Por: Rostand Medeiros
Rostand Medeiros e Drª. Francisquinha
Quando uma conceituada perfumaria carioca
ofereceu muito dinheiro pelo fim do "Rei do Cangaço"
Um
oferecimento para corajosos
Quem lê e se debruça sobre o tema cangaço, certamente já teve oportunidade de
visualizar um famoso anúncio onde o governo do estado da Bahia oferecia 50
contos de réis pela captura de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também
conhecido como “O Rei do Cangaço”.
Mas aquele anúncio de captura não foi o único. Em 1932 houve outro, que
oferecia o mesmo valor, cuja iniciativa partiu de uma perfumaria que tinha sede
na carioquíssima Praça Tiradentes, em pleno centro do Rio de Janeiro, então
Capital Federal.
Muito
dinheiro.
Creio que quem primeiro comentou sobre este interessante fato foi o pesquisador
e escritor baiano Oleone Coelho Fontes, no seu livro “Lampião na Bahia”. Nas
páginas 198 a 207 (4ª edição) desta interessante obra, o autor lista inúmeros
casos de pessoas, alguns destes antigos militares, que através de jornais
cariocas informavam que estavam a disposição de seguirem para o longínquo
sertão, na intenção de capturar, ou matar, o mais temido bandido brasileiro.
Percebemos que estas pessoas procuravam muito mais a promoção midiática, do que
tentar realmente resolver o caso Lampião.
Entre outras iniciativas de captura apontadas por Oleone, se encontrava uma
feita por uma empresa, a Perfumaria Lopes. Esta conceituada casa comercial,
inaugurada no início da década de 1920, informava através de um anúncio
publicado na imprensa carioca (reproduzido no jornal soteropolitano “A Tarde”,
edição de 12 de junho de 1931), que oferecia 50 contos de réis pela captura do
famoso cangaceiro.
A empresa anunciava que o prêmio poderia ser conquistado por qualquer pessoa,
civil ou militar, desde que provasse ter alcançado seu êxito através da
apresentação de documentação autenticada por autoridade competente (Ver Fontes,
O. C. Pág. 207, nota nº 272).

O jornal em
que a nota foi publicada em Natal, RN.
Aparentemente a Perfumaria Lopes gostou da iniciativa, pois no ano seguinte, na
mesma época, renovava a publicação do anúncio de 50 contos pela captura do “Rei
do Cangaço”. Consegui encontrar este anúncio na edição de 13 de junho de 1932,
do jornal natalense “A Republica”.
Mas enfim, isso era a sério? Ou seria apenas uma ação de marketing?
No meu entendimento, toda esta movimentação era puramente uma ação de
propaganda. Não sei o que o operoso proprietário da empresa pensava sobre
Lampião e suas ações, mas morando no distante Rio de Janeiro, certamente ele
deve ter percebido que dificilmente alguém da sua região ganharia a premiação.
Mas se aparecesse um cidadão queimado do sol nordestino, trazendo a cabeça de
Lampião em uma lata de querosene da marca “Jacaré”, em meio a uma grande
quantidade de cal virgem para não apodrecer tão rápido, certamente o
proprietário desta conceituada casa lhe pagaria, pois dinheiro não lhe faltava.
Fonte - Revista
Careta, número 935, 22 de maio de 1926.
A perfumaria Lopes pertencia ao Comendador José Gomes Lopes, que também era
proprietário da Fábrica de Cosméticos Beija-Flor, era um imigrante português
que enriqueceu no Rio de Janeiro. A sede principal da Perfumaria Lopes S. A. se
situava na Praça Tiradentes, em um grande ponto comercial que ia do número 34
ao 38 e ainda possuía uma filial na Rua Uruguaiana, igualmente no Rio de
Janeiro.
Mas havia sucursais por todo o Brasil e seu produtos tinham refino e qualidade.
Nas memórias de José Bento Faria Ferraz, que foi secretário particular do
escritor Mário de Andrade por 11 anos, lembra que um dos mais importantes
intelectuais da cultura brasileira era um homem “muito refinado”, mas tinha
sérios apertos financeiros. “Apesar de sua pobreza”, como dizia José Bento, o
escritor sempre solicitava que o colaborador fosse a Perfumaria Lopes, situada
à Rua José Bonifácio, para comprar uma loção “para passar na careca”.
O Comendador Lopes tinha uma visão muito positiva em relação à propaganda.
Vamos encontrar a sua casa comercial como o primeiro anunciante da famosa Rádio
Nacional, transmitidas em ondas médias, enquanto o tradicional “Leite de
Colônia” patrocinava em ondas curtas. A perfumaria foi também um dos
patrocinadores do igualmente famoso “Repórter Esso”.

Fonte -
paniscumovum.blogspot.com
Não encontrei mais nenhuma informação sobre esta iniciativa e o destino dos 50
contos de réis. Não tenho certeza, mas tudo indica que o sargento Bezerra, o
homem que comandou os policiais que exterminaram Lampião em 1938, não foi ao
Rio solicitar o prêmio.
Mas a simples existência deste tipo de anúncio em jornais de grande circulação
da Capital Federal mostra o quanto a figura de Lampião era conhecido
nacionalmente. Mas foi também esta fama, principalmente após a divulgação do
famoso filme do libanês Benjamim Abrahão, que indubitavelmente chamou a atenção
das autoridades federais do período do Estado Novo.
Os poderosos do Rio passaram a cobrar uma ação mais efetiva das autoridades
estaduais nordestinas e para concretizar a derrocada deste cangaceiro. E assim
foi feito.
O já conhecido
anúncio de recompensa por Lampião, pretensamente
oferecido pelo governo baiano. In
www.anovademocracia.com.br
Em Natal, a Perfumaria Lopes era representada pela firma César Comércio e
Representações Ltda. Empresa criada pelo empresário Júlio César de Andrade em
07 de Março de 1932, com sede na travessa México, 85, no tradicional bairro da
Ribeira.
Pescado no sempre essencial "Tok
de História"
http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/