". 

A mãe de Lampião, Dona Maria Sulena da Purificação, não foi assassinada. Faleceu em Alagoas antes do marido. O motivo do seu falecimento foi quando o fazendeiro José Saturnino enrixou a família Ferreira e empurrou-a de Pernambuco para viver em terras desconhecidas, Alagoas. Ela não aguentando a pressão do seu vizinho, caiu em depressão e veio a falecer um mês antes do assassinato  do marido. Segundo os escritores e pesquisadores do cangaço, José Ferreira da Silva, este sim,  foi realmente assassinado pelas armas do tenente Zé Lucena, no ano de 1920.

O que Lampião diz:

"Bebi o sangue que jorrava do peito de minha mãe e, beijando-lhe a boca fria e morta, jurei vingá-la".

Lampião disse isso no intuito de  reforçar que ele não era o único culpado de sua vida de desgraça, mas que sabia muito bem que a mãe não foi assassinada. Para ele quem quisesse acreditar que acreditasse. 

José Alves Feitosa perguntou-lhe:  Como foi assassinado o seu irmão?

"- É invenção, ele não foi morto. Está são, vivo e bolindo. Aquilo foi brincadeira só pra atrapalhar."

Em hipótese alguma Lampião queria perder. Lutaram tanto para capturá-lo vivo, mas não conseguiram. Só passaram a mão no seu corpo depois de morto. Mesmo tendo sido assassinado, Lampião não perdeu, pois o que queriam mesmo era capturá-lo vivo. E morto não quer dizer que a polícia o venceu. Não vale como vencido, Lampião morto nas mãos dos seus perseguidores.

Leia o que escreveu o escritor e pesquisador do cangaço -  Antonio Amaury, sobre o irmão de Lampião - Antonio Ferreira da Silva.



Morre Antonio Ferreira

confira no site abaixo:
http://cariricangaco.blogspot.com.br/2009/12/morre-antonio-ferreira-porantonio.html

Lampião e Antonio Ferreira

Era começo de Janeiro de 1927, Antônio Ferreira, junto de Luiz Pedro, Jurema e um outro rapaz, estava acoitado pelo coronel Ângelo da Gia, na fazenda Poço do Ferro, e jogavam baralho. Luiz Pedro estava numa rede e Antônio em pé. Antônio estava perdendo muito no jogo, enquanto disse a Luiz:

Nenén e seu companheiro Luiz Pedro

- Luiz, você está sentado nesta rede há muito tempo! Agora deixe que eu me sente um pouco aí.

O rapaz segurando o cano do fuzil, ao apoiar-se para levantar, bateu com a coronha no chão. A arma, destravada, disparou a bala que atingiu Antônio em cheio. Este, antes de cair, só teve tempo de falar:

-Matou-me, Luiz.

Lampião, que estava longe, ao receber a notícia, passou a noite na cavalgada para acertar-se do ocorrido na fazenda de seu amigo Ângelo. Perdera assim mais um irmão em sua história de cangaceiro, por um acidente estúpido. Ouviu e concordou com o parecer do próprio coronel sobre o acidente. Jararaca, um dos chefes cangaceiros, no entanto, propôs que todos os envolvidos pagassem com a vida, por não acreditar que se tratasse de um acidente. Ao saber que seria perdoado, Luiz fez um juramento a Lampião, que passou para a história.

- Seu capitão... O senhor poupou minha vida. Eu juro acompanhá-lo até o fim. No dia em que o senhor morrer, eu morro também!

A partir desse dia, Lampião decidiu proibir qualquer um de seus comandados de portar arma com balas na agulha. Também em sinal de luto, deixou de cortar os cabelos, que foi seguido por quase todos do grupo; afinal ele era um líder, em todos os sentidos, inclusive como exemplo a ser seguido nas coisas mais simples.

Antonio Amaury Corrrea de Araujo
Carlos Elydio

NOTA CARIRI CANGAÇO: A morte de Antonio Ferreira, irmão mais velho do líder Lampião se configura sem dúvidas um dos episódios mais pitoresco e marcantes da história do cangaço. De fato, Luiz Pedro acabou tombando no fatídico 28 de julho de 1938, em Angico, quando perderam a vida, Lampião, Maria e mais 9 companheiros.

Cariricangaco.blogspot.com 

José Octávio Pereira de Lima - 16 de Julho de 2012

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Nasceu na cidade paraibana de Araruna, a 8 de setembro de 1895, mas foi em Mossoró onde viveu a maior parte da sua vida, desempenhando as atividades de comerciante, dono de livraria, atelier fotográfico e jornalista combativo. Como jornalista, fundou e dirigiu “O Correio do Povo”, o primeiro jornal que circulou diariamente em Mossoró. Publicou o livro “Terra Nordestina, problemas, Homens e Falas”, e escreveu um trabalho em versos historiando o ataque de Lampião a Mossoró. Foi Inspetor Federal do Ensino e primeiro prefeito provisório de Mossoró, após a Revolução de 30. Governou Mossoró no período de 6 de outubro de 1930 a 17 de outubro de 1930. Foi, portanto, o chefe da edilidade mossoroenses que menos tempo permaneceu em exercício.


Em 1930 acontecia no Brasil um movimento armado, liderado pelos Estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. Essa Revolução culminou com o golpe de Estado que depôs o presidente da república Washington Luís, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e pôs fim à República Velha, levando Getúlio Vargas a assumiu o destino da Nação. 
               
Com a Revolução os governantes estaduais são depostos pelos \\\"tenentes\\\". No RN começou uma disputa pelo poder onde a Aliança Liberal do Estado ficou dividida em torno dos nomes Café Filho e de Silvino Bezerra Neto para o governo. Para resolver a questão foi instituída uma Junta Governativa Militar, que assumiu em 06 de outubro de 1930. Essa junta garantiu a ordem pública e consolidou a mudança de poder. E foi essa junta que nomeou José Octávio para ocupar o cargo de Prefeito Revolucionário Provisório de Mossoró, onde permaneceu no cargo por apenas 11 dias. Claro que num tempo tão curto não chegou nem a pensar num plano administrativo a executar. Limitou-se apenas a receber as caravanas revolucionárias que aqui chegavam e a zelar pela manutenção da ordem ameaçada de sublevação pelos correligionários mais exaltados. 
               
Segundo o escritor Raimundo Nonato, José Octávio “era, por seu feitio e disposição, temperamental, um espírito forte, um homem de lutas, que não se mantinha indiferente ante as alternativas da política partidária, em cujas fileiras militou ativamente na grei do cafeísmo, depois da revolução de 1930. 
               
Enfim, uma figura inquestionavelmente discutida a de José Octávio Pereira, porém, um cidadão que, fora de dúvida, deixou nesta cidade um marco da sua vida e do seu trabalho e um exemplo permanente das suas atitudes de independência e de espírito de brasilidade”. 
               
Nos 11 dias que passou como gestor público de Mossoró, ocorreram na cidade alguns fatos que exigiram que o novo governante, desde o primeiro momento de sua administração, tomasse atitudes firmes para evitar tumultos na cidade provocados pela nova ordem política: na noite do dia 06 de outubro, o mesmo dia da sua posse, uma coluna de revolucionários do interior da Paraíba, chefiada por Sá Cavalcanti e Janduí Carneiro, após penetrar no Rio Grande do Norte, chega a Mossoró, sendo recebida com aplausos pelo povo, já com laços vermelhos na lapela e lenço no pescoço. A coluna ficou alojada no então Colégio Santa Luzia, de onde foi retirada por ordem do Tenente Jonathas Luciano, comandante de uma corporação do Exército, vinda de Natal, sob o argumento de que os paraibanos, chamados “coluna pente fino”, haviam cometido saques no comércio de Patu, muito em desacordo com o que pregavam os autênticos revolucionários. 
               
A 12 do mesmo mês, assumiu o governo do Estado o interventor Ireneu Jôfile, que logo nos primeiros dias nomeou o Cônego Amâncio Ramalho para o cargo de Prefeito Provisório de Mossoró, a quem Octávio transmitiu o cargo a 16 do mesmo mês de outubro, encerrando assim a sua gestão administrativa. 
               
José Octávio faleceu a 3 de abril de 1958, em Niterói/RJ, para onde fora em tratamento de saúde.

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Autor:
Jornalista Geraldo Maia do Nascimento
Fonte:

Padre Bulhões

Por: Luiz Nogueira Barros(*)

Padre Bulhões

Impossível esquecê-lo. Era árido como o sertão em tempos de seca. Mas tal o mandacaru, resistente planta dos sertões, tinha água e sabia doá-la para os necessitados e perdidos naquelas plagas longínquas, nas horas cruciantes. Sua casa era um porto seguro para os desamparados da sorte. E o seu olhar, por vezes severo, escondia a complacência própria dos homens de grande santidade.

Padre Bulhões - Pai adotivo de Sílvio Bulhões - filho dos cangaceiros: Dadá e Corisco

Muitas vezes era visto  no sítio do fundo da sua casa ao lado do Camoxinga como um homem comum a mexer com a terra, calejando as mãos, sonhando flores e frutos. Ou então na sua batina surrada, subindo a ladeira, apressado, 


na direção da Matriz de Senhora Santana, onde as obrigações religiosas completavam a sua modesta existência.
Abusado? Era-o, de fato. E quando precisava dar alguma lição de moral para algum herege suas palavras terminavam sempre  assim:
"- Compreendeu... compreendeu... compreendeu seu safado?".
Se compreendido, a sua complacência de pastor de almas mostrava,  de súbito, o lado bom do seu coração. Seu passo seguinte era o de recuperar o herege.
Durante  anos  a sua casa foi um orfanato onde  meninos e meninas desvalidas se fizeram moças e homens. Até mesmo, um dia, recebeu um 

bilhete de "Corisco", lugar-tenente do temido cangaceiro "Lampião", que lhe enviava um filho recém-nascido  que não podia crescer naquela vida do cangaço. 


Falava-se, à boca miúda, que "Lampião" e "Corisco" tinham uma devoção com Senhora Santana, além de respeitarem o seu pároco. E que por isso jamais entrariam nos domínios da santa. E o menino se fez homem à sombra daqueles domínios sagrados.

Aderbal Nogueira e o filho do cangaceiro Sílvio Bulhões 

Mas  padres Bulhões tinha um grande amigo, o "Seu" Edmundo, o chefe do Leilão da Santa. Fabricante de "gengibirre", um delicioso suco de gengibre, "Seu"  Edmundo o vendia em garrafas de louça com rolhas fortemente  amarradas por barbantes. Tanto que, retirados os barbantes ouvia-se um estampido semelhante aos das garrafas de champanhe e logo depois o suco  borbulhante  descia como  cascata  pela boca da garrafa enlouquecendo o apetite dos meninos.
"Seu" Edmundo, assessor de muitas viagens do padre Bulhões pelos distritos num velho 



"jipe", tinha as mesmas afobações do seu inseparável amigo. E um dia, numa viagem para Cacimbinhas, os dois se esqueceram de acertar a hora dos seus relógios. Como tinham compromissos diferentes marcaram o retorno para as três da tarde. Deu quatro horas e  "Seu"  Edmundo não chegava. Afobado, padre Bulhões decidiu-se por voltar. Ao chegar, pela hora do seu relógio, "Seu" Edmundo não acreditou no recado que recebera. Também afobado, decidiu-se por voltar a pés. Lá na frente, arrependido, o velho pároco voltou. Avistou  "Seu"  Edmundo e foi  ríspido:
-Suba aí! Você se atrasou!
E ouviu:
-Eu não! Seu relógio é que está errado! Prefiro ir andando, pois para isso Deus me deu os pés.
Daí por diante  os dois, um no “jipe” e outro andando, foram vencendo os quilômetros com ásperas discussões. E ao final da tarde chegaram aos domínios de Senhora Santana. Antes de entrar em sua casa "Seu" Edmundo ainda ouviu do seu amigo:
- Eita homenzinho teimoso e endiabrado.
E respondeu-lhe:
- Vai-te embora Satanás, que preciso descansar. Depois a gente resolve essa questão.

Gazeta de Alagoas, 14.02.93

(*)Nascido em Pão de Açúcar a 02 de novembro de 1935. Em 1941 sua família mudou-se para Santana do Ipanema, onde permaneceu até 1950. Daí que entre próximo que será publicado, com ensaios, e contos, 30 contos retratam histórias de Santana do Ipanema. Médico, formado pela Faculdade de Medicina da UFAL, em 1963. Atualmente aposentado pelo Ministério da Saúde. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, função de Segundo Secretário, em seguida Secretário Perpétuo em 2001. Segundo vice-presidente, diretoria de transição, após a morte do presidente, prof. Ib Gatto Falcão, da Academia Alagoas de Letras.  nogueirabarros@uol.com.br

Publicado originalmente no Jornal Gazeta de Alagoas, em 14/2/1993

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 16 (DEPOIS DE ANGICO)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 16 (DEPOIS DE ANGICO)

Cangaceiro jamais imaginava que aquela tragédia pudesse acontecer. Quando Cangaceiro viu a bala zunindo, o escarcéu formado, o fogo cortando tudo, os gritos, as quedas, as mortes, e ele mesmo não sabendo direito se estava vivo ou morto, não teve cabeça boa pra acreditar. Aquilo seria a última coisa que poderia suceder. E tudo que ninguém imaginava que pudesse acontecer.

Mas estava ali: a madrugada aflita, o passarinho piando de lamentação, a mataria sem querer acreditar, a pedra chorando, a gruta gemendo, a vida em pranto, em tudo tanta dor e sofrimento. Depois do primeiro disparo, e acertando a rainha cangaceira, os estampidos seguintes, voltados para todas as direções, tanto derrubavam o mandacaru como o cabra aflito que procurava se proteger.

Hoje a história fala numa morte anunciada, em massacre premeditado, num acontecimento inevitável. E muitos chegam a asseverar que o ciclo cangaceiro já estava marcado para terminar mesmo naquele fatídico dia 28 de julho de 1938. E tanto estava marcado no calendário que ao rei dos cangaceiros foi oferecida a chance de abandonar o bando antes que parte do mesmo fosse chacinado.


E sabendo que os dias estavam realmente contados, que não duraria muito para a descoberta e o ataque, o Capitão passou a sofrer a mais angustiante das dúvidas: acabar logo com o bando ou deixar que o destino desse a última voz. Tal indagação corroia-lhe por dentro, apertava o peito, feria o coração. Homem de sentimento, sofrendo a dolorosa perseguição de ter de fazer tão difícil escolha.

Tudo isso refletia no homem como folha verde quando começa a estiagem, como semente quando não bebe gota d’água. Verdade que Lampião andava meio cabisbaixo, um tanto entristecido, de poucas palavras e mais recolhimento. Líder que gostava de estar ao lado de seus comandados, naqueles últimos dias dava pra se danar pra lugares mais afastados, nas ribanceiras do rio, por cima das pedras grandes.

Cangaceiro não comentava nada com os demais, mas tinha certeza que o Capitão meditava conversando consigo mesmo, murmurando seus descontentamentos, seus aperreios, suas angústias e desilusões. E que também chorava de vez em quando. Um dia ainda voltou com os olhos marejados, talvez não desejando mais esconder de ninguém o que andava sentindo.

Mas por que o Capitão não convocava uma reunião para expor, de uma vez por todas, a situação, dando a cada um a chance de escolher o que fazer? Todo líder acha que encontrará sozinho a melhor solução. Situações complicadas ou problemas mais graves a ser resolvidos ele só comentava com Maria Bonita, quando muito. Tinha tanta consciência do seu poder de liderança e de resolver sozinho a maioria das dificuldades surgidas que quase não compartilhava nada com o restante.

Mas para ele estar assim coisa boa não poderia ser. Todo coiteiro que chegava e lhe comunicava alguma coisa o tornava mais circunspecto e reflexivo ainda. Não gostando nada daquela realidade, Cangaceiro sentou numa pedra perto de um companheiro de bando, num lugar um pouco mais afastado, e começou a comentar sobre aquela situação.

O cabra respondeu que também já havia percebido a estranheza, mas talvez tudo estivesse sendo motivado por pensamentos que vinha tendo sobre o destino do bando. Segundo tinha ouvido de uma cangaceira muito amiga de Maria Bonita, desde muito que Lampião vinha tendo pressentimentos ruins com relação ao cangaço. Chegava mesmo a ter pesadelos terríveis com gaviões enfurecidos dando bicadas por cima das cabeças de todo mundo.

Era como se sentisse que o bando dele não demoraria existindo por muito tempo, que a qualquer momento alguma coisa desastrosa poderia acontecer. E por isso mesmo, pra evitar o pior, e também pelo fato de já estar cansado daquela vida de lutas e mais lutas sem qualquer conquista de grande valia, que estava pensando seriamente em desfazer o bando, mandar que cada um seguisse seu rumo e que ele mesmo daria um jeito de se refugiar junto com Maria Bonita.


Ao ouvir isso, Cangaceiro baixou a cabeça e disse o que sentia sobre a revelação do amigo. Afirmou que Lampião até podia ter razão em querer abandonar aquela vida. Reconhecia o seu cansaço depois de tanto tempo cortando caatinga, fugindo, atacando, sendo perseguido, numa vida injusta demais pra qualquer pessoa. Mas nada seria resolvido apenas acabando com o seu grupo.

E prosseguiu dizendo que o Capitão era bem protegido por gente graúda, importante, e que talvez não sofresse nenhuma represália ou consequência maior por parte da justiça. Contudo, certamente que os outros cangaceiros não teriam a mesma sorte, pois sofreriam implacável perseguição e a tendência era que apodrecessem atrás das grades. Sem falar que poderiam ser fulminados covardemente pelos fuzis dos macacos.

Indo adiante no seu proseado, disse ainda Cangaceiro que ainda tinha outro problema que ninguém gostava de falar. E isso dizia respeito ao mundo que o ex-cangaceiro encontraria fora do bando, fora da fama catingueira, fora do respeito que todos devotavam aos homens de Lampião. Acaso ficassem livres da cadeia, o que seria difícil, melhor sorte não teriam perante outras situações.

E apontou: muitos não encontrariam mais família nem porta aberta que os acolhesse; do mesmo modo, poucos seriam os amigos de outrora que estenderiam a mão ou abririam a boca para um bom dia ou boa tarde; sem dinheiro, sem tostão algum, teriam que esmolar para sobreviver, e o pior que sabendo que a fama de ex-cangaceiro não era certeza alguma de ser visto com bons olhos por certas pessoas; que verdadeiramente corriam o risco de ser chamados de fracos e covardes, o que implicaria numa rejeição ainda maior por parte da sociedade; que a polícia tencionasse fazer, mil vezes mais, aquilo que por muito tempo não haviam conseguido a contento, que era a judiação até a morte.

Dois dias depois dessa conversa, na madrugada de 28 de julho de 1938, a polícia alagoana comandada pelo Capitão João Bezerra, atravessando o São Francisco em meio à escuridão, cercou a Gruta do Angico, último refúgio do bando no lado sergipano, e começou atirando em Maria Bonita no momento que ela se dirigia até a beira das águas com balde na mão. Depois mais dez cangaceiros foram varados de balas, inclusive o Capitão Lampião.

Cangaceiro, deitado na recurva de duas pedras, assim que ouviu os primeiros estampidos já pulou de arma na mão. Recostou-se nas pedrarias e começou a mandar bala sem saber ao certo de onde a polícia atirava. Ainda estava escurecido e os vagalumes mortais cortavam o ar num zunido ensurdecedor. As balas batiam nas pedras, riscavam fogo, ricocheteavam e se espalhavam por todo lugar. Tempo ruim, tempo triste, coisa de parecer o mundo acabando.

Totalmente encurralado, Cangaceiro se arrastou pelo chão espinhento que mais parecia cobra assustada. Foi dar num penhasco num mesmo instante que ouviu botinas no seu encalço. É agora, pensou. Ainda deitado, mirou na direção do barulho na mataria, atirou e depois se deixou cair ribanceira abaixo. Foi sua salvação. Correu pelo mato da beira do rio e só parou quando encontrou uma canoa abandonada. Subiu nela e começou a singrar sem direção.


A sorte ajudou Cangaceiro mais uma vez. Foi parar na casa de um coiteiro e lhe jogou por cima da mesa anéis, moedas de ouro, quinquilharias brilhosas. Disse que entregaria tudo que possuía se o amigo arrumasse algum dinheiro pra fugir dali e o mais depressa possível. O sertanejo não tinha em casa um tostão furado, mas deixou o amigo num esconderijo enquanto levava um bode pra fazer negócio na cidade.

Cinco dias depois Cangaceiro já era forasteiro desconhecido lá pelas bandas de Minas Gerais. Mendigou, dormiu no coito da linha do trem, ouviu o apito e se assustou pensando que era a polícia. E foi passando de coito em coito, refúgio em refúgio, até arranjar emprego numa grande fazenda.

No dia seguinte, foi chamado pelo capataz que lhe fez uma interessante proposta: ganharia o dobro, talvez o triplo, se fosse bom no gatilho e aceitasse ser pistoleiro do chefe. Cangaceiro, que agora dizia chamar-se Bastião, olhou no olho do outro e disse que em toda sua vida jamais tinha apertado um gatilho pra ninguém. E não seria agora que se tornaria num assassino.

Foi dispensado e seguiu adiante, em busca de uma igreja qualquer para ir conversar com Deus. Contar sobre o homem que tinha sido e no que havia se transformado.

Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com




sábado, 14 de julho de 2012

José Genildo de Miranda


JOSÉ GENILDO DE\ MIRANDA, nasceu em  Mossoró, no ano de 1924. Era casado com Ana Salem de Miranda. Pai de José Genildo de Miranda Filho, Roberto Salem de Miranda e Celestina Salem de Miranda. 

Eleito vice-prefeito de Mossoró em 15 de novembro de 1998, na chapa do saudoso prefeito ANTONIO RODRIGUES DE CARVALHO (18/06/1927 – 03/12/2009), presidente da Câmara Municipal de Mossoró e também radialista de grande projeção na Rádio Difusora de Mossoró. 

 Escola Municipal Genildo Miranda com sede no sítio Lajedo, Zona Rural de Mossoró – RN, foi criada no dia 06 de janeiro de 1988 através do Decreto n° 622/88, do Prefeito Municipal Dix-Huit Rosado.

É patrono da Escola Municipal na zona rural de Mossoró, criada pelo saudoso Dix-huit Rosado, através do Decreto nº 622, de 6 de janeiro de 1988. Faleceu no dia 30 de maio de 1985.


http://jotamaria-eemunicipaisdemossoro.blogspot.com.br/2011/06/escola-municipal-jose-genildo-miranda.html

Hoje na História de Mossoró - 14 de Julho de 2012

Por: Geraldo Maia do Nascimento

14 de julho de 1870 falecia o político Irineu Soter Caio Wanderley, nascido em Assú a 22 de abril de 1825. Comerciante de larga projeção na cidade e chefe do Partido Liberal, em oposição ao vigário Antônio Joaquim Rodrigues que dirigia o Partido Conservador, Irineu Soter Caio Wanderley foi Juiz Municipal, de quem diz Câmara Cascudo: “Homem de batalha, enérgico, arrebatado, inarredável nos compromissos sempre na primeira fila das escaramuças políticas”.

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Autor:

Jornalista Geraldo Maia do Nascimento
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Trio Mossoró - 30 Dias de Forró (1976)

capa

Trio de forró. Cantores. Instrumentistas. João Batista, o João Mossoró - Mossoró (RN). Hermelinda Batista, a Ana Paula - Mossoró (RN) Carlos André Batista, o Oséas Lopes - Mossoró (RN)

Irmãos. Fundado no princípio dos anos 1950 por Carlos André Batista, sanfoneiro que já havia atuado na Rádio Tapuyo de Mossoró (RN). 

Carlos André - Oseas Lopes

Pouco depois, Carlos André mudou-se para o Rio de Janeiro, para onde chamou os irmãos para continuar o Trio Mossoró. No Rio de Janeiro, o líder e fundador do Trio já atuava nas rádios Mayrink Veiga e Nacional mantendo contato e intercâmbio com o compositor maranhanse João do Vale. 

Em 1954 recebeu em cerimônio no Teatro Municipal no Rio de Janeiro, o troféu Elderbe, o mais importante prêmio musical naquele momento. Em 1962 gravou o primeiro disco, o LP, "Rua do namoro". Gravou ao longo da carreira cerca de 10 LPs, entre os quais, "Trinta dias de forró", "Transamazônica, o paraíso da esperança" e "Forró do mexe mexe". 
Participou ainda de inúmeras coletâneas, entre as quais, "A grande parada nordestina", no qual interpretou "Na fogueira", de Dominguinhos e Anastácia. O Trio se separou em 1972 e seus integrantes partiram para atuações individuais. 

Em 2001 a BMG lançou a série "Quatro em um", na qual o Trio Mossoró aparece no volume 19 interpretando "Boiadeiro", de Amim Sáfady, "Carro-de-boi", de Geraldo Nunes, "Amor da minha vida", de Raul Sampeio e Benil Santos e "Quero ver se não vai dar", de Almeida Lopes e Gebardo Moreira. 

Fontes:

Projeto nacional "Tudo de cor para você" chega a Mossoró e renovará Catedral de Santa Luzia

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Um dos principais patrimônios históricos de Mossoró, a Catedral de Santa Luzia, ganhará nova cor para ressaltar a beleza do monumento que é símbolo do povo mossorosense. A iniciativa faz parte do projeto "Tudo de cor para você", da Coral, que desde 2009 vem colorindo diversos patrimônios históricos no Brasil.

Neste mês, chegou a vez de Mossoró receber o projeto de abrangência nacional. A pintura da Catedral de Santa Luzia terá início hoje, 10, e deverá ser concluída em agosto.

O "Tudo de cor para você" é o principal projeto socioambiental da AkzoNobel. Desde o seu início, em 2009, mais de 96 mil litros de tintas já foram usados para renovar mais de 2.200 imóveis em comunidades de diferentes regiões do país.

Já receberam o projeto as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Olinda, Porto Alegre, Ouro Preto, Porto Seguro, Florianópolis e Fortaleza. A iniciativa, entretanto, não se restringe a levar cores para praças do Brasil inteiro. O combate à degradação de áreas e patrimônios históricos promove alegria, descontração e une moradores, voluntários e mais de mil funcionários em uma grande onda de pintura e conservação das áreas escolhidas.

O projeto oferece, ainda, treinamento e capacitação a pintores que residem nas regiões beneficiadas, fechando um ciclo sustentável que resulta no aumento da autoestima e da cidadania da comunidade.

O projeto da Coral conta com o apoio e participação dos Sindicatos das Indústrias e da Construção Civil de Mossoró, de empresas locais e da Prefeitura Municipal de Mossoró (PMM).


CATEDRAL DE SANTA LUZIA

Com 169 anos de fundação, a Catedral de Santa Luzia é um dos mais importantes símbolos de Mossoró. A história da igreja e a história da cidade de Mossoró estão tão ligadas que chegam a se confundir.


O livro "Paróquia de Santa Luzia, 150 anos", do monsenhor Francisco de Sales Cavalcanti, relata que a paróquia de Mossoró foi criada devido à necessidade de trabalho evangelizador mais intenso na cidade. Isso porque, até então, a capela de Santa Luzia pertencia à Freguesia de Apodi, o que restringia o trabalho pastoral.

Assim, com a capela elevada à condição de matriz, com a criação da paróquia, Mossoró passaria a contar com a presença permanente de um padre. E assim aconteceu a partir de 1842, quando dom Manoel Assis Mascarenhas sancionou a Resolução nº 87, criando a Freguesia de Santa Luzia de Mossoró.

O primeiro vigário foi o padre Antônio Joaquim, que pastoreou em Mossoró por 51 anos. Com o tempo, a Paróquia de Santa Luzia passou a ser a sede da Diocese de Mossoró, desmembrada em outras paróquias, tornando-se paróquia com característica urbana. Atualmente, a paróquia é dividida em quatro áreas paroquiais e 14 setores missionários.



Fontes consultadas: 

Jornal O Mossoroense.
Blog do Neto

Viva Luiz: a relação com o filho Gonzaguinha


"De Gonzagão herdou o nome. Mas o amor de pai foi preciso arrancar das entranhas do rei do baião. Não só o amor, mais ainda o respeito" (Regina Echeverria).


Luiz Gonzaga do Nascimento Junior é filho de Luiz Gonzaga com Odaléia Guedes dos Santos, uma jovem carioca que queria ser cantora. Eles se conheceram em 1944 e viveram xamegados por cerca de dois anos. Moraram juntos por em diferentes lugares do Rio de Janeiro. Já famoso músico nordestino, Gonzaga havia gravado 25 discos pela RCA, participando como sanfoneiro. Estava só com 32 anos quando o filho nasceu, em 22 de setembro de 1945. Dois meses depois, Odaléia contraiu tuberculose. Gonzagão a levou para um sanatório em Petrópolis. O menino foi levado para os padrinhos, Dina e Xavier, casal de amigos tanto de Luiz como de Odaléia.

A jovem chegou a fugir do sanatório e esperava voltar para os braços de Gonzagão. Foi novamente internada, dessa vez em Minas Gerais. Quando se recuperou, voltou a procurar Gonzaga, ele já estava com Helena das Neves Cavalcanti, paixão que começou em julho de 1947 e com quem se casou em 1948, ano que Odaléia contraiu nova tuberculose e morreu.

Após o casamento, Gonzaga quis levar o filho, mas a mulher e a sogra não aceitaram. Gonzaguinha então foi educado e criado pelos padrinhos, inclusive em formação musical. Xavier era conhecido como o "Baiano do Violão", tocava em roda de amigos no bairro do Estácio.

Enquanto Luizinho crescia, Gonzagão viajava pelo Brasil. Chegava a ficar meses fora do Rio de Janeiro. Na ausência do pai de sangue, Gonzaguinha observava o pai Xavier a fazer música.

De vez em quando, Gonzagão aparecia, mas não deixava de mandar dinheiro para a educação do filho. A esposa de Luiz, não gostava da relação, mesmo que distante, entre pai e filho. Como não conseguia engravidar, Helena chegou a espalhar o boato de que Gonzagão era estéril e que, portanto, Gonzaguinha não poderia ser filho do rei do baião.


Ele nunca confirmou o boato, como também nunca apareceu, em nenhum lugar do Brasil, quem lhe reivindicasse a paternidade. Para piorar o boato, fisicamente, Gonzaguinha em nada se parece com Gonzagão.

Preocupado com o filho solto pelo Estácio, Gonzagão colocou o filho em um colégio interno. Aos 14 anos, Gonzaguinha contraiu sua primeira tuberculose. Aos 16, resolveu morar com o pai e com a sua mulher Helena. Tinha também uma irmã, Rosinha - esta sim adotiva. Mas voltou para o colégio interno depois da nada boa convivência com a madrasta.

Enquanto esteve na universidade, também não se dava bem com Gonzagão. Era contra as idéias reacionárias do pai, o que aumentava a distância entre os dois. O reencontro só se deu muito tempo depois, com Gomzaga Junior já adulto.

Entre 1979-80, pai e filho fizeram juntos a turnê "Vida de Viajante". Durante as viagens, Gonzaguinha gravou cerca de 20 horas de conversas com o pai. Pretendia lançar um livro, acreditava que Gonzagão não recebeu em vida o reconhecimento devido como criador e artista popular.


Nos últimos anos de sua vida, Gonzagão criou junto ao filho um grande amor. Eles se apegaram de fato como pai e filho: um aprendeu com o outro.


"Acho que a pessoa que mais gosta de mim é você. A coisa mais bacana da minha vida é você. Sou pai postiço, mas sou pai", declarou Gonzagão, numa das gravações, ao filho.

Luiz Gonzaga, o pai - morreu em 2 de agosto de 1989. Um ano e nove meses depois, Gonzaga Junior morreu em um acidente de carro.

Hoje, estão juntos fazendo música lá pelas bandas do céu.
Fontes: 

Livro "Gonzaguinha e Gonzagão - uma história brasileira", de Regina Echeverria.
http://luzdefifo.blogspot.com.br/2012/07/viva-luiz-relacao-com-o-filho.html




Canudos nas telas


Um filme poético e delirante sobre a epopéia da Guerra de Canudos. Um mosaico sobre o maior acontecimento histórico do país.

ANTÔNIO CONSELHEIRO - O TAUMATURGO DOS SERTÕES (de José Walter Lima) é o encontro de Antônio Conselheiro, ressurgindo nos sertões da Bahia, com seu próprio mito no imaginário popular. O filme é uma metáfora sobre os sertões, uma epopeia da saga desse peregrino.

O filme se desenvolve seguindo duas linhas: a do sagrado ou apostolado, e a da campanha militar. A confluência dessa narrativa se dá no reencontro dos mitos do Cel. Moreira Cezar e do Antônio Conselheiro, o primeiro como Anticristo e o segundo como Iluminado.

Em comum ambos têm a morte que os transformou em mito no imaginário popular, tal como o Demônio e o Santo. Um vive pelo outro. Ambos morrem, mas o mito, atemporal, sobrevive.

 
Confira trailer:



HISTÓRICO - As primeiras imagens deste filme foram realizadas com o ator Carlos Petrovich (Idade da Terra/Glauber Rocha) no final de 1987. Esperamos três anos para o projeto ser aprovado e, quando a primeira parcela dos recursos foi liberada, o governo Collor de Melo confiscou.

Em seguida, uma tragédia se abateu sobre o cinema brasileiro com a extinção da Embrafilme. Os recursos confiscados foram liberados em 18 parcelas, o que resultou em um grande prejuízo para produção do filme. Além disso, um incêndio ocorrido no incío da década de 90 consumiu 40% dos negativos e 100% do som original.

Em 2009 retomamos o processo de finalização do filme. Fizemos uma imensa garimpagem e restauração do material de audio e vídeo. Promovemos soluções criativas, realizando filmagens complementares para enfim deixar pronto esse longa-metragem que documenta um importante momento da história do Brasil. 


Mais informações:
 Pesquei in Luz de Fifó 
E eu pesquei no lampiaoaceso.blogspot.com

Agradecimentos aos Estados Unidos


Nós, organizadores, pesquisadores, escritores e colaboradores deste blog, muito agradecemos aos estadunidenses e aos brasileiros que vivem nesse maravilhoso país, as visitas que fazem diariamente ao Blog do Mendes e Mendes. 

Em poucos meses de sua criação, em primeiro lugar está o Brasil, seguido dos Estados Unidos, que  é o país que mais visita a nossa página, com um total de mais de 24.000 acessos. 

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Reino Unido                                        
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Dinamarca                                          
737
Espanha                                          
480

Os demais países as visualizadões são menores.

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ANÉSIA CAUAÇU – uma cangaceira baiana

Jornal A TARDE, 25.10.16, p. 1.

Conheça a história de Anésia Cauaçu. Anésia Cauaçu " mulher, mãe, guerreira. De seu lado, Anésia passou à história como uma figura única de mulher " mãe e guerreira. Seu vulto histórico se amplia o passar do tempo.

E Anésia contou:


"Os Cauaçus eram comerciantes e lavradores. Fazendeiros, possuindo algum capital, com muitas cabeças de gado, foram sempre muito considerados em Jequié, Brejo Grande, Conquista, Maracás, Amargosa e Boa Nova, negociando com as principais firmas do sertão baiano, dispondo de muito crédito e bom conceito.


Jornal A TARDE, 25.10.16, p. 1.

Os Cauaçus fizeram lenda numa vasta região que se inicia na Chapada Diamantina e chega até a caatinga de Jequié, Maracás e vizinhanças, onde desde o século XIX se destacaram pela coragem e bravura. Em nossa região, a parte da família que aqui vivia como pacatos agricultores e criadores de bode e gado, terminou empurrada para a luta armada, quando um de seus membros foi assassinado a mando de Zezinho dos Laços, personagem que aterrorizou a região por várias décadas.

Anésia era uma Cauaçu de fibra. Alta, esguia, olhos azuis, não tinha o perfil da catingueira. Casada, mãe pelo menos de uma filha, viu-se envolvida nas lutas que se seguiram contra o bando de Zezinho dos Laços, Marcionílio e Tranquilino Sousa, além da própria polícia. Viu morrerem pais e irmãos, bem como vários membros de seu bando; viu também sua mãe ser presa e torturada, nem assim jamais se abateu. Nas lutas em que se envolveu, logo adquiriu fama de exímia atiradora, de pontaria melhor que os homens do bando, capaz de acertar o dedo de um militar que apontava a seus comandados a direção onde estavam os Cauaçus, a mais de 300 metros de distância! Anésia foi presa em 1916 e solta em seguida. Por volta de 1930, ao que se sabe, vivia na região de Ilhéus. Não se tem notícia da data de sua morte nem do que teria acontecido a sua filha.


Zezinho dos Laços foi morto numa emboscada preparada pelos Cauaçus. O banditismo na região de Jequié sofreu forte baixa a partir da Revolução de 1930, com as prisões de Marcionílio e de seu filho Tranquilino Sousa.


 Capitão Silvino de Araújo, que às vezes lutava contra os homens de Marcionílio e, em outras, contra os próprios Cauaçus, por apoiar o movimento de 30, recebeu as graças do governo revolucionário.

De seu lado, Anésia passou à história como uma figura única de mulher " mãe e guerreira. Seu vulto histórico se amplia o passar do tempo.

UM DEPOIMENTO - Márcia do Couto Auad (*)

Lembro do momento em que meus olhos se iluminaram, pela primeira vez, diante de Anésia Cauaçu. Ao nos fazer retornar às passagens mais significativas de nossas vidas, a memória elege imagens, momentos, palavras, cheiros... que funcionam como símbolos de ligação entre essas lembranças e o que as faz despertar, quando reativadas no presente.

 Sendo essa premissa válida, diante de tantas verdades, lembro-me agora do momento exato em que a figura de Anésia Cauaçu surgiu aos meus olhos. E foi tamanha sua imensidão e tanto o meu fulgor que mal pude conter-me de alegria e prazer. Era meu último dia em Salvador, um sábado, na sede do jornal ATARDE, na seção de arquivo onde pesquisava. 

A funcionária do setor gentilmente me avisou faltarem dez minutos para o fim do expediente, e eu já havia extrapolado o prazo inicial estipulado. Passei a ser mais rápida na leitura dos microfilmes sobre o inquérito policial aberto para apurar as arbitrariedades da polícia contra os Cauaçus, motivo inicial de minha investigação. E quando a moça me alertou que o tempo havia terminado, rodei ainda pela última vez a manivela da máquina de micro filmagem, e para minha surpresa lá estava ela, seu nome em letras garrafais, matéria de primeira página. Se isso não bastasse, havia uma foto, estragada pelo tempo naquela edição de 25/10/1916.
 

Anésia não estava sozinha " estava de pé, altiva, com uma menina risonha e descalça, também de pé, trepada num banquinho desses de madeira tosca, encontrados em tantas casas de roça. A menina era sua filha. Ali estava a Anésia mãe que, como qualquer mãe, na hora da refeição, pega seu filhote e vai alimentá-lo com um prato de arroz e feijão, carne de sol ou carne seca, quase sempre misturados com farinha de mandioca. Assim a víamos " prato de comida na mão, um pano jogado ao ombro à frente daquela que podia ser tanto sua casa quanto um outro lugar onde se arranchara. Essa a imagem.
 

Busquei ler suas declarações naquele jornal. E como que transportada, imaginei Anésia falando. Quase podia ouvi-la narrar parte de sua vida e da vida de sua família. A materialização selou de vez meu compromisso com aquela mulher, que me deixava a um só tempo intrigada e deslumbrada.
 

No momento seguinte, paradoxalmente, me decepcionei. Foi bom achar ali a foto de Anésia. Mas já que havia a foto, porque não estava ela vestida de guerreira, com suas armas, suas cartucheiras, seu chapéu, a "bandida" construída pelo meu imaginário, cuja representação estava nas imagens de célebres cangaceiros, em reproduções de Lampião e sua companheira Maria Bonita?
 

Decepção momentânea, nada disso importava.O que mais sentia era a satisfação do ser capaz; de quem, diante de tantos caminhos (como Alice, a do País das Maravilhas) a escolher qual me levaria a melhor seguir para encontrar as respostas a minhas indagações ante o desconhecido. 

Naquele momento, outras tantas questões se estruturavam e me faziam pensar que a partir de então todo um universo se descortinava. Agora era organizar melhor as informações para tentar contribuir no preenchimento da grande lacuna existente na história das mulheres bandidas, que atuaram à margem ou ao lado dos homens.
 

Anésia representa o símbolo da coragem e do destemor na região de Jequié. E entre suas características mais notáveis percebe-se o amor que devotava à família. Diria mesmo que foi esse amor o elemento primordial capaz de fazê-la imprimir sua marca e perpetuar-se na memória coletiva como mulher respeitada pela valentia e pela força em combate. Como outras mulheres guerreiras de seu tempo, que também vivendo na caatinga tornaram-se símbolo de força e resistência. Mulheres sobreviventes à rudeza da terra e às lutas constantes por poder e demarcação de territórios.
 

Essa a lembrança que me surgiu quando pretendi iniciar meu depoimento, de modo a apresentar Anésia Cauaçu com a mesma emoção com que ela chegou a mim. Imagem e voz.
 

Anésia Cauaçu "mulher, mãe, guerreira pertenceu a um momento singular da história da região" o banditismo. A mulher-bandida que em determinado momento chegou a liderar seu bando e nele imprimir sua marca de coragem e valentia. Talvez sua característica seja a de exímia atiradora, pela qual se fez respeitada em toda a região, de Maracás a Jequié e vizinhanças. Sua história é formada, em verdade, de muitas histórias.

Esse é um fragmento da memória de quem, como pesquisadora, viveu em Anésia, uma longa trajetória ainda inacabada.


(*) Mestra em Memória Social e Documento (UNIRIO). Professora da UNEB-Campus Ipiaú.

DERRAMAMENTO DE SANGUE E MAGIA NEGRA NA SAGA DE ANÉSIA

SALVADOR SEGUNDA-FEIRA 25/7/2011.
JUSCELINO SOUZA
Vitória da Conquista

O escritor Domingos Ailton, descreve a briga entre famílias que deu origem à história que notabilizou a cangaceira baiana Anésia Cauaçu. O autor ouviu relatos de antigos moradores da região, como o lavrador Claudionor Souza, para escrever o romance histórico; Anésia lidera e enfrenta vários combates no sertão da Bahia com coragem e uma força extraordinária Narrativas orais e pesquisas garantem fidelidade aos fatos.


O romance Anésia Cauaçu, de Domingos Ailton, reporta à formação do município de Ituaçu, antigo Brejo Grande, e relata as brigas de duas famílias da localidade: os Silvas, conhecidos como "rabudos", e os Gondins, chamados de "mocós". O derramamento de sangue começa quando o major Zezinho dos Laços, um dos líderes dos "rabudos", exige que um primo de Anésia, Augusto Cauaçu, acompanhe seu grupo de jagunços em uma emboscada contra a família Gondim. Augusto se recusa e é assassinado a sangue-frio a mando de Zezinho dos Laços.A família Cauaçu se reúne e resolve vingar a morte, assassinando Zezinho dos Laços seis anos depois em uma tocaia na Fazenda Rochedo com uma bala feita do chifre de um boi preto, que fora confeccionada pelo pai de santo Heitor Gurunga, um sacerdote da religiosidade afro que cuidava do povo pobre da região.

Daí em diante a história começa a prender a atenção pela narrativa suave, como se projetasse imagens na mente do leitor, e pelo viés dramático ao redor da chacina que viria. "Ao saber da morte de Zezinho, seu irmão Cassiano do Areão, o cunhado, coronel Marcionílio de Souza, e o filho deste, Tranquilino de Souza, passam a perseguir e matar membros da família Cauaçu e do bando de cangaceiros que acompanha o grupo, comandado por Anésia e seu irmão José Cauaçu", diz Domingos.


Surge, então, a lendária figura da cangaceira Anésia Cauaçu, que lidera e enfrenta vários combates com coragem e uma força extraordinária. Tal força, contam os mais velhos, reverberando relatos de geração em geração, vinha de poderes ocultos, tipo magia negra. "Em muitos momentos ela envultava (desmaterializava) e virava uma rocha ou toco de árvore", explica o lavrador Claudionor Souza.


Na tentativa de erradicar o bando de cangaceiros e por fim aos embates, o governador da Bahia na época, Antônio Muniz, denomina o movimento armado dos Cauaçus de "conflagração sertaneja" e envia para Jequié e região mais de 240 soldados. Os cangaceiros passam a utilizar táticas de guerrilha para enfrentar a polícia. "Anésia cai em emboscada e é presa. Interrogada, é posta em liberdade e concede entrevista de primeira página na edição de 25 de outubro de 1916 do jornal A TARDE sobre a história do bando", enfatiza o autor.


Ao saber que a líder fora rendida e posta fora de combate, a força policial começa a praticar uma série de arbitrariedades contra a população jequieense e da região, como represália pelo suposto apoio ao cangaço. Não se sabe ao certo qual o paradeiro de Anésia. Alguns sustentam que ela mudou o nome e permaneceu em Jequié, como simples lavradora, até morrer, em dia, mês e ano ignorados.
Juscelino Souza / Ag. A TARDE

Fontes:
www.domingosailton.com/blog/wp-content/uploads/2011/07/atarde2.pdf
http://blogdomendesemendes.blogspot.com