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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

LIVRO SOBRE CANGAÇO ADQUIRA LOGO O SEU


O cientista cearense de Lavras da Mangabeira Melquiades Pinto Paiva, publicou entre 2001 e 2008 uma coleção de 5 exemplares com o titulo "Bibliografia Comentada do Cangaço. 

Em 2011 resolveu reunir os 5 volumes, com mais outros apontamentos, num único Volume, com o titulo" CANGAÇO: uma ampla bibliografia comentada", com 390 páginas, capa dura, papel especial, edição de luxo, Editora IMEPH. 

Este trabalho contém o comentário sério e fundamentado de 200 livros, 55 Revistas, 200 artigos de jornais, 140 cordéis e 12 filmes e documentários. 

Livro da mais alta importância para quem deseja fazer um estudo sistemático do fenômeno do Cangaço e formar uma boa biblioteca sobre este tema. Quem desejar adquirir este e outros livros: 

franpelima@bol.com.br - 
Whatsapp: 83 9 9911 8286, 
além de mensagem no face.

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ERONIDES DE CARVALHO DESCONHECIA SOBRE A MORTE DE LAMPIÃO


Por Joel Reis

O Jornal (RJ) ouviu Eronides de Carvalho, interventor Federal do Estado de Sergipe que estava hospedado no quarto 105, do Palace Hotel. Eronides desconhecia sobre a morte de Lampião.


Disse:

- É estranho o fato! A Fazenda Angico está localizada às margens do Rio São Francisco, poucos quilômetros da fronteira alagoana. O governo tem uma estação de rádio na localidade de Monte Alegre, nas proximidades do local onde teria tombado Lampião. Daí minha natural estranheza por não saber sobre o fato.

TELEGRAMA URGENTE PEDINDO NOTÍCIAS

Diante do caso, já amplamente divulgado por todas as estações transmissoras do País, o Sr. Eronides de Carvalho passou o seguinte rádio pela Estação da Polícia Civil do Distrito Federal (Rio de Janeiro):

- Interventor interino Federal de Sergipe.
- Mande notícias urgentes e detalhadas sobre a morte de Lampião em nosso território.
- Abraços. Eronides de Carvalho.

Referindo-se aos últimos dias de Lampião, o Interventor disse:

- Ultimamente Lampião havia dividido o seu bando em seis grupos, que operavam sob suas ordens.
- Há dois meses fizeram excursão ao interior alagoano atacando varias localidades.

FOTOGRAFOU O REI DO CANGAÇO

Antes de terminar a entrevista, depois de olhar o clichê de Lampião publicado num jornal vespertino, fez uma revelação:

- Esta fotografia foi feita por mim, Achava-me em 1929, numa fazenda sergipana, em tratamento de saúde, quando Lampião chegou a casa grande. Estava cansado, apresentava roupas bastante sujas e vinha sendo perseguido pela polícia pernambucana. À tarde, pedi para Lampião posar para a minha Kodak, o pedido foi atendido sem objeção de espécie.

https://viacognitiva.blogspot.com/2018/11/eronides-de-carvalho-desconhecia-sobre.html?fbclid=IwAR3TVn87rha7WIWU1S_Dk0H5IgWLwNf3J6ZWkSDVDSIBYTx_QzDS-T68wxo

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CANGACEIRO DESCONHECIDO


Por Beto Rueda

Cangaceiro desconhecido - com Winchester, alpercatas, cartucheiras, bornais, mantas, lenços encarnados ao pescoço, chapéu de couro, pistola, punhal, cabaças d’água - sem as quais o cangaceiro não penetraria a caatinga ressequida e deserta.


Fotografia apanhada no alto sertão pelo tenente Carlos Lopes da Força Pública de Pernambuco. (Vida Policial - 18 jul. 1925).

P.S.: A indumentária parecida com a de Antônio Ferreira, vulgo Esperança, em 1922, na foto em que ele aparece com Lampião, Livino e Antonio Rosa.
https://www.facebook.com/groups/lampiaocangacoenordeste/?multi_permalinks=979176592291285%2C979655305576747%2C979755735566704&notif_id=1546215668764093&notif_t=group_activity

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O POVOADO CAJUEIRO E A CASA DE ADAUTO FÉLIX



Neste último domingo de 2018, eu estive na comunidade ribeirinha do Cajueiro, ali nas margens do Rio São Francisco, em Poço Redondo. Não fui ali saborear só as delícias do peixe na mesa e do banho na praia d'água doce, mas olhar um pouco a história do lugar e do seu povo.


Além da Capela de Santa Ana, pintada de azul, misturando-se com a luz do Sol da tarde, ali na Rua da Frente, pertinho das águas do Velho Chico, encontrei ali mais para o centro do Povoado Cajueiro a casa onde o coiteiro de Lampião Adauto Felix morou. 


A casa de Adauto Félix está ali resistindo no tempo como uma velha testemunha da história do Cangaço e do povo ribeirinho do Sertão do São Francisco.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2160317740656867&set=pcb.2160317850656856&type=3&theater&ifg=1

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A HORA DIFERENCIADA DO SERTANEJO

*Rangel Alves da Costa

O relógio do sertanejo é ele mesmo que faz, sem precisar de máquina ou ponteiro algum. Conhece o tempo pela sua cor, pela réstia do sol, pela fresta da janela, pelo silvar da ventania.
Não precisa dizer que horas são, ou que faltam tantos minutos para isso ou aquilo. Está no olhar o relógio do sertanejo. Mais que biológico, é um relógio nascido na precisão e na pressa de fazer.
Mas também é uma hora diferenciada. Horário de comer é quando a fome bater, horário de voltar da roça somente quando o cansaço chegar, horário de abrir ou fechar a porta somente quando há necessidade de se fazer assim.
No meio da noite, em plena escuridão, e um canto de grilo lhe informa a hora exata. Bem assim com o zunir da ventania, com o rebuliço no quintal, com qualquer som ouvido lá fora. Não olha para o relógio. Não precisa. Apenas sabe a hora da hora.
“Num acustumo douto jeito não sinhô...”. Diz Zezé Nhôzinho, sertanejo de valia sem igual. E prossegue: “Penso inté que o galo se espanta quano abro a porta da cozinha em direção ao quintá. Tudo santo dia faço ansim...”.
E diz mais: “Que teja de chuvarada ou tempo aberto, nem bem a madrugada se vai e já arrasto meu pé em busca do que fazê. E o que num farta é o de fazê. Faço benzenção perto do santo, entonce só daí me vejo preparado pro dia...


E vai: “Joaninha finge que aina drome, mai sei que num drome não. Logo já tá ajoeiada juntim do oratoro. Reza pelos fio, pela famia, pela terra, pelo bicho, pru tudo. Joaninha nada faz sem Padim Ciço na boca, nada ressorve sem Frei Damião Capuchim.
Prosseguindo: “O canto do quarto inté parece um céu. Mai acho bonito que Joaninha seja ansim. Quem vive sem fé, num é mermo? Eu mermo sô devoto de São José, pai de Jesus e do sertanejo, ansim cuma eu. Bem ansim começa o dia, aina no breu do madrugá...
E vai dizendo: “Mai num tem outo jeito não. O seuviço num dá fuga a gente não. O pão da mesa tá na terra, tá no mato, tá no lombo do bicho, tá toca e na vereda. O sertanejo tem de ir atrás do seu pão, pur isso que bem a luz do dia aparece eu já tô trabaiano...”
“Aceno o fogo de lenha, torro um naquinho de toucim, frevo um café, misturo tudo no bucho e pronto. Quano o sol ser alevanta eu já me fiz de fazê. E pa vortá mai cedo e incrontá na mesa aquilo que Deus quiser. O que é riqueza na mesa do sertanejo, meu sinhô?”
“O pão. O pão que é o feijão, o pão que é a tripa, o pão que é o ovo, o pão que é o naco de carne, o que tiver. E adespois agardecê a Deus. Só Deus que num vai deixa fartá o de comer de amanhã. E tomem Padim Ciço, Frei Damião Capuchim e o meu São José. E José tomem sou. Sertanejo tomem sou. Garças a Deus”.
Então abre a porta e vai para a vida dura. Mas tão cheio de contentamento que mais parece um agraciado de tudo.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

LENHA NA FOGUEIRA! ADEMAR OU BENJAMIM?

Por: Renato Casimiro
Severo me pediu uma opinião sobre o excelente Depoimento de Nirez, com respeito à participação de Ademar Bezerra Albuquerque na realização do filme com Lampião. A rigor, não ouvi ali nada do que não seja o restabelecimento da verdade. Nirez tem a seu favor um zelo muito grande por tudo que lhe cerca, seja na fotografia, na música e em todas as suas manifestações de grande memorialista.

Não há dúvida que o seu depoimento procura esclarecer a verdade sobre aquilo que, historicamente, se aceitou como sendo uma ação de Benjamim Abrahão.

É perfeitamente factível que as atenções de Ademar Bezerra Albuquerque para não perder a oportunidade de realizar o trabalho, através de Benjamim, sejam verdadeiras e incontestáveis. E nisto o Nirez juntou detalhes fornecidos pelo Chico Albuquerque com grande propriedade para firmar a veracidade das afirmativas.

Procurando imagens do Juazeiro antigo, não encontrei em muitos anos uma só que pudesse ser referida ao “fotógrafo” Benjamim. E olhe que ele tinha tudo para fazê-lo, pois no período em que foi secretário do Pe. Cícero, Juazeiro se viu descoberto por uma quantidade enorme de visitantes ilustrados e o dia-a-dia da casa do padre era muito favorável a isto.
Ademar Bezerra Albuquerque 
Pescada em Fortaleza Nobre

Efetivamente, este período de Juazeiro e do Pe. Cícero (época em que Benjamim servia à casa do padre) é muito rico em imagens fotográficas e filmes. A propósito destes filmes, reproduzo o texto que apresentei em nosso então jornal eletrônico Juazeiro on line, na sua edição de 18.01.2009, numa coluna denominada Juazeiro, por aí, que ainda pode ser encontrado disponível em 
http://www.juaonline.info/.

FILMOGRAFIA(I)...

Numa consulta à Cinemateca Brasileira (Secretaria do Audiovisual/Minc), São Paulo, localizei dados sobre os filmes realizados pelo sr. Lauro Reis Vidal, durante sua visita a Juazeiro, em 1925. Foram três películas: um filme original, de 1925, e dois outros montados nos anos 1939 e 1955.

FILMOGRAFIA(II)...

O JOAZEIRO DO PADRE CÍCERO

(Infelizmente, a Cinemateca Brasileira não possui este filme), é um documentário inscrito na categoria de curta-metragem/silencioso/não-ficção. O material original foi em 35mm, BP, 16q. Produção de 1925, em Fortaleza, onde foi lançado em 08.12.1925, no Cine Moderno. A produtora foi a Aba Film, de Adhemar Albuquerque, que fez a direção. Sinopses: "Surpreendente filme natural apresentando magníficos aspectos da região do Cariri em que se vêem: Joazeiro, Crato, Barbalha e outros lugares, assim como Missão Velha, Lavras, Quixadá, Ingazeiras, Fortaleza, etc.

Impressionante vista do grande açude do Cedro". (Jornal do Comércio, 28.11.1926). "Trata-se de uma bela reportagem cinematográfica do Cariri, zona em que o padre Cícero exerce a sua infatigável atividade e o seu grande prestígio. O Joazeiro, a cidade do padre Cícero, é apresentada em seus diversos aspectos, mostrando o seu progresso, o seu povo, enfim tudo o que ali existe de importante. Além do Joazeiro, o público aprecia outros bonitos pontos do sertão cearense, destacando-se o Crato, Barbalha, Missão Velha e o colossal açude do Cedro, obra grandiosa da engenharia brasileira. De Fortaleza há algumas, como sejam o porto, o passeio Público e o Parque da Liberdade. 

Há também belos trechos da estrada de ferro e fotografias de Lampião e seu grupo. É um filme digno de ser apreciado. Não fatiga o espectador. Ao contrário, torna-se atraente pela variedade de cenas, que desenrola. Além disto satisfaz uma curiosidade: mostra o maior domador de homens dos sertões, o padre Cícero Romão Baptista, que se apresenta em diferentes cenas, entre o povo que o aclama, em sua residência trabalhando, abençoando afilhados e romeiros, discursando, enfim de diversas maneiras é ele visto na tela". 
(Jornal do Comércio, 02.12.1926)

FILMOGRAFIA(III)...

O JUAZEIRO DO PADRE CÍCERO, o segundo documentário, foi realizado em 1939, na categoria de curta-metragem/sonoro/não-ficção, a partir de um material original anterior, em 35mm, BP, com duração de 8min, 220m, 24q. A produção foi de Lauro Reis Vidal, no Rio de Janeiro.

FILMOGRAFIA(IV)...

PADRE CÍCERO, O PATRIARCA DO JUAZEIRO, o terceiro documentário, foi realizado em 1955, na categoria de curta-metragem/sonoro/não-ficção, a partir do material original em 35mm, BP, com duração de 11min, 300m, 24q. A produtora foi a Filmes Artísticos Nacionais, do Rio de Janeiro, e a co-produção foi de Lauro Reis Vidal, tendo como direção Alexandre Wulfes. Por exigência da época, o documentário passou pela censura em 19.01.1955, com o certificado 31942, válido até 19 de janeiro de 1960.

FILMOGRAFIA(V)...

Comentários: Observe que fotos de Lampião são referidas em período anterior à sua visita a Juazeiro, em 1926. Algumas das cenas destes documentários podem ser vistas em outras produções recentes, tanto para cinema como para TV. Na ilustração da coluna de hoje, o arquivo do Juaonline apresenta algumas delas, em fotos que foram obtidas por Raymundo Gomes de Figueiredo (anos 50), a partir de fotogramas destas películas. Especialmente sobre esta primeira película, encontro um registro cartorial firmado pelo Pe. Cícero nos seguintes termos:
1931, 13 de Novembro 
-  DOCUMENTO DO PADRE CÍCERO CONCEDENDO AUTORIZAÇÃO EXCLUSIVA, AO SR. LAURO DOS REIS VIDAL, PARA EXIBIÇÃO DO FILME" JOAZEIRO DO PADRE CÍCERO E ASPECTOS DO CEARÁ. "ÍNTEGRA: 
" Amigo e Sr. Laudo Reis Vidal. Saudações. Consoante os seus desejos, pela presente, dou a V.S. a exclusividade absoluta para exibição e representação cinematográfica em "qualquer parte do país e fora dele" de filme que diz respeito a aspectos deste município ou fora dele, nos quais figure a minha pessoa. Assim autorizado poderá V.S. fazer a exibição de qualquer película authentica que tenha obtido, ou que possa obter, conforme melhormente consulte as suas conveniencias e as aspirações gerais do povo, a exemplo da que já é de sua propriedade. 
Joazeiro, 13, de outubro de 1931.  
Ass. Padre Cícero Romão Baptista. (Lo. B-l, N° de Ordem 10, p. 18)

No dia seguinte, o Pe. Cícero faz constar no mesmo livro do primeiro tabelionato uma outra comunicação, reafirmando a concessão do dia anterior e ampliando suas prerrogativas:
1931, 14 de Novembro 
DOCUMENTO DO PADRE CÍCERO CONCEDENDO AUTORIZAÇÃO EXCLUSIVA AO SR. LAURO REIS VIDAL, PARA IXIBIÇÃO DO FILME "JOAZEIRO DO PADRE CÍCERO E ASPECTOS DO CEARÁ. "Integra:
"Amigo e Sr. Lauro Reis Vidal. Local. Reportando-me a minha carta passada onde lhe concedo a exclusividade de minha exibição cinematográfica ficando V.S. com plena autorização por ser o único habilitado a propagar o município de Joazeiro e minha pessoa, através da mesma exclusividade, em todos os tempos, como proprietário do filme "Joazeiro, do Padre Cícero e Aspectos do Ceará" ou outro qualquer filme que possa obter; sirvo-me da presente para juntar as fotografias e documentos que solicitou, em relação separada e por mim assignada, como elementos precisos para a via de propaganda acima citada. Encerrando, cumpre-me, de já, agradecer a sua manifesta boa vontade para comigo, os meus amigos e as coisas do Joazeiro. 
Saudações. 
Joazeiro, 14 de novembro de 1931. 
Ass. Padre Cícero Romão Baptista.( Lo.B-l, N° de Ordem 12, p. 19/20).

O ano de 1925 foi pródigo para filmagens em Juazeiro. Conhecemos a película realizada em 11 de janeiro, quando da inauguração da estátua ao Pe. Cícero, na Praça Alm. Alexandrino de Alencar; conhecemos a película realizada em setembro, quando da visita da comitiva do presidente Moreira da Rocha; conhecemos a que foi realizada por Ademar Albuquerque/Reis Vidal; mas não conhecemos uma que teria sido realizada por iniciativa do então deputado estadual Godofredo de Castro, neste mesmo ano.

É muito mais provável que Ademar esteja como realizador em todas estas películas e este relacionamento teria servido para oferecer um treinamento mínimo para o que viria anos depois com o filme de Lampião, pois é neste ponto que o testemunho de Chico Albuquerque a Nirez é importante.

Não tenho dúvida em aceitar que Ademar e Benjamim tornaram-se parceiros, sendo este cliente daquele e a quem poderia realizar pelo motivo apresentado por Chico Albuquerque e Nirez, o da confiança de alguém que não o punha, e a seu grupo, em apuros com a repressão policial.

Embora tenha feito isto, publicamente, em depoimento durante uma edição do Cine Ceará, anos atrás, aproveito a oportunidade para relatar brevemente o que me foi ensejado conhecer desta atividade cinematográfica de Benjamim. No início dos anos 80, eu e Daniel Walker adquirimos uma coleção de fotografias antigas de Juazeiro e alguns pequenos pedaços destas películas que o seu proprietário, Raymundo Gomes de Figueiredo, cidadão juazeirense, mantinha como acervo e no qual se incluíam livros e jornais, e a que deu o nome de Arquivo Benjamim Abraão.

 Benjamim

Quando adquirimos e isto foi divulgado pelo Diário do Nordeste, o fato foi relevado como se tivéssemos adquirido o Arquivo “de” Benjamim Abraão. A família de Benjamim, através de seu filho, então residente em Niteroi e comerciante no Rio de Janeiro, Atalah Abraão, instruído por Eusélio Oliveira, resolveu mover uma ação contra nós dois e a levou adiante nas instâncias de Juazeiro do Norte e Fortaleza. Vencemos nas duas e o material nos foi devolvido, anos depois.

Mais adiante, numa conversa com o ex-senador da república, José Reginaldo Duarte, cuja família criou nos arredores de Juazeiro, o filho de Benjamim, o sr. Atalah, nos chamou para uma conversa onde algumas coisas foram faladas a respeito da frustração que aquele ato determinou para nós e para a família, sobretudo porque ficou demonstrado que nós não havíamos comprado nenhum roubo, portanto, não éramos receptadores de um acervo, até então procurado.

O sr. Reginaldo Duarte nos lembrou, inclusive, que por vários anos, encontrando-se diversos rolos de filmes pertencentes a Benjamim (não se sabe se apenas outros que não o relativo a Lampião) num canto da casa, na localidade de Brejo Seco, proximidades do atual Aeroporto Regional do Cariri, guardados em latas...

...a garotada do sítio tomava aqueles rolos e os queimavam durante as festas juninas. Certamente que por conta do material cinematográfico de então, sua queima se assemelhava a uma chuva de prata, coisa que fazia a garotada delirar.

Este é o fim trágico, pelo qual, inclusive tivemos que pagar duramente por uma suspeita descabida, a partir da ignorância e má vontade do então, meu amigo, Eusélio Oliveira, que não se permitiu aceitar o convite para conhecer de perto o que tínhamos comprado. A grande indagação que ficou, como moral da história foi mais uma grande dúvida sobre o que teria feito ou não Benjamim Abraão, como fotógrafo e cinegrafista, aluno de Ademar.

Em tudo o que mencionei antes e do que ouvi, destaco: Sem querer por fogo na fornalha e já pondo, enfatizo o que registra a ficha da Cinemateca, mencionada: Há também belos trechos da estrada de ferro e fotografias de Lampião e seu grupo. Não é interessante que haja estas fotografias tomadas em data(s) anterior(es) a 1926. Observar que no filme com Lampião, Benjamim aparece usando um bornal com a inscrição Aba Film. Nunca houve omissão de que a produtora foi a Aba Film, de Adhemar Bezerra Albuquerque, que (também) deve ter feito a direção, à distância. Por isto, o depoimento de Nirez corrobora com as indicações anteriores de que ele era, efetivamente, produtor, diretor e fotógrafo destas películas em torno de 1925.

Entre 1925 e 1936, quando filma Lampião, certamente Benjamim já teria apreendido objetivas e eficientes lições para manejar a máquina. Em mais de 10 anos de relação profissional com Ademar, Benjamim só teria feito isto? A resposta se foi, desgraçadamente, no fogo ingênuo das crianças, em noitadas de São João, nos arredores de Juazeiro do Norte.


Renato Casimiro

Pescado no açude do Coroné Severo: Cariri Cangaço

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OS PRINCIPAIS LOCAIS ONDE HOUVE ATOS DE LAMPIÃO E SEU BANDO.


Por Zé Cangaço

Encontrei esse mapa e compartilho com os amigos. Os principais locais onde houve atos de Lampião e seu bando. Explore clicando em cada evento e veja detalhes e fotos, inclusive coordenadas. Mas não é bem exato nos alfinetes.

https://www.google.com/maps/d/viewer?mid=1uyB11PN8gW0iYpZtdT8Pkuquqgp83LPz&shorturl=1&ll=-8.604337605523629%2C-39.56276374999999&z=7


https://www.facebook.com/profile.php?id=100010681625071

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DÊXA DE ARRUDEIO, FILIZ ANU NOVU!

Por Beto Rueda

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1604179696394430&set=a.465640850248326&type=3&theater&ifg=1

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BENJAMIN ABRAHÃO - ENTRE ANJOS E CANGACEIROS

Autor Frederico Pernambucano de Mello

Esta obra tem o intuito de trazer a biografia do secretário particular do padre Cícero (1917 a 1934) e fotógrafo autorizado do cangaceiro Lampião (1936 a 1938), que possibilitou uma documentação do cangaço.

Serviço

Título: Benjamin Abrahão - Entre anjos e Cangaceiros
Autor Frederico Pernambucano de Mello
Editora: Escrituras 
Ano de Lançamento: 2012
Assunto: História do Brasil
Número de páginas: 320
Valor: R$ 45,00 (com frete incluso). 

Onde comprar?

Com nosso revendedor oficial Professor Pereira através do E-mail:

 franpelima@bol.com.br ou pelos tels. (83) 99911 8286 (TIM) - (83) 98706 2819 (OI).

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HISTÓRIA DO CASSACO ZÉ BENTO

Por Benedito Vasconcelos Mendes

Zé Bento com sua mulher Raimunda e seus 8 filhos viviam em uma casinha de taipa, coberta com palhas de carnaúba, construída em uma nesga de terra que tinha sido desapropriada para a construção do Açude Forquilha, localizada na extrema da montante do referido açude. O Açude Forquilha situa-se ao lado da cidade de Forquilha, na Zona Norte do Ceará. Este trabalhador sustentava sua família exercendo as três profissões que todo sertanejo possui: agricultor, pescador e caçador. Ele, sua mulher e todos os filhos eram analfabetos, porém trabalhadores e sem vícios. O casal vivia para trabalhar para dar comida a sua numerosa prole. Não bebia, não fumava e não jogava baralho nem bozó. Seu trabalho árduo, de sol a sol, só dava mesmo para comprar a comida, pois viviam maltrapilhos e descalços. Sua casinha, muito simples, nem mesa tinha, pois a família comia sobre uma esteira de palha de carnaúba estendida no chão da cozinha. Apesar da pobreza da família, Zé Bento e sua mulher Raimunda viviam felizes, conformados com sua miséria material, que segundo ele era a vontade de Deus. O peixe (curimatã, piau, traíra, cangati, piranha vermelha e mais alguns peixes nativos do sertão semiárido), a carne de caça (preá, mocó, tejo, tatu-peba, tatu-galinha, avoante, marreca-viuvinha, marreca-verdadeira, pato selvagem, veado-catingueiro, tamanduá e outros animais da caatinga) e o feijão de corda, batata-doce e jerimum, cultivados na vazante do açude Forquilha, não faltavam na alimentação da família, pois Zé Bento era muito trabalhador e sempre estava caçando, pescando e cuidando da sua pequena plantação de vazante. Os filhos não estudavam por falta de escola na redondeza do local onde morava. A família ia levando a vida como Deus queria, conforme suas próprias palavras. Eles não possuíam móveis nem roupas, mas o pouco que vendia do que excedia da sua agricultura de subsistência dava para comprar redes de dormir e uma peça de roupa para cada membro da família, por ocasião do Natal, que eles passavam na casa de parentes na cidade de Sobral. A família só se ausentava de sua casa uma vez por ano para ir à Sobral na véspera do Natal, para assistir à Missa do Galo na Igreja da Sé de Sobral, oportunidade em que comprava redes e roupas para usar durante o ano seguinte. 

O casal era dotado de fé religiosa extremada e de muito misticismo. Tinha um pequeno oratório com imagens de gesso do Padre Cícero, Frei Damião, Beato Antônio Conselheiro e de São José, garantidor das chuvas anuais. Aos trancos e barrancos, a família ia levando a vida, até a vinda da terrível seca de 1958, que impediu que Zé Bento encontrasse peixe e caça para matar e que tivesse condições de fazer cultura de vazante no Açude Forquilha, quase seco. 

Quando o DNOCS - Departamento Nacional de Obras Contra as Secas abriu uma frente de trabalho na Fazenda Aracati, para construir, em parceria com meu avô, um açude, fornecendo 74 cassacos pagos pelo DNOCS, durante 8 meses, o agricultor Zé Bento alistou-se na referida frente de serviço. Uma cena inesperada, grotesca, foi a chegada daquela família desvalida, no pico do meio dia, descendo da caçamba de ferro de um caminhão de carregar terra. A família, viajando sob um sol escaldante numa estrada carroçal poeirenta e sobre a chapa de ferro quente da caçamba, ficou aliviada quando o caminhão chegou na Fazenda Aracati e eles puderam pular, um a um, de cima da carroceria. Nem animais são transportados assim, no sol, levando poeira quente, em cima de uma caçamba de ferro escaldante. A presença de Zé Bento naquela frente de serviço, aberta para dar trabalho e renda aos flagelados da grande seca de 1958, chamou a atenção de todos, pois foi o único trabalhador que chegou com toda a família e se arranchou debaixo de um pé de oiticica, na beira do Rio Aracatiaçu. Geralmente, os cassacos não levavam a família para o local de trabalho. 

Dava pena se ver a tristeza e o aspecto físico daquela família. Caquéticos, pálidos, empoeirados, sem forças e exibindo uma profunda tristeza e intensa fome convenciam pelo fenótipo qualquer pessoa da necessidade de ajudá-los. Zé Bento, sua mulher Raimunda e os 8 filhos famintos, desnutridos, de cabelos ruivos de tanta poeira da piçarra da estrada carroçal e maltrapilhos sensibilizaram o meu avô, que passou a fornecer alimentos, não somente para o cassaco Zé Bento, alistado na Frente de Serviço, mas para toda a sua família. Meu avô chorou ao assistir a cena animalesca de alegria das crianças ao receber o primeiro prato de comida. Avançaram todos, de uma só vez, sobre a comida, derramando-a sobre o chão da sombra da oiticica. Para impor ordem, meu avô foi enérgico e improvisou uma fila para receber o prato de feijão chumbinho (Feijão Preto), com farinha de mandioca, jabá e rapadura, que foi engolido sofregamente, quase sem mastigar, pelas crianças e adolescentes. Minha avó mandou desocupar uma parte de um galpão, que servia de armazém de ração para o gado, e transferiu a família da sombra da oiticica para o armazém de alvenaria, coberto de telhas. Logo, a família passou a morar com mais dignidade, com latrina a céu aberto, local para banho, potes com água de beber, local para armar as redes nos caibros da coberta, cuias, cuités, gamelas, cochos, bancos de estirpe de carnaubeira, mesa de pau-branco e cadeiras com tampo de couro cru de boi. Sendo homem trabalhador, honesto e de boa índole, com pouco tempo, Zé Bento conquistou a simpatia do meu avô e foi ser vaqueiro da Fazenda Aracati e de lá nunca mais saiu. As secas catastróficas que se abatem sobre o sertão nordestino são realidades cruéis, que transformam homens fortes, determinados e trabalhadores em miseráveis. A fome, a sede e as doenças, especialmente a varíola, a catapora e o cólera, definhavam e matavam o corajoso, destemido e forte sertanejo.

Enviado pelo professor, escritor e pesquisador do cangaço Benedito Vasconcelos Mendes

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domingo, 30 de dezembro de 2018

2ª EDIÇÃO FLORO NOVAIS HERÓI OU BANDIDO?


Mais um livro na praça: FLORO NOVAIS: Herói ou Bandido? De Clerisvaldo B. Chagas & França Filho. Este livro estará disponível a partir de amanhã no Cariri Cangaço São José do Belmonte e segunda feira dia 15/10 Para todo Brasil. 

Preço R$ 40,00 com frete incluso. 124 páginas. Franpelima@bol.com.br e fplima1956@gmail.com e Whatsapp 83 9 9911 8286.

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AQUI LAMPIÃO FOI FILMADO | O CANGAÇO NA LITERATURA #114

https://www.youtube.com/watch?v=wyFEZBmbpaQ

Publicado em 30 de dez de 2017
Com muita luta e determinação chegamos a este local incrível. Muitos dirão que já sabiam mas quem divulgou?
Categoria

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CANGAÇO NA ÓTICA DA JORNALISTA ADRIANA NEGREIROS (É ESCRITORA)

https://www.youtube.com/watch?v=tI3VNfFfWh8&feature=share

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ESPECIAL LUIZ GONZAGA

https://www.youtube.com/watch?v=m2hkYmJNLKs

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MISTÉRIOS DE ANGICO - QUEM ERA O CANGACEIRO “NÃO CONHECIDO” – PARTE 2.

Por Luiz Ruben (*)

Ainda nos documentos citados no artigo anterior, na continuação das minhas pesquisas para meu mais recente livro “O Fim do Cangaço: As Entregas, encontrei mais um documento que talvez esclareça o nome de guerra do cangaceiro "Luiz de Thereza" desta vez no Jornal Gazeta de Alagoas em 1º de novembro de 1938, numa entrevista com o cangaceiro "Cobra Verde".

Segue a transcrição de parte do jornal com a entrevista de Cobra Verde e em anexo o fac-símile do citado jornal, uma foto do cangaceiro Cobra Verde e algumas observações sobre o fato.

Transcrição parcial do Jornal Gazeta de Alagoas, 1 de novembro de 1938.


Fala-nos Cobra Verde

Como se sabe três dos sete bandidos capturados em Poço Redondo, os denominados, Vila Nova, Santa Cruz e Cobra Verde achavam-se com Lampião no valhacouto de Angico, quando as forças comandadas pelo 1º tenente, hoje capitão João Bezerra os atacou.


Cobra Verde saía muito cedo pra comprar leite numa vacaria cita em Cajueiro, distante meia légua de Angico. De volta, ouviu os tiros e desconfiou do que acontecia. Então se aproximou cauteloso, subindo a uma elevação, de onde viu, ao longe, o combate. Não quis mais saber de nada e abalou no mundo.


Os bandidos que se encontravam em Angico. 

Foi Cobra Verde que nos forneceu a relação completa dos celerados que se achavam em Angico, no momento da refrega, ao todo 42 homens e 7 mulheres. Lá estavam Lampeão e os seus sequazes habituais, que nunca dele se afastavam, Quinta-Feira, Elétrico, Laranjeira, Candeeiro, Alecrim, Vila Nova, Quixabeira, Chá Preto e um Menino, sobrinho de Lampeão, de 16 anos.

Estavam também os seguintes grupos:

- O de Luiz Pedro constituído por Moeda, Vinte e Cinco, Cobra Verde, Amoroso, Cruzeiro e Azulão;

- O de José Sereno, formado por Cajazeira, Marinheiro, Pernambucano e Ponto Fino;

- O de Balão por Bom Deveras, Mergulhão, Macela e Besouro;

- O de Criança por Santa Cruz, Colchete, Cuidado;

- O de Jurity, por Penedo, Borboleta e Mangueira;

- O de Diferente por Velvel e Beija-Flor;

E mais: Zabelê, Lavandeira, Pitombeira e Delicado, que costumavam andar sós. As mulheres eram Maria Bonita, amante de Lampeão, Enedina, de Cajazeira, Maria, de Jurity, Bastiana de Moita Braba, Sila, de José Sereno, Dulce, de Criança e Dina, de Delicado.
Observações:

O único cangaceiro relacionado por Cobra Verde que nos parece novidade é o Velvel, (escrito dessa forma no jornal). Este cangaceiro nunca foi mencionado em outras fontes, por isso, me parece plausível que o Luiz de Thereza, divulgado na matéria do Jornal de Alagoas do dia 9 de novembro de 1938 com a manchete: Quem era o bandido que não foi identificado no sucesso de Angico, compartilhado por mim a todos os pesquisadores, possa ser esse cangaceiro aqui relacionado por Cobra Verde.

Alerto que a lista dos grupos feita por Cobra Verde pode gerar algumas divergências aos pesquisadores mais atentos.

Cobra Verde diferente de outros cangaceiros sobreviventes a Angico e que vieram a declarar décadas depois, com divergências, os cangaceiros participantes do evento, não conseguiram fazer uma listagem numerosa. Cobra verde, entretanto, dá essa declaração onde relaciona um maior número de cangaceiros, apenas três meses depois dos fatos de Angico, que culmina com a morte de Lampeão.

Maurício Ettinger identificou o “Não Conhecido” (assim denominado na lista de identificação das cabeças dos cangaceiros na foto da escadaria de Piranhas), como sendo Luiz de Thereza.

Será o Velvel o nome de guerra de Luiz de Thereza? Fica aí uma pista, para ser ou não confirmada!

Espero que ao compartilhar essas “descobertas” esteja contribuindo para o fim de mais um mistério na história do cangaço.

Saudações cangaceiras
Luiz Ruben F. de A. Bonfim
Economista, Turismólogo, Pesquisador de Cangaço e Ferrovias.

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1. A LUTA PELA TERRA – POUCOS COM TANTO E TANTOS SEM NADA

*Rangel Alves da Costa

Eustáquio preferiu sair da cozinha pela porta dos fundos, indo em direção ao quintal aberto. Não conseguiria passar pela sala e avistar os meninos já famintos àquela hora do dia e sem nada na panela que causasse a ilusão de comida.
Creuzina, sua esposa, havia puxado o pano da cabeça e agora o utilizava como lenço, e já completamente molhado de lágrimas. Nada podia fazer senão despejar o restinho de farinha de mandioca numa panela, jogar um pouco de água por cima e depois mexer até aprontar uma papa d’água.
Tiziu comeu do que lhe foi colocado no prato. Assim também com Pedro e Zefinha, a mais nova da família. Já Eustáquio, o pai, e Creuzina, a mãe, beberam do fel salivento da dor, da agonia e do sofrimento. Continuaram famintos, porém satisfeitos. Os filhos haviam tido a ilusão do alimento. E depois, e mais tarde, quando a fome dos filhos novamente despertasse?
Adiante do barraco o mundo da desolação. A estiagem havia deixado a terra em pó. Não havia verdor nem seiva de vida numa só planta. A ossada do bicho parecia uma assombração esbranquiçada. Mandacarus ressequidos, facheiros murchos, jurubebas mortas pelos beirais pedregosos das estradas. Mas o pior estava por acontecer.
Quando o portentoso alazão riscou defronte a morada, então Eustáquio logo imaginou o chão se abrindo a seus pés. A notícia já era esperada e seria o fim do mundo. E ela havia chegado. Já acreditava nisso, porém não acreditava que tão cedo pudesse acontecer. O recado foi tão breve quanto arrogante: “O patrão avisou que junte as coisas e abandone a casa”.
Já na manhã seguinte e mais parecia um quadro de Portinari. A pequena família em retirada e sem ter aonde ir. Não eram retirantes das secas, e sim retirantes do teto e da guarida de sobrevivência. Retirantes do pedaço de chão aonde se mantinham feito bicho entocados sem ter outra saída. Retirantes da esteira ao chão, do estrado da cama, do pote e do candeeiro.


Mas a família foi seguindo adiante levando toda a riqueza em saco e cuia. Molambos, restos, pedaços. Já ao longe, antes de tomar uma curva para o deus dará, Eustáquio parou um instante, olhou para trás e estremeceu de ódio. Avermelhou ainda mais a pele já tostada de sol, afogueou por dentro feito vulcão irrompendo todas as fúrias da vida. Quanta indignação, quanto rancor, quanto ódio!
E um ódio tão animalesco que só os feridos no espírito, corpo e alma podem sentir. Aquela paisagem sem fim, aquele meio mundo de terra e chão, aquela vastidão sem limites, e tudo de um só dono, tudo de quem sequer sabia a quantidade de terra que possuía nem a serventia de toda aquela riqueza. E ele, caminhante pelo mundo dos outros, não tendo sequer um palmo de chão.
Quis voltar. Fez menção de retornar e ir diretamente até a porta daquele senhor dono do mundo, daquela víbora recoberta de gente, daquele imprestável que se abancava na cadeira da varanda, mirando sem ter o que fazer com as suas léguas e mais léguas de terra, mas sem ceder a ninguém um só quadrado de chão. E sem deixar que o pobre fizesse vingar sobre a terra um pé de milho e de feijão, uma abóbora, uma melancia.
Quis voltar. Fez menção de retornar, mas de repente novamente voltou-se adiante e avistou sua pequena família a lhe esperar. Também sabia que não voltaria com vida acaso fosse pedir satisfação ao ex-patrão. Ele mesmo sabia das cruzes espalhadas por aqueles carrascais, das tocaias feitas e das emboscadas mortais. Um mundo de urubus, de carcarás e gaviões, de vidas definhadas ao sol pela sangria das injustiças.
A família virou a curva da estrada e seguiu adiante. Talvez Tiziu estivesse com sede. Talvez Pedro estivesse com sede. Talvez Zefinha estivesse doente. Mas tinham que seguir adiante. E para trás os imensos descampados, as catingueiras e as umburanas num canto e noutro. Pouco bicho para tanta terra e quase nenhum plantio que alimentasse a vida. Um mundo do tamanho da ganância, da injustiça e da soberba.
Um mundo grande demais para quem não merecia. E nenhum pedaço de chão àqueles que seguiam em frente na incerteza do instante seguinte e do amanhã. Porém, na mente já menos raivosa de Eustáquio um pensamento que mais tarde se tornaria ação: “Nem que sangre de morte, nem que seja ferido pelo açoite da bala, mas ainda lutarei com toda força que tiver para transformar esse chão num chão de todos. Para repartir essa terra com quem dela precisa para trabalhar e sobreviver”.
E foram seguindo adiante. E pela certeza da luta, Eustáquio agora alimentado...
(Continua)

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