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sábado, 19 de maio de 2012

Nova luz sobre Delmiro Gouveia Por:Wagner Sarmento

Gilmar Teixeira

Quase um século após o misterioso crime, pesquisador apresenta em livro versão inédita para a morte do homem que revolucionou a indústria no Nordeste. A história não é produto acabado. Está sempre sujeita a revisões, releituras, reviravoltas. A morte do empresário Delmiro Gouveia, pioneiro da industrialização do Nordeste e construtor da primeira usina hidrelétrica brasileira, assassinado em 10 de outubro de 1917, nunca foi ponto final. Reza a tradição popular que, após ser alvejado na cadeira de balanço do alpendre de seu chalé, Delmiro indagou, antes de morrer: ”Quem foi o cabra que me matou?”.

 Delmiro em clássica fotografia......"lendo jornal em sua cadeira, tal qual quando foi morto"

A pergunta atravessou décadas sem resposta. Entre silêncios e murmúrios, um crime sem solução, mais um, retrato de um país onde a injustiça é, muitas vezes, o único elemento indubitável. Mas o manto do mistério pode ter sido desvelado 94 anos depois. É o que garante o historiador baiano Gilmar Teixeira Santos, que mergulhou no intrigante crime e lançou à luz fatos ocultados pelas biografias anteriores. A investigação feita pelo pesquisador revela que o homicídio foi uma grande trama arquitetada por falsos amigos e rivais do homem que anteviu o Nordeste do futuro. 

Os operários Róseo Morais do Nascimento e José Inácio Pia, conhecido como Jacaré, haviam sido demitidos de uma das fábricas de Delmiro duas semanas antes do crime. Pobres, foram presos e acabaram condenados pelo homicídio à pena máxima de 30 anos. Jacaré fugiu duas vezes da cadeia e foi morto em 1924 pelo coronel José Lucena, mesmo homem que matou o pai de Lampião. Róseo cumpriu 15 anos de pena, foi solto por bom comportamento e morreu de velhice em 1979. Em vida, nunca conseguiu se desfazer da pecha de assassino. Uma revisão processual, porém, inocentou a dupla mais de meio século depois, em 1983, após acreditar um álibi desprezado na época e segundo o qual ambos estavam em Sergipe no dia em que Delmiro foi eliminado. Enterrava-se. Ali, naquela absolvição póstuma, a principal versão sobre o crime.


Róseo e Jacaré, acusados e condenados...inocentes???

Outra hipótese difundida alardeava que o assassinato teria sido demandado pela Machine Cotton, empresa escocesa que havia perdido mercado com a ascensão da Companhia Agro-Fabril Mercantil, criada em 1914 por Delmiro Gouveia, a primeira na América do Sul a fabricar linhas para costura e fios para malharia. O que reforçou a possibilidade foi o fato de a Machine ter comprado a fábrica do empresário após sua morte e atirado todo o seu maquinário de um penhasco no Rio São Francisco.

“Todos os biógrafos compraram essas ideias ventiladas logo após o assassinato e ficaram repetindo isso. Ignoraram inclusive a revisão penal que inocentou antigos culpados. Na verdade, essas falsas versões foram difundidas pelos verdadeiros culpados para desviar o foco”, explica Teixeira, em entrevista por telefone ao Jornal do Commercio. O pesquisador começou a se debruçar sobre o crime sem resposta em 2008, quando realizava um documentário sobre a Usina Hidrelétrica de Angiquinho, na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso, na Bahia, inaugurada por Delmiro em 1913 e que servia para fornecer energia elétrica à fábrica de linha do industrial e à vila erguida por ele na Pedra (AL), município hoje denominado Delmiro Gouveia, em homenagem ao cearense. O trabalho fora encomendado pela Fundação Delmiro Gouveia, que administra o sítio histórico. Ao cascavilhar o acervo histórico sobre o personagem, Gilmar Teixeira encontrou informações até então ignoradas pela historiografia de Delmiro. Fotos, vídeos, cartas, inquéritos, livros, documentos, pertences e reportagens antigas de quatro revistas e 14 jornais, incluindo o Jornal do Commercio, com cerca de 30 matérias sobre o assunto. A pesquisa resultou no livro Quem matou Delmiro Gouveia?, Obra que leva o leitor de volta à cena do crime e ao jogo de interesses que levou à morte do pioneiro nordestino. Em 153 páginas, o autor garante ter descascado uma dúvida secular.

 Lionello Iona, teria sido o principal mentor da trama?

O mentor do homicídio seria o italiano Lionello Iona, sócio e administrador das empresas de Delmiro. Pouco antes de sua morte, o cearense fez um testamento que colocava Iona como tutor da herança de seus três filhos, até que eles completassem a maioridade. O europeu, que teria redigido o documento, estava enfurecido com a recusa de Delmiro à proposta de compra da fábrica de linhas feita pela Machine Cotton e estaria cansado das humilhações impostas pelo sócio. “Delmiro era um homem à frente do seu tempo, muito inteligente, mas não lia um documento. A família dele fez um escândalo na época, pois não aceitava que Iona ficasse como tutor. Noé, o filho mais velho de Delmiro, só conseguiu retomar o dinheiro aos 21 anos. Iona, então, voltou para a Itália rico. Foi tanto recurso desviado que o contador do italiano abriu um banco logo depois”, diz o historiador.
 
A gana pela vantagem financeira, segundo ele, colocou o sócio como autor intelectual de um complô que envolveu cerca de dez pessoas, entre personagens influentes e cangaceiros. Teixeira cita como partícipe a influente família Torres, liderada pela baronesa Joana Vieira Sandes de Siqueira Torres, que se via ameaçada pelo poder econômico e crescente influência política de Delmiro. “Inclusive o juiz do caso era membro desta família e facilitou para que Róseo e Jacaré levassem a culpa em vez dos verdadeiros responsáveis”, afirma. O político José Gomes de Sá teria entrado na trama pelo fato de o empresário apoiar seu maior inimigo, o coronel Aureliano Lero, que ganharia a eleição para prefeito de Jatobá de Tacaratu, atual Petrolândia. “Além disso, Zé Gomes trabalhava como fiscal de renda e foi delatado por Delmiro às autoridades por receber suborno”, observa Teixeira. Outro cúmplice seria o coronel José Rodrigues, de Piranhas (AL), latifundiário que se sentia desconfortável com a presença de Delmiro, o qual atuava também na pecuária e vendia produtos agrícolas a preços mais baixos que os convencionais.

Até Firmino Pereira, compadre de longa data de Delmiro Gouveia, é listado pelo biógrafo Gilmar Teixeira como um dos envolvidos no crime. A filha de capitão Firmino, como era conhecido na região, estaria difamada após ser seduzida por Delmiro em uma viagem ao Recife? Seu genro lhe dizia que só se casaria com a moça se o industrial fosse morto, e assim fez. De acordo com a versão do pesquisador, é Firmino, cunhado de Zé Gomes, quem contrata os cangaceiros que matarão seu amigo: Luís Padre e Sinhô Pereira, que foi o precursor de Lampião no cangaço.

 Sinhô Pereira e o primo Luis Padre em foto tirada em Pedra de Delmiro em 1917

Dois outros homens teriam dado cobertura à dupla no dia do homicídio a mando de capitão Firmino. Seriam eles o fazendeiro Herculano Soares, que havia jurado vingança depois de apanhar do empresário no meio da rua, e seu cunhado Luiz dos Anjos. “Juntei as peças do quebra-cabeça. Delmiro tinha muitos inimigos. O sucesso dele incomodava muita gente. Havia um barril de pólvora pronto para explodir. Lionello Iona, seu sócio, só atiçou as outras pessoas. Foi ele quem arquitetou o plano. Existiam muitos interesses em jogo. Fizeram reuniões para definir como tudo seria”, explana o historiador.

Na noite de 10 de outubro de 1917, Delmiro Gouveia fez o que costumava fazer. Sentou-se no alpendre de seu chalé em Água Branca (AL) para ler jornal. Foi acertado por dois tiros: um no braço e o outro certeiro, no peito, varando o coração. Um terceiro disparo deixou na parede a marca da violência. Róseo e Jacaré haviam sido mandados pelos próprios mandantes do assassinato para Sergipe, sob a alegação de que fariam um serviço para o coronel Neco de Propriá. Ao chegar lá, o trabalho foi suspenso. Quando voltaram, ambos foram acusados do crime.

Entre as mais de cem fotos pesquisadas por Teixeira, está uma de Luís Padre e Sinhô Pereira, tirada em 1917, na Vila da Pedra. “O que eles estavam fazendo lá?”, indaga. Numa entrevista em 1951, detalhada no livro, Róseo revelou a história de que foi chamado à mansão da família Torres poucos dias antes da morte de Delmiro e lá viu dois homens, chamados “Luís Pedro e Sebastião Pereira”, recebendo ordens. “Basta ligar os fatos para chegar aos nomes de Luís Padre e Sinhô Pereira como os executores de Delmiro”, assinala Teixeira, que diz não ser dono da verdade. Frisa que seu livro é, antes de tudo, uma interrogação a mais. Talvez um ponto final.

Wagner SarmentoEdição de Segunda-Feira 17 de Outubro de 2011
Jornal do Commercio

Também postado em www.lampiaoaceso.blogspot.com


Contato: gilmar.ts@hotmail.com ou graf.tec@yahoo.com.br Valor: R$ 30,00 + R$ 5,00 de Frete

NOTA RECEBIDA DO AUTOR: Amigo Severo, saiu matéria comigo no Jornal do Comércio, Recife, falando do nosso livro, inclusive dedicando duas páginas ao assunto, por isso Severo, quero agradecer de coração o apoio a mim dado por você em relação ao nosso livro, sem o Cariri Cangaço nada disso seria possível, pois foi aí, instigado por vocês e com espaço aberto no evento, que o livro fluiu. Ficam meus agradecimentos e estarei sempre a disposição para novas empreitadas, abraços do amigo Gilmar.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A história daqui tem que ser contada e compreendida por todo povo brasileiro

 Por:Gilmar Teixeira

Gilmar Teixeira

Após uma viagem de mais de 800 kms, saindo de Feira de Santana e cruzando os sertões de quatros estados nordestinos, chegamos a Crato, capital do cariri, berço da história do
 
 
Padre Cicero Romão, onde ficaríamos hospedados para mais uma jornada espetacular que é o Cariri Cangaço 2011, evento esse já considerado a Meca dos estudiosos e pesquisadores dos grandes temas da cultura nordestina, beatos, coronéis e cangaceiros, agora era só esperar o evento começar... e que começo.
Uma belíssima abertura, homenageando o curador do evento,
 
 
Manoel Severo, como mais novo cidadão Cratense, homenagem mais que justa a esse homem que tem levado o nome do Crato e de todo cariri cearense, aos mais diversos estados brasileiros e até estrangeiro, a saber que aqui tem história e que a história daqui tem que ser contada e compreendida por todo povo brasileiro, afinal esse quinhão chamado sertão, também é Brasil.
Não há nada mais lindo e emocionante que as recepções, proporcionadas a nós pesquisadores, que as cidades que fazem parte do caricangaço, como Barbalha, Aurora, Barro, Missão Velha, Porteiras e as antriões Juazeiro e Crato. Sempre nos brindando com aquele jeito bondoso e alegre que é o povo do sertão nordestino, eu que sou nascido nesse chão sagrado que  são os sertões, em cada apresentação e visita, sou remetido ao passado, banda de pifanos, romeiros, penitentes, fazendas, a gente boa que nos recebe, é aqui onde minhas origens são afloradas e as doces lembranças de uma infância e adolescência são confrontadas com o que vemos em outras paragens e chego a conclusão, é tudo igual, é tudo sertão, é a mesma história e a mesma gente, é tudo Brasil.
Por isso amigos, digo, família cariri cangaço, o evento não terminou, pois continua aqui nesse site ou blog, pois ele é o nosso elo de ligação e comunicação e do qual sou membro efetivo e afetivo, pois é através dele que eu falo, escuto e aperto as mãos de cada um de vocês, amigos e irmãos dessa confraria do saber e alegria, estou contando os dias para estarmos juntos em 2012, mais antes quero a presença de todos aqui em Feira de Santana, no evento: "Feira, Beatos, Coronéis e Cangaceiros 2012", em março de 2012, antes que digam, é cópia do Cariri Cangaço, eu respondo é cópia sim senhor, pois tudo que vier após a criação desse evento e do modo como é feito, é cópia, mas faremos aprimorando o que é feito aí e com os mesmos princípios que norteiam este belo evento, organização, honestidade nos temas apresentados, grandes palestrantes e acima de tudo a alegria em receber cada um de vocês, assim como somos recebidos no cariri cangaço. Fica meu abraço fraterno e da minha família, Claúdia e Louise a cada um de vocês, axé a todos e um até breve.

Gilmar Teixeira
pesquisador e escritor
Feira de Santana - Bahia