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quinta-feira, 19 de julho de 2012

NAS ASAS DA AÉROPOSTALE

Por: Rostand Medeiros
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A empresa de aviação Aéropostale. ou Compagnie Générale Aéropostale foi uma das pioneiras da aviação no mundo e principalmente no Brasil.

Quadro de horários e outras informações da empresa Aéropostale, partindo do Rio de Janeiro. Publicado em um jornal carioca de 1931.

Em 25 de dezembro de 1918, a empresa começou a servir a sua primeira rota entre Toulouse e Barcelona, na Espanha. Em fevereiro de 1919, a linha foi estendida para Casablanca, no Marrocos. Em 1925 estendeu-se a Dakar, a capital e a maior cidade do Senegal, onde as malas postais eram enviadas por navio para a América do Sul. Em Novembro de 1927 iniciou voos regulares entre o Rio de Janeiro e Natal. Suas rotas foram se expandindo até o Paraguai e depois, em Julho de 1929, foi criada uma uma rota regular, a té Santiago, Chile, passando sobre a Cordilheira dos Andes.

Da esquerda para direita vemos os franceses Gimié, Mermoz e Dabry, no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, seguindo para o sul do continente. Heróis da aviação comercial.

Um dos pontos altos da empresa ocorreu em 1930, com a viagem através do Atlântico Sul do hidroavião Latécoère 28, que sem escalas e pilotado pelo francês Jean Mermoz, voou 3.058 quilômetros de Dakar a Natal, em 19 horas e 35 minutos, com seu avião trazendo mais de 100 quilos de malas postais.

Depois de um escândalo envolvendo pagamentos postais do governo francês para Aéropostale, a empresa foi dissolvida em 1932, e fundiu-se com outras companhias de aviação para criar a Air France.

Cartaz mostrando a travessia de Mermoz e mais dois companheiros, que ficou conhecida como a primeira travessia comercial do Atlântico Sul.

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Extraído do blog: 
"Tok de História", do historiógrafo e pesquisador do cangaço:
 Rostand Medeiros







Enquanto não vem cangaço - Uma tentativa de suicídio engraçada

Por: José Mendes Pereira

A história que segue é uma das muitas que aconteceram em Mossoró, e que esta, jamais foi escrita. Os personagens da história eu não usarei os seus verdadeiros nomes, dando-lhes nomes criados.

Cristino Souto era um homem ainda novo e residiu por muitos anos em frente à linha de trem, no Alto da Conceição. Possuía um barracão, como era chamado nos velhos tempos, sendo este localizado entre a casa de uma irmã, a Cacilda, e do outro lado, morava o viúvo Fragoso, o seu honrado pai.

Cristino só comprava mercadorias com datas marcadas para pagar, mas não vendia fiado nem ao seu próprio pai. Quem compra fiado e vende a dinheiro, com certeza acumulará riquezas. E assim o Cristino tornou-se um dos maiores comerciantes de cereais do bairro.

Mas o Cristino a tempo que vinha notando que alguém estava lhe roubado.  A única pessoa que lhe dava uma mãozinha era o Geraldo, filho da irmã, a Cacilda, um jovem de vinte e poucos anos. Desconfiado, resolveu acusá-lo pelos desaparecimentos de algumas mercadorias, inclusive maços de cigarros: “Eldorado”, “Continental”, etc.

Antes já havia participado ao pai, que o Geraldo estava carregando algumas de suas mercadorias. O pai, honestíssimo, achava que o Cristino não deveria acusar o seu neto para não enodoar a sua generosa família, aconselhando-o que o deixasse lá, e não participasse a ninguém que isto estava se passando em seu barracão, principalmente tendo como acusado, o seu próprio sobrinho. Mas o Cristino não obedeceu ao pai, e dias depois levou o assunto aos fofoqueiros e ao próprio Geraldo sobre a sua desonestidade.

Assim que falou sobre a sua desonestidade o Geraldo caiu em pranto, dizendo-lhe que jamais havia tirado algo do seu comércio. Mas Cristino manteve firme a acusação. Se não entrava outra pessoa em seu barracão, a não serem eles dois, e ele, como dono, não iria roubar a si mesmo, então o Geraldo andava carregando as suas mercadorias. 

Sabendo que toda vizinhança já era conhecedora desta acusação, Geraldo resolveu arquitetar um suicídio, na tentativa de pressionar o seu tio a voltar atrás, e com isso, ele, talvez, iria informar aos seus vizinhos e fregueses que, o que dissera contra ele tinha sido uma simples brincadeira.

Em sua casa Geraldo guardava uma porção de pesos, que antes era usada em uma balança "romana" pelo comerciante. Mas com o lançamento de balanças modernas, Cristino adquiriu uma "filizola" e resolveu aposentar a "romana", guardando-a juntamente com os pesos na casa do Geraldo.

Nesse dia Geraldo esperou que a mãe saísse para o trabalho, e assim que ela se dirigiu à Fitema (fábrica de tecelagem onde a Cacilda trabalhava em Mossoró), ele deu início ao seu plano. Juntou de dez a doze pesos de cinco quilos, inquiriu uns aos outros, com arame, formando um total de cinquenta ou sessenta quilos.

Em sua casa, um brabo, ou um gato, como é conhecido pelos construtores (linha que sustenta a mão a qual recebe a terça de uma casa), Geraldo, com todo esforço, através de um carretel, suspendeu o grupo de pesos, agasalhando-o sobre o gato, sendo que este estava amarrado por uma corda, e a outra ponta seria a que iria laçar o seu pescoço. Empurrado os pesos, claro que eles desceriam, e era nesse momento que Geraldo subiria com a corda laçada ao pescoço, e com cuidado, assim que o grupo de pesos descesse, ele seguraria no brabo, evitando um suicídio de verdade.

E pôs-se a organizar o suicídio. Mas no momento em que o suicida arrumava a corda, ele bateu no grupo de pesos, despencando de uma só vez. O pior foi que o Geraldo estava sobre uma cadeira, sustentando com um dos pés o laço que seria colocado ao pescoço, e no momento da inesperada descida dos pesos, a corda laçou um dos pés, arremessando-o para cima, deixando-o de cabeça para baixo.

Como ele não havia calculado o tamanho da corda que seria necessário para a armadilha, com o impulso dos pesos, levou a sua perna de vez, montando-a sobre o gato, partindo o osso ao meio, deixando-a em forma de cabo de estilingue, repuxada pelo seu próprio peso, e do outro lado do gato, os pesos da balança. Sentindo terríveis dores, o suicida iniciou desesperados gritos, para que a turma dos piedosos fosse salvá-lo. Mas no momento, o único que se encontrava no barracão era o difamador, e ouvindo a gritaria de alguém, que ele não sabia quem lá estava, com muito esforço, quebrou a porta da frente para socorrer o homem que gritava.

Assim que ele entrou e viu o Geraldo dependurado por uma das pernas, em vez de tentar logo resolver aquele problema, ficou zombando do miserável, dizendo-lhe que nunca tinha visto um sujeito que queria suicidar-se, amarrando a corda na perna, em vez de colocá-la no pescoço. Geraldo gritava, pedindo-lhe que cortasse logo a corda, pois havia quebrado a sua perna.

Depois de tanto zombar do sobrinho, Cristino olhou para cima e viu as pontas de ossos da perna do Geraldo, e o sangue banhando todo o seu corpo. Vendo-os, aperreou-se, e  arrastou pela faca que estava na cintura, e com uma mão, segurava a corda do lado do acidentado, e com a outra, cortava a corda. Mas como ele não teve força para segurar o peso do miserável, assim que a corda se rompeu, Geraldo desceu batendo a cabeça ao chão, e o corpo despencou sobre a cabeça, deixando-o desacordado.

Foi Geraldo conduzido ao Hospital de Caridade. Dias depois, Geraldo chegou em casa, faltando lhe uma das penas. O médico que o assistiu, não teve como preservá-la, pois os nervos, carnes e veias, ficaram irreparáveis.

O mais interessante! Para reforçar a suspeita do Cristino, assim que o Geraldo foi demitido, os roubos no seu barracão deixaram de acontecer.

Mas meses depois, sem a presença de Geraldo no barracão, Cristino sentiu que continuava sendo roubado. Sem comentar a ninguém, procurou dois policiais, e os levou para permanecerem algumas noites no barracão, até que prendessem o larápio. Já fazia cinco dias que os policiais dormiam dentro do barracão, mas ninguém sabia que lá dentro, dois policiais se escondiam.

Nessa noite, lá pela madrugada, sentiram que alguém estava destelhando a casa. Silenciosamente, os policiais esperaram pelo suposto larápio. E lentamente, o ladrão foi retirando as telhas, e em seguida veio descendo, começando pelas pernas, depois o corpo, e logo desceu, caindo cuidadosamente. Encheu um saco de mercadorias, amarrou a corda que já estava prontinha no caibro para este fim, pôs-se a subi-lo. Impaciente, os soldados partiram para cima, e logo o algemaram, com as mãos para trás, deitando-o ao chão, com as costas para cima. Confiante que haviam pegado o ladrão, um foi até a casa do Cristino, e comunicou-lhe que o esperto já estava algemado.

Cristino, ansioso para ver a cara do esperto, foi às presas para conduzi-lo até a Delegacia de Furtos e Roubos. Quando o levaram para fora do barracão, diante das luzes das ruas, Cristino ficou passado de vergonha. O ladrão era o seu próprio pai, que morando parede com parede, vez por outra, roubava o filho por cima do teto.

O filho ao ver o pai, exclamou:

- Que vergonha, papai! Que vergonha! Tenho ouvido falar, que geralmente filho rouba pai, chegando até quebrá-lo. Mas pai roubar filho, eu nunca ouvi falar.

Com o passar dos tempos, Geraldo inconformado com a injusta acusação do tio, responsabilizando-o pelos furtos que aconteceram no seu barracão, e também arrependido pelo que havia arquitetado, a tentativa de suicídio, pouco se alimentava, e lentamente foi atrofiando, atrofiando, chegando a falecer em sua própria residência.

O Fragoso, pai do Cristino e avô do Geraldo, desconfiado no meio da vizinhança, resolveu desaparecer do bairro, e não levou muitos meses para ser encontrado morto, já nas terras da cidade de  Areia Branca. Segundo autópsia, a causa da morte, fora suicídio.

O Cristino Souto ficou todo desnorteado com a decepção que passara pelo pai. Envergonhado, dedicou-se ao álcool. Vivia bêbado dentro do seu barracão. Não cumpria mais com os seus compromissos, e o barracão foi fracassando, fracassando, chegando a fechar as portas. 
Cristino Souto morreu de cirrose hepática, de tanto beber, causado pelo desgosto.

José Mendes Pereira

 Minha Simples Histórias
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Hoje na História de Mossoró - 19 de Julho de 2012

Por: Geraldo Maia do Nascimento

Em 19 de julho de 1962 falecia, em São Paulo, a Professora Maria Dolores Couto Freire de Andrade, consorciada com o jornalista Jorge Freire de Andrade, pais do também jornalista Dorian Jorge Freire.
               
Educadora mossoroense, nascida a 24 de maio de 1908, a Professora Maria Dolores era diplomada pela Escola Doméstica de Natal, onde fez curso brilhante.
               
Integrou o corpo docente da Escola Normal de Mossoró, como titular da cadeira de Trabalhos Manuais, além de ministrar conhecimentos de inglês e História Geral.
               
Seus restos mortais foram transladados para esta cidade repousando em túmulo da família. Mãe de Dorian Jorge Freire.

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Autor: 

Geraldo Maia do Nascimento

Fonte:

24 de dezembro de 1938, no “Estado da Bahia”

Por: Rubens Antonio
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24 de dezembro de 1938, no “Estado da Bahia”:

MAIS DOIS ASSECLAS DO GRUPO DE LAMPEÃO ENTREGAM–SE Á POLICIA



Corisco, só depois de morto
Chegaram hontem, no trem de Sergipe, precisamente ás 17 horas e 50 minutos, mais dois bandidos pertencentes ao grupo de José sereno. escoltados por um cabo e dois soldados, os ex–cangaceiros saltaram na gare da Calçada, onde foram rodeados de curiosos, até que chegou o carro da policia e os conduziu para a Delegacia Auxiliar.

CAJAZEIRA E DIFFERENTE


Os bandidos chemam–se José Francisco dos Santos, mais conhecido pela alcunha de “Cajazeira” e Manoel Nascimento, mais conhecido pela alcunha de “Differente”, tendo se entregado á Policia Bahiana na serra Negra, perto do Estado de Sergipe. O primeiro tem apenas 21 annos de idade, e, segundo suas declarações, entrou para o bando em vista de ter sido perseguido pela policia de Sergipe, por causa da accusação de ser coiteiro.

A ILLUSÃO DO CANGAÇO

“Differente” entrou para o grupo de “Zé Bahiano”, contra 23 primaveras, tendo dois annos de cangaço e lutas. Quando Zé Bahiano foi victimado, elle passou para o bando de “José Sereno”, onde até o momento de se entregar continuou a sua vida de assassinios e assaltos.
Contou–nos tambem que começou a exercer esta vida após “Canario” tê–lo convidado para entrar no bando com promessas cheias de vantagens. Porém, agora – acrescentou – resolveu entregar–se pois o cangaço nada mais é do que uma vida de illusões e perseguições.

“CORISCO” SÓ DEPOIS DE MORTO

“Corisco”, o perigoso “Diabo Louro”, que promettera entregar–se, mudou de intenções. Tambem “Angelo Roque” outro temivel cangaceiro e chefe de 4 homens, pretendeu entregar–se, mas o “Diabo Louro” o convenceu do contrario – declarou “Cajazeira”, que fala como uma victrola no seu falar arrastado de sertanejo.

9 BANDIDOS APENAS

Dois grupos ainda perambulam pelos sertões bahiano e sergipano, um commandado pelo “Diabo Louro”, sendo composto de 4 homens e outro commandado por Angelo Roque, com 3 homens.

MUNIÇÃO DE SERGIPE

Continuando a falar, os bandoleiros declararam que recebiam toda a munição de Sergipe e que lá eram muito pouco perseguidos. Ao contrario se verificava no sertão bahiano, onde nós recebiamos tiros em todos os logares por onde passavamos. Demos poucos combates com a Policia Bahiana, mas foram combates que deixaram recordaçõe, pois nelles vimos abatidos innumeros dos nossos.

NOTAS SOLTAS

Os ex–cangaceiros entregaram–se ao sr. João Maria, irmão do Coronel Liberato de Mattos, o qual não se descuidou e logo ao seu irmão deus sciencia do facto. O coronel enviou uma escolta que os conduziu a esta Capital

Com a prisão destes dois bandidos, o cangaço soffreu mais um golpe que o fez diminuir a intensidade e actividade.

24 de dezembro de 1938, no “A Tarde”:
DESISTIRAM DO CANGAÇO


Pelo trem nocturno de Sergipe, chegaram, hontem, ás 17 horas e 53 minutos, á esta capital, os bandidos “Differente” e “Cajazeiras”, que se apresentaram á policia, em Paripiranga.

Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço:
Rubens Antonio

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 20 (CANGACEIRO E JAGUNÇO – FARINHA DO MESMO SACO?)

Por: Rangel Alves da Costa(*)
Rangel Alves da Costa

AS CRÔNICAS DO CANGAÇO – 20 (CANGACEIRO E JAGUNÇO – FARINHA DO MESMO SACO?)

Se existiam duas raças sertanejas que não se topavam, que nunca se deram muito bem de jeito nenhum, estas eram a dos cangaceiros e dos jagunços. Cangaceiro tinha raiva de jagunço que se mordia; este se metia a cangaceiro pra ficar mais assombroso. Quando o jagunço falava em comparação, logo dizia que o acerto na mira era o que contava.

Certa feita, ao passar pelo fazendeirão do Coronel Sinésio Baraúna, um afamado senhor de terra e gente que tinha na qualidade de bicho, Virgulino Lampião lhe fez uma observação com palavras que soaram quase como repreensão, ao afirmar que não admitia que ao chegar ali aqueles pistoleiros de uma figa, que o Coronel tinha na qualidade de jagunços, lançassem seus olhares desconfiados para o seu bando. E disse mais:

“O Coronel é homem prudente demais, porém se perde na escolha das companhias. É preciso separar o joio do trigo, Coronel. Digo que é um erro seu acreditar que esses homens de cara de bicho, bigodudos, sujos e fedorentos, e trazendo não sei quantas armas nos escondidos das ancas, tenham alguma serventia para o senhor. São todos uns covardes, bandidos comuns, assassinos sanguinários, uns falsos e frouxos, que não pensarão duas vezes se o coronel da outra cerca pagar um tostão a mais. E para acabar com o ex-patrão. Pois digo que não gosto e não vou mais admitir que esses cabras covardes fiquem ao menos olhando os meus amigos de longe. Qualquer dia desses um cabra como Tiziu não vai gostar de estar sendo observado e então a coisa vai feder”.


O Coronel Baraúna ficou deveras espantado com o que ouviu do Capitão sertanejo. Homem de muito poder e pouca leitura, de muito dinheiro e pouca compreensão sobre a realidade do mundo, muitas vezes até agia como se tudo se resumisse ao que achava que estivesse certo ou errado. Por isso mesmo nunca parou para pensar se existia alguma diferença entre ser cangaceiro e ser jagunço. Para ele, que pagava tanto a um como ao outro por proteção, tudo dava no mesmo: homens armados e perigosos, que não pensariam duas vezes para acabar de vez com o desafeto.

Foi por isso mesmo que disse a Lampião que não entendia bem porque a raça cangaceira não gostava da raça jaguncista, pois os dois agiam no mesmo ramo de negócio. E quase dá um piripaqui, um traculejo no coração, quando viu o Capitão dar um muro na mesa que fez derrubar os copos e a garrafa que estava em cima. Ao ver a asneira dita pelo poderoso, porém ingênuo Coronel, o rei dos cangaceiros esbravejou igual bicho atacado, fera ferida:

“O senhor Coronel pode dizer que acabou de nascer de novo, pois tem muita sorte de não receber agorinha mesmo um balanço varando essa boca de ouro que acabou de dizer a maior besteira do mundo, uma afronta sem igual aos bravos homens das caatingas. Mas quem se viu dizer que cangaceiro e jagunço fazem parte do mesmo ramo de negócio? Quem já se viu dizer uma infâmia dessas homem desnaturado, pecador. Respeito é bom e eu gosto, e por isso mesmo vou dizer uma coisa para que nunca mais esqueça...”.

Coitado do Coronel, com uma mão prudentemente sobre o peito, a outra levada à boca pra segurar os bofes que pareciam querer sair, todo avermelhado de medo, suando mais que pano de cuscuzeiro, apenas ouvia tudo de olhos esbugalhados, olhando sempre para os lados da janela para ver se avistava algum jagunço que não lhe deixasse morrer sem defesa. Calado estava e assim permaneceu enquanto Lampião esbravejava:

“Há uma diferença grande entre cangaceiro e o jagunço. Só vou dizer o que o jagunço é pra que logo possa perceber o que o cangaceiro não é. Todo jagunço é frio, covarde, mata qualquer um a mando e muitas vezes nem sabe quem matou e porque matou. Jagunço porta arma não pra se defender, mas para amedrontar, sacar a qualquer momento e fazer o que não presta diante de inocente. Jagunço tocaia o vizinho, faz emboscada pro amigo, faz rodeios para pegar um compadre, se entrincheira nos tufos de matos para matar covardemente. Jagunço é besta sem princípios, sem temência, sem respeito algum nem a quem lhe paga. Hoje serve a um e amanhã já tocaia o ex-patrão a mando de outro. Pra jagunço tanto faz que o outro seja inocente ou não, vez que a morte de pessoa dá no mesmo que matar peçonhenta. Todo jagunço é uma covarde assassino, um traste de sangue frio, pestilento, imprestável. Todo jagunço é pistoleiro, criminoso, matador de aluguel, um verme assassino de qualquer um. Mas tire a arma do jagunço pra ver o homem que encontra nele. Nada, nadica de nada, pois gente dessa imprestável qualidade só é valente com arma na mão. Sem ela se ajoelha, se mija todo, começa a chorar pedindo clemência. Mas ele faria o mesmo diante de sua futura vítima? Agora responda Coronel, me diga se cangaceiro é desse jeito, age assim, brinca desse modo com a vida do ser humano, principalmente de gente inocente?”.


Logicamente ainda impossibilitado de falar qualquer coisa, nem o Coronel respondeu nem Lampião ficou pra ouvir. Despediu-se com pouco gesto, ainda acabrunhado, e saiu feito um raio da silibrina. Lá fora se ouviu o grito de vamos cambada, rumbora! E pelo entrevão, da janela, todo mijado nas calças de linho puro, de branquidão agora amarelada, enxugando o suor friorento com lenços e mais lenços, o poderoso Baraúna avistava o bando virando a curva da estrada. Estava contente e ao mesmo tempo temeroso.

Até hoje os estudiosos do cangaço - horrível e desastradamente chamados cangaceirólogos - discutem sobre tal episódio. A repercussão foi grande, ora se foi. E ainda continua. Para uns, Lampião agiu com toda razão ao diferenciar cangaceiro de jagunço, pois o modus operandi de um era totalmente diferente do outro, bem como os ideais e objetivos existentes em cada um. Mas outros negam veementemente qualquer validade nas assertivas lançadas pelo rei cangaceiro.

Para estes, tanto cangaceiro como jagunço eram farinha do mesmo saco, agiam impiedosamente e espalhavam o mesmo terror. E afirmam ainda que o medo da população era muito maior com relação aos cangaceiros do que aos ditos jagunços, até mesmo porque estes não eram tão contumazes na ação. A única distinção que viam era no medonho modo de agir pistoleiro de mando.

Este, o jagunço de sangue no olho e fel no coração, agia na emboscada solitária, na tocaia premeditada e tendo qualquer um como alvo potencial. Bastava mandar e ele fazer. E não se esperasse outra coisa senão o requinte na crueldade, a maior perversidade que podia existir. Certamente os cangaceiros não agiam assim. Tal era o entendimento aproximado daqueles que entoavam o coro do Coronel quando este afirmou que todos faziam parte do mesmo ramo de negócio.

Não vou tomar posição nem de um lado nem de outro. Contudo, a análise daquela realidade histórica demonstra haver evidentes diferenças entre cangaceiros e jagunços. E grandes, acentuadamente reconhecíveis por qualquer um mais cuidadoso na análise. E o primeiro aspecto a ser citado dá plena razão a Lampião, ao afirmar que cangaceiro jamais poderia ser comparado a pistoleiro ou assassino de mando ou aluguel.

Em primeiro lugar, cangaceiro nunca agia sozinho, não deixava o seu bando para fazer desafio ou maldade por conta própria. Se o cabra aparecesse num lugar era porque o grupo estava por perto. Daí que ninguém já ouviu falar que gente de bando fizesse serviço avulso, arrumasse empreitada por fora sem o seu comandante saber. Como consequência, não era contratado por ninguém para fazer tocaia ou emboscada. Se algum acerto houvesse com algum poderoso, este era feito através do Capitão, e conjunta a ação.

Do mesmo modo, cangaceiro não vivia nas proximidades do coronel fazendo às vezes de guarda-costas ou esperando que o mandão desse a ordem pra derrubar um ou outro inimigo. Ademais, se um cangaceiro matava algum desafeto, tal crime geralmente era imputado ao bando como um todo, a toda cangaceirada, e não a um exclusivamente. E diferente ocorria com o jagunço, pois este matava e se descoberto se danava estrada afora. Se o coronel mandante não o escondesse na sua fortaleza ou não mandasse dizer à autoridade que o cabra era seu, podia ter certeza que o matador iria se escafeder no oco do mundo.


Poucos foram os pistoleiros, jagunços afamados, que continuaram na região após cometer crime de grande monta. Sem confiar na proteção do coronel, o verdadeiro jagunço acertava logo o alto valor antes de derrubar e depois, já estando com o dinheiro no bolso, sumia que ninguém sabia do paradeiro. Ao menos por uns tempos, quando voltava às escondidas e para matar a qualquer preço. Os que decidiam ficar faziam fama ligeiro, mas também não duravam muito na vida. De repente, um zé-ninguém acertava o valentão.

Mas a verdade que o ódio de Lampião por gente desse tipo era tão grande, tão patente na sua caminhada, que jamais se fez de esquecido daqueles olhares atravessados que os jagunços do Coronel Baraúna deram em direção aos seus comandados. Certa feita apareceu por ali de surpresa e nunca mais os pistoleiros lançaram olhar odiento em direção a ninguém.

Ao menos é o que dizem. Coisa que não acredito muito, pois agindo assim estava se igualando à corja que tanto odiava.     


(*)Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com

O Cangaço - Grande Debate - Parte IV


Ainda no mês de Junho tivemos a grata satisfação de participar do Programa Grande Debate da TV O Povo com o jornalista Ruy Lima. O tema do Programa foi o lançamento do livro Iconografia do Cangaço, organizado por Ricardo Albuquerque. Hoje trazemos na íntegra para os amigos, em 4 postagens.

Final
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METEMOS

Clerisvaldo B. Chagas - Crônica Nº 823
Clerisvaldo B. Dantas

Soubemos que “Pedro Aleijado”, isto é, “Pedro Mão-de-Aço” ou mesmo, “Pedro Deixe-Que-Eu-Chuto”, recusa-se a morrer. Remanescente dos velhos farristas de Santana, Pedro, o homem coxo, adquiriu fama tocando pandeiro com grande mestria. Sempre convidado para as farras mais simples da boêmia santanense, Pedro estendia suas habilidades em todos os ambientes como bares, cabarés, clubes... Sempre causando admiração às bandas que vinham de fora e necessitavam na hora de um pandeirista. Em todo tempo bem humorado e puxando a perna, Pedro Aleijado viajava constantemente com suas farras eternas pelos festejos mais atraentes de cidades de Alagoas e pernambucanas. Juntando-se a José Francisco, o grande acordeom de Santana, ao José Panta (o violão elétrico) ao Miguel Chagas, Moreninho, Zé Yoyô e vários outros, as farras ganhavam colorido especial com o pandeiro de Pedro Mão-de-Aço. Como as situações vão mudando com o tempo, quase todos os grandes farristas da época foram transferidos para outra dimensão. Pedro resistiu e ainda resiste diante da preferência pelo Rum, bebidinha danada corrosiva.

Abelha.  (Fonte: Wikipédia).

Espiando as nuvens do tempo, Pedro começou a vender mel. Dizia ele que essa substância doce era a melhor do mundo, pois vinha de alvéolos selvagens do alto sertão de Pernambuco. O município de Inajá, nunca deixou de ser e referência do novo vendedor de mel. Saliente, mal-educado e piadista Pedro sempre respondia aos clientes quando perguntado se tinha mel para vender:“Mé? Temos”. E assim, com sua linguagem chula de duplo sentido, ia ganhando o pão com sua esperteza e, talvez, pequena aposentadoria. Certa feita um cliente chegou a sua casa para comprar “mé” da legítima abelha papa-terra de Inajá, à Rua Prof. Enéas. Um menino, seu filho, atendeu.“Cadê Pedro, menino?” E a inocente criaturinha denunciou sem querer a abelha bípede de um pé coxo: “Pai tá lá atrás no quintal fazendo mel”. Descoberta a fraude, a situação foi ficando difícil para Deixe-Que-Eu-Chuto, pois já não conseguia introduzir seu produto no mercado com tanta facilidade. Pedro não contestava o flagra apenas tentava sair resvalando e pedindo trocado para beber uma dose de Rum. Não tendo Rum, vai à Cachaça, afinal uma é amarela e outra é branca, para que preconceito de cor?
Contaram-nos que Pedro Aleijado agora estar morando no Bairro Domingos Acácio, bem perto de uma clínica particular. Não sabemos se ele ainda toca pandeiro e nem se o homem ainda teima em ser concorrente das abelhas. Mas a resposta sexual de péssima qualidade continua no cotidiano do pandeirista, quando provocado:“Pedro, tem mé”? A gravação tantas vezes rodada empulha na hora o perguntador: “MÉ? TEMOS”.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Cangaço - Grande Debate - Parte III

Ainda no mês de Junho tivemos a grata satisfação de participar do Programa Grande Debate da TV O Povo com o jornalista Ruy Lima. O tema do Programa foi o lançamento do livro Iconografia do Cangaço, organizado por Ricardo Albuquerque. Hoje trazemos na íntegra para os amigos, em 4 postagens.

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Os Assombros de Itiúba - Líderes da defesa - Parte VII

Por: Rubens Antonio
Rubens Antonio

A figura destacada de Aristides Simões de Freitas paira como a do grande líder na defesa de Itiúba, durante as crises desencadeadas pelas passagens dos cangaceiros no seu em-torno.


Entretanto, cabe destacar outras lideranças locais que adentraram a estruturação da defesa secundando-o com eficiência.

Dentre estes, alguns merecem citação, tendo inclusive assumido armas e seguido para as frentes, coordenando os jagunços nas duas trincheiras principais, a da Calçada de Pedra e a da Cambeca.

Um deles foi Belarmino Pinto, que veio a se tornar o primeiro prefeito, quando Itiúba se emancipou.


Belarmino Pinto - Outro foi seu irmão Benedito Pinto.


Benedito Pinto


Sítio da trincheira da Cambeca


Sítio da trincheira da Calçada de Pedra


Belarmino Pinto, já prefeito, acompanhado de José Cruz e Ramiro Pimentel, cercados por populares.

Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço:
Rubens Antonio







Testemunha ocular - Pesquisadores no Cariri entrevistam senhor que em 1927 presenciou Lampião na serra do Diamante, município de Aurora,CE.

Pesquisadores, Sousa Neto (Barro). Sr. Elias Saraiva dos Santose o anfitrião José Cícero (Aurora)


Da Redação do Blog de Aurora e do site Cariri de Fato (JC)
Fotos: Karlos Marx

Na época com a idade de 10, disse ele que chegou a levar comida da sua casa para o rei do cangaço no esconderijo do Diamante. Algumas vezes na companhia do seu pai, outras, sozinho. Lembra inclusive, do dia que levou algumas pamonhas feitas por sua mãe - uma oferta segundo ele para o bandoleiro. Ao receber a encomenda, recordar ainda hoje que Lampião sorridente pôs a mão sobre sua cabeça e disse algo o elogiando pela sua esperteza de menino. Decerto, num claro gesto de agradecimento pelo seu trabalho e tantas idas e vindas pelas veredas da caatinga, entre a sua casa e o local onde Virgulino ficara acoitado com seus comandados. Lembra igualmente que ele (Lampião) metera a mão no bornal que levava a tira colo e, em seguida colocou na sua mão umas moedas dizendo que era para pagar o presente da sua genitora. De maneira que até hoje ainda tem Lampião como uma pessoa simpática e respeitadora.

Era corrido o ano de 1927, época que historicamente ficou marcada por uma série de acontecimentos relacionados a invasão de Mossoró, seguido do episódio relativo a suposta tentativa de envenenamento do bando Lampiônico, que redundou no cerco, tiroteio e incêndio da fazenda Ipueiras de Aurora. A famosa traição do coronel Izaías ao seu amigo Lampião. Trama ao que tudo indica, arquiteta pelo coronel Arruda e Zé Cardoso, tendo como pano de fundo o major Moisés Leite de Figueiredo – comandante das volantes que desde o malogro de Mossosó e, dentro do Ceará, ficará no encalço do bandoleiro.
A trama para a suposta traição


O plano "A" seria, primeiro a suposta infiltração de alguns elementos (jagunços do coronel) e soldados disfarçados no bando de Lampião. Desconfiado, Lampião junto com os seus não concordaram com a ideia. Veio então, depois o plano "B" o oferecimento da comida envenenada que ficou a cargo de Miguel Saraiva, tido em alguns escritos lampiônicos como vaqueiro de Zé Cardoso. Na verdade ele era um dos proprietários da região do Diamante e, por conseguinte, amigos do coronel Izaías Arruda e de Zé Cardoso da Ipueiras e Cantins. Depois Coxá. Tipi, Monte Alegre, Izaíras e Taveira... Mas não era vaqueiro de profissão.

Há quem diga inclusive, que conhecera Lampião e privou da sua consideração e confiança primeiro que os donos da Ipueiras. Sendo, portanto, apontado como o homem que primeiro em Aurora fez a ponte que levara o rei do cangaço sob os interesse de Massilon Leite ao célebre coronel, nascendo daí por uma série de outros interesses dos potentados da época, a terrível trama com vistas a invadir a cidade norte-rio-grandense.

Conhecera Massilon um pouco antes, em face da amizade daquele com os cangaceiros da terra, moradores do riacho das Antas, Coxá lá pelas imediações do Diamante. Sendo Massilon Leite, como se sabe, um dos principais artífices da empreitada com vistas a invasão de Mossoró.

Antes mesmo de Lampião beirar as terras da Ipueiras, alguns cangaceiros do riacho das Antes dentre os quais Zé de Lúcio, José Cocô, Zé de Roque e Antonio Soares já haviam incursionado nos bandos de Massilon, Décio Holanda do Pereiro e do Próprio Izaías Arruda, na época sob o comando do seu vaqueiro e conhecido homem de confiança de Missão Velho.

Seu Elias Saraiva – era filho de Zeca dos Santos - e este primo carnal de Miguel Saraiva.

A fazenda Ipueiras – foi palco de um dos episódios mais emblemáticos e notórios da história de Lampião, quando da sua incursão pelo Cariri cearense. O que culminou com a polêmica traição do coronel Izaías Arruda a Lampião. Fato ocorrido no começo da tarde do dia 7 de julho de 1927. Estando, portanto, por uma série de fatores, intimamente ligada ao acontecimento de Mossoró.

Certa feita, disse Seu Elias que estando Lampião com parte do seu bando na região de Cuncas no município do Barro onde participariam de um grande almoço oferecido por um rico fazendeiro do lugar, chega a notícias que o cangaceiro “Bom de veras” que vinha ao encontro de Lampião, acabara de assassinar um cidadão de bem nas proximidades da vila de Rosário. Simplesmente porque o tal cidadão, resistira em entregar seu cavalo ao cangaceiro.

A pessoa assassinada era também compadre do dono da fazenda. Ao saber da notícia Lampião ficou indignado. E mesmo com fome ordenou para que todo o bando se preparasse para partir. Ninguém comeria mais nada para que todos pagassem pela desfeita de “Bom de veras”.

- Não quero cabra covarde e nem malvado no meu bando, - 
Dissera o bandoleiro e logo, em seguida partiu contrariado, deixando as terras do Barro para trás.


Foi um conversa das mais proveitosas com o decano do Milagres o Sr. Elias Saraiva. Sobretudo para aqueles que sempre estão dispostos a aprender um pouco mais acerca da nossa verdadeira história.

Além de prestar uma palpitante entrevista o Sr. Elias ainda colaborou com informações preciosíssimas que, inclusive, serão utilizadas no livro “Lampião em Aurora – Antes e depois de Mossoró” que está sendo finalizado pelo professor e pesquisador José Cícero.

Pesquei no Blog da Aurora

E eu pesquisei no blog: 
http://lampiaoaceso.blogspot.com




ENQUANTO NÃO VEM CANGAÇO - O TREM DA ALEGRIA

Por: José Mendes Pereira


Que tempos bons foram os anos oitenta! Anos de felicidades para todos aqueles que tiveram a sorte de viajar no trem da alegria com destino certo. Que lembranças eu guardo do dia vinte e três de maio de mil novecentos e oitenta e três, quando eu peguei o trem da alegria pela primeira vez, não só eu, mas tantos outros da minha época, com o mesmo objetivo e o sorriso estampado no rosto.


Era um trem que não tinha rodas, mas corria numa velocidade assustadora, deixando os seus usuários em cada ponto de trabalho. Trem que não tinha máquina, mas simbolicamente era dono de uma força enorme para puxar os vagões encarrilhados. Trem que não tinha maquinista, mas passava nas estações entregando os seus passageiros. Trem que não usava poltrona, mas cada usuário tinha um lugar garantido. Trem que não gastava lenha, mas tinha um vapor forte e era fortíssimo. Trem que não se pagava para viajar, mas todos tinham direito à passagem. Trem que não tinha trilhos para se locomover, mas caminhava sobre a força de grupos políticos, que deixava os seus viajantes em cada terminal para ocuparem as suas funções nas repartições públicas. 

Era um trem que deu tantas alegrias e esperanças a muitos que confiavam em mudar de vida para melhor, onde cada um carregava em sua bagagem, sabe o quê? Um monte de conhecimentos para distribuí-lo entre outros que também eram sonhadores.

Infelizmente o animado trem da alegria que tanto rodou, foi desativado para retirarem as ferrugens da ilegalidade constitucional. Que trem da alegria!

“Trem da alegria eram funcionários que entravam nas repartições públicas sem concurso. Eu também viajei nesse trem".

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

JARAMATAIA


Por: Clerisvaldo B. Chagas -  Crônica Nº 822
Clerisvaldo B. Dantas

No Médio Sertão de Alagoas, o inverno vai esfarrapando suas chuvas, devagar, preguiçoso, alternando os dias de molhar a terra. É como se apenas fosse uma satisfação à padroeira Senhora Santana com suas tradições do mês de julho. E se a lavoura não teve oportunidade, o pasto também não. O rosário de sacrifícios sertanejos agita-se na fé entre Pais-Nossos e Ave-Marias. Notícias ingratas vão percorrendo os alastrados até os pés da santa avó de Jesus. Os cânticos de louvação misturam-se às lágrimas envolvidas pela chuva fininha a que vêm chorar também. Nos barreiros, nos lajeados, nas lagoas, o retrato da seca verde ou a cara rachada mostrando os dentes do chão. Correm as notas sobre o asfalto, por cima dos fios, pelas fibras óticas, dizendo de açudes, barragens, represas. E chegam aos ouvidos as palavras quase mentirosas que o maior açude de Alagoas está ficando seco. Quase mentirosas porque a extensão dos açudes “Pai Mané” e o “Jaramataia” são quase lendas no interior do estado. O “Pai Mané”, filho de um apelo em carta endereçada a Getúlio Vargas, pelo fazendeiro “Seu Zezinho”, município de Cacimbinhas, foi construído e tornou-se realidade, tornando-se um mar dentro do Sertão. E o açude no município de Jaramataia, tendo sido iniciado no começo da década de 60, foi uma das grandes vitórias do DNOCS ─ Departamento Nacional de Obras Contra a Seca.

Açude de Jaramataia - Alagoas (Fonte DNOCS)

Foi o açude de Jaramataia quem impulsionou a hoje cidade do mesmo nome que fica entre o Sertão e o Agreste, entre Santana do Ipanema e Arapiraca, fazendo surgir uma comunidade de exímios pescadores. E se Jaramataia é o título de uma árvore da família das leguminosas, foi também à sua sombra que nasceu o povoado à margem da rodovia chamado ainda hoje: “Bacurau”. Nas minhas idas e vindas, fui testemunhando a construção da rodovia do estado, desviando o percurso por longas estradas carroçáveis, contemplando as redes de pesca dependuradas nos terreiros das primeiras casas do povoado. Entretanto, a seca prolongada está fazendo desaparecer os 19 milhões de metros cúbicos de água do famígero açude. Até mesmo as cacimbas improvisadas às suas margens, não servem para o consumo humano e nem para o plantio pelo alto teor da salinidade.
A falta de manutenção dos açudes em Alagoas foi decretando a falência de tanto trabalho empenhado pelos bravos “cassacos” dos tempos das secas. São 22 açudes no estado que pedem atenção das autoridades e socorro monetário. Enquanto isso, vamos observando o debate das águas na região da bacia Leiteira de JARAMATAIA.


Extraído do blog do romancista:
Clerisvaldo B. Chagas



Os Assombros de Itiúba - Depoimento diversos - Parte VI

Por: Rubens Antonio

1931

Depoimento de Isabel, do Maté:
"Quando Lampião chegou no Maté foi com uma turma. Vinham montados e na carreira. Estavam sentados fora da casa do Teófilo e Piroca. Eles levantaram para correr e Lampião falou:
- Não corra! Senão eu atiro!
Perguntou ao Teófilo pelas montadas que tinha e ele respondeu:
- Só tenho umas é-é-é-guas.
Eles arremedaram Teófilo:
- Umas é-é-é-guas.
Lampião pediu água para beber a Joaquina, que estava mexendo uma comida no fogo, em uma cozinha que ficava fora da casa. Mas ela demorou para pegar a água, porque estava nervosa e trêmula. Mas ele achou que ela tinha colocado porcaria na água, e não bebeu. E jogou fora. Lampião perguntou a Joaquina o que tinha no fogo. E ela respondeu:
– Uma comida para uma doente.
Lampião arremedou-a e repetiu o que ela falou, pois Joaquina falava um pouco fanhosa.
A passagem dele no Maté já foi à noite. Ele já estava vindo da Varzinha e foi nessa passagem que ele entrou na casa de Mariinha e deu umas chibatadas nela. Dizem que ela também era gaga e quando Lampião lhe batia, ela dizia:
- Ba-ba-te, diabo!
O povo disse que ele já vinha do Umbuzeiro... Existia muita mentira. Uma época disseram que ele estava atacando Itiúba e estava uma guerra danada.
Diziam que Lampião não fazia muita perversidade. Perversos eram os seus cangaceiros. Há uma história que ele chegou em uma casa ai pra cima. Tinha alguém assobiando e Lampião colocou a pessoa para assobiar a noite inteira para os cangaceiros dançar. Quando amanheceu a pessoa estava com a boca inchada...
Em uma casa, para o lado da Pedra Vermelha, município de Cansanção, pediu para a mulher cozinhar umas galinhas para eles comer. Enquanto comiam, um dos cangaceiros reclamou que a comida estava sem sal. Lampião pediu à mulher que trouxesse um quilo de sal e fez o cabra comer todo.”

Depoimento de Pedro José de Oliveira, o Pedro Cajá:
"Nesse tempo, eu tinha catorze ou dezesseis anos...
Nesse dia, Lampião passou no Poço do Cachorro...
Eu ia subindo para a Cajá e o local onde eu me encontrava era alto.
E vi muitas pessoas montadas, outras não, ao redor da casa da Eleonor, no São Roque.
Não sabia o que estava acontecendo naquele momento... No outro dia, soube que Lampião esteve lá revirando a casa da Eleonor, procurando ouro e dinheiro. Mas não acharam nada e perderam uma palmatória com pregos, pois quem achou foi o Zé Lima, meu cunhado.
E o mesmo deu ela ao delegado Francisco Simões de Carvalho, avô do Augusto Castro.
O Agenor estava fazendo farinha em um lugar chamado Capoeira, na Fazenda do velho Tietre e, quando soube que Lampião estava nas redondezas, correram e deixou a farinha queimar..."

Depoimento de Gabriel de Souza, do Povoado de Varzinha:
"Dizem que Lampião passou por fora da Varzinha. Ele ia passar aqui, mas foi Deus que o rapaz que vinha guiando levou para outro lugar. Eu e meus pais estávamos no terreiro da casa. Eram dezoito horas. Era menino. Tinha mais ou menos oito anos, mas me lembro. Ouvi uns tiros nessa serra, perto da Varzinha. Tem gente que o viu. Passou na casa da Canuto Mariinha, onde deu umas chibatadas nela. Aconteceu muitas vezes de ter notícias dele. Quando a conversa saía que ele estava na região nós corríamos para uma rocinha e íamos nos esconder lá. Estávamos sempre assustados. A gente dormia debaixo do pé de juazeiro ou no pé do lajedo. Não acendíamos nem a luz do candeeiro. Falavam que ele andava em Jenipapo, Jabucunã. Em Jabucunã um rapaz tinha um bar e Lampião passou por lá para beber junto com seus cangaceiros. Começaram a beber e os cangaceiros queriam que o dono do bar bebesse. Mas ele não quis. E um dos bandidos disse:
- Agora beba! Se você não beber, você morre.
Mas Lampião pediu que deixasse o rapaz em paz e fez uma proposta para ele:
- Quer se juntar ao nosso bando?
– Não posso. Tenho uma velha mãe que cuido e sustento.
– Resolva, porque nos quinze dias eu volto.
Foram embora, mas o rapaz, com medo que lhes fizessem mal, foi a Monte Santo e comprou uma arma boa. Alguns dias se passaram e o rapaz ficou de tocaia. Quando o bando ia passando ele conheceu o bandido que queria matá-lo no bar. Mirou e atirou na cabeça. Começaram a atirar no rapaz e ele caiu em uma bagaceira e escondeu-se. Eles olharam por ali e falaram que o cara era ruim. A seguir montaram e foram embora. Quando o rapaz viu a cascalheira, foi conferir e viu um cara morto.”
Depoimento de Sebastião José dos Santos, de 82 anos, de Itiúba:
Lampião não passou aqui, mas Volta Seca e mais alguns cangaceiros passaram no Sítio dos Meios... Atravessaram o campo de bola e o pontilhão, mas não passaram em nenhuma casa. Eu era rapaz e cortava lenha para as máquinas. Meu sonho mesmo era entrar para a volante para matar Lampião. Tinha quinze anos e meu pai não deixou. É que, se eu morresse sem matar ninguém, São Pedro ia perguntar:
- Matou alguém?
Quando eu dissesse que não ele diria:
- Então, você não pode entrar aqui!
Quando Azulão e Volta Seca passaram por Jacurici, todos abandonaram suas casas e foram dormir na casa do finado Antônio Mendes, que ficava dentro da mata. Só quem não fugiu foi eu, papai, mamãe e meu irmão. Meu pai disse:
- Daqui ninguém sai. Se tiver que morrer, morremos em casa."

Depoimento de Ângelo Pereira:
"Lampião tinha me levado a força da Fazenda Urubu, por ser jovem e domador de animais bravos... E eu, mesmo sem ser cangaceiro, vivi no bando de Lampião seis meses e vi coisas de admirar...
Certa vez, ele dormiu numa fazenda onde hoje é povoado de Rômulo Campos. O casal tinha filhas lindas. Lampião, quando viu, pediu uma para o pai das moças... O pai respondeu que as filhas só sairiam de perto dele casadas. E Lampião respondeu que estava certo... Ele, então, pediu ao dono da casa que colocasse suas filhas em um quarto e armasse a rede na porta da camarinha. Caso algum de seus cangaceiros tivesse a intenção de ir até o quarto, ele mesmo, Lampião, tomaria as providências...
Mas o Rei do Cangaço só era valente porque vivia rodeado de cangaceiros... Era tão medroso que não entrou em Itiubinha... Por onde passou foi nas redondeza, saqueando as fazendas e surrando os donos... E ele fazia miséria...
Não foi nada por causa de trincheiras que ele não entrou... Lampião não entrou em Itiúba porque uma entrada segue para Juazeiro do Norte.. e ele tinha um profundo respeito a Padim Padre Cícero... E a do outro lado toca para o Monte Santo, e aí ele não entrou por ele admirar a Santa Cruz...
Ele era mesmo um homem perverso que tinha prazer em matar e roubar, mas, antes de entrar em qualquer cidade, ele acendia uma vela. Caso a vela apagasse ele não entrava, porque lá estavam os macacos à sua espera. Acendeu a vela aqui, que se apagou... Aí é que ele não entrou mesmo em Itiúba... E morreu mas não teve o prazer de entrar na “Itiubinha”, que é como ele chamava."

Depoimento de José Cícero de Freitas Silva:
"Na... Era Lampiônica... Itiúba viveu dias de medo, coragem, humor e outros tantos adjetivos... Tinha o medo daqueles que não tinham brio para defender a alcantilada Itiúba e, a qualquer anúncio da presença de Lampião nas redondezas, refugiavam-se nos píncaros das serras fugindo do temível bandoleiro...
Contam uma história sobre o Senhor João de Castro numa dessas aproximações...
Ele era dono de uma padaria... Encheu um saco de pães para levar na fuga... Só não percebeu que o saco estava furado... Procurando homiziar-se na Serra do Cruzeiro, deixou o caminho pontilhado de pães... Isso mostrava o caminho por onde tinha seguido.
O medo foi tanto que poucos foram os pães que chegaram ao alto da serra e os que caíram serviram de pasto a pássaros e formigas, pois coragem o mesmo não teve para voltar e recolher os pães perdidos...
Admiro a coragem daqueles que ficavam entrincheirados no bueiro da Santa Helena e do Riacho dos Cambecas...
A qualquer notícia, mesmo que pudesse ser inverídica, para lá se dirigiam para enfrentar e encurralar o facínora, fazendo com que o mesmo não entrasse na cidade onde o Capitão Aristides o esperava com outros valentes...
Coragem, ainda, sem igual era a da dona Mariquinhas que, enquanto viveu Lampião, ela não se desgrudava de um fuzil e um haió... que era um saco feito de fibra de caroá... e que ela deixava cheio de balas...
Desta destemida senhora, conta-se que, certa noite, estava a mesma dormindo quando ouviu o barulho de gravetos sendo quebrados. Achando que eram homens do bando de Lampião, levantando de arma em punho e saltando a janela já com a arma engatilhada, quase tira a vida do seu esposo que estava satisfazendo uma necessidade fisiológica no sossego de muro, que até hoje mantém as características da época."

Enviado pelo professor e pesquisador do cangaço:
Rubens Antonio

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Enquanto não vem cangaço - O COLIBRI

Por: José Mendes Pereira
Colibri

Todas as tardezinhas eu me deslocava para o quintal da minha casinhola, na intenção de usufruir um pouco dos ventos que vinha do Norte e posteriormente direcionava-se para o Sul. E lá eu me aconchegava a uma touceira de

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babosa viçosa, que em anos longínquos, eu tinha plantado uma muda que adquiri no meu amado berço, BARRINHA, e com o passar dos anos, ela foi se expandindo, até que formou uma ramagem bastante esverdinhada e de forma arredondada.
                                                                                              
E Todas as tardezinhas um colibri chegava e entre as folhas espessas da babosa, enfiava o bico fino e alongado nas flores em desenvolvimentos, e ficava sugando as gotículas fertilizantes. E em um pequeno espaço de tempo, ele se apoderava de um voo entre o pomar frutífero verdejante em direção a um outro lugar. O colibri desaparecia e minutos depois retornava, e com a sua lentidão repetia tudo o que tinha feito antes. Eu ali, apenas acompanhava os pequenos movimentos das suas asas e corpo. O colibri tinha diversas cores, mas a que mais predominava, era a azul celeste.

E com o passar dos dias, ele foi permitindo que eu me aproximasse cada vez mais dele. O colibri ficava como se estivesse paralisado, e apenas com uma tremura nas asas e no seu pequeno corpo, eu notava que ele estava em movimentos. Mas quando ele percebia que no horizonte, um lençol amarelado formado por nuvens encarneiradas, dando sinal aos viventes do planeta, que o

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pai da natureza já estava se preparando para se deitar, o colibri tomava o último voo daquele dia, e desaparecia no gigantesco espaço do universo. Depois disso, só no dia seguinte era que ele retornava para repetir tudo de novo, colhendo as novas gotículas fertilizantes, que a natureza tinha autorizado a sua reprodução.

Certo dia, eu me apoderei de uma maldade de humano devastador, e tentei capturá-lo, mas o colibri não permitiu a minha ignorância, e apossou-se de um voo, e foi-se embora para nunca mais voltar. Nunca mais o vi!.

Será que o colibri já tinha completado o seu ciclo vital aqui na terra, e foi recolhido pela natureza, paralisando os seus movimentos para sempre? 

Será que o colibri foi alvejado por uma carabina de caçadores? 

Ou será que o colibri descobriu que eu pertenço a uma espécie de animais que rouba, mente, devasta, difama, odeia, desfaz do seu próprio criador, explode e implode, mata os rios, polui a natureza, extingue os pássaros e faz cilada para matar o seu semelhante? 

Minhas simples histórias
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