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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Aristéia, fonte de vida e experiência

Por: Wescley Rodrigues
João de Sousa, Lili, Wescley e Aristéia

Fiquei surpreso quando, na tarde do dia 28 de janeiro, abri o email enviado pelo amigo e pesquisador João de Sousa Lima, comunicando o falecimento da ex-cangaceira Aristéia. Logo me veio a memória o início do mês de junho de 2011, quando tive a oportunidade de conhecer aquela mulher de uma grandeza e força inquestionável, e a fragilidade de uma menina no auge dos seus 98 anos. Essa é uma boa lembrança que Fortaleza me deixou como marca indelével.

Não sei ao certo distinguir os sentimentos que se misturavam e imbricavam naquele momento, apesar da experiência enquanto historiador, as teorias a respeito das fontes e documentos, eu via naquela mulher mais do que uma ex-cangaceira, mais do que uma fonte para compreender o fascinante e complexo mundo do cangaço.

Como nos lembra o filósofo Walter Benjamin, aquela era uma fonte de experiência, um livro que nunca será escrito devido a sua complexidade, um livro que nunca será lido e compreendido no seu todo devido a sua profundidade. Temos que nos contentar, enquanto historiadores, curiosos, pesquisadores e estudiosos do cangaço, com os pequenos vestígios que vão sendo deixados, haja vista a vida humana ser muito mais do que podemos entendê-la e condensá-la em palavras.


As experiências vivenciadas por Aristéia naquele meio áspero do cangaço, que ela fazia questão, inúmeras vezes, de salientar que aquela era uma “vida de cão”, sofrimento, que não guardava nenhuma saudade daqueles tempos idos, infelizmente morreu junto com ela. Mais uma fonte de história e vida se esgotou, resta-nos satisfazer-nos com os seus depoimentos, em linguagem simples, por vezes tímida, pragmática, mas com uma riqueza inquestionável. Alguns pesquisadores questionam a importância daquela mulher para o cangaço, haja vista não ter tido uma participação efetiva no meio do bando e ter passado pouco tempo no conviveu dos cangaceiros, relegando-a a um patamar inferior. No entanto, sempre questionei essa visão, pois, como nos é ensinado nos bancos acadêmicos, não podemos hierarquizar fontes, fontes são fontes, cada uma com suas peculiaridades, limitações e riquezas.

O grande valor daquela mulher foi, sem sombra de dúvidas, a sua experiência. Talvez muitos pesquisadores não davam-lhe grande crédito porque ela não dizia o que nós queríamos escutar, ela não fazia apologia ao cangaço, revestindo-o com as vestes do heroísmo, mas não cansava de afirmar a miséria daquela vida, o quanto aquilo era ruim, depoimento que acaba convergindo para o que afirmavam as ex-cangaceiras Sila e Adília.
Durante as mais de duas horas que passei conversando com dona Aristéia no quarto daquele hotel, entre risos, lágrimas, raiva e dor, pude beber daquela fonte, deleitar-me com tanta sabedoria advinda daquela mulher já marcada pelo tempo, com o corpo frágil e as rugas que dava-nos a dimensão do tempo vivido por ela e da credibilidade de suas palavras.

Lembrava com saudade das comidas do cangaço, talvez única lembrança boa guardada na sua memória referente ao tempo de bandoleira, de como os cangaceiros cozinhavam bem. Revirando os escombros da sua memória trazia a tona o cheiro dos perfumes usados sob aquele sol escaldante das caatingas sertanejas. Parecia está novamente tendo em mãos aqueles frascos com odores de um passado remoto. Eis a riqueza da memória, primeira guardiã da história, primeira forma de história, sem rigidez de método, técnica, rigor acadêmico, mas sim seguindo as suas próprias nuanças, as do tempo vivido, das experiências. Resta-nos apenas a lembrança daquela mulher e a alegria de um dia ter os nossos caminhos se cruzado. Que o repouso eterno possa trazer-te a paz que tanto almejavas, sem dores, sofrimento e perseguição. Fica a saudade!

Prof. Ms. Wescley Rodrigues 
Sousa -PB

Extraído do Cariri Cangaço


domingo, 29 de janeiro de 2012

Mais uma fonte que seca

Adeus Aristéia!

Morreu ontem, dia 28 de janeiro de 2012, às 13:00hs, no hospital Nair Alves de Sousa em Paulo Afonso, a ex cangaceira Aristéia Soares de Lima, 98 anos. Ela estava internada desde a segunda feira, 23. 

Aristéia foi sepultada na sua terra natal povoado Capiá da Igrejinha, município de Canapi, Alagoas, nesse domingo, 29. A má notícia nos foi repassada por João de Sousa Lima.



Clique aqui aqui  e reveja outras matérias, conheça a história de Aristéia.

Nossos votos de pesar e solidariedade à família especialmente ao seu filho, nosso amigo Pedro Soares.

Extraído do blog: "Lampião Aceso"
http://lampiaoaceso.blogspot.com

terça-feira, 19 de julho de 2011

Do Cangaço ao seringal.


Ex-aliado de Lampião diz que Maria Bonita tinha ciúme e fazia intriga

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinRcl_GEzFagLR5dWU4WC2E8lDUspqwO6UA8z9V_Uz5RzyRUvzj0vzX-C9EjLUJVwGAkjMcWTNEylA6xZRu-x9mpeVn_8FK6Gt2mVlIiBHiQJIu5c6YkOaDleNBAY5eMLsvD9fRZa4t48P/s1600/20_20108.jpg
Maria Bonita e Lampião
Foto do arquivo: "João de Sousa Lima"
          
            Um dos homens de Lampião que escaparam do cerco de Angicos foi Manoel Dantas Loiola, o Candeeiro. Aos 94 anos, ele vive em Buíque, sertão pernambucano. Vestindo camisa comprida, conta sua história, sentado num sofá da sala de uma casa simples. Reclama de Maria Bonita. “Ela não gostava da minha aproximação de Lampião”, relata. “Só vivia fazendo intriga. Mas o chefe confiava em mim.”


Seu "Nezim". Foto NE10 UOL

         Após o cangaço, Candeeiro foi para a Amazônia trabalhar em seringais e só voltou mais tarde para o sertão. “Nunca esqueci aquele dia em Angicos. Passei muito tempo sem contar essa história”, diz. “Lampião foi alerta do que a volante estava na região, mas não deu importância.” 
          A fuga de Candeeiro do acampamento de Angicos foi uma das maiores proezas da região. Faz calor no sertão.
              Um dos filhos do ex-cangaceiro diz, baixo, que o pai jamais tira a camisa comprida. Ela esconde a marca de bala de Angicos no braço esquerdo.
Adendo



              Aristéia e Candeeiro ainda são viventes. 

http://www.interjornal.com.br/fotos/imgnot_11169466_1_norm.gif
            
              O Sargento Antonio Vieira faleceu dia 20 de dezembro de 2010, um dia após a publicação desta matéria no Estadão.



Blog: "Lampião Aceso"

sábado, 16 de julho de 2011

Guerra contra Lampião

Especial ● Guerras desconhecidas do Brasil
Repórteres Leonencio Nossa e Celso Júnior
JORNAL O ESTADO DE S. PAULO
19 de Dezembro de 2010.

           Os nomes de Lampião, Maria Bonita e Corisco estão nas placas dos cybercafés, pizzarias e serviços de moto táxi abertos no atual momento de euforia no comércio popular do Nordeste. 

          Setenta anos depois de erguerem bacamartes e punhais, os sobreviventes do Cangaço, no limite do esgotamento físico, travam agora, juntamente com pesquisadores e artistas conhecidos ou desconhecidos, uma luta para manter na história as marcas da barbárie. É na luta para se manter em pé que os cangaceiros e mesmo seus algozes se assemelham a outros mortais.
          Em uma casa coberta de telha, em Delmiro Gouveia, sertão alagoano, vive a agricultora Aristéia Soares de Lima. Com vestido longo roxo, usado sempre durante as visitas, a mulher miúda e esforça para conversar. Ela se recupera de um problema nas articulações, que a levou ficar internada por uma semana.
            A ex-cangaceira busca uma posição na cama em que consiga conversar sem sofrer. Numa trégua do corpo, começa a falar da prisão, em Delmiro Gouveia. Foi pouco antes da volante (tropa) do tenente João Bezerra chegar à cidade carregando a cabeça de Lampião, morto no massacre de Angicos, em 1938. Conta que a qualquer movimento na rua tentava enxergar o que passava do lado de fora por uma pequena abertura na parede. Mas, naquele dia, preferiu ficar agachada na cela, em silêncio.

            “Eu não quis ver”, diz Aristéia, com dificuldades. Só viu, depois, a euforia dos “macacos” – como eram chamados as volantes – e a surpresa dos moradores com o feito do tenente João Bezerra. Aristéia intercala uma frase com um movimento de mãos ou de rosto expressando dor. Ela demonstra vontade de falar sobre o Cangaço. Sobreviveu porque se entregou à polícia. Foi logo depois do fuzilamento do marido, Catingueira.

             Antes de morrer, ele pediu a Moreno, chefe do grupo, que tirasse a mulher do Cangaço. Pelas leis dos bandos liderados por Lampião, mulher não podia sair ou ficar solteira. Era morta para não contar à polícia detalhes das estratégias do grupo. Moreno cumpriu a promessa e levou Aristéia para a cidade, onde ela procurou a polícia. Quando estava presa, soube da decapitação da irmã, Eleonora, também cangaceira. “Só arrancavam a cabeça para provar que mataram cangaceiro e ganhar comenda”, diz Aristéia.

            O filho e a nora de Aristéia, Pedro Soares e Damaris, exibem orgulhosos um brinco que ela recebeu de Cruzeiro, um temido cangaceiro. Aristéia não aceitou ficar com Cruzeiro, mesmo depois da morte de Catingueira. Ela lembra do dia em que o marido morreu. “Corremos quando começou o tiroteio. Na hora, a gente estava lavando os panos dos meninos. Saímos baleados”, diz. “Enterraram Catingueira na caatinga.” Ela estava grávida de oito meses. O filho, José, morreu tempos depois, em 1964, num assalto.

             Temor. Um dia, conta, ouviu um policial dizer que nunca teve medo de Lampião.“Não tinha medo. Só corria à légua”, ironiza.

             Aristéia discorda que Maria Bonita tenha sido a mulher mais bonita do cangaço. “A mulher mais bonita era a Durvinha”, diz – e fecha e abre os olhos como se tivesse sentido uma fisgada. Dos homens, ela afirma que Virgínio, cunhado de Lampião,“ ganhava a parada”. “Ele era provado mesmo”, conta. Ela assegura que a “peste” da polícia matou o cangaceiro Português já detido. O Português tinha se rendido em Mata Grande. “Foi só chegar e descer do carro para ser morto”, lembra.“Como ele matou o pai de um soldado, o soldado matou Português.”
               Em suas lembranças, ela reclama que “a cangaceira Quitéria era o capeta” e fazia intriga contra Cristina, mulher de Português. “Dizem eles que Cristina ‘sartava’ a cerca com Jitirana. Dizem eles, eu não vi. Só pode ter sido a Quitéria quem falou. Quitéria era danada por Português. O marido de Quitéria era Pedra Roxa. Pedra Roxa vivia doente, se entregou e pronto. Em pouco tempo também morreu.”

              Após a prisão, Aristéia teve mais sete filhos. A carteira de trabalho, expedida em 1972, nunca recebeu um carimbo. Teve problemas até mesmo para se alistar nos mutirões formados nas secas por causa da artrite. O problema tem impedido Aristéia de assistir ao Jornal Nacional e às missas, seus programas preferidos na TV.

               Sentada na cama, busca uma posição em que possa sentir menos dor. Põe as duas mãos no rosto. Depois, leva a mão direita para baixo do braço esquerdo. Quase não há mais carne para conter o atrito dos ossos. Puxa algo da memória para desmentir alguma afirmação do filho Pedro. “Ôxe!” Solta uma piada, faz uma brincadeira. Não tem mais movimento nas faces para rir das histórias dos cangaceiros que “sartavam a cerca”, dos casos de amor e traição. “Frouxos”, diz, com voz firme, referindo- se aos policiais.

            Do outro lado do município mora Antônio Vieira, 97 anos, sargento da reserva da Polícia Militar de Alagoas. A farda está impecável, como se tivesse de ser usada a qualquer hora. Na roupa está o registro do tipo sanguíneo: A+. Antes de começar a entrevista, Vieira demonstra incômodo, como se sentisse falta de algo. A filha Edileuza vai até o quarto do pai e volta com um revólver 38.
               Ela explica que o pai só dorme e conversa com a arma ao lado. Agora, sim, com a arma na mão, ele fala do combate do extermínio de Lampião, em 28 de julho de1938. Segurando firme a arma, Vieira olha compenetrado para a câmera. Parece mirar um inimigo que agora não passa de uma criatura apenas de sua memória. “Lampião recebeu um tiro no peito e caiu. Maria Bonita caiu pertinho dele”, conta.“Não posso dizer que matei Lampião. Ninguém pode dize. Não dava para saber, era muita gente atirando.”
 

Do Cangaço ao seringal.
        Ex-aliado de Lampião diz que Maria Bonita tinha ciúme e fazia intriga
             Um dos homens de Lampião que escaparam do cerco de Angicos foi Manoel Dantas Loiola, o Candeeiro. Aos 94 anos, ele vive em Buíque, sertão pernambucano. Vestindo camisa comprida, conta sua história, sentado num sofá da sala de uma casa simples. Reclama de Maria Bonita. “Ela não gostava da minha aproximação de Lampião”, relata. “Só vivia fazendo intriga. Mas o chefe confiava em mim.”
             Após o cangaço, Candeeiro foi para a Amazônia trabalhar em seringais e só voltou mais tarde para o sertão. “Nunca esqueci aquele dia em Angicos. Passei muito tempo sem contar essa história”, diz. “Lampião foi alerta do que a volante estava na região, mas não deu importância.” A fuga de Candeeiro do acampamento de Angicos foi uma das maiores proezas da região. Faz calor no sertão.
             Um dos filhos do ex-cangaceiro diz, baixo, que o pai jamais tira a camisa comprida. Ela esconde a marca de bala de Angicos no braço esquerdo.

             *As fotos 2, 3 e 6 não fazem parte da matéria original.
             Adendo 
             Aristéia e Candeeiro ainda são viventes. O Sargento Antonio Vieira faleceu dia 20 de dezembro de 2010 um dia após a publicação desta matéria no Estadão.

Extraído do blog: "Lampião Aceso" 
 

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Aristéia nas ondas do Rádio


           Após três dias de estrelado e assédio no 21º. Cine Ceará a ex cangaceira Aristéia volta para casa.
            Mas Aracaju estava no caminho e acompanhada pelo nosso primo João de Sousa, seu filho e nora desceram do avião para montar na "Jabiraca encarnada do João".

Aristéia e João de Sousa Lima

              Fui recepcionar a comitiva pois antes de tomarem o rumo de Delmiro Golveia, AL. tínhamos um plano de rota que já vinha se estendendo por mais de três meses - parece que agora ia... mas ainda não foi desta vez... Alguém gritou - Valha-me que o capitão Herculano tá aqui nesse voo!, o boeing foi parado por uma blitz em pleno ar, todo mundo teve que descer para revista, alívio, não era o cangaceiro de Brogodó era só o sósia dele "João das Menina" e enfim toda  essa confusão atrasou a chegada e a nossa partida.

 Domingos Montagner e João de Sousa "peste pá paricerem"
              
             Bom, mesmo assim me juntei a caravana e para que uma das duas últimas cangaceiras viventes não cruzasse as avenidas da capital Sergipana despercebida, contactei nosso amigo e pesquisador Clenaldo Santos para agendarmos em cima da hora uma entrevista no seu programa Linha sertaneja transmitido pela Rádio Aperipê AM uma emissora estatal de alcance em todo Estado e além fronteiras.
            Se a participação de nossa musa Neli já foi estouro de audiência que dirá uma ex cangaceira.

Nely, a esquerda - filha de Moreno e Durvalina

            E não deu outra, portas abertas e tapete vermelho para Aristéia e João de Sousa além da participação especial do nosso confrade Dr Arquimedes Marques Delegado de polícia e manternedor do sitio O cangaço em foco.


que foi intimado a comparecer aos estúdios para conhecer pessoalmente a personagem e para nos conhecermos pessoalmente.


 Rodiado pela dupla de comunicadores João que já foi aracajuano cumprimenta os sergipanos e faz um breve relato de suas andanças e publicações. Não, o rapaz a esquerda não é o "Seu Madruga"
é o radialista Tuca.

           Dr Arquimedes Marques e sua esposa Sra Elane Marques.
           
            Aristeia que por razões de cansaço  bateu o pé na porta de emissora - Eu quero é ir simbora, quase destruiu as esperanças dos locutores.
             Mas foi convencida pelo filho Pedro e em poucos minutos lá estava ela, desfilando pelos corredores e atraindo a curiosidade dos funcionários.
             O bate papo durou uma hora e meia. E pra quem não era muito de falar... Aristéia surpreendeu a própria família, riu dos elogios feitos pelo radialista Tuca, fez rir, e resumiu sua participação de 6 meses no subgrupo de Virgínio.


 Dr Arquimedes teve chancela para falar de suas pesquisas e
impressões sobre o  movimento e pretensões de butá no papel.

Aristéia concedeu entrevista para Malu, jornalista responsável
pelo site da Aperipê.

 A foto oficial.


Para saber sobre Aristéia CLIQUE AQUI e conheça um
blog que leva o seu nome. 

Extraído do blog: "Lampião Aceso"