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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Izaias Arruda e o Incendio da Ponte Parte I

Há anos que esta história me intrigava. Algo que nunca saíra de vez da minha cabeça. Tanto que, depois de várias investidas em vão para saber o local exato onde o incêndio ocorreu – por sorte, alguns meses atrás terminei encontrando o que procurava, isto é – a ponte do Olho d’água localizada entre o povoado de Quimami (Missão Velha) e Ingazeiras (Aurora).
 Mesa de abertura do Cariri Cangaço em Aurora no ano de 2011

Quando já me dirigia para a ponte do Jenipapeiro nos rumos do riacho dos Porcos nas proximidades de Ingazeiras, distrito de Aurora tive a sorte de parar numa bucólica residência de um agricultor. Um senhor de aproximadamente 80 anos. Cordato e hospitaleiro. Após falar-lhe do que eu estava procurando, ele de súbito, disse saber de toda a história contada-lhe um dia pelo seu genitor já falecido. E mais, que eu estava errado quanto a localização. A tal ponte não era a do jenipapeiro e sim, uma outra situada um pouco mais a frente a uma légua e meia dali. A ponte do incêndio ficava na localidade rural de Olho d’água. Aquela dica para mim foi muito mais que uma surpresa agradável. Foi um lenitivo. E assim, seguimos(eu e a minha equipe). De moto, ficou mais fácil vencermos as léguas tiranas das estradas empoeiradas. Chegamos finalmente ao local procurado. A ponte era magnífica. Exaustos mas recompensados por mais uma constatação histórica.
 
No ano passado, havia ido a Missão Velha e tendo inclusive conversado com o pesquisador Bosco Andréa acerca deste fato. Tudo estava, ainda como agora um tanto quanto nebuloso. Um mistério. De lá fui até a ponte/pontilhão das Emboscadas. Por sinal uma bela obra de arquitetura. Confiante de que havia sido ali o ambiente onde tudo ocorreu. Só em seguida é que fiquei sabendo que também não era lá. De novo estava eu desolado. E agora, diante do local exato pude constatar que se trata mesmo de uma bela ponte metálica de engenharia arrojada para os padrões da época. Logo que chegamos pude notar que bem ao lado, havia um canteiro de obras com vistas à construção da ferrovia denominada Transnordestina - obra do governo federal ainda da era Lula. Uma nova ponte estaria sendo projetada. E que será construída paralela a esta da Reffesa. Torço para que, com a suposta desativação da antiga linha, que pelo menos a histórica ponte onde todo o fato ocorreu venha a ser preservada. Posto ser ela, um patrimônio arquitetônico e histórico não somente de Aurora e Missão Velha, mas de todo o Cariri.

 
A Pesquisa de campo

Vasculhamos todo o matagal em seu entorno, assim como o leito do rio, quando pude, para minha alegria descobrir algumas peças antigas de ferro retorcido que estavam enterradas na lama, assim como cobertas pelo mato(ver foto). Tudo o que aquele senhor nos informou estava ali diante dos nossos olhos. Era a história viva e pulsante de um tempo ido, como que desafiando o olhar dos contemporâneos. O rio estava belo, mesmo que rasgado e maltratado pelas máquinas que estavam a construir a nova ferrovia. Vi muita destruição em boa parte do percurso. Uma verdadeira agressão ao rico e ao bioma da nossa caatinga como um todo. Tudo em nome de um progresso devorador que parece puder tudo. Até mesmo devastar e destruir os nossos ecossistemas e a nossa própria história.
 
Era gozado a forma como os operários da Transnordestina nos olhavam. Talvez, por não compreender o nosso propósito de pesquisa. Ficavam curiosos. Vendo-me com a minha equipe a fotografar tudo, a esquadrilhar o ambiente em suas minúcias; como a procurar algo no vazio. Descobrimos peças de metais enterradas na areia do rio. Checamos restos de antigos dormentes. Buscando assim qualquer vestígio possível daquele remoto acontecimento, passado a mais de 80 anos. Era possível ver os sinais de fogo nos pilares da velha ponte. Tudo ali parecia está realmente carregado de antigas memórias.
 
Eu olhava para aquela ponte e imaginava o velho coronel Izaías Arruda e Zé Gonçalves com todo o seu bando de jagunço em suas infindáveis estripulias. Lampião e seus comandados... Além dos grandes potentados e outras autoridades que um dia passaram por ali. Por fim, saber que por sobre aquela ponte do Salgado passou boa parte do antigo progresso do Cariri foi para mim uma sensação das mais indescritíveis. Um misto de saudade, alegria e curiosidade.

Continua...
José Cícero
http://blogdaaurorajc.blogspot.com/
http://cariricangaço.blogspot.com
http://blogdomendesemendes.blogspot.com

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Uma modesta reflexão acerca da importância do Cariri Cangaço

Por: José Cícero

Conselheiro José Cícero, Danielle e Severo

Quão lisonjeiro e gratificante é a doce experiência de se viver toda a emoção de, literalmente termos mergulhados no fundo da história destes sertões do mundo. Principalmente em meio a uma sensação de alegria e contentamento quase descomunal, numa sinergia coletiva entre aqueles que procuram o tempo todo viver e sentir os fatos históricos na sua compleição mais forte e verdadeira, quase como uma profissão de fé. Na sua grande maioria, pesquisadores, escritores e historiadores deveras apaixonados que são pela temática dos sertões e, em particular, do fenômeno do cangaço desde a sua gênese. Tendo como pano de fundo, o papel exercido pela ínclita figura de Virgulino Ferreira da Silva - O Lampião, rei do cangaço e os seus comandados, além de coronéis, beatos, jagunços, coiteiros e volantes.
 

Uma grande multidão de aficionados, dos mais diversos e distantes rincões do Nordeste (quando de outras partes do Brasil e do mundo ) reunidos em torno de um tema no mais das vezes, recorrente e por demais palpitante. Movidos todos eles, pelo combustível incontrolável da curiosidade, da leitura e da pesquisa como um farol sempre à serviço da verdade e da ciência social. Uma multidão de abnegados pesquisadores, cuja paixão pela história lampiônica é quase uma marca indelével, notadamente na visão dos que desejam sempre querer aprender um pouco mais.

Um considerável ingrediente que há muito tem fomentado a produção de conhecimento, chamando a sociedade (em especial a acadêmica) a pensar e se debruçar sobre toda uma série de questões a partir do enfoque do cangaço e seus desdobramentos. E, é bom que se diga que o Cariri Cangaço tem jogado um papel de destaque neste processo. Assim como outros eventos do mesmo naipe, que ora acontecem em outras paragens do Nordeste e pelo país afora.


Quem sabe, como uma profunda cicatriz deixada na própria pele (destes sertanejos curiosos), por espinhos de antigos mandacarus durante as inumeráveis andanças e incursões pelas inóspitas caatingas nordestinas. Uma declaração de guerra em favor do bem. O bom combate anunciado como que por meio de medievas trombetas sertanejas, sobre os chapadões destes grotões carirenses. Uma sensação de alegria sem tamanho, estampada nos olhos, bem como no peito de todos estes verdadeiros vaqueiros visionários de uma saga sem fim; chamada cangaço. Pulsão de quase morte a nos impulsionar às andanças e à pesquisa, buscando conhecer um pouco mais daquilo que de fato, aconteceu um dia neste sagrado chão e pelas bibocas desconhecidas de uma elite ainda hoje preconceituosa.

Sem dúvidas, num gesto da mais evidente ousadia dos que, ainda não se deram por satisfeito diante da mentira de uma história descrita e escrita pelos vencedores. E assim, decidem por si mesmos, ir além. Muito além da versão daquilo que há muito se convencionou a chamar de história oficial. Diante de todo este incomensurável contentamento e disposição para este mergulho profundo e perigoso na história, ficamos a nos perguntar: Que força e que energia (talvez sobrenatural) no impulsionam a esta grandiosa empreitada ? Que motivação será tão forte, ao ponto de fazer com que homens e mulheres das mais diferentes classes, profissões, idades, concepções, crenças e lócus geográficos; desconhecendo distâncias venham se compor como num verdadeiro exército de desbravadores pós-modernos ansiando ver de perto os nossos sertões hodiernos? A face cruel da história. Os resquícios do passado que sobreviveu a toda escuridão tenebrosa dos anos idos...

Que argamassa inquebrantável possui a fantástico história do cangaço ainda hoje, ao ponto de mexer o mais profundamente possível com todos nós pesquisadores e entusiastas desta temática ? Será que, como dizem os opositores, estamos implicitamente a enaltecer bandidos? Não. Isso não. O que estamos na verdade, ao meu juízo, é lançando um novo olhar justo, preciso e necessário sobre a fenomenologia dos acontecimentos que, por mais de cem anos, impregnou os sertões e a sua gente de grandes percalços, marcados pela miséria e pela injustiça de toda sorte.

Independente, portanto, de enxergarmos (por exemplo) Lampião, quer seja como herói ou como bandido – o cangaço por seu turno, como um fenômeno eminentemente social e político, deixou sua marca na historiografia de todo o interior nordestino. E, Virgulino Ferreira, o Lampião, quer queira ou quer não, foi o seu protagonista maior. De tal maneira que não poderá passar despercebido neste estudo de casos e acontecimentos. É fundamental que conheçamos nossa verdadeira história... Como de resto, é mister que se diga que, só após as estripulias de Lampião com seu bando, foi que o sertão ‘passou’ a ser visto de uma outra maneira pelos poderes do litoral. Contudo, parte daquela antiga realidade ainda persiste, vez que a ótica dos poderosos também permanece tal qual como no passado: míope, excludente, injusta, massacrante, discriminante e mentirosa.

José Cícero
 
Secretário de Cultura – Aurora/CE
Professor e Pesquisador do Cangaço
 
Conselheiro do Cariri Cangaço
Sócio do GECC
 
 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Cariri Cangaço, uma confraria de grandes amigos e irmãos

Danielle Esmeraldo e José Cícero

Foi um belo evento com um intenso sabor de saudade. Por assim dizer, fragmentos de uma magna camaradagem que durou praticamente uma semana inteira de andanças pelo solo sagrado do Cariri cearense. Passos na caatinga de cangaceiros e cangaceiras do conhecimento em busca quem sabe, do elo perdido na ânsia de lançar nova luz e novo olhar naquele que já se configura como o maior fenômeno sociológico dos sertões – o cangaço.

Uma confraria de grandes amigos e irmãos ligados fortemente como que pelos laços consangüíneos e inquebrantáveis de uma história que não quer calar, chamada cangaço e de uma saga apelidada de sertão. Uma luta sem fim. Um mergulho no universo quase indecifrável do oco do mundo. Protagonizada por uma incansável comitiva de entusiastas do conhecimento nordestino que visitara agora pela terceira vez(como se fosse a primeira) sete municípios caririenses(Crato, Barro, AURORA, Missão Velha, Barbalha, Porteiras e Juazeiro do Norte), numa série de seminários sobre os mais diversos temas sempre focados na temática sertaneja – tendo como pano de fundo, o cangaço nordestino, sob o título geral: da insurreição a sedição.

Um ciclo de debates e de palestras que muito ajudará aos caririenses a melhor compreender parte importante da sua história em particular e do Nordeste em geral. De modo que se tivéssemos como sintetizar o Cariri Cangaço 2011 numa única frase – esta seria inegavelmente: Empreitada de sucesso e entusiasmo!

Sem dúvida mais um evento primoroso, algo marcante para toda a região do Cariri coordenado magnificamente pelo seu curador – o inteligente e tenaz pesquisador do cangaço – Manoel Severo ao lado da sua esposa a competente secretária de cultura do ‘Cratinho de açúcar’ – Danielle Esmeraldo. Um acontecimento que, pela sua grandeza de objetivo sociocultural, artístico, histórico, científico e filosófico deveria despertar muito mais a opinião pública, os políticos, as universidades, o estudantes, os educandários, a imprensa e, notadamente, os que se dizem formadores de opinião de toda a região sul caririense.

Portanto, há que agradecermos como de resto, aos que tiveram esta visão um tanto pedagógica e decidiram apoiar o Cariri Cangaço que agora em sua 3ª edição, promoveu literalmente o reencontro do povo do Cariri e do Nordeste com sua própria história.

José Cícero
Secretário de Cultura de Aurora
pesquisador e escritor do Cangaço
Conselheiro do Cariri Cangaço
http://cariricangacoCariri Cangaço, uma confraria de grandes amigos e irmãos.blogspot.com/

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Legendas vivas da memória do Cariri

Por: Manoel Severo


             Sempre afirmei que o Cariri Cangaço é o resultado de uma grande construção coletiva. Sem dúvidas, é necessário a figura de um timoneiro, um animador, um articulador para ordenar as idéias e as ações; entretanto o conteúdo principal, que são o conjunto de abordagens, as possibilidades de aprofundamento, a adesão e a qualidade dos colaboradores, dentre tantos outros aspectos, são resultado do esforço de muitos.

Bosco André ao lado de Napoleão Tavares Neves

            Hoje presto uma homenagem a quatro destes grandes homens que ao nosso lado estão reescrevendo a história de nosso Cariri. Homens determinados, zelosos e acima de tudo apaixonados por essa terra maravilhosa, tão cheia de tradição, cultura e história.

Bosco André ao lado de Sousa Neto

            Napoleão Tavares Neves, uma verdadeira legenda, o mais festejado memorialista de nosso Cariri. Homem simples, humilde e de uma bondade sem igual. Médico humanitário e um pai de família exemplar. Napoleão Tavares Neves é uma das mais privilegiadas inteligencias de nossa região, escritor talentoso e um espetacular contador de histórias, com H maiúsculo, ao amigo Napoleão a nossa gratidão.
             João Bosco André é uma dessas personalidades que nos encanta "logo de saída"; de jeitão manso e matreiro, vai falando, falando e contando tudo sobre tudo de nosso Cariri, nada lhe foge a memória, um memorialista ímpar, conhecedor profundo da história de nossa região, principalmente de suas origens e toda a capilaridade que lhe é peculiar. Ao padre Bosco, a nossa homenagem.

Bosco André ao lado de José  Cícero

             O grande secretário José Cícero é daqueles que não mede esforços para chegar a seus objetivos; sua dedicação às pesquisas de nosso chão quente do sertão, chegam a espantar, diante da qualidade e da minúcia; a história de nosso Cariri passa também pelas linhas de José Cícero, a você amigo, o nosso abraço.
              Sousa Neto, de fala macia e serena, escondem a determinação dos abnegados pela busca das verdades históricas. A partir de Barro, a entrada de nosso Cariri, Sousa Neto nos traz uma das maiores sagas da região, é esperar para conferir.
              Aos amigos Napoleão, Bosco André, Zé Cícero e Sousa Neto; o nosso abraço fraterno e de gratidão. E que venha o Cariri Cangaço 2011, quando setembro chegar.
 

Manoel Severo
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