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domingo, 24 de novembro de 2013

O cangaceiro Mormaço em interrogatório



Francisco Ramos de Almeida, vulgo Mormaço em interrogatório.

 Auto de perguntas feito ao cangaceiro. Dado à autoridade policial da cidade do Crato/CE, em 9/8/1927.
(Em grafia e formatação original).

*Texto componente do acervo do Dr. Sérgio Dantas.

Não deixe de ler. Vale a pena. 
Clique no link abaixo:

http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2009/09/francisco-ramos-de-almeida-vulgo.html

http://blogdomendesemendes.blogspot.com

domingo, 25 de novembro de 2012

Opinião - O período das entregas

Em pé: Barreira, Santa Cruz, Vila Nova e Peitica. Sentados: Pancada, Vinte e cinco e Cobra Verde

O período das entregas

O confrade orkutiano Geziel Moura compartilhou conosco não somente e opinião sobre a necessidade de se abordar um capítulo muito importante para o estudo e compreensão do cangaço. Bem como a resposta do confrade Sérgio Dantas.

Eu enquanto estudante do cangaço sempre defendi que tal pesquisa poderia ser mais específica, explico:

Alguns autores já se arvoraram neste enfoque como por exemplo, Maria Cristina Mata Machado e seu livro "As táticas de guerra dos cangaceiros", Frederico Pernambucano em seu "Estrelas de couro" ainda no prelo, Oleone Coelho e seu "Lampião na Bahia" . Assim, tais autores fizeram um recorte razoável de parte da temática cangaceirista e com um bom aprofundamento as discutiram, fugindo da generalização superficial que se leva as repetições de sempre como: Lampião em Angico morreu ou não?, Lampião bandido ou herói ? etc.etc...

Diante disso suponho que o período da anistia dos cangaceiros conhecida como "as entregas" seria um interessante objeto de investigação por parte dos pesquisadores, pois tal momento se configura na minha ótica lacunas dentro da pesquisa Lampiônica.

SD corresponde: Cabra pessoalmente eu acho que o estudo do cangaço ainda tem algumas lacunas não estudadas com a devida profundidade, dentre elas o período das entregas, não sei dizer que dificuldades existem para escrever sobre este período tão interessante e que culminou com o fim deste movimento no nordeste, mas pouca coisa já li sobre este processo de anistia.

Cabras como Moreno e Zé Sereno fugiram e nunca pagaram por seus crimes? Fico me perguntando não existia buscas? Seria muito proveitoso elucidar como realmente ocorreu essas entregas.


*Legenda da fotografia: "A rendição do grupo de Pancada". De pé: Barreira, Santa Cruz, Vila Nova , Peitica. Sentados: Pancada, Vinte e cinco e Cobra Verde.

http://lampiaoaceso.blogspot.com

domingo, 4 de novembro de 2012

Neco de Pautilia

Neco de Pautilia

Publicado no blog Lampião Aceso em 4 de  Novembro de 2008

Visitando Floresta - PE em Julho de 2008 na companhia dos confrades Netinho Nogueira e Marcelo Rocha tivemos a grata oportunidade de conhecer e conversar com um dos últimos Nazarenos vivos, o ex comandante de Polícia Manoel Cavalcanti de Souza, Neco de Pautilia. A satisfação era notadamente mútua, o velho guerreiro se realiza com cada visita que recebe.

O tempo lhe cobra tributos, perdeu parte da visão de um dos olhos, apesar da bengala ainda caminha sem muito esforço, A memória então... é a mesma de grande parte das testemunhas desta história, até parece que foi ontem, rica em detalhes. No final do encontro ele lamentou a nossa pressa e nos entregou um texto contendo o resumo de sua vida e uma homenagem a sua saudosa e inesquecível Nazaré do Pico.

SERRA DO PICO “BALIZA DA NOSSA TERRA”

Muitos jovens de Nazaré foram para a Bahia perseguir Lampião e só voltaram depois de dois ou três anos para visitar as famílias, eu estava entre estes.

Chegando em cima do velho Alto grande do Jatobá, avistamos a Serra do Pico. Apesar de estarmos voltando desinteirados foi festa com direito a fogos, ou melhor, com os estampidos dos tiros de fuzil. A Serra do Pico pode ser vista de muito longe, não sei calcular sua altitude, mas sei que quanto mais longe, mais bonita e naquele momento quando a avistamos parecia já estarmos em casa, pois ali é o marco de nossa terra. A alegria foi passageira lembramos que chegaríamos à Nazaré sem os sete companheiros que ficaram enterrados nas terras frias do estado de Sergipe, vítimas do tiroteio de Maranduba, em 09 de Janeiro de 1932. Foram estes: Sargento João Cavalcanti, Sargento Hercílio Nogueira, Adelgício Nogueira, Antonio Benedito, Elias Barbosa, Pedrinho de Paripiranga e Manoel Boaventura que não resistiu aos ferimentos e veio a falecer no hospital de Penedo – AL.

Naquela fatídica batalha nos posicionamos em cima de um banco de macambira e os cangaceiros em campo aberto, as baixas do grupo de Lampião foram: Sabonete (secretário de Maria Bonita), Catingueira e Quina-Quina e ainda foram presos Bananeira e Volta Seca. Para sepultar os nossos seis companheiros abrimos covas com ponta de facão, cavador de madeira e um machado velho, e a terra era retirada com as mãos. Eu, Manoel Cavalcanti de Souza participei de seis tiroteios com Lampião os principais foram: no Raso da Catarina com o Tenente Ozório Cordeiro, O fogo da Maranduba- mais notável – e o do Riacho da Guia com o Coronel Liberato e o Sargento Odilon Flor, e mais dois em plena caatinga após os quais pedi baixa já como comandante de um pelotão e voltei a minha terra. Casei-me com uma Alagoana de Pão de açúcar e fixei residência no mesmo estado, foi na cidade de Caboclo que travei meu sexto e último combate com Lampião.

Era costume de ele vingar-se de policiais que antes o haviam perseguido e foi o que aconteceu comigo, através de coiteiros ele tomou conhecimento de nosso paradeiro; cercou nossa barbearia em pleno meio dia de um domingo, houve tiroteio, mas sozinho consegui escapar deixando morto o cangaceiro Pó corante. Como policial dei minha contribuição com muita dignidade aos meus conterrâneos e nunca deixei de cumprir uma ordem dos meus superiores.

Fui agricultor e pecuarista, almocreve, sapateiro, barbeiro, alfaiate e finalmente funcionário público da comissão do Vale do São Francisco de onde só saí aposentado. Nesta companhia uma das atividades que desempenhava era de fazer cobranças e voltando de uma delas na Bahia novamente avistei ao longe Serra do Pico, demorei muito contemplando aquela bonita visão recebendo os raios do sol, tal demora me fez perder a lotação que ia para Floresta, mas essa hora perdida me salvou de uma emboscada fatal. Os tiros que eram pra mim findaram tirando a vida de um outro conterrâneo de Nazaré, O Sr. Tiodomiro Gomes de Sá, no dia 12 de Dezembro de 1970. Sou filho do agricultor e pecuarista Pedro Gregório Ferraz Nogueira e de Pautilia Cavalcanti de Souza, nasci no dia 21 de dezembro de 1912 na Fazenda Ipueira (4° distrito de Floresta) resido atualmente à Rua Manoel Novaes, 42 e me responsabilizo por todas as informações aqui descritas.

Floresta – PE, 20 de Maio de 2002.

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sábado, 15 de outubro de 2011

Rubens Ontonho no rastro de Lampião

Os Lantyer, de Queimadas

A entrada de Lampeão e seu bando, em Queimadas, BA. em 22 de dezembro de 1929, se fez após a travessia, por canoa, do Rio Itapicuru.

Ponto atravessado por Lampeão e seu bando, em 22 de dezembro de 1929.

Desembarcou o grupo a cerca de 150 metros do chamado Chalé Lantyer. Caminharam em sua direção e encontraram dois homens diante de um automóvel. Foi assim que João Lantyer de Araújo Cajahyba tornou-se o primeiro a ser abordado por Lampeão e demais cangaceiros, após aqueles terem atravessado o Rio Itapicuru, diante da sua residência.


João Lantyer

O Chalé Lantyer, em seu aspecto original (Acervo família Lantyer)


João Lantyer, segundo à direita, com seu "Ford Bigode". Na extrema direita, o mecânico Patápio. Foto de 1928. Possuiu-o por pouco tempo. Vendeu-o para atender ao pedido da esposa, que temia que, em suas viagens, fosse novamente abordado por Lampião. Informação de Antonio Lantyer, seu filho, in Chalé Lantyer

Ali, João se encontrava com o mecânico Pedro Patápio realizando consertos no seu "Ford Bigode”. Após breve conversa com Lampeão, que solicitou o automóvel para adentrar a cidade no mesmo, informando-o que este se encontrava, como se podia perceber, com defeito, foi deixado para trás. Isto, enquanto o cangaceiro despachava alguns cangaceiros para neutralizar o telégrafo e avançou adentrando a cidade.

Zulmira Lantyer de Araújo Cajahyba, irmã de João, que se encontrava na residência da sua irmã, Djanira Lantyer de Araújo Cajahyba, quando foi chamada a ver a passagem do que seria uma tropa volante pernambucana. Reconheceu Lampeão e os cangaceiros que, passando-se por força volante, adentravam Queimadas.


Zulmira Lantyer

Tentou avisar a cidade, em uma ação poderia ter evitado o saque da cidade e o massacre dos soldados.
Entretanto, não deram crédito ao seu alerta. Tendo tomado a cadeia e quartel e prendido o sargento Evaristo e alguns praças, Lampeão fez tocar o apito que chamava os demais para o quartel. João Lantyer avistou e avisou um dos soldados que a pretensa volante era, na verdade, um "troço de cangaceiros” liderado por Lampião. Entretanto, o soldado não acreditou nele e seguiu para a morte.

Nascido em 24 de setembro de 1895, João Lantyer faleceu em 17 de dezembro de 1987, em Queimadas. Zulmira Lantyer faleceu em Queimadas em 25 de junho de 1989.Explore: Cangaço na Bahia


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Vem aí o "Fogo do Cajueiro"

Ponto de Cultura produz filme inspirado na história do cangaço em Dores, SE.



A ideia do filme surgiu através da determinação dos jovens Edson e Igor Santana que realizavam trabalhos amadores de vídeo.O Ponto de Cultura

‘Memória, Cultura &; Cidadania’, da Associação de Incentivo à Pesquisa e à Cultura ‘Nossa Senhora das Dores dos Enforcados’, do município de Nossa Senhora das Dores, está promovendo uma ação para a comunidade local. Trata-se da produção de um filme, denominado ‘O fogo do cajueiro’, que conta a história do cangaço na região. O longa-metragem retrata a entrada dos bandos de Lampião e Zé Sereno na cidade de Dores e fatos marcantes deste período.


Segundo o coordenador do Ponto de Cultura, Manoel Messias Moura, (Foto à cima) a atividade é bastante significativa, pois reúne um trabalho já consolidado à vertente do audiovisual, que é nova no Ponto. “Foram mais de seis meses de pesquisa até começarmos a escolher as locações, produzir o figurino e preparar os atores. Agora, já estamos começando a gravar algumas cenas que ainda não precisam das vestimentas, e temos gostado muito do início do trabalho”, afirma.

Messias informa que a idéia do filme surgiu através da determinação dos jovens Edson e Igor Santana, que moravam no Povoado Sucupira e realizavam trabalhos amadores de vídeo. “Identificando neles grande talento para o audiovisual e através do Projeto Memórias, buscamos fazer algo que incentivasse ainda mais o talento daqueles rapazes. Com a conquista do Ponto de Cultura, adquirimos recursos que tornaram o filme ainda mais viável”, observa.

Desvendando a história


Manoel Messias é ator e coordena o Ponto de Cultura em Dores (Foto: Asscom/Secult)
Por retratar fatos históricos, o filme está sendo muito aguardado pela população dorense, que se empenha e auxilia os produtores nas gravações. “O filme propõe trazer à tona fatos de relevância histórica até então desconhecidos pela maioria das pessoas, atuando assim na valorização do patrimônio histórico local e na construção dos laços de identidade para o povo de Dores”, acentua o coordenador no Ponto, Manoel Messias.

Depois de pronto, o filme será exibido em praça pública e nas escolas, sem qualquer ônus financeiro para o público. De acordo com os organizadores, a iniciativa tende a melhorar o turismo na cidade e a renda da população. “Este é um trabalho diferenciado e inédito no município, já que o cinema é algo novo em Nossa Senhora das Dores. Contar a história da cidade com seus moradores como interpretes e seus encantos como cenário, está sendo sem dúvida, muito prazeroso”, assegura Messias.

Quem também está bastante entusiasmado com a concretização e o bom encaminhamento do filme é Edson Santana, um dos idealizadores da produção. Ele que começou seus trabalhos de audiovisual amadoramente e com uma câmera fotográfica, hoje se aperfeiçoa e se dedica a este projeto que será de grande relevância para a cultura local. “Buscamos através do ‘Fogo do Cajueiro’, resgatar a história do nosso município e incentivar as pessoas na arte. Sinto-me realizado, pois descobri o audiovisual por acaso e fico muito feliz que uma simples brincadeira tenha virado algo tão sério e relevante para Sergipe”, lembra.

Poster
Por se tratar de uma produção independente, ‘O fogo do cajueiro’ deverá estar pronto até o final de 2012. Segundo Manoel Messias a ideia é que o filme seja lançado em praça pública. “Esperamos que tudo ocorra como fora planejado para que cumpramos o prazo. A ideia é fazer o lançamento da produção com a presença de pesquisadores do tema em Sergipe e de outros estados. Queremos também a presença de todas as instituições e pessoas envolvidas no projeto”, finaliza Messias.

Fonte: Asscom/Secult

Pesquei em
Infonet 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Francisco Ramos de Almeida, vulgo Mormaço. Em interrogatório

                                                        
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Auto de perguntas feito ao preso Francisco Ramos de Almeida, vulgo Mormaço. Dado à autoridade policial da cidade do Crato/CE, em 9/8/1927. (em grafia original)
 
Aos nove dias do mês de Agosto do anno de mil novecentos e vinte e sete, as treze horas, nesta cidade do Crato, Estado do Ceará na delegacia de policia, onde estava presente o delegado em exercicio, major Raymundo de Moraes Britto, commigo, escrivão do seu cargo, abaixo nomeado, ahi foi apresentado o preso - Francisco Ramos de Almeida, por alcunha de Mormaço, de vinte (20) annos de idade, filho de Jose Ramos de Almeida, solteiro, natural do municipio de Araripe, logar “Baixio do Ramos”, deste Estado, não sabendo ler nem escrever.

Interrogado a respeito do que causa a sua prisão, disse: - que no anno de mil novecentos e vinte e quatro (1924) elle respondente, residindo em Araripe, deste Estado, seguiu com destino a Ouricury, no Estado de Pernambuco, afim de assentar praça na policia desse Estado, cujo alistamento estava sendo feito pelo Sr. capitão João acob, pertencente á mesma; que chegando ali o tenente Manuel Antonio, elle respondente, em companhia deste seguiu para São Gonçalo e dali até Valença, no Estado do Piauhy, onde deram combate aos revoltosos, sob o commando do coronel João Nunes; que, dali, voltando, effectuaram diversas volantes, terminando no logar “Custodia”, do Estado de Pernambuco, onde, devido á quebra de disciplina para com o cabo commandante da força, foi por este motivo excluido, tendo servido nesta corporação cerca de um anno e cinco meses, mais ou menos; que dali veio para o logar “São Francisco”, do municipio de Villa Bella, encontrou-se com o grupo de Lampeão, no qual foi apresentado como um dos soldados que já o havia perseguido; que nessa occasião Lampeão tentou mata-lo e depois o convidou para andar em sua companhia, sob pena de morte; que, em vista da ameaça, o respondente preferiu acompanhá-lo; que, no dia seguinte, mais ou menos no meiado do anno de mil novecentos e vinte e seis, seguiu todo o grupo, acompanhado de guias, embrenhando-se na matta, com destino ao Estado de Alagoas; que o grupo nessa occasião se compunha de cincoenta (50) homens, na sua maior parte armados de fuzis e mosquetões mauser, e alguns rifles, todos bem municiados, sendo que diversos possuiam um equipamento de oitocentos (800) e mais cartuchos; que o grupo saiu na povoação de “Entre Montes”, no Estado de Alagoas, donde seguiram para “Olho dagua das Flores, passando pelos logares “Capim” e “Pedrão” e dali com direção a “Sertãozinho”, onde tencionava o grupo atacar, o que não foi realizado pelo motivo de ali se achar um forte destacamento que na viagem Lampeão chefiava um grupo e seu irmão Antonio Ferreira, outro, os quaes estavam unidos que nas villas e povoações onde passava o grupo roubavam o que encontravam e incendiavam as fazendas das lojas e quanto ás peças de ouro e outros objectos que encontravam, tomava cada um, para si, o que achavam; que, quanto a dinheiro, quando um dos companheiros achava maior quantidade, ou melhor, importancia mais elevada, era dividida a metade para Lampeão; que do Estado de Alagoas, regressaram com destino ao de Pernambuco, e que em viagem, quando se achavam acampados em uma fazenda, foram vistos por um dos destacamentos da policia alagoana; que este tendo disparado alguns tiros contra o grupo deu causa a este continuar a viagem; indo homisiar-se na fazenda “Patos” no municipio de Princeza, do Estado da Parahyba, de propriedade do cel. Marcolino Diniz, residente em Princeza; que o cel. Marclino Diniz é protector de Lampeão e de Sabino Gomes; que o grupo demorou-se na fazenda “Patos”, por essa epoca cerca de quinze dias; que dali seguiu o grupo para a fazenda “Poço do Ferro” para a casa do coronel Angelo da Gia, onde emorou-se mais de um mês, porque naquelle local Lampeão é bem recebido e não teme ataques de forças, por ser o coronel Angelo pessoa influente e chefe dos logares circumvizinhos, de forma que, quando ali chega um grupo, elle telegrapha dando um roteiro muito differente, desorientando assim as forças que perseguem o grupo; disse mais o respondente que o coronel Angelo é um dos maiores fornecedores de munição a Lampeão, alem da proteção que lhe dispensa; que o coronel Angelo sempre recebe dinheiro de Lampeão por pagamento de munição e tambem por gratificações de serviços prestados; que o major Numeriano, morador na Villa de Rio bRanco, é protector de Lampeão e do seu grupo, pois o grupo já se tem homisiado nas suas fazendas Santa Rita e Cavaco, onde demora dias sem o maior receio; que o major Numeriano fornece munição ao grupo, recebendo por pagamento dinheiro, que lhe manda Lampeão; que os vaqueiros do major Numeriano, de nomes - Jose Juvino e Manuel Ignacio são quem auxiliam o grupo nas suas necessidades; que o vaqueiro Manuel Ignacio reside na fazenda Cavaco e Jose Juvino na fazenda Santa Rita; que ainda é protector de Lampeão, o major Tiburtino morador distante sete leguas da cidade de Floresta, no mesmo Estado de Pernambuco, o qual se encarrega do tratamento de feridos do grupo de Lampeão, mediante gratificação em dinheiro, que lhe dá o mesmo Lampeão; que o cel. Pedro da Luz, morador no lugar Barrinha, municipio de Belem de Cabrobó, e proximo a Serra dUman cerca de uma legua, muito protege Lampeão, fornecendo munição e occultando o grupo na mesma serra, em logares delle conhecido, desviando por todos os meios a pista do grupo; que o mesmo cel. recebe de Lampeão dinheiro a titulo de gratificação pelos serviços prestados; que estando o grupo afastado seis legoas de Villa Bella, elle respondente ouviu Lampeão dizer que estavam ali a mandado do major Theophanes e que ele ia mandar um portador, em Villa Bella, buscar munição; que Lampeão escreveu um bilhete ao major Theophanes, pedindo munição e que o portador era um rapaz, morador na serra, justamente no logar onde estava o gruo; que elle respondente viu o portador ir e voltar, trazendo mil cartuchos, cuja munição o respondente verificou ser para fuzil a qual foi distribuida entre os grupos, inclusive o respondente; que, no dia seguinte, o respondente com os demais foram atacados por uma força sob o commando do tenente Gino e sargento Manuel Netto, resultando a morte de diversos soldados, e que a luta durou cerca de doze horas; que ouviu Lampeão dizer, por diversas vezes, que tinha mandado quinze contos de reis para o major Theophanes, afim deste protegê-lo; que o grupo passou diversas vezes pelas fazendas do major Theophanes, porem em nada as offendiam, porque sabiam que era para em nada as offender; que, na occasião em que o grupo foi atacado pelas forças commandadas pelo tte. Gino, este ainda compunha-se de cincoenta homens; que na occasião do fogo a que o respondente se refere acima, ainda se encontrava com o grupo o caixeiro viajante de nome Mineiro, o qual tinha sido preso por Lampeão, dias antes entre Flores e Villa Bella, tomando deste quatro contos de reis e o sujeito mais a oito contos pela liberdade que no dia seguinte Lampeão dispensou ao rferido caixeiro e este seguiu com destino ao logar Bethania; que logo ao entrar para o grupo , soube o respondente que Lampeão enviara quinze contos de reis para o major Theophanes afim deste facilitar a munição para o grupo; que deste logar o grupo se dirigiu a Cabrobó e voltando passaram por Granito, indo acampar na fazenda Ipueira, de propriedade de Antonio Xavier, pessôa esta que mantinha amizade com Lampeão, onde este recebeu visita de Apparicio e Francisco Romão, os quaes forneceram comida e trataram bem o grupo; que depois da attitude tomada pelo governo de Pernambuco, os acima referidos não protegeram mais e perseguiram tambem o grupo; que de Ipueira seguiram com destino á Serra dUman, onde passaram dois mezes, occultado pelo Cel. Pedro da Luz, que fornecia todo o necessario, neste local de sua propriedade; que deste local sairam com destino ao Ceará, vindo arrancharem-se ao pé de um açude no logar Custodio, do Estado do Ceará, sendo no dia seguinte cercados pela força do sargento Arlindo, travando-se um forte tiroteio, durante três horas, resultando a morte de dois cangaceiros cujos nomes são: Manuel Nogueira e Joaquim Leite, que ha tempo acompanhava Lampeão; que sairam dois outros feridos e que são: Arminio Xavier, vulgo Chumbinho e Mergulhão, este ferido levemente no braço e aquelle, gravemente, motivo porque ficou, digo, porque acompanhando o grupo, teve que ficar em tratamento na Serra do Matto em uma casa, cujo morador o respondente não sabe o nome; que na occasião em que o grupo foi atacado pela força commandada pelo sargento Arlindo, compunha-se de 50 homens, cujos nomes são:

Lampeão, Sabino Gomes, Jararaca, Mareca, Ezequiel, irmão de Lampeão, Ignacio Medeiros, vulgo Jurema, Navieiro, Domingos, vulgo Serra dUman, Jose Pretinho, Francisco Ramos, vulgo Mormaço, Luiz Pedro, Vicente Feliciano, Luiz Sabino, Lua Branca, irmão do cangaceiro Marcelino, Elisiario, vulgo Barra Nova, Arminio Xavier, vulgo Chimbinho, Nevoeiro, Damasio, vulgo Chá Preto, Salú, Juriti, Colchete, Fortaleza, Antonio Rosa, vulgo Mergulhão, Coqueiro, Creança, que pudera ter quinze annos de idade, Antão, Virginio, cunhado de Lampeão, Jose Delphino, Cornelio, vulgo Trovão, Euclides, João Marcelino, vulgo 22, Frazão, vulgo Pae Velho, Palmeira, As de Ouro, Bemtivi, Balão, Oliveira, de cerca de dezoito annos, Jose Izidio, vulgo Pinga Fogo, Moreno Jatobá, Manuel Nogueira, Joaquim Leite e outros que não se lembra dos nomes; que Chimbinho tendo sido ferido, Lampeão resolveu deixa-lo na Serra do Matto, como já referiu o que fez, deixando-o na companhia de João Marcelino, vulgo 22, Lua Branca, Balão, Relampago e Manuel Mauricio; que ainda ficaram no Estado de Pernambuco, os cangaceiros Manuel Antonio e Francisco Antonio, que são residentes no logar Barreiros; que por duas vezes Lampeão foi acampar no logar Serra do Matto e que quando acamparam sempre recebiam munição de Julio Pereira, que ahi residia, se encarregando tambem, de fornecer gado alheio para sustento do grupo e que sempre deixavam animaes nas mãos de Julio Pereira, para trata-los; que quando deu-se o fogo de Custodia o respondente cm o grupo, passou meia legua afastado da Serra do Matto em virtude de se achar ali destacado o sargento Firmino e vinte praças passando afastado de Brabalha uma legua, na direção do Riacho dos Porcos, indo dormir na fazenda Varzinha, de propriedade do Sr. Filemon Telles, onde foi morto um boi, que Lampeão pediu ao vaqueiro; que passaram nesta fazenda em virtude de ser a estrada que desejavam seguir; que no dia seguinte o grupo levantou acampamento, passando nos logares Canto do Feijão e Piões, já no Estado da Parahyba; que antes o grupo esteve no logar Antas, municipio de Aurora, entraram para o mesmo grupo os individuos Antonio Leite, vulgo Massilon e seu irmão Manuel Leite, , os quaes estavam homisiados na Serra do Diamante, do mesmo municipio, sob a proteção de Jose Crdoso e Izaias Arruda; que o grupo ao passar na Serra do Diamante, Lampeão ali deixou três cangaceiros sob a proteção de Jose Cardoso, cujos nomes são: Marreco, Xexeú e Cafinfin, os quaes o respondente ainda não s havia referido anteriormente; seguindo depois ate o logar Belem, onde houve resistencia, não conseguindo o grupo entrar no povoado, donde o grupo voltou pela catinga, ate a Serra do Diamante, municipio de Aurora, neste Estado, onde ficou occulto cerca de um mês, sob a proteção de Jose Cardoso e Izaias Arruda e Gustavo, e que o delegado de policia de Aurora de nome João Macedo, tambem sabia pois, foi ali visitar o grupo; que o respondente viu o delegado referido, na Serra do Diamante, em visita a Lampeão, uma vez, que Izaias Arruda fôra ali, tambem duas vezes e que Jose Carsoso ia sempre, um dia, outro não; que tambem esteve ali Julio Pereira, na companhia de um filho do Cel. Sant’Anna , conhecido por Zezinho e nesta occasião Sabino Gomes deu três contos de reis a Julio Pereira para este botar uma bodega em Joazeiro; que Lampeão nesse espaço de tempo, recebeu de Izaias Arruda dois mil cartuchos, entregues por intermedio de Jose Cardoso, que sempre era acompanhado de Gustavo e Jose Gonçalves, irmão daquelle; que todas essas pessoas sabiam que Lampeão estava se preparando para ir atacar Mossoró no Rio Grande do Norte, ataque este que era acomselhado por Izaias Arruda e Jose Cardoso, que diziam alli existir pouca força e se tornar facil, assim, o roubo; que em vista disto seguiu o grupo guiado pelo vaqueiro de Jose Cardoso, de nome Miguel, por veredas, numa extensão de dez legoas dali voltando, ficando como guia Massilon, que conhecia todo o caminho; que a viagem se fazia sempre á noite e durante o dia escondiam-se no matto; que o respondente sabe por ter ouvido Lampeão dizer e disto ter certeza, que este, por intermedio de Jose Cardoso, enviou vinte contos de reis para serem entregues a Izaias Arruda, afim deste, quando voltasse o grupo do Rio Grande do Norte, fornecer munição precisa; que isto deu-se quando o grupo ainda se encontrava na “Serra do Diamante”; que o respondente assistiu com os demais ao ataque a cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, durante o tiroteio de quatro a seis horas da tarde; que do ataque resultou a morte de dois cangaceiros de nome - Colchete e Jararaca e que nessa occasião o grupo se compunha de cincoenta homens, mais ou menos; que em vista da resistencia offerecida em Mossoró, o grupo recuou, passando pela Villa de Limoeiro, neste Estado, onde o grupo tirou photographia; que em Limoeiro, demorou, o grupo, meio dia; que de Limoeiro marchou o grupo para o “Serrote Vermelho” e ao sairem, digo, e quando ali estavam homiziados, foram informados por um morador dali de nome Ottilio Salustiano de que vinha uma força parahybana e cearense fazer uma batida no mesmo serrote; que em vista disto, tomou o grupo uma vereda e ao sair na estrada encontraram-se com a força travando-se um forte tiroteio; que o grupo nessa occasião vinha todo montado e que em vista do tiroteio, viram forçados a abandonar os animaes e alguns nas sellas; que nesse tiroteio saiu ferido o cangaceiro Heleno Caetano, vulgo “Moreno”; que desse ponto o grupo correu, indo homiziar-se no luagr “Riacho do Velame”, onde se arrancharam, entrincheirando-se tendo ahi um morador muito conhecido de Antonio Leite, vulgo Massilon o qual a mandado de Lampeão foi comprar farinha e rapaduras, isto pela tarde e que a noite Sabino Gomes indo a casa deste morador com o fim de comprar uma creação, quando foi avisado que a força já se achava proxima da morada; que nessa occasião Sabino voltou e avisou a Lampeão o roteiro da força, respondendo este que dali só sairia depois que brigasse com a força e, em seguida, tomou as cabeceiras do riacho entrincheirando todo grupo que ao amanhecer do dia seguinte cerca de seis horas, a força com um guia da casa foi ter ás barreiras do Riacho, travando-se o tiroteio do lado em que estava Lampeão, e que este depois allegou ter atirado em um tenente, o qual caiu; que o tiroteio demorou três horas, francamente e que o grupo respondia ao ataque da forçacom a mesma fuzilaria; que não saiu nenhum cangaceiro ferido e nem orto; que gastaram quase toda munição, ficando cada um, mais ou menos, com cincoenta a sessenta balas; que continuavam presos no mesmo local da luta, o Sr. Antonio Gurgel e uma senhora de que o respondente não sabe o nome, dos quaes Lampeão exigia vinte contos de Antonio Gurgel e trinta da referida mulher, pela sua liberdade; que desse local seguiram e, chegando nas vizinhanças da casa de Ottilio Salustiano, já referido acima, oito leguas distante do local da luta, o respondente, em companhia de sabino Gomes, foi deixar os referidos presos a quem Lampeão deu liberdade e algum dinheiro para a viagem; que deste local seguiu o grupo, por dentro do matto, acompanhado de guias e algumas vezes andando pela estrada porem eram repellidos pela força cearense que estava em seu encalço e novamente os obrigava a internar-se na matta; que nessa marcha veio o grupo ter á “Serra do Diamante”, já alludida atrás, onde homiziou, sob a proteção de Jose Cardoso que nesse mesmo dia conduziu um bocado de munição e a entregou a Lampeão, que a distribuiu com o pessoal do grupo; que no dia seguinte Jose Cardoso foi novamente á Serra do Diamante e ali convidou Lampeão para com o grupo vir para o sitio Ipueiras de sua propriedade, convite este que foi acceito, vindo o grupo logo em companhia do mesmo; que o grupo ao chegar em Ipueiras demorou dois dias, acampado numa manga proximo a um açude; que no primeiro dia Jose Cardoso forneceu almoço e jantar; que no segundo dia quando chegou o almoço, mandado tambem por Jose Cardoso, ao provarem-no alguns acharam amargoso, sendo que três delles enguliram alguns bocados, sentido logo após convulsões; que Lampeão e os do grupo desconfiaram que aquella comida estivesse envenenada e por isto Lampeão resolveu abandonar o ponto em que estava o grupo; que quando se preparavam para levantar acampamento verificaram que o pasto da manga estava incendiando e por isto ainda mais apressaram a fuga, saltando algumas cercas; que nessa fuga, morreram, logo adeante, os três cangaceiros que sentiram convulsões, depois da comida alludida, cujos nomes são: Mergulhão, Gavião e Fortaleza os quaes foram enterrados num riacho, pelo grupo; que o grupo tomou a direção da Serra de São Pedro, e, antes de ali chegar, mudou de rumo na direção de Ingazeiras, e distante duas leguas deixou o respondente o grupo, com o conhecimento de Lampeão, a quem vendeu o seu fuzil por duzentos mil reis, cuja arma tinha comprado a um rapaz de Lampeão; que deixando o grupo, seguiu o respondente até Joazeiro, sendo acompanhado por Coqueiro e de Joazeiro seguiu o respondente para Araripe, onde rerside o seu pae; que Coqueiro tomou a direção do Piauhi, não sabendo mais noticias delle; que elle respondente sabe mais que, no dia da chegada em Ipueira, Izaias Arruda mandou pedir mais a Lampeão por Jose Cardoso a quantia de quatorze contos, e que Lampeão combinou com Sabino Gomes dando cada um uma parte e enviaram a quantia pedida e que o respondente assistiu á entrega do dinheiro referido; que elle respondente não tomou parte no roubo de Apodi, nem tambem o grupo de Lampeão e que este saque foi dirigido por Antonio Leite, vulgo Massilon, o qual possuindo somente um cangaceiro, lhe foi fornecido trinta homens por Izaias Arruda, combinados para dividirem o roubo, tendo este novo grupo atacado Apodi, Gavião e Boa Esperança, no Rio Grande do Norte, resultando o roubo em quarenta contos de reis, em dinheiro, afora objetos de ouro e prata, relogio, etc.; que elle respondente, estando na Serra do Diamante, com o grupo de Lampeão, ali chegou Izaias Arruda e contou a mesma historia que lhe contara Antonio Leite, vulgo Massilon, sobre o facto narrado acima, acrescentando mais que, se com os trinta homens que havia dado a Massilon, que é tolo, tinha adquirido quarenta contos, quanto mais Lampeão - que arranjaria muito mais dinheiro, por possuir maior numero de cangaceiros e ser mais experiente; que durante o tempo em que o respondente esteve no grupo de Lampeão notara que alguns cangaceiros ficavam atras, para nas estradas forçarem algumas moças como tambem mulher casada; que sabe que alguns destes eram mais audaciosos, neste sentido, entre os quaes Moreno, Jararaca e Nevoeiro; que Lampeão conduz o dinheiro em bolsa, que tras a tiracollo, sendo que uma parte elle tem guardado nas mãos do Cel. Angelo da Gia de quem Lampeão tudo confia; que no incendio da manga, no sitio Ipueiras o grupo fugiu sem travar tiroteio; que Antonio dos Santos, cangaceiro que tambem foi com o grupo roubar no Rio Grande do Norte e rerside no logar Antas, do municipio de Aurora, quando o grupo chegou em Ipueiras se offereceu para tratar de Moreno que havia sido ferido na Serra Vermelha, como já referiu atras, tendo ficado tambem com este mais os cangaceiros Português e Ricardo, não sabendo em que lugar os mesmos se occultaram; que o respondente, estando em Araripe, no logar Baixio do Ramos, onde reside o seu pae, resolveu fazer um samba em regozijo pela sua chegada, delle respondente; que alta noite, difulgou ?? na casa da festa algumas pessoas da rua, um pouco alcoolizadas e que armadas de faca, começaram a produzir desordens; que o respondente procurou acalma-los e como não o conseguisse saccou de um revolver afim de amedrontá-los; que sendo agarrado por diversos , afim de o desarmarem, succedeu que o revolver disparou por duas vezes, produzindo um ferimento num seu tio pelo lado materno; que este ferimento produziu a morte, poucas horas depois, do seu tio alludido; que por isto foi preso e descoberto ter servido como cangaceiro no grupo de Lampeão.

E, como nada mais disse e lhe foi perguntado, deu o delegado por encerrado o presente interrogatorio, mandando lavrar o presente auto, que, sendo lido e achado conforme, vae assignado pelo mesmo delegado e a rodgo do respondente pelo cidadão Francisco Carvalho. Eu, Jose Carvalho, escrivão que escrevi, do que tudo dou fé. (aa) Raimundo Moraes Britto - Francisco Carvalho.

Grafia original da época. Transcrição fiel do interrogatório feito quando preso o cangaceiro.

Texto componente do acervo de Sergio Dantas


Extraído do blog: "Lampião Aceso"